16/05/2012

A Passagem (Parte I - As eternas dúvidas)


A PASSAGEM (Parte I -  As eternas dúvidas)

  Haverá liberdade ilimitada da mente,
De modo que esta funcione livremente por si?
A mente e a consciência
Existirão independentes do cérebro e do corpo físico?
Podemos mesmo existir como entidade separada do corpo?
E, fora dele, haverá uma energia realmente?
Por que Platão e Sócrates, sabiamente,
Recorreram à dialética para convencer que a alma é imortal
E passado tanto tempo a questão se eterniza?
Se se acha que tudo acaba aqui, de modo banal…
Por que muitos se sentem abandonados à sorte
E o medo da morte atormenta e se agudiza?
Será uma mera atividade imaginativa presente
O conhecimento da realidade por quem está em coma,
Com perceção visual, inteligente ou auditiva,
Incluindo (ou não) uma caminhada a outra dimensão?
É um mero assunto para a antropologia do imaginário?
Por que tem a morte, e os enigmas associados, tal véu?
Por que tantos se recusam a admitir o “outro lado da vida”
E por que tanto artista plástico recriou A Ascensão ao Céu?

                                                                                          (Continua)

Bragança, 16 de maio de 2012
Jorge Nuno

Recomenda-se a leitura da História dos Habitantes da Caverna de Platão,
em O Mundo de Sofia, por Jostein Gaarder

A Passagem (Parte II - A vivência do poeta)


A PASSAGEM (Parte II - A vivência do poeta)

Têm sido muitos os médicos, filósofos, cientistas,
Poetas, criminologistas e outros atores,
Com maior ou menor sensibilidade,
A abordar a questão da morte e seus temores.
Havia uma verdade oculta, que com acuidade,
Aos olhos do poeta se tornou clara.
Bastou a experiência gratificante de um mergulho...
A submersão forçada, tornando-o impotente,
Um náufrago aprisionado!
Quando era suposto haver, de forma estridente,
Um esbracejar, a luta pela sobrevivência,
Um turbilhão de emoções destrutivas, paralisantes,
Face à ameaça da morte, surgiu o inesperado:
Em ambiente de grande paz, saído do corpo,
Surgiram memórias visionadas e percetíveis,
O filme condensado de uma vida, revisitando o passado.
Sem sentimentos de culpa, acusações ou juízos de valor,
Sem pranto, angústia, medo ou dor
Sem sufoco e, espante-se, sem espanto…
Rendeu-se finalmente ao encanto,
A lembrar marinheiros naufragados
A seguir o canto da sereia, que os chama perdidamente.
Houve uma postura de contemplação e aceitação,
De seguir o instinto natural, sem hesitação.
Sem preocupações em reagir ou compreender a mente,
Este acontecimento encarnou a iluminação.
A uma velocidade alucinante,
Em túnel inimaginável, sem saber onde conduz,
Deu-se a aproximação a uma intensa e acolhedora luz.
Eis que parece ter sido disparado poder de cima!...
Foi como se Jesus dissesse ao paralítico:
Levanta-te, toma o teu catre e vai para casa.
Só que a casa, tanto podia ser na Terra ou noutro lado. 
E este poeta, com honestidade intelectual,
Talvez contrariado, mas sabendo que foi ajudado,
Regressou à sua vida normal, ao seu estado atual.
Testemunha ocular nesta inesperada viagem,
E de retorno neste percurso elítico,
O poeta descobriu que há uma passagem!
                                                                                          (Continua)

Bragança, 16 de maio de 2012
Jorge Nuno

“Uma vez que não consegui ir ter com a Morte,
Ela gentilmente parou para me apanhar.
Na carruagem só íamos nós
E a imortalidade.”
                                             Emily Dickinson

A Passagem (Parte III - Finalmente...)


A PASSAGEM (Parte III -  Finalmente…)

A imagem da passagem traz importância à vida.
Faz-nos procurar processos
Visando aumentar a busca da verdade,
Obter contributos para aperfeiçoar a existência.
Na nossa vida há muitos “mergulhos”,
Uns mais percetíveis e evidentes que outros,
Que nos podem dar a noção para onde vamos.
O nosso futuro pode mudar,
Conforme a força com que nos movimentamos,
Vivemos e encaramos o presente.
Libertemo-nos, definitivamente, dos medos…
E principalmente do medo da morte,
Ideia que neste poeta já não subsiste.
A libertação, tranquilizadora
Deu-se com o conhecimento da verdade.
Porque a morte é uma passagem,
Porque a morte, em si, não existe!
                                                             (Porque a vida continua)

Bragança, 16 de maio de 2012
                   Jorge Nuno

“Se a sua mente estiver fechada, será muito difícil aprender algo de novo. As mentes fechadas rejeitam tudo o que seja diferente, tudo o que entre em conflito com as suas velhas convicções, convicções que inclusive podem ser falsas. Muitas vezes as pessoas esquecem que a experiência é mais forte do que a crença. A força que mantém a mente fechada é o medo”.
                                             Brian L. Weiss

12/05/2012

Muitas Vidas


MUITAS VIDAS

Noutra vida…
Privado da liberdade vivi.
Por levar longe demais a minha voz:
Encarcerado, padeci,
Por delito de opinião;
Pobre de aspeto, sofri,
Consciente da minha razão;
Rico em ideais e livre de grilhetas, parti,
Livre, para outra vida
Junto de egrégios avós.

Nesta vida…
Depressa vi que sem liberdade nasci.
Soube de resistentes privados de liberdade,
Vivi as difíceis lutas estudantis, sem liberdade,
Vivi as ousadas lutas militares, pela liberdade,
Vivi as constantes lutas diárias,
Pela sobrevivência, finalmente em liberdade.
Hoje, com fortes retrocessos no processo…
E quando devia ser o descanso do guerreiro,
Tento levar longe a minha voz,
Sinto necessidade de uma luta incessante
Ao ver o meu tempo esgotar.

Numa próxima vida…
Sei que voltarei.
Voltarei para resgatar
O muito que ficou por fazer.
Voltarei para resgatar
O muito que ficou por lutar!

Almada, 12 de maio de 2012
              Jorge Nuno

09/05/2012

Oração a Todos os Santos


ORAÇÃO A TODOS OS SANTOS

Nesta hora de angústia e sofrimento, invoco e peço a proteção divina para o coletivo e cada um dos portugueses:
- Santa Mónica, Santa Ana e Virgem Maria, protejam as mães aflitas que não têm que dar de comer aos filhos e dêem-lhes força e coragem para encontrar soluções;
- São Nicolau e Menino Jesus, amparem as crianças inocentes, vítimas da ganância e da estupidez humana;
- São Judas Tadeu, Santa Rita e Santo Expedito, porque há muito desespero e urgência em resolver problemas reais, ajudem nas imensas situações desesperadas e causas urgentes;
- Santa Edwiges da Silésia, protetora dos endividados, ajuda a encontrar uma saída rápida e eficaz a quem está nesta situação; 
- Rainha Santa Isabel, minha boa amiga, não quero que transformes qualquer coisa em pão para que o povo não passe fome, mas ajuda-nos a semear para ter o pão nosso de cada dia;
- São Dunstano de Cantuária, dá-nos as chaves para os problemas criados, estupidamente, por pseudo políticos ignorantes, incompetentes, corruptos, falsários e um punhado de especuladores sem escrúpulos;
- São Ferdinando III de Castile e Santa Agia, ajudem a criar magistrados corajosos, verdadeiramente independentes do poder político e económico, para que julguem e condenem os que, em proveito próprio, tanto mal têm causado aos outros;
- São Braz, afasta-nos da via do capitalismo selvagem, que parece querer conduzir a uma regressão ao século XVIII, que causa tanto desemprego, fome e induz a tanta desumanidade nas condições de trabalho das classes trabalhadoras;
- São Peter Claver, liberta-nos da escravidão dos vícios, mas acima de tudo liberta-nos da escravidão a que nos querem submeter;
- São Vicente de Paulo, livra-nos de sermos prisioneiros dos bancos e de outros interesses que nos tiram a alegria de viver    
- São Mateus e Santa Francisca Xavier Cabrini, dêem uma outra visão à gente das finanças, banqueiros, economistas, administradores e gestores, para que deixem de conduzir o país à ruína; 
- São João Bosco, mesmo sabendo que todos temos que ser aprendizes ou estagiar antes de exercer a profissão, ajuda os jovens que querem trabalhar, mas livra-nos dos aprendizes de política em tão altos cargos da nação;
- Santo Antão, afasta para longe os coveiros do país;
- São Bernardino de Siena, minimiza os jogos palacianos e de poder, para que o povo deixe de ser o eterno perdedor;
- São Gelásio e São Vito, dêem uma forcinha para que seja reduzido o número de deputados na Assembleia da República, pois são demais a denegrir a imagem benigna dos palhaços e dos bons comediantes;
- São Cristóvão, orienta-nos no caminho sinuoso que temos pela frente, conduzindo-nos a um final feliz;
- Santa Gertrude de Nivelle, espevita este povo acomodado, que aceita, candidamente e sem reação, todas as patranhas que lhe impingem;
- Santa Luzia, acaba de vez com a miopia deste povo e ajuda-o a enxergar melhor na hora de fazer as suas escolhas;
- Santo Egídio, faz o milagre de repor a amputada inteligência coletiva, que devia ser o motor do progresso e bem estar do povo;
- São Martinho e São Maximiliano Kolbe, o povo parece andar embriagado e drogado… dêem-lhe um pouco mais de lucidez, na hora da verdade e na sua labuta diária;
- Arcanjo São Miguel, dá-nos forças para as batalhas que temos pela frente, que só a luta já é uma vitória;
- São Francisco de Sales e São Tomé, porque o povo até parece que já perdeu a audição, peço-vos que o ajude a ouvir a voz da consciência individual (já que a coletiva ninguém quer saber), ajuda-o a refletir e a acreditar que há soluções;
- São Lucas, Santa Catarina de Bolonha, São Columbano e novamente São Francisco de Sales, porque esta minha oração é o meu “Sermão de Santo António aos Peixes” e porque se vão perdendo valores, como a noção do bem e do mal, ajudem-me a continuar a enviar mensagens das mais variadas formas, na pintura, na prosa, na poesia, para alertar consciências adormecidas;
- São Jerónimo e Santa “Sofia”, ajudem-me a ter a sabedoria e o conhecimento necessário para ser útil, mesmo em ambiente hostil, para ajudar a (re)construir o que parece irreparável;
- Arcanjo Gabriel, protetor dos carteiros, porque já desesperamos… traz-nos as boas novas que tanto ansiamos;
- São João Batista, tu foste profeta e falaste do prometido Messias, faz-nos acreditar num futuro mais risonho;
- São Francisco de Assis, Santa Genoveva, Santa Bárbara e São Floriano, preocupados em vida com a natureza, os desastres, os temporais, as inundações, invoco-vos para vos pedir ajuda e dizer que também eu me preocupo com isso. Cheguei a pensar que o mar estava a subir… mas afinal é o meu país que está a afundar.

O meu obrigado a Todos os Santos, pelas graças concedidas e a conceder, ofendido ao pensar em vós, pois estupidamente retiraram o feriado religioso com esse nome e ainda mais por eu ter presente o dito popular: a sardinha que foi levada pelo gato, já não volta!
Ámen ou Assim seja! (exceto a do gato, pois o gato que eu penso… come mais do que deve!)

Almada, 9 de maio de 2012
Jorge Nuno

08/05/2012

Uma Questão de Números (Ou Talvez Não)

UMA QUESTÃO DE NÚMEROS (OU TALVEZ NÃO)

Pelas duas horas…
Começa levemente,
Como que ao longe surjam ténues sons,
Qual folhear de uma árvore, soprada por brisa suave,
Que origina uma intensidade de som próxima dos 35 dB (decibéis).

À noite, o som assume proporções diferentes,
Parece que amplia para o triplo.
Às três, já começa a agonia.
Iniciado de forma indolente,
O número de decibéis aumenta exponencialmente.

Às quatro, já só penso em fugir.
Mas espero.
Com a aparente apatia, típica dos portugueses,
Demoro algum tempo a reagir.
Entretanto deliro…
Com a fórmula ou equação logarítmica
Da intensidade sonora.

Às cinco, ecoa na minha cabeça
Como uma maldição
Ou rugir de motores de avião.
O som passa para 125 dB,
O batimento cardíaco, muito intenso,
Vai nas 140 pulsações/minuto
E a sistólica dispara para os 195 mmHg.

Às seis, como que em simultâneo,
Racha o teto e abrem fendas no meu crânio.
Já não aguento mais!
Instantaneamente, sinto-me levitar.
Já não aguento mais o ressonar!
Em transe, acelero aos 160 km/h
E… mudo de cama!

                             Almada, 8 de maio de 2012
                                          Jorge Nuno

07/05/2012

Teias, Sonhos e Inquietações


TEIAS, SONHOS E INQUIETAÇÕES


Do big-bang à vida inteligente...

A teia do universo de saberes.
Teias, sonhos e inquietações.

São equilíbrios-desiquilíbrios,
Simbolismos e prazeres
Sensações, olhares e emoções,

Liberdade de criação
E diálogos de criatividade,
Expressividade mística ou não,
A desunião das coisas e a passividade.

Encontros e desencontros... do mito e da ciência.
Ciência com consciência? Inquietação.
Como ter clarividência?
Como juntar arquipélagos de saberes?
É o Homem em busca / construção.

O equilíbrio vital...
Comprometido pela inteligência da morte?
Contra a ilusão... o irreal
A resignação com a sua sina, a sua sorte.
O sentido da vida... religiosidade,
A busca contínua da felicidade.

Como partir as correntes
Que impedem a visão macro da vida?
Veremos só a nossa sombra?
Seres aprisionados que tais...
A guerra, violência, tirania e repressão,
A luta entre as pulsões fundamentais
De criação e destruição.

O inevitável conceito do belo
E a sua conversão no “acesso ao ser”,
Aristóteles, S. Tomás, Platão...
Aprendizagem estético-visual,
Percursos de criação e recriação
O que traz um bom augúrio...
Loucura de desdenhar do presente
Para ter esperança no futuro?


Arte e ciência... filhas da experiência
E do livre pensamento,
Contributos para modificar a consciência
E a forte vontade de descobrir mistérios...
O corpo como símbolo e identidade
E muitos, muitos ares sérios!
Questões ambientais, a terra e as gentes,
Ordenamento das cidades... que teia a deste esquema?
Olhares sobre as crianças,
Qual a chave para o problema?

De Da Vinci a criatividade e genialidade,
Desejoso de, em espírito, tudo transformar,
Sonhador que gostava mais do caminho que da chegada.
Sonho não é palavra vã!
Pedra Filosofal, Gedeão e o Poema a Galileu
(A quem Deus dispensou de buscar a verdade...).
Maria João Pires ao piano nos Noturnos de Chopin.
Paula Rego, A Presa e os medos,
Anne Frank e o seu Diário, Picasso e Guernica,
Pessoa no Livro do Desassossego e o poder de criar
Com a muleta da realidade.

A arte e a crítica, olhar a fotografia...
Tornar consciente o real.
Ligar cultura e lazer é arte... como na filatelia.
Pintar, escrever, inovar, criar...
Imaginação simbólica ou simplesmente imaginação.
Reconstruir história a partir dos sons...
Mesmo que ouçamos uma ave a piar!
Saber contemplar e estar de bem com a natureza.
Olhar as sucessões na natureza, que são algo enigmáticas...
Situações matemáticas, o mistério dos fratais,
O número e a razão na “divina proporção”,
O conceito de beleza nos fenómenos naturais.

Onde se vê desordem cósmica?
Não nos desgastemos em temores imaginários.
Há que participar com a serenidade dos justos!
Pela eterna vontade do conhecimento,
Reflexão... olhar estético e crítico na postura própria,
Humanização, sentir... e integração de saberes.
Descarregar de tensões e viver emoções.
Vazio não é certamente...
É manter vivo o sonho.
É conquistar sem atropelos.
É liberdade de pensamento,
É formação permanente,
É estar, é ser, é VIVER!

                                                                             

Almada, junho de 2000

Jorge Nuno


(“Relatório” de uma Ação de Formação intitulada “Cantos Interdisciplinares – diálogos de criatividade entre arte, humanidades e ciências através da pintura, literatura e música”)