01/02/2014

Identidade

"Pintor Concentradíssimo [autorretrato] - óleo s/ tela 60x40, Jorge Nuno (2011)

Tudo o que você deve fazer na vida é ser quem você é. Alguns vão amá-lo por você mesmo. A maioria vai amá-lo pelo que você pode fazer por ela, e alguns não vão gostar de você de jeito nenhum.
Rita Mae Brown (1944 - …)
Novelista, dramaturga, poetisa e escritora norte-americana.


IDENTIDADE

Por tudo aquilo que dou,
Fraterno amor sem idade,
Com uma entrega sentida
Sem exigir a cobrança,
Quero a minha identidade,
Sem obrigar a mudança,
Só a partilha de vida,
Aposta em felicidade
Sem sacrificar quem sou.


© Jorge Nuno (2014)

Estranha Perfeição

Imagine uma nova história para a sua vida e acredite nela.

Paulo Coelho (1947 - …)
Jornalista e autor brasileiro de letras para canções e de uma vasta obra bibliográfica, com destaque para livros esotéricos e de autoajuda.

ESTRANHA PERFEIÇÃO

Ai… se a vida na Terra
Fosse estranha perfeição
Sem um erro cometido
Próprio de gente capaz,
Sem uma única desilusão
Por não se estar iludido,
De conhecimento adquirido
Por aprendizagem eficaz,
Entrega franca ao amor
Incondicionalmente assumido,
Gente feliz em liberdade
Mente livre de temor,
Findo o espólio de horror
Que tanta vida desfaz,
Apaziguada a vil guerra
Perpetuado o mundo em paz.

Assim fosse a vida na Terra…
Nesta estranha perfeição
Um mundo como convém,
Bem longe destas lérias
De políticos sem pudor
(Que isto… a cabeça ferra!)
Resgatada a imortalidade  
Em vida humana que jaz,
Digo com muita convicção:
Não voltaria do Além!
Talvez, pensando melhor…
Pelo bem que a Terra tem,
Pelo prazer que satisfaz,
Com anjos em cumplicidade
Regressasse em inação
Para pecar na vaidade
De passar cá umas férias!


© Jorge Nuno (2014)

29/01/2014

Sonho ou Pesadelo?



Sonho ou Pesadelo? - óleo s/ tela, 70x30, Jorge Nuno (2014)


Num certo momento da vida, não e a esperança a última a morrer, mas a morte é a última esperança.

Leonardo Sciascia (1921 – 1989)
Escritor, colaborador de diversos jornais e revistas, ensaísta e político italiano (membro do Parlamento Europeu). Com uma vasta obra de mais de 40 volumes, os seus romances iniciaram com uma sátira ao fascismo e continuaram a tendência de crítica ao poder arbitrário e à corrupção política.

SONHO OU PESADELO?

Sob o céu mesclado
Em fim de tarde perene
Ouve-se marulhar permanente
De um mar agora sereno,
Sente-se a maresia ardente
De partículas de iodo e sal
E a areia húmida,
Que se banha a cada instante,
Faz de cama a um corpo inerte.
Será sonho de desejo?
Fica-se a imagem
De um soltar de coração
Revendo em turbilhão
O que na intimidade
Não consegue exprimir.
Será de libertação?
Não sei se há coragem,
Escape do subconsciente,
Uma atrofia da mente
Prestes a explodir.
Será de precognição?
Que futuro foi previsto,
Com ou sem aceitação,
Na perfídia do sonho
Que virou "pesadelo"…
Ou última esperança
Em viagem de corpo ausente?



© Jorge Nuno (2014)

28/01/2014

Regresso a Casa



"Evasões III" - óleo s/ tela  50x40, Jorge Nuno (2011)

(…) é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê.

Marcelo Camelo (1978 - …)
Cantor, poeta, compositor e músico brasileiro, integrou a banda de rock alternativo “Los Hermanos”, de 2001 a 2007, com voz, guitarra e baixo, prosseguindo depois a carreira a solo. A frase citada consta da sua canção: “Além do Que Se Vê”.


REGRESSO A CASA

Vislumbrei a estrada larga,
Crença de um bom caminho,
Com belo mapa de vida
Elaborado por mim.
Do útero fiz-me à estrada…
Sensação de déjà vu.
Quando o troço a percorrer
Não parece o projetado,
Há levianos descuidos,
Quaisquer memórias perdidas,
Percalços na caminhada
Ou estou equivocado.
Mas posso corrigir rotas,
Parar para descansar…
Escolher de seguida
Cinco pontos de saída
Com atraso na chegada.
E mantenho a consciência
Que estou sempre a caminhar,
A caminhar… caminhar…
No meu regresso a casa.


© Jorge Nuno (2014)

26/01/2014

Noite dos Amantes

O sorriso custa menos que a eletricidade e dá muito mais luz.

Provérbio escocês


NOITE DOS AMANTES

Noite, o sortilégio dos amantes,
Que acolhe o frémito deambular
Numa peregrinação sem cansaço
Ao bar de alterne do Fialho,
Por quem se ousa embrenhar
Em loucos rituais de acasalamento
E estranhas e intrépidas orgias.
E logo eu, com porte de talhantes,
Assisto impávido a este espasmar.
De segurança noturno não passo,
Sou uma carta fora do baralho,
Nem sequer posso bebericar…
E relevo este meu tormento
Desfasado da minha mulher a dias.


© Jorge Nuno (2014)

24/01/2014

Oops!

Oops! - óleo s/ tela 40x40, Jorge Nuno (2007)

Não é a ilusão, para o pensamento, uma espécie de noite que povoamos de sonhos? A ilusão abre então as asas, transportando a alma para o mundo da fantasia.

Honoré de Balzac (1799 – 1851)
Escritor e dramaturgo francês, fundador do Realismo na literatura moderna. A frase citada provém da sua obra “A Bolsa”, tal como: não devemos julgar as pessoas pelas aparências e esta sua obra lança uma luz bem surpreendente sobre o mundo da pintura.

OOPS!

Desnuda, sentes-te livre
E eu um inesperado voyeur.
A tua mão, hirta,
Devolve-me parte da espuma
Do copo a transbordar de amor
E eu, inconscientemente,
Levo a mão à boca.
No aroma do teu corpo
Encontras resquícios
De fragrância fougère
De lírios do vale
E eu, no meu, o odor
Do suor de prazer.
A tua pele suave
Reflete o teu próprio brilho
E eu deixo-me ofuscar por ele…

Enquanto te tocas suavemente
E eu vivo inesquecíveis sensações,
Ouço uma voz interior a sussurrar:
“Parece o filipino… parece o filipino!...”
Hesito… Não acredito que desnuda
Não sejas quem eu penso!
Oops! Será que és mesmo o filipino
Ou serás um ser andrógino?

© Jorge Nuno (2014)


23/01/2014

Dupla Face do Espelho

Por vezes as pessoas não querem ver [nem ouvir] a verdade porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas.


Friedrich Nietzsche (1844 1900)
Filólogo, filósofo, compositor, professor universitário, poeta, crítico cultural e autor alemão, que adotou nacionalidade suíça, tendo vasta obra literária publicada, sendo a mais conhecida: “Assim Falava Zaratustra”.

DUPLA FACE DO ESPELHO

Há sabotagem, visível!
Tantas vezes. De mais!...
Solta-se um grito psíquico,
Sonoro, audível!
Aparenta desastre pessoal.
Se olhar melhor
A dupla face do espelho,
Como num sonho dentro de outro,
Há como que um fluxo 
E refluxo constante de imagens
Trazidas pela ilusão,
Feita necessidade,
E pelo veneno da memória
Como que a chamar à razão.
No ponto crítico de escolha,
Embaraçado,
Vejo que o grito saiu de mim,
Mas nego o grito
E até nego o embaraço…
Aquele não sou eu,
Aquele não devo ser eu,
Aquele não posso ser eu.
Sei, intimamente…
Ao aceitar-me como sabotador,
Sem autoacusações,
Retirarei força à expiação
Aceitando as cicatrizes
Sem as exibir,
Sem relevar as suas causas.
Olhando em profundidade
Despido de preconceitos,
Sem esconder o que receio ver,
Sem evitar a dor emocional,
Sem preocupação com a vulnerabilidade
Nem com o olhar enviesado de outrem.
Sei que não há viagens
Em avião supersónico
Ou comboio de alta velocidade
Que me leve rápido ao paraíso,
Nem GPS que me indique esse caminho.
Mas posso anular 
A perversão de identidade,
Reconciliando mente e espírito,
Como posso usar
A joia radiosa da verdade,
Fortalecer o “eu” interior
E, em processo de aprendizagem,
Criar alegria que perdure,
Já que ao olhar
O meu “eu” verdadeiro
Aceito e desvalorizo o meu lado negro
E torno visível e abraço
O meu lado divino.

© Jorge Nuno (2014)