12/02/2014

Missionária, Mãe dos Pobres

Não é a quantidade que damos, mas o amor que pomos no gesto.

Madre Teresa de Calcutá (1910 – 1997)
Albanesa, missionária e Prémio Nobel da Paz.


MISSIONÁRIA, MÃE DOS POBRES

Mulher franzina, forte em convicções,
De sari branco, a azul debruado,
Velou com fervor e todo o cuidado
De cinco crianças a multidões.

Pobres, doentes, famintos sem pão,
Miséria humana e espiritual
De um mundo cruel, quase surreal,
A quem ela soube estender a mão.

Por manifesta vontade de Deus
Dizia… Madre Teresa s’entregou,
Projetando nos outros, sonhos seus.

Simples viveu e simples terminou,
Muita gente grata a dizer-lhe adeus…
Quando um anjo querubim a levou.

© Jorge Nuno (2014)

11/02/2014

Autorretrato

O que pensas de ti próprio é muito mais importante do que os outros pensam de ti.

Séneca [Lúcio Aneu Séneca] (4 a.C. – 65 d.C.)
Romano, natural da Hispânia (província romana), foi advogado, intelectual, filósofo, escritor e dramaturgo, com várias obras de Diálogos filosóficos e Tragédias, com mestria no uso regular de metáforas.


AUTORRETRATO

Construtor, sei que preparo o caminho,
Na sobrevivência, sou lutador,
Vivo o papel de experimentador
E crio vida em telas de linho.

Na cura, sei que alivio a dor,
Emotivo, não descuro o carinho,
Tolerante q. b., sem burburinho,
Salvador, estendo a mão com vigor.

Catalisador, fomento a ação,
Em harmonia, irradio paz,
No espiritual, sinto compaixão.

Falível, procuro ser mais sagaz,
Paciente, rumo à perfeição,
Mas… quem diz que de tudo sou capaz?

© Jorge Nuno (2014)

Pessoa Inteira


PESSOA INTEIRA

Pode haver quem pense
Que digo meias-verdades
No uso de meios-termos
E de meias-palavras,
Que já passei a meia-idade
Que estou meio-gordo
E tenho uma cara-metade,
Que devo ser meio-estarola
Ou até meio-desajustado…
Mas para esses
Não estou com meias-medidas
Nem uso de meias-tintas.
Mando-os dar meia-volta…
Pois sei que sou pessoa inteira!


© Jorge Nuno (2014)

10/02/2014

Mesa Transmontana


"Pitéus Transmontanos I" - óleo s/ tela 40x50, Jorge Nuno (2008)


MESA TRANSMONTANA

Vibrante gastronomia…
Abundância de fumeiro
(Chouriça e salpicão,
O saboroso presunto,
As tostadinhas alheiras…)
Todo o ano, o folar,
Um bom carolo de pão…
As melhores iguarias
E algo para regar.
Ai rústico negro pote
Que ao lume se acomoda
E acolhe tantas delícias!...
Sejam caldos de perdiz,
O cabrito ou o cordeiro,
A casula e o botelo,
Javali à nossa moda…
Até ao tenro vitelo.

Com sabor e sem despesa,
Nesta noite sem luar,
Degusto ao descrever
O que outros ficam a ler…
Quem sabe, a querer estar
Sentado na minha mesa.

© Jorge Nuno (2014)



09/02/2014

Mar, Vida e Pão

MAR, VIDA E PÃO

A refrega vira forte temporal…
Céu negro de espuma iluminado,
Em cada instante há convés inundado
Em balanço de prenúncio fatal.

Vem farta, de porão a transbordar,
Acrescido risco de capotagem.
O patrão, um herói de pilotagem,
S’esforça… sem a poder alijar.

As mulheres e mães em ansiedade,
Cabeça coberta, na escuridão,
Invocam as preces à divindade.

Ao longe, avistam um lampião…
“Louvor, Senhora da Guia… bondade,
Aportem com vida e haja pão!”



© Jorge Nuno (2014)

Obs.: A minha homenagem às gentes sofridas que ganham a vida no mar, com este soneto feito no dia da tempestade "Stephanie", que assolou o litoral português.

07/02/2014

Olhares no Comboio

OLHARES NO COMBOIO

Olhei para ti, quando seguíamos na carruagem da frente. Sentada no banco, virada para o sentido da marcha, cotovelo sobre o peitoril da janela, de olhar distante para os montes de picos manchados de branco, numa viagem que parecia infinita. Por vezes eu passava para o outro lado do pequeno corredor, para absorver melhor toda a paisagem estranha para mim, deste Reino Maravilhoso que ia descobrindo. Sem te aperceberes, ia desviando o olhar insistentemente para ti, como que a querer, com a extensão desse olhar, chegar fundo ao teu subconsciente, tentar adivinhar o que ia no teu pensamento ou simplesmente admirar-te. Despertava bruscamente, quando a máquina a vapor da linha do Tua soltava faúlhas, que entravam não sei por onde, apitava várias vezes para afastar animais ou avisar pessoas, ou era projetado pelos solavancos inesperados, que aos poucos deixavam de o ser, numa habituação de difícil entendimento. A via estreita, num traçado serpenteado em zonas rochosas, escarpadas e os desajustes na bitola, proporcionava esses laterais movimentos da massa de ferro, mantendo o comboio a sua toada de marcha lenta até ao próximo apeadeiro.

Lembras-te quando dizíamos, em brincadeira, que poderíamos sair do comboio, ir apanhar figos e voltar?

Lembras-te quando dizíamos, em brincadeira, que já deveríamos estar em Espanha, pois tínhamos tempo suficiente de viagem para isso?

Lembras-te quando se preparava e levava uma merenda especial para um dia de viagem, de sol a sol, gasto para percorrer menos de 400 quilómetros?

Lembras-te das mudas no Tua e Campanhã, fazendo-se grande parte do percurso junto ao Douro, que parecia sempre um espelho de água?

Não sou homem para viver do passado, bem pelo contrário, gosto de viver o presente e, apesar da idade, gosto de ter um olhar sereno e confiante no futuro. Mas a cada dia que passa, quando era suposto dizer que já nada me espanta, há sempre algo que me deixa perplexo, não só pela comparação com valores perdidos, caídos em desuso, como se fosse uma desgraça ser-se honesto, ou como se a palavra de honra, já para não referir contratos firmados, fossem uma mera ingenuidade de quem acredita em tal. E a minha perplexidade parece contrastar com a indolente, e já referida, habituação de difícil entendimento, como a rã que acaba fervida em lume brando, sem reagir, pois se o fizesse estaria a salvo.

Lembras-te quando te escrevia diariamente, colocava um selo de 1 escudo na carta e ela te chegava no dia seguinte? Tens presente que agora mete-se uma etiqueta equivalente a 80 escudos e a carta chega uma semana depois?
Poderia continuar a fazer-te muitas, mas mesmo muitas, perguntas de difícil entendimento!...

Já lá vão 40 anos de memórias, a que as células resistem! 

É pena que não te possa rever naquele comboio, sem as pressas atuais, pois teríamos todo o tempo do mundo. É pena, nem que seja só mais uma vez. É pena, pois desativaram a linha e foram progressiva e escandalosamente roubando os carris, tal como nos querem desativar a máquina e vão progressiva e escandalosamente roubando no valor das nossas reformas!

Resta-me a felicidade de te ter por perto e saber que não me conseguem roubar as memórias e os sonhos, que vou desenvolvendo a cada dia.



© Jorge Nuno (2014)

05/02/2014

Mulher, Não Sei...

"Pausa na Visita ao Museu Abade de Baçal, Bragança", óleo s/ tela 50x40, Jorge Nuno (2014)



MULHER, NÃO SEI…

Mulher, eu sei…
Entre tantas mulheres,
Fora do tempo
Foste escolhida
E geras no ventre
Sem o teu controlo
(Por mais que quiseres).
Mulher, eu sei…
Coisas do Além…
Algo programado
Numa outra vida.
A caminhada é longa,
Sem dúvida!
Refresca-te na fonte
Repousa na guarida,
Fortalece o teu espírito
E evoluiu o que puderes.

Mulher, não sei…
Se te custa mais
Na hora de nascer,
Os cadilhos no crescer
Ou a dor da partida.
Mulher, não sei…



© Jorge Nuno (2014)