14/11/2014

Libertação de Um Poema (ou Homenagem aos Meus Neurónios)



LIBERTAÇÃO DE UM POEMA
(OU HOMENAGEM AOS MEUS NEURÓNIOS)

Entre estímulos intelectuais,
Desafios do cérebro, frenéticos,
Ocultos, ágeis poderes mentais
Transformados em impulsos elétricos

Tecem fortes ligações neuronais,
Redes complexas, sem compassos métricos,
Amálgama de massa em tons rosais,
A surpreender até os mais céticos.

Com biliões de possibilidades,
Os axónios transmitem sinais
Nervosos, idos às extremidades

Banhados nas sinapses, junto ao cais,
As dendrites captam as novidades
E libertam poemas naturais.

© Jorge Nuno (2014)

30/10/2014

O Milagre do Linho

O MILAGRE DO LINHO

Cultivado o “galego” no florir
Com legumes e amor de permeio,
“Mourisco” no outono quer partir
Na vizinhança do trigo e centeio.

“Chão das hortas” sofre trato, gradeio,
Sementeira, rega, monda, parir…
(Arrancado p´la raiz sem receio),
Ripar, enriar em leito a fluir.

Secar ao sol, enérgico malhar,
Macerar, acamar, usar espadela,
Assedagem, fiação e barrela…
Entre luta tenaz e terno olhar.

Meadas suspensas, a ondear,
Dobadas sem pressa, devagarinho…
Enformam-se novelos de carinho,
Mágico fio de ir ao tear.

Há esforço hercúleo p’ra ter o miminho
(Após urdidura, saber, cautela…),
Mera vontade de pintar na tela
Esse espantoso milagre do linho.


© Jorge Nuno (2014)

Poema a declamar pela poetisa amiga, Teresa Almeida, durante o evento "Linho & Poesia", que irá decorrer na Casa da Cultura de Sendim (Miranda do Douro), no próximo dia 8 de novembro, pelas 15h30, e que envolve também o lançamento do livro "Poemas de Linho", do poeta amigo José Alberto Rodrigues.

11/09/2014

Sela Meus Olhos



SELA MEUS OLHOS

Que seria deste meu quarto de estudante
Se não houvesse o teu sorriso doce,
Se não existisse o teu olhar brilhante,
Se perto de mim a tua presença não fosse
A única alegria com que posso contar.
Mas só tu conheces o mar de tristeza em que navego,
Só tu conheces a minha angústia, meu desesperar…
E o Deus que renego e a quem me entrego.
Por isso, só tu sentirás desgosto
Quando a estricnina me matar.
E quando a morte puser em meu rosto
Aquela serenidade, sem algo a perturbar,
Sela então meus olhos com dois beijos
Dos tantos que em vida te quis dar.

© Jorge Nuno
Obs.: Uma raridade perdida, na altura ainda sem título – datada de 26 de maio de 1971, pelas 11h39 – e agora reencontrada. Obrigado, Diana.

24/06/2014

Reflexões em Noite de Insónias



“A mente grata espera continuamente coisas boas e a expetativa torna-se fé”

Wallace Wattles (1860 - 1911)

Norte-americano, escritor de sucesso, autor de livros de autoajuda,

pioneiro dos princípios do Novo Pensamento.





Reflexões em Noite de Insónias



Chegam-me ideias trazidas pelo vento. Umas são cozinhadas e digeridas de imediato, com a sofreguidão de quem está sempre pronto a escrever. Outras, simplesmente são levadas pela maré, deixando-as ir ao ritmo dos movimentos harmónicos simples, sabendo que voltarão com a mesma intensidade, envoltas em espuma e acompanhadas de algo de novo, com o cheiro intenso da maresia. Consciente que para os brasileiros “maresia” significa um estado de total inércia, falta de energia para fazer qualquer coisa, silêncio ou falta de movimento, e que para mim é o oposto, ou seja, maresia significa um carregar de energia que dá intuição, vigor, dinâmica, entusiasmo e capacidade para realizar o ato criativo.

Sinto a mente independente do cérebro, mas que devemos manter a mente aberta com o uso do cérebro, como sinto que se mente com a ajuda do cérebro, talvez por mentes de culpa e determinismo. Gosto de fazer uso do cérebro e procurar a verdade.

Como me apercebo de tanta gente que mente descaradamente, já não sei se confie na memória, pois por vezes a memória ausenta-se, dando a sensação de senilidade ou, simplesmente, que estou a mentir. Passei uma vida a memorizar, a processar e a armazenar informação no “disco duro”, que de um momento para o outro parece obsoleto, situação agravada por um suposto vírus ter-se comportado como um vulgar apagador usado nos quadros da escola, que tudo vai apagando, em movimentos enérgicos, involuntários, sem controlo, parecendo que o que importa é ter o quadro limpo no final de cada aula.  

Além dos neurónios, não haverá outras células do corpo que façam o trabalho de memorização, criando uma minha “nova” memória celular? Como se processa em alguns animais primitivos, como a estrela-do-mar, que possuem um sistemas nervoso descentralizado sem cérebro? Como sobrevivem estas espécies sem cérebro? Como sobrevive tanto humano que aparenta não fazer uso do cérebro?

Sem querer usar clichês viciantes, teimo em querer escrever no quadro. Gosto de dar liberdade à mente e envolver-me em atos criativos. Por vezes colo a imaginação à realidade e crio essa realidade através do pensamento. Mas as ideias são mesmo trazidas pelo vento, como algumas sementes que acabam por vingar em quaisquer telhados ou à beira da estrada? Porque algumas ideias surgem em dias que nem sequer sinto qualquer aragem, deduzo que tenha um alfobre, onde coloco as sementes do pensamento. Assim que as sementes começam a germinar e ganham resistência, faço o transplante para um local definitivo de cultivo, dando-lhe os necessários cuidados de desenvolvimento.

Não é necessário falar de sementes como combustível sagrado, falar de pensamentos imortais, conhecimento místico, num impulso para o divino, mas sinto que devo manter uma janela, porta, braços e coração aberto sobre a eternidade, o outro lado da vida, para uma experiência de equilíbrio nesta vida, já que a minha paz, felicidade e segurança provêm da minha espiritualidade, sem exigir uma explicação lógica e terrena.

Porque não quero hipotecar o futuro nem perder a fé nele, porque não quero ficar agarrado apenas a pequenos pedaços de esperança, porque não quero viver na terra do faz-de-conta, não quero ter atitudes de fuga – não quero mudar de ambiente – nem quero ver a “panela” rebentar contra o teto, sinto que talvez esta escrita no quadro (mesmo que de lousa negra) seja uma minha carta ao Universo, um apelo, um escape, um libertar de pressão, como o é quando durmo e desligo a mente, em que a mente subconsciente liberta-se das emoções e assume o controlo, na forma de sonho, que o consciente tantas vezes rejeita.

Na aventura de estar vivo, a libertação, em sonho ou não, é linda!

A mente tanto pode matar como também pode curar. A atitude negativa intensifica a dor. O medo é destrutivo e paralisador. Estes são alguns dos mecanismos que é preciso identificar para que não nos afastem da felicidade. Fazem toda a diferença a atitude assumida perante as contrariedades e desafios da vida e a liberdade de escolha como se reage, tendo presente que a superação dá-se com mudança interior, processo sem retorno após encontrado o sentido da vida.  

Para ser uma carta ao Universo, como elemento de cura, apenas me falta queimar o original desta carta com a energia do poder do fogo, consciente da mente antecipadamente grata.



© Jorge Nuno (2014)