03/01/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (1) - Sem Rosto e Sem Rasto




CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO


I - Sem rosto e sem rasto.



Depois do que vi ontem num canal noticioso da TV, vi-me impelido a levantar-me cedo e procurar obter uma consulta no meu médico de família. Fora da vidraça, o habitual cinzentão, bem escuro, recortado pelos focos de luz das torres de iluminação da rotunda. Entretanto, os seus sensores avisam que o dia começa a clarear a bom ritmo e apagam-se as luzes. Preparo-me para sair, sem tomar o pequeno-almoço, apesar de adivinhar que a manhã irá ser longa. Procuro o comando do portão da garagem, não a encontro e, sem demoras, decidido, inicio a caminhada, a pé.

 Já na avenida, reparo que o sol está a nascer, pintando, com cores exóticas, o negro das nuvens que teimam em persistir há demasiado tempo. Tudo depende da forma como olhamos. Eu prefiro fixar-me no belo das partes multicoloridas, de tons dourados, relegando o negro das nuvens a um mero contraste. Olho mais para cima e vejo o rasto deixado pelos três aviões da Força Aérea, presumindo tratar-se de treino de voo e/ou controlo do espaço a aéreo, junto da fronteira, a muito poucos quilómetros da cidade. Era algo agradável de ver. Aqueles rastos – seis linhas retas –, pareciam uma pauta de música. Apesar das pautas só apresentarem cinco linhas, ocorreu-me que os pilotos estariam a compor uma canção tripartida para embalar cada uma das suas mais-que-tudo. Apenas faltava colocar-lhe umas quantas breves, semibreves, colcheias e semicolcheias, já que com mínimas e semínimas seria uma composição mais complexa, para estes pilotos enamorados. Enquanto caminho, viro-me algumas vezes para trás, para apreciar este céu bonito e invulgar.

Chegado ao Centro de Saúde, deu-se o que esperava. Neste “reino maravilhoso” – apesar da crise instalada –, há sempre lugar para mais um à mesa, assim como mais uma consulta de clínica geral, sem marcação! Depressa ouço o meu nome no altifalante, levanto-me e dirijo-me ao gabinete para a triagem. A enfermeira “Popota” – como lhe chamo em surdina – mede-me a tensão arterial, pesa-me e mede o meu perímetro abdominal. Nesse momento toca o meu telemóvel, que desligo, de imediato. A “Popota”, que tem tanto de excesso de peso, como de zelo e simpatia, diz: – Mesmo a propósito! Tenho um telemóvel igual e tem aí uma aplicação que devia usar, pois faz a gestão das calorias, dando indicação do número de passos dados ao longo do dia, para poder perder peso! Por acaso usa esta aplicação? Olhe que deve… pois está a ficar pesado demais!

Fiz um gesto de negação com a cabeça e ela toma a iniciativa de programar a aplicação, dizendo-me que devia fazer, no mínimo, 10.000 passos por dia.

Já regressado à sala de espera, entre “ais” de dores físicas crónicas e de dores emocionais, decorrentes da solidão e da atual crise, ouço comentários pouco abonatórios. Entre os menos deselegantes, podia-se ouvir: “parece que anda tudo doido!”; “deve ser algum vírus que anda no ar.” ou “parece o fim do mundo!”.

O médico ouve as minhas queixas relativas a esquecimento, desvaloriza, dizendo que é próprio da idade e aconselha-me a beber mais água, fazer caminhadas, algum esforço para manter bem ativa a parte intelectual, e descomprimir – procurando não me deixar contaminar pela situação envolvente… –, e manda-me fazer umas análises.

Regresso a pé, olho para o céu, como que à procura de colírio para os meus olhos, mas tudo era diferente. Apenas se viam nuvens negras e os paralelos rastos dos aviões tinham-se dissipado completamente. Passo pelo laboratório de análises, colhem-me algum sangue, e dirijo-me à pastelaria, a uma hora já pouco própria para tomar o pequeno-almoço.

A televisão estava sintonizada num dos canais noticiosos e “martelava-se” em temas recorrentes, como seja o trabalho da comissão de inquérito nomeada pelo Parlamento para averiguar o caso do maior banco privado que foi ao “charco”. Sabe-se que por intervenção estatal foram separadas as “águas”, ficando um a ser um banco mau, “com ativos tóxicos, dívidas dificilmente incobráveis e operações de grande risco em offshores” e o outro, um banco bom, de cara lavada, com avanço de dinheiro dos contribuintes. Via-se os responsáveis pelas várias áreas de negócio a demarcarem-se, alegando “desconhecimento da situação” ou dizerem “não se lembrar…”.

A dona Laurinda, aposentada, que já era professora do ensino primário no tempo do Craveiro Lopes, resiste, firme, ao passar dos anos, e não parece estar esquecida nem dá provas disso. Frequenta aquela pastelaria pelo convívio e para ler diariamente o jornal. A seu lado tem a amiga, que vive com dificuldades – já a vi a mordiscar um bocado de pão, tirado da mala, para acompanhar com um copo de leite –. Ouço a ex-professora confessar que foi prejudicada e a dizer coisas como: “Como é que não se lembram? Estão só a atirar areia para os olhos.”; “Há muita gente sem rosto, que mexe os cordelinhos e faz o que quer.” ou “O dinheiro foi para onde? Não deixou rasto?”

Eu, que me sinto, cada vez mais, com falta de memória… comecei a fazer uma retrospetiva e passei a pente fino vários primeiros-ministros. Um deles, referiu: “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Tanta firmeza de convicções deixou-me, na, altura cheio de dúvidas!… Uns anos mais tarde, não se lembrou e distorceu o valor das suas reformas. Um outro, candidato a primeiro-ministro, – e viria a sê-lo – em frente às câmaras de televisão, cometeu uma gaffe com os dígitos do PIB e sentiu-se embaraçado ao querer fazer contas de cabeça, sem conseguir, num assunto relacionado com o orçamento para a área da saúde. Outro, quando lhe acenaram com um cargo importante, esqueceu-se que tinha sido eleito há pouco e, não hesitou – foi embora – e lá, cometeu muitas gaffes, esquecendo-se que os governos dos estados-membros eram eleitos democraticamente e que este país vivia com imensas dificuldades, para ele promover projetos megalómanos e incomportáveis. Outro, esquece-se qual foi a importância que o amigo lhe “emprestou”, para poder pagar as suas elevadas despesas mensais. E outro, esqueceu-se quanto recebeu de uma pequena empresa de formação na margem sul, sob a capa de ONG, que não podia ter capacidade para lhe pagar aquilo que se diz ter recebido.

De seguida, passam na TV três breves notícias: uma, dava conta de se estar a comemorar o segundo ano da data prevista para o fim do mundo – que não ocorreu; outra, falava do arquivamento do processo do caso dos submarinos e, por fim, da Comissão Europeia que puxava as “orelhas” ao nosso governo, por estar a abrandar nas reformas previstas, mostrando discordância com o aumento do salário mínimo, previsto para 2015, por entenderem que os cidadãos deste país estão a viver acima das suas possibilidades.

A dona Laurinda vira-se para a amiga e diz – Oh Tila, e estavas tu já a fazer o molho à vaca e a vaca no lameiro! Resposta da amiga, desconsolada – Agora… mesmo que venham com a carrinha, não vou votar!

Não me esqueço de pagar e saio da pastelaria, com a ideia que afinal não é assim tão complicado esquecer (ou não saber) onde estão as chaves do portão da garagem. Abro a tampa do telemóvel e reparo que já tinha dado 5075 passos, que corresponde a 4,0 km e um consumo de 217 Kcal. Não esqueço que há o teto de 10.000 passos a atingir. Lembro-me do rasto… Se eu ao fim de menos de três horas já não consegui ver o rasto dos aviões, como é que eles querem ver o rasto do dinheiro que voa? Enquanto caminho, vou dando uso sistemático ao cérebro – como é apologista o meu médico – e penso – Apesar de se terem esquecido de completar o túnel do Marão, a verdade é que desfizeram o IP4 para o transformar numa autoestrada que chega ao fim do mundo, – sem haver alternativa, caso seja portajada… –. Como o Douro está in e é navegável, se calhar ficaria mais barato desfazer um afluente para fazer chegar aqui os submarinos, e contruir uma Base Naval na cidade, que levaria ao desenvolvimento turístico da região. Como as águas seriam pouco profundas, até podia ser que se visse o rasto!...

© Jorge Nuno (2014)

02/12/2014

Natal que Seduz



NATAL QUE SEDUZ

Nazaré resplandecia
Com Arcanjo Gabriel,
Que em estranha sintonia
Transmitia a Maria
A voz do Deus d’Israel.

No seu ventre foi gerado
Filho à imagem de Deus.
Reis Magos, por Ele guiado,
Querem-nO glorificado
Entre os comuns dos plebeus.

Nesse NATAL, que seduz,
Um planeta moribundo
Ressuscita com a luz.
Em Belém nasce Jesus
Que há de guiar o mundo.

© Jorge Nuno (2014)

Natal, Tempo de Renascer



NATAL, TEMPO DE RENASCER

Do Livro de Jubileus
Até Novo Testamento,
Sejam crentes ou ateus,
Surgem mensagens de Deus,
Bem claras no firmamento.

As palavras fazem crer:
Messias – a salvação –,
Estaria a aparecer
Quem nos faria crescer
No mundo de expiação.

Leito pobre, feito dor…                            
É Natal no renascer!
Cantam-se hinos de louvor
Ao Deus-filho do amor
Acabado de nascer.

© Jorge Nuno (2014)