22/01/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (2) - Os Degraus da Felicidade




CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO



II – Os Degraus da Felicidade



No segundo dia do ano, bastante cedo, apanho o autocarro – como opção de transporte –, apesar de me desagradar as quase três horas e meia de viagem para percorrer 210 kms. Reparo que em cerca de quinze minutos terei olhado para o relógio umas dez vezes. Mostro-me agastado pelo facto de não haver aquela valência na cidade e ter que me deslocar ao Porto. Porque me estava a sentir menos bem, decido esquecer os aspetos desagradáveis e a fixação no destino e gozar o resto da viagem, apreciando a paisagem, que tanto pode ter de agreste como de bela. Tudo dependerá de como os nossos olhos e a nossa mente a querem ver. Como que por encanto, tudo se torna mais esbatido e suave, depois da segunda paragem, quando entra um passageiro e se senta junto de mim. Este, de imediato, mostrou ser uma pessoa positiva, alegre e boa conversadora e a conversa e o tempo fluíram agradavelmente.

Chegado ao destino, compro um jornal e dirijo-me à conhecida clínica portuense. À entrada da receção, faço o check-in automático, numa máquina, e desloco-me ao balcão, onde transbordava simpatia. Ofereceram-me uma revista e chamaram uma auxiliar para me acompanhar à sala de espera. Já sentado, vejo tratar-se de uma revista que é propriedade do próprio grupo, na área da saúde – embora editada no verão passado –. Apesar de ter um jornal para ler, folheio-a com alguma curiosidade. Logo me deparo com um artigo sobre a “Felicidade” e que me parece muito interessante, já que mostra o perfil de um português feliz, numa altura em que me parece que anda tudo com cara de enterro. Ao folheá-lo, destaco coisas como: “As pessoas felizes são 12% mais produtivas” [dados do Departamento de Economia da Universidade de Warwick (Reino Unido); “(…) a existência de hábitos saudáveis antes dos 50 anos traduz-se no aumento de uma saudável e feliz longevidade. Não ter vícios e fazer exercício é importante mas, a forma como contruímos as relações sociais, é determinante para se viver mais tempo” [“Harvard Study of Adult Development”, estudo efetuado nos últimos 72 anos por investigadores da Universidade de Harvard]; George Vaillant, diretor do anterior estudo nos últimos 40 anos, acredita que “um envelhecimento bem-sucedido não está mais dependente das estrelas ou dos nossos genes do que da nossa vontade”; “O humor é uma forma de lidarmos com os conflitos” [Scott Weems, neurocientista cognitivo americano]; “O humor é um ingrediente fundamental para a felicidade. (…) Tenho uma predisposição para ver o sentido cómico das coisas. Alivia a tragédia e coloca a vida noutra perspetiva. [Francisco Gomes, copy e contador de histórias]; “O ser humano tem a capacidade de alterar a forma como vê o mundo, de maneira a sentir-se melhor com a situação em que se encontra” [estudo apresentado pelo departamento de Psicologia de Harvard].

Faço uma pausa para refletir. – Espera lá… mas foi isso que eu fiz, quando vinha no autocarro. Senti que tinha que infletir a tendência de má-disposição, de neura…, e ainda por cima no início do novo ano. A verdade é que consegui e passei a sentir-me melhor. Aquela relação ocasional, de pouco mais duas horas, com uma pessoa bem-disposta, ajudou muito.

Retomo a leitura e vejo alguns dados apresentados, que decorriam de um estudo intitulado “A Avaliação Subjetiva da Felicidade dos Portugueses" - estudo de 2010, realizado por dois membros da Comissão Científica da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenções em Psicologia Positiva, com entrevistas feitas a 1033 portugueses de ambos os sexos, a residir em Portugal Continental, com idades entre 16 e 55 anos. Neste estudo estiveram também envolvidos a Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha. Pode ler-se: “Mostram-nos os estudos que os que constroem diariamente a felicidade tendem a ser altruístas e não egoístas, atentos ao bem-comum, cooperativos, pacifistas, confiantes nos outros, mais tolerantes e democráticos e companhias agradáveis”. A minha primeira reação é – Está mal! Deviam ter introduzido mais dois escalões etários: dos 55 aos 65 anos e mais de 65 anos, porque seria interessante auscultar este grupo populacional, até mesmo esquecido para efeitos de estudo –. Sinto alguma irritação e, de imediato, foco-me nos aspetos positivos do estudo, até ser chamado, e dirijo-me ao gabinete médico, onde fui atendido com eficácia e cortesia.

No regresso, já de noite, sem companhia ao lado e sem poder apreciar a paisagem, revi mentalmente o artigo sobre a “Felicidade” e dos degraus que têm que se subir para a alcançar, ou melhor, construir. – Se calhar até nem é preciso muito esforço, para ir subindo uns degraus – penso. Vêm à mente os interesses das multinacionais e do neoliberalismo de garras afiadas, entranhados nos atos de governação e de gestão – como forma de pressão –, em campanhas bem oleadas de Marketing, que fazem crer que a felicidade advém do “ter”, bem ao jeito de quem se deixa enrolar facilmente pela ilusão e pela ambição descontrolada, mesmo com cortes nos salários e pensões. Em vez do PIB, porque não se adota, no ocidente, o conceito de FIB - “Felicidade Interna Bruta”, criada pelo rei do Butão, baseada no princípio de que “o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade humana surge quando o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento material são simultâneos, assim se complementando e reforçando mutuamente”?

Com pouca luz e trepidação do autocarro, abro finalmente o jornal e, enquanto vou virando páginas, deparo-me com notícias como: “Passagem de Ano na Madeira – 1, 046 milhões de euros em fogo de artifício, gasto em 8 minutos”; “Acidentes nas estradas portuguesas provocam 480 mortos em 2014”; Evaporou-se o BES e metade da PT. Bolsa portuguesa perdeu 27%”; “Segurança Social publica lista de funcionários que serão colocados na requalificação”; “Falta de pagamento do Estado deixa alunos da educação especial sem aulas e pais desesperados”. Era inevitável: fico fulo, ainda mais por me sentir impotente perante estes factos, o que me faz descer novamente os degraus da felicidade, num dia que estava, claramente, a subi-los!

Para corrigir este estado anímico, lembro-me da oração de São Francisco de Assis: “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.” Logo de seguida, lembro-me do outro Francisco, o Papa – que conhece seguramente esta oração –, que parece tudo querer fazer para mudar o que está mal, começando pelo Vaticano, e consegue manter um desconcertante sentido de humor, confiança no caminho da mudança e um otimismo galvanizador, que pode ajudar a chegar a essa mudança. Por uma rápida sucessão de ideias, chego ao falecido psiquiatra norte-americano – Milton Erickson –, que era muito espirituoso e usava contos e anedotas para provocar mudanças substanciais nos seus pacientes. Enquanto o autocarro rola a boa marcha na A4, reflito: “Se calhar é por isso que há tanta anedota no Governo, no Banco de Portugal, na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no Fundo Monetário Internacional!”. E não é que em vez de continuar zangado… sorri, subindo mais um degrau!?



© Jorge Nuno (2015)

03/01/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (1) - Sem Rosto e Sem Rasto




CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO


I - Sem rosto e sem rasto.



Depois do que vi ontem num canal noticioso da TV, vi-me impelido a levantar-me cedo e procurar obter uma consulta no meu médico de família. Fora da vidraça, o habitual cinzentão, bem escuro, recortado pelos focos de luz das torres de iluminação da rotunda. Entretanto, os seus sensores avisam que o dia começa a clarear a bom ritmo e apagam-se as luzes. Preparo-me para sair, sem tomar o pequeno-almoço, apesar de adivinhar que a manhã irá ser longa. Procuro o comando do portão da garagem, não a encontro e, sem demoras, decidido, inicio a caminhada, a pé.

 Já na avenida, reparo que o sol está a nascer, pintando, com cores exóticas, o negro das nuvens que teimam em persistir há demasiado tempo. Tudo depende da forma como olhamos. Eu prefiro fixar-me no belo das partes multicoloridas, de tons dourados, relegando o negro das nuvens a um mero contraste. Olho mais para cima e vejo o rasto deixado pelos três aviões da Força Aérea, presumindo tratar-se de treino de voo e/ou controlo do espaço a aéreo, junto da fronteira, a muito poucos quilómetros da cidade. Era algo agradável de ver. Aqueles rastos – seis linhas retas –, pareciam uma pauta de música. Apesar das pautas só apresentarem cinco linhas, ocorreu-me que os pilotos estariam a compor uma canção tripartida para embalar cada uma das suas mais-que-tudo. Apenas faltava colocar-lhe umas quantas breves, semibreves, colcheias e semicolcheias, já que com mínimas e semínimas seria uma composição mais complexa, para estes pilotos enamorados. Enquanto caminho, viro-me algumas vezes para trás, para apreciar este céu bonito e invulgar.

Chegado ao Centro de Saúde, deu-se o que esperava. Neste “reino maravilhoso” – apesar da crise instalada –, há sempre lugar para mais um à mesa, assim como mais uma consulta de clínica geral, sem marcação! Depressa ouço o meu nome no altifalante, levanto-me e dirijo-me ao gabinete para a triagem. A enfermeira “Popota” – como lhe chamo em surdina – mede-me a tensão arterial, pesa-me e mede o meu perímetro abdominal. Nesse momento toca o meu telemóvel, que desligo, de imediato. A “Popota”, que tem tanto de excesso de peso, como de zelo e simpatia, diz: – Mesmo a propósito! Tenho um telemóvel igual e tem aí uma aplicação que devia usar, pois faz a gestão das calorias, dando indicação do número de passos dados ao longo do dia, para poder perder peso! Por acaso usa esta aplicação? Olhe que deve… pois está a ficar pesado demais!

Fiz um gesto de negação com a cabeça e ela toma a iniciativa de programar a aplicação, dizendo-me que devia fazer, no mínimo, 10.000 passos por dia.

Já regressado à sala de espera, entre “ais” de dores físicas crónicas e de dores emocionais, decorrentes da solidão e da atual crise, ouço comentários pouco abonatórios. Entre os menos deselegantes, podia-se ouvir: “parece que anda tudo doido!”; “deve ser algum vírus que anda no ar.” ou “parece o fim do mundo!”.

O médico ouve as minhas queixas relativas a esquecimento, desvaloriza, dizendo que é próprio da idade e aconselha-me a beber mais água, fazer caminhadas, algum esforço para manter bem ativa a parte intelectual, e descomprimir – procurando não me deixar contaminar pela situação envolvente… –, e manda-me fazer umas análises.

Regresso a pé, olho para o céu, como que à procura de colírio para os meus olhos, mas tudo era diferente. Apenas se viam nuvens negras e os paralelos rastos dos aviões tinham-se dissipado completamente. Passo pelo laboratório de análises, colhem-me algum sangue, e dirijo-me à pastelaria, a uma hora já pouco própria para tomar o pequeno-almoço.

A televisão estava sintonizada num dos canais noticiosos e “martelava-se” em temas recorrentes, como seja o trabalho da comissão de inquérito nomeada pelo Parlamento para averiguar o caso do maior banco privado que foi ao “charco”. Sabe-se que por intervenção estatal foram separadas as “águas”, ficando um a ser um banco mau, “com ativos tóxicos, dívidas dificilmente incobráveis e operações de grande risco em offshores” e o outro, um banco bom, de cara lavada, com avanço de dinheiro dos contribuintes. Via-se os responsáveis pelas várias áreas de negócio a demarcarem-se, alegando “desconhecimento da situação” ou dizerem “não se lembrar…”.

A dona Laurinda, aposentada, que já era professora do ensino primário no tempo do Craveiro Lopes, resiste, firme, ao passar dos anos, e não parece estar esquecida nem dá provas disso. Frequenta aquela pastelaria pelo convívio e para ler diariamente o jornal. A seu lado tem a amiga, que vive com dificuldades – já a vi a mordiscar um bocado de pão, tirado da mala, para acompanhar com um copo de leite –. Ouço a ex-professora confessar que foi prejudicada e a dizer coisas como: “Como é que não se lembram? Estão só a atirar areia para os olhos.”; “Há muita gente sem rosto, que mexe os cordelinhos e faz o que quer.” ou “O dinheiro foi para onde? Não deixou rasto?”

Eu, que me sinto, cada vez mais, com falta de memória… comecei a fazer uma retrospetiva e passei a pente fino vários primeiros-ministros. Um deles, referiu: “Eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. Tanta firmeza de convicções deixou-me, na, altura cheio de dúvidas!… Uns anos mais tarde, não se lembrou e distorceu o valor das suas reformas. Um outro, candidato a primeiro-ministro, – e viria a sê-lo – em frente às câmaras de televisão, cometeu uma gaffe com os dígitos do PIB e sentiu-se embaraçado ao querer fazer contas de cabeça, sem conseguir, num assunto relacionado com o orçamento para a área da saúde. Outro, quando lhe acenaram com um cargo importante, esqueceu-se que tinha sido eleito há pouco e, não hesitou – foi embora – e lá, cometeu muitas gaffes, esquecendo-se que os governos dos estados-membros eram eleitos democraticamente e que este país vivia com imensas dificuldades, para ele promover projetos megalómanos e incomportáveis. Outro, esquece-se qual foi a importância que o amigo lhe “emprestou”, para poder pagar as suas elevadas despesas mensais. E outro, esqueceu-se quanto recebeu de uma pequena empresa de formação na margem sul, sob a capa de ONG, que não podia ter capacidade para lhe pagar aquilo que se diz ter recebido.

De seguida, passam na TV três breves notícias: uma, dava conta de se estar a comemorar o segundo ano da data prevista para o fim do mundo – que não ocorreu; outra, falava do arquivamento do processo do caso dos submarinos e, por fim, da Comissão Europeia que puxava as “orelhas” ao nosso governo, por estar a abrandar nas reformas previstas, mostrando discordância com o aumento do salário mínimo, previsto para 2015, por entenderem que os cidadãos deste país estão a viver acima das suas possibilidades.

A dona Laurinda vira-se para a amiga e diz – Oh Tila, e estavas tu já a fazer o molho à vaca e a vaca no lameiro! Resposta da amiga, desconsolada – Agora… mesmo que venham com a carrinha, não vou votar!

Não me esqueço de pagar e saio da pastelaria, com a ideia que afinal não é assim tão complicado esquecer (ou não saber) onde estão as chaves do portão da garagem. Abro a tampa do telemóvel e reparo que já tinha dado 5075 passos, que corresponde a 4,0 km e um consumo de 217 Kcal. Não esqueço que há o teto de 10.000 passos a atingir. Lembro-me do rasto… Se eu ao fim de menos de três horas já não consegui ver o rasto dos aviões, como é que eles querem ver o rasto do dinheiro que voa? Enquanto caminho, vou dando uso sistemático ao cérebro – como é apologista o meu médico – e penso – Apesar de se terem esquecido de completar o túnel do Marão, a verdade é que desfizeram o IP4 para o transformar numa autoestrada que chega ao fim do mundo, – sem haver alternativa, caso seja portajada… –. Como o Douro está in e é navegável, se calhar ficaria mais barato desfazer um afluente para fazer chegar aqui os submarinos, e contruir uma Base Naval na cidade, que levaria ao desenvolvimento turístico da região. Como as águas seriam pouco profundas, até podia ser que se visse o rasto!...

© Jorge Nuno (2014)

02/12/2014

Natal que Seduz



NATAL QUE SEDUZ

Nazaré resplandecia
Com Arcanjo Gabriel,
Que em estranha sintonia
Transmitia a Maria
A voz do Deus d’Israel.

No seu ventre foi gerado
Filho à imagem de Deus.
Reis Magos, por Ele guiado,
Querem-nO glorificado
Entre os comuns dos plebeus.

Nesse NATAL, que seduz,
Um planeta moribundo
Ressuscita com a luz.
Em Belém nasce Jesus
Que há de guiar o mundo.

© Jorge Nuno (2014)