22/02/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (4) - Leaks Há Muitos, Seu Palerma!



“LEAKS” HÁ MUITOS, SEU PALERMA!



Há pouco tempo vi a notícia que “a RTP apoia o remake de três filmes portugueses clássicos: Pátio das Cantigas, Canção de Lisboa e Leão da Estrela.” Guardo uma boa lembrança de gags memoráveis nesses filmes, com atores de primeira linha. Ficou retida, para sempre, uma cena do “Pátio das Cantigas”, na “loja do Evaristo”, em que o Vasco Santana, no papel de Narciso, chegava à porta, pegava nos rolos de papel higiénico e dizia para o António Silva – o dono da loja: – “Oh Evaristo, tens cá disto?” –. Por que será que nunca nos cansávamos de ver as mesmas cenas desses filmes, mesmo que os passassem insistentemente na televisão? E por que será que não achamos piada nenhuma a outras cenas que se repetem diariamente na nossa vida coletiva, que entram pela nossa casa dentro, através da televisão, e que sentimos na “pele”?

Preocupado com o rumo que o mundo está a tomar, foi com natural curiosidade e interesse que li o livro “2032 A Nova Idade do Ouro – Uma Esperança Real para os próximos 20 Anos”. A autora – Diana Cooper –, descreve neste livro qual “será a evolução do mundo até ao ano de 2032, data-chave em que cada um de nós participará na ‘limpeza’ do planeta (…)” e afirma que em “apenas 20 anos, o mundo estará irreconhecível. Deixarão de existir governos e instituições financeiras, os telemóveis e a Internet tornar-se-ão dispensáveis e a consciência coletiva da humanidade será tão poderosa que reinará sobre a Terra a paz e a cooperação.” – Ora aqui está um bom plano de intenções para este planeta, restando saber se somos capazes de o cumprir – pensei de imediato, numa altura em que ouço o romancista alemão Günter Grass, prémio Nobel da Literatura, lamentar “que haja na Europa uma falta de líderes capazes de manter a paz” e questionar se “a III Guerra Mundial não terá começado” embora de “forma distinta dos conflitos do século XX”, pois atualmente a internet "permite o bloqueio de sistemas completos", que levam a guerras económicas, “paralelamente aos conflitos bélicos como os que observamos na Ucrânia, Síria e outros países".

Reflito sobre o livro e sobre a notícia e ocorre-me, de imediato, a maior falência nos Estados Unidas da América – Lehman Brothers Holdings Inc. – um banco de investimentos e provedor de serviços financeiros, cuja falência, em 2008, foi desvalorizada e teve consequências desastrosas em todo o mundo, incluindo no “Velho Continente”. A seguir, como os dois anteriores governos resolveram o problema de bancos portugueses com dinheiro dos contribuintes e, mesmo assim, não evitaram a “queda” do BPP- Banco Privado Português, do BPN – Banco Português de Negócios e do BES – Banco Espírito Santo, com consequências gravosas para depositantes e pequenos investidores.

No sentido de dar visibilidade e transparência a várias atividades, tanto bélicas como económicas, através da denúncia, foi criado o WikiLeaks, sendo o australiano Julian Assange um dos nove membros do conselho consultivo, editor-chefe e porta-voz do WikiLeaks, baseando-se alguma informação divulgada através do trabalho de hackers. Por essa atividade, digamos ilegal, foram-lhe atribuídos o Sam Adams Award e o Index on Censorship do The Economist em 2008, foi considerado o "homem do ano" pelo jornal francês Le Monde em 2010, e em 2011 o seu nome consta na revista Time, como “um dos 100 mais influentes do planeta”, sinal que a informação tem um papel importante na humanidade.

Por contágio, surge o TugaLeaks – “órgão de comunicação social que publica informações que não são divulgadas pelo mainstream media”, dizendo que se pautam “pela liberdade de opinião e de informação bem como apreciamos o poder de cada cidadão em contribuir ativamente para uma notícia”, sendo feitas denúncias regulares, nesse site, de situações supostamente anómalas. Contudo, não seria preciso o TugaLeaks para relançar, por exemplo, a questão do arquivamento do “Caso dos Submarinos”, em que o Ministério Público evidenciou dificuldades na obtenção de prova quanto “à circulação e ao destino final do dinheiro pago pelo construtor alemão à ESCOM”, mesmo sabendo-se quem usufruiu de 27 milhões de euros, distribuídos por um número restrito de pessoas, quem foram essas pessoas, e que só foram declarados ao fisco pouco mais de 10 milhões – o resto, terá sido encaminhado “via ESCOM UK/BES Cayman/UBS para um fundo nas Bahamas, o Felltree Fund”, segundo a Visão n.º 1144, de 2 a 11/2/2015. A propósito de Portugal, a Diana Cooper refere no citado livro: “As pessoas aqui, como em muitas partes da Europa, estão desiludidas com a corrupção moral dos seus líderes e empresas. Elas começam a questionar e esse aumento de consciência exigirá mudança”.

Muito recentemente, deu-se um escândalo financeiro de repercussão em todo o mundo, que envolve a filial suíça do banco HSBC – um banco britânico, com sede em Londres e subsidiárias em todo o mundo –, despoletado por documentos secretos, ficando a saber-se que “a instituição financeira atraiu 106 mil clientes, entre suspeitos de ocultar dinheiro / fuga ao fisco e de diversos crimes (incluindo traficantes e terroristas) em 203 países, entre os anos de 1988 e 2007”. O caso foi apelidado de “Swiss Leaks” (também numa alusão ao WikiLeaks) e mostrou-nos uma “imaculada” Suíça como a maior lavandaria de dinheiro do mundo, que agora treme com a intensidade de um forte terramoto, com muitas réplicas. Devido a fortes pressões internacionais, a gigantesca UBS – União de Bancos Suíços viu-se obrigada a quebrar a promessa de segredo bancário dos seus clientes, podendo fazer desmoronar completamente todo o sistema, quando os depositantes estrangeiros constatarem que o seu “nome” não tem garantias de ficar oculto, nem dos seus herdeiros de levantarem as respetivas fortunas, tanto na Suíça como noutros paraísos fiscais.

Pelos jeitos que isto leva, em termos de sistema financeiro, provavelmente as profecias de Diana Cooper irão realizar-se dentro do prazo previsto. Também o remake dos tais três filmes clássicos poderá dar um contributo para tal. Como deixaram transparecer, no remake do filme “Pátio das Cantigas”, que a loja do Evaristo será agora uma loja gourmet, ocorreu-me deixar aqui uma sugestão e dar atualidade à emblemática cena da “Canção de Lisboa”, no Jardim Zoológico de Lisboa, com o patusco, boémio, cábula e falso doutor de girafas, leões e de outros animais – Vasco Leitão –. Que essa cena se faça em frente à Procuradoria-Geral da República, com o ator substituto do papel do Vasco Santana a dizer, repetidamente: – “Leaks há muitos, seu palerma”!



© Jorge Nuno (2015)




30/01/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (3) - A Lucidez do Embriagado

A LUCIDEZ DO EMBRIAGADO

Já na rua, bem agasalhado, sozinho, começo o meu habitual passeio pedestre, que tanto pode ter de saudável como de doentio – quando em esforço, ultrapasso a dúzia de quilómetros –. De repente, sinto um arrepio eletrizante na coluna, que se expande em frações de segundo por todo o corpo. Não, não é influência do intenso frio nesta manhã de inverno. Apenas o relance do sonho quase a esfumar-se e, que com algum esforço, tento recuperar, depois de ter acordado há uma hora atrás. Havia uma aranha negra a trabalhar a sua teia e muito dinheiro a voar. Viam-se euros, yenes, libras esterlinas, dólares americanos, riais sauditas, rublos, yuans, francos suíços, shekels e papel-moeda de muitos outros países. A movimentação do dinheiro não era desordenada, como no caso da noite de Natal em Hong Kong, quando se abriram as portas traseiras de um carro de transporte de valores, com quase quinze milhões de dólares americanos, espalhando as notas por uma movimentada avenida e que muitos aproveitaram para recolher e, honestamente, entregar às autoridades, enquanto que outros, embora não comemorando o Natal, terão pensado tratar-se de uma ”prenda” que podiam levar para casa. A movimentação das notas era algo semelhante a um tapete voador, das histórias das “Mil e Umas Noites”. As notas voavam ordenadamente, como quem não tem pressa de chegar, com uma direção precisa, num único sentido, ondeando ligeiramente, sendo mais evidente nas pontas.
Durante o percurso, costumo fazer uso da contemplação, no contacto com a natureza, e vou tirando algumas fotos para reter o que vejo de interessante e de agradável, numa tentativa, natural, de começar o dia a relaxar, procurando abster-me das notícias desagradáveis com que sou bombardeado diariamente e que me provocam irritação… mas, por momentos, não resisto: vem-me à mente a falta de capacidade dos Serviços de Urgências dos Hospitais, onde morrem pessoas por falta de assistência e as declarações da DGS num dos balanços da gripe, onde se ficou a saber terem morrido mais 1900 pessoas nas duas primeiras semanas do ano do que em igual período do ano passado, denotando o SNS estar a acusar os cortes e a evidenciar falta de meios, conduzindo ao recurso das urgências do setor privado.
Consigo desviar a atenção das “desgraças”, ao parar junto de uns arbustos – azevinho – sentindo-me deliciado com as folhas mescladas de verde e branco (de um pouco de neve que ainda restava) e o contraste das bagas vermelhas. Prossigo a caminhada, numa passada tão vigorosa quanto o trilho e o físico permitem, e vem à mente o sonho com o dinheiro a voar. – Mas o dinheiro nem era meu!... – penso, quase numa tentativa de voltar a desviar do pensamento o que queria evitar. Depois, volta à baila a aranha negra. Pensando bem, afinal, parece-me que não haverá motivos para ficar preocupado, pois as aranhas podem assustar… mas o seu simbolismo, no sonho, está associado à criatividade, que algo me poderá estar a inspirar, pelo que devo corresponder a esses impulsos criativos. E ver a aranha a tecer a teia poderá significar que serei recompensado pelo meu esforço. Sinto-me um pouco mais tranquilo e lembro-me de um pequeno texto que escrevi em 2012, pondo-me a recitá-lo alto, enquanto caminho.
“A ARANHA
Estes aracnídeos são feios, assustam, matam.
Estes aracnídeos repugnam.
Sabem produzir seda para a construção das teias.
Sabem como construir teias.
Sabem como construir teias resistentes.
Sabem como construir teias resistentes a climas adversos.
Sabem esperar pelas vítimas.
Os membros do Clube de Bilderberg também.”
Volta tudo à primeira forma, pois dá-se um clique e lembro-me do dinheiro a voar no sonho e junto as peças do puzzle, com o Clube de Bilderberg – o clube secreto, como sendo a “mão invisível” dos poderosos que operam na sombra e controlam e orientam decisões em todo o mundo. Alega mesmo a jornalista e escritora sevilhana, Cristina Martín Jimenez, depois de exaustiva investigação, que se deu um ataque financeiro planeado a Portugal e que há uma intenção clara, daqueles, em contribuir para que se retire aos países a capacidade decisora (leia-se: perda de soberania), esvaziando o poder democrático.
Há quem não tenha dúvidas que Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor-geral do FMI, nomeado para o cargo após indicação do Clube de Bilderberg, foi vítima de uma conspiração construída ao mais alto nível por se ter tornado uma ameaça crescente aos grandes grupos financeiros mundiais. As suas declarações, como a necessidade de regular os mercados e as taxas de transações financeiras, assim como uma distribuição mais equitativa da riqueza, assustaram os que manipulam, especulam e mandam na economia mundial, tornando-se, por isso, a sua “sentença de morte”. Através do relatório da ONG britânica Oxfan, certamente saberia que os oitenta mais ricos mundo têm tantos ativos como os 3,5 mil milhões de mais pobres (recentemente, é indicado que em 2016 o 1% mais rico terá mais de 50% dos ativos existentes no mundo); que os setores que mais cresceram e que compõem a riqueza do 1% são, fundamentalmente, os das finanças, dos seguros, seguindo-se os da saúde (serviços médicos e indústria farmacêutica), que investem muito em lobbying; saberia que, através de um órgão das Nações Unidas, a riqueza mundial estava concentrada nas mãos de um número restrito de pessoas e que o fosso aumentava a um ritmo alarmante e que se essa renda mundial fosse distribuída de uma maneira equitativa, cada cidadão disporia de ativos na ordem dos 21 mil dólares americanos.
“Esta” democracia grega e o líder do Syriza, recém-empossado primeiro-ministro grego (mesmo fazendo uma estranha coligação com o pequeno partido nacionalista de direita “Gregos Independentes”, para ter maioria no parlamento), será fonte de enorme inspiração para cidadãos de outros países que se querem livrar das “garras opressoras”. É, simultaneamente, uma forte preocupação para aqueles que detêm excessiva importância na União Europeia e nos meios financeiros mundiais e, como tal, poderá ser um alvo a abater. É que o Alexis Tsipras fez a afronta, na campanha eleitoral, de dizer “não a mais resgates, não a mais submissão, não a mais chantagens”, quer correr imediatamente com a troika, acha que os governantes devem trabalhar em prol dos cidadãos que os elegeram e não devem desmerecer essa confiança e, ainda por cima, escolheu para ministro das finanças um economista que é conhecido pelas suas posições de recusa de mais austeridade no país. Logo após serem conhecidos os resultados, do FMI, do Bundesbank e do ministério das finanças alemão, surgiu logo a chuva de avisos que “o apoio económico externo só continua se forem cumpridos os acordos”. Logo após a tomada de posse, o primeiro-ministro grego respondeu com uma visita, cheia de simbolismo, ao monumento às vítimas dos nazis em Atenas.
Ia nas cogitações sobre as desigualdades sociais como geradoras de conflitos e nas supostas lutas religiosas… quando passo, a caminho de casa, ao lado de um “snack-tasca”, procurado tanto pela bebida como pelas saias, e vejo um conhecido sujeito, visivelmente embriagado, a cambalear, apesar de ter um braço na parede e estar a ser segurado por uma das “meninas” que ali trabalha – sujeito que já tinha visto noutra altura, igualmente naquele estado, a ser segurado por três “meninas”, que o impediam de entrar na sua velha viatura, de um vermelho descorado, cuja matrícula não lhe permitiria circular no centro da cidade de Lisboa (caso lá quisesse ir), mas que nem conseguiria avançar os oitenta metros até à primeira rotunda, tal o seu estado. Desta vez, arrastava a fala e dizia, repetidamente, para quem queria ouvir: “Abre os oooolhos muuuula! Abre os oooolhos muuuula!...”.
Que lucidez!

© Jorge Nuno (2015)

22/01/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (2) - Os Degraus da Felicidade




CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO



II – Os Degraus da Felicidade



No segundo dia do ano, bastante cedo, apanho o autocarro – como opção de transporte –, apesar de me desagradar as quase três horas e meia de viagem para percorrer 210 kms. Reparo que em cerca de quinze minutos terei olhado para o relógio umas dez vezes. Mostro-me agastado pelo facto de não haver aquela valência na cidade e ter que me deslocar ao Porto. Porque me estava a sentir menos bem, decido esquecer os aspetos desagradáveis e a fixação no destino e gozar o resto da viagem, apreciando a paisagem, que tanto pode ter de agreste como de bela. Tudo dependerá de como os nossos olhos e a nossa mente a querem ver. Como que por encanto, tudo se torna mais esbatido e suave, depois da segunda paragem, quando entra um passageiro e se senta junto de mim. Este, de imediato, mostrou ser uma pessoa positiva, alegre e boa conversadora e a conversa e o tempo fluíram agradavelmente.

Chegado ao destino, compro um jornal e dirijo-me à conhecida clínica portuense. À entrada da receção, faço o check-in automático, numa máquina, e desloco-me ao balcão, onde transbordava simpatia. Ofereceram-me uma revista e chamaram uma auxiliar para me acompanhar à sala de espera. Já sentado, vejo tratar-se de uma revista que é propriedade do próprio grupo, na área da saúde – embora editada no verão passado –. Apesar de ter um jornal para ler, folheio-a com alguma curiosidade. Logo me deparo com um artigo sobre a “Felicidade” e que me parece muito interessante, já que mostra o perfil de um português feliz, numa altura em que me parece que anda tudo com cara de enterro. Ao folheá-lo, destaco coisas como: “As pessoas felizes são 12% mais produtivas” [dados do Departamento de Economia da Universidade de Warwick (Reino Unido); “(…) a existência de hábitos saudáveis antes dos 50 anos traduz-se no aumento de uma saudável e feliz longevidade. Não ter vícios e fazer exercício é importante mas, a forma como contruímos as relações sociais, é determinante para se viver mais tempo” [“Harvard Study of Adult Development”, estudo efetuado nos últimos 72 anos por investigadores da Universidade de Harvard]; George Vaillant, diretor do anterior estudo nos últimos 40 anos, acredita que “um envelhecimento bem-sucedido não está mais dependente das estrelas ou dos nossos genes do que da nossa vontade”; “O humor é uma forma de lidarmos com os conflitos” [Scott Weems, neurocientista cognitivo americano]; “O humor é um ingrediente fundamental para a felicidade. (…) Tenho uma predisposição para ver o sentido cómico das coisas. Alivia a tragédia e coloca a vida noutra perspetiva. [Francisco Gomes, copy e contador de histórias]; “O ser humano tem a capacidade de alterar a forma como vê o mundo, de maneira a sentir-se melhor com a situação em que se encontra” [estudo apresentado pelo departamento de Psicologia de Harvard].

Faço uma pausa para refletir. – Espera lá… mas foi isso que eu fiz, quando vinha no autocarro. Senti que tinha que infletir a tendência de má-disposição, de neura…, e ainda por cima no início do novo ano. A verdade é que consegui e passei a sentir-me melhor. Aquela relação ocasional, de pouco mais duas horas, com uma pessoa bem-disposta, ajudou muito.

Retomo a leitura e vejo alguns dados apresentados, que decorriam de um estudo intitulado “A Avaliação Subjetiva da Felicidade dos Portugueses" - estudo de 2010, realizado por dois membros da Comissão Científica da Associação Portuguesa de Estudos e Intervenções em Psicologia Positiva, com entrevistas feitas a 1033 portugueses de ambos os sexos, a residir em Portugal Continental, com idades entre 16 e 55 anos. Neste estudo estiveram também envolvidos a Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha. Pode ler-se: “Mostram-nos os estudos que os que constroem diariamente a felicidade tendem a ser altruístas e não egoístas, atentos ao bem-comum, cooperativos, pacifistas, confiantes nos outros, mais tolerantes e democráticos e companhias agradáveis”. A minha primeira reação é – Está mal! Deviam ter introduzido mais dois escalões etários: dos 55 aos 65 anos e mais de 65 anos, porque seria interessante auscultar este grupo populacional, até mesmo esquecido para efeitos de estudo –. Sinto alguma irritação e, de imediato, foco-me nos aspetos positivos do estudo, até ser chamado, e dirijo-me ao gabinete médico, onde fui atendido com eficácia e cortesia.

No regresso, já de noite, sem companhia ao lado e sem poder apreciar a paisagem, revi mentalmente o artigo sobre a “Felicidade” e dos degraus que têm que se subir para a alcançar, ou melhor, construir. – Se calhar até nem é preciso muito esforço, para ir subindo uns degraus – penso. Vêm à mente os interesses das multinacionais e do neoliberalismo de garras afiadas, entranhados nos atos de governação e de gestão – como forma de pressão –, em campanhas bem oleadas de Marketing, que fazem crer que a felicidade advém do “ter”, bem ao jeito de quem se deixa enrolar facilmente pela ilusão e pela ambição descontrolada, mesmo com cortes nos salários e pensões. Em vez do PIB, porque não se adota, no ocidente, o conceito de FIB - “Felicidade Interna Bruta”, criada pelo rei do Butão, baseada no princípio de que “o verdadeiro desenvolvimento de uma sociedade humana surge quando o desenvolvimento espiritual e o desenvolvimento material são simultâneos, assim se complementando e reforçando mutuamente”?

Com pouca luz e trepidação do autocarro, abro finalmente o jornal e, enquanto vou virando páginas, deparo-me com notícias como: “Passagem de Ano na Madeira – 1, 046 milhões de euros em fogo de artifício, gasto em 8 minutos”; “Acidentes nas estradas portuguesas provocam 480 mortos em 2014”; Evaporou-se o BES e metade da PT. Bolsa portuguesa perdeu 27%”; “Segurança Social publica lista de funcionários que serão colocados na requalificação”; “Falta de pagamento do Estado deixa alunos da educação especial sem aulas e pais desesperados”. Era inevitável: fico fulo, ainda mais por me sentir impotente perante estes factos, o que me faz descer novamente os degraus da felicidade, num dia que estava, claramente, a subi-los!

Para corrigir este estado anímico, lembro-me da oração de São Francisco de Assis: “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra.” Logo de seguida, lembro-me do outro Francisco, o Papa – que conhece seguramente esta oração –, que parece tudo querer fazer para mudar o que está mal, começando pelo Vaticano, e consegue manter um desconcertante sentido de humor, confiança no caminho da mudança e um otimismo galvanizador, que pode ajudar a chegar a essa mudança. Por uma rápida sucessão de ideias, chego ao falecido psiquiatra norte-americano – Milton Erickson –, que era muito espirituoso e usava contos e anedotas para provocar mudanças substanciais nos seus pacientes. Enquanto o autocarro rola a boa marcha na A4, reflito: “Se calhar é por isso que há tanta anedota no Governo, no Banco de Portugal, na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no Fundo Monetário Internacional!”. E não é que em vez de continuar zangado… sorri, subindo mais um degrau!?



© Jorge Nuno (2015)