15/04/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (7) - Obrigado, obrigado, obrigado.



TRÊS VEZES: OBRIGADO, OBRIGADO, OBRIGADO!



Desde a minha juventude que me vejo como um homem que transpira positividade. Não é alheio o facto de dar importância à experiência de vida, que conta com seis décadas, sendo raras as vezes que fico a queixar-me. É que muito cedo aprendi algo da sabedoria milenar chinesa – um provérbio, que diz: “É melhor acender a candeia que queixar-se da escuridão” –. Como qualquer mortal, também vou tendo as minhas fraquezas, mas que procuro aprimorar, aproveitando as “quedas do cavalo para sacudir o pó e voltar novamente para a garupa do cavalo” o mais rápido que posso. Também não é alheio o facto de ser um leitor que tem sempre um bom livro por perto, como aconteceu com: “A Divina Sabedoria dos Mestres” de Brain L. Weiss, que aponta o amor como “a energia mais básica e, ao mesmo tempo, a mais universal” e dá pistas de como se encontrar o equilíbrio certo, colocando o amor no centro desse equilíbrio; “Energia Positiva – como livrar-se dos vampiros emocionais”, de Judith Orloff, considerando o USA Today tratar-se do “livro ideal para lidar com problemas profissionais, stresse e todas aquelas pessoas que nos sugam a energia”; “Inteligência Positiva – o novo quociente de inteligência”, de Shirzad Chamine, que segundo The Globe and Mail é “um método para combater as armadilhas mentais” e segundo a própria autora – docente e investigadora no campo da neurociência e da psicologia – “ao criarmos hábitos de pensamento negativo, criamos tendências de autossabotagem (…) que nos impede de atingir o verdadeiro e pleno potencial [intelectual e emocional]”; “Emoções Destrutivas e Como Dominá-las”, de Daniel Goleman, que dá algumas respostas, após um encontro de estudiosos budistas, filósofos, neurocientistas e psicólogos ocidentais com o Dalai Lama, sendo que uma das perguntas é: “Podemos aprender a viver em paz com os outros e com nós mesmos?”; Em “A Magia”, Rhonda Byrne revela ao mundo “ensinamentos transformadores. E, a partir daí, numa assombrosa viagem de 28 dias, mostra como aplicar esses ensinamentos à vida quotidiana [de qualquer um de nós]”.



Tenho reparado, ultimamente, na minha performance e fica a sensação de algum azedume, particularmente quando escrevo e depois releio as minhas crónicas. Não é fácil a convivência com a injustiça e com uma série de fatores que, com maior ou menor incidência, acaba por nos afetar e retira algum prazer nesta fabulosa viagem, que é a vida. Habituei-me a enfrentar os problemas com alguma elevação, muita ironia e até humor negro (sem qualquer conotação rácica), um humor avinagrado (sem pretender azedar ainda mais o tema abordado) e, naturalmente, gosto de escrever, pois sei que desta forma tenho a oportunidade de poder dar contributos para o despertar de consciências adormecidas.



O citado livro da Rhonda Byrne menciona e explora uma mensagem do Evangelho de São Mateus, que diz: “Pois, àquele que tem, ser-lhe-á dado em abundância. Mas àquele que não tem, mesmo o que tem lhe será tirado”. A frase confunde e aparenta injustiça, pois parece querer dizer que os ricos ficarão ainda mais ricos e os pobres ficarão ainda mais pobres – o que em boa verdade está a acontecer neste e em muitos outros países. Este enigma fica descodificado se a frase for a seguinte: “Pois, àquele que tem gratidão, ser-lhe-á dado em abundância. Mas àquele que não tem gratidão, mesmo o que tem lhe será tirado”. Visto por este prisma, se parece que me estou a tornar velho… e ainda, por cima, rezingão, a aproximar-me do personagem “Grou – o maldisposto”, só há uma volta a dar: tornar-me grato, grato, grato! Dentro da positividade (mas também ironia) que me carateriza, vamos acreditar que este processo funciona e parto para o terreno retirando a carga negativa do que me apoquenta:

1 – Estou grato pelos pescadores portugueses da sardinha, que depois de estarem tantos meses em terra sem poder pescar, após uma auditoria pela Intertek Moody Marine – um certificador independente – a sardinha capturada em águas portuguesas passa a estar certificada, podendo apresentar o rótulo ecológico azul do MSC – programa líder de certificação ambiental para a pesca selvagem –, quando puderem pescar. Obrigado;

2 – Estou grato pelo zelo dos deputados do Parlamento Europeu, que tendo problemas muito sérios para resolver, ainda conseguiram tempo para aprovar um documento que uniformiza as sanitas no espaço europeu, estando em crer que a partir de agora o ato de defecar, em igual utensílio a utilizar por pobres e ricos, ficará mais suavizado. Obrigado;

3 – Estou grato por terem sido mandadas abater muitas dezenas de milhares de árvores afetadas pelo nemátodo, entre castanheiros, cerejeiras, pinheiros e outras resinosas, na região transmontana, e estou grato por uma equipa de investigadores franceses ter descoberto que o nemátodo pode ser atacado através de infeção viral. No primeiro caso, até pode ser que finalmente origine o reordenamento da floresta, reduzindo a proliferação de incêndios. E, quem sabe, até algum iluminado descubra como repovoar a Terra Fria com tamareiras, que dão um fruto que adoro. Obrigado;

4 – Estou grato pela intenção do governo português em adquirir o navio polivalente logístico francês “Siroco”, por responsável da Marinha Portuguesa não saber de onde vêm os 30 milhões para a compra, para depois se afirmar que estão “acomodados” em termos orçamentais e que a compra é uma oportunidade e, ainda pelo Ministério da Defesa já ter garantido os 80 milhões necessários, mesmo sabendo-se que o navio terá um gasto diário de € 22.000, a navegar. Prova-se que afinal o Estado está mesmo de cofres cheios. Mas se alguma coisa não correr conforme o previsto, sempre pode ser colocado na doca seca da Margueira, ao lado do submarino “Barracuda” e da fragata “Dom Fernando II e Glória”, rendendo uns cobres. Obrigado;

5 – Estou grato pela atual tosse persistente – um reflexo natural do meu fabuloso aparelho respiratório, perante uma irritação – facto que é benéfico, pois ajuda a expulsar, quase a 100 kms por hora, secreções indesejáveis ou corpos estranhos, impedindo que se alojem nos meus pulmões. Obrigado.



Segundo Rhonda Byrne, deveria fazer uma lista diária de 10 bênçãos, durante os 28 dias, mostrando a minha gratidão – o que seria facílimo – mas apenas quero mostrar que o método funciona e que podemos ser mais simpáticos e menos rezingões.

Para o trabalho ficar completo, só me falta dizer três vezes: obrigado, obrigado, obrigado.



© Jorge Nuno (2015)

23/03/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (6) - Não Há Coração Que Aguente!



NÃO HÁ CORAÇÃO QUE AGUENTE!



Ainda de manhã, faço algo inusitado: sentar-me confortavelmente na sala, de comando na mão, em frente ao televisor. Há cerca de 17 horas que trago comigo o equipamento para fazer um exame, denominado M.A.P.A. – Medição Ambulatória da Pressão Arterial e, intimamente, procurei serenar, para eu próprio ver a diferença – medida ao minuto – face à situação durante o horário dos telejornais do dia anterior. Assim, procurei uns momentos de relaxe frente ao canal Pure Screens HD. A filmagem resultava de uma câmara estática, numa paisagem luxuriante junto a águas serenas, tendo como som de fundo, permanentemente, um ligeiro marulhar da água e o alegre canto de pássaros. Não sei quanto tempo estive assim… mas, se fossem cinco minutos, deu para ficar com uma sonolência pouco recomendada para quem tinha acordado há pouco mais de duas horas.

Resolvo então mudar de canal. Em vez de fazer um zapping comum, prefiro uma escolha aleatória, utilizando, manualmente, dois ou três dígitos. Vai-me saindo na “rifa” o seguinte:

Cubavision – “El Campeonato Mundial de Ajedrez disputado entre Capablanca y Lasker”, velho documentário, a sépia, baseado em imagens paradas, com recortes de notícias de jornal, mostrando o “júbilo popular” pelo triunfo do cubano Capablanca, que havia desafiado e vencido o campeão em título, nos idos anos de 1921. Tudo demasiado parado e igualmente a vontade de dormir.

IHTEP+ [ucraniano] – Indícios de ser uma telenovela, com cena numa grande cozinha despida de móveis, legendado em cirílico e com diálogos calmos, como se calmo estivesse o país, em mais um dia de ataque dos separatistas pró-russos no sul e leste da Ucrânia.

BNT World [búlgaro] – Debate, com vários comentadores, tendo um ecrã de fundo com um velho documentário, a preto e branco, e movimentação de tropas no tempo do Estaline. Seria um “Prós e Contras”, relacionado com o desmembrar da União Soviética?

CCTV4 [chinês] – Desfile glorioso de equipamento bélico, em largas avenidas, duplamente legendado em mandarim e em inglês. Afirma-se a pretensão de transformar o país na terceira potência nuclear.

Playboy TV HP – Oops!... Fundo negro, contendo: “Conteúdo para adultos bloqueado” e, num canto, a coelhinha vermelha.

Globovision [venezuelana] – O presidente da República Bolivariana da Venezuela discursa numa grande avenida, perante milhares de camisas vermelhas, tendo um cartaz de destaque: “Unidade Nacional Contra La Agresión Imperialista”. Lembrei-me que na Roménia, no tempo de Nicolae Ceausescu, também todas as viaturas eram vermelhas!

ARTV [português] – Programa gravado, aborda-se a Reunião Plenária na Assembleia da República, com declarações políticas. Não quis ouvir, baixei o som e fiquei um minuto a tentar saber o que dizia a senhora em linguagem gestual, no canto inferior direito do ecrã. Não sei por quê, mas parecia-me que ela fazia gestos feios. Lembrei-me que ela era apenas uma tradutora e sosseguei.

Odisseia – Num dos episódios de “Teorias da Conspiração”, aponta-se uma infraestrutura governamental [dos EUA] que pode destruir o mundo, de nome H.A.A.R.P. – High Frequency Active Auroral Research Program. Ocupa 14 hectares, tem mais de 160 redes de antenas ligadas entre si e tem um transmissor de 3,6 milhões de watts que emite ELF ou ondas de frequência extremamente baixa para a ionosfera. Segundo meios governais é uma estação de investigação para estudar a ionosfera e os seus efeitos nas transmissões das ondas de rádio. Aponta-se uma patente, associada ao projeto, que denota ter fins militares, já que coloca uma quantidade sem precedentes de energia na ionosfera, o que pode ser considerado uma arma, por ser um modificador meteorológico, afetando o ambiente — prejudicialmente e de modo extremado — sendo mesmo possível abrir buracos na atmosfera, de forma a enviar radiações solares letais contra o inimigo, deixando-o, literalmente, frito! Fiquei a saber que havia uma estação semelhante na Rússia, o que deixa antever um possível descontrolo da situação, face ao potencial de destruição. Este canal televisivo prossegue com o caso dos “Chemtrails”, com os aviões militares norte-americanos a deixarem um rasto de nuvens entrelaçadas nos céus, uma forma de aspergir químicos para a atmosfera, confirmando os círculos governamentais dos EUA que estão a espalhar óxidos metálicos apenas para fins de investigação e que não estão a causar danos, deixando em polvorosa tanto cientistas como opositores ao projeto, que acham tratar-se de testes a mais uma nova arma… Já não quis ouvir mais! E mudo, diretamente, para canais noticiosos portugueses, que tenho memorizados.

Coincidência!… Um destes canais mostra um gráfico e o volume de negócios relacionados com o armamento convencional. 402.000 milhões de dólares [USD]! A larga fatia de 56% vai para os EUA, 11% para o Reino Unido, 8% para a Rússia (com a Rússia a ter um aumento de 20% entre 2012 e 2103), 6% para a França… Lembro-me que para vender armamento há que criar conflitos.

Outro canal aborda a “Lista VIP de Contribuintes” e as recentes demissões de responsáveis na área do fisco. Não fiquei admirado, pois: as longas listas de espera para cirurgias originaram demissões; as longas listas de espera nas urgências levaram, igualmente, a que vários diretores se demitissem; as listas relacionadas com os “Vistos Gold” levaram a detenções e afastamento do cargo; as listas de pedófilos, que podem ser consultadas pelos pais das vítimas, imagino a que conduzirão; e agora … nestas listas VIP, mais demissões!

Outro canal mostra o PM a mostrar-se admirado com a admiração da oposição pela afirmação que “temos os cofres cheios”.

Outro canal passa um anúncio promocional do Got Talent Portugal e lembrei-me que os portugueses votaram em massa para que dois mágicos com talento fossem à final.

Como sei que a dívida pública de Portugal, no final de 2013, era de cerca de 215.000 milhões de euros, situando-se em 129,4% do PIB, o que dá, aproximadamente, 20.000 euros por habitante, e como tenho conhecimento que a dívida tem vindo a aumentar, lembrei-me que provavelmente foram os assessores do PM – influenciados pelos resultados surpreendentes da votação no Got Talent – que lhe recomendaram dar um ar de magia, dando a sensação de que os cofres do Estado estão mesmo cheios, na perspetiva que nas próximas eleições o voto (não tendo o custo de chamadas de valor acrescentado) possa render.

No entanto, tenho uma dúvida. Daqui por uma semana, quando o entregarem, não sei se vou conseguir ler o relatório do M.A.P.A., que neste momento estou a efetuar. É que não há coração que aguente!

©Jorge Nuno (2015)

10/03/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (5) - Aqui Há Gato!



AQUI HÁ GATO!

Há pouco mais de um ano li uma deliciosa história, vinda do Oriente, e atribuída ao mestre Zen Goso Hoyen, mencionado diversas vezes por Osho – mestre espiritual indiano, professor de filosofia e conferencista –.
Reza então o seguinte: O filho de um ladrão, ao ver que o pai estava a ficar velho e não poderia prosseguir por muito mais tempo aquela “arte”, pediu-lhe que o ensinasse, para que houvesse continuidade nos negócios. O pai terá concordado e saíram ambos para assaltar uma casa, naquela mesma noite.
Chegados à casa, o experiente larápio disse ao filho, enquanto abria uma arca – Mete-te aqui dentro e escolhe a roupa que quiseres –. Assim que ele entrou na arca, o pai fechou a tampa e trancou-a, impedindo o rapaz de sair. Como se isso não bastasse, o pai fez imenso barulho, com o propósito de acordar os moradores e depois saiu, sorrateiramente, em silêncio.
Compreensivelmente aterrado, o rapaz procurou uma forma de se livrar daquela situação e lembrou-se de imitar um gato. Perante o barulho anormal, seguido do miar do gato, o dono da casa disse à criada para ir ver o que se passava naquele compartimento. Ela aproximou-se da mala, de candeia em punho, e mal abriu a tampa o rapaz soprou a chama da candeia e fugiu, indo os moradores atrás dele. Ao ver um poço junta à estrada, o rapaz pegou num pedregulho, atirou-o para dentro do poço e escondeu-se próximo, a coberto da escuridão, enquanto os perseguidores pareciam conformados e satisfeitos com o afogamento do ladrão.
Chegado a casa, o rapaz mostrou toda a sua fúria pela atitude do pai, que tinha colocado em risco a sua vida, e quando se esforçava para explicar o que lhe tinha acontecido, o pai diz-lhe – Não precisas de me dar pormenores. Se estás aqui é porque aprendeste o ofício!

Lembra-me também o comentário cáustico à “parábola do bom e do mau ladrão” no Calvário, em que não poderia haver bom ladrão, pois ambos tinham sido crucificados. Se era bom ladrão porque mostrava não só arrependimento e fé, mas também sentimentos de justiça, caridade e até de coragem, deixava de o ser por ter sido apanhado.

Transportando para os dias de hoje, estamos a viver momentos conturbados, em que há um desacreditar total na política e nos políticos. Viu-se o que aconteceu com os defensores da democracia a quererem impor a democracia a outros povos, com culturas muitos diferentes, as quais aceitam naturalmente a autocracia, a oligarquia, a teocracia... Depois da borrada feita, é confrangedor ver o enorme e inglório esbanjar de recursos, materiais e de vidas humanas, para tentar – pela força das armas – dar um novo rumo ao planeta. É confrangedor observar o exemplo de muitas democracias ocidentes que se estão a tornar em verdadeiras cleptocracias - que literalmente se designa por “Estado governado por ladrões”, em que ainda relativamente jovens, alguns têm engenho e arte para aprender depressa e sem ser necessário a intervenção do mestre! E como é confrangedor observar que muitas vezes temos a atitude daquela criada, de candeia na mão, a abrir a arca, a facilitar… distraídos com o miar forjado do larápio, e deixamo-lo sair, sorrateiramente, como um bom ladrão, que nem arrependimento mostra. Apenas deixamos transparecer, com alguma candura – Aqui há gato!


© Jorge Nuno (2015)