03/06/2015

Invocação de Musas

INVOCAÇÃO DE MUSAS

Não quero remendar a dor na escrita,
E transportar, de dentro para fora,
Energias em busca de sentido.

Não sei se consiga invocar Calíope,
Com poder de transformar as palavras
Num turbilhão de poesia épica.
Talvez Polímnia ouça a minha prece
E lance tais feixes de luz dourada
Que revelem no papel o sagrado.
Quem sabe… Erato esteja disponível
E transforme fogo de romantismo
Em ternurentos poemas de amor.

Bastou falar de amor e o teu olhar…
Para ver que há tempestades perfeitas
E és a minha a fonte inspiradora.


© Jorge Nuno (2015)

02/06/2015

Gota de Orvalho

Gota de Orvalho

Quero sentir paixão no descobrir,
Mente sob alçada da consciência,
Sintonia com som da existência,
Despreocupação com o porvir.

Recrear-me, sem traços de aparência,
Deixar entrar a brisa e prosseguir
Com transparência no modo de agir,
Liberto da cultura de exigência.

Vou desgrenhar o cabelo grisalho,
Rir quando sair fora dos carris,
Gozar sem o conforto do meu galho.

Abdicar do que à força eu tanto quis,
E deixar rolar… qual gota de orvalho
Sobre folha, em manhãs primaveris.


© Jorge Nuno (2015)

01/06/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (11) - Insólitos à Volta da Urna

INSÓLITOS À VOLTA DA URNA

O striptease tornou-se tradição em algumas zonas rurais da China, por ocasião dos… funerais. Aos olhos dos ocidentais estas práticas, no mínimo, são vistas como estranhas. Será preciso um esforço suplementar para tentar compreender o que está por trás disto. Há a seguinte crença, por parte dos chineses: para que haja “boa sorte para o defunto” é importante haver muita gente no funeral e uma aparência alegre e festiva, não sendo importante que as pessoas presentes no funeral conheçam o recém-falecido!
Assim, desde banquetes e outros festins, avançou-se rapidamente para o striptease, em que muitas vezes a performance é feita em palco, com a projeção, em tela, da imagem do “homenageado”. Este tipo de serviço, fornecido por empresas especializadas, fica próximo dos € 300 e quase todos os dias do mês há trabalho.
No entanto, uma notícia recente do jornal oficial “China Daily” dá conta que o Governo chinês, através do Ministério da Cultura, vem “estragar a festa”! Não só reprova este tipo de shows nos serviços fúnebres, como diz serem “severamente castigados” os organizadores, a quem será aplicada também uma multa de € 10.500. Terá sido criada uma linha telefónica exclusiva, tendo em vista a denúncia de “irregularidades funerárias”.
Já no Reino Unido a música é outra, pois abrilhanta-se o ato com música pop. Um estudo feito pela Funeralcare, envolvendo 250 das cerca de 900 agências funerárias, concluiu que os temas mais tocados nos funerais, em 2012, foram: Someone Like You, de Adele; My Way, de Frank Sinatra; Angeles, de Robbie William; My Heart Will Go On, de Celine Dion; The Best, de Tina Turner e I Will Always Love You, de Whitney Houston. Revelou-se que a música pop veio substituir os hinos funerários em dois terços dos funerais britânicos, quase que fazendo esquecer o Requiem, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Enquanto uns divertem-se e despertam os sentidos com música mais animada, em San Luís de Sabidilla, Espanha, os paroquianos entregaram um abaixo-assinado ao bispo da diocese de Málaga, a pedir o afastamento do padre por este não os deixar chorar durante os funerais. Nesta paróquia, pelos vistos, não se pode manifestar tristeza, embora o padre coloque músicas de Natal durante os funerais, o que sempre pode argumentar que o Natal é quando o homem quiser. Só que o que está na “berra”, pelos vistos, é a música pop.
Recentemente, o padre da freguesia de Freixiosa, no concelho de Mangualde recusou-se a fazer o funeral a um paroquiano, deficiente das forças armadas, alegando que ele devia € 375 de côngrua, o que fez com que este homem fosse enterrado “sem missa, sem padre, sem cruz e sem o toque dos sinos” e, acrescento, sem striptease e sem música pop nem de Natal.
Se quem está a ler esta crónica está incrédulo com estes relatos, vejamos o que sentirá ao ler este novo parágrafo, ao ficar a saber os resultados de dois interessantes estudos com as aves Western Scrub Jay – nomenclatura binomial Aphelocoma Californica –, os quais foram elaborados pelas Universidades de Cambridge, no Reino Unido, e da Califórnia, nos Estados Unidos da América. A primeira, chegou à conclusão que “esta espécie é capaz de planear o futuro”. A segunda, comprovou que estas aves realizam um “ritual parecido com um funeral”. Neste último caso, a equipa de investigadores da Universidade da Califórnia colocou alguns animais mortos, rodeados de falsos predadores, feitos em madeira, e as aves [a ser testadas] “ignoraram os falsos inimigos” e reagiram “interrompendo as suas atividades, como recolher alimentos ou piar”, mostrando-se sensíveis à morte dos da sua espécie, rodeando-os, mesmo perante os prováveis predadores.
Estranho mundo!… Enquanto uns não têm um enterro condigno, por não terem pago uma “dívida” de € 375, outros com € 300 podem (ou podiam) ter animadas sessões de striptease, com a sua imagem projetada numa tela, enquanto no palco se desnudam os artistas pagos para o efeito. Nas cerimónias fúnebres, consoante a localização geográfica e a cultura, ora é fomentada a alegria, impedido o próprio ato fúnebre, inviabilizada qualquer manifestação de pesar (…), quando em Portugal e no sertão brasileiro, até se pagava às carpideiras para rezar e chorar nos velórios. 
Benditas aves, que não precisam de se despenar – e seria uma pena, com penas tão bonitas! –, nem precisam de imposição de regras, nem de modas, nem de nada, nem de ninguém, para deixar transparecer os seus afetos pelos membros da sua espécie, quando falecem.

© Jorge Nuno (2015)

19/05/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (10) - Já Não Se Pode Dormir?

JÁ NÃO SE PODE DORMIR?

A seguir ao almoço, sento-me em frente ao meu PC para iniciar a crónica para a BIRD, e dou uma olhada pelo correio eletrónico, pelas notícias online e pela minha página do Facebook. Nesta, deparo-me, imediatamente, com uma foto na comunidade em que sou membro e com a qual me deliciei: uma imagem recente da Serra da Estrela, com um pastor deitado no chão, a dormir, enquanto as suas cabras se mantêm em vigília, junto às fragas e a pastar, dando a ideia, pela pose e pelo porte, de que os ares da serra dão um apetite devorador.
Há aqueles que não dormem em serviço – nem podem – acreditava eu, para bem de todos nós. Mas compreendo e entendo que este pastor fez mesmo bem em tirar uma soneca, e admito que sempre terá o seu cão de pastoreio (que não vi na foto) que, com determinação, vigia e pode pôr as cabras em ordem, se começarem a tresmalhar-se.
Não sei se por influência deste quadro bucólico, se pelo efeito do estômago composto, se pela temperatura exterior de 38º C, a verdade é que começo a sentir-me, rapidamente, no estágio 1 do sono NREM (Non Rapid Eye Movement), que é como quem diz: com uma sonolência! Sem desligar o computador, atirei-me para cima da cama ao lado, sem querer saber que esta fase costuma ter a duração aproximada de 5 minutos. Apenas sei que adormeci e devo ter chegado ao estágio 4 – o do sono profundo – como um Porsche Boxster GTS chega dos 0 aos 100 kms/h, ou seja, em 5 segundos!
Acordei cinquenta minutos depois, com o correr e gargalhar das pequenas vizinhas de cima, não sendo eu tão veloz quanto o Porsche a chegar aos 100 km/h… na minha tentativa de identificar e assimilar qual a proveniência do ruído. Poderia ficar rabugento e, na melhor das hipóteses, refilar coisas simples e educadas como: “Já não se pode dormir?”, ou “Ninguém põe as crianças a dormir?”, ou “Ninguém leva as crianças até ao jardim?” – sim, porque não sou dado a praguejar impropérios, embora por vezes dê mesmo vontade de perder a cabeça e começar a desatinar –. Em vez disso, lembrei-me do ator e escritor Peter Ustinov que terá dito que “o som de uma gargalhada sempre lhe pareceu a mais civilizada música do universo”. E aqui, não era uma gargalhada, mas muitas e repetidas gargalhadas, logo uma grande sinfonia enviada… quem sabe, pelo universo, para eu acordar. Em surdina, agradeço às miúdas e ao universo, pois a tão apregoada sesta, com efeitos benéficos para a saúde, estava razoavelmente cumprida e eu sentia uma vontade reforçada de escrever a crónica.
Talvez tenha dado para ver que eu não sou daqueles que sofre de perturbação comportamental do sono, e muito menos das “agruras da privação do sono e desacertos com os ritmos do bebé”, quando este teima em não querer dormir, já que passei por isso há mais de três décadas, lembrando-me que tinha que contar, milhentas vezes, a “história da menina muito chata”, história que era suposto ter o efeito contrário ao verificado.
Li algures que “vidas interessantes dão sonos tranquilos” e li, também, no livro “Dormir Tranquilo”, da autoria do pediatra Mário Cordeiro, que “o registo de vida stressante desregula a hormona do sono – a melatonina –. A ser assim, então a minha vida e a do pastor estavam a ser interessantes e sem stresse, com a diferença que ele sempre podia prolongar a sesta, sem ser acordado pelas miúdas a correr e a rir, nem pelo som das sinetas das cabras, a que já deveria estar imune.
A propósito da sesta, Sara Medrick, professora do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, no seu livro “Durma a Sesta, Mude a sua Vida”, naturalmente, faz aquela apologia e alega que o desempenho é melhor quando se dorme mais. Uma pesquisa da NASA – a agência espacial norte-americana – aconselha que se durma no local de trabalho, pois terá chegado à conclusão que “os pilotos que fizeram uma sesta de 25 minutos estavam 35% mais atentos e duas vezes mais focados do que aqueles que não tinham dormido”. Outros estudos mostram que “as sestas dinamizam a aprendizagem, fazem com que aumente o sentimento de felicidade e ainda contribua para um aumento da atenção, memória, aprendizagem e criatividade”.
Temos que reconhecer que o sono – como estado normal de repouso para o corpo e mente – complementa o estado de vigília e que a sua privação pode afetar a regulação e regeneração das células e afetar, igualmente, o sistema imunológico. A ser assim, depois do que já tinha lido e do que agora escrevi, tenho duas dúvidas, por haver um difícil entendimento:
1.ª – Custa a admitir que nas longas e animadas sessões na Assembleia da República haja deputados que adormeçam, cumprindo o ritual da sesta sempre que lhes apetece e, face aos resultados comprovados dos estudos, não se veja um melhor desempenho com esse “passar pelas brasas”;
2.ª – Custa a admitir a veracidade da notícia veiculada pala BBC, com base em informações dos serviços secretos sul-coreanos enviados ao parlamento do seu país, que o líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tenha mandado executar o general Hyon Yong-Chol, ministro da defesa (tal como já fizera com o próprio tio), com tiro(s) de bateria antiaérea – método destinado à execução de altos funcionários e à frente de centenas de pessoas –, pelo ato “desrespeitoso” do general adormecer num evento público onde o líder supremo se encontrava.

Abençoado pastor que, em contacto com a natureza, aparentava o sono dos justos!
Abençoada sonolência que senti quando iniciei esta crónica, ainda sem tema, e sem ter que responder perante ninguém.
E se os factos são verdadeiros, estranho mundo… em que um general que ousou “passar pelas brasas” numa cerimónia oficial nem deva ter podido questionar educadamente: “Já não se pode dormir?

© Jorge Nuno (2015)


02/05/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (9) - Não Mais [Ditadura do] Pelo



NÃO MAIS [DITADURA DO] PELO



Habituei-me à sabedoria milenar chinesa, mas desta vez a notícia relâmpago fez mesmo faísca e deixou-me algo incrédulo. A notícia dava conta que na China um homem foi condenado a seis anos de prisão por se recusar a rapar a barba. Como os chineses têm vindo a comprar tudo o que podem… pensei que o caso pudesse estar relacionado aos negócios do pelo e, nuns laivos de excesso de fantasia, até já os estava a ver a ficar com as 29 dependências da Clínica do Pelo, espalhadas pelo litoral de Portugal. Afinal, vim a apurar que o citado caso aconteceu na província de Xinjiang, região do noroeste daquele país, predominantemente muçulmana, onde têm acontecido vários atentados e recrutamento para o Estado Islâmico.

Ainda há pouco tempo, um prisioneiro no Estado do Arkansas, submeteu o seu caso ao Supremo Tribunal dos EUA para esclarecer se ele, como muçulmano preso, pode ou não ter barba grande segundo a sua crença religiosa, quando outras 44 penitenciárias estaduais permitem o uso da barba. Levado ao extremo, este caso definirá se há, ou não, liberdade religiosa naquele país, tido como paladino da liberdade.

Na comunidade amish, os homens quando casam deixam de cortar a barba, sendo que a barba grande tem o mesmo simbolismo que a aliança no dedo – é um sinal que o homem é casado –. Aconteceu em Bergholz, no Estado de Ohio [EUA], um bispo amish e mais 15 seguidores usaram da força, à noite, para cortar a barba a um determinado número de homens da mesma comunidade, sendo levados a tribunal. A legislação prevê penas até 16 anos de prisão para quem forçar o corte da barba, contra a vontade própria e como forma de humilhação, por ser considerado um crime de ódio.

O pastor John Weaver, no seu sermão “O Significado Histórico e Bíblico da Barba”, menciona a barba fazendo referência a Levítico 19:26-28: “Não comereis coisa alguma com sangue; não agourareis nem adivinhareis; não cortareis o cabelo (…), nem danificareis as extremidades da barba (…). Eu sou o Senhor”. Neste sermão, acrescenta a dado passo: “Não estou a dizer que um homem que não tem barba é menos santificado que aquele que tem barba. Além disso, não estou a dizer que um homem com barba é mais santo do que um homem sem barba”, mas lá foi dizendo que, com base nas Escrituras, os homens tementes a Deus devem ter barbas visíveis. Avança ainda que o Quarto Concílio de Cartago, em 398, decretou. “ O clérigo não deixará o seu cabelo crescer, nem removerá a sua barba”.

Lembro-me da confusão que tem havido na paróquia de Canelas, com a recente substituição forçada do padre Roberto Carlos, contra a vontade do povo, e do seu substituto – o padre Albino Reis – a ser insultado à frente das câmaras de televisão, com alusão ao seu cabelo e barba compridas, numa mostra clara de intolerância, até pelo aspeto físico do “novo” padre.

Em Moçambique, na época colonial, era frequente os presos políticos colocados na cadeia central da Machava – ala do Centro de Recuperação Político-Social ou Secção Prisional da PIDE – não serem autorizados durante os primeiros nove meses de “internato forçado” a cortar o cabelo, a barba ou até mesmo lavar os dentes. Bem mais civilizados e tolerantes foram os legisladores e quem aprovou em 1843, em Portugal continental, o Regulamento Provisório das Cadeias, já que no Capítulo II, Artigo 5.º, dão-se instruções sobre o asseio e salubridade nas prisões, devendo o carcereiro “seguir as ordens que mandam limpar, lavar e arejar, e defumar as prisões; bem como as que obrigam os presos (…) a fazer a barba e a cortar as unhas e os cabelos em dias marcados.”

 Atualmente, a legislação portuguesa prevê sanções aos taxistas que se apresentem ao serviço com a barba por fazer e situação idêntica já foi adotada em alguns Estados do Brasil. Somos livres de questionar o porquê da aplicação destas regras a estes profissionais e não a outros, tais como médicos, chefs e muitos outros, em que pode estar em causa a higiene e até a saúde pública. Mencionei algumas profissões, mas é evidente que em qualquer das situações, por muitas boas razões que haja, pode estar a ser violado o Princípio da Igualdade consagrado no Artigo 13.º da CRP – Constituição da República Portuguesa, que estabelece que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei” e “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”. Também o Artigo 26.º refere que “(…) A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, (…) à imagem, (…) e à proteção legal contra qualquer forma de discriminação”. Por acaso alguém consegue imaginar o filósofo e professor Agostinho da Silva ou o jornalista José Milhazes, sem barba? Ou os ex-futebolistas Toni e Fernando Chalana, sem bigode? Ou Jesus de Nazaré sem os seus cabelos longos e rapado, como Buda? É parte da sua identidade pessoal, da sua imagem e, como tal, seria desprovido de sentido privá-los do direito de usar barba, cabelo ou bigode, se assim o entenderam!

Infelizmente, não havia a CRP quando eu cumpri o serviço militar obrigatório, e se era incompreensível a discriminação!... Não podia usar barba no Exército, mas se estivesse na Marinha… podia! Quando fui recrutado, tive que forçosamente cortar a barba, rapar o cabelo e, resolvi aproveitar a única oportunidade para exibir uns pelos sobre o lábio superior: deixei ficar um bigodinho parecido com o do galã Errol Flynn. Numa visita do comandante da Região Norte ao quartel em Bragança, por questões protocolares compareci no gabinete do comandante da unidade, atual gabinete do presidente da autarquia, e àquele general, vindo do Porto, deu-lhe para embirrar com o meu vistoso a alourado bigode! Pegou numa esferográfica, levou o bico a um dos meus cantos da boca e disse, à frente de todos, que o meu bigode era um “bigode à chinês” e que não estava “conforme o regulamento militar”, humilhando-me publicamente.

Infelizmente, a CRP também não se aplicou ao ti moleiro da Augusta, que ao longo de mais de 60 anos de casado deixou a sua mais-que-tudo exercer o poder de matriarca, impedindo-o, despoticamente, de estar mais que 24 horas sem se barbear. Esse problema não teve a ti Ricarda, que me habituei a vê-la (há mais de 50 anos) a vender peixe de porta a porta, sem complexos e sem ditaduras legislativas relativas aos pelos, como mulher de máscula compleição física, a exibir o seu bigode preto, farfalhudo, de fazer inveja a qualquer homem.

Estranho mundo… ainda mais estranho se eu fizer o exercício do “se”! Se o chinês muçulmano – que eu julgava ser obrigado a ser ateu – vivesse há 50 anos atrás, em Moçambique, poderia ser à mesma preso político, mas sempre teria a hipótese de conservar a barba por 6 meses; se o bispo amish vivesse em Portugal no final do Séc. XIX, poderia estar preso, mas seria obrigado a cortar a barba, no tempo definido por lei; se o velho moleiro pertencesse à comunidade religiosa do pastor John Weaver, poderia continuar a ser temente da sua Augusta, mas não seria considerado temente de Deus, por não ter barba visível; se o caso do meu bigode – que face ao regulamento militar português ultrapassava o limite previsto em 3 mm – viesse a ocorrer nos EUA, poderia continuar a usar “bigode à chinês”, mas seria a minha “vingança de chinês” quando processasse judicialmente o general, por humilhação pública, que o poderia levar a uma pena de prisão efetiva; se Jesus de Nazaré voltasse novamente, agora com a missão de pacificar os paroquianos de Canelas, poderia sentir-se a sua enorme aura e ver-se os seus cabelos longos, mas adivinha-se a dificuldade que teria em cumprir a sua missão entre aqueles católicos; se os legisladores não estivessem quietos com a pata e ousassem continuar a legislar sobre o pelo, se lhes fosse aplicada, sumariamente, uma pena de prisão perpétua, pelo menos haveria, na humanidade, uma geração sem confusões, de gente feliz por poder usar barba, ou por rapá-la, consoante a sua própria vontade. Mas nem tudo seriam rosas!… Pois mesmo que não houvesse legislação sobre pelo, nem legisladores no ativo, até a ti Ricarda – que viveu feliz, no tempo e local certo – se tivesse vivido 50 anos mais tarde, precisamente agora e no mesmo local, teria que gastar, por mês, o valor de uma canastra de cavalas, chicharros, ruivos e chaputas, só para ir à depilação a laser à Clínica do Pelo, devido à pressão social e ao sloganNão mais pelo”, até retirar, definitivamente, o seu bigode farfalhudo, o que a faria perder a sua identidade e imagem de marca!

© Jorge Nuno (2015)

23/04/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (8) - Memórias de Abril



MEMÓRIAS DE ABRIL



Decorridos 41 anos, para uns parece um sonho longínquo, envolto em belos ideais destroçados e, para outros, um pesadelo que lhes destruiu as suas vidas e que os fez passar por privações, mantendo o azedume contra quem fez a descolonização e a mudança de políticas e de regime, partilhando igualmente da preocupação e vontade daqueles que, externamente, não pretendiam que a “Revolução dos Cravos” vingasse em Portugal e que tudo fizeram para que assim acontecesse. Hoje, são evidentes os sinais de desagrado e de que algo não terá correspondido ao esperado. Pelo quarto ano consecutivo, os militares da Associação 25 de Abril recusaram estar presentes na cerimónia oficial e protocolar na Assembleia da República, com o argumento dos “crescentes e continuados desvios às esperanças e valores de abril”.

Como estudante em Coimbra, de 1968 a 1971, vivi a ambiência das lutas estudantis, largamente influenciadas pelo movimento francês e pelos ideais de liberdade e igualdade. Tinha plena consciência do regime ditatorial em que vivia, e que se opunha, por razões óbvias, à democracia. Cedo me apercebi que havia canções proibidas e que a canção era uma arma – e se andasse de barbas e com uma viola, seria um alvo facilmente identificável… e a “silenciar”, pois tinha a experiência do desligar forçado da corrente elétrica quando ousava tocar, em público, a “Trova do Vento que Passa”… sem letra e em ritmo de valsa-jazz, para disfarçar –. Sabia que havia exilados políticos, crimes [de sangue] políticos sem castigo, bufos da PIDE/DGS e uma guerra nas “províncias ultramarinas”, que parecia infinita, que absorvia muitos recursos financeiros ao país e que custava a vida a muitos homens portugueses, que iam cumprir uma missão em defesa da “Pátria” – dizia-se.

Ingressei no exército para cumprir o serviço militar obrigatório, ainda em plena ditadura, com Marcello Caetano na presidência do Conselho [de Ministros] a tentar fazer umas tímidas reformas, que depressa foram rotuladas de “primavera marcelista”, mas que não eram do agrado dos defensores do Estado Novo. Apesar das tentativas de Marcello Caetano em explicar as suas políticas e ideias para o país, através do programa semanal na RTP, intitulado “Conversas em Família”, a verdade é que se via impotente, face a quem se opunha a essas reformas, como também não correspondiam às expetativas de quem esperava uma maior abertura política, com eleições livres, e uma maior liberalização da economia.

Encontrava-me em funções no Gabinete de Estudos do quartel do CICA 2, na Figueira da Foz, quando em finais de setembro de 1973 tomei conhecimento que se estaria a preparar um movimento de militares do exército, que se alargaria a outros ramos das Forças Armadas, e que poderia derrubar o governo de Marcello Caetano. Em outubro desse ano – mês em que fui transferido para o BC3 em Bragança, a meu pedido –, ouvi rumores que estaria eminente um golpe de estado de extrema-direita, encabeçada por alguns generais, onde se destacava Kaúlza de Arriaga. Soube do fracasso da missão de uma coluna militar do RI5 das Caldas da Rainha, que chegou às portas de Lisboa, em 16 de março de 1974, sendo enviados alguns desses militares, de castigo, para o BC3 onde me encontrava e com quem falei sobre esta operação falhada. Durante a madrugada do dia 25 de abril, ainda não tinha raiado o dia, havia ordem de recolher urgente à unidade, ordem dirigida a todos os militares que pernoitavam fora do BC3, encarregando-se disso, diretamente, o capitão responsável pela segurança. Tive conhecimento que tinha vingado o início da operação militar e que o nosso comandante estava temporariamente afastado de funções. Perguntei, por diversas vezes, se estávamos com as “tropas rebeldes” ou com as “tropas fieis ao regime” e não obtive respostas. Certezas? Apenas a de abrirmos trincheiras no interior do quartel, numa posição defensiva, e de enviarmos um carro de transmissões para espiar o quartel de Chaves (BC 10). Sempre agarrado ao pequeno transístor, vou sentindo que ao fim da manhã já se começava a respirar de alívio, pois o comunicado do MFA anunciava que a situação estava a ficar dominada e que a libertação estava para breve. Demoraram várias horas até à confirmação. Por volta das 18h00, o general António de Spínola, na companhia do capitão Salgueiro Maia, apresentaram-se no Quartel do Carmo, em Lisboa, para negociar a rendição de Marcello Caetano, a pedido deste – pois só se renderia perante um militar de alta patente –, o que veio a acontecer. Apenas nas primeiras horas do dia 26 de abril é que foi dada a conhecer a Junta de Salvação Nacional, que proclamou António de Spínola como o seu presidente. Nesse dia, fui com um grupo de militares ao edifício onde estava instalada a Legião Portuguesa, na zona histórica da cidade de Bragança, e carregámos caixas com armas e munições, livros, documentos, mobiliário e diverso equipamento pertencente àquela organização, que transportámos para o quartel. Nesse mesmo dia ouço o comandante, já em pleno exercício de funções, dizer que “sempre, desde o primeiro instante, estivemos com o Movimento das Forças Armadas”. Logo a seguir, fui incumbido de uma missão: partir com um grupo de militares para a zona do Douro Internacional e montar a segurança à barragem do Picote, impedindo qualquer operação de sabotagem a esta central hidroelétrica.

Fui-me apercebendo de anteriores movimentações de militares noutras zonas do país, com especial atenção à Figueira da Foz, de onde tinha saído há poucos meses, e que teve um papel importante na madrugada de 25 de abril de 1974, mais concretamente por volta das 03h00. Foi aí que se deu a concentração de tropas, no chamado “agrupamento norte”, e que envolveu as tropas aquarteladas no RAP 3 e CICA 2 da Figueira da Foz, a que se juntaram as do RI 10 de Aveiro e, um pouco mais tarde, as do RI 14 de Viseu, que se movimentaram em direção a Leiria e a Peniche, tendo em vista ocupar a prisão política. Tinha sido aconselhado, por um militar de carreira, para que eu [na tropa] fizesse por “passar despercebido e não ter castigos nem louvores”. Mas não tenho dúvidas, caso estivesse no CICA 2, sairia com as tropas em direção a Peniche, que sabia ter presos políticos e uma PIDE/DGS armada, pelo que arriscaria um castigo ou até a própria vida.

No 1.º de maio de 1974, num calmo e dia lindo, assisti, embevecido, à gigantesca manifestação popular em Lisboa, através do meu pequeno transístor, enquanto me encontrava ainda na barragem do Picote e a ser muito bem tratado pelo pessoal em serviço na hidroelétrica. Poucos dias depois, foi a impaciência de repetidos telefonemas para o quartel, que não estavam a resultar. Finalmente, a autorização para ser substituído e a dos restantes militares sob o meu comando. Depois, a licença militar que me permitia ir casar a Coimbra, no dia 11 de maio, numa altura em que a viagem de comboio era de sol a sol, ou melhor, saía-se cedo, ainda de noite, e chegava-se já de noite.

Já casado e ainda militar, assisti, num pavilhão coberto em Bragança, ao boicote da Campanha de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA, que pretendia esclarecer e conquistar as populações, particularmente as do interior rural, para um projeto revolucionário para o país e, assisti, pouco depois, ao assalto e à destruição, através de fogo na via pública, da biblioteca e mobiliário do Partido Comunista – que se tinha instalado na avenida João da Cruz –. Assisti, no início do período revolucionário, ao emergir de alguns “heróis” improváveis. Nove meses depois estava na condição de civil e envolvido numa campanha de alfabetização, junto de colegas da reparação naval.

Decorridos 41 anos, olho e vejo um país bem mais moderno, sendo pioneiro mundial, ou na linha da frente, em várias áreas. Se sentimos retrocessos em determinadas conquistas de abril, particularmente na área social, com o aumento dos índices de pobreza, de nada resulta ficarmos à espera que alguém resolva. Os militares fizeram o que tinha a fazer em 1974, numa determinada conjuntura e com a Guerra do Ultramar no horizonte. Agora, resta a sociedade civil. Já há muitos anos que acredito mais na democracia participativa do que na democracia representativa. Se temos ideais, se não estamos satisfeitos com o que temos, com o que somos e com quem nos representa, só temos que nos mexer, organizar e coletivamente promover as transformações que sentimos necessárias à nossa volta.

Gostei de rever estas Memórias de Abril, ficou a experiência, mas não vivo agarrado ao passado. Escreveu o grande poeta Camões:

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança

Tomando sempre novas qualidades”.



Para a frente é o futuro, e ele está nas nossas mãos!


© Jorge Nuno (2015)