19/06/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (12) - Que As Há... Há!

QUE AS HÁ… HÁ!

Que as há… há! A tal ponto que na Roménia evidenciaram estar suficientemente furiosas com o Presidente e com o Governo do país; é que estes ousaram criar e aprovar nova legislação que as afeta com um imposto de 16% sobre o rendimento – o mesmo que pagam quaisquer trabalhadores por conta própria –, a que se junta a contribuição para a Segurança Social. Fazendo fé na notícia do jornal “Correio da Manhã”, como as bruxas e cartomantes não gostaram da “brincadeira”, antes que se fizesse tarde… toca a lançar um mau-olhado! Uma delas, sexagenária, que esteve presa durante o regime comunista, na presidência de Nicolae Ceausescu, terá preparado (contra os atuais governantes) uma mezinha com um cão morto e excrementos de gato; enquanto que uma dúzia destas “profissionais” ter-se-á dirigido ao rio Danúbio para lançar um mau-olhado aos ditos governantes romenos, tendo garantido que “o “mal cairá sobre eles”.

Em Portugal, no final de maio do presente ano, a comunicação social referia uma nota da Polícia Judiciária, que dava conta de uma investigação a envolver duas mulheres e um homem, concluindo que este trio estaria sob forte suspeita da prática de “crimes de burla qualificada”, ficando-se com a ideia que estariam detidos preventivamente. Um dos seus crimes era a abordagem de pessoas, na zona de Lisboa, dizendo à vítima (ou referindo-se a familiares próximos) que “padecia de um mal grave” – decorrente de mau-olhado –, levando ao convencimento que os seus problemas seriam resolvidos através de “alegados tratamentos espirituais, que se disponibilizavam a realizar”, e que podiam ter a duração de meses ou anos. Como não é habitual os burlões fazerem trabalho “pro bono”… neste caso exigiam às vítimas avultadas quantias em dinheiro e ouro, dizendo-lhes que o ouro seria enterrado para contactarem os espíritos malignos, como forma de proporcionar a cura da “doença”, e que depois do tratamento o ouro seria devolvido. Só num dos casos terá “voado” dinheiro e ouro no valor de € 200.000, presumindo-se que esse ouro tenha sido vendido e derretido.

Já no anterior mês de março, um artigo do jornal “i” referia em título: “Mau-Olhado: A crença que não escolhe idades nem classes sociais”. Nesse artigo, depois da divulgação de alguns casos concretos em Portugal, menciona a revista científica “Journal of Economic Behavior & Organization”, que dá a entender que a crença no mau-olhado terá aparecido como “defesa nas comunidades com maiores desigualdades sociais, para as pessoas se escudarem da inveja de quem tinha menos”.

O senhor padre Fontes – pessoa por quem tenho uma profunda admiração, tendo colocado no “mapa” a pequena aldeia transmontana, Vilar de Perdizes, pertencente ao concelho de Montalegre – fomentou o Congresso de Medicina Popular, que vai este ano na sua 28.ª edição, e cujo evento é visto como um importante “acontecimento cultural”, mas onde, entre outros, é vendida a “erva da inveja, que combate os maus olhares e toda a espécie de inveja”. É conhecida a opinião do senhor padre Fontes relativamente a este assunto: para ele, o mau-olhado é uma mera superstição e atribui os “azares e os problemas” às próprias pessoas, através dos seus sentimentos de “ódio, raiva (…)”; esta opinião faz-me lembrar a frase atribuída a Neville Goddard: “Tenha cuidado com os seus humores e sentimentos, porque existe uma ligação ininterrupta entre os seus sentimentos e o seu mundo invisível”.

Não será preciso ser-se psicólogo ou sociólogo para realçar, nestes casos, a importância da crença e, pior ainda, da obsessão na vida de cada um. Se há alguém a acreditar que outrem lhe está a fazer mal, por exemplo, onde entre a inveja e o mau-olhado, esse sentir terá consequências… que poderá manifestar sintomas daquilo em que a pessoa acredita.

Na introdução do livro “O Poder da Mente” [ed. Círculo de Leitores, 2000], o comentário do Dr. J. B. Rhine, investigador de capacidades psíquicas na Duke University, Carolina do Norte, E.U.A., vai mais longe e refere: “assombra-me o facto de a imaginação conceber todas as implicações que se seguem, agora que se demonstrou que a mente, através de algum meio desconhecido e dela própria, tem a capacidade de efetuar diretamente as operações materiais no mundo à sua volta”. Objetiva com o exemplo de algumas pessoas que “conseguem hipnotizar, infligir maldições, mover objetos, (…), exercer o domínio coletivo de mentes, (…)”. No mesmo livro [p. 13] há um parágrafo com o título “Atividades Sinistras”, onde pode ler-se: “Talvez seja significativo que a sociedade ocidental considere sinistra (do latim para “esquerdo”) atividades como magia e misticismo, porque não parece existir qualquer lógica racional a apoiá-las. Contudo, outras atividades como meditação, ioga, cura pela fé, parapsicologia, adivinhação e realização de estados de consciência, alterados através do uso de drogas, desafiam a lógica do cérebro esquerdo e são praticadas por um número crescente de pessoas.  

Há quem não duvide que o mau-olhado é mesmo uma realidade, e que não será através dos olhos mas sim da carga energética gerada pela mente e pelas emoções; quem assim pensa, também considera necessário e possível “limpar esse campo energético” (subentendendo-se como negativo), enviado pelo pensamento de outrem. Mas os citados campos também podem ser positivos, em concordância com o pensamento. O Dr. John Pierrakos, do Instituto de Energética do NÚCLEO, em Nova Iorque, que faz o prefácio do livro “Mãos de Luz – Um Guia para a Cura através do Campo de Energia Humana”, de autoria de Barbara Ann Brennan, menciona haver uma “ligação da psicodinâmica ao campo da energia humana” e “descreve as variações do campo de energia na medida em que ele se relaciona com as funções da personalidade”. Hoje sabe-se, porque se pratica – com bastante sucesso –, não só a cura presencial como a cura à distância, sem recurso à medicina convencional e sem o consumo de fármacos.

Existem imensas investigações credíveis sobre esta matéria, de que destaco dois estudos. Um, foi efetuado pelo Dr. Barnard Grad, da Universidade de McGill, em Montreal, Canadá, que fez “investigação com sementes de cevada para testar o efeito de energias curativas psíquicas em plantas”. As sementes foram lançadas à terra e “regadas com uma solução salina, que retarda o crescimento; uma parte das sementes, lacradas num recipiente, foi regada com uma solução energizada” por um mestre de Reiki, e a outra parte não. Provou-se a existência dessa energia “extra”, já que o efeito da energia contida nesta solução, mesmo que aplicado o retardante, possibilitou “estas plantas cresceram mais rapidamente e mais saudáveis, com mais 25% de peso e um teor de clorofila mais alto, provando-se também que energias curativas podem ser armazenadas em água para uso futuro. Outro estudo, bastante divulgado, efetuado por uma universidade norte-americana, dá-nos conta da utilização de dois grupos distintos de voluntários: um deles, lançou “vibrações de ódio” junto de plantas; um outro, lançou vibrações de “amor e carinho”. As conclusões eram evidentes: “as primeiras murcharam e algumas até morreram, ao passo que as outras, as que receberam pensamentos e sentimentos de amor ficaram cada vez mais exuberantes”, provando haver “uma energia psíquica que pode ter efeitos benéficos ou maléficos, a depender dos sentimentos ou intenções do seu emissor”.

Na luta diária pela sobrevivência num país em crise, é natural que haja um acréscimo de angústia, por se “ver a vida a andar para trás” –, mas também de um aumento de crença, de inconformismo e de vontade de recorrer a profissionais, como quem quer agarrar-se a algo para inverter o ciclo negativo que o sufoca. Não é por acaso que os psiquiatras e psicólogos têm mais pacientes nestas ocasiões. Não é por acaso que acontece o mesmo com as videntes, cartomantes e outros profissionais, amadores e burlões deste ofício. Não é por acaso que todos os dias úteis, logo de manhã, no programa da SIC – “A Vida nas Cartas”, com Maria Helena Martins –, há uma apreciável audiência e muita afluência de chamadas de valor acrescentado, sendo que metade das “consultas” tem a ver com a inveja e o mau-olhado. Não é por acaso que, precisamente há mesma hora, também a TVI tem no ar o programa “Cartas da Alma”, com um formato semelhante.

A Maria Helena Martins também transmite a ideia que somos nós os principais causadores do que nos acontece de mal, particularmente pela forma negativa como encaramos a vida, mas vai deixando escapar que se a pessoa se sentir insegura e quiser agarrar-se a um amuleto, que pode ser um “santinho” na carteira, uma medalhinha ao pescoço, uma rosa de Jericó ou um olho da Turquia, por afastarem a negatividade e dar sorte, não vem nenhum mal ao mundo por isso. E se mesmo assim ainda sentir necessidade de fazer uma oração ou um ritual, há-os para todos os gostos, e exemplifica com uma para o mau-olhado (pelo sim, pelo não…) : “Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti mal olhou. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Virgem do Pranto, tirai este quebranto” – que é dito na altura em que pinga azeite num prato com água, utilizando o dedo polegar.

Desde pequenino que eu ouço dizer: “Não acredito em bruxas… mas que as há… há!”; e em castelhano até parece que tem outro sabor: “No lo creo en brujas … pero que las hay… las hay!

© Jorge Nuno (2015)

04/06/2015

Aroma do Além

AROMA DO ALÉM

Nasci com o aroma do Além,
Dei os primeiros passos no querer
Intuído por ilógico saber
Na procura do caminho do bem.

Lancei sementes, reguei-as com crer,
Colhi o grão e levei-o à moagem.
Parti pedra, em degredo de coragem,
Construí o que hoje é o meu ser.

Mastigo o pão nosso de cada dia,
Enquanto gozo o sabor da viagem
Guiado p’las mãos da sabedoria.

Sentirei esse aroma do Além
Num sentido regresso de acalmia,
Após mais uma vida de vaivém.


© Jorge Nuno (2015)

03/06/2015

Invocação de Musas

INVOCAÇÃO DE MUSAS

Não quero remendar a dor na escrita,
E transportar, de dentro para fora,
Energias em busca de sentido.

Não sei se consiga invocar Calíope,
Com poder de transformar as palavras
Num turbilhão de poesia épica.
Talvez Polímnia ouça a minha prece
E lance tais feixes de luz dourada
Que revelem no papel o sagrado.
Quem sabe… Erato esteja disponível
E transforme fogo de romantismo
Em ternurentos poemas de amor.

Bastou falar de amor e o teu olhar…
Para ver que há tempestades perfeitas
E és a minha a fonte inspiradora.


© Jorge Nuno (2015)

02/06/2015

Gota de Orvalho

Gota de Orvalho

Quero sentir paixão no descobrir,
Mente sob alçada da consciência,
Sintonia com som da existência,
Despreocupação com o porvir.

Recrear-me, sem traços de aparência,
Deixar entrar a brisa e prosseguir
Com transparência no modo de agir,
Liberto da cultura de exigência.

Vou desgrenhar o cabelo grisalho,
Rir quando sair fora dos carris,
Gozar sem o conforto do meu galho.

Abdicar do que à força eu tanto quis,
E deixar rolar… qual gota de orvalho
Sobre folha, em manhãs primaveris.


© Jorge Nuno (2015)

01/06/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (11) - Insólitos à Volta da Urna

INSÓLITOS À VOLTA DA URNA

O striptease tornou-se tradição em algumas zonas rurais da China, por ocasião dos… funerais. Aos olhos dos ocidentais estas práticas, no mínimo, são vistas como estranhas. Será preciso um esforço suplementar para tentar compreender o que está por trás disto. Há a seguinte crença, por parte dos chineses: para que haja “boa sorte para o defunto” é importante haver muita gente no funeral e uma aparência alegre e festiva, não sendo importante que as pessoas presentes no funeral conheçam o recém-falecido!
Assim, desde banquetes e outros festins, avançou-se rapidamente para o striptease, em que muitas vezes a performance é feita em palco, com a projeção, em tela, da imagem do “homenageado”. Este tipo de serviço, fornecido por empresas especializadas, fica próximo dos € 300 e quase todos os dias do mês há trabalho.
No entanto, uma notícia recente do jornal oficial “China Daily” dá conta que o Governo chinês, através do Ministério da Cultura, vem “estragar a festa”! Não só reprova este tipo de shows nos serviços fúnebres, como diz serem “severamente castigados” os organizadores, a quem será aplicada também uma multa de € 10.500. Terá sido criada uma linha telefónica exclusiva, tendo em vista a denúncia de “irregularidades funerárias”.
Já no Reino Unido a música é outra, pois abrilhanta-se o ato com música pop. Um estudo feito pela Funeralcare, envolvendo 250 das cerca de 900 agências funerárias, concluiu que os temas mais tocados nos funerais, em 2012, foram: Someone Like You, de Adele; My Way, de Frank Sinatra; Angeles, de Robbie William; My Heart Will Go On, de Celine Dion; The Best, de Tina Turner e I Will Always Love You, de Whitney Houston. Revelou-se que a música pop veio substituir os hinos funerários em dois terços dos funerais britânicos, quase que fazendo esquecer o Requiem, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Enquanto uns divertem-se e despertam os sentidos com música mais animada, em San Luís de Sabidilla, Espanha, os paroquianos entregaram um abaixo-assinado ao bispo da diocese de Málaga, a pedir o afastamento do padre por este não os deixar chorar durante os funerais. Nesta paróquia, pelos vistos, não se pode manifestar tristeza, embora o padre coloque músicas de Natal durante os funerais, o que sempre pode argumentar que o Natal é quando o homem quiser. Só que o que está na “berra”, pelos vistos, é a música pop.
Recentemente, o padre da freguesia de Freixiosa, no concelho de Mangualde recusou-se a fazer o funeral a um paroquiano, deficiente das forças armadas, alegando que ele devia € 375 de côngrua, o que fez com que este homem fosse enterrado “sem missa, sem padre, sem cruz e sem o toque dos sinos” e, acrescento, sem striptease e sem música pop nem de Natal.
Se quem está a ler esta crónica está incrédulo com estes relatos, vejamos o que sentirá ao ler este novo parágrafo, ao ficar a saber os resultados de dois interessantes estudos com as aves Western Scrub Jay – nomenclatura binomial Aphelocoma Californica –, os quais foram elaborados pelas Universidades de Cambridge, no Reino Unido, e da Califórnia, nos Estados Unidos da América. A primeira, chegou à conclusão que “esta espécie é capaz de planear o futuro”. A segunda, comprovou que estas aves realizam um “ritual parecido com um funeral”. Neste último caso, a equipa de investigadores da Universidade da Califórnia colocou alguns animais mortos, rodeados de falsos predadores, feitos em madeira, e as aves [a ser testadas] “ignoraram os falsos inimigos” e reagiram “interrompendo as suas atividades, como recolher alimentos ou piar”, mostrando-se sensíveis à morte dos da sua espécie, rodeando-os, mesmo perante os prováveis predadores.
Estranho mundo!… Enquanto uns não têm um enterro condigno, por não terem pago uma “dívida” de € 375, outros com € 300 podem (ou podiam) ter animadas sessões de striptease, com a sua imagem projetada numa tela, enquanto no palco se desnudam os artistas pagos para o efeito. Nas cerimónias fúnebres, consoante a localização geográfica e a cultura, ora é fomentada a alegria, impedido o próprio ato fúnebre, inviabilizada qualquer manifestação de pesar (…), quando em Portugal e no sertão brasileiro, até se pagava às carpideiras para rezar e chorar nos velórios. 
Benditas aves, que não precisam de se despenar – e seria uma pena, com penas tão bonitas! –, nem precisam de imposição de regras, nem de modas, nem de nada, nem de ninguém, para deixar transparecer os seus afetos pelos membros da sua espécie, quando falecem.

© Jorge Nuno (2015)

19/05/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (10) - Já Não Se Pode Dormir?

JÁ NÃO SE PODE DORMIR?

A seguir ao almoço, sento-me em frente ao meu PC para iniciar a crónica para a BIRD, e dou uma olhada pelo correio eletrónico, pelas notícias online e pela minha página do Facebook. Nesta, deparo-me, imediatamente, com uma foto na comunidade em que sou membro e com a qual me deliciei: uma imagem recente da Serra da Estrela, com um pastor deitado no chão, a dormir, enquanto as suas cabras se mantêm em vigília, junto às fragas e a pastar, dando a ideia, pela pose e pelo porte, de que os ares da serra dão um apetite devorador.
Há aqueles que não dormem em serviço – nem podem – acreditava eu, para bem de todos nós. Mas compreendo e entendo que este pastor fez mesmo bem em tirar uma soneca, e admito que sempre terá o seu cão de pastoreio (que não vi na foto) que, com determinação, vigia e pode pôr as cabras em ordem, se começarem a tresmalhar-se.
Não sei se por influência deste quadro bucólico, se pelo efeito do estômago composto, se pela temperatura exterior de 38º C, a verdade é que começo a sentir-me, rapidamente, no estágio 1 do sono NREM (Non Rapid Eye Movement), que é como quem diz: com uma sonolência! Sem desligar o computador, atirei-me para cima da cama ao lado, sem querer saber que esta fase costuma ter a duração aproximada de 5 minutos. Apenas sei que adormeci e devo ter chegado ao estágio 4 – o do sono profundo – como um Porsche Boxster GTS chega dos 0 aos 100 kms/h, ou seja, em 5 segundos!
Acordei cinquenta minutos depois, com o correr e gargalhar das pequenas vizinhas de cima, não sendo eu tão veloz quanto o Porsche a chegar aos 100 km/h… na minha tentativa de identificar e assimilar qual a proveniência do ruído. Poderia ficar rabugento e, na melhor das hipóteses, refilar coisas simples e educadas como: “Já não se pode dormir?”, ou “Ninguém põe as crianças a dormir?”, ou “Ninguém leva as crianças até ao jardim?” – sim, porque não sou dado a praguejar impropérios, embora por vezes dê mesmo vontade de perder a cabeça e começar a desatinar –. Em vez disso, lembrei-me do ator e escritor Peter Ustinov que terá dito que “o som de uma gargalhada sempre lhe pareceu a mais civilizada música do universo”. E aqui, não era uma gargalhada, mas muitas e repetidas gargalhadas, logo uma grande sinfonia enviada… quem sabe, pelo universo, para eu acordar. Em surdina, agradeço às miúdas e ao universo, pois a tão apregoada sesta, com efeitos benéficos para a saúde, estava razoavelmente cumprida e eu sentia uma vontade reforçada de escrever a crónica.
Talvez tenha dado para ver que eu não sou daqueles que sofre de perturbação comportamental do sono, e muito menos das “agruras da privação do sono e desacertos com os ritmos do bebé”, quando este teima em não querer dormir, já que passei por isso há mais de três décadas, lembrando-me que tinha que contar, milhentas vezes, a “história da menina muito chata”, história que era suposto ter o efeito contrário ao verificado.
Li algures que “vidas interessantes dão sonos tranquilos” e li, também, no livro “Dormir Tranquilo”, da autoria do pediatra Mário Cordeiro, que “o registo de vida stressante desregula a hormona do sono – a melatonina –. A ser assim, então a minha vida e a do pastor estavam a ser interessantes e sem stresse, com a diferença que ele sempre podia prolongar a sesta, sem ser acordado pelas miúdas a correr e a rir, nem pelo som das sinetas das cabras, a que já deveria estar imune.
A propósito da sesta, Sara Medrick, professora do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, no seu livro “Durma a Sesta, Mude a sua Vida”, naturalmente, faz aquela apologia e alega que o desempenho é melhor quando se dorme mais. Uma pesquisa da NASA – a agência espacial norte-americana – aconselha que se durma no local de trabalho, pois terá chegado à conclusão que “os pilotos que fizeram uma sesta de 25 minutos estavam 35% mais atentos e duas vezes mais focados do que aqueles que não tinham dormido”. Outros estudos mostram que “as sestas dinamizam a aprendizagem, fazem com que aumente o sentimento de felicidade e ainda contribua para um aumento da atenção, memória, aprendizagem e criatividade”.
Temos que reconhecer que o sono – como estado normal de repouso para o corpo e mente – complementa o estado de vigília e que a sua privação pode afetar a regulação e regeneração das células e afetar, igualmente, o sistema imunológico. A ser assim, depois do que já tinha lido e do que agora escrevi, tenho duas dúvidas, por haver um difícil entendimento:
1.ª – Custa a admitir que nas longas e animadas sessões na Assembleia da República haja deputados que adormeçam, cumprindo o ritual da sesta sempre que lhes apetece e, face aos resultados comprovados dos estudos, não se veja um melhor desempenho com esse “passar pelas brasas”;
2.ª – Custa a admitir a veracidade da notícia veiculada pala BBC, com base em informações dos serviços secretos sul-coreanos enviados ao parlamento do seu país, que o líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tenha mandado executar o general Hyon Yong-Chol, ministro da defesa (tal como já fizera com o próprio tio), com tiro(s) de bateria antiaérea – método destinado à execução de altos funcionários e à frente de centenas de pessoas –, pelo ato “desrespeitoso” do general adormecer num evento público onde o líder supremo se encontrava.

Abençoado pastor que, em contacto com a natureza, aparentava o sono dos justos!
Abençoada sonolência que senti quando iniciei esta crónica, ainda sem tema, e sem ter que responder perante ninguém.
E se os factos são verdadeiros, estranho mundo… em que um general que ousou “passar pelas brasas” numa cerimónia oficial nem deva ter podido questionar educadamente: “Já não se pode dormir?

© Jorge Nuno (2015)


02/05/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (9) - Não Mais [Ditadura do] Pelo



NÃO MAIS [DITADURA DO] PELO



Habituei-me à sabedoria milenar chinesa, mas desta vez a notícia relâmpago fez mesmo faísca e deixou-me algo incrédulo. A notícia dava conta que na China um homem foi condenado a seis anos de prisão por se recusar a rapar a barba. Como os chineses têm vindo a comprar tudo o que podem… pensei que o caso pudesse estar relacionado aos negócios do pelo e, nuns laivos de excesso de fantasia, até já os estava a ver a ficar com as 29 dependências da Clínica do Pelo, espalhadas pelo litoral de Portugal. Afinal, vim a apurar que o citado caso aconteceu na província de Xinjiang, região do noroeste daquele país, predominantemente muçulmana, onde têm acontecido vários atentados e recrutamento para o Estado Islâmico.

Ainda há pouco tempo, um prisioneiro no Estado do Arkansas, submeteu o seu caso ao Supremo Tribunal dos EUA para esclarecer se ele, como muçulmano preso, pode ou não ter barba grande segundo a sua crença religiosa, quando outras 44 penitenciárias estaduais permitem o uso da barba. Levado ao extremo, este caso definirá se há, ou não, liberdade religiosa naquele país, tido como paladino da liberdade.

Na comunidade amish, os homens quando casam deixam de cortar a barba, sendo que a barba grande tem o mesmo simbolismo que a aliança no dedo – é um sinal que o homem é casado –. Aconteceu em Bergholz, no Estado de Ohio [EUA], um bispo amish e mais 15 seguidores usaram da força, à noite, para cortar a barba a um determinado número de homens da mesma comunidade, sendo levados a tribunal. A legislação prevê penas até 16 anos de prisão para quem forçar o corte da barba, contra a vontade própria e como forma de humilhação, por ser considerado um crime de ódio.

O pastor John Weaver, no seu sermão “O Significado Histórico e Bíblico da Barba”, menciona a barba fazendo referência a Levítico 19:26-28: “Não comereis coisa alguma com sangue; não agourareis nem adivinhareis; não cortareis o cabelo (…), nem danificareis as extremidades da barba (…). Eu sou o Senhor”. Neste sermão, acrescenta a dado passo: “Não estou a dizer que um homem que não tem barba é menos santificado que aquele que tem barba. Além disso, não estou a dizer que um homem com barba é mais santo do que um homem sem barba”, mas lá foi dizendo que, com base nas Escrituras, os homens tementes a Deus devem ter barbas visíveis. Avança ainda que o Quarto Concílio de Cartago, em 398, decretou. “ O clérigo não deixará o seu cabelo crescer, nem removerá a sua barba”.

Lembro-me da confusão que tem havido na paróquia de Canelas, com a recente substituição forçada do padre Roberto Carlos, contra a vontade do povo, e do seu substituto – o padre Albino Reis – a ser insultado à frente das câmaras de televisão, com alusão ao seu cabelo e barba compridas, numa mostra clara de intolerância, até pelo aspeto físico do “novo” padre.

Em Moçambique, na época colonial, era frequente os presos políticos colocados na cadeia central da Machava – ala do Centro de Recuperação Político-Social ou Secção Prisional da PIDE – não serem autorizados durante os primeiros nove meses de “internato forçado” a cortar o cabelo, a barba ou até mesmo lavar os dentes. Bem mais civilizados e tolerantes foram os legisladores e quem aprovou em 1843, em Portugal continental, o Regulamento Provisório das Cadeias, já que no Capítulo II, Artigo 5.º, dão-se instruções sobre o asseio e salubridade nas prisões, devendo o carcereiro “seguir as ordens que mandam limpar, lavar e arejar, e defumar as prisões; bem como as que obrigam os presos (…) a fazer a barba e a cortar as unhas e os cabelos em dias marcados.”

 Atualmente, a legislação portuguesa prevê sanções aos taxistas que se apresentem ao serviço com a barba por fazer e situação idêntica já foi adotada em alguns Estados do Brasil. Somos livres de questionar o porquê da aplicação destas regras a estes profissionais e não a outros, tais como médicos, chefs e muitos outros, em que pode estar em causa a higiene e até a saúde pública. Mencionei algumas profissões, mas é evidente que em qualquer das situações, por muitas boas razões que haja, pode estar a ser violado o Princípio da Igualdade consagrado no Artigo 13.º da CRP – Constituição da República Portuguesa, que estabelece que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei” e “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”. Também o Artigo 26.º refere que “(…) A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, (…) à imagem, (…) e à proteção legal contra qualquer forma de discriminação”. Por acaso alguém consegue imaginar o filósofo e professor Agostinho da Silva ou o jornalista José Milhazes, sem barba? Ou os ex-futebolistas Toni e Fernando Chalana, sem bigode? Ou Jesus de Nazaré sem os seus cabelos longos e rapado, como Buda? É parte da sua identidade pessoal, da sua imagem e, como tal, seria desprovido de sentido privá-los do direito de usar barba, cabelo ou bigode, se assim o entenderam!

Infelizmente, não havia a CRP quando eu cumpri o serviço militar obrigatório, e se era incompreensível a discriminação!... Não podia usar barba no Exército, mas se estivesse na Marinha… podia! Quando fui recrutado, tive que forçosamente cortar a barba, rapar o cabelo e, resolvi aproveitar a única oportunidade para exibir uns pelos sobre o lábio superior: deixei ficar um bigodinho parecido com o do galã Errol Flynn. Numa visita do comandante da Região Norte ao quartel em Bragança, por questões protocolares compareci no gabinete do comandante da unidade, atual gabinete do presidente da autarquia, e àquele general, vindo do Porto, deu-lhe para embirrar com o meu vistoso a alourado bigode! Pegou numa esferográfica, levou o bico a um dos meus cantos da boca e disse, à frente de todos, que o meu bigode era um “bigode à chinês” e que não estava “conforme o regulamento militar”, humilhando-me publicamente.

Infelizmente, a CRP também não se aplicou ao ti moleiro da Augusta, que ao longo de mais de 60 anos de casado deixou a sua mais-que-tudo exercer o poder de matriarca, impedindo-o, despoticamente, de estar mais que 24 horas sem se barbear. Esse problema não teve a ti Ricarda, que me habituei a vê-la (há mais de 50 anos) a vender peixe de porta a porta, sem complexos e sem ditaduras legislativas relativas aos pelos, como mulher de máscula compleição física, a exibir o seu bigode preto, farfalhudo, de fazer inveja a qualquer homem.

Estranho mundo… ainda mais estranho se eu fizer o exercício do “se”! Se o chinês muçulmano – que eu julgava ser obrigado a ser ateu – vivesse há 50 anos atrás, em Moçambique, poderia ser à mesma preso político, mas sempre teria a hipótese de conservar a barba por 6 meses; se o bispo amish vivesse em Portugal no final do Séc. XIX, poderia estar preso, mas seria obrigado a cortar a barba, no tempo definido por lei; se o velho moleiro pertencesse à comunidade religiosa do pastor John Weaver, poderia continuar a ser temente da sua Augusta, mas não seria considerado temente de Deus, por não ter barba visível; se o caso do meu bigode – que face ao regulamento militar português ultrapassava o limite previsto em 3 mm – viesse a ocorrer nos EUA, poderia continuar a usar “bigode à chinês”, mas seria a minha “vingança de chinês” quando processasse judicialmente o general, por humilhação pública, que o poderia levar a uma pena de prisão efetiva; se Jesus de Nazaré voltasse novamente, agora com a missão de pacificar os paroquianos de Canelas, poderia sentir-se a sua enorme aura e ver-se os seus cabelos longos, mas adivinha-se a dificuldade que teria em cumprir a sua missão entre aqueles católicos; se os legisladores não estivessem quietos com a pata e ousassem continuar a legislar sobre o pelo, se lhes fosse aplicada, sumariamente, uma pena de prisão perpétua, pelo menos haveria, na humanidade, uma geração sem confusões, de gente feliz por poder usar barba, ou por rapá-la, consoante a sua própria vontade. Mas nem tudo seriam rosas!… Pois mesmo que não houvesse legislação sobre pelo, nem legisladores no ativo, até a ti Ricarda – que viveu feliz, no tempo e local certo – se tivesse vivido 50 anos mais tarde, precisamente agora e no mesmo local, teria que gastar, por mês, o valor de uma canastra de cavalas, chicharros, ruivos e chaputas, só para ir à depilação a laser à Clínica do Pelo, devido à pressão social e ao sloganNão mais pelo”, até retirar, definitivamente, o seu bigode farfalhudo, o que a faria perder a sua identidade e imagem de marca!

© Jorge Nuno (2015)