01/08/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (15) - Haja Pedalada!

HAJA PEDALADA!

Portugal aparece na linha da frente dos países europeus, juntamente com a Suécia, Letónia, Finlândia e Áustria, no que toca a energia elétrica produzida por fontes renováveis, amigas do ambiente. Está mesmo a ter um papel importante a nível mundial, como exemplo positivo, devido às políticas de implementação de energias renováveis, permitindo evitar, só em 2014, a emissão de 26 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), que representaria cerca de 40% do total das emissões de gases de efeito de estufa neste país. Deste modo, deu o seu contributo no combate ao aquecimento global, tendo presente as metas do Protocolo de Quioto e os compromissos políticos e climáticos assumidos, a necessidade interna de reduzir a fatura nacional das importações dos combustíveis fósseis (caso do carvão, petróleo e gás natural, os quais têm muito peso no desequilíbrio da balança comercial com o exterior), e conferir ao país maior independência económica e alguma recuperação económica.

Portugal foi mesmo pioneiro mundial no recurso à “energia das ondas”, fazendo o aproveitamento da energia cinética resultante da movimentação da água do mar, sendo a densidade energética das ondas do mar “10 vezes mais alta do que a energia eólica e 100 vezes mais alta do que a radiação solar”. O primeiro a ser criado – o parque das ondas da Aguçadoura (Póvoa do Varzim) –, tem capacidade para abastecer energia elétrica a 15.000 famílias; o segundo – a cinco milhas da costa, ao largo da praia da Almagreira (Peniche) –, após “testes com grande sucesso”, segundo o presidente executivo da empresa finlandesa AW Energy (que investiu neste projeto), tem exploração comercial prevista a partir de 2016 e poderá abastecer 5.500 famílias. 

A Quercus – Associação Nacional da Conservação da Natureza (uma ONG) e a APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis, depois de terem analisado dados da REN – Redes Energéticas Nacionais relacionados com a produção de eletricidade nesse mesmo ano, concluíram que “foi o ano mais renovável”, devido ao recorde de produção de eletricidade através destas fontes, “permitindo poupanças de 1.565 milhões de euros: 1.500 milhões na importação de gás natural e carvão e 65 milhões em licenças de emissão de CO2”.

Não esqueçamos que, mesmo assim, os processos que levam à exploração destas energias alternativas também têm custos ambientais e sociais, além de elevados custos de implementação dos projetos, que deveriam ser imputados exclusivamente aos investidores e não aos contribuintes.

Há indicadores oficiais que apontam, em 2014, que “a eletricidade obtida a partir de fontes renováveis foi responsável por 62,7% do total energia elétrica consumida, representando um aumento de 6% em relação ao ano anterior”. Como os portugueses têm tendência para desconfiar e estão sempre de pé atrás… com a curiosidade que me carateriza, fui consultar, aleatoriamente, uma fatura de eletricidade de 2014 (calhou setembro na “rifa”) e verifiquei o seguinte, relacionado com as fontes de energia: só a energia eólica representava 53%, a hídrica 12,6% e outras fontes renováveis 10%, o que totaliza 75,6% – representando, neste mês, ainda mais 12,9% do que os valores oficiais indicados como média anual –, o que me deixou agradado quanto ao aproveitamento deste tipo de energias. Procurei explicações para esta diferença e verifiquei que, em 2014, terá sido um ano: mais húmido (em 27%, face à média de anos anteriores), possibilitando melhor aproveitamento da energia hídrica; mais favorável em termos de vento; em que terá havido um aumento de 31% na capacidade instalada para a obtenção de energia fotovoltaica.

O presidente da APREN, referindo-se a 2014, salientou que “o facto de quase dois terços da eletricidade consumida ser de origem renovável possibilitou estabilizar o preço deste bem".
Se é verdade que, na UE, estamos na linha da frente no que toca ao aproveitamento das energias renováveis, também é verdade que:
1 – Portugal tem a terceira pior prestação (0,7%) no que respeita ao uso de energias provenientes de fontes renováveis nos transportes, só ultrapassado pela Estónia (0,2%) e Espanha (0,4%) e muito aquém do objetivo de 10% para 2020”, segundo dados estatísticos oficiais da UE. [Obs.: Não tenho a pretensão de conhecer, em pormenor, a realidade dos transportes urbanos de todos os concelhos do país, mas agrada-me saber da sensibilidade de alguns autarcas (cujas autarquias assumem a função social de assegurar transporte público aos seus munícipes) levando a uma progressiva substituição da frota, movida a gasóleo, por outra com uso de combustíveis menos onerosos e mais amigos do ambiente, de que se destaca a energia elétrica];
2 – Portugal tem o segundo preço mais caro da eletricidade para utilizadores domésticos (por kwh), a seguir à Alemanha, no conjunto dos 28 países da EU, segundo dados recentes do Eurostat. [Obs.: Dei-me ao cuidado de pegar nessa tal fatura aleatória e verifiquei que nela está refletido um acréscimo de 45,2% sobre o custo do consumo de eletricidade medido, onde surge a contribuição audiovisual, imposto especial sobre consumo de eletricidade, potência contratada, taxa de exploração DGEG e IVA (a 23%), o que fará com que tenhamos a energia mais cara da UE].

À partida, parece um contrassenso termos um dos maiores rácios na utilização das energias renováveis face ao total das fontes de energia e, ao mesmo tempo, o custo mais elevado da eletricidade entre estados-membros da EU, sendo este mais um obstáculo à competitividade e ao desenvolvimento da atividade económica do país.

Até se conseguir um desanuviamento deste constrangimento – que asfixia famílias e empresas –, fica a recente promessa governamental: “1.200 veículos elétricos a ser integrados na frota do Estado, até 2020, de acordo com o programa Eco-Mob” (a partir de agora, mas dependente de fundos para avançar e de quem vier a ganhar as próximas eleições legislativas); criação de parques de estacionamento de bicicletas para funcionários públicos, medida anunciada que já deu aso a ridicularizações do gesto, por parte dos sindicatos, e indignação, por parte de funcionários públicos. Valha-nos as bicicletas disponibilizadas aos munícipes e visitantes, por parte de algumas autarquias, sem custos para o utilizador e com todas as vantagens que isso implica, enquanto o bom tempo o permitir, pois é um saudável transporte alternativo aos veículos motorizados.

Haja pedalada, para inovar e aguentar a caminhada!  
© Jorge Nuno (2015)

18/07/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (14) - Estudos e Contradições

ESTUDOS E CONTRADIÇÕES

Habituei-me a olhar para a comunidade científica, ao nível da investigação, com muito respeito e até admiração; ainda mais pelos inúmeros prémios e reconhecimento internacional, particularmente em relação a jovens investigadores portugueses, com vários no patamar dos melhores a nível mundial, o que leva que este pequeno país seja considerado um país de grandes investigadores.

Julgo saber distinguir a diferença entre: estudos relacionados com investigação – a que aludi no primeiro parágrafo –, com pessoas e/ou entidades credíveis; recolha e tratamento de dados estatísticos, e apresentação de resultados, normalmente por entidades independentes, estando os seus membros imbuídos de uma cultura ética que confere credibilidade aos resultados obtidos; estudos científicos manipulados, indo ao encontro de quem promove esses estudos, na forma de cliente ou sponsor, algumas vezes camuflado de mecenas; evocação e realce de aspetos particulares dos estudos ou, pior, adulteração de dados, conforme circunstâncias do momento e conveniências políticas; e o meu próprio feeling, baseado na minha experiência de vida, com toda a subjetividade que isso acarreta, e crença na minha capacidade de ir à procurar de respostas e formular uma opinião pessoal.

Temos tendência a alinhar no senso comum – por parecer tão óbvio –, e por ser isso que se espera; mas fundindo muito do que acabei de referir, reparo que me sinto algo confuso com algumas conclusões provenientes de estudos diferentes, pelas evidentes contradições que nos chegam e pelo que o nosso olhar (mais ou menos) atento nos revela. De uma forma simplista, numa primeira abordagem poderia pensar em métodos e técnicas diferentes, a que recorrem pessoas e entidades diferentes. Mas vamos por partes…

Comecemos pelos investigadores. Chegam-nos relatos de muitos jovens investigadores que se sentiram “forçados” a sair do país, ou ficaram no desemprego, por não terem sido aprovadas as respetivas bolsas de investigação ou, sendo-o, foram-lhes atribuídas valores mais baixos do que o esperado, criando um natural desespero e um evidente acréscimo de dificuldades a quem sonhava fazer carreira nesta área, falando-se, com alguma insistência, num desinvestimento anormal na investigação. Segundo o estudo, com atualização recente (2015-06-26), baseado em dados da DGEEC/MEC – Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional e dados do INE – Inquérito ao Emprego, tendo como fonte a Pordata (da Fundação Manuel dos Santos), a proporção – em permilagem – dos investigadores em atividades de investigação e desenvolvimento (I&D), equivalente a tempo inteiro por 1000 ativos, foi sempre em crescendo de 1982 (0,9 ‰) até 2013 (8,2 ‰), com um ligeiro decréscimo apenas em 2012 (7,9 ‰). Tendo ainda como fonte a Pordata e a FCT, haverá 52.000 investigadores em Portugal, 322 unidades de investigação e foi de 80 milhões o valor das bolsas atribuídas nos últimos cinco anos.

Pobreza, abandono e obesidade. Tem soado o alarme em muitas autarquias, as quais vão tomando iniciativas avulsas, como seja: manter abertos os refeitórios das escolas em período de férias escolares, devido ao considerável número de crianças e jovens que passam fome. São preocupantes os números divulgados pelo MEC, com base no relatório da DGEEC, face às elevadas taxas de abandono dos cursos nas Universidades e ainda mais nos Institutos Politécnicos. Também algumas universidades efetuaram estudos; a Universidade do Minho aponta como algumas dessas causas de abandono: a atividade laboral  (não era suposto estarem a estudar?) e constrangimentos familiares (falta de recursos financeiros?). Segundo dados do INE, através do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (2014), existem mais de 1,96 milhões de portugueses em risco de pobreza. A responsável do Banco Alimentar contra a Fome anunciou que receberam alimentos 355.749 pessoas (em 2013), das quais cerca de 120.000 são crianças, que teriam passado fome se não se tivesse recorrido ao Banco Alimentar. A ONU, baseada em dados da UNICEF, alertou que em 2011 estariam 28,6 % das crianças portuguesas em risco de pobreza. Tendo como fonte a OMS – Organização Mundial de Saúde, a obesidade está a ser um problema sério tanto nos países desenvolvidos como nos emergentes, apontando que em Portugal têm peso a mais: 38% das crianças de 7 anos; 32% das que têm 11 anos; e 24,5% das que têm 15 anos. A mesma OMS, que tanto apregoa a virtude da Dieta Mediterrânica, deixou o aviso que Portugal, logo [estranhamente] a seguir à Grécia, é o segundo país europeu em que há maior prevalência de excesso de peso infantil. O estudo MUN – SI (2014) elaborado nos municípios de Viana do Castelo, Fundão, Oeiras, Montijo e Seixal, revelam que 44% das crianças estão “mal nutridas” e 4% apresentam “magreza extrema”, sendo que 39,4 % apresentam excesso de peso e 15,8 % são mesmo consideradas obesas, concluindo ainda que, na grande maioria, as crianças obesas eram oriundas de “famílias com rendimentos mais baixos”.

Desemprego jovem e trabalho precário. Segundo a CGTP, foi destruído um total de 617.000 postos de trabalho, entre 2008 e 2014. Os dados do INE apontam que terá havido um decréscimo de 298.000 pessoas empregadas, entre o 1.º trimestre de 2011 (em que se registava um desemprego jovem de 28%)  e o 1.º trimestre de 2015 (com aumento do desemprego jovem, passando para 34,4%). O INE indicou também que, no mesmo período, se agravou o desemprego de longa duração. Já o CIES – Observatório das Desigualdades, tendo como fonte Labour Force Survey (Eurostat), revela que, entre os 27 países da EU, Portugal situa-se em terceiro (a seguir à Polónia e Espanha) quanto à maior incidência de casos de trabalho precário, registando-se, no 1.º trimestre de 2010, cerca de 23,2 % dos casos entre trabalhadores por conta de outrem, agravado em 3% face a 2005, sendo que o trabalho precário jovem era de 54,6%. Daí para cá, há a perceção que a situação ainda se agravou mais, com o aumento da precariedade laboral de profissões qualificadas e a consequente desvalorização salarial e degradação das condições de trabalho. Entretanto, em 2015-07-13, o membro do Governo que tutela o Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, referiu no Algarve: “Desde o início de 2013, e até hoje, conseguimos criar 175.000 novos postos de trabalho. Sobretudo, postos de trabalho com qualidade e efetivos”, dizendo também que “por cada contrato a termo [precário] são gerados três postos de trabalho permanente nos quadros das empresas”.

Festivas de Música no Verão. Neste cantinho à beira mar plantado, em período de estio e de férias (para quem tem ocupação profissional ou estuda), singram, um pouco por todo o lado, os festivais de música. Aponto alguns dos mais emblemáticos (passe a publicidade dos principais promotores): NOS Alive (Algés); MEO Marés Vivas (V. N. de Gaia); Vodafone Paredes de Coura; Sumol Summer Fest (Ericeira); Super Bock Super Rock (Lisboa); NOS Summer Opening (Funchal); Sol da Caparica; Marés de Agosto (Açores); Festival do Crato. De uma forma geral, são apelativos os programas apresentados em cada ano. Se tivermos em atenção que o público-alvo da quase totalidade destes festivais são os jovens, e que é relativamente elevado o valor de cada entrada (ou mesmo o pacote completo) face ao nível de vida dos portugueses, não podemos deixar de estranhar o sucesso destes festivais em tempo de crise, realçando, como mera exemplificação, o NOS Alive 2015, que com um mês de antecedência já não era possível comprar o passe de 3 dias e/ou o bilhete diário de 9 de julho – por ter esgotado – com uma assistência de 55.ooo pessoas, sendo os bilhetes dos restantes dias a € 55 /cada. Estranha-se ainda mais, por ter acabado agora esse festival e já estarem à venda os bilhetes para o NOS Alive 2016 – com um ano de antecedência – ficando o bilhete diário por € 56, e o passe de três dias por € 119. Fico perplexo! Se calhar… o membro do Governo que tutela o dito ministério terá razão; será por haver tantos novos postos de trabalho, com qualidade e na situação de efetivos nos quadros das empresas que tudo isto é possível!

© Jorge Nuno (2015)

04/07/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (13) - No Melhor e No Pior

NO MELHOR E NO PIOR

A história poderia acabar na cerimónia, com o padre a dizer – “Na presença da família, dos amigos e de Deus eles irão trocar os seguintes votos: que se apoiarão mutuamente a partir de hoje, na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, na saúde e na doença (…)” –. Desculpem se vos transmiti essa ilusão, mas esta crónica não se baseia numa história que acaba em casamento; que regra geral começa bem e tantas vezes acaba mal; ou, embora menos frequente, que começa mal e acaba bem!
Também não terá a ver, unicamente, com excessos ou defeitos de interpretação decorrentes da nossa personalidade e do nosso modo de olhar; por isso é que terá surgido o rótulo de pessoas otimistas e pessimistas. Sobre estes, muito novo, aprendi que “os otimistas são patetas alegres” e “os pessimistas são patetas tristes”, embora passado 50 anos apenas não tenha dúvidas: que os pessimistas são patetas tristes; e que eu continuo a não gostar de ver atribuídos rótulos em pessoas.
Indo direito ao assunto, sem mais demoras, esta crónica aborda, sumariamente, alguns feitos de que somos capazes – “no melhor” – e que nos faz sentir uma pontinha de orgulho, mesmo que diretamente o esforço não seja nosso, assim como aqueles aspetos que deixam um sabor amargo, por representarem o lado negativo e nos colocarem numa posição delicada, por oposição – “no pior” – onde, mais uma vez, não deixamos indícios de ter feito qualquer esforço direto para evitar.
Recentemente, fiquei muito agradado por saber que:
– O Mercado do Livramento, em Setúbal, foi incluído pelo USA Today na “lista dos mais famosos mercados de peixe do mundo”;
– Através do “Readers’ Choice”, em “10 Best’s” – uma divisão do mesmo USA Today –, por votação, Portugal foi escolhido como o melhor país europeu;
– Segundo The Gardener’s Garden, da Phaidon Press, há cinco jardins em Portugal entre os melhores 250 jardins do mundo, sendo eles: Serralves, no Porto; Palácio da Fronteira, em Lisboa; Quinta da Regaleira, em Sintra; Quinta do Palheiro, no Funchal e o Parque Terra Nostra, nas Furnas, Açores;
– Foi aprovado pela UNESCO a criação da Reserva da Biosfera, após candidatura conjunta englobando as regiões de Bragança, Zamora e Salamanca; será considerada a maior reserva transfronteiriça da Europa e equivale a ter “um selo de qualidade”, pelo uso e preservação da biodiversidade;
– O jornal online norte-americano The Hufftington Post, através da sua secção de viagens, considerou o Douro o melhor itinerário turístico fluvial da Europa;  
– A cidade do Porto foi eleita, por dois anos seguidos, o Melhor Destino Europeu; foi também colocada, pelo Finantial Times, na lista das dez cidades do sul da Europa mais atrativas para o investimento estrangeiro;
– O chairman e fundador da Fosun – de nome Guo Guangchang – terá influenciado os investidores, particularmente chineses, ao considerar Portugal como melhor país da Europa para investir;
– Cinco treinadores portugueses brilharam ao sagrarem-se campeões nos respetivos campeonatos nacionais de futebol, na época 2014/2015, pelo Chelsea (Inglaterra), Basileia (Suíça), Zenit de São Petersburgo (Rússia), Olyimpiakos (Grécia) e S. L. Benfica (Portugal);
– Três atletas portugueses brilharam ao serem considerados: o melhor jogador de futebol do mundo, pela 3.ª vez (pela FIFA); o melhor jogador de futsal do mundo, pela 2.ª vez (através de votação no Site Futsal Planet) e o melhor jogador de futebol do Europeu Sub-21, em 2015 (através de um painel de especialistas da UEFA);
– Portugal esteve no pódio dos Jogos Europeus de Baku, Azerbaijão, em diversas modalidades, obtendo dez medalhas: ouro – nas modalidades de Ténis de Mesa, Taekwondo e Judo; prata – em Triatlo, Tiro e Canoagem K1 1000 m e 5000 m; bronze –em Futebol de Praia, Taekwondo e Trampolim Sincronizado Feminino;
– Um grupo de investigadores portugueses foi premiado por terem vindo “a desenvolver estratégias de luta contra a infeção por VIH (escolha efetuada por um vasto painel de cientistas internacionais que integram o programa “Partnering for Cure”);
– Uma investigadora portuguesa, da Universidade de Coimbra, viu atribuído, em Roterdão, um prémio internacional pelo seu trabalho de “investigação sobre a osteoporose após a menopausa, devido à redução dos níveis da hormona estradiol”;
 – Um inventor português foi premiado, com a medalha de ouro, na 43.ª edição do Salão Internacional de Invenções de Genebra (o mais importante do género em todo o mundo), ao criar um sistema que permite ajudar os invisuais a atravessar as passadeiras, sem semáforos e com recurso ao telemóvel.
Quanto ao “pior” (porque a crónica já vai longa) relato apenas duas situações:
– Segundo um relatório da ONU, com previsões para 2015, aponta que “Portugal vai ter a segunda pior taxa de fecundidade do mundo”, apenas será ultrapassado pela Bósnia-Herzegovina, sendo que esta previsão pode agravar-se por não ter em conta a forte emigração de jovens portugueses;
– Segundo a ONG Transparency Internacional (TI), baseando-se no Índice de Perceção de Corrupção de 2014 (o último conhecido), que engloba 175 países, Portugal é um dos países preocupantes, encontrando-se ao nível do Botswana, Chipre e Porto Rico. Comparativamente com os países europeus, consegue ser mais transparente do que a Itália, Grécia, Hungria, República Checa, Polónia e Roménia, com o senão de neste ranking ainda não estarem refletidos os casos: “Visto Gold”; “Duarte Lima e “José Sócrates”. Paralelamente, surge a informação que “Portugal é o 25.º país do mundo onde é mais fácil fazer negócios” e onde “funcionários de empresas públicas são os que mais aceitam subornos internacionais”. 
Entretanto, vou ouvindo comentários jocosos, do tipo:
– Ah... não acredito que o mercado de peixe em Setúbal seja um dos mais famosos do mundo; alguém deve ter dado uma caixa de robalos ao jornalista!
– O chinês lá sabe a razão que o leva a dizer que Portugal é muito bom para investir!
– Alguém no Porto anda a untar as mãos ao que escreve para o jornal.
(…)
Tantas vezes somos nós próprios a desacreditar as coisas boas que temos em Portugal, que não valorizamos, mas que são realçadas por outros olhares, vindos de fora. Tantas vezes nem damos conta do mérito dos portugueses, ou se damos, reagimos com indiferença ou com uma pontinha de inveja. Tantas vezes deixamos passar, impunemente, atos reprováveis, e na nossa habitual bonomia… até ficamos com pena dos prevaricadores e à espera de um bom desfecho; mas se os inquéritos são arquivados ou os processos judiciais ficam em “águas de bacalhau”, dizemos, aparentando um ar zangado – Isto é sempre a mesma coisa!... Eles safam-se sempre!
Ao longe ouvem-se uns cães a ladrar e continua a marcha, com o “siga a rusga”, tal como nas noites de São João.

© Jorge Nuno (2015)

19/06/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (12) - Que As Há... Há!

QUE AS HÁ… HÁ!

Que as há… há! A tal ponto que na Roménia evidenciaram estar suficientemente furiosas com o Presidente e com o Governo do país; é que estes ousaram criar e aprovar nova legislação que as afeta com um imposto de 16% sobre o rendimento – o mesmo que pagam quaisquer trabalhadores por conta própria –, a que se junta a contribuição para a Segurança Social. Fazendo fé na notícia do jornal “Correio da Manhã”, como as bruxas e cartomantes não gostaram da “brincadeira”, antes que se fizesse tarde… toca a lançar um mau-olhado! Uma delas, sexagenária, que esteve presa durante o regime comunista, na presidência de Nicolae Ceausescu, terá preparado (contra os atuais governantes) uma mezinha com um cão morto e excrementos de gato; enquanto que uma dúzia destas “profissionais” ter-se-á dirigido ao rio Danúbio para lançar um mau-olhado aos ditos governantes romenos, tendo garantido que “o “mal cairá sobre eles”.

Em Portugal, no final de maio do presente ano, a comunicação social referia uma nota da Polícia Judiciária, que dava conta de uma investigação a envolver duas mulheres e um homem, concluindo que este trio estaria sob forte suspeita da prática de “crimes de burla qualificada”, ficando-se com a ideia que estariam detidos preventivamente. Um dos seus crimes era a abordagem de pessoas, na zona de Lisboa, dizendo à vítima (ou referindo-se a familiares próximos) que “padecia de um mal grave” – decorrente de mau-olhado –, levando ao convencimento que os seus problemas seriam resolvidos através de “alegados tratamentos espirituais, que se disponibilizavam a realizar”, e que podiam ter a duração de meses ou anos. Como não é habitual os burlões fazerem trabalho “pro bono”… neste caso exigiam às vítimas avultadas quantias em dinheiro e ouro, dizendo-lhes que o ouro seria enterrado para contactarem os espíritos malignos, como forma de proporcionar a cura da “doença”, e que depois do tratamento o ouro seria devolvido. Só num dos casos terá “voado” dinheiro e ouro no valor de € 200.000, presumindo-se que esse ouro tenha sido vendido e derretido.

Já no anterior mês de março, um artigo do jornal “i” referia em título: “Mau-Olhado: A crença que não escolhe idades nem classes sociais”. Nesse artigo, depois da divulgação de alguns casos concretos em Portugal, menciona a revista científica “Journal of Economic Behavior & Organization”, que dá a entender que a crença no mau-olhado terá aparecido como “defesa nas comunidades com maiores desigualdades sociais, para as pessoas se escudarem da inveja de quem tinha menos”.

O senhor padre Fontes – pessoa por quem tenho uma profunda admiração, tendo colocado no “mapa” a pequena aldeia transmontana, Vilar de Perdizes, pertencente ao concelho de Montalegre – fomentou o Congresso de Medicina Popular, que vai este ano na sua 28.ª edição, e cujo evento é visto como um importante “acontecimento cultural”, mas onde, entre outros, é vendida a “erva da inveja, que combate os maus olhares e toda a espécie de inveja”. É conhecida a opinião do senhor padre Fontes relativamente a este assunto: para ele, o mau-olhado é uma mera superstição e atribui os “azares e os problemas” às próprias pessoas, através dos seus sentimentos de “ódio, raiva (…)”; esta opinião faz-me lembrar a frase atribuída a Neville Goddard: “Tenha cuidado com os seus humores e sentimentos, porque existe uma ligação ininterrupta entre os seus sentimentos e o seu mundo invisível”.

Não será preciso ser-se psicólogo ou sociólogo para realçar, nestes casos, a importância da crença e, pior ainda, da obsessão na vida de cada um. Se há alguém a acreditar que outrem lhe está a fazer mal, por exemplo, onde entre a inveja e o mau-olhado, esse sentir terá consequências… que poderá manifestar sintomas daquilo em que a pessoa acredita.

Na introdução do livro “O Poder da Mente” [ed. Círculo de Leitores, 2000], o comentário do Dr. J. B. Rhine, investigador de capacidades psíquicas na Duke University, Carolina do Norte, E.U.A., vai mais longe e refere: “assombra-me o facto de a imaginação conceber todas as implicações que se seguem, agora que se demonstrou que a mente, através de algum meio desconhecido e dela própria, tem a capacidade de efetuar diretamente as operações materiais no mundo à sua volta”. Objetiva com o exemplo de algumas pessoas que “conseguem hipnotizar, infligir maldições, mover objetos, (…), exercer o domínio coletivo de mentes, (…)”. No mesmo livro [p. 13] há um parágrafo com o título “Atividades Sinistras”, onde pode ler-se: “Talvez seja significativo que a sociedade ocidental considere sinistra (do latim para “esquerdo”) atividades como magia e misticismo, porque não parece existir qualquer lógica racional a apoiá-las. Contudo, outras atividades como meditação, ioga, cura pela fé, parapsicologia, adivinhação e realização de estados de consciência, alterados através do uso de drogas, desafiam a lógica do cérebro esquerdo e são praticadas por um número crescente de pessoas.  

Há quem não duvide que o mau-olhado é mesmo uma realidade, e que não será através dos olhos mas sim da carga energética gerada pela mente e pelas emoções; quem assim pensa, também considera necessário e possível “limpar esse campo energético” (subentendendo-se como negativo), enviado pelo pensamento de outrem. Mas os citados campos também podem ser positivos, em concordância com o pensamento. O Dr. John Pierrakos, do Instituto de Energética do NÚCLEO, em Nova Iorque, que faz o prefácio do livro “Mãos de Luz – Um Guia para a Cura através do Campo de Energia Humana”, de autoria de Barbara Ann Brennan, menciona haver uma “ligação da psicodinâmica ao campo da energia humana” e “descreve as variações do campo de energia na medida em que ele se relaciona com as funções da personalidade”. Hoje sabe-se, porque se pratica – com bastante sucesso –, não só a cura presencial como a cura à distância, sem recurso à medicina convencional e sem o consumo de fármacos.

Existem imensas investigações credíveis sobre esta matéria, de que destaco dois estudos. Um, foi efetuado pelo Dr. Barnard Grad, da Universidade de McGill, em Montreal, Canadá, que fez “investigação com sementes de cevada para testar o efeito de energias curativas psíquicas em plantas”. As sementes foram lançadas à terra e “regadas com uma solução salina, que retarda o crescimento; uma parte das sementes, lacradas num recipiente, foi regada com uma solução energizada” por um mestre de Reiki, e a outra parte não. Provou-se a existência dessa energia “extra”, já que o efeito da energia contida nesta solução, mesmo que aplicado o retardante, possibilitou “estas plantas cresceram mais rapidamente e mais saudáveis, com mais 25% de peso e um teor de clorofila mais alto, provando-se também que energias curativas podem ser armazenadas em água para uso futuro. Outro estudo, bastante divulgado, efetuado por uma universidade norte-americana, dá-nos conta da utilização de dois grupos distintos de voluntários: um deles, lançou “vibrações de ódio” junto de plantas; um outro, lançou vibrações de “amor e carinho”. As conclusões eram evidentes: “as primeiras murcharam e algumas até morreram, ao passo que as outras, as que receberam pensamentos e sentimentos de amor ficaram cada vez mais exuberantes”, provando haver “uma energia psíquica que pode ter efeitos benéficos ou maléficos, a depender dos sentimentos ou intenções do seu emissor”.

Na luta diária pela sobrevivência num país em crise, é natural que haja um acréscimo de angústia, por se “ver a vida a andar para trás” –, mas também de um aumento de crença, de inconformismo e de vontade de recorrer a profissionais, como quem quer agarrar-se a algo para inverter o ciclo negativo que o sufoca. Não é por acaso que os psiquiatras e psicólogos têm mais pacientes nestas ocasiões. Não é por acaso que acontece o mesmo com as videntes, cartomantes e outros profissionais, amadores e burlões deste ofício. Não é por acaso que todos os dias úteis, logo de manhã, no programa da SIC – “A Vida nas Cartas”, com Maria Helena Martins –, há uma apreciável audiência e muita afluência de chamadas de valor acrescentado, sendo que metade das “consultas” tem a ver com a inveja e o mau-olhado. Não é por acaso que, precisamente há mesma hora, também a TVI tem no ar o programa “Cartas da Alma”, com um formato semelhante.

A Maria Helena Martins também transmite a ideia que somos nós os principais causadores do que nos acontece de mal, particularmente pela forma negativa como encaramos a vida, mas vai deixando escapar que se a pessoa se sentir insegura e quiser agarrar-se a um amuleto, que pode ser um “santinho” na carteira, uma medalhinha ao pescoço, uma rosa de Jericó ou um olho da Turquia, por afastarem a negatividade e dar sorte, não vem nenhum mal ao mundo por isso. E se mesmo assim ainda sentir necessidade de fazer uma oração ou um ritual, há-os para todos os gostos, e exemplifica com uma para o mau-olhado (pelo sim, pelo não…) : “Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti mal olhou. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Virgem do Pranto, tirai este quebranto” – que é dito na altura em que pinga azeite num prato com água, utilizando o dedo polegar.

Desde pequenino que eu ouço dizer: “Não acredito em bruxas… mas que as há… há!”; e em castelhano até parece que tem outro sabor: “No lo creo en brujas … pero que las hay… las hay!

© Jorge Nuno (2015)

04/06/2015

Aroma do Além

AROMA DO ALÉM

Nasci com o aroma do Além,
Dei os primeiros passos no querer
Intuído por ilógico saber
Na procura do caminho do bem.

Lancei sementes, reguei-as com crer,
Colhi o grão e levei-o à moagem.
Parti pedra, em degredo de coragem,
Construí o que hoje é o meu ser.

Mastigo o pão nosso de cada dia,
Enquanto gozo o sabor da viagem
Guiado p’las mãos da sabedoria.

Sentirei esse aroma do Além
Num sentido regresso de acalmia,
Após mais uma vida de vaivém.


© Jorge Nuno (2015)

03/06/2015

Invocação de Musas

INVOCAÇÃO DE MUSAS

Não quero remendar a dor na escrita,
E transportar, de dentro para fora,
Energias em busca de sentido.

Não sei se consiga invocar Calíope,
Com poder de transformar as palavras
Num turbilhão de poesia épica.
Talvez Polímnia ouça a minha prece
E lance tais feixes de luz dourada
Que revelem no papel o sagrado.
Quem sabe… Erato esteja disponível
E transforme fogo de romantismo
Em ternurentos poemas de amor.

Bastou falar de amor e o teu olhar…
Para ver que há tempestades perfeitas
E és a minha a fonte inspiradora.


© Jorge Nuno (2015)

02/06/2015

Gota de Orvalho

Gota de Orvalho

Quero sentir paixão no descobrir,
Mente sob alçada da consciência,
Sintonia com som da existência,
Despreocupação com o porvir.

Recrear-me, sem traços de aparência,
Deixar entrar a brisa e prosseguir
Com transparência no modo de agir,
Liberto da cultura de exigência.

Vou desgrenhar o cabelo grisalho,
Rir quando sair fora dos carris,
Gozar sem o conforto do meu galho.

Abdicar do que à força eu tanto quis,
E deixar rolar… qual gota de orvalho
Sobre folha, em manhãs primaveris.


© Jorge Nuno (2015)