26/09/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (19) - A Rosa Púrpura do Mundo Virtual

A ROSA PÚRPURA DO MUNDO VIRTUAL

Aos poucos, foi-se chegando à conclusão que cada pensamento tem influência sobre a realidade física e cria [mesmo] a realidade. Indo um pouco mais longe, há quem desenvolva a ideia da “transformação quântica do pensamento”, pratique, e ganhe muito dinheiro com isso. Li, num livro de Pam Grout: “neurocientistas dizem-nos que 95 por cento dos nossos pensamentos são controlados pelo subconsciente pré-programado da nossa mente. Em vez de efetivamente pensar estamos a ver um ‘filme’ do passado”. Isto quererá dizer que está ao nosso alcance mudar a visão das coisas e mudar completamente a nossa vida, fazendo com que a experiência de vida seja bem mais gratificante, desde que mudemos a forma de pensar, mais que ultrapassada, que temos vindo a usar até aqui. Entretanto, continuamos embrenhados num mundo ilusório, de fantasia e de ignorância.

Lembro-me, há cerca de 40 anos atrás, de ter recebido um familiar – que vivia numa localidade do interior e veio à capital –. A dada altura, pronunciou-se que as pessoas da cidade eram doidas, pois “ficavam a falar para a parede”, tal como se estivessem em Jerusalém, junto ao Muro das Lamentações. Acredito que seria essa sensação que os citadinos lhe transmitiam, embora acreditando que não estariam a fazer as suas orações, pois os gestos, a [falta de] concentração e o pouco tempo nessa pose não indiciavam tal. Disse-lhe, simplesmente, que essas pessoas estavam junto de um intercomunicador que há, normalmente, ao lado da porta principal de cada prédio, e que comunicavam com alguém que vive num dos andares. Se esse familiar tivesse dado um salto no tempo e hoje observasse as pessoas a caminhar nos passeios da cidade, com um ou mais sacos em cada mão e a cabeça torta, apoiado num dos ombros, certamente diria que toda a gente da capital, além de continuar doida (por falar sozinha na rua), tinha torcicolo, já que seria difícil imaginar que há agora um pequeno objeto – o smartphone – que nos permite fazer inúmeras tarefas, entre elas, como a mais trivial das funções, falar à distância com outra pessoa.

Lembro-me, também, de um filme com argumento e realização de Woody Allen – A Rosa Púrpura do Cairo – que fantasiava o “boom” do cinema dos anos 30, em plena recessão nos Estados Unidos da América, e retratava uma mulher [mal] casada, com trabalho precário e uma paixão pelo cinema, e um marido desempregado, que a explorava e maltratava. Era um filme dentro de outro, com o ator Jeff Daniels no papel do ator Gil Shepherd, a fazer do explorador Tom Baxter, para decifrar o enigma do faraó que mandou corar de roxo uma rosa para a sua rainha, constando-se que agora, no túmulo dela, crescem rosas púrpura. A dada altura, essa mulher – a atriz Mia Farrow, no papel de Cecilia – apercebeu-se que o personagem Tom Baxter reparou nela (por ter ido pela quinta vez ver o mesmo filme), vindo este a saltar da tela, em plena sala de cinema, e dirigir-se a ela, dando lugar a um casal apaixonado, que logo virou um trio amoroso, já que o ator Gil Sheperd a baralhou e fez ver que o “outro”, não passava de um personagem. Imagino quantas mulheres não se terão deliciado a ver este filme! Há ilusão, fantasia, romance… e parece que as pessoas apreciam isso mesmo, pois os milagres continuam a acontecer, mesmo que depois se acendam as luzes para os cinéfilos poderem sair em segurança.

O problema é que podemos não estar a equilibrar o mundo virtual com o real, começando pelo tempo que diariamente dedicamos ao virtual, precisamente por nos parecer real, fundindo ambos, e não termos consciência disso. Há que ter em atenção para não deixar degradar o relacionamento – esse sim, real – ao nível familiar entre marido e esposa, pais e filhos, núcleo de amigos… Não se trata de falsos moralismos, mas quantas vezes está o casal à mesa (como se vê na zona da restauração de um centro comercial), cada um com o seu telemóvel a ver o correio eletrónico, a consultar a sua página do Facebook (ou dos amigos) ou a comunicar noutras redes sociais, tendo aí uma vida mais ativa do que fora delas? Algo vai mal quando uma pessoa fica desesperada por estar quase a atingir o plafond dos dados móveis, e sentir que é pior do que ter a sinalética do painel da viatura a indicar que o combustível está na reserva; ou por não ter acesso a wi-fi (à borla) durante 24 minutos e sentir que é bem pior que ficar sem água na torneira durante 24 horas; ou correr para o telemóvel, num desassossego, logo que ouve o sinal inconfundível de uma mensagem acaba de chegar ou, simplesmente, para espreitar se há novidades, ignorando completamente o toque da campainha da porta. Para alguns especialistas, este tipo de comportamento já foi rotulado de patologia. Que tal começar por experimentar um fim de semana desligado da Internet e procurar outras alternativas, porventura interessantes, com contacto direto com familiares e pessoas amigas e com a natureza? Que tal restringir o acesso à Internet ao longo da semana, e fazer uma utilização moderada, como se estivesse a fazer uma dieta, sem sentir sacrifício ao não empanturrar-se desordenamente. A “cura de desintoxicação”, talvez possa passar por aqui, como treino básico. Ainda em relação ao pensamento e à vontade própria, há uma máxima que diz: “Se souber aquilo que quer, pode tê-lo”. Ter uma vida mais saudável e feliz, em grande parte, depende de cada um de nós; e uma “verdadeira” rosa púrpura (ou mais) pode ajudar a perfumar a nossa vida.

© Jorge Nuno (2015)


12/09/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (18) - As Minhas Cuecas "Channo"

AS MINHAS CUECAS “CHANNO”

Mesmo ao meu lado, o rapaz resmungava e fazia má-cara perante a insistência da mãe. Apercebi-me que ela fazia um enorme esforço para tentar convencê-lo a experimentar aquele número e modelo de calçado desportivo, marca Crivit, que em boa verdade só tinha visto no Lidl. Mas nada demovia o rapaz, mesmo que a mãe dissesse: “já levei para a tua irmã, ela gostou e duraram até lhe deixar de servir”; “só custam € 19,99”; “os que tu queres, da Nike… custam cinco vezes mais e duram o mesmo tempo.” Ao fim de alguns momentos de impasse a mãe acabou por lhe dizer: “Pronto… se quiseres compro-te os ténis da Nike na feira”. Foi como se a mãe acendesse um novo rastilho curto, pois o rapaz voltou a explodir de imediato, argumentando que era calçado falsificado e não tinha a mesma qualidade dos originais.

Vivemos num mundo que venera e incentiva o culto das “marcas de prestígio”. A própria indústria publicitária também faz uso de estratégias para atrair as marcas e fazê-las gastar mais, agora e cada vez mais através da via digital. Pelos vistos, este jovem teria apreendido a mensagem – repetida à exaustão, com envolvimento de quantias exorbitantes –, emitida por quem tem a missão de fazer apetecível um produto ou uma marca, mesmo que o rácio custo/qualidade não justifique a sua aquisição.

Quanto mais valorizado estiver o produto ou a marca, mais prolifera a contrafação, na expetativa de que estará assegurada clientela e o lucro fácil. Não é por acaso a frequência com que as autoridades, como a GNR – Guarda Nacional Republicana e a ASAE – Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (Órgão de Polícia Criminal) fiscalizam e fazem a retenção de mercadorias contrafeitas, por se estar perante imitação e uso ilegal de marca, acontecendo maioritariamente junto de vendedores ambulantes. Através do site da ASAE, na área do “Grupo Anti-Contrafação”, ficou-se a saber que em menos de 30 dias aconteceu a apreensão de mercadoria contrafeita nas seguintes localidades: festas de São Paio, Torreira (avaliada em € 36.000); na via pública em Faro (€ 3.000); na feira quinzenal de Moimenta da Beira (€ 28.000); através de fiscalização rodoviária, em Albergaria-a-Velha (€ 6.000); na feira semanal de Tondela (€ 70.000); na via pública em Santa Maria da Feira (€ 5.500)…

Entretanto, são muitos os consumidores – por uma questão de status –, a acreditar que lhes trará prestígio e distinção superior, perante os demais, o uso daquela mala “Louis Vuitton”, daqueles óculos “Dior”, daquela peça de vestuário “Dolce & Gabanna”, ou daqueles sapatos “Prada” ou ténis “Nike”, mesmo sabendo que esses ditos produtos de “luxo” têm uma forte probabilidade de serem contrafeitos ou “desviados” por amigos do alheio e (re)colocados à venda, na ilusão que importa mais parecer do que ser.

Na qualidade de aposentado e sem ter a necessidade imperiosa de uma vida social ativa ou de ter que ir aperaltado para o emprego, sinto-me livre de ter que usar: uma gravata “Calvin Klein” (ou sequer usar gravata); uma camisa “Luchiano Visconti”; um fato “Armani”; uns boxers “Guess”; umas meias “Ralf Lauren” e uns sapatos “Galliano”. Como é bom sentir-me livre com o meu pijama de verão “Peng Li” (ou sem ele) e como é bom sentir-me livre com as minhas cuecas “Channo” (ou sem elas)!

© Jorge Nuno (2015) 

30/08/2015

A Construção dos Meus Versos

A CONSTRUÇÃO DOS MEUS VERSOS

Envolto em floreado emocional
Ouço os murmúrios da intuição,
Logo é detetada uma alteração
No fluxo sanguíneo cerebral.

A despropósito, uma agitação
De ondas gama no lobo temporal,
Julgada fenómeno irreal,
Traz-me revelação até à mão.
                                                                        
Raciocínio lógico em inação,
Sem factos analíticos adversos,
Faz intuir e leva à criação.
                                                                        
Não importa ser visto entre os dispersos
Se é com esta minha dispersão
Que costumo construir os meus versos.


© Jorge Nuno (2015)

27/08/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (17) - A Inteligência, os Eleitores e os Burros

A INTELIGÊNCIA, OS ELEITORES E OS BURROS

Partindo do nada, como de costume, logo pairou no ar a ideia de escrever sobre Bragança, pois – por mais estranho que pareça – foi considerada a 3.ª cidade mais inteligente do país, situando-se no Top 4, juntamente com Lisboa, Porto e Oeiras, num estudo independente intitulado “Portuguese Smart Cities Index 2015”, efetuado pela IDC – líder mundial em Market Intelligence.

Da inteligência, por oposição, surge-me de imediato a ideia de escrever sobre burros. Pode-se pensar, e com razão, que os decisores têm dificuldade em agir, em planear e, finalmente, colocar no terreno as condições necessárias à prevenção de incêndios, e pode-se intuir que estou a pensar em “burrice”, por essa falta de estratégia nacional. Na verdade, sabemos que anualmente os incêndios se tornam um flagelo, pondo em risco bens e pessoas, exigindo um enorme esforço humano e financeiro no seu combate, particularmente na época de verão, e que ano após ano vamos assistindo, nem que seja à distância, nos primeiros minutos dos telejornais. Foi com agrado que soube que burros de terras de Miranda do Douro iriam ser usados na prevenção de incêndios florestais, num projeto a cargo da Associação para o Estudo e Proteção de Gado Asinino (AEPGA) e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), experiência que se vai iniciar em 2016, tal como tem vindo a apresentar resultados positivos o projeto que promove a terapia com burros destinado a crianças com deficiências físicas e mentais, incluindo crianças autistas ou com dificuldades de relacionamento, e também com o envolvimento da AEPGA e da UTAD.

Sinto um aviso sonoro de chegada de correio eletrónico, e interrompo o raciocínio e o início da escrita. Trata-se de uma mensagem, contendo um link, enviado por um amigo jornalista e escritor, por quem nutro uma grande estima, devido ao seu perfil e envolvimento generoso no associativismo e na cultura. Nesse artigo, aborda com incidência o interior do país, apesar de viver no litoral, no distrito de Setúbal. Realça a “alteração do mapa das freguesias”, levando ao fim de imensas sedes de Juntas de Freguesia, com “perda do poder autárquico”, o “fim do programa de apoio para a terceira idade”, o retirar de “Centros de Saúde, Repartições de Finanças, Tribunais, Escolas (…)”, originando um forte retrocesso nas vidas dos cidadãos, deixando no ar uma inquietante preocupação quanto ao défice de esclarecimento e à intenção de voto destes portugueses que vivem no interior, com tendência para favorecer “quem lhes fez tanto mal”.

Vivendo eu no interior, por opção, e conhecendo esta realidade, não posso deixar de concordar com a maioria do conteúdo deste artigo. Acrescento que políticas erradas, ao longo de décadas, acelerou a desertificação do interior e considero que o país, de forma desproporcionada, está mesmo inclinado para o litoral, onde se promove o investimento e se concentram populações. Mas quanto ao sistema eleitoral usado para as legislativas, ao método de Hondt e representatividade na Assembleia da República (AR), ao excessivo número de deputados eleitos, aos elevados gastos nas campanhas eleitorais, ao financiamento dos partidos, aos lobbies instalados, à falta de interesse dos partidos políticos em promoveram “reformas” internas, que apregoam para o Estado, com consequências no bolso do cidadão… em tudo isto, de forma corporativa, defende-se o status quo. Não é inocente, ingrata ou de gente “burra”, “atrasada” ou pouco esclarecida, a opinião generalizada que paira sobre a classe política, com políticos de topo na hierarquia do Estado a ter pontuação negativa, que é como quem diz: vergonhosamente abaixo de zero.

Os portugueses, seja de que região forem, são livres de votar na formação partidária que quiserem, de votarem em branco, ou de não votarem, engrossando a enorme lista de abstencionistas em todo o país, como aconteceu nas últimas eleições para as legislativas, com abstenção de 41,1% (a mais alta de sempre) e nas últimas presidenciais, com 53,37% (também número recorde), a que se juntam mais os votos nulos e em branco, levando a que a atitude dos portugueses fosse associada a “indiferença, laxismo e falta de confiança”, perante o ato eleitoral, a política e os políticos.

Mas se ainda resta a dúvida quanto ao peso pouco expressivo dos eleitores que vivem no interior do país, deixo aqui o número de eleitores e o número de deputados a eleger no próximo ato eleitoral de outubro. Na faixa interior do país, que considerei composta pelos círculos eleitorais de Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre e Évora (eliminando Beja, por também ter território no litoral), há um total de 735.141 eleitores inscritos nos cadernos eleitorais, que colocam 16 deputados na AR. No círculo eleitoral de Setúbal há 725.783 eleitores que colocam 18 deputados na AR. Constata-se que os cinco distritos do interior citados têm mais 9.358 eleitores e elegem menos dois deputados que o de Setúbal. Só cinco distritos do litoral – Aveiro, Braga, Lisboa, Porto e Setúbal – elegem 60% dos deputados.

Na hora de votar – e falta cerca de um mês – o esclarecimento é importante, e nem quanto a isso os partidos políticos chegaram a acordo, preferindo fazer debates televisivos prévios, relacionados com os ditos debates que (tudo indica) não se vão realizar. Entretanto, há que deixar os burros fazer o seu trabalho, desde que em prol do bem comum, seja em terras de Miranda ou onde quer que se encontrem. Na hora de votar… há que fazer uso da inteligência, consciente que todas as ações/decisões produzem consequências, e ainda mais, quando se fala de inteligência coletiva, a exigir “reformas” do sistema partidário e firme mudança de atitude.

© Jorge Nuno (2015)

08/08/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (16) - Família Pimparel: entre judeus, cristãos-novos e cristãos.

FAMÍLIA PIMPAREL
Entre judeus, cristãos-novos e cristãos

Vai-se ouvindo dizer que “podemos escolher os amigos, mas não a família” ou, também, “os amigos são a família que nós escolhemos”. Benditos aqueles que não tendo escolhido a família, têm os familiares como amigos; a vasta família Pimparel é um exemplo disso, entre aqueles que têm oportunidade de se conhecer e privar no dia a dia ou em encontros esporádicos promovidos, ou ainda outros, mais ou menos casuais.

Tantas vezes foi questionado, por membros desta família, a proveniência do nome Pimparel e da própria família, ouvindo-se uns zunzuns, passado de boca em boca pelos mais antigos até ao presente, quase a medo, que se tratava de uma família de origem judaica; a alguns deles, devido à Inquisição, terá sido imposto a “conversão” a cristãos-novos e hoje, passado cerca de 500 anos, há predominância de cristãos. Na verdade, ao tempo do rei D. João III, há o relato de um André Gonçalves Pimparel, que se pode ler num documento preparado por Maria José Ferro Tavares (professora catedrática aposentada), intitulado “Entre religiões e negócios, a sobrevivência” e que, com base num documento da Inquisição de Lisboa (PT-TT-TSO/IL/28/57, fot. 9-10) diz o seguinte: “(…) André Gonçalves Pimparel fora viver para a Turquia onde se fizera judeu e nesta fé morrera. Enquanto fora vivo escrevia cartas aos filhos, aos netos e a outros cristãos-novos que tinham ficado em Miranda do Douro, estimulando-os a perseverarem na fé judaica.

Também um artigo assinado por António Júlio Andrade e Fernanda Guimarães (com livros publicados e tendo como fonte IANTT - Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão) refere André Gonçalves Pimparel como uma “figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubini (judeu originário da Índia e aclamado como o Messias prometido (…)” e que depois deste ter caído em desgraça, levou a que o Pimparel – um dos seus principais seguidores – se visse forçado a seguir para a Turquia, por terra, com um dos “seis salvo-condutos emitidos em 21.6.1526 pelo rei D. João III (…). Este Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos ‘batizados em pé’ ”.
Num documentário preparado por José Rodrigues dos Santos (jornalista e escritor), passado na RTP 2, veem-se algumas incursões deste por terras do nordeste transmontano, particularmente em Carção e Argozelo, assim como pelo Arquivo Distrital de Bragança, em demanda das suas origens, e terá concluído que também tem antepassados, de origem judaica e de apelido Pimparel.

O guarda-redes Beto, jogador da Seleção Nacional de Futebol e atualmente ao serviço do Sevilha, demonstra orgulho neste seu apelido, tal como qualquer dos Pimpareis que se conhece.  

         Sabe-se que, na primeira metade do século XX, vários membros desta família detinham, maioritariamente, pequenas áreas de negócio – caraterística de judeus –. Atualmente, os seus descendentes têm vindo a conseguir cargos de relevo, nas mais variadas profissões em diversas cidades europeias e de outros continentes, embora sem o “estrelato” atribuído a quem aparece frequentemente nos media. Atualmente o nome Pimparel está disseminado por todo o Portugal (com maior quantidade em Trás-os-Montes) e também no estrangeiro, com núcleos familiares conhecidos na Alemanha, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos da América, França, Reino Unido, Sérvia, Suíça,…

Membros desta família – alguns sem se conhecerem –, criaram e começaram a fazer circular árvores genealógicas das ramificações que conheciam (por mensagens nas redes sociais), para juntar as várias “peças do puzzle” e obter uma visão mais alargada da extensão da família.

Em boa hora partiu a ideia da realização de um primeiro almoço-convívio, por Ricardo dos Santos Pimparel, que se realizou em Bragança em 15 de agosto de 2014, e juntou cinquenta e dois membros desta família, com muitas crianças que ostentam o Pimparel no seu cartão de cidadão, estreitando laços familiares. O “motor” deste evento, em termos organizativos, foram a Lena Pimparel e a Laura Pimparel, primas afastadas (até fisicamente, em cerca de 400 km) e que até há pouco tempo não se conheciam. Para o mesmo dia e mês, em 2015, está previsto o segundo almoço-convívio, igualmente em Bragança.
Como qualquer outra família, nos imensos núcleos familiares desta, em particular, haverá: venturas e desventuras; alegria e momentos menos bons; solidez de relações e abalos ocasionais. Mas no reencontro sobressai o elo forte da amizade, num carinho comovente, a ultrapassar as meras relações familiares (ou o pretexto dos laços de sangue), fazendo-nos experienciar o verdadeiro sentido da vida – nesta caminhada de luta diária – onde nos deparamos, naturalmente, com o tempero de afinidades, cumplicidades, simplicidade e muita fraternidade, valores inestimáveis a preservar para uma vivência mais suavizada e agradável.

© Jorge Nuno (2015)


(casado com uma Pimparel, tendo dois filhos e dois netos com o mesmo apelido).

01/08/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (15) - Haja Pedalada!

HAJA PEDALADA!

Portugal aparece na linha da frente dos países europeus, juntamente com a Suécia, Letónia, Finlândia e Áustria, no que toca a energia elétrica produzida por fontes renováveis, amigas do ambiente. Está mesmo a ter um papel importante a nível mundial, como exemplo positivo, devido às políticas de implementação de energias renováveis, permitindo evitar, só em 2014, a emissão de 26 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), que representaria cerca de 40% do total das emissões de gases de efeito de estufa neste país. Deste modo, deu o seu contributo no combate ao aquecimento global, tendo presente as metas do Protocolo de Quioto e os compromissos políticos e climáticos assumidos, a necessidade interna de reduzir a fatura nacional das importações dos combustíveis fósseis (caso do carvão, petróleo e gás natural, os quais têm muito peso no desequilíbrio da balança comercial com o exterior), e conferir ao país maior independência económica e alguma recuperação económica.

Portugal foi mesmo pioneiro mundial no recurso à “energia das ondas”, fazendo o aproveitamento da energia cinética resultante da movimentação da água do mar, sendo a densidade energética das ondas do mar “10 vezes mais alta do que a energia eólica e 100 vezes mais alta do que a radiação solar”. O primeiro a ser criado – o parque das ondas da Aguçadoura (Póvoa do Varzim) –, tem capacidade para abastecer energia elétrica a 15.000 famílias; o segundo – a cinco milhas da costa, ao largo da praia da Almagreira (Peniche) –, após “testes com grande sucesso”, segundo o presidente executivo da empresa finlandesa AW Energy (que investiu neste projeto), tem exploração comercial prevista a partir de 2016 e poderá abastecer 5.500 famílias. 

A Quercus – Associação Nacional da Conservação da Natureza (uma ONG) e a APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis, depois de terem analisado dados da REN – Redes Energéticas Nacionais relacionados com a produção de eletricidade nesse mesmo ano, concluíram que “foi o ano mais renovável”, devido ao recorde de produção de eletricidade através destas fontes, “permitindo poupanças de 1.565 milhões de euros: 1.500 milhões na importação de gás natural e carvão e 65 milhões em licenças de emissão de CO2”.

Não esqueçamos que, mesmo assim, os processos que levam à exploração destas energias alternativas também têm custos ambientais e sociais, além de elevados custos de implementação dos projetos, que deveriam ser imputados exclusivamente aos investidores e não aos contribuintes.

Há indicadores oficiais que apontam, em 2014, que “a eletricidade obtida a partir de fontes renováveis foi responsável por 62,7% do total energia elétrica consumida, representando um aumento de 6% em relação ao ano anterior”. Como os portugueses têm tendência para desconfiar e estão sempre de pé atrás… com a curiosidade que me carateriza, fui consultar, aleatoriamente, uma fatura de eletricidade de 2014 (calhou setembro na “rifa”) e verifiquei o seguinte, relacionado com as fontes de energia: só a energia eólica representava 53%, a hídrica 12,6% e outras fontes renováveis 10%, o que totaliza 75,6% – representando, neste mês, ainda mais 12,9% do que os valores oficiais indicados como média anual –, o que me deixou agradado quanto ao aproveitamento deste tipo de energias. Procurei explicações para esta diferença e verifiquei que, em 2014, terá sido um ano: mais húmido (em 27%, face à média de anos anteriores), possibilitando melhor aproveitamento da energia hídrica; mais favorável em termos de vento; em que terá havido um aumento de 31% na capacidade instalada para a obtenção de energia fotovoltaica.

O presidente da APREN, referindo-se a 2014, salientou que “o facto de quase dois terços da eletricidade consumida ser de origem renovável possibilitou estabilizar o preço deste bem".
Se é verdade que, na UE, estamos na linha da frente no que toca ao aproveitamento das energias renováveis, também é verdade que:
1 – Portugal tem a terceira pior prestação (0,7%) no que respeita ao uso de energias provenientes de fontes renováveis nos transportes, só ultrapassado pela Estónia (0,2%) e Espanha (0,4%) e muito aquém do objetivo de 10% para 2020”, segundo dados estatísticos oficiais da UE. [Obs.: Não tenho a pretensão de conhecer, em pormenor, a realidade dos transportes urbanos de todos os concelhos do país, mas agrada-me saber da sensibilidade de alguns autarcas (cujas autarquias assumem a função social de assegurar transporte público aos seus munícipes) levando a uma progressiva substituição da frota, movida a gasóleo, por outra com uso de combustíveis menos onerosos e mais amigos do ambiente, de que se destaca a energia elétrica];
2 – Portugal tem o segundo preço mais caro da eletricidade para utilizadores domésticos (por kwh), a seguir à Alemanha, no conjunto dos 28 países da EU, segundo dados recentes do Eurostat. [Obs.: Dei-me ao cuidado de pegar nessa tal fatura aleatória e verifiquei que nela está refletido um acréscimo de 45,2% sobre o custo do consumo de eletricidade medido, onde surge a contribuição audiovisual, imposto especial sobre consumo de eletricidade, potência contratada, taxa de exploração DGEG e IVA (a 23%), o que fará com que tenhamos a energia mais cara da UE].

À partida, parece um contrassenso termos um dos maiores rácios na utilização das energias renováveis face ao total das fontes de energia e, ao mesmo tempo, o custo mais elevado da eletricidade entre estados-membros da EU, sendo este mais um obstáculo à competitividade e ao desenvolvimento da atividade económica do país.

Até se conseguir um desanuviamento deste constrangimento – que asfixia famílias e empresas –, fica a recente promessa governamental: “1.200 veículos elétricos a ser integrados na frota do Estado, até 2020, de acordo com o programa Eco-Mob” (a partir de agora, mas dependente de fundos para avançar e de quem vier a ganhar as próximas eleições legislativas); criação de parques de estacionamento de bicicletas para funcionários públicos, medida anunciada que já deu aso a ridicularizações do gesto, por parte dos sindicatos, e indignação, por parte de funcionários públicos. Valha-nos as bicicletas disponibilizadas aos munícipes e visitantes, por parte de algumas autarquias, sem custos para o utilizador e com todas as vantagens que isso implica, enquanto o bom tempo o permitir, pois é um saudável transporte alternativo aos veículos motorizados.

Haja pedalada, para inovar e aguentar a caminhada!  
© Jorge Nuno (2015)

18/07/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (14) - Estudos e Contradições

ESTUDOS E CONTRADIÇÕES

Habituei-me a olhar para a comunidade científica, ao nível da investigação, com muito respeito e até admiração; ainda mais pelos inúmeros prémios e reconhecimento internacional, particularmente em relação a jovens investigadores portugueses, com vários no patamar dos melhores a nível mundial, o que leva que este pequeno país seja considerado um país de grandes investigadores.

Julgo saber distinguir a diferença entre: estudos relacionados com investigação – a que aludi no primeiro parágrafo –, com pessoas e/ou entidades credíveis; recolha e tratamento de dados estatísticos, e apresentação de resultados, normalmente por entidades independentes, estando os seus membros imbuídos de uma cultura ética que confere credibilidade aos resultados obtidos; estudos científicos manipulados, indo ao encontro de quem promove esses estudos, na forma de cliente ou sponsor, algumas vezes camuflado de mecenas; evocação e realce de aspetos particulares dos estudos ou, pior, adulteração de dados, conforme circunstâncias do momento e conveniências políticas; e o meu próprio feeling, baseado na minha experiência de vida, com toda a subjetividade que isso acarreta, e crença na minha capacidade de ir à procurar de respostas e formular uma opinião pessoal.

Temos tendência a alinhar no senso comum – por parecer tão óbvio –, e por ser isso que se espera; mas fundindo muito do que acabei de referir, reparo que me sinto algo confuso com algumas conclusões provenientes de estudos diferentes, pelas evidentes contradições que nos chegam e pelo que o nosso olhar (mais ou menos) atento nos revela. De uma forma simplista, numa primeira abordagem poderia pensar em métodos e técnicas diferentes, a que recorrem pessoas e entidades diferentes. Mas vamos por partes…

Comecemos pelos investigadores. Chegam-nos relatos de muitos jovens investigadores que se sentiram “forçados” a sair do país, ou ficaram no desemprego, por não terem sido aprovadas as respetivas bolsas de investigação ou, sendo-o, foram-lhes atribuídas valores mais baixos do que o esperado, criando um natural desespero e um evidente acréscimo de dificuldades a quem sonhava fazer carreira nesta área, falando-se, com alguma insistência, num desinvestimento anormal na investigação. Segundo o estudo, com atualização recente (2015-06-26), baseado em dados da DGEEC/MEC – Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional e dados do INE – Inquérito ao Emprego, tendo como fonte a Pordata (da Fundação Manuel dos Santos), a proporção – em permilagem – dos investigadores em atividades de investigação e desenvolvimento (I&D), equivalente a tempo inteiro por 1000 ativos, foi sempre em crescendo de 1982 (0,9 ‰) até 2013 (8,2 ‰), com um ligeiro decréscimo apenas em 2012 (7,9 ‰). Tendo ainda como fonte a Pordata e a FCT, haverá 52.000 investigadores em Portugal, 322 unidades de investigação e foi de 80 milhões o valor das bolsas atribuídas nos últimos cinco anos.

Pobreza, abandono e obesidade. Tem soado o alarme em muitas autarquias, as quais vão tomando iniciativas avulsas, como seja: manter abertos os refeitórios das escolas em período de férias escolares, devido ao considerável número de crianças e jovens que passam fome. São preocupantes os números divulgados pelo MEC, com base no relatório da DGEEC, face às elevadas taxas de abandono dos cursos nas Universidades e ainda mais nos Institutos Politécnicos. Também algumas universidades efetuaram estudos; a Universidade do Minho aponta como algumas dessas causas de abandono: a atividade laboral  (não era suposto estarem a estudar?) e constrangimentos familiares (falta de recursos financeiros?). Segundo dados do INE, através do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (2014), existem mais de 1,96 milhões de portugueses em risco de pobreza. A responsável do Banco Alimentar contra a Fome anunciou que receberam alimentos 355.749 pessoas (em 2013), das quais cerca de 120.000 são crianças, que teriam passado fome se não se tivesse recorrido ao Banco Alimentar. A ONU, baseada em dados da UNICEF, alertou que em 2011 estariam 28,6 % das crianças portuguesas em risco de pobreza. Tendo como fonte a OMS – Organização Mundial de Saúde, a obesidade está a ser um problema sério tanto nos países desenvolvidos como nos emergentes, apontando que em Portugal têm peso a mais: 38% das crianças de 7 anos; 32% das que têm 11 anos; e 24,5% das que têm 15 anos. A mesma OMS, que tanto apregoa a virtude da Dieta Mediterrânica, deixou o aviso que Portugal, logo [estranhamente] a seguir à Grécia, é o segundo país europeu em que há maior prevalência de excesso de peso infantil. O estudo MUN – SI (2014) elaborado nos municípios de Viana do Castelo, Fundão, Oeiras, Montijo e Seixal, revelam que 44% das crianças estão “mal nutridas” e 4% apresentam “magreza extrema”, sendo que 39,4 % apresentam excesso de peso e 15,8 % são mesmo consideradas obesas, concluindo ainda que, na grande maioria, as crianças obesas eram oriundas de “famílias com rendimentos mais baixos”.

Desemprego jovem e trabalho precário. Segundo a CGTP, foi destruído um total de 617.000 postos de trabalho, entre 2008 e 2014. Os dados do INE apontam que terá havido um decréscimo de 298.000 pessoas empregadas, entre o 1.º trimestre de 2011 (em que se registava um desemprego jovem de 28%)  e o 1.º trimestre de 2015 (com aumento do desemprego jovem, passando para 34,4%). O INE indicou também que, no mesmo período, se agravou o desemprego de longa duração. Já o CIES – Observatório das Desigualdades, tendo como fonte Labour Force Survey (Eurostat), revela que, entre os 27 países da EU, Portugal situa-se em terceiro (a seguir à Polónia e Espanha) quanto à maior incidência de casos de trabalho precário, registando-se, no 1.º trimestre de 2010, cerca de 23,2 % dos casos entre trabalhadores por conta de outrem, agravado em 3% face a 2005, sendo que o trabalho precário jovem era de 54,6%. Daí para cá, há a perceção que a situação ainda se agravou mais, com o aumento da precariedade laboral de profissões qualificadas e a consequente desvalorização salarial e degradação das condições de trabalho. Entretanto, em 2015-07-13, o membro do Governo que tutela o Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, referiu no Algarve: “Desde o início de 2013, e até hoje, conseguimos criar 175.000 novos postos de trabalho. Sobretudo, postos de trabalho com qualidade e efetivos”, dizendo também que “por cada contrato a termo [precário] são gerados três postos de trabalho permanente nos quadros das empresas”.

Festivas de Música no Verão. Neste cantinho à beira mar plantado, em período de estio e de férias (para quem tem ocupação profissional ou estuda), singram, um pouco por todo o lado, os festivais de música. Aponto alguns dos mais emblemáticos (passe a publicidade dos principais promotores): NOS Alive (Algés); MEO Marés Vivas (V. N. de Gaia); Vodafone Paredes de Coura; Sumol Summer Fest (Ericeira); Super Bock Super Rock (Lisboa); NOS Summer Opening (Funchal); Sol da Caparica; Marés de Agosto (Açores); Festival do Crato. De uma forma geral, são apelativos os programas apresentados em cada ano. Se tivermos em atenção que o público-alvo da quase totalidade destes festivais são os jovens, e que é relativamente elevado o valor de cada entrada (ou mesmo o pacote completo) face ao nível de vida dos portugueses, não podemos deixar de estranhar o sucesso destes festivais em tempo de crise, realçando, como mera exemplificação, o NOS Alive 2015, que com um mês de antecedência já não era possível comprar o passe de 3 dias e/ou o bilhete diário de 9 de julho – por ter esgotado – com uma assistência de 55.ooo pessoas, sendo os bilhetes dos restantes dias a € 55 /cada. Estranha-se ainda mais, por ter acabado agora esse festival e já estarem à venda os bilhetes para o NOS Alive 2016 – com um ano de antecedência – ficando o bilhete diário por € 56, e o passe de três dias por € 119. Fico perplexo! Se calhar… o membro do Governo que tutela o dito ministério terá razão; será por haver tantos novos postos de trabalho, com qualidade e na situação de efetivos nos quadros das empresas que tudo isto é possível!

© Jorge Nuno (2015)