24/10/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (21) - Em Dia das Nações Unidas

EM DIA DAS NAÇÕES UNIDAS

Estamos perante o Dia das Nações Unidas, precisamente no mesmo dia e mês, em que se comemora os 70 anos da fundação da ONU – Organização das Nações Unidas, a qual foi criada logo após o fim da 2.ª Guerra Mundial. O seu surgimento, ainda debaixo de um forte clima emocional, teria (e ainda tem) como objetivo: “facilitar a cooperação em matéria de direito internacional, segurança internacional, desenvolvimento económico, progresso social, direitos humanos e a realização da paz mundial”, fazendo parte dela praticamente todos os Estados soberanos existentes.

Como forma organizativa, possui: um Secretário-Geral, que é o “rosto visível” da ONU; um Secretariado, responsável pela área administrativa e que promove e fornece os estudos necessários, assim como outras informações relevantes para o funcionamento desta complexa organização mundial; uma Assembleia-Geral, que tem fins deliberativos, onde se tomam, coletivamente, as mais importantes decisões; um Conselho de Segurança, onde era suposto assegurar-se as resoluções de paz e de segurança, já que há um caráter obrigatório no acatamento dessas resoluções; um Conselho Económico e Social, para “fomento da cooperação económica e social e promoção do desenvolvimento dos Estados”, particularmente dos mais carenciados de recursos próprios; um Conselho de Direitos Humanos, com o intuito de “fiscalizar e proteger os direitos humanos”; um Tribunal Internacional de Justiça, que funciona como órgão judicial. A complementar, existe: a OMS – Organização Mundial de Saúde, agência especializada em saúde, que tem por missão “elevar os padrões de saúde de todos os povos; o PMA – Programa Mundial de Alimentação, a maior agência humanitária do mundo, que “fornece alimentos, em média, por ano, a cerca de 90 milhões de pessoas em 80 países, as quais 58 milhões crianças”, sendo muito utilizado na ajuda em situações de catástrofes, que conduzem à existência de refugiados; a ACNUR – Agência das Nações Unidas para Refugiados; a FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, para “aumentar a capacidade da comunidade internacional para, de forma eficaz e coordenada, promover o suporte adequado e sustentável para a Segurança Alimentar e Nutrição global”; a UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, que promove a “defesa dos direitos das crianças, ajuda a dar resposta às suas necessidades e contribui para o seu desenvolvimento”.

Como organização internacional, com sede em Nova Iorque, parece irrepreensível a intenção com que foi criada. Com esta estrutura, o alcance das suas medidas e os meios envolvidos, bem podíamos estar descansados quanto a um hipotético colapso da Terra, e fazer-se dela um lugar bem melhor para se viver em paz, em segurança, com melhor saúde, educação e pão para todos. Tendo decorrido sete décadas, podemos questionar: “Então, o que tem vindo a falhar?”, uma vez que ligamos o televisor, em horário nobre dos noticiários, e ficamos a par de todas as atrocidades cometidas impunemente pelos “senhores da guerra” e pelos “donos do mundo”, que respondem com: “mais bombas”, “mais extorsão” e “que se lixe os direitos humanos”.

Reconheço o mérito e o trabalho incansável daqueles que, dentro das várias organizações que compõem e dão visibilidade e utilidade à ONU, prestam um inegável serviço aos povos mais desfavorecidos e àqueles que fogem das guerras e da fome. No entanto, não posso deixar de referir o problema a montante e que poderia, atempadamente, evitar ou, pelo menos, não deixar alastrar a escalada dos conflitos bélicos, sejam quais forem as causas que os originam. Sempre me preocupou a constituição e forma de funcionamento do Conselho de Segurança, senão vejamos: “É composto por 15 membros, sendo 5 membros com poder de veto” [EUA, China, França, Reino Unido e Rússia]. Assim, dez desses Estados são eleitos pela Assembleia-Geral, de dois em dois anos. Uma resolução deste órgão, por mais ou menos importante que seja, só “é aprovada se se registar uma maioria de nove”, em quinze possíveis. Mas, pelo Art.º 27.º da Carta das Nações Unidas, basta o voto negativo de um único membro permanente e a resolução será bloqueada, ou seja, simplesmente não será aprovada, e o problema que lhe deu origem continua a arrastar-se e a agravar-se. Isto faz com que os países representados, como membros permanentes, são juízes em causa própria. Especificando, com um caso concreto, e porque é conhecida a importância estratégica (e bélica) dos EUA, da Rússia e China, quase sempre com posições antagónicas em relação aos reais problemas mundiais, aponto a “primavera árabe” e as consequências atuais na Síria. Houve encorajamento, em muitos países do norte de África e do Médio Oriente, contra os “eternos ditadores” que dirigiam os seus países com mão de ferro. Por simpatia e por vontade e rebelião dos povos, foram sucessivamente depostos. Foram encorajados os opositores ao regime sírio, do presidente Bashar Al-Assad, e apercebemo-nos que tiveram treino e receberam armamento dos EUA, além de estes largarem, declaradamente, bombas sobre aquele território, a pretexto do avanço do autoproclamado Estado Islâmico. Por seu lado, a Rússia apoia estrategicamente o presidente sírio – que tudo faz para “silenciar”, à bomba, a oposição –, com a Rússia a intervir com aviões militares, dizendo que destruiu centenas de alvos do Estado Islâmico e ocultando que faz o mesmo com os “rebeldes”, sendo o próprio primeiro-ministro da Rússia, Dmitri Medvédev, a negar publicamente, no canal da estação de televisão pública, esse apoio ao regime sírio. Como se isso não bastasse, é incrível o número de países “aliados” em ações militares no espaço aéreo sírio a despejar bombas, fazendo com que as populações procurem refúgio, e a Europa, mesmo com todos os perigos mortais até lá chegar, continua a ser o destino preferido, enquanto outros ficam em “campos de refugiados” na Turquia, que irá receber da União Europeia 3 mil milhões de euros para “estancar, temporariamente, o fluxo migratório”. Estrategicamente, interessa à Rússia, EUA e China que a União Europeia saia enfraquecida e descaraterizada.

No site do Centro Regional das Nações Unidas pode ler-se que “o Conselho de Segurança não conseguiu aprovar uma resolução que teria ameaçado com sanções contra Damasco [regime de Bashar Al-Assad] devido aos votos negativos dos membros permanentes – Rússia e China”. Parece estar tudo dito. Mas acrescento que se tivesse havido uma ação séria, responsável e coletiva, este conflito estaria mais próximo do fim e evitaria todo este drama e a morte de muita gente inocente, levando ao começo de uma transição política.

Assim, não há OMS, PMA, FAO, ACNUR ou UNICEF que aguente e a ONU acaba numa gigantesca instituição, sem força nem credibilidade. Gostaria de dizer, convictamente: “Parabéns ONU”.



© Jorge Nuno (2015)

Obs.: Crónica escrita para a BIRD Magazine 

09/10/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (20) - A Cigarra Alegre e a Formiga Preguiçosa

A CIGARRA ALEGRE E A FORMIGA PREGUIÇOSA

Vem-me à memória a fábula da cigarra e da formiga, cuja criação é atribuída a Esopo, e que teve relançamento e notoriedade pela mão de La Fontaine, que nos aparece como sendo o verdadeiro autor. Esta fábula era-nos apregoada desde pequenos, mostrando uma cigarra mandriona e uma formiga trabalhadora, tendo em vista apontar-nos o caminho dos valores do trabalho dedicado e da necessidade de poupança, a pensar nos dias menos bons, tudo isto em oposição ao “dolce fare niente”, com consequências desagradáveis para quem escolhe esta segunda via. O meu lado nobre, ou ingénuo, tinha dificuldade em encaixar a ideia de uma formiga castigadora e pouco solidária, perante o pedido de abrigo – com o significado de um pedido de ajuda –, por parte da cigarra, quando chegou o inverno rigoroso.

Já neste milénio, o livro de Luísa Ducla Soares e Pedro Nogueira Ramos, precisamente com o mesmo título mas com um “remake” da história nossa conhecida, viria a ser recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para a Educação Pré-Escolar, 1.º e 2.º anos de escolaridade. Só que a versão desta dupla alterou a visão da cigarra foliona, com pouca vontade de trabalhar e mais predisposta a gozar a vida, e apresentou-a como “uma grande artista, que não trabalha porque só consegue olhar e sentir a Natureza que a rodeia”, deixando no ar esta interrogação às crianças leitoras: “Achas que merece ser castigada por isso?”.

Sem dúvida que eu, muito novo, senti na pele a necessidade de encontrar um sentido para a primeira versão da história. Sentia uma admiração enorme ao ver o carreiro incessante de formigas, sempre carregadas, a transportar alimentos. Também não me incomodava nada o “cantar” da cigarra, quando, no verão, me deslocava de bicicleta pelos campos; aliás, até gostava, e só conseguia identificar a presença da cigarra pelo “cantar”. Em tempos de ditadura, tempos difíceis… apercebi-me que a remuneração, como “formiga”, era escassa para quem tinha trabalhos sazonais, seja a retirar areia do rio, na apanha do tomate, ou como aprendiz ocasional numa qualquer oficina de mecânica. Depressa me apercebi que, no papel de “cigarra” – ainda mais por saber que esta só poderia ser cigarra-macho, já que a fêmea não “canta” –, iria recriar-me com a música, teria mais liberdade de movimentos, possibilidade de desfrutar de novos horizontes e de uma maior independência financeira, fazendo-o com muita satisfação pessoal, podendo enveredar por outros voos, com destaque para o prosseguimento dos estudos.

A nossa mente foi sendo formatada, pelo que é fácil aceitarmos como válido aquilo que existe há gerações e é aceite como verdade, mesmo que sejam “histórias da carochinha” e, neste caso, histórias de cigarras e de formigas. Temos, também, uma tendência para atrair tudo o que é negativo – “é o nosso fado”, diz-se e aceita-se candidamente – e, paradoxalmente, até parece que nos sentimos bem assim, como se fosse essa a nossa zona de conforto. Deste modo, desde muito cedo aprendemos a ter limitações, sentindo como natural a escassez de bens, de afetos, de inteligência e de uma visão mais aprofundada dos valores da vida, factos que nos impedem de ir mais longe. Assim, ficamos pela mediania e superficialidade, e quando surge algo diferente do que admitimos com válido, seguindo a cultura e os nossos padrões de pensamento [limitado, como é evidente], simplesmente rejeitamos.

Na Bíblia King James atualizada (Novo Testamento) é referido, algures: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos [ou reflete sobre o trabalho que ela realiza] e sê sábio”, numa tentativa, com este exemplo, de promover uma melhor orientação para a espécie humana, que eventualmente tenha tendência para a preguiça. Talvez influenciado por isso, o ex-ministro Miguel Macedo, logo após a gigantesca manifestação de 2012, organizada pelo movimento “Que se lixe a troika”, assumindo as funções de pedagogo afirmou que Portugal não pode ser “um país de cigarras e poucas formigas”, o que levou à indignação dos mais atentos e que trabalham arduamente, sendo que alguém não resistiu à tentação de escrever, sob forma de resposta: “é fácil ser formiga-rainha na hora de receber € 1400 de subsídio de deslocação, quando efetivamente não se vive deslocado do formigueiro”.

E se lhe dissessem que o mito da formiga trabalhadora caiu por terra? Que se comprovou que cerca de metade de várias colónias de formigas são preguiçosas? A fonte é a revista R&D [Research & Development], que publicou um artigo que dava conta de um estudo efetuado por um grupo de investigadores da Universidade de Tucson, Arizona, EUA, tendo Daniel Charbonneau como responsável da investigação. Fazendo aqui uma descrição sumária, este estudo baseia-se na identificação e observação de 225 formigas “distribuídas por cinco colónias artificiais diferentes, num habitat simulado, com comida e ‘material de construção’ para as formigas usarem”, tendo, naturalmente, um sistema para as filmar. Ao divulgar as conclusões do estudo, afirmou o chefe desta equipa: “Quando começamos a investigar as sociedades compostas por insetos, percebemos que estas [as formigas] também têm os seus problemas: metade delas estão apenas a andar de um lado para o outro enquanto as outras fazem todo o trabalho”. Arrisca uma possível explicação, apontando, numa  semelhança com os humanos, que “as formigas servem para substituir outras que entretanto morrem ou então só começam a trabalhar quando o volume dentro da colónia aumenta”, acrescentando que “é também possível que as formigas inativas estejam a ser egoístas e evitem as tarefas mais perigosas enquanto usam os recursos da colónia para investir na sua reprodução”. Para se ser mais preciso, o estudo indica que 34 formigas fizeram o trabalho doméstico, 26 fizeram trabalhos externos, 62 eram generalistas e 103 eram “completamente ociosas”, ficando ainda a hipótese no ar que este último grupo poderia “constituir uma reserva quando fosse necessário atacar ou defender o formigueiro” ou que “algumas formigas poderiam não estar a par das tarefas e ficam a circular para evitar o trabalho”.
Também na Europa, a entomologista Danielle Mersch, da Universidade de Lausanne, Suíça, chefiou uma equipa de investigação relacionada com a atividade das formigas, concluindo que estas “organizam-se segundo as necessidades coletivas” e que “quando se encontram isoladas são na verdade, preguiçosas”, dando conta dessas conclusões na revista “Science”. 

Tal como foi deixada a interrogação às crianças leitoras, também eu, como autor desta crónica, pergunto ao leitor que a lê: “Acha que a formiga-operária, ao esquivar-se de transportar até 50 vezes o seu peso merece ser castigada por isso?”; “Não deveria servir de exemplo aos humanos, quando numa civilização moderna, incompreensivelmente, estão a ser espoliados dos seus direitos, obrigados a mais tempo de trabalho e a redução das condições de trabalho e de salário?
Como é bom ter-se uma atividade que permita contribuir para o bem comum, mas dando uma manifesta satisfação pessoal no papel de “formiga-operária”, desenvolvendo-a com a descontração e alegria de uma “cigarra-macho” no verão!


© Jorge Nuno (2015)

26/09/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (19) - A Rosa Púrpura do Mundo Virtual

A ROSA PÚRPURA DO MUNDO VIRTUAL

Aos poucos, foi-se chegando à conclusão que cada pensamento tem influência sobre a realidade física e cria [mesmo] a realidade. Indo um pouco mais longe, há quem desenvolva a ideia da “transformação quântica do pensamento”, pratique, e ganhe muito dinheiro com isso. Li, num livro de Pam Grout: “neurocientistas dizem-nos que 95 por cento dos nossos pensamentos são controlados pelo subconsciente pré-programado da nossa mente. Em vez de efetivamente pensar estamos a ver um ‘filme’ do passado”. Isto quererá dizer que está ao nosso alcance mudar a visão das coisas e mudar completamente a nossa vida, fazendo com que a experiência de vida seja bem mais gratificante, desde que mudemos a forma de pensar, mais que ultrapassada, que temos vindo a usar até aqui. Entretanto, continuamos embrenhados num mundo ilusório, de fantasia e de ignorância.

Lembro-me, há cerca de 40 anos atrás, de ter recebido um familiar – que vivia numa localidade do interior e veio à capital –. A dada altura, pronunciou-se que as pessoas da cidade eram doidas, pois “ficavam a falar para a parede”, tal como se estivessem em Jerusalém, junto ao Muro das Lamentações. Acredito que seria essa sensação que os citadinos lhe transmitiam, embora acreditando que não estariam a fazer as suas orações, pois os gestos, a [falta de] concentração e o pouco tempo nessa pose não indiciavam tal. Disse-lhe, simplesmente, que essas pessoas estavam junto de um intercomunicador que há, normalmente, ao lado da porta principal de cada prédio, e que comunicavam com alguém que vive num dos andares. Se esse familiar tivesse dado um salto no tempo e hoje observasse as pessoas a caminhar nos passeios da cidade, com um ou mais sacos em cada mão e a cabeça torta, apoiado num dos ombros, certamente diria que toda a gente da capital, além de continuar doida (por falar sozinha na rua), tinha torcicolo, já que seria difícil imaginar que há agora um pequeno objeto – o smartphone – que nos permite fazer inúmeras tarefas, entre elas, como a mais trivial das funções, falar à distância com outra pessoa.

Lembro-me, também, de um filme com argumento e realização de Woody Allen – A Rosa Púrpura do Cairo – que fantasiava o “boom” do cinema dos anos 30, em plena recessão nos Estados Unidos da América, e retratava uma mulher [mal] casada, com trabalho precário e uma paixão pelo cinema, e um marido desempregado, que a explorava e maltratava. Era um filme dentro de outro, com o ator Jeff Daniels no papel do ator Gil Shepherd, a fazer do explorador Tom Baxter, para decifrar o enigma do faraó que mandou corar de roxo uma rosa para a sua rainha, constando-se que agora, no túmulo dela, crescem rosas púrpura. A dada altura, essa mulher – a atriz Mia Farrow, no papel de Cecilia – apercebeu-se que o personagem Tom Baxter reparou nela (por ter ido pela quinta vez ver o mesmo filme), vindo este a saltar da tela, em plena sala de cinema, e dirigir-se a ela, dando lugar a um casal apaixonado, que logo virou um trio amoroso, já que o ator Gil Sheperd a baralhou e fez ver que o “outro”, não passava de um personagem. Imagino quantas mulheres não se terão deliciado a ver este filme! Há ilusão, fantasia, romance… e parece que as pessoas apreciam isso mesmo, pois os milagres continuam a acontecer, mesmo que depois se acendam as luzes para os cinéfilos poderem sair em segurança.

O problema é que podemos não estar a equilibrar o mundo virtual com o real, começando pelo tempo que diariamente dedicamos ao virtual, precisamente por nos parecer real, fundindo ambos, e não termos consciência disso. Há que ter em atenção para não deixar degradar o relacionamento – esse sim, real – ao nível familiar entre marido e esposa, pais e filhos, núcleo de amigos… Não se trata de falsos moralismos, mas quantas vezes está o casal à mesa (como se vê na zona da restauração de um centro comercial), cada um com o seu telemóvel a ver o correio eletrónico, a consultar a sua página do Facebook (ou dos amigos) ou a comunicar noutras redes sociais, tendo aí uma vida mais ativa do que fora delas? Algo vai mal quando uma pessoa fica desesperada por estar quase a atingir o plafond dos dados móveis, e sentir que é pior do que ter a sinalética do painel da viatura a indicar que o combustível está na reserva; ou por não ter acesso a wi-fi (à borla) durante 24 minutos e sentir que é bem pior que ficar sem água na torneira durante 24 horas; ou correr para o telemóvel, num desassossego, logo que ouve o sinal inconfundível de uma mensagem acaba de chegar ou, simplesmente, para espreitar se há novidades, ignorando completamente o toque da campainha da porta. Para alguns especialistas, este tipo de comportamento já foi rotulado de patologia. Que tal começar por experimentar um fim de semana desligado da Internet e procurar outras alternativas, porventura interessantes, com contacto direto com familiares e pessoas amigas e com a natureza? Que tal restringir o acesso à Internet ao longo da semana, e fazer uma utilização moderada, como se estivesse a fazer uma dieta, sem sentir sacrifício ao não empanturrar-se desordenamente. A “cura de desintoxicação”, talvez possa passar por aqui, como treino básico. Ainda em relação ao pensamento e à vontade própria, há uma máxima que diz: “Se souber aquilo que quer, pode tê-lo”. Ter uma vida mais saudável e feliz, em grande parte, depende de cada um de nós; e uma “verdadeira” rosa púrpura (ou mais) pode ajudar a perfumar a nossa vida.

© Jorge Nuno (2015)


12/09/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (18) - As Minhas Cuecas "Channo"

AS MINHAS CUECAS “CHANNO”

Mesmo ao meu lado, o rapaz resmungava e fazia má-cara perante a insistência da mãe. Apercebi-me que ela fazia um enorme esforço para tentar convencê-lo a experimentar aquele número e modelo de calçado desportivo, marca Crivit, que em boa verdade só tinha visto no Lidl. Mas nada demovia o rapaz, mesmo que a mãe dissesse: “já levei para a tua irmã, ela gostou e duraram até lhe deixar de servir”; “só custam € 19,99”; “os que tu queres, da Nike… custam cinco vezes mais e duram o mesmo tempo.” Ao fim de alguns momentos de impasse a mãe acabou por lhe dizer: “Pronto… se quiseres compro-te os ténis da Nike na feira”. Foi como se a mãe acendesse um novo rastilho curto, pois o rapaz voltou a explodir de imediato, argumentando que era calçado falsificado e não tinha a mesma qualidade dos originais.

Vivemos num mundo que venera e incentiva o culto das “marcas de prestígio”. A própria indústria publicitária também faz uso de estratégias para atrair as marcas e fazê-las gastar mais, agora e cada vez mais através da via digital. Pelos vistos, este jovem teria apreendido a mensagem – repetida à exaustão, com envolvimento de quantias exorbitantes –, emitida por quem tem a missão de fazer apetecível um produto ou uma marca, mesmo que o rácio custo/qualidade não justifique a sua aquisição.

Quanto mais valorizado estiver o produto ou a marca, mais prolifera a contrafação, na expetativa de que estará assegurada clientela e o lucro fácil. Não é por acaso a frequência com que as autoridades, como a GNR – Guarda Nacional Republicana e a ASAE – Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (Órgão de Polícia Criminal) fiscalizam e fazem a retenção de mercadorias contrafeitas, por se estar perante imitação e uso ilegal de marca, acontecendo maioritariamente junto de vendedores ambulantes. Através do site da ASAE, na área do “Grupo Anti-Contrafação”, ficou-se a saber que em menos de 30 dias aconteceu a apreensão de mercadoria contrafeita nas seguintes localidades: festas de São Paio, Torreira (avaliada em € 36.000); na via pública em Faro (€ 3.000); na feira quinzenal de Moimenta da Beira (€ 28.000); através de fiscalização rodoviária, em Albergaria-a-Velha (€ 6.000); na feira semanal de Tondela (€ 70.000); na via pública em Santa Maria da Feira (€ 5.500)…

Entretanto, são muitos os consumidores – por uma questão de status –, a acreditar que lhes trará prestígio e distinção superior, perante os demais, o uso daquela mala “Louis Vuitton”, daqueles óculos “Dior”, daquela peça de vestuário “Dolce & Gabanna”, ou daqueles sapatos “Prada” ou ténis “Nike”, mesmo sabendo que esses ditos produtos de “luxo” têm uma forte probabilidade de serem contrafeitos ou “desviados” por amigos do alheio e (re)colocados à venda, na ilusão que importa mais parecer do que ser.

Na qualidade de aposentado e sem ter a necessidade imperiosa de uma vida social ativa ou de ter que ir aperaltado para o emprego, sinto-me livre de ter que usar: uma gravata “Calvin Klein” (ou sequer usar gravata); uma camisa “Luchiano Visconti”; um fato “Armani”; uns boxers “Guess”; umas meias “Ralf Lauren” e uns sapatos “Galliano”. Como é bom sentir-me livre com o meu pijama de verão “Peng Li” (ou sem ele) e como é bom sentir-me livre com as minhas cuecas “Channo” (ou sem elas)!

© Jorge Nuno (2015) 

30/08/2015

A Construção dos Meus Versos

A CONSTRUÇÃO DOS MEUS VERSOS

Envolto em floreado emocional
Ouço os murmúrios da intuição,
Logo é detetada uma alteração
No fluxo sanguíneo cerebral.

A despropósito, uma agitação
De ondas gama no lobo temporal,
Julgada fenómeno irreal,
Traz-me revelação até à mão.
                                                                        
Raciocínio lógico em inação,
Sem factos analíticos adversos,
Faz intuir e leva à criação.
                                                                        
Não importa ser visto entre os dispersos
Se é com esta minha dispersão
Que costumo construir os meus versos.


© Jorge Nuno (2015)

27/08/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (17) - A Inteligência, os Eleitores e os Burros

A INTELIGÊNCIA, OS ELEITORES E OS BURROS

Partindo do nada, como de costume, logo pairou no ar a ideia de escrever sobre Bragança, pois – por mais estranho que pareça – foi considerada a 3.ª cidade mais inteligente do país, situando-se no Top 4, juntamente com Lisboa, Porto e Oeiras, num estudo independente intitulado “Portuguese Smart Cities Index 2015”, efetuado pela IDC – líder mundial em Market Intelligence.

Da inteligência, por oposição, surge-me de imediato a ideia de escrever sobre burros. Pode-se pensar, e com razão, que os decisores têm dificuldade em agir, em planear e, finalmente, colocar no terreno as condições necessárias à prevenção de incêndios, e pode-se intuir que estou a pensar em “burrice”, por essa falta de estratégia nacional. Na verdade, sabemos que anualmente os incêndios se tornam um flagelo, pondo em risco bens e pessoas, exigindo um enorme esforço humano e financeiro no seu combate, particularmente na época de verão, e que ano após ano vamos assistindo, nem que seja à distância, nos primeiros minutos dos telejornais. Foi com agrado que soube que burros de terras de Miranda do Douro iriam ser usados na prevenção de incêndios florestais, num projeto a cargo da Associação para o Estudo e Proteção de Gado Asinino (AEPGA) e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), experiência que se vai iniciar em 2016, tal como tem vindo a apresentar resultados positivos o projeto que promove a terapia com burros destinado a crianças com deficiências físicas e mentais, incluindo crianças autistas ou com dificuldades de relacionamento, e também com o envolvimento da AEPGA e da UTAD.

Sinto um aviso sonoro de chegada de correio eletrónico, e interrompo o raciocínio e o início da escrita. Trata-se de uma mensagem, contendo um link, enviado por um amigo jornalista e escritor, por quem nutro uma grande estima, devido ao seu perfil e envolvimento generoso no associativismo e na cultura. Nesse artigo, aborda com incidência o interior do país, apesar de viver no litoral, no distrito de Setúbal. Realça a “alteração do mapa das freguesias”, levando ao fim de imensas sedes de Juntas de Freguesia, com “perda do poder autárquico”, o “fim do programa de apoio para a terceira idade”, o retirar de “Centros de Saúde, Repartições de Finanças, Tribunais, Escolas (…)”, originando um forte retrocesso nas vidas dos cidadãos, deixando no ar uma inquietante preocupação quanto ao défice de esclarecimento e à intenção de voto destes portugueses que vivem no interior, com tendência para favorecer “quem lhes fez tanto mal”.

Vivendo eu no interior, por opção, e conhecendo esta realidade, não posso deixar de concordar com a maioria do conteúdo deste artigo. Acrescento que políticas erradas, ao longo de décadas, acelerou a desertificação do interior e considero que o país, de forma desproporcionada, está mesmo inclinado para o litoral, onde se promove o investimento e se concentram populações. Mas quanto ao sistema eleitoral usado para as legislativas, ao método de Hondt e representatividade na Assembleia da República (AR), ao excessivo número de deputados eleitos, aos elevados gastos nas campanhas eleitorais, ao financiamento dos partidos, aos lobbies instalados, à falta de interesse dos partidos políticos em promoveram “reformas” internas, que apregoam para o Estado, com consequências no bolso do cidadão… em tudo isto, de forma corporativa, defende-se o status quo. Não é inocente, ingrata ou de gente “burra”, “atrasada” ou pouco esclarecida, a opinião generalizada que paira sobre a classe política, com políticos de topo na hierarquia do Estado a ter pontuação negativa, que é como quem diz: vergonhosamente abaixo de zero.

Os portugueses, seja de que região forem, são livres de votar na formação partidária que quiserem, de votarem em branco, ou de não votarem, engrossando a enorme lista de abstencionistas em todo o país, como aconteceu nas últimas eleições para as legislativas, com abstenção de 41,1% (a mais alta de sempre) e nas últimas presidenciais, com 53,37% (também número recorde), a que se juntam mais os votos nulos e em branco, levando a que a atitude dos portugueses fosse associada a “indiferença, laxismo e falta de confiança”, perante o ato eleitoral, a política e os políticos.

Mas se ainda resta a dúvida quanto ao peso pouco expressivo dos eleitores que vivem no interior do país, deixo aqui o número de eleitores e o número de deputados a eleger no próximo ato eleitoral de outubro. Na faixa interior do país, que considerei composta pelos círculos eleitorais de Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre e Évora (eliminando Beja, por também ter território no litoral), há um total de 735.141 eleitores inscritos nos cadernos eleitorais, que colocam 16 deputados na AR. No círculo eleitoral de Setúbal há 725.783 eleitores que colocam 18 deputados na AR. Constata-se que os cinco distritos do interior citados têm mais 9.358 eleitores e elegem menos dois deputados que o de Setúbal. Só cinco distritos do litoral – Aveiro, Braga, Lisboa, Porto e Setúbal – elegem 60% dos deputados.

Na hora de votar – e falta cerca de um mês – o esclarecimento é importante, e nem quanto a isso os partidos políticos chegaram a acordo, preferindo fazer debates televisivos prévios, relacionados com os ditos debates que (tudo indica) não se vão realizar. Entretanto, há que deixar os burros fazer o seu trabalho, desde que em prol do bem comum, seja em terras de Miranda ou onde quer que se encontrem. Na hora de votar… há que fazer uso da inteligência, consciente que todas as ações/decisões produzem consequências, e ainda mais, quando se fala de inteligência coletiva, a exigir “reformas” do sistema partidário e firme mudança de atitude.

© Jorge Nuno (2015)

08/08/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (16) - Família Pimparel: entre judeus, cristãos-novos e cristãos.

FAMÍLIA PIMPAREL
Entre judeus, cristãos-novos e cristãos

Vai-se ouvindo dizer que “podemos escolher os amigos, mas não a família” ou, também, “os amigos são a família que nós escolhemos”. Benditos aqueles que não tendo escolhido a família, têm os familiares como amigos; a vasta família Pimparel é um exemplo disso, entre aqueles que têm oportunidade de se conhecer e privar no dia a dia ou em encontros esporádicos promovidos, ou ainda outros, mais ou menos casuais.

Tantas vezes foi questionado, por membros desta família, a proveniência do nome Pimparel e da própria família, ouvindo-se uns zunzuns, passado de boca em boca pelos mais antigos até ao presente, quase a medo, que se tratava de uma família de origem judaica; a alguns deles, devido à Inquisição, terá sido imposto a “conversão” a cristãos-novos e hoje, passado cerca de 500 anos, há predominância de cristãos. Na verdade, ao tempo do rei D. João III, há o relato de um André Gonçalves Pimparel, que se pode ler num documento preparado por Maria José Ferro Tavares (professora catedrática aposentada), intitulado “Entre religiões e negócios, a sobrevivência” e que, com base num documento da Inquisição de Lisboa (PT-TT-TSO/IL/28/57, fot. 9-10) diz o seguinte: “(…) André Gonçalves Pimparel fora viver para a Turquia onde se fizera judeu e nesta fé morrera. Enquanto fora vivo escrevia cartas aos filhos, aos netos e a outros cristãos-novos que tinham ficado em Miranda do Douro, estimulando-os a perseverarem na fé judaica.

Também um artigo assinado por António Júlio Andrade e Fernanda Guimarães (com livros publicados e tendo como fonte IANTT - Inquisição de Lisboa, processo 2181, de Lopo de Leão) refere André Gonçalves Pimparel como uma “figura mítica do movimento messiânico desencadeado por David Reubini (judeu originário da Índia e aclamado como o Messias prometido (…)” e que depois deste ter caído em desgraça, levou a que o Pimparel – um dos seus principais seguidores – se visse forçado a seguir para a Turquia, por terra, com um dos “seis salvo-condutos emitidos em 21.6.1526 pelo rei D. João III (…). Este Pimparel terá partido para o Golfo (Turquia?) e publicamente regressado ao judaísmo, ele que havia nascido judeu e fora um dos ‘batizados em pé’ ”.
Num documentário preparado por José Rodrigues dos Santos (jornalista e escritor), passado na RTP 2, veem-se algumas incursões deste por terras do nordeste transmontano, particularmente em Carção e Argozelo, assim como pelo Arquivo Distrital de Bragança, em demanda das suas origens, e terá concluído que também tem antepassados, de origem judaica e de apelido Pimparel.

O guarda-redes Beto, jogador da Seleção Nacional de Futebol e atualmente ao serviço do Sevilha, demonstra orgulho neste seu apelido, tal como qualquer dos Pimpareis que se conhece.  

         Sabe-se que, na primeira metade do século XX, vários membros desta família detinham, maioritariamente, pequenas áreas de negócio – caraterística de judeus –. Atualmente, os seus descendentes têm vindo a conseguir cargos de relevo, nas mais variadas profissões em diversas cidades europeias e de outros continentes, embora sem o “estrelato” atribuído a quem aparece frequentemente nos media. Atualmente o nome Pimparel está disseminado por todo o Portugal (com maior quantidade em Trás-os-Montes) e também no estrangeiro, com núcleos familiares conhecidos na Alemanha, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos da América, França, Reino Unido, Sérvia, Suíça,…

Membros desta família – alguns sem se conhecerem –, criaram e começaram a fazer circular árvores genealógicas das ramificações que conheciam (por mensagens nas redes sociais), para juntar as várias “peças do puzzle” e obter uma visão mais alargada da extensão da família.

Em boa hora partiu a ideia da realização de um primeiro almoço-convívio, por Ricardo dos Santos Pimparel, que se realizou em Bragança em 15 de agosto de 2014, e juntou cinquenta e dois membros desta família, com muitas crianças que ostentam o Pimparel no seu cartão de cidadão, estreitando laços familiares. O “motor” deste evento, em termos organizativos, foram a Lena Pimparel e a Laura Pimparel, primas afastadas (até fisicamente, em cerca de 400 km) e que até há pouco tempo não se conheciam. Para o mesmo dia e mês, em 2015, está previsto o segundo almoço-convívio, igualmente em Bragança.
Como qualquer outra família, nos imensos núcleos familiares desta, em particular, haverá: venturas e desventuras; alegria e momentos menos bons; solidez de relações e abalos ocasionais. Mas no reencontro sobressai o elo forte da amizade, num carinho comovente, a ultrapassar as meras relações familiares (ou o pretexto dos laços de sangue), fazendo-nos experienciar o verdadeiro sentido da vida – nesta caminhada de luta diária – onde nos deparamos, naturalmente, com o tempero de afinidades, cumplicidades, simplicidade e muita fraternidade, valores inestimáveis a preservar para uma vivência mais suavizada e agradável.

© Jorge Nuno (2015)


(casado com uma Pimparel, tendo dois filhos e dois netos com o mesmo apelido).