07/05/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (34) - Crónica: "Para Cá do Marão"

PARA CÁ DO MARÃO

O dito popular “Para lá do Marão, mandam os que lá estão” [na ótica de quem vive no litoral] poderá ter alimentado a ideia generalizada – e o ego de alguns transmontanos – com toda a carga simbológica que representa, que devido ao seu isolamento de longos séculos, com difíceis acessos, isso remetia-os para uma sensação de poder e de “independência”, sendo implícita a rejeição do poder centralizado da muito afastada capital do país. E foi esse poder centralizado que, por demasiado tempo, pareceu desconhecer a realidade e as necessidades “para lá do Marão”, agudizando o fosso entre o litoral e esta região do interior.

Em boa hora, em plena monarquia, nos anos de 1885 e 1886, o ministro Emídio Navarro, com a tutela das pastas das Obras Públicas, Comércio e Indústria, deu indicações para se avançar “com o estudo de todas os caminhos de ferro de via estreita na zona de Trás-os-Montes”, que viria a dar origem, anos mais tarde, às linhas do Douro, Tâmega, Corgo, Tua e Sabor. Foram obras gigantescas, em termos de esforço orçamental, para um país muito debilitado economicamente. Mas também é certo que foram obras que vieram facilitar a vida às populações próximas de tais vias e desenvolver a região e o próprio país, já que permitia o escoamento de variados produtos, com incidência nos produtos agrícolas e nos provenientes da extração mineira e florestal. Nos anos oitenta, do século passado, tudo se desmoronou, por opção política e desinvestimento neste tipo de infraestruturas, levando a novo retrocesso e a algum marasmo, aqui e ali com algumas iniciativas autárquicas pontuais dignas de registo, já em plena democracia, como que a querer reavivar a ideia do citado dito popular.

Foi este território apelidado de “Reino Maravilhoso”, pela mão e genialidade de Miguel Torga, que referiu nos seus escritos “(…) De repente, rasga a crosta de silêncio uma voz de franqueza desembainhada: Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... [claro, na ótica de um transmontano] Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico porque o nume invisível ordena: - Entre!
A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.”

Hoje, precisamente neste sábado, é inaugurada uma importante obra que fura, durante cerca de seis quilómetros, o “oceano megalítico”. Eu chamar-lhe-ia “encrespado e tortuoso oceano megalítico”, ao centrar a atenção na conhecida Estrada Nacional 15, quando tinha necessidade de a percorrer, acompanhando aquele serpentear na Serra do Marão. É certo que vai perder a importância estratégica que deteve durante imensos anos, e que deixarei de ver, lá bem no alto, aquela panorâmica inesquecível de cortar a respiração. Apesar das derrapagens orçamentais, das peripécias que levaram à suspensão das obras e a que tivessem uma duração final de sete anos…  também é certo que, a partir de domingo, o Túnel do Marão passa a ter um importante papel na aproximação entre o litoral e o interior transmontano, mesmo com a decisão das portagens definidas por quem está “para lá do Marão” [na ótica de um transmontano].

Acredito que, com este túnel, não fará mais sentido continuar-se a debater e a rebater: “Para lá…” ou “Para cá do Marão (…)!”

Outra coisa também acredito: quando atravessar o túnel no sentido Porto – Vila Real, irei lembrar-me sempre que estou a entrar no Reino Maravilhoso! E pensar como Torga: “Esta terra é a própria generosidade ao natural. Como um paraíso, basta estender a mão”.

© Jorge Nuno (2016)

Obs.: Crónica saída na BIRD Magazine, em dia de inauguração do Túnel do Marão 


20/04/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (33) - Crónica: "Dar e Receber"

DAR E RECEBER

Há uma ebulição externa, que ocorre a uma velocidade estonteante, a que é preciso estar atento. Sabendo disso, bem me esforço por investir no autoconhecimento, para chegar mais facilmente à fonte do desejado equilíbrio espiritual, mental e físico, que me transmita uma generalizada sensação de bem-estar. Bem me esforço por marcar o meu próprio compasso, e ainda mais ao ver tanta barata tonta, que se movimenta numa correria desprovida de sentido. Bem me esforço por conseguir a melhor forma de lidar com o conflito – sem procurar evitá-lo –, e dar atenção aos aspetos da realização pessoal ainda não conseguidos e/ou se os projetos concebidos há uns tempos atrás, com tanta erosão… ainda fazem sentido nos dias de hoje. Bem me esforço por me libertar, constantemente, de toxinas físicas e emocionais, para conseguir a harmonia interior, que só a mim compete assegurar.

Procuro estar atento e aberto a tudo quanto é novo e deixar-me envolver, de forma generosa, tendo em vista o bem comum, que naturalmente me afeta positivamente. Aprendi que a dádiva e a gratidão entram neste processo. Aprendi que os benefícios de dar acabam, inevitavelmente, por ter um efeito de boomerang. Aprendi que a gratidão é contagiosa e ajuda-nos a reconhecer as muitas coisas boas que nos acontecem na vida (nas quais não reparamos, quando nos focamos no que não queremos). É nesses instantes que ficamos salpicados de agradáveis “purpurinas” de felicidade, como se se tratasse do toque mágico de uma varinha de condão. E são estes momentos que trazem sentido à vida e nos projetam para novos avanços qualitativos.

É por estas razões que bem me esforço por seleccionar o que entra porta adentro e pode afetar os meus sentidos. Mesmo assim, continuo a ser bombardeado, a todo o instante, com informação – ela própria tóxica – de escândalos de corrupção, branqueamento de capitais, fraude e evasão fiscais, abusos com o falso trabalho independente (que escandalosamente chegou a atingir 80% de todos os contratos de trabalho, celebrados em Portugal, nos últimos 3 meses…). A informação que é produzida – com o muito respeito que tenho pelo jornalismo de investigação – com o natural direito de divulgar factos e poder contribuir para a correção e punição de ilícitos criminais, acaba por ser produzida com a sofreguidão e rapidez de quem quer ter a exclusividade de ser o mensageiro da desgraça. A montante, a febre de enriquecimento rápido e sem pudor, faz parecer sem sentido as palavras de Raymond Cloosterman: “Ser rico não tem a ver com riqueza ou posses, mas sim com o número de memórias preciosas que temos”. Estas palavras, certamente, pouco importam a quem comete esses atos, que nada têm a ver com dádiva, mas com apropriação de algo que não lhes pertence por direito próprio, por ser obtido de forma menos digna ou fraudulenta. E quando menos se espera, o conhecimento de esses atos vem a público. A reação que se segue, pelos consumidores de informação, vai desde a tendência para: olhar para tudo isto com [uma preocupante] indiferença, como se estivessem vacinados contra a epidemia; à criação de estórias humorísticas e anedotas relacionadas com o caso, as quais são rapidamente partilhadas nas redes sociais; assemelhar-se à curiosidade do voyeur, que acompanha o dia a dia de um qualquer reality show televisivo de baixo nível, sempre na esperança de ver a cena mais picante, mesmo que passe mais de uma hora e meia em frente à TV, num ambiente degradante…

Da minha parte, tento descobrir alguma notícia, mesmo que seja uma em duzentas, que me dê a ideia que há grandeza humana. E como fico feliz, quando vejo uma, como a de um polícia australiano que decidiu adotar, com sucesso, um pequeno canguru, que perdeu a progenitora por atropelamento de um camião, mesmo que tenha que alimentar o pequeno animal de três em três horas; ou a de uma equipa de salvamento no Equador, que conseguiu resgatar um cão, com vida, dos escombros provocados pelo forte sismo no Equador e que se encontrava nessa situação há dois dias. Muitas vezes, é perante os animais que sobressai o humanismo, evidenciado pela compaixão, bondade, preocupação e entrega generosa a uma causa. No fundo, falamos de dádiva, sem estar à espera de recompensa.

David Brooks, colunista no The New York Times, escreveu que “A gratidão é uma espécie de riso do coração que surge depois de uma bondade surpreendente”. Comecemos por provocar o riso no nosso próprio coração, que nos fará sentir um imenso bem-estar. Este, “contaminará” positivamente quem nos rodeia. Assim, com pequenos avanços, o mundo à nossa volta está em vias de ser melhor.


© Jorge Nuno (2016)

10/04/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (32) - Crónica: "A Lente Desfocada e a Transparência"

A LENTE DESFOCADA E A TRANSPARÊNCIA


Aceito, e agrada-me saber, que equipamentos públicos obsoletos – e muito bem implantados em zonas de elevado valor comercial – possam vir a ser alienados e substituídos por outros com instalações condignas e com equipamentos de vanguarda, capazes de prestar um bom serviço às populações, fazendo sentir que há retribuição compensatória por esse investimento, que o é naturalmente por via dos impostos. Foi isso que fez o Ministério da Saúde, em 2009. Vendeu, por 111,5 milhões de euros, à Sociedade Estamo, empresa do setor empresarial do Estado que compra imóveis públicos (e é participada da Parpública), os antigos hospitais de São José, Santa Marta, Capuchos e Miguel Bombarda. Segundo o que estaria contratualizado, a não desocupação das instalações no tempo previsto daria lugar a uma renda mensal. Passado cerca de sete anos, tomei conhecimento dos valores envolvidos nessa renda. Bem limpei as lentes dos meus óculos e, também, pelo instante fotográfico, admiti que a lente deveria estar desfocada; é que o absurdo era tal que me fez questionar sobre o modus operandi, ainda mais pelos imensos sacrifícios exigidos aos portugueses. Apercebi-me que apenas três hospitais pagariam, anualmente, cerca de 5,8 milhões de euros de renda, embora outra notícia referisse 7 milhões a pagar por 4 hospitais, que não o Miguel Bombarda, entretanto desativado. Apercebi-me, também, que se poderá perder muita história: motivos arqueológicos de interesse, com mármore e madeira meticulosamente trabalhados; azulejos com centenas de anos; muita arte sacra em igrejas e capelas internas; bibliotecas antigas e arquivos com documentos históricos e únicos; equipamentos e utensílios médicos que fariam as delícias dos visitantes num museu, permitindo-nos escutar o eco de um passado, que parece longínquo, mas que hoje é muito apreciado, desde que o espólio esteja bem conservado. E tudo isto numa altura em que Portugal está, cada vez mais, apontado como um excelente destino turístico.

Passou-se algo semelhante, ao nível das rendas, em mais de uma centena de escolas secundárias [públicas], intervencionadas no âmbito do Programa de Modernização do Parque Escolar. Foi muito agradável constatar a recuperação e melhoria significativa nessas instalações e demais equipamentos, possibilitando melhores condições de aprendizagem para os alunos, e de trabalho para os profissionais da educação. Em bastantes casos, com a sensibilidade própria de cada arquiteto, foram idealizados e utilizados materiais de bonito efeito, com requinte, ar condicionado em todas as salas de aula, laboratórios, oficinas, centros de recursos, auditórios, e obras encarecidas, inflacionadas… para depois não se verificar investimento em “simples” sistemas fotovoltaicos de autoconsumo, que permitiria gerar energia elétrica a partir da energia solar, a custos baixíssimos. Resumidamente, há forma de aquecer e arrefecer os espaços, mas os orçamentos escolares não comportam os custos de eletricidade e das rendas mensais, que ficaram a ser pagas, obrigatoriamente, à ParqueEscolar – entidade a que essas escolas ficaram amarradas, por força de lei.

Este tipo de atividade, em grande medida a envolver quantias significativas de dinheiro, e pior ainda por se se tratar do Estado (que nos impõe deveres e que nos deve garantir direitos), remete-me para 1995. Relembro o caso do conhecido ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, que negociou as condições contratuais da concessão da travessia rodoviária do Tejo (e envolver a pontes “25 de abril” e “Vasco da Gama”), para logo depois assumir o cargo de presidente da empresa concessionária – a Lusoponte, uma Sociedade Anónima de capitais privados –. Este chegou a ser considerado “O Negócio de Ouro”. O Estado português terá pago 364 milhões de euros em indemnizações e a empresa terá arrecadado 746 milhões de euros na cobrança de portagens (valores até 2012). Terá havido, posteriormente, “nove acordos de reequilíbrio financeiro”, e o Tribunal de Contas [baseando-me nos seus Relatórios de Auditorias n.º 31/2000 e 47/2001] considera ter havido “substanciais e pesadas consequências financeiras (…) para o erário público”, tal como foi “penalizador” as renegociações, e recomendou que “o Estado procure ativamente (…) até adotando uma postura criadora, assumir uma posição intransigente e permanente defesa dos interesses financeiros públicos(…)”. O certo é que, até 2019, o Estado vai ter que transferir mais 100 milhões de euros de “compensação” e, praticamente sem contrapartidas, absorve mais riscos, incluindo a manutenção da “ponte 25 de abril”, riscos que deveriam pertencer à concessionária. É o exemplo típico de uma parceria público-privada, altamente rentável para uma das partes – a privada – à custa do dinheiro dos contribuintes.

Recentemente, surgiu o caso da ex-ministra das Finanças que, sendo deputada, foi nomeada administradora não-executiva de uma empresa financeira, que negoceia e gere dívida, com interesses na banca portuguesa. Essa empresa – a Arrow Global, que fez a revelação que geria 5,5 mil milhões de euros – terá lucrado com o arrastamento do caso BANIF, com a forma como foram geridos os seus ativos, continua a lucrar com os ativos que ainda estão nas mãos do Estado (e que o Santander Totta rejeitou), tal como tem vindo a lucrar com o crédito malparado dos bancos e instituições de crédito portugueses. Junta-se o facto de subsidiárias dessa empresa terem vindo a receber benefícios fiscais, que suscitam dúvidas quanto à legalidade da sua atribuição. No mínimo, levantam-se questões ético-políticas, a merecer que haja regulação séria e controlo sobre a atividade dos titulares de cargos políticos e também sobre os titulares dos altos cargos públicos. Com este propósito, a esquerda parlamentar tem vindo a movimentar-se e sabe-se que vai ser apresentada uma resolução na Assembleia da República, pelo partido que sustenta o Governo, “para instalar uma comissão eventual sobre as regras de transparência a que devem estar obrigados (…)” os citados titulares de cargos políticos e públicos.

Já vai sendo tempo de haver uma melhor focagem no essencial, que resulte numa gestão adequada da coisa pública, para bem de todos nós e vindouros. Acima de tudo, tem de haver mais transparência e maior integridade, sem descurar a permanente vigilância, que compete a todos nós.

© Jorge Nuno (2016)

30/03/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (31) - Crónica: "Na Força da Primavera"

NA FORÇA DA PRIMAVERA 

Dava gosto ver o entusiasmo com que o macho procurava atrair a fêmea. Estando ambos no chão, sobre o passeio toscamente empedrado do jardim, o pombo rodeava-a, incessantemente, até à exaustão. A sua plumagem eriçada fazia com que aparentasse um tamanho bem maior. Evidenciava uma bela estética e graciosidade nos seus movimentos corporais, como se se tratasse de um bailarino do Bolshoi. Destacavam-se os movimentos repetitivos com a cabeça, que inclinava, como que a querer dizer: “Ó p’ra mim tão bonito!”. Devido à distância e à minha falta de audição, não ouvi o natural arrulhar, habitual nestas circunstâncias, nem observei o alisamento das suas próprias penas ou da sua potencial parceira, especialmente à volta do pescoço e na zona da cabeça, sinal carinhoso e próprio do ritual de acasalamento. Mas, se calhar, nem teria que ouvir e ver, pois o entusiasmo ia só numa direção. Ela, parecia mais interessada em seguir um caminho predeterminado, quem sabe, para descobrir umas quaisquer migalhas de pão, deixadas no caminho, e mostrava-se indiferente ao macho atrevido. Este, ao fim de vinte longos minutos, provavelmente zonzo da cabeça, provocado pelo rodopio, ainda teve forças para se afastar, voando uns vinte metros. Fiquei a observá-lo, por breves instantes. Tinha poisado sobre a cobertura da casa dos apetrechos do jardineiro. Estranhamente, parecia calmo e pouco (ou nada) preocupado com o facto de ter falhado a tentativa de corte, sem rendição da fêmea. Pensando bem, ela também deve ter uma “palavra” a dizer, já que estas aves são monogâmicas, e ter borrachos de um pombo (ou estar com alguém) pelo qual não se sente nada, creio que deverá ser desagradável. 

No banco do jardim, talvez influenciado pelo “filme dos pombos” acabado de observar, um indivíduo, que aparenta ser septuagenário e esforçar-se por ter algum vigor, encosta-se à sua companheira de uma vida e, de lábios estendidos, tenta roubar-lhe um beijo, sem sucesso. Ainda não percebi duas coisas: por que será que estas cenas, com casais que já têm umas boas décadas de vida em conjunto, os faz sentir ridículos, quando as experienciam em público; por que será que há uma reação adversa, tendencialmente por parte da mulher. Ela limitou-se a esquivar-se, usando os braços para o afastar e, enquanto exibia um sorriso, repetiu duas vezes, como que a querer justificar-se perante mim, que passava junto do casal: “O homem endoidou… o homem endoidou!”. Naturalmente, não parei nem fiquei a olhar, por razões óbvias. Mas fiquei curioso e, embora isso não me diga respeito, gostaria de ter podido analisar a expressão daquele homem. Admito que ele possa ter ficado, instantaneamente, mais desiludido que o pombo “cortejador”. Afinal, custa assim tanto retribuir um beijo, quando estão presentes duas pessoas que têm muita cumplicidade, companheirismo e partilham a vida a dois, como se fosse apenas uma única vida? 


Mais à frente, noutro banco, encontravam-se duas adolescentes, por volta dos treze ou catorze anos. Uma delas – a mais “espevitada” – tinha cabelo arrapazado, faces excessivamente rosadas, próprio da idade e da brincadeira, e exibia a blusa desapertada e fralda de fora. A outra, de tez clara, tinha cabelos longos, feições mais femininas e um porte ousado para o seu perfil, como quem quer libertar-se da timidez. Ambas desassossegavam um rapaz, que aparentava ser ligeiramente mais velho. Faziam-lhe cócegas; metiam-lhe as mãos no farto cabelo, desgrenhando-o ainda mais; a mais discreta veio por trás e tapou-lhe os olhos, com alguma meiguice; imediatamente, a “Maria rapaz” deu-lhe uns empurrões, como que a querer despertá-lo da letargia e afastar a amiga competidora. Afinal, estavam duas raparigas a dar-lhe uma atenção a que ele parecia não estar minimamente interessado em corresponder. Ele, sempre de olhar fixo no smartphone, que manipulava conforme podia, ia alternando entre sopros dirigidos para o cabelo comprido, que lhe tapava a visão, de modo a afastá-los, e palavras de desagrado, que deixava escapar, praguejando em puro vernáculo (que dispenso aqui a sua reprodução), mas apenas refiro que se a cena estivesse a ser filmada e viesse a ser exibida na televisão, teria, forçosamente, de ter uma bolinha vermelha no canto superior direito do ecrã, ou muitos piiiiii sobre os imensos palavrões proferidos! Até que ele decide, repentinamente, arrumar o telemóvel no bolso de trás das calças largas e de cinta descida. Já em pé, agarra na mochila e dispara, em passada larga, em direção ao portão do jardim, logo seguido de ambas as raparigas. Estas duas “pombinhas”, numa atitude diferente da do citado pombo rejeitado, denotavam uma atração pelo rapaz, e não pareciam minimamente interessadas em desistir daquele “borracho” ou “pãozinho”. 

Já fora do jardim, num ponto estratégico com muito movimento de peões, encontrava-se um indivíduo de aspeto pouco ou nada cuidado, de barba por fazer, e cuja idade se devia situar nos trinta e pouco, mas até podia andar na casa dos vinte. Estava sentado sobre um cartão e, à sua frente, tinha o fundo recortado de uma garrafa de plástico, contendo poucas e pequenas moedas acastanhadas. De repente modificou-se o seu ar pesaroso, inspirador de piedade. Levantou a cabeça e, sem sair do lugar, seguiu embevecidamente a jovem empregada do café, que trabalha ali perto. Neste dia soalheiro e primaveril, tinha saído à rua sem a bata e sem o casaco, e exibia os seus fortes atributos, despertando os sentidos a qualquer mortal. A menos que se desse uma grande reviravolta, por agora, este jovem, na primavera da vida, apenas poderia sonhar. Não sei se ele sabia quem foi Steve Jobs ou se conhecia a frase inspiradora que proferiu: “Cada sonho que você deixa para trás, é um pedaço do seu futuro que deixa de existir”. Também eu fiquei a sonhar acordado. Tive um desejo fremente para que este jovem arribasse e pudesse reconstruir o que parece torto, preparando [no seu coração] a terra fértil, cultivando o melhor e poder vir a florescer para a vida, com oportunidades, confiança e alegria, consciente da capacidade da mente em operar milagres. É que o desabrochar é espectacular, na força da primavera! 

                                                                                                                              © Jorge Nuno (2016)

11/03/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (30) - Crónica: "Falar para o Boneco"

FALAR PARA O BONECO

Há uma indesmentível sabedoria popular, a que nem sempre damos o devido relevo, e muitas vezes somos mesmo traídos pela aparência evidenciada por algumas de essas pessoas e temos a tendência mesquinha para as menosprezar.
Creio que terei aprendido uma lição de vida, que não mais esqueci, ao deparar-me com um alentejano que aparentava ter setenta anos (numa altura que eu devia andar pelos trinta). Foi numa noite de verão, num tosco café, um dos poucos abertos na cidade de Elvas, onde eu iria pernoitar. Sentado ao meu lado e talvez por sentir necessidade de conversar com um estranho, que até tinha ares de quem vinha da capital, meteu-se a disparar uma série de questões, algumas que pareciam profundas e filosóficas, apesar do seu ar humilde, e ia, pacientemente, aguardando a minha reação. Primeiramente, senti que ele estava a falar para o boneco, pois não estava a dar-lhe qualquer importância e reconheço que até olhava para ele com alguma altivez. Quando me decidi “ir a jogo”, mesmo tendo eu um curso superior, senti-me completamente vergado pela sua sabedoria.
Uma dessas pessoas que muito admiro, é o poeta António Aleixo, que tendo sido um pobre, “quase analfabeto”, com tragédias familiares, dificuldades e doenças, ficou conhecido como um dos mais importantes poetas populares portugueses – com quem me identifico ao nível da ironia e capacidade de crítica social –, bem patente nas suas quadras, e que ainda hoje fazem a delícia de quem as lê, mesmo tendo passado quase setenta anos sobre a sua morte. Talvez, durante algum tempo, ele tenha sentido que andava a escrever para o boneco, mas ficou uma boa parte do seu legado, que pela aceitação contraria essa ideia.

Mas essa sabedoria popular, não sendo considerado um conhecimento científico, acaba por ser transmitida de geração em geração e revela-se das mais variadas formas, desde as mezinhas para curar algumas doenças, sem recurso aos químicos da indústria farmacêutica, até aos ditados populares. Sobre estes, dou apenas alguns exemplos, para ficarmos apenas na verdade e na mentira: “O dinheiro cala a verdade”; “Ainda que enterrem a verdade, não sepultam a virtude”; “Mais perde em amizades quem mais teima nas verdades”; “Mais vale o calar do mudo do que o falar do mentiroso”; “O mentir exige memória”; “Nada é mais fácil que mentir e mais difícil do que mentir bem”; “Quem a dois senhores quer servir, a um há de mentir”; “A verdade é amarga, a mentira é doce”…  

Fui acumulando alguma dessa sabedoria ao longo de mais de sessenta anos, e ao aperceber-me que tivemos uma longa ditadura no país que durou mais de quatro décadas, admitindo que quanto mais ignorantes são as pessoas mais são facilmente manipuladas, talvez explique porque dediquei mais de metade da minha vida à educação e formação de adultos. Este conceito parecia verdade, até ler num jornal semanal, que colocam gratuitamente na caixa de correio, esta frase do conhecido mágico Mário Daniel: “Quanto mais culta e inteligente for a pessoa, maior a facilidade com que cai no truque”, falando mesmo nos truques para seduzir. Talvez alguns membros destacados da classe política tenham conseguido obter algumas lições, para aumentar o número de votos, já que tinham, como dado adquirido, os votos dos “ignorantes”.

À presente época, ainda se veem alguns cidadãos, provavelmente bem-intencionados, a tentar deixar uma marca e a promover mudanças na sociedade, num apelo à inteligência e à verdade. No entanto, um conhecido bastonário andou a falar para o boneco, tendo como cruzada a crítica aos juízes; agora foi conhecido o caso de um procurador indiciado de ilícitos criminais em que, ao que tudo indica, “o dinheiro calou a verdade”. Há o caso do professor universitário, candidato a presidente da República, que teve a corrupção como tema central da campanha; afinal, “a verdade foi amarga” e obteve 2,16 % dos votos nas últimas eleições, parecendo evidente que andou a falar para o boneco e que as pessoas preferem uma “mentira doce”. Também um conhecido comentador desportivo parece andar a falar para o boneco; enveredou pela defesa da causa “verdade desportiva”, estabeleceu pontes numa abordagem da promiscuidade entre desporto (com predominância do futebol) e política e escreveu, já em 2016, o livro “Mentiras Futebol Clube”, vindo a “perder em amizades por teimar nas verdades”. Estranhamente, até no último filme a que assisti no cinema – “The Boy – Segue as Regras” – vi a personagem Greta, no papel de baby-sitter, que passou quase todo o tempo a falar para o boneco Brahms, de porcelana e no tamanho real de um menino de oito anos, que afinal “não era um mero boneco”… deixando uma pessoa desconcertada, quanto ao que é verdade e mentira.

No dia de tomada de posse do 20.º presidente da República, assisti a uma entrevista de circunstância na TV, feita por um repórter na rua e para “encher chouriços", frente ao Palácio de Belém. À pergunta “Então que espera deste novo presidente?” ouviu-se uma popular responder: “Então… espero que seja melhor que os outros atrasados!”. Será que a esta pessoa fugiu-lhe a boca para a verdade? Fez-me logo lembrar da presidência aberta de Mário Soares em Trás-os-Montes, mais precisamente em Rio de Onor; um repórter perguntou a um ancião o que achava da presença do presidente da República na aldeia e teve como resposta: “Oh… nunca outro tinha cá botado as patas!”. Porque aqui não se precisa de truques, ao ver gente genuína, com tanta simplicidade, bem posso acreditar que este homem estaria mesmo convicto dessa verdade.

       © Jorge Nuno (2016)




09/03/2016

Em Busca das Minhas Pérolas

EM BUSCA DAS MINHAS PÉROLAS

Sonhei novamente… Mais uma dor angustiante, agora prolongada ao ombro, pelo bater da coronha da G3. Acabei de despejar definitivamente o último carregador de balas. Nem me interessa ficar com o tapa-chamas como recordação. Ainda se ouvem ao longe os ecos dos meus disparos e pouco importa se eu consigo, ou não, matar o passado. Basta-me ter a cova aberta, preparada para o enterrar! Fica no ar um “paz à sua alma”, de um passado sem vida e sem cor.

          Sem precisar de ir pelo esgoto, não fujo de terra, em direção ao mar. Simplesmente parto de terra, procurando uma parte funda do oceano, onde irei mergulhar para trazer as minhas pérolas. É aí que está a serenidade que preciso, nesse negro escuro, onde melhor vejo a minha luz interior.

Quando regressar, levitarei sobre as águas, porque eliminei todo o peso que me oprimia. O sal ter-se-á encarregado de diluir as mágoas, desilusões, culpa e emoções reprimidas, numa drenagem psíquica há muito desejada, mas sem a necessária força interior para antes o conseguir.   

Pouco importa a cor do céu, a lua cheia, as tensões de um mundo incerto ou o que possa influenciar ou agitar as minhas águas… Não é preciso ter êxito total nos propósitos e muito menos à custa de favores especiais. Basta pensar e valorizar o esforço despendido na busca das merecidas pérolas. É a dádiva da vida, que se torna abundante, quando nos tornamos gratos.

Quando chegar a terra, carregado de um novo combustível da existência e contigo à minha espera, é hora de saborear. Sei que os problemas não fugiram, mas sei que finalmente ficarás a conhecer o meu sorriso, porque, agora sim, sentirei paz no coração!”

Trecho de um trabalho de prosa poética, elaborado pelo personagem “Filó”, no romance “As Animadas Tertúlias de Um Homem Inquieto” (que completa agora 3 anos), de
© Jorge Nuno


10/02/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (29) - No Quarto com Ela

NO QUARTO COM ELA

Já há três dias que andava ansioso pelo momento. Não é por acaso que eu tinha estes dois livros na mesa de cabeceira do quarto: “Cérebro – Manual do Utilizador”, obra da Dr.ª Sandra Aamodt (da Universidade de Yale) e do Dr. Sam Wang (da Universidade de Princeton); “Descontrair a Mente”, escrito pelo Prof. Dr. Dietrich Langen, falecido em 1980 e, ao que consta, dedicou “mais de quarenta anos de experiência na área da divulgação médica do treino autógeno”. Com estes, procurava, além de exercitar a mente, obter aprendizagem de técnicas de relaxamento, com alguma sistematização, de modo a fazer melhor uso do cérebro.  

Em boa verdade, há cinco anos que recuso ser um sexagenário, por me considerar um sexalescente – e até há quem diga “sexylescente” –, já que está nos meus planos manter-me ativo, sem preocupações quanto ao passar dos anos. Também é certo que podia sentir-me um pouco mais relaxado quando pegava nos referidos livros, mas não contribuíam para me tranquilizar completamente. Experienciava isso ao ver as notícias na TV, particularmente aquelas que considerava um estímulo à minha capacidade de compreensão e/ou um atentado à minha inteligência. Tinha acabado de ver aquela que se reportava ao vírus Zika, alegando que em Portugal estará “montada vigilância apertada nas fronteiras para detetar a presença de insetos que represente ameaça”. Ora, sendo estes tão minúsculos e… aos milhões, fiquei curioso de saber como será “essa vigilância apertada nas fronteiras” para os insetos, quando nem se consegue controlar a meia dúzia de cavalos à solta [para os animais não há fronteiras] que fazem aumentar a sinistralidade rodoviária. Depois, as notícias da Comissão Europeia (CE) sobre Portugal, a fazer-me lembrar Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, que disse: – O cliente pode ter o carro que quiser, desde que seja preto; assim, também a CE – que é pouco ou nada democrática, pois os seus membros não se submetem a sufrágio eleitoral – toma decisões, que obriga a obedecer (sob a forma de acordo), mesmo quando não se concorda com as decisões concretas, e argumenta com a “regras europeias” dizendo, sub-repticiamente, que Portugal pode escolher e adotar as políticas que quiser, desde que seja a política definida pela União Europeia.   

Nestas minhas deambulações, para minha satisfação, o tal momento especial chegou. Aguardava-a, pacientemente, no quarto. Reconhecia que me sentia em desvantagem, antes e depois da sua entrada. Logo após ter-me perguntado se estava bem-disposto, apressei-me (não sei se desajeitadamente, pelo modo brusco com que o fiz) a perguntar-lhe onde é que ela queria: – Na cama ou no cadeirão?
Reparei no seu ar jovial, e a sua movimentação indiciava grande à-vontade, como quem está habituada a estas lides. A sua resposta deixava transparecer que estava confiante e, por ser dada de modo delicado, fez com que me sentisse menos constrangido: – Pode ser onde quiser; na cama ou no cadeirão. É onde se sentir mais confortável. Escolha, pois por mim tanto faz.   
Ainda não sei bem por quê, impulsivamente, escolhi o cadeirão. Há dias assim…
Então sente-se e descontraia – disse-me, enquanto exibia um sorriso tranquilo e baixava-se mesmo à minha frente, bem próxima de mim.

Vi então aumentar, exponencialmente, os meus níveis de ansiedade, fazendo agarrar-me com firmeza aos braços do cadeirão, como se estivesse no consultório dentário e já ouvisse o silvar da broca a aproximar-se da minha boca, sem estar anestesiado! Nestas circunstâncias, tudo indiciava que os ensinamentos do Prof. Dietrich Langen não iriam ser absorvidos por mim. De pouco me valeu que este tivesse feito tanto esforço a apregoar como “Descontrair a Mente” e, em vez disso, houve lugar a um turbilhão de ideias, por instantes sem controlo, quando seria suposto sentir alguma tranquilidade, por antecipação. Genuína e estranhamente, admiti que, em vez daquela jovem com atributos, nem me importaria que estivesse ali uma outra mulher, mesmo que quarenta anos mais velha, de corpo disforme, com peito muito grande e descaído, e até aceitaria que ela fosse uma rezingona mal-humorada, verrugosa, de cabelo desgrenhado e aspeto descuidado. Mas, não… tinha bem próximo uma jovem, dinâmica e confiante, e acreditava que esta iria fazer-me soltar. Com esta idade nunca, mas mesmo nunca, tinha passado por situação semelhante.
Perante o meu ar receoso, bem evidente, volta a dizer: – Incline-se para trás, abra mais um bocadinho as pernas e descontraia.
Ela foi de tal modo eficaz que em menos de três minutos, já com os preliminares incluídos, zás!... Estranhamente, acabou por ser muito rápido, entre um misto de uma ligeira dor e de um imenso alívio. Finalmente… a jovem enfermeira retirou-me a algália!

© Jorge Nuno (2016)