16/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (39) - Crónica: "Dia do Ser Humano"

DIA DO SER HUMANO

Quando chega o chamado Dia Internacional da Mulher, ano após ano, vai-se ouvindo dizer, por ignorância, convictamente de forma sentida, ou em tom de brincadeira: “Também devia haver o Dia do Homem!”. Pois bem, foi mesmo instituído o Dia Internacional do Homem, com o apoio da ONU, devendo-se, tal facto, a vários grupos de defesa dos direitos masculinos que quatro continentes. É comemorado, em mais de 70 países, desde 1999, no dia 19 de novembro. No entanto, o Brasil já se tinha antecipado em 1992 e continua a comemorá-lo no dia 15 de julho, sendo, estranhamente, uma iniciativa da Ordem Nacional dos Escritores. Como alguns dos objetivos principais desta comemoração, pretende-se:
– promover modelos masculinos positivos (onde se incluam “homens do dia-a-dia cujas vidas são decentes e honestas”);
– comemorar as contribuições masculinas positivas para a sociedade, comunidade, família, casamento, guarda de crianças e meio ambiente;
– concentrar sobre a saúde do homem e seu bem-estar social, emocional, físico e espiritual;
(…)
– criar um mundo melhor onde as pessoas possam sentir-se seguras e crescer para alcançar o seu potencial.

 Um dos co-fundadores do Dia do Homem no Brasil – Edson Marques – pretendia mesmo que se alterasse o nome para “Dia+Noite do Homem Livre”. Sem querer desvirtuar a ideia, o título parece insinuar que o proponente provavelmente quereria, ao menos uma vez por ano, que houvesse uma festa do tipo “despedida de solteiro”.

Após o surgimento da instituição do Dia do Homem, logo apareceram textos caricatos, embora com verdades (na ótica do homem heterossexual) e algum humor, como seja:
“Ser homem é:
– ter de reparar na roupa nova dela e ter de ouvi-la dizer que está sem roupa, quando o problema é onde colocar novos armários para colocar mais roupa;
– ter de ignorar completamente que ela está com um pouco de celulite ou jamais dizer que ela engordou, mesmo que isso reflita a verdade;
 – ter de reparar que ela cortou o cabelo, mesmo que seja só 1 cm;
(…)”
Como homem, e apenas com a finalidade de desenvolver a ironia criativa, acrescento mais umas achas nesta fogueira, que parece sem fim:
– ter de reparar que ela mudou a tinta do cabelo de Imédia Excellence Fashion Paris 2.160 Preto Couro para Imédia Excellence Fashion Paris 1.101 Preto Alta Costura;
– ter de reparar que ela mudou as unhas de gel de cor azul marinho+turquesa, para nail art azul geométrica, já que na anterior muda não reparou que as tinha em tom azul com glitter.

No seguimento da criação do Dia do Orgulho Gay, também um vereador, da prefeitura de São Paulo (Brasil), propôs e foi aprovada a criação do Dia do Orgulho Hétero. Segundo o próprio, teria a pretensão de contribuir para conceder os mesmos direitos que os grupos homossexuais conquistaram aos heterossexuais. Poucos dias depois, o prefeito de São Paulo disse que iria vetar a criação do Dia do Orgulho Hétero, já que para ele este projeto era desprovido de sentido, pois “o heterossexual é maioria, não é vítima de violência, não sofre descriminação, preconceito, ameaças ou constrangimentos”.

Em contraste com a opinião do prefeito de São Paulo (Brasil), o atual ministro-adjunto no governo português – Eduardo Cabrita – em afirmações recentes, mencionou o Relatório Anual de Segurança Interna 2015, que aponta para que haja em Portugal “cerca de 15% de homens vítimas de violência doméstica” e anunciou que irá ser criada (como projeto-piloto) a primeira casa abrigo para homens, com capacidade para 10 vítimas. Obs.: Atualmente há, em Portugal, 37 casas abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica, a viver em situação precária e a precisar de apoios diversos; prevê-se a inauguração de mais 3, a curto prazo; algumas dessas casas destinam-se, exclusivamente, a acolher mães solteiras, grávidas e mulheres separadas com filhos.

Nestes tempos conturbados, de confusão, com tanta “capelinha”, tanta violência e falta de elevação, se se sente necessidade de criar, manter e comemorar um Dia especial, como forma de chamar a atenção para algo, então poderá estar na hora de criar sinergias e deixar cair o Dia do Homem, da Mulher (incluindo a Africana), da Criança, do Orgulho Gay, do Orgulho Hétero, da Consciência Negra, do Deficiente (seja Mental, Físico, Visual, Auditivo…), do Doente (seja de Alzheimer, com AVC, Coronário, Renal…), do Atleta (seja Profissional, Olímpico, Paralímpico…), do Escritor (…). Em substituição destes múltiplos “Dias de Qualquer Coisa Relacionados Com o Ser Humano” proponho que se crie, simplesmente, o Dia do Ser Humano (enquanto existir motivo para tal)!

Tudo será mais fácil se cada ser humano tiver uma maior predisposição para aceitar as diferenças, sejam elas de sexo, raciais, de crenças…, pelo que deixará de haver necessidade de se gastar energias em lutas contra discriminações ou estereótipos criados ao longo dos tempos e que assimilámos. O caso mais flagrante: Homem e Mulher representam as diferenças que se completam. O Dia do Ser Humano até poderia adoptar como intenção única: “criar um mundo melhor onde as pessoas possam sentir-se seguras e crescer para alcançar o seu potencial [com condições para dizer SIM ao seu coração]”. Bastaria que mudássemos só um pouquinho a nossa postura e o planeta Terra pareceria outro, bem melhor. Mas isso implica transformações pessoais, onde entram palavras e atos como Simplicidade, Cooperação, Amor.

A humanidade está perante fortes desafios e até as palavras acabadas de citar parecem desprovidas de sentido, perante mais um ato de barbárie no sul de França, que originou 84 mortos, em dia que se comemorava a Igualdade, Fraternidade e Liberdade, ou do uso da força militar na Turquia – um grande país, de enorme importância estratégica, que tem o segundo maior exército da NATO e forte ligação ao Ocidente – para que, com o golpe de estado, pudesse destituir o governo e o presidente Erdogan, que para uns é acusado (suavemente) de exercer uma democracia “musculada”, para outros – os militares revoltosos, opositores e povo curdo –, Erdogan “impôs um regime autoritário de medo”, sendo que, pelos relatos que nos chegam, esta tentativa de golpe de estado já se traduz em mais de 200 mortos, entre militares e civis, e a prisão de cerca de 1500 militares.

© Jorge Nuno (2016)

  Obs.: Crónica saída hoje na BIRD Magazine (da UTAD)   


02/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (38): Crónica: "Verão Agridoce"



VERÃO AGRIDOCE

A entrada no verão convida a alguma leveza de espírito. Tal, é fácil de constatar, pois torna-se visível na forma descontraída com que se faz:

– um passeio pela areia molhada, descalço, à beira-mar, enquanto se saboreia o sol, o cântico das ondas e a brisa fresca de manhã, e dá para relembrar a frase de Salvador Dali: “A cada manhã que acordo experimento novamente um prazer supremo – o da existência”, fazendo crer que só estes momentos matinais valerão pelo dia todo, tal a energia recebida, em sentimento de gratidão;

– uma nova e simples caminhada pelo campo, livre de fardos e complexos, sem rumo bem definido, em fim de tarde, quando os estorninhos regressam em bando compacto à zona urbana, saciados de insetos, vermes, frutos, sementes e bagas. E como é agradável vê-los descontraídos, confiantes, sem preocupação quanto a quem os guia e o que origina aquela estranha dança no céu, a fazer lembrar a coreografia da “ola mexicana” nos estádios de futebol. Nós, sozinhos ou em pequeno grupo, durante a marcha livre, em contacto com a natureza, experienciamos momentos de evasão e libertação, aproximando-nos da frase atribuída a Arten, citada por Gary Renard em O Universo Desaparecerá: “Não se libertará até perceber que é você próprio que forja as correntes que o amarram”;

– uma amena cavaqueira, à noite, numa qualquer esplanada, sem hora marcada, mas com tempo para os familiares e amigos. Mesmo que por breves instantes, é nestas alturas que nos sentimos amplamente sintonizados com a ideia manifestada na frase atribuída a Antoine de Saint-Exupéry: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante”.



Depois de um ano de correria desenfreada, fica-se com a sensação que estamos num novo ciclo e que, nesta época, os relógios trabalham a um ritmo mais lento, como se as pilhas que o sustentam estivessem a finar. Até os especialistas de marketing, conhecedores do fenómeno, aproveitam para lançar, nos panfletos publicitários que são colocados na caixa do correio, a imagem que agora é “tempo para relaxar”. Sem dúvida, no verão parece que temos mais tempo para nós próprios e para a nossa “rosa”, dando mais sentido à vida – onde cabe familiares e amigos.



É precisamente na esplanada, engalanada para as festas dos Santos Populares e para o Campeonato da Europa de Futebol, com o ligar da televisão que tudo se desmorona. Não, não foi a seleção portuguesa que perdeu. É que em vez da sintonia de um dos habituais canais desportivos (os tais que fazem as maçadoras antevisões aos jogos, as sucessivas transmissões diferidas e em direto, com um ou outro jogo interessante e emotivo, particularmente os que mostram a caminhada heroica da “nossa” seleção, adocicando temporariamente a vida dos portugueses), eis que surge um canal informativo. Com ele, mesmo que olhando esporadicamente, apercebemo-nos: de mais imagens do atentado na zona internacional do aeroporto de Istambul, em tudo semelhante ao que aconteceu recentemente em Bruxelas; do anunciado ataque, no Iraque, às forças do autoproclamado Estado Islâmico, como sendo o mais feroz e mais destrutivo de todos; do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, a levantar o dedo “ameaçador” e a dizer que Portugal poderá estar à beira de um novo resgate, agora com consequências mais gravosas; do representante do FMI para Portugal a ironizar com a redução para as 35 horas semanais no setor do Estado, e a insistir que a solução passa pelo estafado receituário das reformas que levem à redução dos salários e das pensões; a “peixeirada” no Parlamento Europeu, relacionada com o referendo no Reino Unido, que levará à sua saída da União Europeia (U. E.), como se em democracia os povos não fossem soberanos de tomar as decisões que acham adequadas; da agência de notação financeira, Standard & Poor’s, cortar o rating depois do Brexit; do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, ser o primeiro a opor-se à ideia, apresentada pela primeira-ministra da Escócia, de aquele país do Reino Unido vir a manter-se na U. E., deixando transparecer que estava receoso que isso pudesse influenciar os movimentos independentistas da Catalunha e do País Basco.



Por momentos fechei os olhos, alheei-me de tudo, incluindo a companhia agradável e, mentalmente, retive os atos terroristas, considerando-os, como tal, também a coação e chantagem exercidas sobre um povo e um governo, sejam eles quais forem. Sem me preocupar em querer saber por quê, abandonei o meu “bando” e voei solitariamente até Qumran, zona árida da Cisjordânia, junto ao Mar Morto. Há uns anos, tinha ficado fascinado com a descrição da comunidade de Essénios que ali viveu, alguns séculos antes de Cristo. As escavações arqueológicas e os textos encontrados [“Manuscritos do Mar Morto”, que ficaram com tradução integral em 2002], ajudam a compreender este povo. Tinha fixado que o termo “essénio” talvez tenha origem na Síria e que, em aramaico, significará “piedoso”. Porque vivam em comunidade, sem propriedade privada, poderá querer dizer “união de piedosos”. Era um povo vegetariano, alimentando-se de fruta e legumes; tinha um enorme cuidado com a higiene pessoal, particularmente antes das refeições; usava a água para purificação espiritual; as refeições ocorriam em pleno silêncio; acreditava e exercia curas pelas mãos, e também utilizava ervas medicinais e argila para a cura de maleitas; como povo asceta, esforçava-se por cumprir as “leis de Deus” na sua forma mais pura, em contacto com a natureza, e acreditava que “as forças do bem triunfarão” [sobre as forças do mal].



  Abro os olhos e imagino a televisão na sala de jantar a intoxicar a refeição, o ambiente e as relações, tal como tinha acabado de prejudicar alguns momentos de estadia na esplanada.  Imagino os Essénios nos dias de hoje. Imagino o paraíso na Terra, em Qumran, há mais de dois mil anos. Imagino o inferno na Terra, agora, naquelas terras áridas dos países vizinhos, no médio oriente. Observo como o fluxo migratório, proveniente daquela zona, levou ao “Sim” e à saída do Reino Unido da U. E. Observo as imposições de estados-membros (mesmo sem negociações) para o Reino Unido ter acesso ao Mercado Comum. Observo a incapacidade dos eurodeputados em compreender a necessidade de refletir sobre o caminho que está a ser seguido, assobiando para o lado quanto à Europa a várias velocidades e a caminho de se desintegrar, se não for encontrado o rumo certo…



Dizia Martin Luther King Jr.: “O arco do Universo é longo, mas curva-se na direção da justiça”. Confiante, coloco-me ao seu lado e dos Essénios. Pode demorar, mas a clarividência e a abertura a novas ideias levará as “forças do bem” a triunfar.



© Jorge Nuno (2016)

Crónica publicada hoje na BIRD Magazine (da UTAD)

18/06/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (37) - Crónica: "Loucos da Bola II"

LOUCOS DA BOLA II

Se é certo que as mudanças climáticas originaram atraso no desenvolvimento e colheita das cerejas, fazendo com que em época de Santos Populares ainda não as tenha provado, também é certo que os melões verdes vieram mais cedo. Foi ao findar a época futebolística, em meados de maio, com o verde a dissipar-se e a esboroar-se a esperança de sagrar-se campeão na última jornada. E também alguma polémica e dúvidas com melancias, que têm o verde por fora, mas são vermelhas por dentro. Recentemente, chegou uma nova remessa de melões, vinda de um país impensável – a Islândia. A fazer fé no slogan: “Não somos 11. Somos 11 milhões”, logo corrigido para “15 milhões” (com alguma irritação) pelo secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro. É que ele entende ser esse o número de apoiantes à selecção nacional de futebol, com inclusão dos emigrantes portugueses, daí que a remessa teve mesmo que ser imensa e obrigar a uma ponte aérea. 

Depois de tanto se falar em “fruta” e em “vouchers”, ao virar do ano, rapidamente se passou a comentar os proveitos futuros da SAD dos “três grandes”, com os meganegócios que estes anunciaram na CMVM, num atropelo de declarações dos respetivos dirigentes. Qualquer deles queria mostrar que o seu clube fez o melhor negócio de todos. Tratava-se da cedência dos direitos televisivos e multimédia, além da publicidade nos estádios e equipamentos. Os encaixes financeiros apregoados seriam de: 400 milhões de euros (M€) a médio prazo + 8 M€ de publicidade nos equipamentos por época, isto para o SLB; 457,5 M€ para o FCP e 515 M€ para o SCP. Passados três meses, ficou a saber-se, pela comunicação social generalista e desportiva, que os “três grandes” detêm 90% do passivo de todos os clubes dos dois maiores escalões do futebol profissional português, passivo esse que será de cerca de 727 M€. Um jornal económico precisava que, no final de 2015, o passivo dos “três grandes” era de 982,8 M€, pertencendo 44% ao SLB, o que vem confirmar que o tricampeão também é o campeão da dívida. Apesar de estes clubes terem baixado o passivo e reforçado o capital próprio, estes clubes ficaram mais expostos à vontade e interesses de terceiros. E se houvesse apertada vigilância do fair-play financeiro, por parte da UEFA, porventura a trapalhada ainda seria maior na próxima época. Mas a própria UEFA está sob fogo, com as declarações do ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter, que diz ter testemunhado haver “sorteios fraudulentos” em provas da UEFA, utilizando “bolas quentes e bolas frias”, com colocação de algumas no frigorífico, antes do sorteio. 

Enquanto não rola a bola, a trapalhada persiste por cá. É a subida administrativa do Gil Vicente, após o tribunal ter demorado 10 anos para tomar uma decisão, mas com a direção da Liga a adiar a subida ao escalão superior; o pedido de impugnação da classificação da Liga NOS, feito pelo União da Madeira e a possível troca na descida com o histórico Vitória de Setúbal, por suposta utilização indevida de jogador; a esperada ida do Paços de Ferreira à Liga Europa, por troca com o Rio Ave (que nada tem a ver com o caso); a falta de regulamentação para que uma equipa acompanhe (ou não) o Gil Vicente, de modo a que o número de equipas seja par. A tudo isto, ainda se juntariam fortes penalizações, de consequências imprevisíveis, para todos os que não cumprem o citado fair-play. Os relatórios semestrais, que foram entregues na CMVM, indiciam haver motivos para muita preocupação. No início da época desportiva 2015/2106, o SLB tinha 212 M€ em empréstimos bancários, 45 M€ em empréstimos obrigacionistas e 50 M€ em emissões de papel comercial. Em época de defeso, os dirigentes têm bem com que se entreter! Mais do que pensar em reforços, ver-se-ão obrigados a vender ativos, que é como quem diz: “as jóias da coroa”. Numa visão otimista – e sem fazer fé nas palavras do presidente do SCP, que diz ter rejeitado a oferta de 80 milhões por um jogador, no mercado de janeiro –, certamente todos esperam que o passe dos jogadores se valorize ainda mais, com a participação nas várias selecções de futebol, que representam, apesar do valor exorbitante das cláusulas de rescisão já existentes. Apenas três exemplos: João Mário (SCP) – 60 M€; Imbula (FCP) – 50 M€; Lindelöf (SLB) – 45 M€.

Conhecendo a influência das seleções junto dos adeptos, também as marcas desportivas ficaram “loucas da bola”, ao procurarem impor-se no mercado. Das 24 seleções a disputar o EURO 2016 em França, a Adidas veste nove, a Nike seis, a Puma cinco, seguindo-se a Joma, Umbro, Macron e Errea, que equipam uma selecção cada. A Nike tem um contrato com a selecção portuguesa até 2108, no valor de mais de 28 M€, que permitiu investir na “Cidade do Futebol” em Oeiras, no futebol feminino e camadas jovens. Estima-se que a mesma marca pague ao nosso CR7 19 M€ por ano, que contribui para que seja o desportista mais bem pago no mundo (apesar de no Real Madrid vestir equipamento Adidas). A mesma Adidas tem contratos de muitos milhões com vários craques, indo, a título de exemplo, um bolo de 11 M€ para dividir pelos bolsos dos jogadores Pogba (Juventus), Bale (Real Madrid), e Ozil (Arsenal).

Logo que se ouviu falar que a selecção portuguesa gastaria € 16.000 por dia, em terras gaulesas, durante a presença no EURO 2106, surgiram as habituais críticas, quanto ao esbanjar de dinheiro. Mas só a presença no EURO vale à nossa selecção 8 M€; cada vitória na fase de grupos vale 1 M€; a passagem aos oitavos de final vale 1,5 M€; aos quartos 2,5 M€; às meias 4 M€; se for finalista vencido vale 5 M€; se for vencedor da prova arrecada 8 M€ e um total recorde de 27 M€. Segundo um estudo do IPAM, essa vitória final poderá ter um impacto económico em Portugal estimado em 609 M€, quando a UEFA espera gerar receitas de 500 M€, número recorde e superior em 200 M€ relativamente às receitas de há 4 anos.

Entretanto, por cá, uma fábrica de Vizela – a 4-Teams –, especializada em cachecóis desportivos, tem a exclusividade para o fabrico dos cachecóis das 24 seleções presentes no EURO. A laborar dia e noite, com o produto a preço de loja entre os 10 e 25 euros, dá para perceber porque esta empresa é líder mundial de vendas neste tipo de adereços, esperando faturar 4,5 M€ com esta prova.

Por lá, nas cidades de Marselha e Lille, voltou a sentir-se o efeito do hooliganismo, com o envolvimento de claques organizadas (e bem treinadas), demonstrando que o futebol é apenas um pretexto para praticarem atos de violência. Tendo a organização do EURO orçamentado 14 M€ para segurança, ela devia ser garantida ao primeiro sintoma. É frustrante saber que a UEFA apressou-se a desqualificar a Rússia, com pena suspensa, caso se viessem a verificar novos incidentes nos estádios, ficando-se pela aplicação de uma penalização de € 150.000. Sabe-se que a UEFA não tem jurisdição fora dos mesmos. Mas também se sabe que Vitaly Mutko, é o atual presidente da Federação de Futebol da Rússia, acumulando os cargos de ministro do Desporto, Turismo e Juventude e o de presidente do Comité Organizador do Campeonato do Mundo, que se realiza na Rússia, em 2018. É frustrante saber que a UEFA era conhecedora do fenómeno com claques na Rússia, com adeptos organizados, violentos e conotados com a extrema-direita e, juntamente com a organização do EURO, não inviabilizasse a sua vinda até França, numa altura em que este país está em convulsão, pela insegurança originada por atos de terrorismo, e ainda fica mais fragilizado. É frustrante saber que a UEFA sabe ser forte com os fracos, e vacila perante os fortes. Foi mesmo confrangedor saber que Igor Lebedev, membro da Federação de Futebol da Rússia e vice-presidente do Parlamento russo, terá manifestado apoio aos adeptos russos envolvidos nos atos de violência, a pretexto da “honra do país”, escrevendo no twitter: “Parabéns aos nossos rapazes! Continuem!”, num claro incentivo à violência em país alheio.

Para acabar, poderia parecer divertido mencionar, nesta já longa crónica, o facto do seleccionador alemão, Joachim Löw, ter sido filmado, no jogo de estreia do EURO, enquanto estava entretido com as suas “bolas”, mas o futebol é uma indústria e outros valores falam mais alto, que pelos números aqui relatados só me apetece dizer: “Não matem o Futebol!”

© Jorge Nuno (2016)
Obs.: Crónica saída hoje, 16-06-2016, na BIRD Magazine

04/06/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (36) - Crónica: "Ser Padre Nesta Freguesia"

SER PADRE NESTA FREGUESIA

É comum ouvir dizer, e eu próprio o digo, que “não é fácil ser padre nesta freguesia!”, embora fosse mais adequado referir a paróquia. Sem grandes preciosismos, importa a ideia. Muitas vezes por trás do ato até estão as boas intenções, mas os efeitos produzidos acabam por ser perversos, dados a conhecer pelos media, sob a forma de notícias desagradáveis que se vão sucedendo, ininterruptamente, tanto nas capas dos jornais como no abrir dos telejornais, para alimentar a máquina e aquecer o ambiente, como o fazemos com as cavacas que, espaçadamente, vamos colocando na lareira.

Nesta perspetiva, vem à baila o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE), a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), e até o Banco de Portugal (BdP), que alertam para os riscos de Portugal estar na iminência de violar, no corrente ano, o Pacto de Estabilidade, que tem um teto de 3%. Apontam também para a necessidade de corrigir o défice, e parece só verem mais austeridade, como solução. Perante o mais que previsível incumprimento de Portugal, fica a pairar no ar a ameaça de penalização até 0,2% do PIB, que significa entre 360 a 370 milhões de euros e o congelamento de parte dos fundos estruturais, que deixariam de ser utilizados. Isto acontece quando o atual governo dá mostras de querer atenuar a austeridade, ao pretender devolver aos cidadãos parte dos direitos que lhes foram retirados (com o pretexto da necessidade de promover a austeridade no país, reduzindo a despesa do Estado).

É certo que aprendi, nas minhas aulas de Economia e na vida real, que os défices e dívidas públicas elevados impedem que haja crescimento económico. Qualquer um sabe, mesmo que nunca tenha frequentado a universidade, que não é recomendável gastar-se mais do que aquilo que se tem, ou, se o fizer, a margem de endividamento deve ser mínima, face aos rendimentos previstos. No caso concreto, a dívida pública portuguesa atingiu, em abril, a soma astronómica de 235,8 mil milhões de euros. Qualquer governante, cheio de boas intenções, pode sentir-se tentado em minimizar este enorme problema denotando um enfoque obsessivo no esforço de consolidação orçamental. A verdade é que mesmo assim continua a não se registar o esperado crescimento. E quanto mais se fala em crise mais a crise se torna evidente, menos confiantes ficam os investidores, mais desvalorizadas ficam as empresas cotadas em bolsa, aumenta o número de pequenas e médias empresas a encerrar a atividade, mais pobres ficam as famílias. À falta de ousadia e de tempo, aos sucessivos governos parece restar apenas a solução, bem comum ao longo de séculos, de aumentar a receita por via dos impostos, agravando ainda mais a situação.

Esquecem as três citadas primeiras entidades que se serviram de Portugal, como cobaia, para ensaiar modelos na aplicação de medidas corretivas que pusessem o país nos carris, com governantes “à medida” e apelidados, publicamente, de “bons alunos”. Esquecem que essas medidas foram indevidamente aplicadas num curto espaço de tempo. Esquecem que elas tiveram consequências gravosas na economia do país e na população, com aumento exponencial da pobreza entre a população mais vulnerável, levando a que mais de um milhão de portugueses ficasse no limiar ou abaixo do limiar da pobreza. Esquecem que as suas orientações e imposições para o sector bancário, a par de inadequada supervisão do BdP (como o foi nos casos BPP, BPN, BES e BANIF, a que se juntam empréstimos ao Novo Banco, Caixa Geral de Depósitos (CGD), Caixa Agrícola e Banco Comercial Português (BCP), teve custos altíssimos ao erário público. São tantos e díspares os números divulgados, relacionados com a ajuda pública ao setor financeiro, entre 2007 e 2015 que, ora se situa na casa dos 7,3% do PIB, significando que os portugueses já contribuíram para este “peditório”, para salvar bancos, com cerca de 8,5 mil milhões, ou na ordem dos 13 mil milhões (números divulgados por um jornal económico). Tal facto, exige um esforço anormal ao contribuinte, agrava a dívida pública, e faz aumentar o défice para valores preocupantes. Nos citados anos, de 2007 a 2015, a dívida pública foi agravada em 20,6 mil milhões (ou seja, 11,5 % do PIB) e continua essa tendência. Na calha já estão alinhados o Novo Banco, CGD e BCP, para receber mais dinheiro, direta ou indirectamente, dos cofres do Estado. Com as ações do BCP a menos de 2 cêntimos e meio, a perder valor constantemente e a cair 25% nos três últimos dias, é fácil ver o desfecho. A CGD, com capital maioritário do Estado e com respetivas orientações estratégicas, serviu de almofada a outros bancos, que tiveram perdas gigantescas. Agora, a CGD necessita, urgentemente, de ver-se recapitalizada em 4 mil milhões, para cumprir rácios de solvabilidade impostos pelo BCE e Comissão Europeia. O governo fica no dilema de, ao querer injetar esse capital, ir contra as regras da concorrência (que impedem a ajuda estatal, por ser considerada ilegal), e agravar o défice, fazendo-o disparar de 2,2% (numa visão bem otimista) para 4,3%. Sempre terá, eventualmente, a possibilidade de jogar com a dívida pública. De qualquer dos modos, o tratamento contabilístico mais favorável terá que ter concertação com a Comissão Europeia e estar sujeito a acérrimas negociações, mesmo que outros países que estão igualmente em derrapagem, como é o caso da França, tenha o descarado beneplácito de Jean-Claude Juncker (presidente da Comissão Europeia), que alega que a França terá tratamento diferenciado, porque é a França. Em jeito de balanço, da imprevisibilidade de há poucos anos, rapidamente chegámos ao definhar e desaparecimento de bancos em Portugal, que está a ser amargo para clientes particulares e empresas e para os contribuintes em geral.

Acredito nas boas intenções quanto à meta de cumprimento do défice, assim como aprecio o optimismo do primeiro-ministro e do presidente da república, que desvalorizam o facto de poder vir a ser preciso um orçamento retificativo. Sabe-se que para equilibrar as contas, ou aplicam-se estratégias para aumentar as receitas, e o investimento é uma das formas mais credíveis – veja-se o caso do investimento e da competitividade na Alemanha, que levou ao crescimento sustentado da economia e originou um superávite de 19,4 mil milhões de euros, no ano passado –; ou então, em alternativa, resta reduzir a despesa. Mas logo que se tenta reduzir a despesa, como aconteceu no Ministério da Educação, com a tentativa de reduzir a despesa com os colégios com contratos de associação, que têm propriedade e gestão privados e escolas públicas na proximidade, parece que o mundo caiu em cima do governo. Não é fácil ser padre nesta freguesia!


© Jorge Nuno (2016)

Obs.: Crónica (quinzenal), saída hoje na BIRD Magazine

21/05/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (35) - Crónica "O Fascínio dos Museus ou "Noite nos Museus"

O FASCÍNIO DOS MUSEUS

Em 2006, com o surgir do primeiro filme intitulado “Uma Noite No Museu”, reforçado com os dois seguintes, muita coisa mudou na vida (por vezes pacata, descolorida e “às moscas”) dos museus. Nesse filme, um bom elenco de atores, de que fazia parte o saudoso e talentoso ator Robin Williams, no papel da estátua de cera de Theodore Roosevelt que ganhou vida, tal como todas as personagens presentes, animaram a noite de um segurança no Museu de História Natural. Essa fantasia, à mistura com ação, muitos efeitos especiais e um humor bem conseguido, fez com que as pessoas, que viram o filme, não mais olhassem para os museus como cemitérios de coisas do passado, que ficavam ali guardadas como se se tratasse de um arquivo morto.

Não deixa de ser estranho como demorou tanto tempo a compreender a necessidade de revitalizar esses espaços e a querer conhecer melhor os públicos que os frequentam, estudando o seu perfil e comportamentos, já que se trata de equipamentos com forte importância estratégica ao nível da cultura e do turismo, tanto localmente, como a nível regional e nacional. E é dentro desta estranheza que tivemos conhecimento da realização, há cerca de um ano, do primeiro estudo de públicos de museus em Portugal. Este estudo teve como principal objetivo “conhecer os públicos de 14 museus tutelados pela Direção-Geral do Património Cultural [DGPC]”, sendo esta “uma amostra representativa dos visitantes de museus nacionais” e “uma matriz para que os 146 museus da Rede Portuguesa de Museus sigam as novas diretrizes”, elaboradas com suporte nos resultados do estudo, tendo em vista a “definição de estratégias para captação e fidelização dos visitantes dos museus tutelados pela DGPC, bem como a implantação de políticas culturais que melhorem o acesso à cultura, aos museus e às suas coleções”. A meta era obter 30 000 respostas de visitantes, através de formulários on-line em computadores instalados nos próprios museus. Realizou-se entre dezembro de 2014 e dezembro de 2015, mas a meta ficou aquém. Mesmo assim, tratou-se de uma amostra significativa, com 13.583 respostas validadas, que deu origem a resultados interessantes. O tratamento de dados e análise de resultados esteve a cargo do Instituto Universitário de Lisboa / ISCTE. A divulgação foi feita há poucos dias pelo coordenador científico do projeto, numa conferência de imprensa no Palácio da Ajuda, com a presença do ministro da Cultura, numa data importante: o Dia Internacional dos Museus, que se comemora em 18 de maio.

Segundo o estudo, no período em que decorreu (com a duração de um ano), estes 14 museus tiveram um total de 1 232 258 visitantes, sendo que 640 804 eram cidadãos provenientes do território nacional e 591 454 eram provenientes de cerca de uma centena de países, o que significa que foram os estrangeiros – 53% – os principais frequentadores destes espaços culturais, ficando os portugueses pelos 47%. Quanto aos primeiros, destaca-se uma maior presença de franceses, como visitantes. Constatou-se, genericamente, como perfil dos visitantes, que: são as mulheres as mais entusiastas na ida aos museus; também as pessoas mais escolarizadas; há uma franja significativa de jovens (a partir dos 15 anos – idade a partir da qual era possível responder). Também indicia haver uma quase total satisfação com o acolhimento dos funcionários dos museus (98%). Fica a ideia que 37% dos inquiridos espera pelos dias em que há gratuitidade na entrada para efetuar a visita (uma possibilidade a não descurar por quem tem dificuldade em deixar de lado uns euros para investir em cultura) e, entre outros, ficam indicadores de insatisfação para correção, quanto a: divulgação nas redes socias e páginas web; informação sobre visitas guiadas; mais uns quantos aspetos que, ao serem corrigidos, podem contribuir para melhorar o grau de satisfação do visitante e contribuir para a fidelização em museus de proximidade, os quais vão disponibilizando exposições temporárias.

Pegando na ideia do citado filme, e porque hoje é oficialmente a “Noite dos Museus”, existe um variado leque de opções por todo o território nacional.
Certamente haverá um museu por perto… Que tal aproveitar para sair e experienciar uns momentos agradáveis e diferentes, como forma de quebrar a rotina? Quem resiste a este “cheirinho”?
- Bragança – Museu Abade de Baçal – 22h00: “Imagens e Sons no Museu” (concerto de banda de música, com animação e luzes);
- Faro – Museu Municipal de Faro – 21h30 e 23h00: “O Saco do Homem do Saque” (divertida encenação sobre os ataques das tropas inglesas há 420 anos);
- Guimarães – Museu de Alberto Sampaio – 21h30: “Assim Nasceu Guimarães” (viagem no tempo, através do teatrinho de sombras, entre outros programas);
- Lisboa – Museu da Água – das 18h00 às 23h00: “Os Fantasmas do Loreto” (visita na galeria subterrânea e animação histórica);
- Porto – Museu Nacional de Soares dos Reis – 21h30: “Um Olhar Sonoro Único – venha escutar pinturas e esculturas” (interpretação de vários tipos de gaitas de fole, acompanhado de outros instrumentos);
- Vila Real – Museu de Arqueologia e Numismática de Vila Real – das 15h00 às 18h00: “Memória Sustentável – Concerto e Documentário” (cantares e melodias dos grupos etnográficos da região, nas ruas, a partir do Museu da Cidade Velha);
- Viseu – Museu Nacional Grão Vasco – 21h00: “Banda Sinfónica do Exército” (concerto para comemorar o centenário do museu)
(…)
Como seria exaustivo descrever tão significativo número de eventos, incluindo os que se realizam em museus municipais e regionais, numa clara adesão a esta iniciativa em 2016, pode ler-se a programação geral na agenda do site da DGPC e aqui fica o respetivo link para consulta:
 Se não já não for a tempo de ir hoje à noite… nesta noite especial, há que visitar um museu num outro dia, pois são fonte de cultura e têm um fascínio irresistível.


© Jorge Nuno (2016)

Crónica saída hoje na BIRD Magazine, em que há "Noite nos Museus". 

07/05/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (34) - Crónica: "Para Cá do Marão"

PARA CÁ DO MARÃO

O dito popular “Para lá do Marão, mandam os que lá estão” [na ótica de quem vive no litoral] poderá ter alimentado a ideia generalizada – e o ego de alguns transmontanos – com toda a carga simbológica que representa, que devido ao seu isolamento de longos séculos, com difíceis acessos, isso remetia-os para uma sensação de poder e de “independência”, sendo implícita a rejeição do poder centralizado da muito afastada capital do país. E foi esse poder centralizado que, por demasiado tempo, pareceu desconhecer a realidade e as necessidades “para lá do Marão”, agudizando o fosso entre o litoral e esta região do interior.

Em boa hora, em plena monarquia, nos anos de 1885 e 1886, o ministro Emídio Navarro, com a tutela das pastas das Obras Públicas, Comércio e Indústria, deu indicações para se avançar “com o estudo de todas os caminhos de ferro de via estreita na zona de Trás-os-Montes”, que viria a dar origem, anos mais tarde, às linhas do Douro, Tâmega, Corgo, Tua e Sabor. Foram obras gigantescas, em termos de esforço orçamental, para um país muito debilitado economicamente. Mas também é certo que foram obras que vieram facilitar a vida às populações próximas de tais vias e desenvolver a região e o próprio país, já que permitia o escoamento de variados produtos, com incidência nos produtos agrícolas e nos provenientes da extração mineira e florestal. Nos anos oitenta, do século passado, tudo se desmoronou, por opção política e desinvestimento neste tipo de infraestruturas, levando a novo retrocesso e a algum marasmo, aqui e ali com algumas iniciativas autárquicas pontuais dignas de registo, já em plena democracia, como que a querer reavivar a ideia do citado dito popular.

Foi este território apelidado de “Reino Maravilhoso”, pela mão e genialidade de Miguel Torga, que referiu nos seus escritos “(…) De repente, rasga a crosta de silêncio uma voz de franqueza desembainhada: Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... [claro, na ótica de um transmontano] Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós? Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico porque o nume invisível ordena: - Entre!
A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.”

Hoje, precisamente neste sábado, é inaugurada uma importante obra que fura, durante cerca de seis quilómetros, o “oceano megalítico”. Eu chamar-lhe-ia “encrespado e tortuoso oceano megalítico”, ao centrar a atenção na conhecida Estrada Nacional 15, quando tinha necessidade de a percorrer, acompanhando aquele serpentear na Serra do Marão. É certo que vai perder a importância estratégica que deteve durante imensos anos, e que deixarei de ver, lá bem no alto, aquela panorâmica inesquecível de cortar a respiração. Apesar das derrapagens orçamentais, das peripécias que levaram à suspensão das obras e a que tivessem uma duração final de sete anos…  também é certo que, a partir de domingo, o Túnel do Marão passa a ter um importante papel na aproximação entre o litoral e o interior transmontano, mesmo com a decisão das portagens definidas por quem está “para lá do Marão” [na ótica de um transmontano].

Acredito que, com este túnel, não fará mais sentido continuar-se a debater e a rebater: “Para lá…” ou “Para cá do Marão (…)!”

Outra coisa também acredito: quando atravessar o túnel no sentido Porto – Vila Real, irei lembrar-me sempre que estou a entrar no Reino Maravilhoso! E pensar como Torga: “Esta terra é a própria generosidade ao natural. Como um paraíso, basta estender a mão”.

© Jorge Nuno (2016)

Obs.: Crónica saída na BIRD Magazine, em dia de inauguração do Túnel do Marão