15/08/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (41): Crónica - Atletas Olímpicos, Paralímpicos e Trapaças



ATLETAS OLÍMPICOS, PARALÍMPICOS E TRAPAÇAS



Em plenos Jogos Olímpicos (JO), antecipo algo que me toca profundamente: os Jogos Paralímpicos (JP)! Num dos cartazes dos JP pode ler-se a seguinte mensagem: “Atletas paralímpicos: A pista é igual, a dedicação é igual. O objetivo é igual. Enfim, é tudo igual”.

Entendo que este Jogos “especiais” são o expoente máximo para pessoas com deficiência, seja física ou mental, já que são a oportunidade de uma vida. Tento imaginar o seu forte empenhamento pessoal, ao longo de anos, na prática de uma modalidade desportiva, para a qual terão talento e muita paixão, sempre com a esperança de conseguirem essa oportunidade. Tento imaginar o estupendo trabalho dos seus mentores e equipas de apoio, para os fazer sentir pessoas completas, apesar das suas deficiências. Tento imaginar os sonhos que irão carregar nas malas e que mantêm “vivos” estes atletas “especiais”. Tento imaginar a sua felicidade e dos seus familiares quando, em nome de Portugal (ou de outro país natal), recebem as merecidas medalhas.



Portugal participa regularmente nos JP desde 1984, embora a primeira participação seja de 1972. A cada quatro anos, a seguir aos JO, os atletas paralímpicos portugueses superam todas as expetativas, pois tem sido corrente conquistarem uma medalha por cada três atletas. Bem se pode afirmar que “estamos na elite do desporto para pessoas com deficiência”. No site do Comité Paralímpico de Portugal, além de apreciar o bom gosto da capa, que refere a frase “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva”, fica-se a saber que participámos em 9 JP, com 264 atletas e já conquistámos 25 medalhas de ouro, 31 de prata e 25 de bronze. Fica-se também a saber que a distribuição das medalhas obtidas nas várias modalidades é a seguinte: 51 no atletismo; 24 no boccia; 9 na natação; 2 no ciclismo; 1 no futebol e 1 no ténis de mesa.



Ao fazer esta referência elogiosa à entrega e feitos desportivos dos atletas portugueses, portadores de deficiência, é evidente que a mesma será extensiva aos atletas de todo o mundo, nas mesmas circunstâncias e em igualdade de oportunidades. Daí estranhar, até certo ponto, que o Comité Paralímpico Russo (CPR) tivesse sido suspenso dos JO do Rio 2016, provisoriamente e como solução radical, pelo Comité Paralímpico Internacional (IPC), com base no Relatório McLaren. Este relatório foi elaborado por uma comissão independente da Agência Mundial Antidoping (WADA) e revela a existência de “doping organizado” na Federação Russa. O canadiano Richard Mclaren, responsável do relatório, refere o seguinte: “O Estado russo, através do ministério dos Desportos e contando com a assistência da polícia secreta (FSB) organizou, entre finais de agosto de 2011 e agosto de 2015, pelo menos um sistema que pode designar-se como metodologia de positivos que desaparecem para proteger os desportistas submetidos ao doping organizado”, fazendo constar que terão desaparecido 35 amostras no desporto paralímpico entre os anos mencionados. Deste modo, os atletas paralímpicos russos (na totalidade) ficam impedidos de participar nestes JP, que se realizam entre 7 e 18 de setembro de 2016.

 Tento imaginar como aqueles atletas se sentirão agora, ao ver cair por terra a possibilidade de participação. Ainda mais ao saberem que Philip Craven, responsável do IPC, terá referido que “esta situação não tem a ver com atletas trapaceiros, mas de um sistema estatal que trapaceia”.

Entretanto, o presidente do CPR, Vladimir Lukin, não concorda com a decisão, que considera “desumana” e “injusta” [para os atletas] e disse que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS). Ficaremos a aguardar a decisão do TAS…



O cientista Ronald Evans, a desenvolver atividade no Gene Expression – Laboratory Genetics, nos EUA, afirmou que há medicamentos específicos [leia-se “drogas legais”], que “melhoram a circulação sanguínea, melhoram o oxigénio nos músculos, logo, melhoram a performance”, para rematar: “se não forem proibidos, os atletas usam-nos”.  

Uma das substâncias, considerada agora dopante, que viria a ser proibida a partir de 1 de janeiro de 2016, é o Meldonium, que viria a original um controlo positivo e o afastamento da tenista russa Maria Sharapova, impedindo-a de participar nestes JO. Curioso, no mínimo, é o facto do cientista Ivars Kalvins – licenciado pela Faculdade de Química da Universidade da Letónia, membro da Academia de Ciências da Letónia e inventor do referido “medicamento” – ter assegurado, em abril de 2016, que “os atletas masculinos tomaram a substância, não como potenciador desportivo, mas para melhorar o seu desempenho sexual”. Um estudo científico publicado pelo Centro Nacional para Informação Biotecnológica (NCBI) revela que o Meldonium provoca o “aumento da resistência dos atletas, o melhoramento na recuperação após os treinos e funciona como um anti-stress, melhorando ainda as ativações do sistema nervoso”.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou a uma estação de televisão russa, já depois de rebentar o escândalo, que este produto “não é uma substância dopante”, mas apenas “mantém em boa forma o músculo cardíaco, quando este é submetido a grandes esforços”.

Apetece dizer: mas se este ”medicamento” tem vindo a ser comercializado no mercado negro… certamente, não será apenas para fins medicinais!



Como seria fácil de prever, nestes JO não há tréguas, com tanta suspeição e acusação, relacionadas com doping. É o caso na modalidade de natação, com a nadadora russa, Yulia Efimova. Esta, tem antecedentes de doping, esteve inicialmente suspensa dos JO Rio 2016 e depois viu admitida a sua participação. Ao subir ao pódio para receber a medalha de prata, foi vaiada pelo público e, depois, criticada por vários atletas da modalidade, com destaque para a vencedora da final de 100 m bruços – a americana Lilly King – que referiu: “As pessoas que foram apanhadas com doping não deviam fazer parte dos Jogos”; e algo semelhante disse o mítico nadador Michael Phelps (que já ganhou 25 medalhas, sendo 21 de ouro).

Também o nadador chinês, Sun Yang, foi verbalmente atacado por um coro de protestos, após ter ganho a medalha de ouro nos 200 m livres e prata nos 400 m livres, de que é exemplo a frase do nadador francês, Camille Lacourt: “Enoja-me ver aldrabões no pódio”.



Outro caso preocupante – e que ainda vai dar muito que falar – centra-se na modalidade de ginástica artística e na estratégia usada para que atletas mantenham altura e peso baixíssimos para a idade. É disso que a China é acusada: forçar para que atletas não tenham um crescimento normal. Pegando apenas em 4 exemplos, com indicação do nome, idade, altura e peso de ginastas chinesas que obtiveram a medalha de bronze, por equipas: Wang Chunsong – 20 anos, 1,40 m e 35 kg; Wang Yan – 16 anos, 1,40 m e 33 kg; Tan Jiaxin – 19 anos, 1,48 m e 36 kg; Yilin Fan – 16 anos, 1,48, 37 kg.

Para ajudar a entender, registo a pesquisa feita pela Escola de Educação de Educação Física e Esportes, da Universidade de São Paulo, tendo como elemento de estudo 51 ginastas, ex-atletas de alto rendimento e respetivos familiares. O estudo revelou que “a grande maioria alcançou ou superou o potencial de estatura esperado”. O investigador, Raul Alves Ferreira Filho – que preparou a dissertação de mestrado sobre esta matéria e foi técnico de ginastas durante 15 anos – disse não haver “ligação entre a modalidade e problemas de crescimento. O que acontece é que as ginastas que são mais baixas por uma caraterística própria apresentam um biótipo mais favorável à execução dos movimentos (…) um físico de menor porte atende melhor às exigências da biomecânica para fazer alavanca e vencer a inércia.

A China, sabendo disso, tudo fará para manter a estatura das atletas, mesmo que seja contranatura, e assim conseguir lugares no pódio.



Trapaça atrás de trapaça, vaias quando soa o hino na hora de receber medalhas, acérrimas críticas aos prevaricadores por adversários, estratégias governamentais prejudiciais à saúde e ao desenvolvimento harmonioso do atleta… 



Atletas paralímpicos, ainda vão a tempo. Falta menos de um mês. Mostrem a vossa garra e a grandeza de competir de forma limpa. Está na hora de dar o exemplo e fazer acreditar no espírito olímpico!



© Jorge Nuno (2016)



  Obs.: Crónica publicada no sábado passado, dia 13-08-2016, na BIRD Magazine.



 











30/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (40): Crónica "Resultados Desportivos Brilhantes, em Ano Olímpico"

RESULTADOS DESPORTIVOS BRILHANTES, EM ANO OLÍMPICO 

A uma semana do início do Jogos Olímpicos (J.O.), a realizar no Rio de Janeiro, somos confrontados com boas notícias, relacionadas com prestações de alto nível por atletas portugueses, em várias modalidades. Num curto espaço de tempo, independentemente de os portugueses serem ou não apreciadores de desporto, viveu-se no país grandes momentos de “orgulho nacional”. 

No topo, por se tratar do “desporto-rei”, o feito da seleção nacional de futebol (AA), ao sagrar-se campeã da Europa. Foi uma final emotiva, tendo como adversária a França – que jogava em casa –, com Éderzito no papel de herói improvável (que reconheço… eu próprio ficava “angustiado” sempre que via a sua convocatória e via o selecionador metê-lo em campo, mesmo que fosse a poucos minutos do fim do jogo). Igual título, conseguiu-o a seleção nacional de futebol sub-17, em maio passado, frente à Espanha. Portugal, no desporto universitário, representado em futebol pela Universidade do Minho, também é campeão europeu, ao vencer a Alemanha. 

A seleção nacional de futebol de praia conquistou, na Sérvia, a taça europeia, ao derrotar a Itália, na final, por 6-3. O título de campeão da Europa também assentou bem na seleção nacional de hóquei em patins, que saiu vitoriosa em todas as partidas, e ganhou a final, frente à seleção da Itália, por um expressivo 6-2, após estar a perder, ao intervalo, por 0-2. Sara Moreira, sagrou-se campeã da Europa da meia-maratona, com Jéssica Augusto a trazer a medalha de bronze e Portugal, coletivamente, a vencer a taça da Europa de atletismo. Patrícia Mamona é campeã europeia na prova de triplo salto. Fernando Pimenta, em K1 (canoagem), sagrou-se campeão da Europa nas provas de K1 1000 e K1 5000 (metros). Tsanko Arnaudov, nascido na Bulgária e a viver em Portugal desde os 12 anos, conquistou prata na taça da Europa de lançamento, prova realizada na Roménia. Ainda no desporto universitário, a nível europeu, a equipa da Universidade de Coimbra é campeã de ténis feminino; Ana Madureira, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro é vice-campeã em Karaté Kumite – 50 kg feminino; a Universidade Nova de Lisboa é vice-campeã em rugby de sete masculina, e as Universidades do Porto e do Minho obtiveram bronze, respetivamente em rugby de sete feminino e em andebol masculino. 

A nível mundial, também foram conquistados títulos por atletas portugueses. Tiago Ferreira venceu o campeonato do mundo de maratona BTT (XCM). Os irmãos Diogo e Pedro Costa sagraram-se campeões do mundo na classe 420 (vela). Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes, participaram nos mundiais de canoagem, em Moscovo, e são agora vice-campeões do mundo de K4 1000. Na taça do mundo de canoagem, realizada em Montemor-o-Velho, ficaram 7 medalhas em Portugal, em que Emanuel Silva e João Ribeiro obtiveram ouro, em K1 1000. Maria Inês Pereira Ferreira, com apenas 12 anos, participou no campeonato World Jump Rope, em França, e arrecadou 11 medalhas, uma delas de ouro, outra de prata e seis de bronze. 

Penitencio-me se me esqueci de referir algum atleta ou título, mas se aconteceu foi, naturalmente, um ato involuntário. Mesmo assim, os muitos títulos descritos reportam a 2016 – o que não deixa de ser surpreendente para um país pequeno em tamanho, mas grande na demonstração da vontade de vencer – e ainda o ano vai a pouco mais de meio! Temos aí à porta os J.O. e, com esta onda de confiança e positividade, tudo aponta para que a delegação portuguesa tenha uma prestação muito digna e conquiste mais umas quantas medalhas. 

Desde sempre que sinto um enorme fascínio pelo J.O., a ponto de, ainda jovem, ter iniciado duas coleções, uma de filatelia temática e outra de maximafilia (1), ambas com a temática do Olimpismo. Fui ao baú… e na “Introdução” pode ler-se: “A caraterística mais importante das Olimpíadas antigas, que se realizavam na Grécia, era a trégua sagrada: não se permitia a ninguém pegar em armas, suspendiam-se todas as disputas e não se executava ninguém durante a celebração dos Jogos. Esse ideal grego não era praticar desporto, mas adestrar-se e aperfeiçoar-se física e militarmente. Após a interrupção de 1503 anos o ideal olímpico foi retomado, obviamente noutros moldes, pela iniciativa e esforços de Pierre de Coubertin (2), que conseguiu que os primeiros J.O. da Era Moderna se realizassem em Atenas, no ano de 1896, apesar do delegado grego ter sugerido o ano de 1900, devido à Grécia estar à beira da bancarrota”. Pierre de Coubertin, em 1925, viria a demitir-se de presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) ao ver (re)introduzidas provas desportivas de que não era partidário, como hóquei, futebol e polo, e todas as provas femininas, que rejeitava, pois era apologista, tal como nas Olimpíadas antigas, que só os homens poderiam participar. 

“(…) A ideia olímpica pretende a aproximação das nações, assentando a paz universal numa base sólida. Essa paz, no decorrer dos Jogos, foi por vezes ensombrada [pela guerra, atos terroristas, boicotes…] e alguns deles não se realizaram com a periodicidade prevista, mas há que acreditar que a juventude de todos os países, através do Olimpismo, está pronta a estender as mãos fraternalmente”. 

Escrevi também na “Introdução” das referidas coleções: “O desporto converteu-se num elemento essencial da cultura humana, um fator de saúde individual e coletiva, de tal significado, que o dinamismo e as virtudes de um povo podem ser avaliados, com exatidão surpreendente, pelo êxito dos seus atletas nas competições internacionais”. Três décadas depois, estava bem longe de sonhar que haveria graves problemas de credibilidade com a grande Rússia, que ganhou, em casa e no ano de 2014, o maior número de medalhas nos J.O. de inverno, em Sochi. É que a Agência Mundial Antidopagem (AMA) referiu, no relatório que foi entregue ao COI, que o “Governo russo dirigiu um programa de dopagem no desporto, com apoio estatal, com participação ativa do ministro do Desporto e dos Serviços Secretos”. Esse relatório demolidor, levou o COI a suspender esta potência desportiva das competições olímpicas, para depois retroceder na decisão de punir sumariamente todos os atletas, mesmo perante 68 recursos rejeitados pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), referente a atletas russos. Com a decisão final remetida para as Federações Internacionais das várias modalidades, o ideal olímpico ficará desvirtuado. E já vai em mais de 100 atletas russos afastados dos J.O. no Rio! Ainda que um atleta russo vença uma competição, com verdade desportiva, ficará sempre a pairar no ar a suspeição de possível dopagem. 

Mesmo perante feitos gloriosos, por cá… nem tudo são rosas! O selecionador Rui Jorge, que tem feito um excelente trabalho à frente da seleção nacional de futebol sub-21, e também responsável pela seleção olímpica, tendo jogadores portugueses de classe superior para formar uma seleção, levá-la ao Rio de Janeiro e fazer um brilharete… referiu em conferência de imprensa o “surreal” de quase não conseguir formar uma equipa. Terá feito 35 convocatórias e apenas conseguiu 11 jogadores! A causa? Como ele próprio mencionou: “por nega de alguns clubes”. Escolheu, posteriormente, mais 8 jogadores que também foram negados. Pois é… esquecemo-nos que a cedência de jogadores, pelos respetivos clubes, para o EURO 2016, valeu aos clubes uma “renda” diária de 6500 euros por jogador (3). A título exemplificativo, isto faz com que o Sporting Clube de Portugal (que foi o maior fornecedor de jogadores para a seleção nacional) venha a receber, da UEFA, cerca de 1,1 milhões de euros pela utilização de Rui Patrício, William Carvalho, Adrien Silva e João Mário! Pois é… esquecemo-nos quão devem ser “amadores” os atletas olímpicos e que as Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), que por vezes denotam grande amadorismo, agora porque não faturam diretamente com essa cedência (já que os J.O. saem da alçada da FIFA) é-lhes fácil dizer “não”, sem qualquer consequência. Nem sequer repararam que deixam fugir esta “montra” para valorização do passe dos seus atletas, nem se importam que a representação olímpica de futebol, neste país de craques de futebol, não passe da mediania. 

Mas para a história ficam as 23 medalhas olímpicas obtidas pelos respetivos atletas, em representação de Portugal. – 4 medalhas de ouro: Carlos Lopes, maratona (Los Angeles, 1984); Rosa Mota, maratona (Seul, 1988); Fernanda Ribeiro, atletismo – 10.000 m (Atlanta, 1996); Nelson Évora, triplo-salto (Pequim, 2008); – 8 medalhas de prata: irmãos Duarte e Fernando Bello, vela – classe swallow, (Londres, 1948); irmãos Mário e José Quina, vela – classe star (Roma, 1960); Carlos Lopes, atletismo – 10.000 m e Armando Marques, tiro – fosso olímpico (Montreal, 1976); Francis Obikwelu, atletismo – 100 m e Sérgio Paulinho, ciclismo – linha em estrada (Atenas, 2004); Vanessa Fernandes, triatlo – individual (Pequim, 2008); Fernando Pimenta e Emanuel Silva, canoagem – K2 1000 m (Londres, 2012); – 11 medalhas de bronze: Aníbal Almeida, Hélder Martins, José Mouzinho de Albuquerque e Luís Cardoso Menezes, equestre – prémio das nações (Paris, 1924); Paulo d’Eça Leal, Mário de Noronha, Jorge Paiva, Frederico Paredes, João Sasseti e Henrique Silveira, esgrima – espada por equipas (Amesterdão, 1928); Luís Mena da Silva, Domingos Coutinho e José Beltrão, equestre – prémio das nações (Berlim, 1936); Fernando Paes, Francisco Valadas, Luís Mena Silva, equestre – ensino por equipas (Londres, 1948); Joaquim Fiúza e Francisco Andrade, vela – classe star (Helsínquia, 1952); Rosa Mota, maratona e António Leitão, atletismo – 5.000 m (Los Angeles, 1984); Hugo Rocha e Nuno Barreto, vela – classe 470 (Atlanta, 1996); Fernanda Ribeiro, atletismo – 10.000 m e Nuno Delgado, judo – 81 kg (Sydney, 2000); Rui Silva, atletismo – 1.500 m (Atenas, 2004). 

Honra e glória aos vencedores, no uso da verdade desportiva! 

Observações:
1 - Maximafilia – colecionismo de postais máximos, a que corresponde um cartão postal, selo postal e carimbo filatélico, com condordância dentro do mesmo tema, juntando na mesma peça a filatelia, a cartografia e a marcofilia. 
2 - Pierre de Coubertin – barão, nascido em Paris em 1863, pedagogo do desporto, tendo morrido arruinado ao ter dedicado a sua vida e a sua fortuna à causa do desporto. 
3 - Valor que resulta de um memorando de entendimento entre a UEFA e a Associação dos Clubes Europeus, válido para o EURO 2016. 

(A minha crónica n.º 40, saída nesta data na BIRD Magazine)

© Jorge Nuno (2016)

16/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (39) - Crónica: "Dia do Ser Humano"

DIA DO SER HUMANO

Quando chega o chamado Dia Internacional da Mulher, ano após ano, vai-se ouvindo dizer, por ignorância, convictamente de forma sentida, ou em tom de brincadeira: “Também devia haver o Dia do Homem!”. Pois bem, foi mesmo instituído o Dia Internacional do Homem, com o apoio da ONU, devendo-se, tal facto, a vários grupos de defesa dos direitos masculinos que quatro continentes. É comemorado, em mais de 70 países, desde 1999, no dia 19 de novembro. No entanto, o Brasil já se tinha antecipado em 1992 e continua a comemorá-lo no dia 15 de julho, sendo, estranhamente, uma iniciativa da Ordem Nacional dos Escritores. Como alguns dos objetivos principais desta comemoração, pretende-se:
– promover modelos masculinos positivos (onde se incluam “homens do dia-a-dia cujas vidas são decentes e honestas”);
– comemorar as contribuições masculinas positivas para a sociedade, comunidade, família, casamento, guarda de crianças e meio ambiente;
– concentrar sobre a saúde do homem e seu bem-estar social, emocional, físico e espiritual;
(…)
– criar um mundo melhor onde as pessoas possam sentir-se seguras e crescer para alcançar o seu potencial.

 Um dos co-fundadores do Dia do Homem no Brasil – Edson Marques – pretendia mesmo que se alterasse o nome para “Dia+Noite do Homem Livre”. Sem querer desvirtuar a ideia, o título parece insinuar que o proponente provavelmente quereria, ao menos uma vez por ano, que houvesse uma festa do tipo “despedida de solteiro”.

Após o surgimento da instituição do Dia do Homem, logo apareceram textos caricatos, embora com verdades (na ótica do homem heterossexual) e algum humor, como seja:
“Ser homem é:
– ter de reparar na roupa nova dela e ter de ouvi-la dizer que está sem roupa, quando o problema é onde colocar novos armários para colocar mais roupa;
– ter de ignorar completamente que ela está com um pouco de celulite ou jamais dizer que ela engordou, mesmo que isso reflita a verdade;
 – ter de reparar que ela cortou o cabelo, mesmo que seja só 1 cm;
(…)”
Como homem, e apenas com a finalidade de desenvolver a ironia criativa, acrescento mais umas achas nesta fogueira, que parece sem fim:
– ter de reparar que ela mudou a tinta do cabelo de Imédia Excellence Fashion Paris 2.160 Preto Couro para Imédia Excellence Fashion Paris 1.101 Preto Alta Costura;
– ter de reparar que ela mudou as unhas de gel de cor azul marinho+turquesa, para nail art azul geométrica, já que na anterior muda não reparou que as tinha em tom azul com glitter.

No seguimento da criação do Dia do Orgulho Gay, também um vereador, da prefeitura de São Paulo (Brasil), propôs e foi aprovada a criação do Dia do Orgulho Hétero. Segundo o próprio, teria a pretensão de contribuir para conceder os mesmos direitos que os grupos homossexuais conquistaram aos heterossexuais. Poucos dias depois, o prefeito de São Paulo disse que iria vetar a criação do Dia do Orgulho Hétero, já que para ele este projeto era desprovido de sentido, pois “o heterossexual é maioria, não é vítima de violência, não sofre descriminação, preconceito, ameaças ou constrangimentos”.

Em contraste com a opinião do prefeito de São Paulo (Brasil), o atual ministro-adjunto no governo português – Eduardo Cabrita – em afirmações recentes, mencionou o Relatório Anual de Segurança Interna 2015, que aponta para que haja em Portugal “cerca de 15% de homens vítimas de violência doméstica” e anunciou que irá ser criada (como projeto-piloto) a primeira casa abrigo para homens, com capacidade para 10 vítimas. Obs.: Atualmente há, em Portugal, 37 casas abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica, a viver em situação precária e a precisar de apoios diversos; prevê-se a inauguração de mais 3, a curto prazo; algumas dessas casas destinam-se, exclusivamente, a acolher mães solteiras, grávidas e mulheres separadas com filhos.

Nestes tempos conturbados, de confusão, com tanta “capelinha”, tanta violência e falta de elevação, se se sente necessidade de criar, manter e comemorar um Dia especial, como forma de chamar a atenção para algo, então poderá estar na hora de criar sinergias e deixar cair o Dia do Homem, da Mulher (incluindo a Africana), da Criança, do Orgulho Gay, do Orgulho Hétero, da Consciência Negra, do Deficiente (seja Mental, Físico, Visual, Auditivo…), do Doente (seja de Alzheimer, com AVC, Coronário, Renal…), do Atleta (seja Profissional, Olímpico, Paralímpico…), do Escritor (…). Em substituição destes múltiplos “Dias de Qualquer Coisa Relacionados Com o Ser Humano” proponho que se crie, simplesmente, o Dia do Ser Humano (enquanto existir motivo para tal)!

Tudo será mais fácil se cada ser humano tiver uma maior predisposição para aceitar as diferenças, sejam elas de sexo, raciais, de crenças…, pelo que deixará de haver necessidade de se gastar energias em lutas contra discriminações ou estereótipos criados ao longo dos tempos e que assimilámos. O caso mais flagrante: Homem e Mulher representam as diferenças que se completam. O Dia do Ser Humano até poderia adoptar como intenção única: “criar um mundo melhor onde as pessoas possam sentir-se seguras e crescer para alcançar o seu potencial [com condições para dizer SIM ao seu coração]”. Bastaria que mudássemos só um pouquinho a nossa postura e o planeta Terra pareceria outro, bem melhor. Mas isso implica transformações pessoais, onde entram palavras e atos como Simplicidade, Cooperação, Amor.

A humanidade está perante fortes desafios e até as palavras acabadas de citar parecem desprovidas de sentido, perante mais um ato de barbárie no sul de França, que originou 84 mortos, em dia que se comemorava a Igualdade, Fraternidade e Liberdade, ou do uso da força militar na Turquia – um grande país, de enorme importância estratégica, que tem o segundo maior exército da NATO e forte ligação ao Ocidente – para que, com o golpe de estado, pudesse destituir o governo e o presidente Erdogan, que para uns é acusado (suavemente) de exercer uma democracia “musculada”, para outros – os militares revoltosos, opositores e povo curdo –, Erdogan “impôs um regime autoritário de medo”, sendo que, pelos relatos que nos chegam, esta tentativa de golpe de estado já se traduz em mais de 200 mortos, entre militares e civis, e a prisão de cerca de 1500 militares.

© Jorge Nuno (2016)

  Obs.: Crónica saída hoje na BIRD Magazine (da UTAD)   


02/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (38): Crónica: "Verão Agridoce"



VERÃO AGRIDOCE

A entrada no verão convida a alguma leveza de espírito. Tal, é fácil de constatar, pois torna-se visível na forma descontraída com que se faz:

– um passeio pela areia molhada, descalço, à beira-mar, enquanto se saboreia o sol, o cântico das ondas e a brisa fresca de manhã, e dá para relembrar a frase de Salvador Dali: “A cada manhã que acordo experimento novamente um prazer supremo – o da existência”, fazendo crer que só estes momentos matinais valerão pelo dia todo, tal a energia recebida, em sentimento de gratidão;

– uma nova e simples caminhada pelo campo, livre de fardos e complexos, sem rumo bem definido, em fim de tarde, quando os estorninhos regressam em bando compacto à zona urbana, saciados de insetos, vermes, frutos, sementes e bagas. E como é agradável vê-los descontraídos, confiantes, sem preocupação quanto a quem os guia e o que origina aquela estranha dança no céu, a fazer lembrar a coreografia da “ola mexicana” nos estádios de futebol. Nós, sozinhos ou em pequeno grupo, durante a marcha livre, em contacto com a natureza, experienciamos momentos de evasão e libertação, aproximando-nos da frase atribuída a Arten, citada por Gary Renard em O Universo Desaparecerá: “Não se libertará até perceber que é você próprio que forja as correntes que o amarram”;

– uma amena cavaqueira, à noite, numa qualquer esplanada, sem hora marcada, mas com tempo para os familiares e amigos. Mesmo que por breves instantes, é nestas alturas que nos sentimos amplamente sintonizados com a ideia manifestada na frase atribuída a Antoine de Saint-Exupéry: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante”.



Depois de um ano de correria desenfreada, fica-se com a sensação que estamos num novo ciclo e que, nesta época, os relógios trabalham a um ritmo mais lento, como se as pilhas que o sustentam estivessem a finar. Até os especialistas de marketing, conhecedores do fenómeno, aproveitam para lançar, nos panfletos publicitários que são colocados na caixa do correio, a imagem que agora é “tempo para relaxar”. Sem dúvida, no verão parece que temos mais tempo para nós próprios e para a nossa “rosa”, dando mais sentido à vida – onde cabe familiares e amigos.



É precisamente na esplanada, engalanada para as festas dos Santos Populares e para o Campeonato da Europa de Futebol, com o ligar da televisão que tudo se desmorona. Não, não foi a seleção portuguesa que perdeu. É que em vez da sintonia de um dos habituais canais desportivos (os tais que fazem as maçadoras antevisões aos jogos, as sucessivas transmissões diferidas e em direto, com um ou outro jogo interessante e emotivo, particularmente os que mostram a caminhada heroica da “nossa” seleção, adocicando temporariamente a vida dos portugueses), eis que surge um canal informativo. Com ele, mesmo que olhando esporadicamente, apercebemo-nos: de mais imagens do atentado na zona internacional do aeroporto de Istambul, em tudo semelhante ao que aconteceu recentemente em Bruxelas; do anunciado ataque, no Iraque, às forças do autoproclamado Estado Islâmico, como sendo o mais feroz e mais destrutivo de todos; do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, a levantar o dedo “ameaçador” e a dizer que Portugal poderá estar à beira de um novo resgate, agora com consequências mais gravosas; do representante do FMI para Portugal a ironizar com a redução para as 35 horas semanais no setor do Estado, e a insistir que a solução passa pelo estafado receituário das reformas que levem à redução dos salários e das pensões; a “peixeirada” no Parlamento Europeu, relacionada com o referendo no Reino Unido, que levará à sua saída da União Europeia (U. E.), como se em democracia os povos não fossem soberanos de tomar as decisões que acham adequadas; da agência de notação financeira, Standard & Poor’s, cortar o rating depois do Brexit; do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, ser o primeiro a opor-se à ideia, apresentada pela primeira-ministra da Escócia, de aquele país do Reino Unido vir a manter-se na U. E., deixando transparecer que estava receoso que isso pudesse influenciar os movimentos independentistas da Catalunha e do País Basco.



Por momentos fechei os olhos, alheei-me de tudo, incluindo a companhia agradável e, mentalmente, retive os atos terroristas, considerando-os, como tal, também a coação e chantagem exercidas sobre um povo e um governo, sejam eles quais forem. Sem me preocupar em querer saber por quê, abandonei o meu “bando” e voei solitariamente até Qumran, zona árida da Cisjordânia, junto ao Mar Morto. Há uns anos, tinha ficado fascinado com a descrição da comunidade de Essénios que ali viveu, alguns séculos antes de Cristo. As escavações arqueológicas e os textos encontrados [“Manuscritos do Mar Morto”, que ficaram com tradução integral em 2002], ajudam a compreender este povo. Tinha fixado que o termo “essénio” talvez tenha origem na Síria e que, em aramaico, significará “piedoso”. Porque vivam em comunidade, sem propriedade privada, poderá querer dizer “união de piedosos”. Era um povo vegetariano, alimentando-se de fruta e legumes; tinha um enorme cuidado com a higiene pessoal, particularmente antes das refeições; usava a água para purificação espiritual; as refeições ocorriam em pleno silêncio; acreditava e exercia curas pelas mãos, e também utilizava ervas medicinais e argila para a cura de maleitas; como povo asceta, esforçava-se por cumprir as “leis de Deus” na sua forma mais pura, em contacto com a natureza, e acreditava que “as forças do bem triunfarão” [sobre as forças do mal].



  Abro os olhos e imagino a televisão na sala de jantar a intoxicar a refeição, o ambiente e as relações, tal como tinha acabado de prejudicar alguns momentos de estadia na esplanada.  Imagino os Essénios nos dias de hoje. Imagino o paraíso na Terra, em Qumran, há mais de dois mil anos. Imagino o inferno na Terra, agora, naquelas terras áridas dos países vizinhos, no médio oriente. Observo como o fluxo migratório, proveniente daquela zona, levou ao “Sim” e à saída do Reino Unido da U. E. Observo as imposições de estados-membros (mesmo sem negociações) para o Reino Unido ter acesso ao Mercado Comum. Observo a incapacidade dos eurodeputados em compreender a necessidade de refletir sobre o caminho que está a ser seguido, assobiando para o lado quanto à Europa a várias velocidades e a caminho de se desintegrar, se não for encontrado o rumo certo…



Dizia Martin Luther King Jr.: “O arco do Universo é longo, mas curva-se na direção da justiça”. Confiante, coloco-me ao seu lado e dos Essénios. Pode demorar, mas a clarividência e a abertura a novas ideias levará as “forças do bem” a triunfar.



© Jorge Nuno (2016)

Crónica publicada hoje na BIRD Magazine (da UTAD)

18/06/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (37) - Crónica: "Loucos da Bola II"

LOUCOS DA BOLA II

Se é certo que as mudanças climáticas originaram atraso no desenvolvimento e colheita das cerejas, fazendo com que em época de Santos Populares ainda não as tenha provado, também é certo que os melões verdes vieram mais cedo. Foi ao findar a época futebolística, em meados de maio, com o verde a dissipar-se e a esboroar-se a esperança de sagrar-se campeão na última jornada. E também alguma polémica e dúvidas com melancias, que têm o verde por fora, mas são vermelhas por dentro. Recentemente, chegou uma nova remessa de melões, vinda de um país impensável – a Islândia. A fazer fé no slogan: “Não somos 11. Somos 11 milhões”, logo corrigido para “15 milhões” (com alguma irritação) pelo secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro. É que ele entende ser esse o número de apoiantes à selecção nacional de futebol, com inclusão dos emigrantes portugueses, daí que a remessa teve mesmo que ser imensa e obrigar a uma ponte aérea. 

Depois de tanto se falar em “fruta” e em “vouchers”, ao virar do ano, rapidamente se passou a comentar os proveitos futuros da SAD dos “três grandes”, com os meganegócios que estes anunciaram na CMVM, num atropelo de declarações dos respetivos dirigentes. Qualquer deles queria mostrar que o seu clube fez o melhor negócio de todos. Tratava-se da cedência dos direitos televisivos e multimédia, além da publicidade nos estádios e equipamentos. Os encaixes financeiros apregoados seriam de: 400 milhões de euros (M€) a médio prazo + 8 M€ de publicidade nos equipamentos por época, isto para o SLB; 457,5 M€ para o FCP e 515 M€ para o SCP. Passados três meses, ficou a saber-se, pela comunicação social generalista e desportiva, que os “três grandes” detêm 90% do passivo de todos os clubes dos dois maiores escalões do futebol profissional português, passivo esse que será de cerca de 727 M€. Um jornal económico precisava que, no final de 2015, o passivo dos “três grandes” era de 982,8 M€, pertencendo 44% ao SLB, o que vem confirmar que o tricampeão também é o campeão da dívida. Apesar de estes clubes terem baixado o passivo e reforçado o capital próprio, estes clubes ficaram mais expostos à vontade e interesses de terceiros. E se houvesse apertada vigilância do fair-play financeiro, por parte da UEFA, porventura a trapalhada ainda seria maior na próxima época. Mas a própria UEFA está sob fogo, com as declarações do ex-presidente da FIFA, Joseph Blatter, que diz ter testemunhado haver “sorteios fraudulentos” em provas da UEFA, utilizando “bolas quentes e bolas frias”, com colocação de algumas no frigorífico, antes do sorteio. 

Enquanto não rola a bola, a trapalhada persiste por cá. É a subida administrativa do Gil Vicente, após o tribunal ter demorado 10 anos para tomar uma decisão, mas com a direção da Liga a adiar a subida ao escalão superior; o pedido de impugnação da classificação da Liga NOS, feito pelo União da Madeira e a possível troca na descida com o histórico Vitória de Setúbal, por suposta utilização indevida de jogador; a esperada ida do Paços de Ferreira à Liga Europa, por troca com o Rio Ave (que nada tem a ver com o caso); a falta de regulamentação para que uma equipa acompanhe (ou não) o Gil Vicente, de modo a que o número de equipas seja par. A tudo isto, ainda se juntariam fortes penalizações, de consequências imprevisíveis, para todos os que não cumprem o citado fair-play. Os relatórios semestrais, que foram entregues na CMVM, indiciam haver motivos para muita preocupação. No início da época desportiva 2015/2106, o SLB tinha 212 M€ em empréstimos bancários, 45 M€ em empréstimos obrigacionistas e 50 M€ em emissões de papel comercial. Em época de defeso, os dirigentes têm bem com que se entreter! Mais do que pensar em reforços, ver-se-ão obrigados a vender ativos, que é como quem diz: “as jóias da coroa”. Numa visão otimista – e sem fazer fé nas palavras do presidente do SCP, que diz ter rejeitado a oferta de 80 milhões por um jogador, no mercado de janeiro –, certamente todos esperam que o passe dos jogadores se valorize ainda mais, com a participação nas várias selecções de futebol, que representam, apesar do valor exorbitante das cláusulas de rescisão já existentes. Apenas três exemplos: João Mário (SCP) – 60 M€; Imbula (FCP) – 50 M€; Lindelöf (SLB) – 45 M€.

Conhecendo a influência das seleções junto dos adeptos, também as marcas desportivas ficaram “loucas da bola”, ao procurarem impor-se no mercado. Das 24 seleções a disputar o EURO 2016 em França, a Adidas veste nove, a Nike seis, a Puma cinco, seguindo-se a Joma, Umbro, Macron e Errea, que equipam uma selecção cada. A Nike tem um contrato com a selecção portuguesa até 2108, no valor de mais de 28 M€, que permitiu investir na “Cidade do Futebol” em Oeiras, no futebol feminino e camadas jovens. Estima-se que a mesma marca pague ao nosso CR7 19 M€ por ano, que contribui para que seja o desportista mais bem pago no mundo (apesar de no Real Madrid vestir equipamento Adidas). A mesma Adidas tem contratos de muitos milhões com vários craques, indo, a título de exemplo, um bolo de 11 M€ para dividir pelos bolsos dos jogadores Pogba (Juventus), Bale (Real Madrid), e Ozil (Arsenal).

Logo que se ouviu falar que a selecção portuguesa gastaria € 16.000 por dia, em terras gaulesas, durante a presença no EURO 2106, surgiram as habituais críticas, quanto ao esbanjar de dinheiro. Mas só a presença no EURO vale à nossa selecção 8 M€; cada vitória na fase de grupos vale 1 M€; a passagem aos oitavos de final vale 1,5 M€; aos quartos 2,5 M€; às meias 4 M€; se for finalista vencido vale 5 M€; se for vencedor da prova arrecada 8 M€ e um total recorde de 27 M€. Segundo um estudo do IPAM, essa vitória final poderá ter um impacto económico em Portugal estimado em 609 M€, quando a UEFA espera gerar receitas de 500 M€, número recorde e superior em 200 M€ relativamente às receitas de há 4 anos.

Entretanto, por cá, uma fábrica de Vizela – a 4-Teams –, especializada em cachecóis desportivos, tem a exclusividade para o fabrico dos cachecóis das 24 seleções presentes no EURO. A laborar dia e noite, com o produto a preço de loja entre os 10 e 25 euros, dá para perceber porque esta empresa é líder mundial de vendas neste tipo de adereços, esperando faturar 4,5 M€ com esta prova.

Por lá, nas cidades de Marselha e Lille, voltou a sentir-se o efeito do hooliganismo, com o envolvimento de claques organizadas (e bem treinadas), demonstrando que o futebol é apenas um pretexto para praticarem atos de violência. Tendo a organização do EURO orçamentado 14 M€ para segurança, ela devia ser garantida ao primeiro sintoma. É frustrante saber que a UEFA apressou-se a desqualificar a Rússia, com pena suspensa, caso se viessem a verificar novos incidentes nos estádios, ficando-se pela aplicação de uma penalização de € 150.000. Sabe-se que a UEFA não tem jurisdição fora dos mesmos. Mas também se sabe que Vitaly Mutko, é o atual presidente da Federação de Futebol da Rússia, acumulando os cargos de ministro do Desporto, Turismo e Juventude e o de presidente do Comité Organizador do Campeonato do Mundo, que se realiza na Rússia, em 2018. É frustrante saber que a UEFA era conhecedora do fenómeno com claques na Rússia, com adeptos organizados, violentos e conotados com a extrema-direita e, juntamente com a organização do EURO, não inviabilizasse a sua vinda até França, numa altura em que este país está em convulsão, pela insegurança originada por atos de terrorismo, e ainda fica mais fragilizado. É frustrante saber que a UEFA sabe ser forte com os fracos, e vacila perante os fortes. Foi mesmo confrangedor saber que Igor Lebedev, membro da Federação de Futebol da Rússia e vice-presidente do Parlamento russo, terá manifestado apoio aos adeptos russos envolvidos nos atos de violência, a pretexto da “honra do país”, escrevendo no twitter: “Parabéns aos nossos rapazes! Continuem!”, num claro incentivo à violência em país alheio.

Para acabar, poderia parecer divertido mencionar, nesta já longa crónica, o facto do seleccionador alemão, Joachim Löw, ter sido filmado, no jogo de estreia do EURO, enquanto estava entretido com as suas “bolas”, mas o futebol é uma indústria e outros valores falam mais alto, que pelos números aqui relatados só me apetece dizer: “Não matem o Futebol!”

© Jorge Nuno (2016)
Obs.: Crónica saída hoje, 16-06-2016, na BIRD Magazine