24/09/2016

CÓNICAS DO FIM DO MUNDO (44) - Crónica: "O Passaporte Biológico"

O PASSAPORTE BIOLÓGICO

Há muito poucos anos, a Agência Mundial Antidopagem (AMA) viu necessidade de criar o passaporte biológico, como estratégia, para lutar contra a dopagem no âmbito desportivo e concretizou esta ideia inovadora. Trata-se de um documento electrónico individual, no qual “são registados todos os resultados dos controlos antidoping que forem efetuados” ao atleta, o que faz com que contenha vários indicadores importantes e permite traçar o perfil hematológico e o perfil dos esteróides, entre outros.

Começou com um projeto-piloto desenvolvido pela União Ciclista Internacional (UCI) já que esta modalidade é uma das que mais requer esforço físico, por parte dos atletas e deve estar mais sujeita a controlo. Se repararmos bem, é praticada a horas pouco recomendáveis, na maior parte das vezes com calor excessivo, em distâncias longas, durante muitas horas por dia e muitos dias seguidos; daí ser expectável a ocorrência frequente de casos de doping, como se veio a confirmar. Nele, viram-se envolvidas algumas figuras de proa do ciclismo mundial – de que é exemplo Lance Armstrong, considerado [por muitos] o maior ciclista de todos os tempos, que acabaria por ser banido do ciclismo, passando de herói a vilão –.

Rapidamente passou do ciclismo para outras modalidades, em variadíssimos países. Em Portugal já haverá 363 atletas com passaporte biológico em meia dúzia de modalidades, como: canoagem, remo, natação, atletismo, triatlo e, claro, ciclismo. A Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) já confirmou, recentemente, através do seu presidente – Rogério Jóia – que passará a haver o passaporte biológico no futebol nacional, tendo referido que “o número de controlos totais e também específicos para esta ferramenta no combate ao doping aumentaram”, o que terá contribuído para fazer subir significativamente, em 2015, o número de casos de positivos face a período homólogo. Segundo palavras de Rogério Jóia, a própria UEFA entendeu que havia necessidade de o estender ao futebol, pois “não seria ético o futebol não estar inserido no passaporte biológico, até pelo seu mediatismo e poder económico”. Deste modo, não é de estranhar o facto de, p.e., Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Braga, já terem visto jogadores seus a ser alvo deste tipo de controlo para se dar início à introdução do referido passaporte. Também o modo de atuar foi alterado; agora aADoP faz as colheitas de urina e sangue nas competições, e não fora delas. No futebol profissional, está a acontecer com a regularidade de dois jogos por jornada na I Liga e de um jogo na II Liga.

Pode ser difícil de entender o afastamento dos atletas paralímpicos da Federação Russa (FR) aos jogos do Rio 2016, mas quando se tratou de factos comprovados, de forma superiormente organizada, não se podia esperar outra atitude do Comité Paralímpico Internacional (CPI). A FR ainda recorreu, mas o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) indeferiu-o e manteve a decisão de banir toda a comitiva russa.

Imaginemo-nos no lugar de um atleta paralímpico [com qualquer tipo de deficiência] e que treina afincadamente durante quatro anos para conseguir um lugar na comitiva presente nesta competição maior, sem ter cometido nenhum ilícito, e que se vê relegado para posições inferiores na competição, ao ter adversários que usam de meios ilegais, que lhes conferem mais resistência.

Ainda há homens com carácter, como no caso do Comité Paralímpico da Austrália, ao suspenderem preventivamente, por doping, um seu ciclista – bicampeão paralímpico de perseguição individual (para atletas amputados) – e que lhe poderia dar mais uma medalha.

Também o CPI está atento, e aperta o cerco, aos casos de boosting, estratégia que aumenta artificialmente o rendimento dos atletas, com o aumento da pressão arterial e chegada de mais oxigénio aos músculos. É algo difícil de detetar e, ainda mais, em se saber se a prática é intencional. Estranhamente, é usada pela via da autoflagelação e prática de tortura, e comum entre atletas em cadeiras de rodas, entre outros. As consequências desta prática são nefastas para a saúde dos atletas, dando origem a acidente vascular cerebral (AVC) e até à morte.

Há poucos dias chegou a delegação portuguesa, vinda dos Jogos Paralímpicos Rio 2916, evento em que foram vendidos dois milhões de bilhetes e teve vasta cobertura televisiva. Dos 37 atletas portugueses presentes, quatro trouxeram medalhas de bronze e 25 ganharam diplomas paralímpicos, ao ficarem entre os oito melhores do mundo, nas suas modalidades. São atletas que merecem ser acarinhados, e merecem que sejam criadas condições para terem um estatuto idêntico aos olímpicos, com treino como atletas de alta competição. Como todos os outros atletas, também deverão possuir passaporte biológico. Como é bom ver a sua felicidade e a dos seus familiares e amigos, quando chegam ao aeroporto, após o fechar das cortinas da competição! E como cada um se deve sentir bem, ao saborear o mérito dos seus resultados desportivos, fazendo apenas uso da sua coragem, do seu esforço, do seu querer, ajudado pelo empenho, saber e entrega dedicada do seu treinador!

Bem-haja todos aqueles que se entregam devotada e honestamente a algo, como neste caso, trabalhando para que haja verdade desportiva. Gostaria de acreditar que o crime não compensa.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Crónica publicada à presente data na BIRD Magazine (criada na UTAD)

12/09/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (43) - Crónica: "Publicar nos Tempos Atuais?"

PUBLICAR NOS TEMPOS ATUAIS?

Como estreante com um romance – cuja sessão de lançamento ocorreu já 2013 –, pelas experiências anteriores relativas à minha participação em duas dezenas de coletâneas de contos e poesia, como produtor de conteúdos e também pelo meu olhar, como consumidor e como observador atento da realidade do meio literário, onde me vejo envolvido, senti um impulso enorme para escrever algo relacionado com o tema em título. E cá estou… convicto do interesse desta minha reflexão.

Posso congratular-me pelo facto de três editoras terem aceitado publicar o meu primeiro livro a solo, caso que não é muito frequente no panorama atual – em boa verdade, tratava-se de pequenas editoras e uma delas até referiu a dado passo das negociações : “Que garantias me dá? Há que ter algum cuidado nos tempos que correm” –.

Tentando estabelecer paralelos entre editoras, ao nível das condições fixadas para publicação, ouso divulgar o seguinte: numa, mesmo na qualidade de autor, tinha que adquirir 250 livros, noutra 180 livros e noutra um mínimo de 100 livros, com direitos de autor que iriam entre os 3% e 30%, consoante o “risco calculado” (?) ou política da editora, para autores desconhecidos e consoante o número de exemplares adquiridos pelo autor. O meu investimento, como autor, situava-se então entre os 1080 euros e os 2428 euros. É preciso ser-se ousado, ter coragem, acreditar no seu “produto” concebido e ter algum suporte financeiro para despesas deste tipo, em tempos com resquícios de crise, que aos poucos se tem vindo a desvanecer.

Uns meses depois, uma jovem amiga, amante da escrita e particularmente da poesia, que tem um conhecido blogue e que teve tempo de antena (entrevista e reportagem) num programa da manhã, na TV, perguntava qualquer coisa como isto, numa rede social: “Pode-se viver só da escrita?”. Eu, como amigo e como pessoa experiente, que teve que lutar muito na vida para atingir vários patamares de objetivos, aceitei o repto e respondi. Não me lembro bem das palavras que lhe dirigi, mas de uma maneira soft, com poucas palavras, tentei fazê-la descer à terra, sem querer de modo algum destruir os seus sonhos e concluí, incentivando-a a escrever, mas procurando outro suporte para poder viver condignamente.

Decorrido mais uma semana, uma outra minha amiga, poetisa, aposentada, na casa dos 70 anos, que tinha sido incentivada por mim a participar numa coletânea de poesia, quando recebeu a conta antecipada de 60 euros, um mês antes da publicação, disse-me que ia escrever à editora a renunciar, pois não tinha esse dinheiro para pagar pelos três livros, como mínimo exigido.

Cerca de um ano depois do lançamento do meu livro a solo, um meu amigo, poeta, aposentado como professor de Língua Portuguesa, que também tinha sido incentivado por mim a participar numa outra coletânea de poesia, telefonou-me a dizer que tinha acabado de receber uma carta da editora para pagar antecipadamente 100 euro pela aquisição de 10 livros, a que obrigatoriamente se via comprometido. Perguntou-me: “Isto é normal?”, depreendendo, pelo continuar da conversa, a sua pouca convicção da justeza do pagamento a mais de um mês da saída do livro. Como tinha algum poder económico, seguiu em frente. Reconheço-lhe muito talento mas, curiosamente, nunca mais o vi participar em coletâneas.

Por essa ocasião, vi uma notícia na TV que apontava para uma diminuição de vendas no mercado livreiro, relativo ao ano de 2012. Segundo dados da GFK, citada pela estação de televisão, a redução foi da ordem dos 9% e corresponde a cerca de um milhão de livros.

Interessei-me pelo assunto e pesquisei, tendo encontrado na blogosfera uma notícia, publicada em 29 de abril de 2013, em blogtailors.com/tag/estatísticas+e+números, blogue de Booktailors Consultores Editoriais. Referia que as “vendas da Amazon cresceram 22 % no primeiro trimestre daquele ano [2013]. Outra notícia no mesmo espaço, publicada em 16 de abril de 2013, refere que “as vendas digitais ascendem a quase um quarto do mercado editorial norte-americano [via “eBook Portugal”].

Começam a aparecer algumas editoras, com subsidiárias / livrarias virtuais, para comercialização de eBooks. Por exemplo, e sem querer publicitar ou dar visibilidade gratuita, a Wook (do Grupo Porto Editora) que, em 9 de maio de 2016, refere no seu site que é “a maior livraria em Portugal”, tendo “700 mil clientes registados e um catálogo com mais de 8 milhões de livros e eBooks”. Aponta a sua estratégia para a comercialização de eBooks, nomeadamente “uma solução inovadora que vai definir e impulsionar o mercado de eBook em Portugal”. Disponibilizou informação que diz facilitar “a entrada de todas as editoras portuguesas, pequenas, médias ou grandes, na realidade do eBook”, fazendo-o chegar aos leitores o produto pela via digital, “independentemente dos aparelhos e respetivos sistemas operativos”.

Ainda no blogue de Booktailors, numa notícia de 25 de junho de 2015 e com base num estudo feito pela Deloitte, é possível ler: “os jovens entre os 16 e os 24 anos não aderem aos livros electrónicos”, mas também não compram livros em suporte de papel; dos inquiridos “apenas 14% disse ler mais de uma hora por dia”, acrescentando que isto poderá acontecer devido à “ausência de hábitos de leitura dos mais novos”; neste grupo etário, “58% destes jovens passa mais de uma hora a ver televisão”, apesar de 34% ter respondido que “leem mais agora [2015] do que em 2010”.

A solução dos problemas neste setor [na ótica do autor] passará pela edição de autor, devendo o mesmo, posteriormente, arrojar-se na difusão da obra através da Amazon (ou outra similar), como o caso recente de uma jornalista transmontana, a trabalhar numa estação de TV europeia, que tem as suas obras disponíveis neste imenso mercado e que diz que as vendas vão acontecendo regularmente?

Ou passará pelo eBook, em que nós, produtores de conteúdos (com os nossos contos, romances, poesia, ensaios…) nos sentimos tantas vezes impotentes para “ter mais voz ativa”? Será que agora, com a diminuição das vendas dos livros nas livrarias, pessoas como tantas que conheço (de que dei aqui apenas um “cheirinho”) podem finalmente publicar os seus trabalhos e fazer com que um número apreciável de leitores os leiam, a custos relativamente baixos para os leitores e gratificantes e justos para os autores?

Será que vai acontecer às pequenas e médias editoras de livros o mesmo que aconteceu às várias editoras de música, com quase desaparecimento destas e venda da música pela via online? Será a mesma coisa ter livros digitais e não os nossos queridos livros de papel na estante e poder manuseá-los, sempre que nos apetecer? Pelo que se passa com os álbuns das fotografias digitais, abandonando-se os “velhos álbuns” com as fotos em papel… tenho muitas dúvidas! Mas por causa dessas dúvidas… o melhor será ter a ousadia de experimentar, confiante, para acompanhar a evolução dos tempos.

© Jorge Nuno (2106)

27/08/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (42) - Crónica: "Só Faltou Um Bocadinho Assim..."

SÓ FALTOU UM BOCADINHO ASSIM…

Após 19 dias de competição, terminaram os Jogos Olímpicos (JO) no Rio de Janeiro. Estiveram em disputa 42 modalidades, em 306 provas, que valeram 136 medalhas para atletas femininas, 161 para atletas masculinos e 9 para mistos. Neles, estiveram envolvidos os melhores atletas do mundo, de todas as modalidades acreditadas.

Muitas dúvidas pairavam no ar quanto à capacidade organizadora do Brasil num evento desta grandeza – tão só, o maior acontecimento desportivo à face da Terra! Antes da chegada dos atletas à “aldeia olímpica” eram bem visíveis as preocupações relacionadas com a segurança e com as queixas apresentadas por algumas delegações. Houve quem aproveitasse a ocasião mediática do evento para, na cidade de acolhimento, denunciar a insatisfação com políticas internas e com os gastos exagerados com as infraestruturas dos JO. No final dos mesmos, o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) disse ter sido um desafio ganho e deu ênfase ao saldo positivo.   

Reconheço ter vibrado, entusiasticamente, com a cerimónia de abertura, também com algumas modalidades (para referir apenas, a título de exemplo, a espetacularidade e perfeição na natação sincronizada e na ginástica rítmica) e com os feitos desportivos, particularmente, pelos recordes olímpicos e mundiais que foram batidos. Realço modalidades como: ciclismo (sendo aqui, importante o trabalho de cientistas, relacionado com o piso, tecnologias e equipamentos, que redunda numa melhoria da performance e consequente sucesso desportivo, verificado nos 19 recordes olímpicos batidos); atletismo, com recordes nas categorias de 400 m, 3000 m obstáculos, 5000 m e 10000 m; natação, com 24 recordes olímpicos e 7 mundiais, em categorias como 100 m peito, 100 m costas, 800 m e 400 m livre, 100 m borboleta, 400 m medley e 400x100 m livre…

Senti um misto de satisfação e tristeza, por ver uma equipa representativa da autodenominada “Nação de Refugiados”. Satisfação por, em boa hora, o COI ter aceitado a sugestão de dois publicitários brasileiros, a residir nos EUA, de criar esta equipa; haver uma bandeira (ainda não reconhecida oficialmente pelo COI, mas com uma campanha apoiada pela Amnistia Internacional), a qual foi elaborada e proposta pela síria Yara Said (ela própria uma refugiada, a viver na Holanda), sendo cor de laranja o fundo da bandeira, com uma risca horizontal preta, que teve inspiração nos coletes salva-vidas usados por todos aqueles que, em condições de grande fragilidade, veem necessidade de atravessar o Mediterrâneo em busca de segurança na Europa; haver um hino, composto pelo sírio Moutaz Arian (também ele refugiado, a viver na Turquia), que não incluiu uma letra, propositadamente, por entender que a música, ao ser universal, “não precisa de ser traduzida”.
Senti tristeza, por todos os atletas incluídos nesta suposta nação não poderem representar os seus reais países de origem, em paz e nas mesmas condições dos demais atletas olímpicos.
Senti tristeza e preocupação pelo “simples” cruzar de punhos na meta da maratona, gesto feito pelo atleta etíope Feyisa Lilesa, medalha de prata na prova. Viria, de seguida, prestar declarações à imprensa, afirmando tratar-se de um protesto contra a repressão na Etiópia e um “sinal de apoio aos manifestantes do meu país que foram mortos pelo governo”, para completar: “talvez seja morto quando chegar, ou então preso”, deixando escapar [nas entrelinhas] que poderia ser mais um refugiado.

A delegação portuguesa foi a terceira maior de sempre em JO, sendo a maior de sempre no setor feminino. Só o facto de merecer o direito de estar nesta grandiosa competição e representar o país, é uma oportunidade, uma honra e motivo de orgulho, por ser apenas acessível aos melhores. Depois da recente vitória de Portugal no Campeonato da Europa de Futebol, os holofotes e a esperança estava em cerca de uma dezena de atletas portugueses, que têm revelado um alto rendimento nos últimos anos, medalhados em campeonatos europeus e mundiais. Em termos de resultados finais da participação portuguesa no JO, pode afirmar-se que se esperava mais; e pelo seu esforço e dedicação, bem mereciam. Numa das provas de canoagem, mesmo ao meu lado, ouvi o comentário: “Eia… só faltou um bocadinho!”. Naquele momento, intimamente, também foi isso que pensei. Curiosamente, vim a saber que o canoísta João Ribeiro (envolvido na prova) também disse que “faltou um bocadinho”. Na verdade, bastavam poucos milésimos de segundo para uma medalha em K2 1000 m.

José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico Português, assumiu total responsabilidade perante os resultados alcançados, que ficaram “aquém das nossas expetativas”, disse, uma vez que “dos três objetivos [traçados] apenas um foi cumprido”. Já José Garcia, chefe de missão, disse estar “extremamente orgulhoso” com a comitiva portuguesa, liderada por ele, e referiu que “o balanço é positivo”, realçando que esta “foi a melhor prestação de sempre em termos de resultados nos seis primeiros”, com dezanove atletas no “top 10” e dez entre os seis melhores.

O saldo da participação portuguesa, em termos de medalhas, ficou por uma de bronze, obtida pela Telma Monteiro, em judo, categoria de – 57 kg (cerca de cinco meses depois de uma lesão, que obrigou a uma operação ao joelho esquerdo, mostrando que é uma mulher com garra). Também, foram atribuídos dez diplomas olímpicos aos seguintes atletas portugueses: Emanuel Silva e João Ribeiro, 4.º lugar em canoagem / K2 1000 m; Fernando Pimenta, 5.º lugar em canoagem / K1 1000 m; Marcos Freitas, 5.º lugar em ténis de mesa; João Pereira, 5.º lugar em triatlo; equipa composta por Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes, 6.º lugar em k4 1000 m (batendo o recorde nacional); Ana Cabecinha, 6.º lugar em 20 km marcha; seleção olímpica de futebol; Patrícia Mamona, 6.º lugar em triplo salto (com recorde nacional, apesar de se sentir prejudicada pela excitação no estádio, com a atuação simultânea do velocista jamaicano Usain Bolt), e Nelson Évora, 6.º lugar em triplo salto (apesar das várias lesões que teve, desde 2012, uma delas com gravidade, que faz deste atleta um exemplo de tenacidade perante a adversidade); Nelson Oliveira, 7.º lugar em ciclismo /contrarrelógio. 

Como bom compatriota e amante do desporto, cheguei a pensar na alegria coletiva se retirasse 29,5 segundos à minha esperança de vida, e os pudesse transferir para benefício da performance de um reduzido número de nossos atletas olímpicos, nas modalidades de canoagem, triatlo e 20 km marcha. Bastaria meio segundo da minha vida para a prova de Emanuel Silva e João Ribeiro; dois segundos para a de Fernando Pimenta; sete segundos, para a prova da nossa equipa de k4; nove segundos para a de João Pereira; e onze segundos para a de Ana Cabecinha. A ser assim, hoje estaríamos profunda e egoisticamente orgulhosos dos nossos atletas, por ver Portugal subir no ranking das medalhas olímpicas. O saudoso professor Moniz Pereira, seguramente, seria um deles, ainda mais se o atletismo se destacasse.

Acredito que os atletas para obterem alta performance necessitam de talento, paixão pela modalidade, apoios e muito… muito treino. Com um pouco mais de apoio oficial, os nossos atletas terão estes ingredientes. Parece que “só faltou um bocadinho assim…”, mas da minha parte só posso dizer: Parabéns, atletas olímpicos!

© Jorge Nuno (2016)

Obs.: Crónica saída hoje na BIRD Magazine (criada na UTAD)

25/08/2016

Fogo Sentido

FOGO SENTIDO

Quero deitar roupa velha no fogo
Ver aquelas chamas transfiguradas,
Incandescentes brasas acossadas,
Estranhas sombras com quem dialogo…

Quero lançar as cinzas fumegadas
Às imponentes estrelas, a quem rogo
Ardentes respostas, quando interrogo
Sobre a paz e vidas iluminadas.

Sem distorção da minha identidade…
Como projeção de mero holograma,
Surge em mim, imagem da fé de um povo.

Num sentido retorno à claridade
Tal como bálsamo que se derrama…
Vejo emergir do velho, um homem novo.


© Jorge Nuno (2016)

15/08/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (41): Crónica - Atletas Olímpicos, Paralímpicos e Trapaças



ATLETAS OLÍMPICOS, PARALÍMPICOS E TRAPAÇAS



Em plenos Jogos Olímpicos (JO), antecipo algo que me toca profundamente: os Jogos Paralímpicos (JP)! Num dos cartazes dos JP pode ler-se a seguinte mensagem: “Atletas paralímpicos: A pista é igual, a dedicação é igual. O objetivo é igual. Enfim, é tudo igual”.

Entendo que este Jogos “especiais” são o expoente máximo para pessoas com deficiência, seja física ou mental, já que são a oportunidade de uma vida. Tento imaginar o seu forte empenhamento pessoal, ao longo de anos, na prática de uma modalidade desportiva, para a qual terão talento e muita paixão, sempre com a esperança de conseguirem essa oportunidade. Tento imaginar o estupendo trabalho dos seus mentores e equipas de apoio, para os fazer sentir pessoas completas, apesar das suas deficiências. Tento imaginar os sonhos que irão carregar nas malas e que mantêm “vivos” estes atletas “especiais”. Tento imaginar a sua felicidade e dos seus familiares quando, em nome de Portugal (ou de outro país natal), recebem as merecidas medalhas.



Portugal participa regularmente nos JP desde 1984, embora a primeira participação seja de 1972. A cada quatro anos, a seguir aos JO, os atletas paralímpicos portugueses superam todas as expetativas, pois tem sido corrente conquistarem uma medalha por cada três atletas. Bem se pode afirmar que “estamos na elite do desporto para pessoas com deficiência”. No site do Comité Paralímpico de Portugal, além de apreciar o bom gosto da capa, que refere a frase “Igualdade, Inclusão e Excelência Desportiva”, fica-se a saber que participámos em 9 JP, com 264 atletas e já conquistámos 25 medalhas de ouro, 31 de prata e 25 de bronze. Fica-se também a saber que a distribuição das medalhas obtidas nas várias modalidades é a seguinte: 51 no atletismo; 24 no boccia; 9 na natação; 2 no ciclismo; 1 no futebol e 1 no ténis de mesa.



Ao fazer esta referência elogiosa à entrega e feitos desportivos dos atletas portugueses, portadores de deficiência, é evidente que a mesma será extensiva aos atletas de todo o mundo, nas mesmas circunstâncias e em igualdade de oportunidades. Daí estranhar, até certo ponto, que o Comité Paralímpico Russo (CPR) tivesse sido suspenso dos JO do Rio 2016, provisoriamente e como solução radical, pelo Comité Paralímpico Internacional (IPC), com base no Relatório McLaren. Este relatório foi elaborado por uma comissão independente da Agência Mundial Antidoping (WADA) e revela a existência de “doping organizado” na Federação Russa. O canadiano Richard Mclaren, responsável do relatório, refere o seguinte: “O Estado russo, através do ministério dos Desportos e contando com a assistência da polícia secreta (FSB) organizou, entre finais de agosto de 2011 e agosto de 2015, pelo menos um sistema que pode designar-se como metodologia de positivos que desaparecem para proteger os desportistas submetidos ao doping organizado”, fazendo constar que terão desaparecido 35 amostras no desporto paralímpico entre os anos mencionados. Deste modo, os atletas paralímpicos russos (na totalidade) ficam impedidos de participar nestes JP, que se realizam entre 7 e 18 de setembro de 2016.

 Tento imaginar como aqueles atletas se sentirão agora, ao ver cair por terra a possibilidade de participação. Ainda mais ao saberem que Philip Craven, responsável do IPC, terá referido que “esta situação não tem a ver com atletas trapaceiros, mas de um sistema estatal que trapaceia”.

Entretanto, o presidente do CPR, Vladimir Lukin, não concorda com a decisão, que considera “desumana” e “injusta” [para os atletas] e disse que vai recorrer para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS). Ficaremos a aguardar a decisão do TAS…



O cientista Ronald Evans, a desenvolver atividade no Gene Expression – Laboratory Genetics, nos EUA, afirmou que há medicamentos específicos [leia-se “drogas legais”], que “melhoram a circulação sanguínea, melhoram o oxigénio nos músculos, logo, melhoram a performance”, para rematar: “se não forem proibidos, os atletas usam-nos”.  

Uma das substâncias, considerada agora dopante, que viria a ser proibida a partir de 1 de janeiro de 2016, é o Meldonium, que viria a original um controlo positivo e o afastamento da tenista russa Maria Sharapova, impedindo-a de participar nestes JO. Curioso, no mínimo, é o facto do cientista Ivars Kalvins – licenciado pela Faculdade de Química da Universidade da Letónia, membro da Academia de Ciências da Letónia e inventor do referido “medicamento” – ter assegurado, em abril de 2016, que “os atletas masculinos tomaram a substância, não como potenciador desportivo, mas para melhorar o seu desempenho sexual”. Um estudo científico publicado pelo Centro Nacional para Informação Biotecnológica (NCBI) revela que o Meldonium provoca o “aumento da resistência dos atletas, o melhoramento na recuperação após os treinos e funciona como um anti-stress, melhorando ainda as ativações do sistema nervoso”.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou a uma estação de televisão russa, já depois de rebentar o escândalo, que este produto “não é uma substância dopante”, mas apenas “mantém em boa forma o músculo cardíaco, quando este é submetido a grandes esforços”.

Apetece dizer: mas se este ”medicamento” tem vindo a ser comercializado no mercado negro… certamente, não será apenas para fins medicinais!



Como seria fácil de prever, nestes JO não há tréguas, com tanta suspeição e acusação, relacionadas com doping. É o caso na modalidade de natação, com a nadadora russa, Yulia Efimova. Esta, tem antecedentes de doping, esteve inicialmente suspensa dos JO Rio 2016 e depois viu admitida a sua participação. Ao subir ao pódio para receber a medalha de prata, foi vaiada pelo público e, depois, criticada por vários atletas da modalidade, com destaque para a vencedora da final de 100 m bruços – a americana Lilly King – que referiu: “As pessoas que foram apanhadas com doping não deviam fazer parte dos Jogos”; e algo semelhante disse o mítico nadador Michael Phelps (que já ganhou 25 medalhas, sendo 21 de ouro).

Também o nadador chinês, Sun Yang, foi verbalmente atacado por um coro de protestos, após ter ganho a medalha de ouro nos 200 m livres e prata nos 400 m livres, de que é exemplo a frase do nadador francês, Camille Lacourt: “Enoja-me ver aldrabões no pódio”.



Outro caso preocupante – e que ainda vai dar muito que falar – centra-se na modalidade de ginástica artística e na estratégia usada para que atletas mantenham altura e peso baixíssimos para a idade. É disso que a China é acusada: forçar para que atletas não tenham um crescimento normal. Pegando apenas em 4 exemplos, com indicação do nome, idade, altura e peso de ginastas chinesas que obtiveram a medalha de bronze, por equipas: Wang Chunsong – 20 anos, 1,40 m e 35 kg; Wang Yan – 16 anos, 1,40 m e 33 kg; Tan Jiaxin – 19 anos, 1,48 m e 36 kg; Yilin Fan – 16 anos, 1,48, 37 kg.

Para ajudar a entender, registo a pesquisa feita pela Escola de Educação de Educação Física e Esportes, da Universidade de São Paulo, tendo como elemento de estudo 51 ginastas, ex-atletas de alto rendimento e respetivos familiares. O estudo revelou que “a grande maioria alcançou ou superou o potencial de estatura esperado”. O investigador, Raul Alves Ferreira Filho – que preparou a dissertação de mestrado sobre esta matéria e foi técnico de ginastas durante 15 anos – disse não haver “ligação entre a modalidade e problemas de crescimento. O que acontece é que as ginastas que são mais baixas por uma caraterística própria apresentam um biótipo mais favorável à execução dos movimentos (…) um físico de menor porte atende melhor às exigências da biomecânica para fazer alavanca e vencer a inércia.

A China, sabendo disso, tudo fará para manter a estatura das atletas, mesmo que seja contranatura, e assim conseguir lugares no pódio.



Trapaça atrás de trapaça, vaias quando soa o hino na hora de receber medalhas, acérrimas críticas aos prevaricadores por adversários, estratégias governamentais prejudiciais à saúde e ao desenvolvimento harmonioso do atleta… 



Atletas paralímpicos, ainda vão a tempo. Falta menos de um mês. Mostrem a vossa garra e a grandeza de competir de forma limpa. Está na hora de dar o exemplo e fazer acreditar no espírito olímpico!



© Jorge Nuno (2016)



  Obs.: Crónica publicada no sábado passado, dia 13-08-2016, na BIRD Magazine.



 











30/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (40): Crónica "Resultados Desportivos Brilhantes, em Ano Olímpico"

RESULTADOS DESPORTIVOS BRILHANTES, EM ANO OLÍMPICO 

A uma semana do início do Jogos Olímpicos (J.O.), a realizar no Rio de Janeiro, somos confrontados com boas notícias, relacionadas com prestações de alto nível por atletas portugueses, em várias modalidades. Num curto espaço de tempo, independentemente de os portugueses serem ou não apreciadores de desporto, viveu-se no país grandes momentos de “orgulho nacional”. 

No topo, por se tratar do “desporto-rei”, o feito da seleção nacional de futebol (AA), ao sagrar-se campeã da Europa. Foi uma final emotiva, tendo como adversária a França – que jogava em casa –, com Éderzito no papel de herói improvável (que reconheço… eu próprio ficava “angustiado” sempre que via a sua convocatória e via o selecionador metê-lo em campo, mesmo que fosse a poucos minutos do fim do jogo). Igual título, conseguiu-o a seleção nacional de futebol sub-17, em maio passado, frente à Espanha. Portugal, no desporto universitário, representado em futebol pela Universidade do Minho, também é campeão europeu, ao vencer a Alemanha. 

A seleção nacional de futebol de praia conquistou, na Sérvia, a taça europeia, ao derrotar a Itália, na final, por 6-3. O título de campeão da Europa também assentou bem na seleção nacional de hóquei em patins, que saiu vitoriosa em todas as partidas, e ganhou a final, frente à seleção da Itália, por um expressivo 6-2, após estar a perder, ao intervalo, por 0-2. Sara Moreira, sagrou-se campeã da Europa da meia-maratona, com Jéssica Augusto a trazer a medalha de bronze e Portugal, coletivamente, a vencer a taça da Europa de atletismo. Patrícia Mamona é campeã europeia na prova de triplo salto. Fernando Pimenta, em K1 (canoagem), sagrou-se campeão da Europa nas provas de K1 1000 e K1 5000 (metros). Tsanko Arnaudov, nascido na Bulgária e a viver em Portugal desde os 12 anos, conquistou prata na taça da Europa de lançamento, prova realizada na Roménia. Ainda no desporto universitário, a nível europeu, a equipa da Universidade de Coimbra é campeã de ténis feminino; Ana Madureira, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro é vice-campeã em Karaté Kumite – 50 kg feminino; a Universidade Nova de Lisboa é vice-campeã em rugby de sete masculina, e as Universidades do Porto e do Minho obtiveram bronze, respetivamente em rugby de sete feminino e em andebol masculino. 

A nível mundial, também foram conquistados títulos por atletas portugueses. Tiago Ferreira venceu o campeonato do mundo de maratona BTT (XCM). Os irmãos Diogo e Pedro Costa sagraram-se campeões do mundo na classe 420 (vela). Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes, participaram nos mundiais de canoagem, em Moscovo, e são agora vice-campeões do mundo de K4 1000. Na taça do mundo de canoagem, realizada em Montemor-o-Velho, ficaram 7 medalhas em Portugal, em que Emanuel Silva e João Ribeiro obtiveram ouro, em K1 1000. Maria Inês Pereira Ferreira, com apenas 12 anos, participou no campeonato World Jump Rope, em França, e arrecadou 11 medalhas, uma delas de ouro, outra de prata e seis de bronze. 

Penitencio-me se me esqueci de referir algum atleta ou título, mas se aconteceu foi, naturalmente, um ato involuntário. Mesmo assim, os muitos títulos descritos reportam a 2016 – o que não deixa de ser surpreendente para um país pequeno em tamanho, mas grande na demonstração da vontade de vencer – e ainda o ano vai a pouco mais de meio! Temos aí à porta os J.O. e, com esta onda de confiança e positividade, tudo aponta para que a delegação portuguesa tenha uma prestação muito digna e conquiste mais umas quantas medalhas. 

Desde sempre que sinto um enorme fascínio pelo J.O., a ponto de, ainda jovem, ter iniciado duas coleções, uma de filatelia temática e outra de maximafilia (1), ambas com a temática do Olimpismo. Fui ao baú… e na “Introdução” pode ler-se: “A caraterística mais importante das Olimpíadas antigas, que se realizavam na Grécia, era a trégua sagrada: não se permitia a ninguém pegar em armas, suspendiam-se todas as disputas e não se executava ninguém durante a celebração dos Jogos. Esse ideal grego não era praticar desporto, mas adestrar-se e aperfeiçoar-se física e militarmente. Após a interrupção de 1503 anos o ideal olímpico foi retomado, obviamente noutros moldes, pela iniciativa e esforços de Pierre de Coubertin (2), que conseguiu que os primeiros J.O. da Era Moderna se realizassem em Atenas, no ano de 1896, apesar do delegado grego ter sugerido o ano de 1900, devido à Grécia estar à beira da bancarrota”. Pierre de Coubertin, em 1925, viria a demitir-se de presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) ao ver (re)introduzidas provas desportivas de que não era partidário, como hóquei, futebol e polo, e todas as provas femininas, que rejeitava, pois era apologista, tal como nas Olimpíadas antigas, que só os homens poderiam participar. 

“(…) A ideia olímpica pretende a aproximação das nações, assentando a paz universal numa base sólida. Essa paz, no decorrer dos Jogos, foi por vezes ensombrada [pela guerra, atos terroristas, boicotes…] e alguns deles não se realizaram com a periodicidade prevista, mas há que acreditar que a juventude de todos os países, através do Olimpismo, está pronta a estender as mãos fraternalmente”. 

Escrevi também na “Introdução” das referidas coleções: “O desporto converteu-se num elemento essencial da cultura humana, um fator de saúde individual e coletiva, de tal significado, que o dinamismo e as virtudes de um povo podem ser avaliados, com exatidão surpreendente, pelo êxito dos seus atletas nas competições internacionais”. Três décadas depois, estava bem longe de sonhar que haveria graves problemas de credibilidade com a grande Rússia, que ganhou, em casa e no ano de 2014, o maior número de medalhas nos J.O. de inverno, em Sochi. É que a Agência Mundial Antidopagem (AMA) referiu, no relatório que foi entregue ao COI, que o “Governo russo dirigiu um programa de dopagem no desporto, com apoio estatal, com participação ativa do ministro do Desporto e dos Serviços Secretos”. Esse relatório demolidor, levou o COI a suspender esta potência desportiva das competições olímpicas, para depois retroceder na decisão de punir sumariamente todos os atletas, mesmo perante 68 recursos rejeitados pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), referente a atletas russos. Com a decisão final remetida para as Federações Internacionais das várias modalidades, o ideal olímpico ficará desvirtuado. E já vai em mais de 100 atletas russos afastados dos J.O. no Rio! Ainda que um atleta russo vença uma competição, com verdade desportiva, ficará sempre a pairar no ar a suspeição de possível dopagem. 

Mesmo perante feitos gloriosos, por cá… nem tudo são rosas! O selecionador Rui Jorge, que tem feito um excelente trabalho à frente da seleção nacional de futebol sub-21, e também responsável pela seleção olímpica, tendo jogadores portugueses de classe superior para formar uma seleção, levá-la ao Rio de Janeiro e fazer um brilharete… referiu em conferência de imprensa o “surreal” de quase não conseguir formar uma equipa. Terá feito 35 convocatórias e apenas conseguiu 11 jogadores! A causa? Como ele próprio mencionou: “por nega de alguns clubes”. Escolheu, posteriormente, mais 8 jogadores que também foram negados. Pois é… esquecemo-nos que a cedência de jogadores, pelos respetivos clubes, para o EURO 2016, valeu aos clubes uma “renda” diária de 6500 euros por jogador (3). A título exemplificativo, isto faz com que o Sporting Clube de Portugal (que foi o maior fornecedor de jogadores para a seleção nacional) venha a receber, da UEFA, cerca de 1,1 milhões de euros pela utilização de Rui Patrício, William Carvalho, Adrien Silva e João Mário! Pois é… esquecemo-nos quão devem ser “amadores” os atletas olímpicos e que as Sociedades Anónimas Desportivas (SAD), que por vezes denotam grande amadorismo, agora porque não faturam diretamente com essa cedência (já que os J.O. saem da alçada da FIFA) é-lhes fácil dizer “não”, sem qualquer consequência. Nem sequer repararam que deixam fugir esta “montra” para valorização do passe dos seus atletas, nem se importam que a representação olímpica de futebol, neste país de craques de futebol, não passe da mediania. 

Mas para a história ficam as 23 medalhas olímpicas obtidas pelos respetivos atletas, em representação de Portugal. – 4 medalhas de ouro: Carlos Lopes, maratona (Los Angeles, 1984); Rosa Mota, maratona (Seul, 1988); Fernanda Ribeiro, atletismo – 10.000 m (Atlanta, 1996); Nelson Évora, triplo-salto (Pequim, 2008); – 8 medalhas de prata: irmãos Duarte e Fernando Bello, vela – classe swallow, (Londres, 1948); irmãos Mário e José Quina, vela – classe star (Roma, 1960); Carlos Lopes, atletismo – 10.000 m e Armando Marques, tiro – fosso olímpico (Montreal, 1976); Francis Obikwelu, atletismo – 100 m e Sérgio Paulinho, ciclismo – linha em estrada (Atenas, 2004); Vanessa Fernandes, triatlo – individual (Pequim, 2008); Fernando Pimenta e Emanuel Silva, canoagem – K2 1000 m (Londres, 2012); – 11 medalhas de bronze: Aníbal Almeida, Hélder Martins, José Mouzinho de Albuquerque e Luís Cardoso Menezes, equestre – prémio das nações (Paris, 1924); Paulo d’Eça Leal, Mário de Noronha, Jorge Paiva, Frederico Paredes, João Sasseti e Henrique Silveira, esgrima – espada por equipas (Amesterdão, 1928); Luís Mena da Silva, Domingos Coutinho e José Beltrão, equestre – prémio das nações (Berlim, 1936); Fernando Paes, Francisco Valadas, Luís Mena Silva, equestre – ensino por equipas (Londres, 1948); Joaquim Fiúza e Francisco Andrade, vela – classe star (Helsínquia, 1952); Rosa Mota, maratona e António Leitão, atletismo – 5.000 m (Los Angeles, 1984); Hugo Rocha e Nuno Barreto, vela – classe 470 (Atlanta, 1996); Fernanda Ribeiro, atletismo – 10.000 m e Nuno Delgado, judo – 81 kg (Sydney, 2000); Rui Silva, atletismo – 1.500 m (Atenas, 2004). 

Honra e glória aos vencedores, no uso da verdade desportiva! 

Observações:
1 - Maximafilia – colecionismo de postais máximos, a que corresponde um cartão postal, selo postal e carimbo filatélico, com condordância dentro do mesmo tema, juntando na mesma peça a filatelia, a cartografia e a marcofilia. 
2 - Pierre de Coubertin – barão, nascido em Paris em 1863, pedagogo do desporto, tendo morrido arruinado ao ter dedicado a sua vida e a sua fortuna à causa do desporto. 
3 - Valor que resulta de um memorando de entendimento entre a UEFA e a Associação dos Clubes Europeus, válido para o EURO 2016. 

(A minha crónica n.º 40, saída nesta data na BIRD Magazine)

© Jorge Nuno (2016)