28/10/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (45) - Crónica: "Acreditar no Bibliomóvel"

ACREDITAR NO BIBLIOMÓVEL

Há poucas semanas fiz um passeio por algumas aldeias raianas do concelho de Bragança. Achei curioso, em pleno século XXI, cruzar-me com duas viaturas pesadas, ambas de caixa tapada com toldo e destinadas ao comércio direto com a população. Uma delas, de matrícula espanhola, vendia fruta e uma outra, de matrícula portuguesa, vendia mercearias, onde não podia faltar o bacalhau, além de outros produtos próprios de uma drogaria. Sei que um pouco abaixo deste concelho, uma cabeleireira usa um furgão que serve de salão de cabeleireiro itinerante. Há outros negócios em curso, de modo a tentar a sua sorte, cujos empreendedores veem os problemas da interioridade e do isolamento das populações como uma oportunidade. Sei da existência da Unidade Móvel de Saúde de Bragança, que foi criada através de uma parceria entre o Município, os Centros de Saúde e a Santa Casa da Misericórdia de Bragança, tendo como finalidade as visitas domiciliárias, prestação de cuidados de enfermagem, acompanhamento de utentes em situação de vulnerabilidade, despiste de situações de risco, vacinação, sessões de esclarecimento, etc.

Lembro-me da distribuição de peixe congelado por todo o país e, claro, de o ver chegar ao interior do país, em furgões preparados para o efeito. Por iniciativa estatal, no final dos anos cinquenta do século passado, foi criada, a empresa SAPP – Serviço de Abastecimento de Peixe ao País, que pretendia introduzir um novo conceito de abastecimento e de alimentação. Foi lançada a campanha “Vamos comprar, congelar e cozinhar peixe congelado”, criando mesmo publicidade através de uns desenhos animados, que passavam na TV a preto e branco, como forma de propagandear o peixe congelado. Foram também elaborados uns livros de banda desenhada com a “Menina Pescadinha”, por forma a abranger as crianças, já que não fazia parte do hábito de consumo nas populações, em qualquer estrato social, e era preciso criar incentivos, com reforço nos mais novos.

Não me esqueço da importância das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian – uns furgões cinzentos da marca Citroën, embora também os houvesse em cor avermelhada (mas que nunca vi) –. Já andava na escola primária quando este projeto nacional foi lançado. Ansiava pela chegada da carrinha e era um leitor assíduo, com o número máximo de livros que era permitido a cada um. Apesar das orientações que o condutor e bibliotecário tentava dar aos leitores mais jovens, eu não as respeitava e fazia as minhas escolhas como se pertencesse ao público adulto. Sei que com 14, 15, 16 anos já lia clássicos da literatura, como: “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski; “Guerra e Paz”, de Leão Tolstoi; “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens; “O Vermelho e o Preto”, de Stendhal; “Os Miseráveis”, de Victor Hugo; “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz [que li durante uma noite]; “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, de Honoré de Balzac; “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, entre muitos outros.

Se o objetivo deste serviço de bibliotecas itinerantes era o de “promover o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço”, não tenho dúvidas da influência deste serviço móvel, e da importância dos muitos autores que li, na minha forma de encarar o mundo, de crescer como pessoa e, mais tarde, ao dedicar-me à escrita. Ficou desde sempre, e para sempre, um enorme gosto pela leitura, pelo que deixo o meu testemunho: comigo o objetivo foi atingido!

Por razões várias, este serviço de bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, viria a ser extinto em 2002. Foram muitas as autarquias a acreditar e  tomarem iniciativa semelhante, que promovesse a leitura e elevasse o nível cultural dos cidadãos (por via da leitura). Para o efeito, renovaram as bibliotecas fixas, tornando-as espaços atrativos, em zonas centrais, de fácil acesso, e criaram as chamadas bibliomóvel, para fazer chegar os livros a zonas mais remotas da sua área jurisdicional. Entre essas autarquias, menciono (por ordem alfabética) as de: Arouca, Aveiro, Coimbra, Loulé, Oliveira de Azeméis, Pombal, Porto de Mós, Proença-a-Nova, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, São Pedro do Sul, Valença. Acredito que poderá haver mais autarquias envolvidas em neste tipo de projeto, mas não tenho problemas em admitir que desconheço.

Em abril de 2016, realizou-se na Universidade de Coimbra uma conferência intitulada “Bibliomóvel no Século XXI. Novos desafios”, a provar que é dada importância ao assunto. Felizmente há gente, com visão, a acreditar no bibliomóvel. Pode mesmo parecer uma coisa do passado, ainda mais por nos situarmos na era das tecnologias. Desengane-se quem pensa que nas zonas raianas, e outras zonas do interior, há livre acesso à internet e até mesmo rede móvel, para uso de um simples telemóvel, pois ou não tem ou é deficiente o sinal recebido. A pretexto do acesso fácil à cultura, por via informática/internet, o fomento da leitura não pode abrandar e tem de prosseguir, para fazer chegar os livros [físicos] às populações desfavorecidas do interior, tal como lá chega, de modo ambulante, a cabeleireira, a enfermeira, o comerciante…

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Crónica publicada na BIRD Magazine (UTAD), em 08-10-2016

01/10/2016

A Viagem

A VIAGEM

“Limita-se uma vida ao seu destino”
como se um passageiro clandestino,
de fardo, nem ousasse caminhar…
“pesada cruz de sombras e canseiras”
por quem comete um chorrilho de asneiras
e, livre, não se deixa condenar.

“As rochas são fantasmas na penumbra”
para quem na vida pouco vislumbra,
mas realce “há sempre na noite escura”…
em que na pura exaltação dos credos
“a madrugada vem despir os medos”
e o teu olhar devolve-me doçura.

“Tremem mãos de comoção no instante”
como se fosse em viagem errante
“onde ao lavrar os sonhos me confundo”.
“ser um menino-velho com ideias”
e partilhar contigo vida a meias
vem dar alento ao meu pequeno mundo.

Pouco importa ver as frases bordadas,
“o vício das palavras relembradas”…
“p’ra mascarar aquilo que pareço”;
ou “se a saudade é roxa ou prateada”,
a minha poesia a ser cantada,
vastos elogios que não mereço…

Quando um dia aquela negra ceifeira
vier rondar para eu ser poeira,
sem negociar uns quaisquer critérios
e não retroceder envergonhada,
nem quiser a viagem adiada…
irei “subir a rampa dos mistérios”.

“Há retalho do mundo à minha espera”,
mais além do que se vê nesta esfera,
“com música astral das noites brancas”.
“um mundo dos espíritos das horas”
que no teu relógio já não ignoras
e tudo irá fluir sem alavancas.

Mas “sei que alguém nos becos da memória”
anotará a verdadeira estória
(mesmo sem ter de a contar às crianças).
Neste longo amor, que eu tanto bendigo,
“sei que o meu coração vai ter contigo”,
ser peregrino de boas lembranças.

Não “esconjuro o feitiço do retorno”
e para obviar todo este transtorno
irei fazer aquilo que apetece…
surgir em qualquer noite de luar,
afável, envolver-me a namorar
“em loucuras de amor que o amor tece”.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Baseado em alguns versos ou ideias extraídas da obra poética de Ulisses Duarte, a quem desta forma presto a minha homenagem. Envolve trabalhos da obra póstuma “Palavras com Distância”, os poemas “A Nau do Tempo”, “O Telefonema”, “O Limite”, o “Conto da Morte Anunciada” e parte da compilação de versos de Ulisses Duarte, feita pelo poeta Albertino Galvão. 

25/09/2016

Impulsos da Alma

IMPULSOS DA ALMA

Num mero estado de ausência da mente,
Sem convergir pensamento e ação,
Planei céus salpicados de evasão
E fluí em trasladada corrente.

À velocidade do meteorito,
Maleável aos impulsos da alma,
Descobri uma verdade que acalma:
A minha morada é o infinito.

Deixei bem longe o saco das querelas
Como a retirar o homem à guerra…
Para tornar as viagens mais belas.

Poderei sentir-me um mortal que erra,
Mas um colaborador das estrelas
Que daqui verá descer Céu à Terra.


© Jorge Nuno (2016)

24/09/2016

CÓNICAS DO FIM DO MUNDO (44) - Crónica: "O Passaporte Biológico"

O PASSAPORTE BIOLÓGICO

Há muito poucos anos, a Agência Mundial Antidopagem (AMA) viu necessidade de criar o passaporte biológico, como estratégia, para lutar contra a dopagem no âmbito desportivo e concretizou esta ideia inovadora. Trata-se de um documento electrónico individual, no qual “são registados todos os resultados dos controlos antidoping que forem efetuados” ao atleta, o que faz com que contenha vários indicadores importantes e permite traçar o perfil hematológico e o perfil dos esteróides, entre outros.

Começou com um projeto-piloto desenvolvido pela União Ciclista Internacional (UCI) já que esta modalidade é uma das que mais requer esforço físico, por parte dos atletas e deve estar mais sujeita a controlo. Se repararmos bem, é praticada a horas pouco recomendáveis, na maior parte das vezes com calor excessivo, em distâncias longas, durante muitas horas por dia e muitos dias seguidos; daí ser expectável a ocorrência frequente de casos de doping, como se veio a confirmar. Nele, viram-se envolvidas algumas figuras de proa do ciclismo mundial – de que é exemplo Lance Armstrong, considerado [por muitos] o maior ciclista de todos os tempos, que acabaria por ser banido do ciclismo, passando de herói a vilão –.

Rapidamente passou do ciclismo para outras modalidades, em variadíssimos países. Em Portugal já haverá 363 atletas com passaporte biológico em meia dúzia de modalidades, como: canoagem, remo, natação, atletismo, triatlo e, claro, ciclismo. A Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) já confirmou, recentemente, através do seu presidente – Rogério Jóia – que passará a haver o passaporte biológico no futebol nacional, tendo referido que “o número de controlos totais e também específicos para esta ferramenta no combate ao doping aumentaram”, o que terá contribuído para fazer subir significativamente, em 2015, o número de casos de positivos face a período homólogo. Segundo palavras de Rogério Jóia, a própria UEFA entendeu que havia necessidade de o estender ao futebol, pois “não seria ético o futebol não estar inserido no passaporte biológico, até pelo seu mediatismo e poder económico”. Deste modo, não é de estranhar o facto de, p.e., Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Braga, já terem visto jogadores seus a ser alvo deste tipo de controlo para se dar início à introdução do referido passaporte. Também o modo de atuar foi alterado; agora aADoP faz as colheitas de urina e sangue nas competições, e não fora delas. No futebol profissional, está a acontecer com a regularidade de dois jogos por jornada na I Liga e de um jogo na II Liga.

Pode ser difícil de entender o afastamento dos atletas paralímpicos da Federação Russa (FR) aos jogos do Rio 2016, mas quando se tratou de factos comprovados, de forma superiormente organizada, não se podia esperar outra atitude do Comité Paralímpico Internacional (CPI). A FR ainda recorreu, mas o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) indeferiu-o e manteve a decisão de banir toda a comitiva russa.

Imaginemo-nos no lugar de um atleta paralímpico [com qualquer tipo de deficiência] e que treina afincadamente durante quatro anos para conseguir um lugar na comitiva presente nesta competição maior, sem ter cometido nenhum ilícito, e que se vê relegado para posições inferiores na competição, ao ter adversários que usam de meios ilegais, que lhes conferem mais resistência.

Ainda há homens com carácter, como no caso do Comité Paralímpico da Austrália, ao suspenderem preventivamente, por doping, um seu ciclista – bicampeão paralímpico de perseguição individual (para atletas amputados) – e que lhe poderia dar mais uma medalha.

Também o CPI está atento, e aperta o cerco, aos casos de boosting, estratégia que aumenta artificialmente o rendimento dos atletas, com o aumento da pressão arterial e chegada de mais oxigénio aos músculos. É algo difícil de detetar e, ainda mais, em se saber se a prática é intencional. Estranhamente, é usada pela via da autoflagelação e prática de tortura, e comum entre atletas em cadeiras de rodas, entre outros. As consequências desta prática são nefastas para a saúde dos atletas, dando origem a acidente vascular cerebral (AVC) e até à morte.

Há poucos dias chegou a delegação portuguesa, vinda dos Jogos Paralímpicos Rio 2916, evento em que foram vendidos dois milhões de bilhetes e teve vasta cobertura televisiva. Dos 37 atletas portugueses presentes, quatro trouxeram medalhas de bronze e 25 ganharam diplomas paralímpicos, ao ficarem entre os oito melhores do mundo, nas suas modalidades. São atletas que merecem ser acarinhados, e merecem que sejam criadas condições para terem um estatuto idêntico aos olímpicos, com treino como atletas de alta competição. Como todos os outros atletas, também deverão possuir passaporte biológico. Como é bom ver a sua felicidade e a dos seus familiares e amigos, quando chegam ao aeroporto, após o fechar das cortinas da competição! E como cada um se deve sentir bem, ao saborear o mérito dos seus resultados desportivos, fazendo apenas uso da sua coragem, do seu esforço, do seu querer, ajudado pelo empenho, saber e entrega dedicada do seu treinador!

Bem-haja todos aqueles que se entregam devotada e honestamente a algo, como neste caso, trabalhando para que haja verdade desportiva. Gostaria de acreditar que o crime não compensa.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Crónica publicada à presente data na BIRD Magazine (criada na UTAD)

12/09/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (43) - Crónica: "Publicar nos Tempos Atuais?"

PUBLICAR NOS TEMPOS ATUAIS?

Como estreante com um romance – cuja sessão de lançamento ocorreu já 2013 –, pelas experiências anteriores relativas à minha participação em duas dezenas de coletâneas de contos e poesia, como produtor de conteúdos e também pelo meu olhar, como consumidor e como observador atento da realidade do meio literário, onde me vejo envolvido, senti um impulso enorme para escrever algo relacionado com o tema em título. E cá estou… convicto do interesse desta minha reflexão.

Posso congratular-me pelo facto de três editoras terem aceitado publicar o meu primeiro livro a solo, caso que não é muito frequente no panorama atual – em boa verdade, tratava-se de pequenas editoras e uma delas até referiu a dado passo das negociações : “Que garantias me dá? Há que ter algum cuidado nos tempos que correm” –.

Tentando estabelecer paralelos entre editoras, ao nível das condições fixadas para publicação, ouso divulgar o seguinte: numa, mesmo na qualidade de autor, tinha que adquirir 250 livros, noutra 180 livros e noutra um mínimo de 100 livros, com direitos de autor que iriam entre os 3% e 30%, consoante o “risco calculado” (?) ou política da editora, para autores desconhecidos e consoante o número de exemplares adquiridos pelo autor. O meu investimento, como autor, situava-se então entre os 1080 euros e os 2428 euros. É preciso ser-se ousado, ter coragem, acreditar no seu “produto” concebido e ter algum suporte financeiro para despesas deste tipo, em tempos com resquícios de crise, que aos poucos se tem vindo a desvanecer.

Uns meses depois, uma jovem amiga, amante da escrita e particularmente da poesia, que tem um conhecido blogue e que teve tempo de antena (entrevista e reportagem) num programa da manhã, na TV, perguntava qualquer coisa como isto, numa rede social: “Pode-se viver só da escrita?”. Eu, como amigo e como pessoa experiente, que teve que lutar muito na vida para atingir vários patamares de objetivos, aceitei o repto e respondi. Não me lembro bem das palavras que lhe dirigi, mas de uma maneira soft, com poucas palavras, tentei fazê-la descer à terra, sem querer de modo algum destruir os seus sonhos e concluí, incentivando-a a escrever, mas procurando outro suporte para poder viver condignamente.

Decorrido mais uma semana, uma outra minha amiga, poetisa, aposentada, na casa dos 70 anos, que tinha sido incentivada por mim a participar numa coletânea de poesia, quando recebeu a conta antecipada de 60 euros, um mês antes da publicação, disse-me que ia escrever à editora a renunciar, pois não tinha esse dinheiro para pagar pelos três livros, como mínimo exigido.

Cerca de um ano depois do lançamento do meu livro a solo, um meu amigo, poeta, aposentado como professor de Língua Portuguesa, que também tinha sido incentivado por mim a participar numa outra coletânea de poesia, telefonou-me a dizer que tinha acabado de receber uma carta da editora para pagar antecipadamente 100 euro pela aquisição de 10 livros, a que obrigatoriamente se via comprometido. Perguntou-me: “Isto é normal?”, depreendendo, pelo continuar da conversa, a sua pouca convicção da justeza do pagamento a mais de um mês da saída do livro. Como tinha algum poder económico, seguiu em frente. Reconheço-lhe muito talento mas, curiosamente, nunca mais o vi participar em coletâneas.

Por essa ocasião, vi uma notícia na TV que apontava para uma diminuição de vendas no mercado livreiro, relativo ao ano de 2012. Segundo dados da GFK, citada pela estação de televisão, a redução foi da ordem dos 9% e corresponde a cerca de um milhão de livros.

Interessei-me pelo assunto e pesquisei, tendo encontrado na blogosfera uma notícia, publicada em 29 de abril de 2013, em blogtailors.com/tag/estatísticas+e+números, blogue de Booktailors Consultores Editoriais. Referia que as “vendas da Amazon cresceram 22 % no primeiro trimestre daquele ano [2013]. Outra notícia no mesmo espaço, publicada em 16 de abril de 2013, refere que “as vendas digitais ascendem a quase um quarto do mercado editorial norte-americano [via “eBook Portugal”].

Começam a aparecer algumas editoras, com subsidiárias / livrarias virtuais, para comercialização de eBooks. Por exemplo, e sem querer publicitar ou dar visibilidade gratuita, a Wook (do Grupo Porto Editora) que, em 9 de maio de 2016, refere no seu site que é “a maior livraria em Portugal”, tendo “700 mil clientes registados e um catálogo com mais de 8 milhões de livros e eBooks”. Aponta a sua estratégia para a comercialização de eBooks, nomeadamente “uma solução inovadora que vai definir e impulsionar o mercado de eBook em Portugal”. Disponibilizou informação que diz facilitar “a entrada de todas as editoras portuguesas, pequenas, médias ou grandes, na realidade do eBook”, fazendo-o chegar aos leitores o produto pela via digital, “independentemente dos aparelhos e respetivos sistemas operativos”.

Ainda no blogue de Booktailors, numa notícia de 25 de junho de 2015 e com base num estudo feito pela Deloitte, é possível ler: “os jovens entre os 16 e os 24 anos não aderem aos livros electrónicos”, mas também não compram livros em suporte de papel; dos inquiridos “apenas 14% disse ler mais de uma hora por dia”, acrescentando que isto poderá acontecer devido à “ausência de hábitos de leitura dos mais novos”; neste grupo etário, “58% destes jovens passa mais de uma hora a ver televisão”, apesar de 34% ter respondido que “leem mais agora [2015] do que em 2010”.

A solução dos problemas neste setor [na ótica do autor] passará pela edição de autor, devendo o mesmo, posteriormente, arrojar-se na difusão da obra através da Amazon (ou outra similar), como o caso recente de uma jornalista transmontana, a trabalhar numa estação de TV europeia, que tem as suas obras disponíveis neste imenso mercado e que diz que as vendas vão acontecendo regularmente?

Ou passará pelo eBook, em que nós, produtores de conteúdos (com os nossos contos, romances, poesia, ensaios…) nos sentimos tantas vezes impotentes para “ter mais voz ativa”? Será que agora, com a diminuição das vendas dos livros nas livrarias, pessoas como tantas que conheço (de que dei aqui apenas um “cheirinho”) podem finalmente publicar os seus trabalhos e fazer com que um número apreciável de leitores os leiam, a custos relativamente baixos para os leitores e gratificantes e justos para os autores?

Será que vai acontecer às pequenas e médias editoras de livros o mesmo que aconteceu às várias editoras de música, com quase desaparecimento destas e venda da música pela via online? Será a mesma coisa ter livros digitais e não os nossos queridos livros de papel na estante e poder manuseá-los, sempre que nos apetecer? Pelo que se passa com os álbuns das fotografias digitais, abandonando-se os “velhos álbuns” com as fotos em papel… tenho muitas dúvidas! Mas por causa dessas dúvidas… o melhor será ter a ousadia de experimentar, confiante, para acompanhar a evolução dos tempos.

© Jorge Nuno (2106)

27/08/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (42) - Crónica: "Só Faltou Um Bocadinho Assim..."

SÓ FALTOU UM BOCADINHO ASSIM…

Após 19 dias de competição, terminaram os Jogos Olímpicos (JO) no Rio de Janeiro. Estiveram em disputa 42 modalidades, em 306 provas, que valeram 136 medalhas para atletas femininas, 161 para atletas masculinos e 9 para mistos. Neles, estiveram envolvidos os melhores atletas do mundo, de todas as modalidades acreditadas.

Muitas dúvidas pairavam no ar quanto à capacidade organizadora do Brasil num evento desta grandeza – tão só, o maior acontecimento desportivo à face da Terra! Antes da chegada dos atletas à “aldeia olímpica” eram bem visíveis as preocupações relacionadas com a segurança e com as queixas apresentadas por algumas delegações. Houve quem aproveitasse a ocasião mediática do evento para, na cidade de acolhimento, denunciar a insatisfação com políticas internas e com os gastos exagerados com as infraestruturas dos JO. No final dos mesmos, o presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) disse ter sido um desafio ganho e deu ênfase ao saldo positivo.   

Reconheço ter vibrado, entusiasticamente, com a cerimónia de abertura, também com algumas modalidades (para referir apenas, a título de exemplo, a espetacularidade e perfeição na natação sincronizada e na ginástica rítmica) e com os feitos desportivos, particularmente, pelos recordes olímpicos e mundiais que foram batidos. Realço modalidades como: ciclismo (sendo aqui, importante o trabalho de cientistas, relacionado com o piso, tecnologias e equipamentos, que redunda numa melhoria da performance e consequente sucesso desportivo, verificado nos 19 recordes olímpicos batidos); atletismo, com recordes nas categorias de 400 m, 3000 m obstáculos, 5000 m e 10000 m; natação, com 24 recordes olímpicos e 7 mundiais, em categorias como 100 m peito, 100 m costas, 800 m e 400 m livre, 100 m borboleta, 400 m medley e 400x100 m livre…

Senti um misto de satisfação e tristeza, por ver uma equipa representativa da autodenominada “Nação de Refugiados”. Satisfação por, em boa hora, o COI ter aceitado a sugestão de dois publicitários brasileiros, a residir nos EUA, de criar esta equipa; haver uma bandeira (ainda não reconhecida oficialmente pelo COI, mas com uma campanha apoiada pela Amnistia Internacional), a qual foi elaborada e proposta pela síria Yara Said (ela própria uma refugiada, a viver na Holanda), sendo cor de laranja o fundo da bandeira, com uma risca horizontal preta, que teve inspiração nos coletes salva-vidas usados por todos aqueles que, em condições de grande fragilidade, veem necessidade de atravessar o Mediterrâneo em busca de segurança na Europa; haver um hino, composto pelo sírio Moutaz Arian (também ele refugiado, a viver na Turquia), que não incluiu uma letra, propositadamente, por entender que a música, ao ser universal, “não precisa de ser traduzida”.
Senti tristeza, por todos os atletas incluídos nesta suposta nação não poderem representar os seus reais países de origem, em paz e nas mesmas condições dos demais atletas olímpicos.
Senti tristeza e preocupação pelo “simples” cruzar de punhos na meta da maratona, gesto feito pelo atleta etíope Feyisa Lilesa, medalha de prata na prova. Viria, de seguida, prestar declarações à imprensa, afirmando tratar-se de um protesto contra a repressão na Etiópia e um “sinal de apoio aos manifestantes do meu país que foram mortos pelo governo”, para completar: “talvez seja morto quando chegar, ou então preso”, deixando escapar [nas entrelinhas] que poderia ser mais um refugiado.

A delegação portuguesa foi a terceira maior de sempre em JO, sendo a maior de sempre no setor feminino. Só o facto de merecer o direito de estar nesta grandiosa competição e representar o país, é uma oportunidade, uma honra e motivo de orgulho, por ser apenas acessível aos melhores. Depois da recente vitória de Portugal no Campeonato da Europa de Futebol, os holofotes e a esperança estava em cerca de uma dezena de atletas portugueses, que têm revelado um alto rendimento nos últimos anos, medalhados em campeonatos europeus e mundiais. Em termos de resultados finais da participação portuguesa no JO, pode afirmar-se que se esperava mais; e pelo seu esforço e dedicação, bem mereciam. Numa das provas de canoagem, mesmo ao meu lado, ouvi o comentário: “Eia… só faltou um bocadinho!”. Naquele momento, intimamente, também foi isso que pensei. Curiosamente, vim a saber que o canoísta João Ribeiro (envolvido na prova) também disse que “faltou um bocadinho”. Na verdade, bastavam poucos milésimos de segundo para uma medalha em K2 1000 m.

José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico Português, assumiu total responsabilidade perante os resultados alcançados, que ficaram “aquém das nossas expetativas”, disse, uma vez que “dos três objetivos [traçados] apenas um foi cumprido”. Já José Garcia, chefe de missão, disse estar “extremamente orgulhoso” com a comitiva portuguesa, liderada por ele, e referiu que “o balanço é positivo”, realçando que esta “foi a melhor prestação de sempre em termos de resultados nos seis primeiros”, com dezanove atletas no “top 10” e dez entre os seis melhores.

O saldo da participação portuguesa, em termos de medalhas, ficou por uma de bronze, obtida pela Telma Monteiro, em judo, categoria de – 57 kg (cerca de cinco meses depois de uma lesão, que obrigou a uma operação ao joelho esquerdo, mostrando que é uma mulher com garra). Também, foram atribuídos dez diplomas olímpicos aos seguintes atletas portugueses: Emanuel Silva e João Ribeiro, 4.º lugar em canoagem / K2 1000 m; Fernando Pimenta, 5.º lugar em canoagem / K1 1000 m; Marcos Freitas, 5.º lugar em ténis de mesa; João Pereira, 5.º lugar em triatlo; equipa composta por Fernando Pimenta, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes, 6.º lugar em k4 1000 m (batendo o recorde nacional); Ana Cabecinha, 6.º lugar em 20 km marcha; seleção olímpica de futebol; Patrícia Mamona, 6.º lugar em triplo salto (com recorde nacional, apesar de se sentir prejudicada pela excitação no estádio, com a atuação simultânea do velocista jamaicano Usain Bolt), e Nelson Évora, 6.º lugar em triplo salto (apesar das várias lesões que teve, desde 2012, uma delas com gravidade, que faz deste atleta um exemplo de tenacidade perante a adversidade); Nelson Oliveira, 7.º lugar em ciclismo /contrarrelógio. 

Como bom compatriota e amante do desporto, cheguei a pensar na alegria coletiva se retirasse 29,5 segundos à minha esperança de vida, e os pudesse transferir para benefício da performance de um reduzido número de nossos atletas olímpicos, nas modalidades de canoagem, triatlo e 20 km marcha. Bastaria meio segundo da minha vida para a prova de Emanuel Silva e João Ribeiro; dois segundos para a de Fernando Pimenta; sete segundos, para a prova da nossa equipa de k4; nove segundos para a de João Pereira; e onze segundos para a de Ana Cabecinha. A ser assim, hoje estaríamos profunda e egoisticamente orgulhosos dos nossos atletas, por ver Portugal subir no ranking das medalhas olímpicas. O saudoso professor Moniz Pereira, seguramente, seria um deles, ainda mais se o atletismo se destacasse.

Acredito que os atletas para obterem alta performance necessitam de talento, paixão pela modalidade, apoios e muito… muito treino. Com um pouco mais de apoio oficial, os nossos atletas terão estes ingredientes. Parece que “só faltou um bocadinho assim…”, mas da minha parte só posso dizer: Parabéns, atletas olímpicos!

© Jorge Nuno (2016)

Obs.: Crónica saída hoje na BIRD Magazine (criada na UTAD)

25/08/2016

Fogo Sentido

FOGO SENTIDO

Quero deitar roupa velha no fogo
Ver aquelas chamas transfiguradas,
Incandescentes brasas acossadas,
Estranhas sombras com quem dialogo…

Quero lançar as cinzas fumegadas
Às imponentes estrelas, a quem rogo
Ardentes respostas, quando interrogo
Sobre a paz e vidas iluminadas.

Sem distorção da minha identidade…
Como projeção de mero holograma,
Surge em mim, imagem da fé de um povo.

Num sentido retorno à claridade
Tal como bálsamo que se derrama…
Vejo emergir do velho, um homem novo.


© Jorge Nuno (2016)