23/11/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (47) - Crónica: "A Tentação da Arte, Insensatez, Estupidez e Crime"

A TENTAÇÃO DA ARTE, INSENSATEZ, ESTUPIDEZ E CRIME

Delicio-me quando entro num museu. Adoro absorver, ao máximo, o seu conteúdo, refletir e aprender com o que vejo. É-me indiferente o tipo de museu ou temática abordada, pois em qualquer deles consigo sentir a sua enorme riqueza cultural. É frequente dizer, após cada visita, que saio mais rico, mesmo com a carteira mais leve. Subentende-se, nestas circunstâncias, que o museu terá cumprido a sua missão.

Um dos museus que muito admirei foi o British Museum, uma grande instituição museológica em Londres, com entradas gratuitas. Desde 1759 que delicia quem o visita. Tem peças como a “pedra de roseta”, do Egito Antigo, levada para Londres após a capitulação de Napoleão, quando as suas tropas ocupavam aquele território; ou o conjunto de peças, conhecidas como os “mármores de Elgin”[1], com esculturas da Grécia Antiga, que não deixava de ser um saque a envolver subornos, mesmo que efetuado por um privado e, posteriormente, adquirido pelo governo britânico. Sucessivos governos gregos e egípcios têm feito campanhas para a devolução das obras, mas tudo fica na mesma.

O Museu do Louvre – o mais visitado em todo o mundo – situado em Paris, está cheio de obras riquíssimas, em termos de arte e cultura humana, representando cerca de “oito mil anos da cultura e da civilização, tanto do Oriente como do Ocidente”. Foi muito enriquecido com as peças obtidas nas conquistas napoleónicas. Napoleão sabia bem o que fazia, pois quando preparou a invasão do Egito. Pretensamente, esta teria como objetivo principal exercer maior domínio no Mediterrâneo e cortar a rota usada pelos britânicos para chegarem ao Médio Oriente. No entanto, teve o cuidado de levar consigo aproximadamente 150 cientistas, professores e conhecedores de arte, para fomentar o estudo da antiguidade egípcia e, supostamente, preservar o maior número de peças com valor escultórico e arqueológico. Algumas delas acabariam por ser devolvidas aos países de origem, com a queda do imperador. Certo é que ainda se podem ver várias peças escultóricas assírias, etruscas, egípcias e gregas, entre outras, com vários séculos a.C.

Também Hermann Göring[2], destacado entusiasta do colecionismo, particularmente de arte, foi o impulsionador do plano de Hitler para juntar o maior número possível de obras de arte, que ficariam na posse do estado alemão. Claro, os museus dos países ocupados estiveram nos holofotes do ocupante e do próprio Göring. Este teria acumulado, na sua residência de verão, próximo de Berlim, cerca de 2000 obras de inestimável valor, entre pintura, escultura, peças diversas e tapeçaria, não fosse a guerra ter terminado e ele vir a ser julgado em Nuremberga por “crimes de guerra, onde se incluía a pilhagem e roubo de obras de arte, e outros bens”, além de muitos outros crimes, com inclusão de crimes contra a humanidade. A situação do roubo de obras de arte foi muito bem parodiada na célebre sitcom britânica de sucesso “Allo Allo!”. Retratou a ocupação alemã em França, durante a Segunda Guerra Mundial, em que as tropas invasoras tinham roubado todas as obras de arte da vila de Nouvion, onde o René tinha o café e escondia elementos da resistência. Entre essas obras estava a pintura “A Madonna rendida, com peitos grandes”, que o coronel Von Strohm queria juntar à sua coleção de obras roubadas, apesar de desassossegado pela presença constante do oficial de Gestapo, Herr Flick, que queria encontrar o paradeiro das obras.

Em 2001, Moahmmad Omar, líder do grupo extremista talibã, mandou destruir todas as imagens no Afeganistão, por entender que eram ofensivas. Foram 10 anos, afanosamente, a usar dinamite. Entre essas, estavam duas estátuas gigantes budistas –
Os Budas de Bamiyan –, com cerca de 1500 anos, esculpidas diretamente na rocha de um desfiladeiro. Com 53 e 38 metros de altura, tinham sobrevivo a séculos de guerra.

Em 2003, após a tomada da capital do Iraque pelos militares americanos, que levou à queda do regime de Sadam Hussein, estes não evitaram que iraquianos pilhassem e vandalizassem o Museu Nacional de Bagdad e incendiassem a Biblioteca Nacional, sinal claro de degradação social, económica, moral e até civilizacional de um povo que vivia oprimido. Ainda hoje revivo as imagens obtidas neste museu, relacionadas com a entrada de dezenas de homens e com a directora do museu a tentar afugentar quem pilhava e destruía, com uma coragem a fazer lembrar a freira timorense que afastava os indonésios invasores, esbracejando e gritando “xô… xô…. xô!...”, como se fosse fácil enxotar aquelas “galinhas”. Imagino o sofrimento daquela directora do museu, guardiã de um espólio com vários milhares de anos.   

Quando em 2004 visitei o Museu Nacional de Praga (República Checa), foi-me dito que em agosto de 1968, aquando da invasão por tropas soviéticas para deter a chamada Primavera de Praga, a fachada do belíssimo edifício em estilo neorrenascentista, situado na praça Venceslau, foi bombardeada por tanques, supondo tratar-se do parlamento da ex-Checoslováquia. Recuperada grande parte dos estragos e desconhecendo [eu] o que ficou irremediavelmente perdido, foi outro dos museus que me deliciei a ver, contendo desde objetos pré-históricos a mineralogia, zoologia, antropologia, história, ciências naturais…  

Os protestos contra o presidente e o regime de Hosni Mubarak, em 2011, mesmo perante as armas dos militares, levaram à destruição e vandalização de peças milenárias no Museu Egípcio do Cairo (com decapitação de múmias, como exemplo), mas grupos operacionais sabiam o que lhes interessava e onde estava, tendo efectuado pilhagens, com o intuito de obter lucros, através de marchands e traficantes de arte, o que viria também a acontecer nas estações arqueológicas de Mênfis e Abusir.

Mais recentemente, com a ocupação de um vasto território na Síria e no Iraque, por parte de grupos extremistas do autoproclamado Estado Islâmico, continuou a destruição de preciosidades históricas, com inestimável valor. Aconteceu por todo o lado, particularmente em zonas em que era suposto proteger-se esse património. Foi evidente no Museu de Mossul (Iraque), com a destruição de antiguidades de relevo. Assim como o foi a destruição das ruínas greco-romanas de Palmira (Síria), até aí preservadas e classificada, pela UNESCO, como Património Mundial da Humanidade, tal como outros cinco locais que figuram na lista da UNESCO. Ainda se deram ao cuidado de deixar um vídeo para a posteridade, deixando bem claro o seu fanatismo, através da destruição de estátuas e múmias, assim como da afirmação legendada no vídeo: “Destruímos os ídolos seja onde for, onde quer que os vejamos, destruímo-los, não há mais deus que Alá nesta terra”.

Um olhar histórico, face aos acontecimentos mais recentes, não impede a polémica: as peças preciosas à guarda dos grandes museus mundiais deveriam manter-se, ou ser devolvidos aos respetivos governos e colocados nos seus locais de origem?

Quanto a lucidez, não é preciso fazer um grande esforço, pois sabemos que os símbolos iconográficos destruídos são, tão só, o património arqueológico mais antigo da humanidade. Assim como os bens materiais – incluindo os alheios, mesmo que gostemos muito de arte – não vão connosco para a cova! Como admiro o pensamento lúcido de Alberto Einstein, que afirmou: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta”.

© Jorge Nuno (2016) 





[1] Alusivo a Lord Elgin, de nome Thomas Bruce, embaixador britânico em Constantinopla [Império Otomano], que em 1801 fomentou as escavações em Atenas e “recolheu” várias esculturas, com o intuito de as preservar (alegando que os otomanos mostravam indiferença pela cultura grega) e terá mandado partir muitas dessas esculturas para as fazer chegar a Inglaterra.
[2] Membro do Partido Nazi e militar de alta patente, a quem Hitler terá dito que seria o seu substituto, caso lhe “acontecesse alguma coisa”.

30/10/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (46) - Crónica: "Sou Escorpião" E daí?"

SOU ESCORPIÃO! E DAÍ?

Pois bem, sou escorpião! Talvez seja melhor soletrar: es-cor-pi-ão… es-cor-pi-ão!... (no mínimo, alguém dirá logo: “Ui!...”). Já nem sei é obstinação, pura falácia, ou suja predição de ineficácia… isto de ver o signo como sina malfadada, deixando à partida, encurralados todos os que têm um signo de “má-fama”. Nunca gostei de generalizações abusivas, pois sei que cada ser é único. Sinceramente, apesar de falar no assunto, é algo que não me perturba, pois se me entregar a algo apaixonadamente, tiver algumas capacidades ou talento para o efeito e souber aproveitar a conjuntura e as oportunidades surgidas, sei, por antecipação, que tudo se resolverá em conformidade e não tenho com que me preocupar.

Apesar disso e tendo como pano de fundo o zodíaco, fiquei recentemente a saber que este é um ano de liberdade, que se deve entender como de libertação. Haverá novas ideias, movimento, impulsividade por instinto ou intuição, encontro com sentimentos profundos… Também há muito que sei que é nesse encontro com sentimentos profundos que me fico a conhecer melhor.

Com suavidade, deixo escapar o que se encontra escondido na caixa do “politicamente não correto”, tendo presente que a minha casa cármica mostra-me o que quero esconder e não mostrarei a ninguém. Também sei que tudo o que é negativo em mim tem um tempo de vida limitado e, como tal, simplesmente, desvalorizo-o, procurando manter na mente, de forma permanente, imagens positivas.

Assim, conheço-me como homem capaz de:
– Procurar o contacto com a natureza e apreciar as coisas simples da vida;
– Relacionamentos com bases sólidas, apesar de alguns constituírem-se como desafios permanentes;
– Criar empatias (algumas hipnotizantes) e, facilmente, desenvolver novas amizades;
– Nunca se deixar acomodar ou cristalizar, estando sempre disponível para avaliar a renovação, com as inerentes mudanças a operar, depois de ouvir o coração;
– Saber aproveitar (com garra) novas oportunidades, convicto de que não deve abraçar todos os desafios, mas aqueles que abraça, irá desenvolvê-los com paixão, mesmo mantendo a produtividade sem ordem de prioridade;
– Ser um abridor de caminhos e lançador de sementes, que tenham desenvolvimento e continuidade em novos ciclos (mesmo que outros fiquem com os louros);
– Idealizar, programar e liderar projetos em que acredita, com envolvimento, persistência, dedicação e exemplo (bem ao estilo do “follow me”);
– Enfoque no essencial, em detrimento do acessório, imprimindo uma marca pessoal nos esforços;
– Sentir-se carregado de energia positiva e muita luz e, na contrariedade, saber arranjar forças para erguer a cabeça e subir para a garupa do cavalo, desfrutando, de novo, a caminhada;
– Acreditar e envolver-se em causas, olhando serenamente para a vida, mas sempre com denotado entusiasmo;
– Atravessar períodos de grande sensibilidade, com tudo o que isso implica, mas procurando agir com alguma dose de inteligência emocional;
– Gostar de ser fiel à sua essência, pelo que evita tudo o que seja facilitismo e que esteja fora dos princípios éticos, que há muito interiorizou e não abdica;
– Sentir-se abençoado pela coragem de resolver a maior parte das questões, e se outras não consegue… é porque a solução não depende de si.

Aproveito alguns momentos da noite para uma profunda reflexão. É curioso: enquanto lá fora está escuro, eu fico com uma perspetiva mais clara das coisas! Tal, permite redefinir o percurso, para orientação futura, embora, na maior parte das vezes, simplesmente deixe fluir…

Para mim, durante muito tempo e apesar de saber da sua movimentação no espaço, as estrelas sempre estiveram em posição “estável” e pessoalmente favorável, tal como a minha constância em relação às coisas boas da vida, que recebo e agradeço diariamente. Sei que nasci no Ano Internacional do Sol Calmo. Pelo meu mapa astral, sei que sou um nativo com o Sol em escorpião e com a Lua em oposição. Também sei dos indícios “coincidentes” com o meu lado misterioso, emocional, sensível, determinado, capaz de facilmente brilhar (sem usar purpurinas) chamando a atenção por onde vier a passar e no gosto em ser notado pelos seus méritos (e não, certamente, por pendurar abóboras no pescoço).

A verdade é que pouco me importava com tudo isso, e ainda menos com: o ascendente Saturno, na casa 8, a contribuir para ter vontade de mudar os padrões e aprender a ter mais desapego, deixando-me a vontade de alívio progressivo na carga da bagagem, que levo na viagem; o domínio de Plutão, por estar na casa 7, a caraterizar-me de forma determinante ao nível relacional; a hora sideral aquando do meu nascimento, em que Mercúrio, Vénus e Neptuno se encontravam na casa 9 (juntamente com o Sol), tivessem uma enorme influência nas grandes mudanças e/ou se me foi proporcionada uma generosidade a atingir os limites do inconsciente, que me terá levado ao desejo de ensinar/formar/difundir o saber, mas sempre com a vontade insaciável e permanente de aprender e aumentar o conhecimento.

Ai este generoso espelho que me faz ver e realçar o lado bom que há em mim!

Sou como sou. Sou Escorpião! E daí?

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Publicado na BIRD Magazine (criada na UTAD)

28/10/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (45) - Crónica: "Acreditar no Bibliomóvel"

ACREDITAR NO BIBLIOMÓVEL

Há poucas semanas fiz um passeio por algumas aldeias raianas do concelho de Bragança. Achei curioso, em pleno século XXI, cruzar-me com duas viaturas pesadas, ambas de caixa tapada com toldo e destinadas ao comércio direto com a população. Uma delas, de matrícula espanhola, vendia fruta e uma outra, de matrícula portuguesa, vendia mercearias, onde não podia faltar o bacalhau, além de outros produtos próprios de uma drogaria. Sei que um pouco abaixo deste concelho, uma cabeleireira usa um furgão que serve de salão de cabeleireiro itinerante. Há outros negócios em curso, de modo a tentar a sua sorte, cujos empreendedores veem os problemas da interioridade e do isolamento das populações como uma oportunidade. Sei da existência da Unidade Móvel de Saúde de Bragança, que foi criada através de uma parceria entre o Município, os Centros de Saúde e a Santa Casa da Misericórdia de Bragança, tendo como finalidade as visitas domiciliárias, prestação de cuidados de enfermagem, acompanhamento de utentes em situação de vulnerabilidade, despiste de situações de risco, vacinação, sessões de esclarecimento, etc.

Lembro-me da distribuição de peixe congelado por todo o país e, claro, de o ver chegar ao interior do país, em furgões preparados para o efeito. Por iniciativa estatal, no final dos anos cinquenta do século passado, foi criada, a empresa SAPP – Serviço de Abastecimento de Peixe ao País, que pretendia introduzir um novo conceito de abastecimento e de alimentação. Foi lançada a campanha “Vamos comprar, congelar e cozinhar peixe congelado”, criando mesmo publicidade através de uns desenhos animados, que passavam na TV a preto e branco, como forma de propagandear o peixe congelado. Foram também elaborados uns livros de banda desenhada com a “Menina Pescadinha”, por forma a abranger as crianças, já que não fazia parte do hábito de consumo nas populações, em qualquer estrato social, e era preciso criar incentivos, com reforço nos mais novos.

Não me esqueço da importância das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian – uns furgões cinzentos da marca Citroën, embora também os houvesse em cor avermelhada (mas que nunca vi) –. Já andava na escola primária quando este projeto nacional foi lançado. Ansiava pela chegada da carrinha e era um leitor assíduo, com o número máximo de livros que era permitido a cada um. Apesar das orientações que o condutor e bibliotecário tentava dar aos leitores mais jovens, eu não as respeitava e fazia as minhas escolhas como se pertencesse ao público adulto. Sei que com 14, 15, 16 anos já lia clássicos da literatura, como: “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski; “Guerra e Paz”, de Leão Tolstoi; “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens; “O Vermelho e o Preto”, de Stendhal; “Os Miseráveis”, de Victor Hugo; “O Crime do Padre Amaro”, de Eça de Queiroz [que li durante uma noite]; “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, de Honoré de Balzac; “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, entre muitos outros.

Se o objetivo deste serviço de bibliotecas itinerantes era o de “promover o gosto pela leitura e elevar o nível cultural dos cidadãos, assentando a sua prática no princípio do livre acesso às estantes, empréstimo domiciliário e gratuitidade do serviço”, não tenho dúvidas da influência deste serviço móvel, e da importância dos muitos autores que li, na minha forma de encarar o mundo, de crescer como pessoa e, mais tarde, ao dedicar-me à escrita. Ficou desde sempre, e para sempre, um enorme gosto pela leitura, pelo que deixo o meu testemunho: comigo o objetivo foi atingido!

Por razões várias, este serviço de bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, viria a ser extinto em 2002. Foram muitas as autarquias a acreditar e  tomarem iniciativa semelhante, que promovesse a leitura e elevasse o nível cultural dos cidadãos (por via da leitura). Para o efeito, renovaram as bibliotecas fixas, tornando-as espaços atrativos, em zonas centrais, de fácil acesso, e criaram as chamadas bibliomóvel, para fazer chegar os livros a zonas mais remotas da sua área jurisdicional. Entre essas autarquias, menciono (por ordem alfabética) as de: Arouca, Aveiro, Coimbra, Loulé, Oliveira de Azeméis, Pombal, Porto de Mós, Proença-a-Nova, Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, São Pedro do Sul, Valença. Acredito que poderá haver mais autarquias envolvidas em neste tipo de projeto, mas não tenho problemas em admitir que desconheço.

Em abril de 2016, realizou-se na Universidade de Coimbra uma conferência intitulada “Bibliomóvel no Século XXI. Novos desafios”, a provar que é dada importância ao assunto. Felizmente há gente, com visão, a acreditar no bibliomóvel. Pode mesmo parecer uma coisa do passado, ainda mais por nos situarmos na era das tecnologias. Desengane-se quem pensa que nas zonas raianas, e outras zonas do interior, há livre acesso à internet e até mesmo rede móvel, para uso de um simples telemóvel, pois ou não tem ou é deficiente o sinal recebido. A pretexto do acesso fácil à cultura, por via informática/internet, o fomento da leitura não pode abrandar e tem de prosseguir, para fazer chegar os livros [físicos] às populações desfavorecidas do interior, tal como lá chega, de modo ambulante, a cabeleireira, a enfermeira, o comerciante…

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Crónica publicada na BIRD Magazine (UTAD), em 08-10-2016

01/10/2016

A Viagem

A VIAGEM

“Limita-se uma vida ao seu destino”
como se um passageiro clandestino,
de fardo, nem ousasse caminhar…
“pesada cruz de sombras e canseiras”
por quem comete um chorrilho de asneiras
e, livre, não se deixa condenar.

“As rochas são fantasmas na penumbra”
para quem na vida pouco vislumbra,
mas realce “há sempre na noite escura”…
em que na pura exaltação dos credos
“a madrugada vem despir os medos”
e o teu olhar devolve-me doçura.

“Tremem mãos de comoção no instante”
como se fosse em viagem errante
“onde ao lavrar os sonhos me confundo”.
“ser um menino-velho com ideias”
e partilhar contigo vida a meias
vem dar alento ao meu pequeno mundo.

Pouco importa ver as frases bordadas,
“o vício das palavras relembradas”…
“p’ra mascarar aquilo que pareço”;
ou “se a saudade é roxa ou prateada”,
a minha poesia a ser cantada,
vastos elogios que não mereço…

Quando um dia aquela negra ceifeira
vier rondar para eu ser poeira,
sem negociar uns quaisquer critérios
e não retroceder envergonhada,
nem quiser a viagem adiada…
irei “subir a rampa dos mistérios”.

“Há retalho do mundo à minha espera”,
mais além do que se vê nesta esfera,
“com música astral das noites brancas”.
“um mundo dos espíritos das horas”
que no teu relógio já não ignoras
e tudo irá fluir sem alavancas.

Mas “sei que alguém nos becos da memória”
anotará a verdadeira estória
(mesmo sem ter de a contar às crianças).
Neste longo amor, que eu tanto bendigo,
“sei que o meu coração vai ter contigo”,
ser peregrino de boas lembranças.

Não “esconjuro o feitiço do retorno”
e para obviar todo este transtorno
irei fazer aquilo que apetece…
surgir em qualquer noite de luar,
afável, envolver-me a namorar
“em loucuras de amor que o amor tece”.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Baseado em alguns versos ou ideias extraídas da obra poética de Ulisses Duarte, a quem desta forma presto a minha homenagem. Envolve trabalhos da obra póstuma “Palavras com Distância”, os poemas “A Nau do Tempo”, “O Telefonema”, “O Limite”, o “Conto da Morte Anunciada” e parte da compilação de versos de Ulisses Duarte, feita pelo poeta Albertino Galvão. 

25/09/2016

Impulsos da Alma

IMPULSOS DA ALMA

Num mero estado de ausência da mente,
Sem convergir pensamento e ação,
Planei céus salpicados de evasão
E fluí em trasladada corrente.

À velocidade do meteorito,
Maleável aos impulsos da alma,
Descobri uma verdade que acalma:
A minha morada é o infinito.

Deixei bem longe o saco das querelas
Como a retirar o homem à guerra…
Para tornar as viagens mais belas.

Poderei sentir-me um mortal que erra,
Mas um colaborador das estrelas
Que daqui verá descer Céu à Terra.


© Jorge Nuno (2016)

24/09/2016

CÓNICAS DO FIM DO MUNDO (44) - Crónica: "O Passaporte Biológico"

O PASSAPORTE BIOLÓGICO

Há muito poucos anos, a Agência Mundial Antidopagem (AMA) viu necessidade de criar o passaporte biológico, como estratégia, para lutar contra a dopagem no âmbito desportivo e concretizou esta ideia inovadora. Trata-se de um documento electrónico individual, no qual “são registados todos os resultados dos controlos antidoping que forem efetuados” ao atleta, o que faz com que contenha vários indicadores importantes e permite traçar o perfil hematológico e o perfil dos esteróides, entre outros.

Começou com um projeto-piloto desenvolvido pela União Ciclista Internacional (UCI) já que esta modalidade é uma das que mais requer esforço físico, por parte dos atletas e deve estar mais sujeita a controlo. Se repararmos bem, é praticada a horas pouco recomendáveis, na maior parte das vezes com calor excessivo, em distâncias longas, durante muitas horas por dia e muitos dias seguidos; daí ser expectável a ocorrência frequente de casos de doping, como se veio a confirmar. Nele, viram-se envolvidas algumas figuras de proa do ciclismo mundial – de que é exemplo Lance Armstrong, considerado [por muitos] o maior ciclista de todos os tempos, que acabaria por ser banido do ciclismo, passando de herói a vilão –.

Rapidamente passou do ciclismo para outras modalidades, em variadíssimos países. Em Portugal já haverá 363 atletas com passaporte biológico em meia dúzia de modalidades, como: canoagem, remo, natação, atletismo, triatlo e, claro, ciclismo. A Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) já confirmou, recentemente, através do seu presidente – Rogério Jóia – que passará a haver o passaporte biológico no futebol nacional, tendo referido que “o número de controlos totais e também específicos para esta ferramenta no combate ao doping aumentaram”, o que terá contribuído para fazer subir significativamente, em 2015, o número de casos de positivos face a período homólogo. Segundo palavras de Rogério Jóia, a própria UEFA entendeu que havia necessidade de o estender ao futebol, pois “não seria ético o futebol não estar inserido no passaporte biológico, até pelo seu mediatismo e poder económico”. Deste modo, não é de estranhar o facto de, p.e., Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Braga, já terem visto jogadores seus a ser alvo deste tipo de controlo para se dar início à introdução do referido passaporte. Também o modo de atuar foi alterado; agora aADoP faz as colheitas de urina e sangue nas competições, e não fora delas. No futebol profissional, está a acontecer com a regularidade de dois jogos por jornada na I Liga e de um jogo na II Liga.

Pode ser difícil de entender o afastamento dos atletas paralímpicos da Federação Russa (FR) aos jogos do Rio 2016, mas quando se tratou de factos comprovados, de forma superiormente organizada, não se podia esperar outra atitude do Comité Paralímpico Internacional (CPI). A FR ainda recorreu, mas o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) indeferiu-o e manteve a decisão de banir toda a comitiva russa.

Imaginemo-nos no lugar de um atleta paralímpico [com qualquer tipo de deficiência] e que treina afincadamente durante quatro anos para conseguir um lugar na comitiva presente nesta competição maior, sem ter cometido nenhum ilícito, e que se vê relegado para posições inferiores na competição, ao ter adversários que usam de meios ilegais, que lhes conferem mais resistência.

Ainda há homens com carácter, como no caso do Comité Paralímpico da Austrália, ao suspenderem preventivamente, por doping, um seu ciclista – bicampeão paralímpico de perseguição individual (para atletas amputados) – e que lhe poderia dar mais uma medalha.

Também o CPI está atento, e aperta o cerco, aos casos de boosting, estratégia que aumenta artificialmente o rendimento dos atletas, com o aumento da pressão arterial e chegada de mais oxigénio aos músculos. É algo difícil de detetar e, ainda mais, em se saber se a prática é intencional. Estranhamente, é usada pela via da autoflagelação e prática de tortura, e comum entre atletas em cadeiras de rodas, entre outros. As consequências desta prática são nefastas para a saúde dos atletas, dando origem a acidente vascular cerebral (AVC) e até à morte.

Há poucos dias chegou a delegação portuguesa, vinda dos Jogos Paralímpicos Rio 2916, evento em que foram vendidos dois milhões de bilhetes e teve vasta cobertura televisiva. Dos 37 atletas portugueses presentes, quatro trouxeram medalhas de bronze e 25 ganharam diplomas paralímpicos, ao ficarem entre os oito melhores do mundo, nas suas modalidades. São atletas que merecem ser acarinhados, e merecem que sejam criadas condições para terem um estatuto idêntico aos olímpicos, com treino como atletas de alta competição. Como todos os outros atletas, também deverão possuir passaporte biológico. Como é bom ver a sua felicidade e a dos seus familiares e amigos, quando chegam ao aeroporto, após o fechar das cortinas da competição! E como cada um se deve sentir bem, ao saborear o mérito dos seus resultados desportivos, fazendo apenas uso da sua coragem, do seu esforço, do seu querer, ajudado pelo empenho, saber e entrega dedicada do seu treinador!

Bem-haja todos aqueles que se entregam devotada e honestamente a algo, como neste caso, trabalhando para que haja verdade desportiva. Gostaria de acreditar que o crime não compensa.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Crónica publicada à presente data na BIRD Magazine (criada na UTAD)

12/09/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (43) - Crónica: "Publicar nos Tempos Atuais?"

PUBLICAR NOS TEMPOS ATUAIS?

Como estreante com um romance – cuja sessão de lançamento ocorreu já 2013 –, pelas experiências anteriores relativas à minha participação em duas dezenas de coletâneas de contos e poesia, como produtor de conteúdos e também pelo meu olhar, como consumidor e como observador atento da realidade do meio literário, onde me vejo envolvido, senti um impulso enorme para escrever algo relacionado com o tema em título. E cá estou… convicto do interesse desta minha reflexão.

Posso congratular-me pelo facto de três editoras terem aceitado publicar o meu primeiro livro a solo, caso que não é muito frequente no panorama atual – em boa verdade, tratava-se de pequenas editoras e uma delas até referiu a dado passo das negociações : “Que garantias me dá? Há que ter algum cuidado nos tempos que correm” –.

Tentando estabelecer paralelos entre editoras, ao nível das condições fixadas para publicação, ouso divulgar o seguinte: numa, mesmo na qualidade de autor, tinha que adquirir 250 livros, noutra 180 livros e noutra um mínimo de 100 livros, com direitos de autor que iriam entre os 3% e 30%, consoante o “risco calculado” (?) ou política da editora, para autores desconhecidos e consoante o número de exemplares adquiridos pelo autor. O meu investimento, como autor, situava-se então entre os 1080 euros e os 2428 euros. É preciso ser-se ousado, ter coragem, acreditar no seu “produto” concebido e ter algum suporte financeiro para despesas deste tipo, em tempos com resquícios de crise, que aos poucos se tem vindo a desvanecer.

Uns meses depois, uma jovem amiga, amante da escrita e particularmente da poesia, que tem um conhecido blogue e que teve tempo de antena (entrevista e reportagem) num programa da manhã, na TV, perguntava qualquer coisa como isto, numa rede social: “Pode-se viver só da escrita?”. Eu, como amigo e como pessoa experiente, que teve que lutar muito na vida para atingir vários patamares de objetivos, aceitei o repto e respondi. Não me lembro bem das palavras que lhe dirigi, mas de uma maneira soft, com poucas palavras, tentei fazê-la descer à terra, sem querer de modo algum destruir os seus sonhos e concluí, incentivando-a a escrever, mas procurando outro suporte para poder viver condignamente.

Decorrido mais uma semana, uma outra minha amiga, poetisa, aposentada, na casa dos 70 anos, que tinha sido incentivada por mim a participar numa coletânea de poesia, quando recebeu a conta antecipada de 60 euros, um mês antes da publicação, disse-me que ia escrever à editora a renunciar, pois não tinha esse dinheiro para pagar pelos três livros, como mínimo exigido.

Cerca de um ano depois do lançamento do meu livro a solo, um meu amigo, poeta, aposentado como professor de Língua Portuguesa, que também tinha sido incentivado por mim a participar numa outra coletânea de poesia, telefonou-me a dizer que tinha acabado de receber uma carta da editora para pagar antecipadamente 100 euro pela aquisição de 10 livros, a que obrigatoriamente se via comprometido. Perguntou-me: “Isto é normal?”, depreendendo, pelo continuar da conversa, a sua pouca convicção da justeza do pagamento a mais de um mês da saída do livro. Como tinha algum poder económico, seguiu em frente. Reconheço-lhe muito talento mas, curiosamente, nunca mais o vi participar em coletâneas.

Por essa ocasião, vi uma notícia na TV que apontava para uma diminuição de vendas no mercado livreiro, relativo ao ano de 2012. Segundo dados da GFK, citada pela estação de televisão, a redução foi da ordem dos 9% e corresponde a cerca de um milhão de livros.

Interessei-me pelo assunto e pesquisei, tendo encontrado na blogosfera uma notícia, publicada em 29 de abril de 2013, em blogtailors.com/tag/estatísticas+e+números, blogue de Booktailors Consultores Editoriais. Referia que as “vendas da Amazon cresceram 22 % no primeiro trimestre daquele ano [2013]. Outra notícia no mesmo espaço, publicada em 16 de abril de 2013, refere que “as vendas digitais ascendem a quase um quarto do mercado editorial norte-americano [via “eBook Portugal”].

Começam a aparecer algumas editoras, com subsidiárias / livrarias virtuais, para comercialização de eBooks. Por exemplo, e sem querer publicitar ou dar visibilidade gratuita, a Wook (do Grupo Porto Editora) que, em 9 de maio de 2016, refere no seu site que é “a maior livraria em Portugal”, tendo “700 mil clientes registados e um catálogo com mais de 8 milhões de livros e eBooks”. Aponta a sua estratégia para a comercialização de eBooks, nomeadamente “uma solução inovadora que vai definir e impulsionar o mercado de eBook em Portugal”. Disponibilizou informação que diz facilitar “a entrada de todas as editoras portuguesas, pequenas, médias ou grandes, na realidade do eBook”, fazendo-o chegar aos leitores o produto pela via digital, “independentemente dos aparelhos e respetivos sistemas operativos”.

Ainda no blogue de Booktailors, numa notícia de 25 de junho de 2015 e com base num estudo feito pela Deloitte, é possível ler: “os jovens entre os 16 e os 24 anos não aderem aos livros electrónicos”, mas também não compram livros em suporte de papel; dos inquiridos “apenas 14% disse ler mais de uma hora por dia”, acrescentando que isto poderá acontecer devido à “ausência de hábitos de leitura dos mais novos”; neste grupo etário, “58% destes jovens passa mais de uma hora a ver televisão”, apesar de 34% ter respondido que “leem mais agora [2015] do que em 2010”.

A solução dos problemas neste setor [na ótica do autor] passará pela edição de autor, devendo o mesmo, posteriormente, arrojar-se na difusão da obra através da Amazon (ou outra similar), como o caso recente de uma jornalista transmontana, a trabalhar numa estação de TV europeia, que tem as suas obras disponíveis neste imenso mercado e que diz que as vendas vão acontecendo regularmente?

Ou passará pelo eBook, em que nós, produtores de conteúdos (com os nossos contos, romances, poesia, ensaios…) nos sentimos tantas vezes impotentes para “ter mais voz ativa”? Será que agora, com a diminuição das vendas dos livros nas livrarias, pessoas como tantas que conheço (de que dei aqui apenas um “cheirinho”) podem finalmente publicar os seus trabalhos e fazer com que um número apreciável de leitores os leiam, a custos relativamente baixos para os leitores e gratificantes e justos para os autores?

Será que vai acontecer às pequenas e médias editoras de livros o mesmo que aconteceu às várias editoras de música, com quase desaparecimento destas e venda da música pela via online? Será a mesma coisa ter livros digitais e não os nossos queridos livros de papel na estante e poder manuseá-los, sempre que nos apetecer? Pelo que se passa com os álbuns das fotografias digitais, abandonando-se os “velhos álbuns” com as fotos em papel… tenho muitas dúvidas! Mas por causa dessas dúvidas… o melhor será ter a ousadia de experimentar, confiante, para acompanhar a evolução dos tempos.

© Jorge Nuno (2106)