02/05/2017
28/04/2017
CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (57) - Crónica: "Claques e Cliques"
CLAQUES E CLIQUES
Está um dia bonito, apesar das nuvens. De
pé, olho através dos vidros duplos. O trânsito na avenida é intenso, mas não o
ouço. Os choupos oscilam ligeiramente e vão soltando o “algodão branco”, que se
espalha e dança pelo ar por mais algumas semanas. Costuma representar alegria e
espanto nas crianças e, supostamente, um incómodo nas pessoas com
hipersensibilidade cutânea. Certamente poucos saberão (ou nem quererão saber)
que há choupos machos e fêmeas, e que uns largam o “algodão” e outros o pólen, o
tal que pode ser causador de alergias. Tenho consciência que a poluição urbana,
gerada pelos veículos automóveis, afetará mais a saúde humana do que os níveis
de pólen dos choupos nesta altura do ano, ou pior ainda, na ausência dos
choupos, caso fossem abatidos a motosserra, como vem a acontecer. Creio que
representa um dos muitos mitos urbanos, já que as pessoas nos meios rurais
convivem bem com os choupos.
É visível o habitual movimento das
“formiguinhas” humanas, na ciclovia, que usam este agradável espaço para fazer
caminhadas, corridas individuais ou em pequenos grupos, tanto a pé como de
bicicleta, para passear, levando os carrinhos de bebé ou os animais, ou
simplesmente sentarem-se calmamente à sombra dos mesmos choupos. Por detrás, os
campos de ténis, em terra batida, têm o habitual movimento, dando a sensação
que alguns jovens estão a ter as primeiras aulas na modalidade. Olhando um
pouco mais para trás dos campos, vejo alguns corajosos a dar umas braçadas numa
das piscinas municipais exteriores, nesta tarde primaveril.
À mente vem-me o meu profundo gosto
pelo desporto e a ideia de como o desporto pode ser salutar.
Neste ano, passei pela ponte 25 de
abril, uns minutos antes de fechar ao trânsito rodoviário, para proporcionar a
realização da “Meia Maratona de Lisboa”. Nalguns anos anteriores, tirei fotos
que mostravam a dimensão desta iniciativa. Eram dezenas de milhares de
participantes, a colorir totalmente esta enorme ponte; mais outras dezenas de
milhares de espetadores, a assistir ao longo do traçado, e centenas de milhares
a ver na TV. Soube do sucesso da segunda prova do circuito internacional –
“Mundial Rallycross 2017” – em Montalegre, prova que se realiza em mais nove
circuitos de países europeus e no Canadá e África do Sul. Eram esperados cerca
de cem mil visitantes nesta aprazível vila da raia transmontana, o que me deixa
muito agradado. A poluição sonora (do roncar dos motores) e a atmosférica (dos
escapes), nada habitual por estas terras, ficaram completamente ofuscadas pelo entusiasmo,
pelo que já se espera pelo evento do próximo ano. No início de setembro, volta
ao Porto a “Red Bull Air Race World Championship”. É um evento mundial, que
passa também por: Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos; San Diego e Indianápolis,
EUA; Chiba, Japão; Budapeste, Hungria e Lausitz, Alemanha. Pela
espetacularidade, atrai centenas de milhares de pessoas às margens do Douro, no
Porto e Gaia. Estes três eventos desportivos, que movimentam multidões e muitos
milhões, não deixam de ser um negócio, com riscos calculados, em que todos os
envolvidos podem ganhar. Sinceramente, não vejo ninguém a querer,
propositadamente, estragar o negócio. Neste último, apenas me lembro de ouvir
acusações “bairristas” quando o evento passou de Lisboa para o Porto, por falta
de financiamento autárquico.
Temos de reconhecer, definitivamente,
que por estas bandas do planeta o futebol é mesmo considerado o “Desporto-Rei”.
Até posso ouvir algumas pessoas dizer que não vão em “futebóis”, mas essas
mesmas vi-as eufóricas quando a equipa de Portugal se sagrou campeã da Europa,
em França! Sou apreciador e gosto de ver jogar bom futebol, independentemente
de quem joga e do resultado final, quando não há trapaça. Detesto aquilo que
estou a ver: claques organizadas, algumas ilegais, sustentadas pelas direções
dos clubes designados “três grandes” [de Portugal], a fazer asneiras atrás de
asneiras, impunemente, e num ou noutro caso com as direções, a demarcar-se… Aconteceu
recentemente com a claque “Super Dragões”, num jogo de andebol entre o F. C. do
Porto e S. L. Benfica, ao entoar “Quem me dera que o avião da Chapecoense fosse
do Benfica”, ou a exercer pressão direta no café do pai de um conhecido árbitro
de futebol, ou como claque não oficial de apoio à seleção nacional [de
futebol], com Fernando Madureira a liderar, a entoar cânticos insultuosos ao S.
L. Benfica no estádio da Luz, no jogo entre Portugal e Hungria. Também uma das
claques do S. L. Benfica entoou cânticos no pavilhão da Luz, num jogo de
andebol entre o seu clube e o Sporting C. P., com destaque para “Foi no Jamor
que o lagarto ardeu, na final da Taça o very light o f…”, simulando o silvo do
very light enviado por um membro da claque “No Name Boys”, que matou o adepto
do Sporting, em 1996. A resposta da claque do Sporting C. P. num jogo de futsal
no pavilhão da Luz entre os clubes rivais de Lisboa, foi entoar “Onde é que
está o Eusébio”. Poucos dias depois, foi repetida a dose pela claque do S. L.
Benfica, no jogo de futebol em Alvalade, no dérbi lisboeta. Na véspera deste
jogo, cerca da 02h40, terá havido confrontos entre adeptos de ambas equipas
junto à rotunda sul do estádio da Luz e um adepto italiano da Fiorentina, que
acompanhava adeptos da Juve Leo, foi atropelado mortalmente por uma viatura
(segundo as autoridades, de forma intencional). Sabe-se que a vítima tinha “ficha
policial por violência no desporto” [em Itália] e que a viatura, já encontrada,
pertence a um adepto do Benfica, a qual terá sido guardada num espaço de um
amigo, membro da claque No Name Boys.
São comportamentos inaceitáveis e casos
de polícia, a merecer rápida e eficaz resposta, a necessitar de fortes cliques
na cabeça, para se encontrar um rumo adequado. Quando se esperava um
comportamento apaziguador dos respetivos dirigentes, eis que surgem na ribalta
pelas piores razões. O desporto e o futebol, em particular, dispensam bem este
tipo de pessoas. Isto faz muito mal à própria indústria do futebol, que pode
gerar muitos milhões, além de genuínas, vibrantes e compreensíveis paixões.
Por detrás dos vidros, talvez entenda
quem utiliza o “escape” da ciclovia, do ténis, da natação e mais o que a minha
vista não alcança daqui. É que a vida não comporta só a “loucura” do futebol… e
louvo quem faz algo pelo seu próprio equilíbrio físico, procurando estar livre
de poluição mental.
© Jorge Nuno (2017)
01/04/2017
CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (56) - Crónica: "(In)verdades... Para Inglês Ver"
(IN)VERDADES…
PARA INGLÊS VER
O
Jornal Económico, na presente semana, tem um título assustador: “Tsunami vai
engolir a Península Ibérica”. Para quem lê o título, associaria imediatamente a
sensacionalismo ou a uma brincadeira de mau gosto. Não, garanto que nada tem a
ver com o Dia das Mentiras! Refere o documentário “La Gran Ola (A Grande
Onda)”, realizado pelo espanhol Fernando Arroyo. O próprio terá dito: “esta é a
verdade sobre os tsunamis em Espanha e em Portugal. Podem acreditar… ou não”.
No desenvolvimento da notícia pode ler-se: “será apenas uma questão de tempo
antes que um muro gigante de água atinja a costa de Espanha e Portugal”.
No
princípio dos anos 90, recebi formação na Proteção Civil, em Lisboa; aí ouvi
abordar, também, a eventualidade de haver um enorme tsunami, provavelmente
idêntico ao verificado no terramoto de 1755. Sobre a previsibilidade destes
estudos não creio que se possa falar em verdade ou mentira, nem será uma
questão de fé, ainda mais pelo facto de uma frase retirada do contexto provocar
adulteração do sentido. Pessoalmente, entendo haver a forte probabilidade de
ocorrer um tsunami, em zonas de falhas sísmicas. O problema será real e uma
verdade indesmentível, isso sim, ao não se acautelar essa possibilidade, não
criando as condições de deteção de um fenómeno dessa natureza de modo a
minimizar os estragos catastróficos que venham a ocorrer.
Igualmente
num programa televisivo sobre economia, na RTP3, nesta mesma semana, poderia
ficar pasmado com alguns comentários sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e, por
exemplo, como um desastre ecológico pode fazer aumentar o PIB. Mas não fiquei.
Se seguirmos o raciocínio dos economistas – em que muitos sugerem que “o PIB
distorce a realidade, pois mede a produção, independentemente de ser boa ou má,
desde que haja transação de moeda (ficando de fora a economia doméstica,
informal ou ilegal)” –, então o PIB contabiliza as indústrias poluentes, já que
leva ao investimento posterior na recuperação dos danos causados por essas
mesmas indústrias. Estranhamente, se se juntar uma imensidão de voluntários
para minimizar os estragos… esse trabalho não entra no PIB. Certamente alguém
dirá: “não, não pode ser verdade!”.
E
se acrescentar que nesse mesmo programa televisivo foi dito [com toda a seriedade]
que “a economia grega deu um salto de 25% porque contabilizou a prostituição”?
Estou mesmo a antever a reação: “Oh… este está a dar-me tanga!”.
Também
“no Reino Unido uma hora de sexo paga soma valor para o PIB, mas apenas a
prostituição feminina é considerada atividade económica. A prostituição
masculina não tem a mesma dignidade estatística”. Agora digo eu: “Vá-se lá
saber porquê!”.
A
questão é que “o PIB não faz julgamentos morais: se a prostituição é monetizada
e se a troca for registada, por que não incluí-la?”, foi dito. Poderá não ser
inocente as várias tentativas para legalizar a prostituição em Portugal, claro…
com iniciativa no Parlamento, onde demasiadas vezes se ouvia dizer: “Vossa Excelência
acabou de dizer uma inverdade!”; agora já se vai dizendo: “Vossa Excelência
mentiu!”.
Também parece clara a
afirmação do presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem – que diz
ser direto – e disparou, abusivamente, a ideia que “os países do sul gastam
dinheiro em copos e mulheres e depois pedem solidariedade”, para logo referir
que foi mal interpretado e que se referia a si próprio (ao sentir-se fortemente
atacado por todos os quadrantes políticos). Ora bem, se o PIB holandês está
controlado e o PIB português é uma constante preocupação para todos; se no
conjunto de quatro dezenas de países mundiais, Portugal está em sétimo no
número médio de horas de trabalho anuais e a Holanda está em penúltimo; se a prostituição
não está legalizada em Portugal e está na Holanda; se os portugueses continuam
a ter fraquíssimos rendimentos do trabalho comparativamente com os holandeses;
se o senhor Dijsselbloem admite que é ele que gasta dinheiro nos copos e
mulheres, então, tudo isto ajuda a compreender como melhorar o PIB, e que foi
errada a medida de austeridade que ele próprio ajudou a impor em Portugal.
Há
determinados factos incríveis que ocorrem na nossa vida, como algo surreal,
pelo absurdo, que nos sentimos impelidos a mentir (mesmo que seja uma pequena
mentira, sem consequências e perfeitamente evitável); é que ao dizermos a verdade
parece que ninguém acredita, ou fica dúvida no ar. E se formos aldrabões
compulsivos? Bem, para estes há o ditado: “Mais depressa se apanha um mentiroso
do que um coxo”. E se ousarmos mesmo dizer a verdade e não tivermos medo de
cair no ridículo? E se disser que escrevi um poema, em inglês, e que me
asseguraram, em Londres, que o loiro Boris Johnson – o mentor do Brexit – o
leu? Inicialmente, confesso que eu próprio não acreditei, porque não o estou a
ver interessado em poesia. Não tenho a pretensão de dizer que o meu poema teve
algum efeito na decisão desta saída anunciada da União Europeia [UE], o que
seria algo verdadeiramente incrível, por se tratar de um português. Mas verdade,
verdade… é que agora a UE ficou agitadíssima, para não dizer assustada, e o
próprio RU tem no seu seio a Irlanda do Norte em polvorosa (para não variar) e a
Escócia a querer a referendar novamente a “independência”, para regressar à EU
(a lembrar que os fracos não desistem).
Para
que não se pense que estou a “dar tanga”, aqui fica o poema, escrito já em 2012,
a dar [timidamente] razão aos britânicos por não querem estar na moeda única:
POEM FOR THE ENGLISH TO SEE
(Poema para Inglês Ver)
You know, my friend, you
certainly do!...
Our countries have something
in common in the Guinness.
I mean the world’s oldest
diplomatic allegiance.
Which dates back to the war of
Aljubarrota, fought against Castela!
You also know that since then
not everything has been a bed of roses.
There have been clever
opportunistic men in this country,
wanting to connect Angola and
Mozambique
and they called it the pink
map.
Your ultimatum called them to reason
and put an end to their plan
(no wonder, you owned the
world’s biggest Empire!)
that Allegiance and the
African colonies forced us into a World War
against the German expansion,
taking the lives of 10.000
Portuguese citizens.
Putting that aside and forgetting
the competition for global economic interests.
Today, there’s the sun and the
beaches in the Algarve,
The tourism and hotel
business,
in the most representative
Portuguese places,
nightlife, beer, plenty of
beer and football!
Perhaps I didn’t like you that
much…
and I criticized you, I called
you conservative for keeping the pound.
Damn…
you surely were right!
© Jorge Nuno (2017)
21/03/2017
CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (55): Crónica - "Gestos de Cidadania e Construção de Moinhos"
GESTOS
DE CIDADANIA E CONSTRUÇÃO DE MOINHOS
Entre as múltiplas
atividades que promoveram o meu crescimento, registo, com agrado, a dedicação
de cerca de 30 anos da minha vida à educação e formação de adultos, alguns
envolvendo uma complexa diversidade cultural na escola. Pode soar a autoelogio,
mas não deixo de referir que quase na totalidade desse tempo senti-me motivado,
com iniciativa na procura da inovação, tendo-me envolvido em projetos de
importância estratégica para o país, abrangendo este setor, mas particularmente
para as pessoas – os verdadeiros destinatários dessas estratégias –. Tinha
consciência de que por trás do meu ganha-pão estava o interesse social da
atividade realizada. Talvez como resultado desse meu crescimento sustentado,
enquanto pessoa, encarei esta atividade com profissionalismo e espírito de
missão. Tive mesmo genuínos momentos de alegria interior quando fui professor nos
primeiros quatro anos de uma universidade sénior, até mudar de região e de
panorama.
Não tenho dúvida
que políticas erradas, a começar pelo “deitar abaixo” projetos em marcha com
provas dadas, passando também pelo desinvestimento público no setor, até se
sentir o vazio que fica, o desencanto dos agentes da educação e da formação, o
baixar de braços, apatia generalizada, o crescimento do voyeurismo através da
TV e de outros programas da treta, com os canais televisivos a baixar o nível
qualitativo dos programas, numa competição desenfreada para obter as maiores
audiências… Sabemos que a vida é feita de altos e baixos, ficando agora a ideia
que estaremos perante um novo fôlego, com o atual Presidente da República (PR) portuguesa
a deixar transparecer que a quer puxar para cima.
Lembro-me de ter
lido algures que “quem não promove a cultura por uma questão ‘cultural’ não
quer que os outros pensem cidadania”. Lembro-me da minha persistência em querer
passar a mensagem que a cultura pode levar a que sejamos interventivos na
sociedade, para que haja mais vontade de sermos atores, declinando a ideia de
sermos meros espetadores passivos. Mais cultos, não permitiríamos a
continuidade da existência de mecanismos de esbanjamento dos dinheiros
públicos, pois seríamos mais vigilantes e exigentes. Mais cultos, não nos
deixaríamos enganar pela demagogia e por populismos extremistas. Mais cultos,
não permitiríamos que a democracia fosse mal-usada, a ponto de a tornar frágil,
já que instituições fortes e credíveis seriam sustentadas por pessoas responsáveis,
com caráter, exigentes consigo próprias e com os outros.
Acabei de ler numa
nota de rodapé de um canal televiso, sem saber mais pormenores, que o
presidente americano quer diminuir o investimento federal nas artes e nas
humanidades. Durante a campanha eleitoral, quando confrontado com uma notícia de
1998, que dava conta de ter afirmado que seria simples ser candidato pelo
Partido Republicano “porque os seus eleitores são burros”, não desmentiu
(apesar da notícia poder ser falsa) e terá dito que não se importava nada que
estúpidos e ignorantes votassem nele, desde que, com isso, contribuíssem para a
sua eleição. Muitas outras notícias, eventualmente falsas, colocadas nas redes
sociais, terão contribuído para atrair eleitores indecisos e pouco
esclarecidos. Vitorioso, em tempos de mudança, continua a ordem para a construção
dos muros.
Contrastando, tenho
vindo a ser surpreendido, pela positiva, pelo atual PR de Portugal. Uma das
últimas surpresas relaciona-se com a devolução (não doação) de 45 mil euros que
sobraram da sua campanha eleitoral, paga com dinheiro dos contribuintes. E
fê-lo, entregando 20 mil euros à Associação de Solidariedade Social e
Recreativa de Nespereira, uma IPSS de Cinfães, que ele considerou ser um dos
concelhos mais carenciados do país, sendo essa quantia destinada à aquisição de
uma carrinha de apoio domiciliário; entregou também 25 mil euros ao agrupamento
de escolas de Mogadouro, destinado ao investimento num laboratório – que não
tinha –, ficando a saber-se que este agrupamento ficou em último no ranking das escolas, ao nível de ensino
secundário. Houve logo quem comentasse publicamente o assunto, referindo-o como
“esmola presidencial”, de querer um povo “venerador”, que “a generosidade do
Presidente pode ser uma precipitada e pouco informada beatitude”… Todos sabemos
que não é da competência do PR efectuar este tipo de financiamento e que nada o
obriga a seguir as pisadas e a ter a postura dos seus antecessores. Os mais
esclarecidos sabem que o ranking das
escolas é de uma tremenda injustiça, por compararem realidades diferentes. Os
mais esclarecidos não aceitam que as IPSS tenham a importância que têm hoje,
particularmente no interior desertificado, quando os governantes têm
ferramentas para possibilitar aos setores público e privado desenvolver essas
regiões, criar riqueza e minimizar a pobreza e o isolamento das populações.
Também os esclarecidos chineses, através de um seu provérbio milenar, sabiam e
sabem que “quando sopram ventos de mudança, uns constroem muros, outros
constroem moinhos”.
© Jorge
Nuno (2017)
04/03/2017
CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (54) - Crónica: "Quando a Raposa Guarda o Galinheiro"
QUANDO
A RAPOSA GUARDA O GALINHEIRO
Escreveu
María Elvira Pombo Marchand, no seu livro “Pela mão dos anjos”, que “Magia é a
capacidade de nos transformarmos assim como à nossa realidade”, dando a
indicação que “o objetivo da magia é a felicidade. O requisito principal para
que aconteça magia é acreditar que tudo é possível”. Também Kyle Gray escreveu,
no seu livro “Orações aos anjos – como pedir ajuda ao céu para criar milagres”,
que “rezar é algo universal. Todas as religiões e sistemas de crenças incluem
uma ou outra forma de oração. Todos os dias, as pessoas rezam para ter saúde,
dinheiro, sucesso, ou até só para terem boas colheitas. Para muitos, a oração é
uma prática diária; para outros, o último recurso em desespero de causa”. Pois
bem, dirijo-me a crentes e a não crentes e informo que hoje é o Dia Mundial da
Oração. Entendo que, a comemorar-se este dia, deveria ser no Dia de Todos os
Santos, pois a oração coletiva, reforçada a Todos os Santos, poderia trazer
magia e criar autênticos milagres, com maior facilidade. E como estamos a
precisar que aconteça magia e autênticos milagres!…
O
Banco de Portugal (BdP), através da nota de informação estatística 23/2017,
anuncia um acréscimo da dívida pública em janeiro de 2017, estando agora nos
242,8 mil milhões de euros, que resulta de um aumento de 1,8 mil milhões de
euros, relativamente ao final do ano de 2016. Quando estão apontadas falhas
graves à supervisão do BdP – longe de cumprir a sua missão e ainda a ocultar
informação pertinente, por se considerar soberano e não ter de prestar contas a
ninguém, o que não deixa de ser estranho num estado democrático –, eis que o
governo quer impor duas mulheres no conselho de administração do BdP, quando o
expectável seria atalhar pela substituição do fragilizado governador.
O
polémico assunto dos e-mails trocados entre o anterior presidente da CGD e o
atual ministro das Finanças acaba por ser abafado, temporariamente, com o
surgimento de nova polémica. Esta dá-nos conta que, entre 2010 a 2014, teriam
sido transferidos para offshores em
paraísos fiscais valores aproximados a 4 mil milhões de euros / ano; em 2015
dispara para 8.885 milhões de euros. O atual secretário de estado dos Assuntos
Fiscais – o tal que viajou para Paris, para ver o jogo Portugal – Hungria, no Campeonato
Europeu de Futebol de 2016, a expensas da GALP, apesar de representar o estado
português num conflito fiscal milionário com essa empresa, por esta recusar o pagamento
de dois impostos com um valor total superior a 100 milhões de euros – deu
indicação aos serviços de administração tributária para verificação das
declarações entregues pelos bancos no portal da Autoridade Tributária (AT) e
ter-se-á concluído que havia falhas no registo dos offshores, entre 2011 e 2015. Este facto originou que essa
imensidão de dinheiro saísse do país, sem controlo nem o correspondente
pagamento de impostos. Em audição parlamentar, ainda desresponsabilizou
politicamente os governantes, dizendo que se terá tratado de um erro
informático e deixou no ar a ideia de que não terá havido manipulação de
informação para encobrir uma eventual fuga de capitais. É afirmado, publicamente,
que estariam ocultas 97% das transferências financeiras para offshores do Panamá.
O
secretário de estado dos Assuntos Fiscais do anterior governo, após esta
descoberta, também em audição parlamentar, veio dizer que ocultou o facto para
não alertar e, com isso, poder vir a beneficiar o infrator. Assumiu
individualmente essa responsabilidade (coisa rara), acrescentando que “não há
impostos perdidos nas transferências em causa” (coisa estranha) para, de
seguida, ser elogiado pelo caráter (coisa bizarra) por uma deputada do CDS-PP,
partido onde é membro da Comissão Política Nacional. Apressaram-se os habituais
comentadores acreditados na matéria, instalados em determinados canais
televisivos, a explicar da legalidade das operações e a minimizar esta ocorrência,
retirando-lhe a carga política, atirando a responsabilidade para os técnicos
que manuseiam os sistemas informáticos, manipulam a informação e fornecem, aos
respetivos políticos em funções no setor, os dados trabalhados, que é suposto
serem credíveis. Lembra-se que, por aquela altura havia a estratégia,
incentivada pela troika, de “espremer” os portugueses da classe média-baixa e
todos os que já possuíam baixos rendimentos, como sendo a única alternativa
para resolver os problemas de insolvabilidade do país.
O
referido ex-membro do governo é advogado, especialista em direito fiscal,
docente da disciplina de fiscalidade no “Mestrado em Direito e Gestão” promovido
pela Nova School of Business and Economics, em Lisboa. É neste estabelecimento
do ensino superior, e noutros similares, em cursos financiados, em parte, com
dinheiro dos contribuintes, que se formam os reputados fiscalistas, a quem mais
tarde é dada uma remuneração principesca pelo seu trabalho, tendo em vista
ultrapassar os “podres” da legislação e permitir às empresas fugir aos
impostos. Numa altura em que o atual governo, através de uma equipa de juristas
da Presidência do Conselho de Ministros, está a procurar limpar a legislação
desadequada à atualidade, tendo já sido encontradas 1500 leis obsoletas
aprovadas entre 1974 e 1978, estará na hora de se deixar de encomendar
legislação a conhecidos grupos de advogados associados que, com alguma
promiscuidade na sua ligação a deputados, têm criado legislação com “buracos” e
mais tarde assessorarem na solução. Entretanto, é confrangedor ver que não se
usa os instrumentos da procura da incómoda verdade… enquanto passa incólume
quem faz uso dos paraísos fiscais, por falta de mecanismos de troca de
informação ou de vontade de exercer o controlo.
O
ex-Dono Disto Tudo, do BES, no interrogatório judicial da Operação Marquês,
terá referido que “só o diabo pode explicar coincidências das transferências
para Bataglia e os negócios da PT [que leva dois importantes antigos gestores
da PT a serem constituídos arguidos, por benefício próprio de muitos milhões].
Do Grupo Espírito Santo terá sido desviado 8 milhões de euros para um offshore, em nome do ex-Dono Disto Tudo,
havendo um comunicado dos seus advogados a referir que esta operação e “a tese
de fortuna escondida (…) é pura ficção”.
Apesar do diabo ter
sido queimado recentemente pelo Carnaval, quem sabe se, em Dia Mundial de
Oração, não se justificará mesmo as orações a Todos os Santos, centradas num
único objetivo – impedir que as raposas deixem de guardar os galinheiros –.
© Jorge Nuno (2017)
21/02/2017
CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (53) - Crónica: "Vacas que Riem - Vacas Felizes"
VACAS QUE RIEM — VACAS FELIZES
Numa
minha anterior crónica, escrita já em 2017, abordei a notícia que dava conta
que um produtor do Reino Unido descobriu que as suas “cabras produzem mais de
20% de leite do que o habitual, quando expostas ao tema “All I want for
Christmas is you”, de Mariah Carey. Não tenho razões para duvidar que tivessem produzido
mais, mas, sinceramente, não acho que sejam “cabras felizes”. Não estou a ver
este produtor a colocar altifalantes nos prados verdes e húmidos do Reino
Unido, para extasiar musicalmente os seus animais. E não estou a ver estas
cabras felizes por estarem sempre a ouvir o mesmo tema, independentemente
da preferência do produtor de leite por esta cantora, compositora e produtora
musical americana.
É
que nós por cá, no arquipélago dos Açores, temos vacas que são criadas em
prados verdes, apresentam boa produção leiteira e são mesmo apelidadas de
“vacas felizes”. Estas vacas são expostas apenas ao puro som do marulhar, da
sinfonia dos pingos da chuva atlântica, da húmida brisa, da folhagem da
vegetação (com pastagens verdejantes cercadas de hortênsias azuis) e do som
telúrico saído das profundezas destas ilhas vulcânicas, numa concórdia de
elementos que embriagam. Trata-se de um programa natural, criado pela mãe-natureza,
com a qual as vacas tão bem se harmonizam.
Já
me tinha habituado à imagem do queijo “La vache qui rit” [criado em França, em
1921], com uma vaca muito simpática e sorridente, tendo como brincos duas
embalagens de queijo fundido, cremoso, em triângulos e que depois vi convertido,
em Portugal, para “A vaca que ri”, nos mesmos moldes.
A
Bel Portugal detém as marcas “A vaca que ri”, “Mini Babybel”, “Terra Nostra” e “Limiano”.
Com novos proprietários em 1999, foi deslocalizada a produção desta última
marca de Ponte de Lima – que lhe deu o nome – para Vale de Cambra, tendo Daniel
Campelo efetuado greve de fome em defesa deste queijo, do nome e da manutenção
da fábrica em Ponte de Lima. Um ano depois, este ex-deputado do CDS negociou com
o governo um pacote de medidas especiais para o concelho minhoto, numa altura
em que o governo precisava de um voto no parlamento para aprovar o Orçamento de
Estado. Ficou conhecido como o “deputado do queijo”, tendo originado imensas
piadas e muito riso coletivo, provavelmente contagiando as vacas daquela bela e
ainda virgem região minhota.
Como
a BEL Portugal pertence ao grupo francês Bel, que sabe do ofício, o marketing
foi feliz ao propor a criação do programa da marca “Terra Nostra”, que intitulou
“Programa Leite de Vacas Felizes”. Como se não bastasse o nome do programa,
deu-se ao cuidado de apontar cinco razões para se beber leite desta marca, com
destaque para o facto de se tratar de leite de pastagens, legível na própria
embalagem:
–
Terra única – Açores – terra vulcânica onde a chuva atlântica rega os nossos
pastos o ano inteiro;
–
Bem-estar animal – as nossas vacas vivem felizes ao ar livre 365 dias por ano e
não fechadas em estábulos;
–
Erva fresca – as nossas vacas desfrutam de alimentação natural e saudável à
base de erva fresca;
–
Leite puro – leite de elevada qualidade, exclusivo de produtores do Programa de
Leite de Vacas Felizes;
–
Rico nutricionalmente – recolhido em menos de 24 horas para manter a sua
frescura, este leite é naturalmente rico em proteína, cálcio e fonte de
fósforo.
Resumindo,
o programa assenta nas pastagens, bem-estar animal, qualidade e segurança
alimentar e eficiência. Foi bem-sucedido, a ponto de ser premiado,
recentemente, nos Troféus Luso-Franceses (22.ª edição), promovido pela Câmara
do Comércio e Indústria Luso-Francesa.
Terá
sido injusto se não mostraram o prémio às vacas felizes, que dão todos os dias
mais que o “litro”. Deve fazer-se tudo para que se mantenham felizes. Os
promotores, que gostam de testar coisas novas, esqueçam a música da Mariah
Carey, os altifalantes a estragar o ambiente paradisíaco, ou sequer os vários
meios de comunicação social por perto. Elas não gostariam de saber alguns
destes factos, como mera exemplificação:
–
desde 2011 fecharam 1620 balcões (da banca), em todo o país, a uma média de um
balcão por dia; que a banca tem vindo a tremer e nesse período de tempo já
perdeu cerca de 10.000 funcionários e que, como se não bastasse, a Caixa Geral
de Depósitos vai dispensar mais 2.200 funcionários até 2020;
–
o que está escrito no relatório da precariedade no Estado, que dá conta de
116.165 contratos temporários no Estado e nas empresas públicas e que não
contempla os inúmeros falsos recibos verdes e recurso a “outsourcing”, havendo
55.974 contratos a termo, dos quais 26.133 é na Educação, 12.771 na Defesa Nacional,
11.180 na Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e 3609 na Saúde, entre outros,
dando o Estado um sinal muito negativo ao setor privado;
–
o que está escrito no relatório do projeto “Saúde.come”, com a coordenadora
Helena Canhão a dar conta da expressiva percentagem das famílias portuguesas
sem acesso a uma boa alimentação, que provoca menos eficácia no estudo e no
trabalho (assim não se pode exigir o “litro”), em que a falta de poder
económico terá potenciado este problema, além da deficiente informação, o que origina
uma espiral de problemas, que passa pelas doenças crónicas graves, como obesidade
e diabetes;
–
a necessidade do presidente da República vir a público chamar a atenção para a
necessidade de se arranjarem estratégias de combate à pobreza, alguém se agita,
momentaneamente, como tendo urticária, para ficar tudo na mesma;
–
os vários processos em tribunal que se arrastam, estrategicamente ou pela
complexidade dos processos, contra pessoas acusadas de corrupção, fraude fiscal
e branqueamento de capitais, só faltando a tentativa de regular a
despenalização da corrupção, como na Roménia;
–
de ver a agência de rating Fitch elogiar o governo português pela sua
capacidade de gerar consensos, congratular-se com a meta do défice conseguido e
manter Portugal como “lixo”;
–
a dualidade de critérios no seio da União Europeia (EU), que enfraquece e
prejudica os Estados-membros mais frágeis, criando instabilidade na união
monetária.
Mas,
sinceramente, não creio que as vacas queiram deixar de ser felizes ao saber se
o Banco Central Europeu diz se está preparado (ou não) para comprar dívida
portuguesa e se detém atualmente 25,2 mil milhões de euros de ativos
portugueses, continuando Portugal, progressivamente, a sua caminhada de
endividamento, hipotecando o presente e o futuro. Sinceramente… não creio, pois
também os portugueses não me parecem estar interessados nesse tipo de notícias.
Sei que as vacas felizes estão a dar mais que o “litro” e estranho a baixa
produtividade dos portugueses, evidenciada pelo Eurostat em 2011, colocando Portugal
quase no fim da lista de países da UE, quanto a produtividade real por hora
trabalhada. Estranho ainda mais, já que o estudo da Católica Lisbon School of
Business & Economics, promovido pelo Observatório da Sociedade Portuguesa, em
plena crise no país, concluiu que os portugueses sentem-se felizes (72%) e
satisfeitos (67%) com a vida. Decididamente, parece que ninguém quer deixar de
ser feliz e acho que é o caminho certo! Mas não à custa da falta de
conhecimento / ignorância dos problemas, situação cómoda em que se fica sempre
à espera que alguém resolva por nós.
© Jorge Nuno (2017)
20/01/2017
CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (52): Crónica: "Hoje é Dia de Pequena Crónica - Como é Possível?"
HOJE
É DIA DE PEQUENA CRÓNICA – COMO É POSSÍVEL?
Há muito que ando para escrever uma
crónica pequena e não consigo. Tenho consciência que quanto maior for a crónica
menos as probabilidades de ser lida, já que há a tendência natural para desencorajar
a leitura até ao fim, mesmo que o tema seja entusiasmante para quem escreve e
para quem lê; e só gosto de escrever sobre o que me entusiasma. Assim, faço
hoje um apelo interno à minha capacidade de síntese para a encurtar e, reparo,
com esta introdução já ocupei [até aqui] seis linhas e vou escrever sobre algo
que não me entusiasma, já para não aplicar a palavra “fascina”! Vamos então ao
que interessa, se é que interessa.
Em surdina, tenho andado a remoer: “como é
possível, num país com a grandeza dos Estados Unidos da América, o Partido
Republicano não ter conseguido eleger um candidato credível e consensual, de
modo a sentir-se que será o presidente de todos os americanos?”; “como é
possível um candidato presidencial [o mesmo, de referido partido] avançar para
uma campanha, baseada no improviso, sem a estratégia do próprio partido?”; “como
é que um candidato, com aquele perfil, foi capaz de vencer as eleições
presidenciais?”; “como é possível um candidato eleito agitar tanto o mundo,
deixando-o à beira de uma ataque nervos?”; “como é possível o presidente
cessante dizer adeus à Casa Branca com um índice de popularidade de 60% e um
presidente a tomar posse no cargo com o referido índice nos 40%?”; “como é
possível um candidato eleito ter aberto frentes de hostilidade contra países da
União Europeia, países tradicionalmente amigos, e fazer um novo inimigo de
estimação – a China?”; “como é possível um país, com serviços de inteligência e
meios tecnológicos sofisticados, deixar que outro país – com quem mantém uma
“guerra fria” de muitas décadas – consiga desvirtuar a intenção de voto e,
depois disso, surgir como país amigo?”.
Bem posso questionar!...
Valha-nos ao menos, por cá, a vitalidade e
popularidade do interventivo presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que,
mantendo-se em elevado estado de graça, surge a todo o instante em todo o lado,
distribuindo afetos, beijos, abraços e tirando selfies sempre com um sorriso, incluindo apanhar roupa da corda a
uma idosa, enquanto dialogava com ela, ou uma ida ao encontro de sem-abrigo,
numa noite gelada. Este perfil, faz com que seja o político mais perto do povo
(apesar de sempre ter pertencido às elites) e obtenha o maior índice
de popularidade de toda a classe política; no final do ano anterior, chegou a
bater todos recordes de popularidade (desde que existe o barómetro da
Universidade Católica Portuguesa), com uma notoriedade de 99% e 97% de
avaliações positivas, através de inquirição do CESOP – Universidade Católica. Então
o contraste é claramente enorme quando se pensa na má imagem de Cavaco Silva na
hora de saída do cargo, avaliado com a nota negativa de 7,7 pelo mesmo
barómetro. Não admira que o Observador tenha considerado o atual
presidente da República como a Figura Política do Ano (2016).
Apesar de nós, portugueses, termos a
tendência para sermos muito rezingões e acharmos que tudo está mal… eu acho que
Portugal é um país muito especial. É fácil gostar-se deste país, e não é só
pelo sol, paisagem e gastronomia. É que mesmo em plena vaga de frio, a assolar
toda a Europa, o que mais brilha é o calor humano, com o presidente português
no topo da pirâmide, enquanto durar o estado de graça. Mas esse estado de graça
cultiva-se e, seguramente, não é semeando ventos!
Obs.: se a crónica não ficou assim tão
pequena é porque, afinal, entusiasmei-me!
© Jorge Nuno (2017)
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