01/11/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (6) - Um País de Vanguarda (Parte III)

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Terceira Parte)

Porque a periodicidade das crónicas é quinzenal, relembra-se o seguinte: a Parte I, com o mesmo título, aborda a grandiosidade de Portugal na sua época áurea – século XVI – que espantou pela dimensão dos feitos conseguidos, assim como pela ousadia e estoicidade, que evidenciava o caráter dos portugueses; a Parte II, refere como as características de Portugal e dos portugueses podem ser fonte de inspiração para outros povos, tendo sido apontados vários sucessos alcançados no presente, num curto espaço de tempo, que coloca o país na vanguarda, em vários domínios; nesta Parte III, pretende-se abrir a janela do futuro, consciente de que ele é incerto, pois depende de diversas variáveis, mas em que o rumo poderá ser corrigido e apontar-nos algo necessariamente diferente, desde que construído coletivamente, de forma consciente.

Para se perceber melhor o alcance, retrocedamos à tal época áurea, com base no que escreveu Roger Crowley[1]: “D. Manuel I tivera a sorte de nomear dois comandantes – [Francisco de] Almeida e [Afonso de] Albuquerque – incorruptíveis e leais, o último destes sendo também um dos maiores conquistadores e um construtor visionário do império. Nunca tendo sob o seu comando mais do que alguns milhares de homens, recursos improvisados, navios roídos pelos bichos e uma ambição avassaladora, Albuquerque ofereceu-lhe um império no oceano Índico, assente numa matriz de bases militares fortificadas. Ao fazê-lo, os portugueses surpreenderam o mundo. Ninguém na Europa previra que este país pequeno [também por ser pobre] e marginal irromperia de tal forma na Ásia, uniria os hemisférios e construiria o primeiro império global. (…) A expansão portuguesa, cada vez mais nas mãos de comerciantes privados, estendeu-se aos mares para além de Malaca: as ilhas Molucas, China e Japão. (…) Os portugueses com os seus canhões de bronze (…) uniram o mundo. Foram os mensageiros da globalização e da idade científica dos descobrimentos. Os seus exploradores, missionários, mercadores e soldados espalharam-se pelo mundo. Estiveram em Nagasáqui e Macau, nas terras altas da Etiópia e nas montanhas do Butão. Atravessaram os planaltos tibetanos e subiram o Amazonas. Ao viajar, criaram mapas, aprenderam línguas (…)”. E citou Luís Vaz de Camões[2]: “E se mais mundo houvera, lá chegara”. Tudo, em grande parte, na presunção de D. Manuel I que era um rei messiânico – aspirante a rei dos reis – destinado a grandes feitos, tendo sempre presente a cruzada contra os muçulmanos.

Hubert Reeves[3] refere: “No mundo existe a mudança. O quente torna-se morno. Os corpos caem. O fogo arde e as achas consomem-se. Estas transformações não se fazem arbitrariamente. São ligadas entre si por uma espécie de troca monetária. A moeda, neste caso, é a energia, que permite manter ao físico a contabilidade dos fenómenos que estuda. Num canhão, uma carga de pólvora explode. A energia química (de origem electromagnética) é transformada parcialmente em energia térmica (o canhão aquece). A soma das energias, cinética e térmica, é igual à energia química libertada”. Através do conhecimento, quando tomarmos consciência da importância da energia libertada/movimentada, incluindo a do “simples” pensamento, a mudança do mundo será ainda mais rápida e (re)orientada, de modo a dar mais sentido à transformação.

Segundo Jan Val Ellam[4] “Se o conhecimento se der livremente, a perceção voará alto, tão alto quanto permitam as asas da sensibilidade espiritual de quem desejar realmente ultrapassar os seus preconceitos e limitações. Ultrapassar, enfim, os seus próprios limites”. É deste despertar que muito se fala e que terá consequências positivas na necessária transformação.

Diana Cooper – que previu os grandes incêndios – escreveu[5], referindo-se a Portugal: “As pessoas aqui, como em muitas partes da Europa, estão desiludidas com a corrupção moral dos seus líderes e empresas. Elas começam a questionar e esse aumento de consciência exigirá mudanças. Apesar da resistência por parte do poder instituído, haverá transformações em todas as áreas da vida. As aquisições coloniais dos séculos XV e XVI enriqueceram o país financeira e culturalmente, mas criaram muito carma, ainda por resolver. (…) Este país será muitíssimo influenciado pela energia que vem de Fátima (…). O amor, a cura, a abundância e uma grande luz varrerão o território e, em 2032, Portugal estará transformado.

O colombiano Andrés Rios[6] refere que entre “os principais centros planetários revelados neste ciclo da humanidade” está “Lys, em Portugal”. “Lis – Fátima” surge como prolongamento de Lys e estará a cumprir a função-programa de “centro intraterrestre, que projetou a radiação em diferentes locais de Portugal”. Apresenta trabalho ao nível da “personalidade e alma coletiva da humanidade”, embora ainda com limitações devido “à comercialização e ao turismo espiritual que se tem feito nas suas diferentes áreas de influência”. Para crentes e não crentes, Fátima tem sido apelidada “O Altar do Mundo”. Este jovem diz, a dado passo: “(…) Escutai o campanário do vosso coração. Ele vos anuncia novas combinações. O coração é a ponte entre os mundos. O coração é a vossa verdadeira morada. (…) Um novo ciclo começa. A linguagem do coração é a instrução de hoje, a simplicidade no caminho, o vosso estandarte. Fogo, fogo, fogo: despertai e elevai a humanidade. (…) Tornai-vos colaboradores e construtores do bem universal. Que cada coração disposto a colaborar se torne numa pérola do Sagrado Colar. Um novo amanhecer se anuncia, é tempo de renovação”.

© Jorge Nuno (2017)
   



[1] In “Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global”, da Ed. Presença, Lisboa, 2016.
[2] In “Lusíadas”, Canto VII.
[3] In “Um Pouco Mais de Azul – A Evolução Cósmica”, Ed. Gradiva, Lisboa, 1981 (?)
[4] In “Reintegração Cósmica – Uma Preparação Para o Grande Dia da Renovação”, Ed. Pergaminho, Lisboa, 1999.
[5] In 2032 – A Nova Idade de Ouro – Uma Esperança Real para os Próximos 20 Anos”, Ed. Nascente, Amadora, 2012.
[6] In O Caminho do Lírio”,  Autores Editores, 2016.

04/10/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (5) - Um País de Vanguarda (Parte II)

UM PAÍS DE VANGUARDA

(Segunda Parte)

Depois da época áurea do séc. XVI – altura em que “Portugal criou o primeiro império global”, e reforçou a presença em várias partes do globo, em grande medida sustentada na “diplomacia musculada”, suportada pelo poder bélico da artilharia marítima – mesmo após mais cinco séculos de existência, numa caminhada plena de altos e baixos, pode haver a tentação de se pensar e dizer que Portugal vive do passado, que os portugueses são saudosistas… Creio que os portugueses têm boas razões para sentir orgulho nos seus antepassados, tal como a letra do hino nacional faz apelo: “Heróis do mar, nobre povo / Nação valente, imortal / (…) ó Pátria sente-se a voz / dos teus egrégios avós / que há de guiar-te à vitória (…)”. Também, de ter orgulho nos que se destacam no presente, pela positiva. Tudo isto, sem precisar de nacionalismos exacerbados. Mas os portugueses são conhecidos pela tendência generalizada para a modéstia, a simplicidade, o afeto, a simpatia, que tanto faz aproximar as pessoas – certamente, longe da perfeição – mas também conhecidos pela firmeza, visão, entrega e combatividade, sempre que há caminhos difíceis a percorrer e obstáculos a ultrapassar. 

O teor inicial desta crónica pode transmitir a ideia de se estar no papel de juiz em causa própria, mas as caraterísticas de Portugal e dos portugueses podem ser fonte de inspiração para outros povos. Logo após a criação de um governo minoritário construído pelo segundo partido mais votado nas últimas eleições legislativas, apoiado em partidos de esquerda com assento parlamentar – que à boa maneira portuguesa foi apelidado de “geringonça” – foram contrariadas/desafiadas as pressões externas, face à elevada dívida pública portuguesa e aos compromissos anteriormente assumidos. Decorridos menos de dois anos, terão ficado “deslumbrados” os mais céticos, face aos progressos obtidos. A tal ponto de algumas delegações estrangeiras virem a Portugal ver, “in loco”, o que fazer e como fazer, em condições semelhantes nos seus países. Ou o caso mais recente em que, na luta pela sua independência, catalães exibem cravos vermelhos, numa alusão à “revolução do cravos” de 1974, em Portugal, com alguns deles a cantar de cor “Grândola Vila Morena / terra de fraternidade / o povo é quem mais ordena /dentro de ti, ó cidade (...)”, num português perfeitamente entendível; tal, não é novidade, pois há muitas décadas que galegos entoam a canção de raiz popular portuguesa, celebrizada por Zeca Afonso: “Senhora do Almortão / ó minha linda raiana / virai costas a Castela / não queirais ser castelhana (…)”.

O “beber ideias” em Portugal acontece em várias áreas, com incidência ao nível da saúde, de que se destaca a Fundação Champalimaud / Centro Clínico Champalimaud –“Instituição médica, científica e tecnológica de última geração” –, com programas avançados nos campos da neurociência (tendo como novidade o tratamento de depressão, com máquina), e o sucesso no tratamento e investigação em doenças do foro oncológico. O neurocientista português, Rui Costa, principal investigador e diretor da Champalimaud Research foi distinguido, em junho de 2017, pela Academia Real de Artes e Ciência da Holanda, com a medalha “Ariëns Kappers”, por abrir caminhos “ao desenvolvimento de novas estratégias para tratar distúrbios como a doença de Parkinson, distúrbios de espetro autista e perturbações obsessivo-compulsivas”. São fortes razões para virem aqui (e para aqui) vários investigadores e especialistas estrangeiros.

Fruto de políticas controversas, bastaram dez anos para tornar Portugal “o país europeu com menos abortos por cada mil nascimentos”, reduzindo drasticamente o risco de vida e perseguição a que estavam sujeitas as mulheres que, pelas mais variadas razões, decidiam abortar.

Após investigadores, cientistas e empresas portuguesas darem contributos à NASA, na exploração espacial, surge agora a notícia de que investigadores do Instituto Superior Técnico, com o apoio do Instituto de Telecomunicações, venceram o concurso para colocar um satélite no espaço, através da Agência Espacial Europeia, competindo com outros projetos europeus. O satélite será 100 % português, ao nível de design, software e hardware, sendo anunciado que “destina-se a seguir aeronaves em voo”.

Um artigo escrito, em julho de 2017, em “O Jornal Económico”, por Leendert Verschoor e Meihui Chenxu, e intitulado: “Portugal: o segredo mais bem guardado da Europa”, dá pistas para empresários e investidores fixarem aqui a sua residência, e não é só pela “excelente qualidade de vida a um baixo custo” ou por ser “um país seguro, com mais de 300 horas de sol por ano e com fortes ligações ao resto ao mundo”.

Também ao nível do turismo, tem-se falado em Portugal, como um segredo bem guardado, pelo menos até agora. É que a diversidade da paisagem, o preservado património e o clima, a par do perfil dos portugueses, tudo conjuga para este país ser talhado para o turismo. Senão vejamos:
– A cidade do Porto, em 2017, recebeu pela terceira vez o prémio de “melhor destino europeu” pela “European Best Destinations;
– Lisboa, para a CNN, é a cidade mais “cool” da Europa e, da revista Wallpaper, recebeu o galardão de “melhor design de uma cidade”. No ano anterior, Lisboa já tinha sido considerada, pela Tapestry Research, “a cidade mais vibrante da Europa” e premiada, pelos World Travel Awards como “o melhor destino de cruzeiro”;
– Agora é a vez de Portugal ser premiado, também pelos World Travel Awards, como “o melhor destino turístico europeu”, o porto de Lisboa eleito “o melhor porto de cruzeiros da Europa” e o Turismo de Portugal, pela quarta vez consecutiva, eleito “o melhor organismo europeu oficial de turismo”.

Cada vez mais é frequente ouvir-se o hino nacional e o içar da bandeira portuguesa em eventos desportivos internacionais/mundiais, com atletas portugueses no pódio, englobando grupos etários cada vez mais jovens, o que é promissor. Entretanto, vamos ficando deslumbrados com a “loucura” de alguns atletas e aventureiros portugueses, muitos deles com forte ligação ao mar. É o caso de Francisco Lufinha, velejador e recordista da maior travessia sem paragens em kitesurf. Já tinha percorrido 874 km, em 48 h, entre a Madeira e o continente. Agora foi a vez de percorrer, em dez dias, cerca de 1646 km entre Ponta Delgada / Açores e Oeiras, acompanhado da sua convidada, a alemã Anke Brandt. Ambos tornaram-se recordistas da maior travessia oceânica em kitesurf.

Fernando Pessoa escreveu a seguinte quadra, no conhecido poema “O Infante”: “Quem te sagrou criou-te português / do mar e nós em ti nos deu sinal / cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez / Senhor, falta cumprir-se Portugal!”. Pois então, cumpra-se, já que há massa cinzenta e gente entusiástica e destemida q.b.

Tal como é possível ler num painel de azulejos de uma loja na zona histórica de Braga: “Não pedi para ser português, apenas tive sorte”.


© Jorge Nuno (2017)

24/09/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (4) - Um País de Vanguarda (Parte I)

UM PAÍS DE VANGUARDA
(Primeira parte)

Senti um genuíno interesse na leitura de “Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global”, de Roger Crowley. Este autor, que escreveu diversas obras de história, também nesta procurou avidamente o rigor, sendo inevitável que teve, para tal, de efetuar uma vasta investigação, baseada numa imensidão de documentos da época e traduções existentes. Inicialmente, não dá mostras de pretender enaltecer as qualidades dos portugueses, enquanto povo de vocação marítima, pois retrata muitas das suas fraquezas, ocultadas nos livros convencionais da história de Portugal. No entanto, acaba por relatar “como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo” e viveu a sua época de ouro no século XVI, temida (pelo poder dos canhões da artilharia marítima), respeitada (pela ousadia e também pela oportunidade de comércio) e odiada (tanto pelos muçulmanos, face à obstinada cruzada para “o extermínio do islão e propagação da cristandade sob um monarca universal[1]”, e por todos aqueles que perdiam direitos e influência, à medida que as naus portuguesas iam avançando rumo à expansão territorial e comercial). As iniciativas do rei D. Manuel I – que viria a assumir o título de “rei de Portugal e dos Algarves, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia” – tiveram a bênção papal, com direito à “posse perpétua das terras conquistadas aos infiéis, onde outros reis cristãos não tivessem reivindicações”.

É certo que naquela época houve um enorme esforço na construção de naus, canhões de bronze e outro armamento, angariação de tripulação e preparação das viagens, mesmo fazendo uso do ouro da Guiné e dos bens de judeus expulsos. Essas viagens realizavam-se em condições difíceis: elevado risco; desconhecido; hostilidades encontradas; insuficiente provisão de água doce e falta de lugares para abastecer; falta de géneros alimentares frescos e, principalmente, de citrinos, que tanto dizimaram tripulações. Mas com as boas notícias trazidas da Índia, no regresso de Vasco da Gama (mesmo que a viagem ficasse ensombrada pela perda de dois terços da tripulação), também houve um excelente trabalho na ocultação de segredos – obtidos com muito sangue, suor e lágrimas – e na divulgação dos êxitos, que chegaram aos pontos estratégicos da Europa e, em particular, Veneza, Génova e Florença, que detinham o monopólio do comércio de especiarias (vindas por terra, até ao Egito).

No final daquele reinado, ao nível de imagem exterior, Portugal estaria no auge, muito favorecido pelo comércio florescente, que seria fruto de um “projeto, simultaneamente, imperial, religioso e económico”. Tal, foi sustentado pela influência dos padres, monges e cavaleiros da Ordem de Cristo e dos astrólogos reais, mas acima de tudo pela obstinação de um monarca que, tendo herdado a coroa do primo – D. João II – acreditava “num destino messiânico” e predestinado a estes feitos. Arrogando-se “ter herdado o manto do seu tio-avô – o Infante D. Henrique, ‘O Navegador’ –, invocou obediência à sua missão divina” para prosseguir, perante a oposição da nobreza. Agora, seria um país ainda mais forte do que o de D. João II, anterior monarca que teve o arrojo de discutir e fazer aprovar o tratado de Tordesilhas, com os reis católicos Fernando de Aragão e Isabel I, “regateando a posse do mundo”, que dividido em dois seria pertença de Portugal e de Espanha, mais uma vez com a bula papal.

Entre imensos factos surpreendentes, realça-se a iniciativa e o secretismo de D. Manuel I no envio de emissários “a Henrique VII, em Inglaterra, ao rei Fernando de Aragão, em Espanha, a Júlio II [papa], a Luís XII, em França, a Maximiliano I, sacro imperador romano, convidando-os a participar numa cruzada naval pelo Mediterrâneo até à Terra Santa”, mas em que houve falta da resposta esperada. No entanto, D. Manuel I manteve firme a ideia de “destruição do bloco islâmico”, rotulado de “infiéis”. Em julho de 1505, “o papa concedeu a D. Manuel I um imposto de cruzada que poderia ser cobrado durante dois anos e remissão de todos os pecados para quem nele participasse”. Convenhamos, seria reconfortante e uma atenuante para quem participasse nestes ferozes combates, saber que todo o mal causado a outrem ficaria livre da condenação divina.

(Continua)

© Jorge Nuno (2017)




[1] Uma xilogravura de 1514 mostra-nos o rei D. Manuel I no trono, tendo à sua direita e esquerda, respetivamente, as armas do reino e a esfera armilar e, ligado ao ceptro real, uma fita com “DEO IN CELO TIBI AVTEN IN MVNDO” (A Deus no Céu e a Ti na Terra), o que faria a “ligação entre o terreno e o divino, perspetivando-o como um soberano universal a “aspirar ao título de imperador de um reino messiânico cristão”.  

08/09/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (3) - Portugal Sempre a Surpreender

PORTUGAL SEMPRE A SURPREENDER

Portugal sempre a surpreender! Uma notícia da TVI24, do dia 6 deste mês, dava conta que Portugal surge no ranking “Expat Insider”, da Internations, como o quinto melhor país do mundo para as pessoas que saem do seu país e decidem ir viver e trabalhar para outro. Num conjunto de 65 países mundiais, é mesmo considerado o melhor de todos a nível europeu! Teve uma subida surpreendente, pois em 2016 encontrava-se em 28.º lugar, entre os mesmos 65 países. Igualmente surpreendente é o facto de, ao nível de qualidade de vida, também estar no topo do ranking e igualmente “em primeiro na forma como os expatriados se sentem bem recebidos”. Decididamente, os portugueses são um povo generoso e que irradia simpatia.

Foi evidente essa generosidade com a desgraça alheia, quando ocorreram os descontrolados incêndios deste verão no centro do país. No final de julho falava-se no apuramento de cerca de 13, 14 ou… 15 milhões de euros, quando também se dizia terem sido recolhidos 24 milhões de euros. Isto, depois de se registar de imediato uma enorme onda de solidariedade e terem sido abertas cerca de duas dezenas de contas solidárias. Em 5 de setembro, os jornais “i” e “negócios” noticiavam que os autarcas dos três concelhos mais afetados questionavam para onde terá ido esse dinheiro, deixando no ar a suspeição que terá havido desvio de verbas. Também lhes parece evidente a falta de controlo por parte de entidades oficiais [do Estado], já que não há um número definitivo e oficial. Foi mesmo defendido que o Ministério Público deveria investigar “as contas abertas para recolha de fundos para as vítimas e o destino que lhes estava a ser dado”, devendo envolver-se o Banco de Portugal, para se saber quais as entidades envolvidas, os montantes movimentados e respetivo destino do dinheiro. Alegam também que as contas abertas no estrangeiro são ainda mais difíceis de controlar, receando desvios, pelo que deve haver investigação e dadas as devidas respostas às questões levantadas. Imediatamente, o presidente da República veio a público referir que quer ver este assunto esclarecido.

Os números que circulam são os seguintes:
– a União de Misericórdias terá recolhido cerca de 1,2 milhões de euros, depois noticiado, numa peça da TVI, como sendo 1,8 milhões, com conta solidária na Caixa de Crédito Agrícola, de que terá prestado uma ajuda de 12 mil euros;
– a Cáritas de Coimbra conseguiu cerca de 900 mil euros, noticiado depois como tendo angariado também 1,8 milhões de euros, através da conta solidária no Novo Banco, e terá gasto 100 mil euros em ajuda, encontrando-se 1,3 milhões de euros cativos na Cáritas de Coimbra devido a compromissos com o REVIVA – um fundo de solidariedade para coordenar a entrega de verbas, criado pelo governo de Portugal –;
– o REVIVA terá recebido 2 milhões de euros de contas solidárias no BCP, Santander Totta, Montepio Geral e BPI, faltando regularizar 3 milhões de euros, num total de 5 milhões de euros;
– a Fundação Calouste Gulbenkian é depositária de 3,6 milhões de euros, com conta solidária na CGD, que articula a intervenção com o fundo REVITA;
– a Associação Portuguesa de Seguros angariou 2,5 milhões de euros e terá efetuado compensações de 1,5 milhões de euros.
Quanto à intervenção do Fundo REVITA, não terá sido possível quantificar a ajuda prestada até ao momento e foi anunciado que os gastos estarão sujeitos a auditorias externas.
A disparidade dos números apontados fala por si. Entretanto, no terreno, há queixas quanto à falta de celeridade e não chegada dos apoios esperados e anunciados, mesmo que por ali prestem auxílio, na reconstrução, uma imensidão de voluntários e muitos arquitetos e outros profissionais da construção civil.

Enquanto se aguarda:
– por desenvolvimentos no que toca a apuramento de responsabilidades (falhas do SIRESP, MAI, GNR, Proteção Civil, Bombeiros, eventual desvio de verbas…);
– pelos efeitos práticos dos tribunais na condenação dos mais de cem incendiários, reincidentes ou não, detidos pela PJ e, provavelmente, sujeitos apenas a prisão domiciliária, com pulseira electrónica, em tempos de época de maior risco de incêndios florestais;
– pela reconstrução das casa ardidas e redesenho do território florestal;
– pelo refazer do tecido empresarial e pela retoma da economia e empregabilidade na região…
é possível centrar a atenção noutro tipo de estoicidade e capacidade de sofrimento e de entrega dos portugueses, e por que não enaltecer os feitos gloriosos e, mais uma vez, surpreendentes, de atletas portugueses em diversas provas recentes?
– Inês Henriques, aos 37 anos, sagrou-se campeã do mundo, em Londres, e bateu recorde nos 50 km marcha, com o tempo de 4h 05m 56 s;
– Fernando Pimenta, um minhoto de Ponte de Lima, no espaço de dois dias, sagrou-se vice-campeão do mundo em canoagem K1 1000 metros e campeão do mundo em K1 5000 metros, provas que decorreram na República Checa;
– A seleção de Portugal de hóquei em patins sub-17 sagrou-se campeã europeia, em Itália, ganhando o 14.º título em 37 edições da prova e, a de sub-20, sagrou-se tricampeã do mundo, na China, liderando o ranking de vitórias em campeonatos do mundo, na categoria;
– Ricardo Pinto sagrou-se campeão do mundo em patinagem artística, na categoria de dança solo; Pedro Walgode, conseguiu a medalha de bronze na mesma categoria e a irmã, Ana Walgode, sagrou-se vice-campeã feminina, “tornando-se a primeira mulher a conseguir uma medalha num campeonato do mundo em dança solo sénior”. Este campeonato mundial decorreu na China;
– Vanessa Fernandes, medalha de prata na prova de triatlo nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, venceu a primeira edição do Ironman 70.3 Portugal, em Cascais, com o tempo de 4h 33 m 12 s. Trata-se de uma modalidade extremamente exigente, composta por natação (1900 m), ciclismo (90 km) e corrida (21,1 km). Nesta prova houve um recorde de 2200 triatletas de 66 nacionalidades, havendo 72% de estrangeiros. O próprio presidente da Federação de Triatlo revelou mostrar-se surpreendido com estes números, e a campeã portuguesa – que fez uma “longa travessia no deserto” –, emocionada à chegada, deixou transparecer ter ganho uma alma nova, entendendo o feito como “um recomeço de uma nova carreira”.

Disse Sally L. Smith, no seu livro “Vencer na Adversidade”: O pensamento positivo revigora as forças. Faz-nos concentrar no melhor que temos dentro de nós e ficar abertos a possibilidades infinitas”.

Em Ponte de Lima, na habitual animação nortenha, juntaram-se 897 tocadores de concertina, a tocar ao mesmo tempo a mesma música popular; bateram um novo recorde mundial do Guiness, que pertencia a Vila Verde (Braga). Em Castelo Branco, depois de uma corrida solidária muito participada, surge agora a Meia Maratona (21 km) designada “Corrida da Felicidade”.

Independentemente de outros terem comportamentos desviantes… há que ter presente o refrão da canção coimbrã, na voz de Luiz Goes: “É preciso acreditar! É preciso Acreditar!”. E podemos acreditar que Portugal e os portugueses continuarão a surpreender, cada vez mais, pela positiva.

© Jorge Nuno (2017)

  

07/07/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (2) - A Vã Glória de Mandar

A VÃ GLÓRIA DE MANDAR

É natural chegar-se a esta altura do ano com a sensação de necessidade de evasão, sair para qualquer lado, simplesmente sair como se isso pudesse contribuir para alguma desintoxicação mental. Admito que esse sentimento possa ser mais forte para quem trabalhou afincadamente durante um ano e espera a oportunidade de uns merecidos dias fora da rotina diária; mas também o será para quem é agora considerado “inativo”, apesar de continuar a dar contributos válidos à sociedade.

Mesmo para quem procura exercitar a paciência, há alturas em que a falta dela é gritante, o que promove essa necessidade de evasão e, pior que tudo, quando conduz à necessidade de alheamento aos reais problemas – o que é ainda mais gravoso –. E quem não se sente assim, ao observar tanta incoerência, desfaçatez, inverdade!… Na ilusão do poder, há quem pense safar-se entre os pingos da chuva sem se molhar, fazendo uso da retórica, por entender que aguenta o barco quem tiver melhor capacidade de argumentação. Sempre ouvi dizer que os bons marinheiros conhecem-se na tormenta, com o mar extremamente agitado. Agitação não falta… e, quando se está no mesmo barco, não pode ser “safe-se quem puder!”. É preciso levar o barco a bom porto. Para tal é fundamental: competência, conhecimento da realidade e entusiasmo na viagem, mesmo sabendo dos perigos e do esforço pessoal e coletivo que tal exige.

A voz presidencial tenta sossegar os ânimos, dizendo: “há que apurar os factos até às últimas consequências, doa a quem doer”. A oposição apressa-se a pedir que rolem cabeças e aponta, claramente, as de um ministro e de uma ministra. O primeiro-ministro desdramatiza com: “estão a decorrer inquéritos; até lá não há culpados”. Essa ministra, aproveita o empurrão [no bom sentido] e diz precisamente o mesmo, recusando apresentar a demissão. O outro ministro, mesmo antes do resultado dos inquéritos, diz que é o “responsável político” [pelo ocorrido], mas mantém-se em funções. Um ex-primeiro ministro afirma, acirradamente para as câmaras de TV, que o atual primeiro-ministro devia dar prioridade ao apoio às vítimas [três semanas depois de terem ocorrido] e exige que se “avance com indemnizações rápidas”, quando outras vítimas de um acontecimento semelhante [à época em que era o responsável máximo do Governo] ainda estão hoje à espera dele! Face a uma ocorrência grave para a segurança do país, um chefe de Estado-Maior exonera cinco comandantes, mesmo antes de se dar início aos habituais inquéritos, para logo numa reunião, e mais tarde na TV, deixar escapar que mantém a confiança nesses comandantes e chama a si a responsabilidade do ocorrido, descartando a responsabilidade política do ministro da tutela. Não deixa de ser curioso… mesmo sendo considerada uma “ocorrência grave”, o Sistema de Segurança Interna terá avaliado o risco e mantém que o nível de ameaça do país é “moderado”.

Hoje, quem lê Camões, surpreende-se quando ele dá voz ao Velho do Restelo, no Canto IV, de “Os Lusíadas”, colocando umas “farpas” quando tudo apontava apenas para os feitos gloriosos daquela época áurea (século XVI):
“(…)
Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que morte, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas.
(…)
Chamam-te Fama e Glória soberana
Nomes com quem se o povo néscio engana!
(…)”

Mesmo que se queira “mudar de canal”… outros, em áreas improváveis, também parecem estar contaminados. Na vertente desportiva, alguns feitos importantes em modalidades amadoras e semiprofissionais são completamente abafados pelos escândalos do desporto-rei, que fazem manchete. São excessivas as vezes que surgem as palavras: “fraude”; “e-mails”; “arbitragem”… associadas à falta de verdade desportiva, dando pistas como se podem ganhar campeonatos, ou forjando argumentos para justificar insucessos e denegrir a imagem do “inimigo”.

É fácil lançar e propagar um boato, como o caso do avião Canadair – e logo espanhol –, que teria caído no combate ao flagelo dos incêndios. Com a técnica da contrainformação (tantas vezes usada, sem olhar a meios) pretende-se neutralizar os serviços de informação do campo inimigo. Pode aparentemente “ganhar” quem for mais desonesto, mas mais perspicaz. Seguramente, fica a perder quem se envolve na disputa e quem é apanhado no fogo cruzado.

No meio de tudo isto… visualizo o doce sentir de uma caminhada, sem esforço, sem pressa, algures no Parque Nacional da Peneda-Gerês, ou sob temperaturas amenas, num dos vales próximo dos glaciares dos Alpes. Neste último, suficientemente longe, observo: as marmotas pequenas a brincar, sob o olhar atento de elementos adultos, que se revezam e se mantém de pé, cumprindo bem o papel de vigia, para segurança da colónia (mostrando que estes animais conseguem fazer melhor que alguns militares indolentes); as cabras selvagens, sem vertigens, que nos surpreendem e fazem pensar como é possível resistir naquelas condições; a vegetação luxuriante, com destaque para a flor Edelweiss, com que a natureza brinda quem a visita…

Nesta tranquilidade revigorante, como se se tratasse de um detox mental… fica-se melhor preparado para aguentar o embate e resistir a quem terá a vã glória de mandar.


© Jorge Nuno (2017)

23/06/2017

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (1) - VIra o Vento e Muda a Sorte

VIRA O VENTO E MUDA A SORTE

De há uns tempos para cá vinha-se a sentir uma lufada de “ar fresco”, com ventos de feição [metaforicamente], apesar de [meteorologicamente] o tempo estar abafado e excessivamente quente. Vamos a factos concretos: Porto considerado, novamente, o melhor destino europeu em 2017; calor humano na visita do Papa Francisco a Fátima; no mesmo dia, a surpreendente vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão; também de forma surpreendente, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, a rotular Mário Centeno como o “Ronaldo do Ecofin”, reforçando-o mais tarde, para que não houvesse dúvidas, face aos resultados de retoma da economia portuguesa e ao “controlo” do défice; o primeiro-ministro, António Costa, a pedir e a ver autorizado a saída de Portugal do PDE – Procedimento por Défice Excessivo; idêntico pedido efetuado ao FMI e às autoridades europeias para antecipação do pagamento de 10 mil milhões de euros, ao longo de dois anos e meio, podendo levar a uma poupança de 1,3 mil milhões de euros; o anúncio que Portugal é o 3.º país mais seguro do mundo; o início do verão e começo das festas populares, um pouco por todo o lado, mas vividas de forma mais vibrante a norte…

O São João de Braga, rotulado como “a maior festa popular de Portugal”, teve início no dia 14 e termina a 25 de junho. Porque o programa é mesmo muito extenso, limito-me a resumir o folheto promocional (e a acrescentar pouco mais): 12 dias de animação; 238 horas de programação; 113 iniciativas previstas; 9 cortejos e desfiles; 12 exposições; 19 espetáculos; 10 mil pessoas envolvidas (figurantes, organização, artistas, atletas, voluntários…); 203 entidades envolvidas; 1 milhão de participantes esperados; tradições seculares únicas – carro do Rei David, carro das Ervas e carro dos Pastores; o maior cortejo folclórico nacional; a maior procissão sanjoanina de Portugal – 800 figurantes e 9 andores, com batalha de flores; o maior encontro de Gigantones e Cabeçudos da Península Ibérica; a maior concentração de Tocadores de Bombos de Portugal; um grande festival de Cavaquinhos e encontro de grupos de Concertinas; noite académica – participação dos vários grupos culturais da Universidade do Minho; o maior encontro de Joões do mundo; concursos de martelinhos ilustrados, cascatas de São João de Braga, melhores desenhos alusivos às Festas de São João e de quadras populares; jazz nos jardins; concerto pelos carrilhões de Santa Cruz, Sé e São Vicente; atuação de um número apreciável de bandas filarmónicas; cortejos das Rusgas; várias atividades desportivas; e muita, muita animação de rua.

O concerto “Um Cavaquinho e… um Bombinho”, logo na primeira noite, com a participação do artista popular Augusto Canário, que convidou uma “multidão” de amigos, deu o mote:
“Um povo que canta / é um povo feliz / solta da garganta / o que o peito diz (…)”
Na verdade, goste-se ou não do género musical, a alegria era bem patente, contagiante e vivida de forma intensa. O povo do norte é mesmo assim!

Já cantava Zeca Afonso em “Natal dos Simples”: “Vira o vento e muda a sorte (…)”
De repente, toda esta alegria e euforia parecem ter-se esfumado, virando tragédia. Soa a estranho quando, certamente com convicção e consciente da gravidade da situação, a organização das festas de São João de Braga sinta necessidade de reduzir atividades festivas e eliminar foguetes, pelo luto nacional de três dias. Soa a estranho, que uma juventude alegre e generosa, no início de um espetáculo, peça um minuto de silêncio pelas vítimas. De um momento para o outro, parece que os festejos deixam de ter significado perante tanta tragédia humana, material e do próprio ecossistema, registada em vários concelhos da região centro. O organização das festas de São João de Figueiró dos Vinhos, um dos concelhos afetados, cancelou mesmo os festejos.

A GNR diz que em 33% dos casos de incêndio em zona florestal há “mão criminosa” – situação de fogo posto (desde conflitos com vizinhos, interesses de madeireiros, fascínio doentio pelas chamas para ver bombeiros em ação, em que muitos casos se alega demência…). O presidente da autarquia de Pedrógão Grande foi contundente ao afirmar que acreditava tratar-se de “fogo posto”; o presidente da Liga de Bombeiros também. Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a principal causa dos incêndios florestais é a negligência humana; aponta que, em 80% dos casos dos incêndios em Portugal, são resultado de descuidos (queimadas descontroladas, lançamento inadvertido de pontas de cigarros, foguetes, refeições/grelhados nessas zonas… Neste caso, em poucas horas, a Polícia Judiciária apontou “causas naturais” – descargas elétricas gerada por uma tempestade. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera, confirmou a existência desse fenómeno na zona, com 277 descargas. A Autoridade Nacional de Proteção Civil alegou a conjugação de um número anormal de fatores, onde a mudança dos ventos intensos foi determinante. O presidente da República, muito presente, afirmou que “o que se fez foi o máximo que se poderia ter feito (…) não há falta de competência, nem falta de capacidade, nem falta de imediata resposta perante desafios dificílimos”. Jorge Gomes, secretário de estado da Administração Interna (que conheço pessoalmente desde 1973), mesmo habituado a estas lides, quando ocupava o cargo de governador civil de Bragança, sempre próximo da cadeia de comando da proteção civil, afirmou à comunicação social logo no início, com claro pesar e voz embargada: “Se me permitem dizer-lhe o que sinto, sinto que o fogo está a alastrar por todo o lado”; confirmou, mais tarde, que terá havido falhas no SIRESP – Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (uma parceria público-privada já com muitos anos, a envolver muitas centenas de milhões de euros…). Pretende-se, com este sistema, que haja a garantia de uma rede de comunicações única e dedicada, com qualidade de comunicações e exclusiva entre forças de segurança, emergência e proteção civil. Desde 2010 terão sido instaladas mais de quinhentas torres de comunicação, seis centrais, cinquenta e três salas de despacho, duas estações móveis com sistema via satélite, tendo sido distribuídos 23.000 terminais (telemóveis de acesso à rede). Com algumas dessas torres e antenas dos operadores convencionais destruídas pelo fogo, tal como muitas dezenas de quilómetros de rede de telefones fixos, as populações “resistentes” naquelas aldeias isoladas ficaram mais vulneráveis. Parece pouca toda a gratidão que evidenciarmos aos bombeiros anónimos, vindos de toda a parte, que lutaram e lutam, até à exaustão, no terreno. Atenua a dor, às famílias das vítimas, toda esta onda de solidariedade gigante, porque gigante é a alma do povo português. A mãe-natureza, dorida, encarrega-se de se regenerar. Assim aprendesse o ser humano, perante a adversidade. São tão evidentes as alterações climáticas e os seus efeitos devastadores, assim como são bem conhecidas as causas. Estamos na era dos elementos Fogo e Água. A subida da água do mar e alagamento do território será outra fonte de preocupação. Há caminhos apontados e ideias a interiorizar. A ação está ao nosso alcance. Basta-nos despertar, fazer algo coletivamente e recriar bons ventos. A “sorte” vem por acréscimo.


© Jorge Nuno (2017)

10/06/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (60): Crónica "Em dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas"

EM DIA DE CAMÕES, DE PORTUGAL E DAS COMUNIDADES PORTUGUESAS

Minha pátria é a língua portuguesa

Desde 1933 que em 10 de junho se celebra Luís Vaz de Camões, com a data a assinalar a sua morte, ocorrida em 1580. Este, considerado (por muitos) como o mais importante poeta português, entre poesia lírica e algumas comédias, teve notoriedade com a obra “Os Lusíadas”, que “relata factos heróicos da história de Portugal, em particular a descoberta do caminho marítimo para as Índias”, pelo capitão-mor Vasco da Gama (de 1497 a 1498). O Dia de Camões começou a ser uma realidade nacional por iniciativa do Estado Novo, com António de Oliveira Salazar a comandar os destinos da “Nação”. Ao Dia de Camões, juntou-se os condimentos “Portugal” e “Raça” (portuguesa, subentenda-se) para exultar os feitos gloriosos dos portugueses ao longo de séculos, servindo igualmente de propaganda para sustentar o regime. A partir de 1978, já depois da “Revolução dos Cravos”, passou a ter a designação atual, com um sentido diferente.

Sempre gostei mais de Fernando Pessoa do que de Camões, apesar de ambos terem o mesmo destino “patriótico” – o chão frio do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa –. A obrigatoriedade de ler Camões não era muito bem vista nos bancos das escolas. Por diversas vezes, imaginei uma outra longa e idêntica frase para comemorar o 10 de junho, começando como “Dia de Pessoa…”. E até penso que Camões, a ser coerente, aprovaria. É que ele escreveu algo que muito admiro, pois mostrou muita clarividência, para a época (com texto transcrito em ortografia atual, com vista a um mais fácil entendimento): “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas qualidades”. Fundamento o que digo, do seguinte modo: tivemos Eusébio, desde os anos sessenta do século passado, como um herói nacional na qualidade de futebolista, figura que aprendemos a respeitar pela sua postura sempre correta e humilde e pelas alegrias que nos proporcionou; posteriormente, surgiu um outro futebolista – Cristiano Ronaldo – que tem incontestavelmente maior projeção internacional, é o desportista mais bem pago da atualidade e o mais conhecido a nível mundial, além de ter batido, claramente, todos os recordes anteriores (incluindo os de Eusébio) e assumir querer ficar para a história como o melhor futebolista de todos os tempos.

Mas Fernando Pessoa surpreendeu-me com uma frase, que retenho, e que me deixou algo desapontado ao ler o contexto da mesma. Sob a “mão” de Bernardo Soares, em “Livro do Desassossego” escreve, tal e qual era usual: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho porém, um sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem  pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja, independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa, vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. Era como se Pessoa tivesse a premonição da subjugação de Portugal a outros interesses, em vários domínios, incluindo o económico e a própria língua.

Curiosamente, no mesmo dia, reli um delicioso texto de Teolinda Gersão, como se fosse escrito pelo João Abelhudo, um suposto aluno do 8.º ano, e que intitulou: “Redacção – Uma declaração de Amor à Língua portuguesa” e, à noite, li também mais algumas páginas do livro “Conquistadores – como Portugal criou o primeiro império global”, obra fascinante de Roger Crowley. Sobre este último, é possível ficar a conhecer factos que foram ocultados ou distorcidos nas nossas aulas de história e, por exemplo, alguns trechos de diários de bordo das frotas portugueses, aquando da expansão portuguesa no séc. XV e XVI, incluindo a primeira viagem da frota comandada por Vasco da Gama, na “descoberta do caminho marítimo para as Índias”. Aí é bem visível o português tal qual era falado e escrito naquela época, de difícil entendimento hoje. Quanto ao texto de Teolinda Gersão, escrito após ajudar os netos a estudar português, é considerado um “epitáfio à língua de Camões” e que recomendo, embora não resista a deixar aqui um “cheirinho” da parte final: “E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma, não tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros. E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: “Ó João, onde está a tua gramática?”. Respondo: “Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito”.

A palavra “setôra”, para meu desagrado, faz parte do léxico nas comunidades educativas do país e ainda não foi incluída na língua portuguesa padrão e, como tal, não incluída em dicionários, mas pouco faltará. É que a língua é muito dinâmica e está em constante mutação, quer queiramos ou não. Seria interessante ver maior uniformização? Como utilizador comum, não me englobo nos chamos “puristas da língua”. Aprecio a diferenciação, a forma como as pessoas se exprimem habitual e livremente, seja no Alentejo, em Trás-os-Montes ou noutra região. A língua portuguesa – usada por mais de 300 milhões de falantes em várias partes do mundo –, tal como existe, parece “bagunça”. Mas, com maior ou menor dificuldade, é entendível neste pequeno país, nas regiões autónomas, noutros Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e, em qualquer parte do mundo, onde estejam comunidades portuguesas. Nada deve ser forçado ou imposto. Com todas as variantes, é a língua de Camões, Vasco da Gama, Pessoa, Teolinda, Eusébio, Ronaldo, a minha com que falo e escrevo, a de quem me lê, sem tradutor. Neste dia dedicado a Camões, Portugal e às Comunidades Portuguesas, brindo à língua portuguesa e ao entendimento e união que proporciona!

© Jorge Nuno (2017)