27/02/2020

Crónicas Leves: GENTE QUE NÃO VAI À BOLA

GENTE QUE NÃO VAI À BOLA

Sinto-me tentado a recuar vinte anos, quando monitorizava “Formação Pessoal e Social”. Num dos módulos, criei a atividade “As profissões que admiro”, tendo como objetivo “refletir sobre os valores pessoais e conhecer os valores do grupo, relativamente ao prestígio atribuído a determinada profissão”. No fim, comentava-se o que é o prestígio e que valores lhes era atribuído, para depois estimular a autoestima, caso necessário. Para o efeito, criei uma lista com 15 profissões[1] para hierarquizar, deixando um campo aberto para inclusão de outra profissão, anotada livremente. Com uma amostra superior a 150 formandos adultos, a primeira escolha recaiu quase na totalidade sobre a profissão de “juiz”.

Em duas décadas muito tem mudado, incluindo os valores éticos e deontológicos, tal como a perceção do prestígio dos juízes. Reconheço que seria interessante “medir” o desvio verificado, já que há, cada vez mais, estupefação em relação a despachos, sentenças e acórdãos proferidos por juízes, deixando-nos um sentimento de que a justiça não funciona, ou só funciona para alguns, deixando-a fragilizada.

Uma notícia do JN[2] dá-nos conta de que o “Modelo de Braga no combate à violência [no desporto] alarga-se ao país – juízes e procuradores andam nos estádios a conhecer a realidade do desporto. Projeto já sancionou 60 adeptos”. Os referidos adeptos estarão proibidos, pela via judicial, de aceder a recintos desportivos, de várias modalidades. Tal, resulta “de um projeto-piloto [na comarca de Braga] desde a Liga das Nações, no verão de 2019]”. O coordenador do Ministério Público do Distrito Judicial de Braga, terá referido: “Temos vindo com este pleno de ação a aplicar mecanismos legais com magistrados a seguir todas as fases dos policiamentos, antes, durante e após os jogos, para avaliarem a complexidade do fenómeno. Ao conhecer melhor o meio em que se desenvolvem as situações terão, pelo menos, decisões mais adequadas aos casos concretos, tendo resultado na interdição judicial de adeptos, aplicada ao fim de poucas horas dos casos”. Ao que tudo indica, estes juízes e procuradores foram à bola, e terão tomado consciência do flagelo da violência no desporto e da necessidade de agilizar a sua erradicação.

No mesmo jornal[3] pode ler-se: “Juízes recuam na proibição de cargos no futebol”. O líder da Associação Sindical dos Juízes terá estado na origem da proposta de proibição de juízes desempenharem funções em órgãos de clubes desportivos e/ou respetivas Sociedades Anónimas Desportivas [SAD]. Clubes mais relevantes e a própria Federação Portuguesa de Futebol têm juízes nos seus órgãos sociais. Fazem-no, normalmente, na Mesa da Assembleia Geral, Conselho Fiscal e Disciplinar, Conselho de Justiça… muitos são juízes conselheiros, com alguns deles jubilados. O Conselho Superior da Magistratura [CSM] deliberou não proibir, de imediato, a participação de juízes nas estruturas dos clubes e SAD, e permite que quem esteja a exercer funções termine o seu mandato em curso. É de acreditar que estes juízes, com a sua paixão clubística, irão mesmo à bola.

Um artigo do JN[4] lembra: “Megainvestigação do Fisco ao mundo do futebol já decorre há vários anos – Os principais negócios do futebol português começaram a ser escrutinados pela Autoridade Tributária [AT] em 2016, e vários deles levaram à abertura de inquéritos por parte do Ministério Público [MP], mas nenhum foi ainda concluído com acusação, não tendo ocorrido, também, liquidação de impostos em falta (…)”. Trata-se de casos de fraude fiscal e branqueamento e os processos terão sido organizados em cinco megainquéritos. É evidente que a criação de um qualquer megainquérito, por mais bem-intencionado que seja, dificulta as conclusões em tempo útil. Neste caso, não ficará no ar a suspeição se os juízes, ao serviço dos clubes, serão “conselheiros” das respetivas direções e, paralelamente, moverem influências externas, p.e., para deixar prescrever os prazos de processos em curso? Como é possível que tal aconteça? Basta haver o argumento da escassez de meios humanos das equipas de investigação alocadas à investigação, tanto do DCIAP – Departamento Central de Investigação e Ação Penal, do MP e da Direção de Serviços de Investigação de Fraude e Ações Inspetivas, da AT. Ou, como terá afirmado uma fonte da AT, que “a investigação tem sido prejudicada por demasiadas mudanças de magistrados nas equipas (,,,)” o que, atendendo à complexidade, leva a perder o fio à meada, provocando atrasos na sua conclusão. É de prever que muitos dos juízes, que vão em trabalho aos estádios, acabem por também ir à bola.

É conhecida uma lista de 45 magistrados, alegadamente convidados por um glorioso clube português para assistirem aos jogos de futebol no seu estádio. Um deles, desembargador, terá rejeitado um recurso do hacker Rui Pinto, para anular a medida de coação a que ficou sujeito – prisão preventiva. No site da TSF[5] pode ler-se a seguinte afirmação à Lusa, proferida pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça [CSJ], quando soube que a ex-eurodeputada Ana Gomes citou o seu nome, como estando incluído nessa lista: “Repudio, em meu nome pessoal e como presidente do CSJ e do CSM, insinuações gerais de parcialidade da justiça que têm surgido a este propósito [em relação aos clubes]”, assegurando que nunca aceitou convites de qualquer clube de futebol para assistir a jogos. Um conselheiro no Tribunal da Relação de Lisboa [TRL], disse que foi ver um jogo há muitos anos, que pagou o bilhete e até deixou de ser sócio. O próprio presidente do TRL, terá garantido ao JN que já não entra num estádio de futebol há mais de 40 anos; “a última vez que fui ao futebol foi nos anos 70, um jogo de juniores, e como havia pancada nunca mais voltei”, terá afirmado.

Bolas!... Afinal há gente que não vai à bola!

© Jorge Nuno (2020)
   




[1] Adaptado de “Psicologia das Relações Interpessoais”, de M. Odete Fachada (1998)
[2] de 7 de fevereiro de 2020, assinado por Joaquim Gomes.
[3] Idem, assinado por Nuno Miguel Maia.
[4] Idem, assinado por Alexandre Panda e Nelson Morais.
[5] de 03 de fevereiro de 2020.

30/01/2020

Crónicas Leves - MÁSCARAS E TRANSPARÊNCIAS


MÁSCARAS E TRANSPARÊNCIAS

Cleptocracia, operações fraudulentas e branqueamento de capitais, evasão com transações financeiras para paraísos fiscais, fuga aos impostos, entidades de supervisão da treta, com laxismo ou, pior, conivência com ilícitos criminais – muito ruído, mas tudo aparentemente sem consequências…

Em dezembro de 2019, Portugal encontrava-se em 7.º lugar no ranking da FIFA, tendo atrás países europeus como: Suíça – 12.º; Holanda – 14.º; Alemanha – 15.º; Dinamarca –
16.º; Suécia – 17.º; Noruega – 44.º; Finlândia – 58.º … Não é inocente destacar estes países, pois o site da Transparência e Integridade (Transparency International Portugal), no Índice de Perceção da Corrupção [CPI] 2019, dá-nos conta do seguinte ranking: Dinamarca – 1.º lugar (ex aequo com a Nova Zelândia); Finlândia – 3.º; Suíça – 4.º; Suécia – 5.º; Noruega – 7.º; Holanda – 8.º e Alemanha – 9.º. Portugal, desde 2012 – em que obteve 63 pontos –, não variou mais do que 2 pontos nos últimos oito anos, estando atualmente com 62 pontos. Neste mesmo site – onde se analisam os níveis de corrupção no setor público de 180 países, de 0 (percecionado como altamente corrupto) a 100 (muito transparente) – é referido que “é urgente implementar uma verdadeira estratégia nacional [em Portugal] contra a corrupção”, indicando que “os resultados demonstram que os países mais bem classificados no CPI são os que têm políticas de transparência proativas, designadamente no que se refere ao financiamento político, à regulação do lóbi e de conflitos de interesses, e a mecanismos eficientes de consulta pública”. Confirma-se, assim, a perceção que os portugueses têm da estagnação de Portugal no combate à corrupção, o que configura uma das maiores fragilidades da democracia portuguesa.

O relatório da FIFA, de dezembro de 2019, dá conta que, nesse ano, os clubes de futebol em todo o mundo gastaram 6630 milhões de euros [M€] em transferências de jogadores, o que constitui um novo recorde, com um aumento de 5,8% face a 2018. O saldo líquido, entre compras e vendas dos passes de jogadores, foi positivo para os clubes portugueses, e atingiram os 346 M€.

O hacker português Rui Pinto andou a “bisbilhotar” a promiscuidade no mundo do futebol, pois há muito que se sabia da existência de negócios obscuros. Informação vinda a lume fez com que a Suíça, França e Alemanha pedissem a colaboração de Rui Pinto. Mais célere, o fisco de Espanha conseguiu recuperar muitos milhões de euros, com base nos segredos desvendados por esta e outras vias. Os crimes fiscais viriam a ser julgados em tribunal, envolvendo conhecidos jogadores de futebol, treinadores e empresários, deixando intocáveis os clubes; se não houve pena de prisão efetiva, mas suspensa, deveu-se à assunção da culpa pelos infratores e à inexistência de antecedentes criminais.

Este pirata informático criou o Football Leakes e contribuiu com conteúdos para o Malta Files e Luanda Leaks. Dos 147 crimes de que estava acusado em Portugal, está agora pronunciado por 90 crimes, pelo Ministério Público, onde consta: “acesso ilegítimo”; “violação de correspondência”; “acesso indevido”; “sabotagem informática” e, o mais grave, “extorsão na forma tentada”.

Que fique claro, não devemos estimular ou aplaudir a pirataria informática! Mas há um dever de cidadania na denúncia de irregularidades e, particularmente, corrupção. Em outubro de 2019, a União Europeia [EU] aprovou uma diretiva para proteção de denunciantes de crimes cometidos no espaço da EU. Portugal terá até 2021 para transpor estas regras para a legislação portuguesa. O presidente da Transparência e Integridade referiu que “a proteção de denunciantes é uma das principais falhas do combate à corrupção em Portugal”. Rui Pinto expôs criminalidade organizada no futebol e, por arrastamento, chegou à criminalidade organizada no meio económico. Envolveu a mulher mais rica de África, com investimento em Portugal, difundindo muitos milhares de ficheiros, com informação relevante, na Plataforma de Proteção de Denunciantes de África, que a partilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação.  

Uns países aproveitam esta divulgação para investigar e instaurar processos, como crime fiscal ou económico, procurando chegar rapidamente a um veredito e, assim, fazer justiça. Por cá, há alguma agitação e desconforto, sobressaindo algum desnorte quanto ao rumo dos acontecimentos, escudando-se na “lei” para não a fazer cumprir; ou seja, não será possível incriminar quando a prova for obtida ilicitamente. Fica a rir quem comete os ilícitos, e ainda processa judicialmente quem divulga as notícias que põem em causa o seu “bom nome”.

Durante as entrevistas rápidas, no final de cada jogo da Primeira Liga de Futebol, pode ler-se no painel: “A Pirataria Mata o Futebol”, numa alusão à frequente pirataria do canal que detém os direitos televisivos. Também será verdade se se afirmar: “A falta de verdade desportiva, o chico-espertismo e a violência matam o futebol”. Ainda é mais verdade ao constatar-se: “A inoperância de quem tem responsabilidades mata o futebol”, sempre com a evidente tendência para se sacudir a água do capote e imputar responsabilidades a outrem. Há pouca transparência: nas comissões pagas a intermediários aquando das transferências de passes de jogadores; nos valores declarados dos negócios efetuados; nas verbas movimentadas com a publicidade; em algumas decisões do Tribunal Arbitral do Desporto, com decisores a pender clubisticamente para um dos lados; quando um Tribunal da Relação indefere o pedido de escusa de um juiz sorteado para julgar um clube, de que é assumidamente fervoroso adepto… É incompreensível que agentes da autoridade, mesmo à civil, por mais legítimas que sejam as suas reivindicações, se manifestem no seio das claques dos quatro clubes de futebol que disputaram, em Braga, o título de “Campeão de Inverno”. Exibiam uma tarja – “A Polícia Exige Respeito” –, junto das mesmas claques que também exigiam respeito e que fizeram estragos, arrancaram cerca de mil cadeiras, entoaram cânticos contra a Liga e contra um presidente, detonaram petardos, lançaram tochas para o relvado, e exibiam tarjas como: “Estão a matar o Futebol”; “País de corrupção, as claques são um problema para os donos do sistema” ou “No Pyro, No Party” [sem pirotecnia não há festa],  não reconhecendo que muitos dos próprios membros das claques estão a matar o futebol, ao tornarem as bancadas inseguras mas, fundamentalmente, por não haver coragem política para os irradiar dos campos de futebol.

A investigação jornalística, pegando nalgumas “pontas soltas”, leva a uma enorme pressão da comunicação junto dos infratores, governantes, Ministério Público, Banco de Portugal, CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários… A consciência cívica dos cidadãos poderá fazer a diferença. É certo que o futebol move paixões e, como portugueses, apreciamos estar entre os melhores do mundo. Mas devemos exigir a adoção de políticas de transparência proativa e outras práticas que façam subir Portugal no ranking, juntando-nos aos países mais transparentes do norte da Europa.

Entretanto, algumas máscaras vão caindo.

  ©Jorge Nuno (2020)        

16/01/2020

Crónicas Leves - VAI UMA APOSTA?


VAI UMA APOSTA?

Poderia dar-se início ao texto com a seguinte pergunta (que só não soaria estranha pelo tema em título): “Vai uma aposta em como é extremamente fácil abordar a questão do jogo, apostas e afins?”. Não que seja perito na matéria – que decididamente não sou, nem pretendo ser, apesar de ter estudado estatística e probabilidades – mas por se tratar de um assunto que pode estar na ordem do dia, sem que haja uma verdadeira consciência disso.

Na qualidade de cinéfilo, escolheria o emblemático filme “A Última Cartada”, realizado por Robert Luketic e produzido por Kevin Spacey, que também interpretava o papel de “Micky Rosa” – um genial professor de estatística, viciado em jogo –. Este professor criou uma equipa com jovens estudantes do MIT, de mente brilhante e elevada inteligência emocional, escolhidos pelos seus conhecimentos de matemática, particularmente de sistemas progressivos de equações lineares, sempre atentos à alteração da variável e às condições de convergência de uma série infinita; faziam contagens mentais e procuravam manter o controlo do baralho no jogo de azar Blackjack. Claro, deixaram-se envolver pela vontade de chegar facilmente a grandes quantias de dinheiro. O argumento é baseado em factos reais, com frequência de casinos em Las Vegas e, em equipa, ganharam muitas centenas de milhares de dólares cada um e, ao serem descobertos, perderam tudo, apesar de não ser ilegal a memorização das cartas.

Em idêntica qualidade, poderia abordar o personagem “Frank”, por Jason Mantzoukas, e o casal amigo, interpretados por Will Ferrel e Amy Poehler no filme “Casa da Sorte”, escrito e realizado por Andrew Jay Cohen. Até haveria bons motivos para o fazer, pois falamos de um indivíduo que se separa da esposa por ser viciado em jogo, que tem a casa penhorada por dívidas contraídas no jogo, não conseguindo cumprir compromissos assumidos. É isto que o leva a juntar o útil ao agradável – criar um casino ilegal, com os dois amigos como sócios, na expetativa de reaver a casa e a esposa –. Naquele local, qualquer pretexto servia para apostar, inclusive a criação de um ringue improvisado de pugilismo para dois jogadores quezilentos que armaram confusão, ou para duas mulheres duronas, que se pegam numa desavença. No fundo, há sempre a ilusão do dinheiro fácil.

Não irei recuar ao século XIX e abordar o magnífico romance “O Jogador”, de Fiodor Dostoievski – que li quando tinha apenas 16 anos – onde este extraordinário romancista retrata jogadores compulsivos que denotam falta de controlo sobre os impulsos, alteram radicalmente comportamentos, acabam arruinados financeiramente e destroem as suas vidas e a dos que os cercam. Aqui, Alexis Ivanovitch, trabalhador de hotel, relata, na primeira pessoa, como iniciou o vício do jogo na roleta a pedido da sua apaixonada, desesperada por dinheiro. Mais uma vez, o complexo comportamento humano e a patetice da ilusão do dinheiro caído do céu, tão bem descrito por este génio da literatura russa.

Fica assente que não haverá aqui abordagens ao vício do jogo, causas e consequências negativas ou mesmo à cura através da psicoterapia ou outras técnicas. Não haverá análise filosófica desta realidade, nem se irá procurar traçar o perfil psicológico do jogador, esmiunçando a autoestima, problemas de relacionamento, inquietude, disfunções ou atitudes irracionais do jogador, com perda de controlo progressivo.

Então falemos um pouco da realidade no presente.

Por cá, constata-se o seguinte no relatório do 3.º trimestre[1] referente a atividades do jogo online em Portugal, comparando este trimestre de 2019 com o homólogo de 2018:
– Foram 15 as licenças atribuídas em 2018 e 18 em 2019, passando de 7 para 8 em apostas desportivas e de 8 para 10 em jogos de fortuna ou azar;
– As receitas brutas, passaram de 38,9 para 54 milhões de euros [M€], verificando-se um aumento de 39,1%, sendo que esse aumento foi de 33% nas apostas desportivas e de 45% nos jogos de fortuna ou azar;
– Quanto a novos registos de jogadores, passou de 83,3 para 149 milhares, um aumento de 78,8%; o número de jogadores, com prática de jogo, passou de 260,1 para 354,1 milhares, o que significa um aumento de 36,1%.
Vai uma aposta em como a afluência ao jogo online [legal] continua a ter uma subida ascendente nos próximos anos, mesmo com elevado número de apostadores a pedir ajuda para resolver problemas de insolvência ou para tratamento do vício?   

O Jornal Económico online[2] noticiou que as receitas dos jogos da Santa Casa da Misericórdia – raspadinha, euromilhões, totoloto e placard – atingiram o valor correspondente a 1,5% do PIB. Para se ficar com uma ideia mais precisa, os portugueses gastaram, nestes jogos, 8,5 milhões de euros por dia, ou cerca de 3,1 mil M€ anuais, tratando-se de um crescimento de 2,3% face ao ano anterior. Vai uma aposta em como os governantes, quaisquer que sejam, continuam entusiasmados com o desenvolvimento desta atividade, já que é garantia de significativa receita para a Autoridade Tributária?

Os jogadores, incluindo os compulsivos, irão continuar a existir. Se repararmos, são inúmeros os programas televisivos em que apresentadores “massacram” os telespetadores para telefonar, com chamadas de valor acrescentado, para que possa ser “hoje o seu dia de sorte e ganhar este magnífico automóvel” ou “já sabe o que vai fazer estes 15000 euros que lhe vão dar tanto jeito?”… ou pior, a troco de nada e com o pretexto de escolha dos concorrentes preferidos, esmifrar pessoas influenciáveis e totós que caem na esparrela. Vai uma aposta em como esta praga está para durar?

Temos os jogos políticos de bastidores para aprovação do Orçamento de Estado [OE], apresentado por um governo sem a maioria no parlamento para o aprovar sozinho e os jogos políticos dos partidos da oposição para deixarem passar o OE e não ficarem com o ónus de contribuírem para o derrube de um governo e, com isso, virem a ser futuramente penalizados pelo eleitorado, que não quer mais crises políticas. Vai uma aposta em como com “geringonça”, ou sem ela, cumprir-se-á a legislatura de 4 anos?     

Foi recentemente divulgado[3] que o investimento no Serviço Nacional de Saúde [SNS] teve as seguintes taxas de execução: 68,2% em 2015; 53,9% em 2016; 48,6% em 2017 e 44% em 2018. Significa uma diminuição progressiva das taxas de execução e que nos dois últimos anos referidos nem chegou a ser aplicado metade do valor que estava orçamentado. Apesar de ser anunciado no OE para 2020 um substancial reforço da verba para o SNS, vai uma aposta em como a tendência decrescente da execução vai continuar?

O ano começou com um aumento dos combustíveis, em cerca de sete cêntimos por litro, a pretexto da necessidade de agravamento da taxa de carbono [CO2], que faz parte do imposto sobre produtos petrolíferos [ISP]. Na União Europeia, Portugal fica em terceiro no preço mais elevado da gasolina, a seguir à Holanda e Grécia. Na ânsia de obter receitas, o Estado arrecada, assim, mais 606 mil euros por dia. Vai uma aposta em como continuará a tendência de subida do valor dos impostos sobre os combustíveis?

Na cerimónia de abertura do ano judicial 2020 – que há muito se acha completamente desprovida de sentido – desfilam e discursam as mais altas figuras do Estado e da Justiça, sem consequências. A palavra mais ouvida foi “corrupção”! O Presidente da República defendeu uma atuação judicial mais rápida, pois “os processos judiciais não devem arrastar-se durante anos nos tribunais (…)” e disse ter apreciado “o aceno de renovada atenção à corrupção” querendo que o combate à corrupção seja uma prioridade para a Justiça. Vai uma aposta em como não serão registados progressos e fica tudo na mesma?

© Jorge Nuno (2020)


[1] Fonte: Turismo de Portugal
[2] De 09-07-2019
[3] Fonte: Contas Gerais do Estado (2015 a 2017) e Execução Orçamental da UTAO (2018)

19/12/2019

Crónicas Leves - DE JORGE PARA GEORGE


DE JORGE PARA GEORGE

Pois é, George, sei que partiste cedo, no Ano Internacional do Sol Calmo, mas tu desconheces que eu nasci no mesmo ano. E como haverias de saber, se partiste dez meses antes de eu chegar? Bem, deixa-me já avisar-te: espero não ter de fazer contigo, em Sutton Courtenay, no teu Reino Unido, como fiz com William Shakespeare, em Stratford-upon-Avon, após ter escrito o meu romance “As Animadas Tertúlias de Um Homem Inquieto”; que não seja preciso ir pedir-te desculpa, pois não se deve brincar com génios da literatura, mesmo que se crie uma personagem, afetada mentalmente, que detesta parte do conteúdo de Hamlet. Compreendes, se te referir que, naquele caso, foram sequelas da Guerra Colonial, em África, onde os portugueses estiveram envolvidos de 1961 a 1974, a tentar defender um império, tal como os britânicos noutros territórios. Sei que compreendes, pois também ficaste com sequelas ao levar um tiro na Guerra Civil Espanhola, quando lutavas como voluntário ao lado dos catalães, com as milícias trotskistas espanholas e contra as forças nacionalistas, lideradas pelo ditador Franco, quer tinha o apoio da Alemanha nazi e da Itália fascista.

As minhas intenções são boas, George. Podes acreditar. Admiro-te como ensaísta político, jornalista, mas especialmente como romancista. Não como militar, ao serviço do exército do império britânico, mas tu também não gostaste do que viste fazer na Índia, onde nasceste, e cedo abandonaste a carreira, para desagrado do teu pai, também militar. Sabes bem que essas experiências acumuladas fortaleceram o teu caráter, fomentaram um olhar crítico, e deram-te força para avançar para obras como “A Quinta dos Animais” e “1984”, entre outras. Os tempos não eram fáceis… Havia pouca disponibilidade por parte dos editores para editar estas tuas obras de ficção, acabando por ocorrer em 1945 e 1949, não por falta de qualidade, mas pelo cuidado em não afrontar a União Soviética, uma estranha aliada do Reino Unido contra as tropas de Hitler.

Não é qualquer um que não sendo um privilegiado na sociedade e fazendo uso da bolsa de estudo concedida, estudou em Eton e teve aulas com Aldous Huxley, o autor de “Admirável Mundo Novo”. Alguma coisa te ficou, mas virias a adquirir experiência de vida e uma personalidade própria, bem vincada. E como gostavas de contestar o poder, particularmente quando se tratava de práticas sociais autoritárias ou totalitárias!

Foste fantástico em “A Revolução dos Bichos”! Descreves “um grupo de animais revolucionários que toma o poder dos donos humanos de uma quinta e organiza um regime igualitário e justo, no local”, mas apressaste-te a arranjar uma dupla de porcos totalitários, para ameaçar o equilíbrio obtido. Sabia-se que era uma sátira às práticas do ditador Estaline e da União Soviética. A propósito, no filme “A Morte de Estaline” – igualmente uma sátira –, realço a cena quando ele foi encontrado caído no salão, sem se saber se era resultado de doença súbita ou efeito de vodka, e assim ficou bastante tempo estendido no chão; para chamar um médico era preciso reunir o Comité; entretanto, perfilavam-se os vários candidatos ao cargo, em jogos de poder e execuções sumárias, sob a acusação de traição, mostrando o lado pior do ser humano para chegar ao topo da hierarquia, numa sociedade em que era suposto ser igualitária, como queriam os animais da ficção que criaste.

Acho espantoso o teu lado visionário em “1984”. Nele, criaste um superestado, num mundo em guerra permanente, com apertada vigilância governamental, manipulação pública através de “propaganda” e “revisionismo histórico”, onde o Partido Interno – com culto de personalidade do líder – persegue o individualismo e a liberdade de expressão. Este partido tudo faz de modo a perpetuar o poder e permite a existência de elites privilegiadas, a quem não interessa o bem-estar dos outros. Foste tu que criaste o conceito de Big Brother e “Polícia do Pensamento”. George, poderia afirmar-se que é ficção científica, mas uma realidade, precisamente 70 anos depois da publicação deste teu livro, e falarei com exemplos concretos, dos mais elementares que existem.

A empresa que me fornece eletricidade, sabe, em tempo real, quando estou em casa e estou fora. Também a de segurança, sabe quando armo e desarmo o alarme, logo, quando estou em casa e saio; se houver desonestidade por alguém da empresa, até é possível ver à distância o que se passa no interior. A de telecomunicações, sabe ao pormenor quando falo e com quem falo e quais as minhas preferências televisivas e, a localização ativada no telemóvel, permite saber onde estou em determinado momento. Uma empresa, líder em soluções auditivas, até sabe a que horas vejo televisão. Uma outra, nipónica, à distância, monitoriza a minha qualidade do sono, se me levanto durante a noite e o número de horas que durmo. O ginásio que frequento sabe a que horas entro e saio, o meu ritmo cardíaco, as calorias queimadas e a potência média exercida por mim em cada exercício. Na base de dados do hospital onde sou assistido consta vasta informação pertinente sobre as minhas fragilidades físicas. Com a via verde, a empresa sabe o dia, hora e local exatos em que entro e saio com a minha viatura nas autoestradas ou parques de estacionamento. A marca do meu automóvel tem acesso a informação sobre a localização da minha viatura, sempre que tenha o GPS ligado, pelo que sabe os itinerários efetuados por mim. O meu banco tem informação importante sobre a minha pessoa, enquanto cliente, pois tem acesso a dados pormenorizados de consumos ou se levanto ou deposito quantias que saem fora do habitual, informando o Banco de Portugal. A Autoridade Tributária, através da criação da e-fatura, fica a saber quais os valores e tipos de produtos que eu adquiro e empresas envolvidas, tal como um conjunto de informação pessoal que pode cruzar. As câmaras de videovigilância proliferam por todo o lado. Tribunais já têm acesso a bases de dados de crianças e jovens em idade escolar. A empresa multinacional americana Google sabe quais as pesquisas que faço na internet e, porque vive de publicidade, tem o meu perfil, que usa como entende. O mesmo acontece com a maior rede social virtual do mundo – o Facebook – que traçou o meu perfil com base nas minhas publicações, na forma como comunico e por onde ando, fazendo-me chegar, sem eu pedir, publicidade supostamente adequadas ao meu perfil de consumidor. Talvez não seja por acaso que as visitas americanas aos meus blogues sejam quatro vezes maiores provenientes dos Estados Unidos da América [EUA] do que de Portugal, estando a Rússia em terceiro e a China incluída no top 10. Já agora, George, a pretexto de segurança interna, os três superestados que referi têm procurado fazer o controlo que referes no livro, pelo não me espantei com: a criação da “Polícia da Internet” na China, que conduz a repressão até à criação de “campos de reeducação” para que as pessoas “transformem os seus pensamentos”; as pressões exercidas pela Administração dos EUA sobre a Google e Facebook para o controlo de dados da população mundial e a guerra contra a Huawei, por esta marca chinesa deter grande parte desse controlo; a forma como é silenciada a oposição até à influência da Rússia nos resultados das eleições de outros países. Por cá, em Portugal, sob a capa da democracia, criou-se a Comissão Nacional de Proteção de Dados, mas que acaba por ser uma proteção-faz-de-conta. Perdeu-se a individualidade e privacidade.

Talvez não saibas, George, mas a tua obra “1984” liderou as vendas na Amazon em janeiro de 2017, após a tomada de posse de Donald Trump, fazendo disparar as vendas em cerca de 10000 %. Ouviste bem? Dez mil por cento! Já tinha acontecido o mesmo em 2013, após Edward Snowden ter revelado dados dos EUA. Os editores consideram mesmo que este é um dos “100 livros para ler antes de morrer”. Deves estar orgulhoso. Só não sabes para quem vão os lucros das vendas das tuas obras. Mas custa-me saber que viveste com dificuldades entre pessoas sem-abrigo, em Paris, e agora…

De Jorge para George, quero-te dizer ainda o seguinte: atendendo às circunstâncias, fizeste bem em usar George Orwell como pseudónimo, mas o teu nome verdadeiro – Eric Blair – também soaria bem na capa de um livro; sendo tu um ateu confesso, e porque sabias da inevitabilidade, fiquei admirado por acautelares uma cerimónia fúnebre religiosa, na igreja anglicana. Já não fiquei admirado por pretenderes ser sepultado em campa rasa e escolheres para a lápide:
Here Lies
Eric Arthur Blair
Born June 25’ 1903
Died January 21’1950
Simples “Aqui jaz”, nome atribuído à nascença, data de nascimento e da morte. Simples, como sempre quiseste ser, ignorando o pseudónimo que te tornou conhecido.

P.S.: Sei que também foste poeta, mas não li os teus poemas. Desculpa. Mas ficas a saber que fiquei fascinado com o teu lado de romancista, corajoso, visionário e acima, de tudo, por teres lutado por um mundo melhor. Até sempre!

© Jorge Nuno (2019)

03/12/2019

Crónicas Leves - PORTUGUÊS NUMA NICE

#DiaMundialdaLínguaPortuguesa #solincaFamily #UNESCO #FalarPortuguês #SomosEspíritosEmEvolução #Lifestyle #ModoDeOlhar #Globalização #SuperaçãoDeObjetivos

PORTUGUÊS NUMA NICE!

Investigadores fazem-nos chegar a informação que temos cerca de 60.000 pensamentos por dia. Há quem diga que é impossível controlar todos esses pensamentos, assim como há quem o exercite todos os dias, fazendo aquilo que parece impossível. Neste momento, longe de fazer qualquer esforço para controlar o pensamento e, enquanto o display tátil indica que estarei a consumir cerca de 265 Kcal per hour, deixo-me evadir através das largas dezenas de metros de vidro da fachada principal. Em frente, numa pequena nesga, vê-se a linha do caminho de ferro. Sobre a passadeira, que habitualmente escolho, fica a estranha vontade de ver passar um comboio, mesmo que por poucos segundos, gesto que para um psicanalista significaria, certamente, a minha vontade de viajar.

Está-se na zona do Centro Empresarial da cidade. A construção é do tipo industrial, forrada a chapa metálica em tom cinzento, com realce dos cartazes publicitários coloridos. Destaca-se um desses: Boom Bap – French Kick Ass Brand / Don’t Be Sexist! Bitches Hate That!; está tatuado Get Money no braço de uma mulher e, no outro, colocado sobre a cara… bem, essas duas palavras, nem ouso escrever! Não, felizmente não se trata de graffiti selvagem, pois esta zona, por enquanto, foi poupada. A caminho, já tinha reparado na: HIKVision, especialistas em segurança; Bosch Car Service; Alfa Elektor –componentes eletrónicos; WeDo Technologies e, no extremo da rua, uma empresa de comércio de embarcações de recreio, com seguinte publicidade a Monterey: More than a boat… a way of life.

Agora, enquanto dou passadas vigorosas sem sair do mesmo sítio, e porque agucei a curiosidade, até reparo nas letras mais pequenas: sob o nome do restaurante no 1.º andar fico a saber que é uma steakhouse; WebHelp com a sigla We are a great place to grow; DAPE New Energy – setor da energia solar; Carglass – vidros para viaturas; Servipel
Profesional / Cosmetic.

Chegado ao fim do tempo previsto na passadeira, baixo o olhar e deparo-me com o botão vermelho emergency stop, mas pressiono o do simples stop. O display fornece-me alguns dados estatísticos relativos à minha prestação, entre eles que foi Cool Down – que revela ser pouco abonatório para tanto esforço, com 96 a 102 batimentos cardíacos por minuto. Saio e noto na marca daquele equipamento de ginásio ThecnoGym –. Aliás, só agora noto que são quase todos!  Numa parede é bem visível: Let´s Ride. Numa outra, #solincaFamily. Numa terceira parede pode ler-se Let´s Get Info, um espaço informativo, onde o folheto: Smart Friends, estimula o associado a recrutar um amigo; Your Smart Party Day, um convite à realização de festas de aniversário de crianças (…). Junto, encontra-se uma máquina para fazer o check-in do plano de treino. Começo a ler qual a finalidade das várias máquinas, quase todas para desenvolvimento da massa muscular, e surgem nomes como: Pulldown; Pectoral; Pulley; Adductor; Abductor; Leg Extension; Leg Curl; Leg Press; Arm Curl; Glute; Rotary Torso; Rotary Calf; Chest Press; Low Row; Crosstrainer; Abdominal Crunch (…).  Numa área específica do ginásio encontra-se a S – Functional e S – Challenge, para exercícios em grupo, e surgem termos como: Half Burpee; Power Lunge; Swuitch Climber; Truster; Jumping Jack; Warm-up, Countdown (…). Dois equipamentos têm mesmo escrito, em português: “Bicicleta Horizontal” e “Bicicleta Vertical”, o que me deixa escapar um longo Wow!... só que, para iniciar, há que clicar no botão verde Quick Start e ter de decifrar Wellness Means More Vitality ou Wellness Means Mental Balance.

Já no rés-do-chão, dou de caras com a caixa do desfibrilhador, onde se destaca Intelligent Life Solutions. Na parede pode ler-se Let´s Get Active. Ao lado, Everyone Everywhere, a máquina para leitura dos cartões dos associados, claro, Powered by Solinca. Dirijo-me aos balneários, mudo de equipamento para ir dar umas braçadas à piscina e acabar relaxado na sauna, banho turco ou no jacuzzi, e reparo que despi uma peça da marca Team Quest e que a touca da natação tem inscrita, de um lado, Smart Fitness e, do outro, Powered by Solinca.

À saída, cruzo-me com um instrutor, de equipamento preto com Personal Trainer nas costas, que me cumprimenta de aperto de mão e muita cordialidade, perguntando-me:
Então… está tudo a correr bem?
Resposta espontânea:
Yeeeesss! Tudo numa nice!
Sorri, aparentando agrado com a resposta, e deseja-me um resto de bom dia, que retribuo.
Já fora, no mesmo lado da rua, fico a saber que Laskasas é uma home decor & interior design.

Este relato talvez permita fazer algumas reflexões e chamadas de atenção.
1 – A importância no foco – Basta uma pessoa focar-se excessivamente em algo e passa a haver um avolumar daquilo que estamos a procurar, indo ao encontro das nossas expetativas. Atenção, se for algo negativo, podemos estar a promover essa negatividade;
2 – Modo de olhar – Dá que pensar a frase de Wayne Dyer: “Mude o modo como você olha para as coisas, e as coisas que você olha mudarão”. Atenção, não significa que não se possa extrair algo de bom daquilo que não o parece ser; 
3 – Superação de objetivos – Devemos identificar-nos com aquilo que nos faz sentir bem e procurar fazê-lo na dose certa. Qualquer pessoa, independentemente da idade, se definir objetivos claros e aplicar o esforço adequado, com motivação e alguma orientação, tem fortes probabilidades de obter sucesso. Atenção, até podemos acreditar em milagres… mas o verdadeiro milagre resulta do nosso envolvimento pessoal a originar a superação;
4 – Somos espírito em evolução – No caso concreto, Braga é uma cidade bimilenária, fundada no período da ocupação romana. Trata-se de uma das cidades do país que mais tem procurado manter vivas as tradições e a cultura popular, a par de um importante tecido empresarial e do fomento da investigação, em parte sustentados no conhecimento difundido a partir na Universidade do Minho. Para uns pode ser very cool, mas para outros algo confuso que haja dísticos azuis para estacionamento rápido na cidade com a designação Kiss & Go, junto das creches, escolas e colégios, quando seria mais apelativo um simples “Beija e Baza”, como sugeriu o humorista João Seabra. Pelo exposto, decididamente, a cidade está a viver a era da globalização. Atenção, relembra-se que somos espíritos em evolução.

Exultem, amantes da língua portuguesa! A UNESCO ratificou em 25 de novembro de 2019 a proposta aprovada em outubro, por unanimidade, pelo seu conselho executivo, para criação do Dia Mundial da Língua Portuguesa, a ser comemorado, pela primeira vez, no dia 5 de maio de 2020. O diplomata António Sampaio da Nóvoa, declarou à agência Lusa: “Os países lusófonos argumentaram que a língua portuguesa é a mais falada no hemisfério Sul e que foi também a língua da primeira vaga de globalização, deixando palavras e marcas noutras línguas no mundo”, faltando tornar-se numa língua de trabalho da ONU.

Obs.: Curiosamente, esta crónica foi escrita para a BIRD Magazine e colocada na secção Lifestyle. Sem problemas, tudo numa nice!

© Jorge Nuno (2019)
   




20/11/2019

Crónicas Leves - GENES DOS PORTUGUESES


GENES DOS PORTUGUESES

O conceituado patologista e investigador – Sobrinho Simões – na qualidade de presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, referiu no seu discurso de 10 de junho de 2017: “(…) Os portugueses têm uma mistura notável de genes com as mais variadas origens, se há algo único, ou quase único em nós, é essa mistura genética. (…) E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, filhas. (…) O ponto que estou a procurar salientar é que a incorporação dos genes foi acompanhada pela incorporação das respetivas culturas, criando uma sociedade de genes muito variadas, tolerante em termos religiosos, avessa aos extremismos pseudo-identitários que irrompem um pouco por todo o lado. (…) Graças a nós e às nossas circunstâncias, temos todos os ingredientes, dos genéticos aos ambientais aos socioculturais e tecnológicos para aproveitar pela positiva, os tempos difíceis que se vivem na Europa e no mundo. Os nossos netos não nos perdoarão se desperdiçarmos esta oportunidade (…).”

Feita esta “repescagem”, que ajuda a uma melhor compreensão dos portugueses, enquanto povo, e os coloca num patamar elevado e único, mas igualmente com fortes responsabilidades, vejamos, apenas como exemplo, algumas miscelâneas de casos singulares.

— A prova como os portugueses estão espalhados pelo mundo e, inevitavelmente, assimilam outras culturas é o facto de Portugal ser o país da União Europeia [EU] que mais recebe remessas de emigrantes, no valor aproximado de 3 mil milhões de euros anuais. Com o crédito facilitado em Portugal, este é o país da EU com mais crédito malparado, o que remete para um vasto leque de consumidores portugueses que vive acima das suas possibilidades e não consegue cumprir com os compromissos assumidos.
— No último dia 18 de novembro foi assinalado o Dia Europeu para a Proteção das Crianças Contra a Exploração Sexual e Abuso Sexual. O Relatório Anual 2018, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima [APAV], com base nos 46.371 atendimentos, maioritariamente por violência doméstica,  refere, entre outros, os crimes contra as pessoas, de natureza sexual: violação (crianças ou adultos) – 165; assédio sexual – 23; lenocídio – 9; importunação sexual – 126; abuso sexual de crianças – 346; abuso sexual de menores dependentes – 15; abuso sexual de pessoa incapaz de resistência – 5; pornografia de menores – 31; coação sexual – 50; outros crimes sexuais – 80. Dados recentes do Ministério da Justiça apontam para 2750 crimes de abuso sexual de crianças nos últimos 3 anos, sendo que cerca de 54% dos crimes praticados ocorreram no seio familiar. São números perturbadores, tendo em conta que ao tempo da intervenção da troika em Portugal e, com base em estimativas demográficas do Eurostat, Portugal teria, em 2013, “a mais baixa taxa bruta de natalidade entre os 28 estados-membros” – situação que se tem mantido com ligeiras oscilações –, ficando a ideia, nalgumas esferas, que a imigração de jovens pode ajudar a inverter esta situação, já que os jovens portugueses, com qualificações elevadas, preferem emigrar. Os portugueses que ficam, aventuram-se menos a trazer filhos ao mundo e aventuram-se, cada vez mais, em situações que entram no conceito de crime sexual.     
Mas os portugueses dão prova de excelência em vários domínios, seja na solidariedade, investigação, fiscalidade, artes de palco, desporto… Envolveram-se numa gigantesca onda de solidariedade quando se deu a ocupação de Timor e as imagens de TV mostraram alguns atos de barbárie, cometidos pelo regime indonésio. Pareceu-me que nunca tinha visto o povo português tão unido! A ajuda, bem mais do que moral, chegou ao outro lado do mundo. Mas este mundo dá muitas voltas e, mais uma vez se refere aqui o “tempo da troika”, para dizer que ficámos sensibilizados ao ver o jovem país Timor-Leste a fazer chegar-nos um donativo, numa altura em que Portugal ficou de pantanas, viu serem vendidas as “joias da coroa”, demasiadas tragédias humanas e a economia desfeita, muito por falta de uma governação cuidada, mas, acima de tudo, pelo desvio de avultadas quantias de dinheiro e bancos forçados a fechar portas. Há, por cá, quem seja perito em engenharia financeira, com cursos financiados pelo Estado para defraudar o próprio Estado. Soa a escandalosa a impunidade na questão da aplicação de capitais em offshores, mas a indolência dos portugueses leva-os a não se preocupar com estes paraísos fiscais, nem com a sangria de euros, que torna as remessas anuais dos emigrantes nuns simples trocos; não querem saber que a estrutura do Banco de Portugal crie um crivo de malha fina para tentar controlar contas  bancárias superiores a € 50.000 e deixe “passar” quando se trata de centenas de milhões. No entanto, os portugueses denotaram surpresa, e esboçaram alguma indignação, ao estalarem os escândalos relacionados com os donativos – resultantes de mais uma enorme onda de solidariedade –, aquando dos incêndios que originaram demasiadas mortes e destruição na região centro do país.
— Sim, temos cá gente excelente nas suas áreas. A missão da Polícia Marítima portuguesa no Mediterrâneo, junto à costa grega e à presente data, já permitiu resgatar quase 6700 migrantes ilegais desde 2014; algumas estações de TV portuguesas aumentaram o número para 15000. A Organização Mundial de Cancro da Mama [ABC Global Alliance] vai ser presidida pela médica oncologista, Fátima Cardoso, que acabou de ser distinguida com o prémio de Cancro da Mama Avançado, sendo que esta organização vai mudar a sua sede para Lisboa. A Fundação Champalimaud, com sede em Pedrouços, vai instituir um novo prémio anual de 1 milhão de euros para “distinguir trabalhos de investigação inovadores” esperando-se que permitam levar à cura do cancro; ao lado do centro clínico da Fundação – que está na vanguarda e tem projeção e credibilidade a nível mundial –, irá ser construído um novo centro de investigação e tratamento do cancro do pâncreas, com 50 milhões de euros doados por um casal estrangeiro, que acredita na potencialidade do projeto ser desenvolvido em Portugal. A Universidade de Sófia, Bulgária, vai instituir a cátedra José Saramago, em reconhecimento do mérito deste português, Nobel da Literatura. José Cid recebeu o Grammy latino de excelência musical. Crianças, jovens e atletas paralímpicos portugueses estão entre os melhores do mundo em modalidades desportivas de salão. No Dubai, o português Jordan foi eleito o melhor jogador de futebol de praia, depois de ser campeão mundial e europeu pela seleção nacional e campeão europeu pelo clube que representa – o Sporting de Braga. Mas não é bem com este futebol que o povo português vibra. Unidos, sim, mas com o futebol… futebol! A seleção portuguesa, com evidente mistura genética, é a atual campeã da Europa, a vencedora da Taça das Nações e estará pela 11.ª vez consecutiva nos maiores eventos mundiais desta modalidade; à boa maneira portuguesa, as grandes decisões arrastam-se sempre para os últimos minutos, com sofrimento e a olhar para o resultado do adversário direto. Mas é disto que o povo gosta!

Mas atenção, há que não ficar entorpecido! Lembremo-nos da frase de Sobrinho Simões sobre o legado aos nossos netos e do inconformismo do músico, cantor, compositor e produtor – José Mário Branco – que agora nos deixou. Cantava ele: “(…) Mas se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhe as voltas q’inda o dia é uma criança (…)”.

© Jorge Nuno (2019)  

30/10/2019

Crónicas leves - COMO VAI O TEMPO?


COMO VAI O TEMPO?

Poderia pensar-se numa cena no elevador do prédio, a arranjar-se uns breves segundos de conversa com dois vizinhos, para retirar o desconforto de estar calado. Mas não, não é obrigatório falar-se de tempo. Ou talvez sim, se já houver alguma proximidade e comungar-se do mesmo fervor clubístico. Aí já se pode entrar a matar:
  Ouviste a notícia de hoje? Como é possível a primeira liga portuguesa de futebol estar em 4.º lugar a nível europeu, pelas piores razões?  
Ouvi sim. É sobre o tempo de jogo útil, não é? Parece impossível como só se joga 52% dos noventa minutos de jogo. Mas o nosso Benfica é a equipa portuguesa que tem mais tempo de jogo útil! Pelo menos é o que diz o Observatório do Futebol…
Nem sei como isso é possível, pois as equipas que jogam contra nós estão sempre a fazer antijogo, a atirar-se para o chão, só para perder tempo.
Aqueles jogadores deviam estar inscritos no “Walking Football”… viste a notícia na TV? Há equipas de jogadores seniores a competir e, para comemorar o Dia Mundial da Terceira Idade, viu-se um bocadinho de um jogo, onde os jogadores não podem correr, porque as regras são mesmo essas.
— Mas olha que nós também temos dois ou três que não sujam a camisola com um pingo de suor!...
— O Néné também era assim e marcou quase 600 golos! No fim, o que é preciso é chegar à frente…

O elevador para no andar, um deles abre e segura a porta, e pronto… perde-se a noção do tempo. A partir daqui, só quando alguém, no rés-do-chão, dá uns murros vigorosos na porta do elevador é que acaba abruptamente a conversa, com a promessa de se retomar o assunto.

Na verdade, seria assim tão entusiasmante falar-se de 300 dias, como tempo de espera médio, para um cidadão obter a pensão unificada, após descontos de uma vida para a Caixa Geral de Aposentações e para a Segurança Social? Ou sobre o agravamento do tempo de espera por cirurgias e consultas, e ainda mais quando se trata de consultas da especialidade; será de considerar como normal a espera, em média, de 180 dias por uma cirurgia de prioridade “normal”, ou de três anos por uma consulta de cirurgia de obesidade? Ou doentes com cancro que esperam cerca de sete meses por uma junta médica, no mínimo, para obterem o “atestado multiusos” para isenção de taxas moderadoras, já o que o mais certo é serem reencaminhados novamente para o seu posto de trabalho, sem direito a certificado de incapacidade temporária, logo, sem baixa médica prolongada? Ou sobre a simples renovação de um cartão de cidadão, anunciado como demorando “apenas cinco minutos”, pode demorar horas, dias semanas e até meses, com os serviços em rutura e senhas limitadas. Ou sobre o tempo de espera por um comboio que foi suprimido sem se dar conhecimento prévio? Ou sobre o exagerado tempo de espera para levantar uma carta registada na estação dos correios, a cinco quilómetros da área de residência, depois de fechar a que havia a 300 metros?

Como vai o tempo?

— Isto está tudo mudado. Já não é o que era! diz a vizinha idosa que vai dar comer aos gatos da rua.  

No hall do prédio, cruzam-se novamente os vizinhos.
— Então… há novidades?
— Se há!... Descobri um canal que não é pago. É o canal 11. São 24 horas diárias de transmissão da Cidade do Futebol. Aquilo é futebol dos sub-17, sub-19, Liga Revelação, jogos do Campeonato de Portugal, vários escalões de futsal e futebol de praia… imensos jogos de competições tanto masculinas como femininas…
— Vá lá… finalmente já era tempo de fazerem qualquer coisa de jeito!... 

© Jorge Nuno (2019)