21/07/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (21) - Evolução - Entre Cemitérios e Corridas


EVOLUÇÃO – ENTRE CEMITÉRIOS E CORRIDAS

Normalmente, quando alguém, ou algo, chega ao fim de vida, toram-se inevitável falar em cemitério, quer se goste ou não da palavra ou da ideia. Comecemos pela ilusão dos “carros de sonho”. Sim, tal como as pessoas muito ricas, com um estatuto privilegiado na sociedade, também as viaturas mais fiáveis e apelativas no mercado, por mais caras que sejam e que dão status, vão parar ao cemitério e deixam-nos a certeza de que nada é eterno. Exemplo disso é o “estranho” cemitério com Ferraris, em Sacramento, E.U.A.

Entretanto, parece “normal” o cemitério quando se trata de viaturas clássicas / antigas. Tanto existe no Alabama, E.U.A., como em inúmeros locais do mundo, e que tem vindo a despoletar questões ambientais, pelos verdadeiros atentados à natureza. O maior cemitério de carros clássicos da Europa está situado num país impensável – a Suécia! Aconteceu a partir de 1967, ano em que se fez um referendo e foi aprovada a condução com o volante à esquerda, o que provocou a substituição, em massa, de viaturas com o volante à direita. Em 2017, a marca sueca Volvo anunciou que só iria produzir veículos elétricos. Prevê-se, num futuro próximo, um novo incremento de carros usados, movidos a gasóleo e gasolina, abandonados em cemitérios naquele país.    

No final de 2015, rebentou o escândalo, rotulado como o Dieselgate, após a descoberta que uma conceituada marca alemã – a Volkswagen (VW) – manipulou o software de mais de onze milhões de viaturas movidas a gasóleo e produzidas nas suas fábricas, para contornar os testes de emissões poluentes, que evidenciavam emissões bem superiores ao anunciado. Pressionada pelos E.U.A., a VW readquiriu, aos proprietários e concessionários, cerca de 350.000 veículos, gastando 7,4 mil milhões de dólares americanos e depositou-os em vários lotes de terreno espalhados pelo território norte-americano, com um total de 37 cemitérios. Nestes, inclui-se os cemitérios gigantes de Victorville, no deserto californiano, e em Detroit, sendo surpreendente e chocante a vista aérea com uma imensidão de automóveis novos e seminovos, alinhados, à espera de ser demolidos [e já o foram cerca de 20.000, segundo a agência Reuters]. Enquanto executivos da VW aguardam julgamento, outros responsáveis da marca admitem que, apesar dos elevados custos, as viaturas possam vir a ser reparadas e devolvidas aos clientes, prevendo-se que algumas outras possam ser “recondicionadas”.

Observa-se uma produção na indústria automóvel superior à procura, que provoca o armazenamento dos stocks excedentes a céu aberto, em muitos pontos do mundo. Entre outros, são muito conhecidos os casos de viaturas novas não escoadas e em elevado número nos seguintes locais: porto de Sheerness, Corby e Avonmouth, Inglaterra; São Petersburgo, Rússia; porto de Civitavecchia, Itália e porto de Valência, Espanha.

Contrariamente ao exposto, em Portugal, as vendas de viaturas novas tem vindo a disparar. O Diário de Noticias on-line, de 17 de julho de 2018, divulgou que «em maio de 2018 foram batidos recordes [na concessão de crédito automóvel, neste país]», sendo que nos primeiros cinco meses do ano registaram-se mais de 89.000 financiamentos concedidos[1], a «um ritmo de quase 600 por dia», levando a empréstimos de «mais de 1,26 mil milhões de euros nesse período». As novas regras de concessão de crédito recomendadas pelo Banco de Portugal vêm colocar travão nas vendas. A par desta iniciativa, a Comissão Europeia quer que os estados-membros apliquem o novo método WLTP (worldwide harmonized light vehicles test procedure), mais realista quanto a consumos e emissões poluentes, transitoriamente, a partir de 1 de setembro, que levará a aumentos significativos do custo de aquisição das viaturas convencionais novas, e definitivamente em janeiro de 2019, que conduzirá a novo aumento.    

Quanto aos muitos milhares de automóveis elétricos, produzidos inicialmente como um produto inovador, mas com um risco mal calculado, foram apodrecendo em grandes cemitérios, devido a lóbis da indústria petrolífera e da indústria automóvel convencional, além da falta de autonomia das viaturas elétricas e da inexistência de pontos de abastecimento elétrico, confinando-os a pequenos circuitos locais.

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / muda-se o ser, muda-se a confiança: / todo o mundo é composto de mudança / tomando sempre novas qualidades (…)»[2]. Em Portugal, a venda de carros elétricos também disparou, registando-se um aumento de 130% em julho de 2017, face a período homólogo. Com os incentivos fiscais, decorrentes da ausência de emissões poluentes, a tendência é para continuar a aumentar as vendas de veículo com esta tecnologia amiga do ambiente, reforçado pelo novo ajuste que faz disparar o preço das viaturas a gasolina e gasóleo.

Atenta à evolução, a FIA[3] criou a série Fórmula E, com carros elétricos e que, além da competição, promovem o desenvolvimento deste tipo de viatura, ao nível da potência, aerodinâmica, eficiência…

Em junho de 2018, realizou-se em Portugal o 1.º Eco Rally, com carros exclusivamente elétricos, integrado no FIA Electric and New Energy Championship 2018. Teve classificativas nas serras da Arrábida e de Sintra. Segundo a UVE[4], que esteve na organização, «pretende-se medir a regularidade, não a velocidade pura».

No cemitério do Gethsêmani Morumbi, São Paulo, Brasil, que tem uma área de 135.000 metros quadrados, está disponível uma significativa frota de veículos elétricos para facilitar o acesso das pessoas às campas distantes da portaria, e também para transporte dos defuntos à sua última morada. 

Até lá… bons passeios, sem pressa e, preferivelmente, sem poluição.
© Jorge Nuno (2018)

       




[1] Fonte: Banco de Portugal.
[2] Luís Vaz de Camões, num soneto escrito em pleno século XVI.
[3] Federação Internacional do Automobilismo.
[4] Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos.

07/07/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (20) - "A Última Coca-Cola no Deserto"


A ÚLTIMA COCA-COLA NO DESERTO

Para Portugal, o Mundial da Rússia já é passado. Poucas horas a seguir à desilusão, os portugueses atentos conseguiram ganhar algum de ânimo, ao saber que, pela segunda vez consecutiva, este país é o grande triunfador dos World Travel Awards, considerados os “Óscares” do Turismo. Obteve 36 prémios, entre eles: o Melhor Destino Europeu (pelo segundo ano consecutivo); Lisboa, como sendo a Melhor Cidade Destino da Europa e com o Melhor Porto de Cruzeiros (pelo terceiro ano consecutivo); a Madeira a ser considerada o Melhor Destino Insular; os passadiços do Paiva, na Serra da Freita, a Melhor Atração de Turismo Aventura… Na mesma ocasião, soube-se também que Portugal terminou a sua participação nos Jogos do Mediterrâneo – em que fez a sua estreia, representado em 29 modalidades – e conseguiu três medalhas de ouro, oito de prata e treze de bronze, atenuando a desilusão do futebol.

É certo que o elevado número de turistas que nos visitam fomentam a economia, contribuindo para que haja uma sensação coletiva agradável de um Portugal que, decididamente, terá saído da crise, ajudando a superá-la. Parece respirar-se de outra forma, com mais confiança no futuro. Mas também é certo que este inusitado afluxo de turistas, particularmente nas grandes metrópoles de Lisboa e Porto, e ainda mais nos seus centros históricos, estão a causar problemas impensáveis há pouco anos atrás. São contratos de arrendamento a não ser renovados e os moradores a ser despejados, para investimento no turismo de habitação ou requalificação para reinvestimento, e a muita procura a fazer disparar os preços nas vendas dos imóveis, criando um mercado artificial, com valores altamente inflacionados, que leva o Banco de Portugal a apertar os critérios para a concessão de empréstimo para a compra de habitação e para o crédito ao consumo, que colide contra tanto entusiasmo.

Os portugueses ainda mais atentos não deixam passar em claro um novo máximo histórico da nossa dívida pública, preocupante, atingido em maio deste ano; representa um total de 250.313 milhões de euros, de acordo com dados revelados pelo Banco de Portugal. Só o setor empresarial do Estado, em 2017, tem uma dívida de 24.290,7 milhões de euros, segundo o Jornal Económico, sendo que «a Infraestruturas de Portugal continua a ser a empresa pública mais endividada (…) com uma dívida de 8.289 milhões [de euros]».

Bem, talvez se compreenda que os portugueses prefiram saber as novidades no arranque da época desportiva dos “três grandes”, cada um, à sua maneira, a procurar acumular pontos antes do apito inicial do jogo. Sabe-se da importância em atribuir importância a algo, como forma de a promover, em que a imagem positiva daí resultante dá frutos. Veja-se o caso das finanças portuguesas e do respetivo ministro – Mário Centeno –, que em virtude do “milagre” conseguido, foi eleito presidente do Eurogrupo. Até parece que ele era a última bolacha do pacote ou a última coca-cola no deserto.

Talvez se compreenda a necessidade de introduzir o marketing em quase tudo, se entendermos o conceito, segundo Philip Kotler, como a «ciência e a arte de explorar, criar e entregar valor para satisfazer as necessidades de um mercado-alvo com lucro. Marketing identifica necessidades e desejos não realizados». E neste sentido, Portugal tem apostado no Turismo e na própria imagem no exterior e, no futebol, a SAD do Sporting Clube de Portugal tem muito trabalho a fazer, principalmente para unir os associados e adeptos, depois de ver desbaratinado o seu plantel principal. Quanto ao ex-treinador deste clube, tantas vezes acusado de se achar melhor treinador que qualquer outro, sempre me pareceu um homem simples, que percebe do negócio, que sabe o que quer e o que não quer. Deliberadamente, ou não, soube construir a sua imagem e quando foi “empurrado” para fora de um grande clube, foi logo acolhido por outro grande clube, e agora por outro, de grandes posses financeiras, na Arábia Saudita – país em que mais de metade do seu território é deserto. Não sabemos se os adeptos do Al-Hilal entenderam que Jorge Jesus seria a última coca-cola no deserto, ou que o próprio pense isso de si mesmo, mas retemos, com alguma estranheza, o entusiasmo com que foi recebido no aeroporto de Riade.

No Mundial não fomos além dois oitavos, é uma realidade; mas há realidades só possíveis no mundo do futebol, como é o caso de dezenas de muçulmanos a aclamar, em uníssono, o ex-treinador do Sporting Clube de Portugal: “Jesus! Jesus! Jesus!...”!

© Jorge Nuno (2018)
               

23/06/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (19) - "Que Bem Prega Frei Tomás!"


QUE BEM PREGA FREI TOMÁS!

Com a recente entrada no verão, as férias, o facto de se estar em plena animação nos festejos dos santos populares, ou no desenrolar do Campeonato do Mundo de Futebol, temática não faltaria para a elaboração desta crónica, que poderia ser escrita em modo “soft”, de “relax” ou, eventualmente, a realçar o entusiasmo que se vive com esta competição de futebol ou nos arraiais. Como José Régio: «sei que não vou por aí». É que, perante acontecimentos recentes, não consigo desligar a mente da “moral” – ou falta dela – dos que se arrogam apregoá-la. Admito que até poderia dar jeito alguma meditação transcendental, para entrarmos no verdadeiro espírito do verão, do defeso, e mudarmos temporariamente o “chip”, até se retomar a vida rotineira e agitada.

Começando por aqui, ocorreu-me alguns ensinamentos de Maharishi[1], que descrevo: «Faz o que o mestre diz e não o que ele faz» e exemplificou, numa alusão a Jesus de Nazaré: «se o mestre caminha sobre as águas, não tentes andar sobre as águas, pois o mais certo é afogares-te», ou «não te crucifiques se o teu mestre for crucificado». Há que reconhecer: esta pode ser uma versão diferente daquela em que surge a moral que se prega para os outros, mas que os próprios não adoptam. E o nosso pequeno mundo está cheio destas últimas!

Retrocedamos ao primeiro dia do ano de 2008. Precisamente nessa passagem de ano, no momento da entrada em vigor da nova legislação de prevenção tabágica, o então inspetor-geral da ASAE[2] – António Nunes – foi apanhado a fumar no Casino do Estoril. Tal, causou um enorme ruído, pois ele era o garante que a instituição que liderava iria fiscalizar e multar os incumpridores. Perante este facto, o casino apressou-se a comunicar à imprensa que António Nunes estaria numa zona de fumadores. Certo é que o diretor-geral da Saúde [à época] – Francisco George – reuniu de imediato com o órgão consultivo e os conselheiros consideraram que «é perfeitamente possível que nos casinos se possa fumar», combinando as leis do tabaco e do jogo, sem no entanto assegurar o direito dos trabalhadores do casino poderem exercer a sua atividade num ambiente despoluído, e evitar doenças graves. Mais certezas, foi que decresceram as receitas dos casinos, após a entrada em vigor desta lei; que a ASAE “fechou os olhos” quanto ao rigoroso cumprimento da lei; que o processo ficou inquinado de início.

Na atualidade…

Segundo uma notícia do JN[3] do dia 6 de junho de 2018, começa por se afirmar que «A reciclagem está estagnada, apesar dos portugueses terem produzido mais lixo em 2017 do que nos anos anteriores (…) cada habitante fez 1,32 quilogramas de resíduos por dia. No entanto, a taxa de reciclagem continua teimosamente nos 38 %, tal como há dois anos. Portugal está mais longe de cumprir as metas do Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos, a que se propôs para 2020. O país tem três anos para alcançar uma taxa de reciclagem de 50% – o que, a avaliar pelos últimos anos, é quase impossível». A Agere[4] e a Braval[5] atuam em parceria na bonita cidade onde habito, e levam 38% do valor da minha fatura da água para saneamento e 17% para resíduos sólidos. A primeira, tem um site atraente, com destaque para «um gesto pelo ambiente». No último dia 3 de maio, apresentou na praça do Município, com pompa e circunstância, os novos sistemas de recolha de lixo. A segunda, aproveitou o Dia Mundial do Ambiente – a 5 de junho – para sensibilizar os munícipes a fazerem a separação do lixo. Há onze meses que ando a lutar, através de pedidos formais e de sucessivas reclamações, para que sejam colocados contentores para resíduos sólidos comuns e outros que permitam a separação seletiva de lixos recicláveis na minha zona. Há poucos dias surgiu a promessa de colocação de um contentor em setembro, mantendo-se o lixo nos passeios até lá (causando mal ao ambiente e à saúde pública), sem expetativas de reciclagem. Entretanto, em minha casa, a fazer fé nas estatísticas, foram produzidos, nestes dez meses, 897 quilogramas de lixo e nenhum foi reciclado, apesar de eu pretender fazê-lo; mas ficou a saber-se o por quê.

No site da CGD[6], pode ler-se que esta instituição «é um banco público português (…) o maior banco de Portugal detido pelo Governo da República Portuguesa». O seu slogan é mesmo: «Qual é o banco que está consigo? A Caixa. Com certeza». Dois dias após tomar posse como presidente do conselho de administração, Miguel Macedo, em carta dirigida aos trabalhadores, afirmou o «compromisso de reestruturação e da capitalização (…) que a Caixa manterá a sua liderança e, com certeza, quererá consolidar-se no futuro». À conta dos incêndios no interior do país, tem vindo a ser abordado publicamente, com insistência, por autarquias, deputados, governantes e as forças vivas das diversas regiões do interior, a necessidade de combater a desertificação e criar condições à fixação das populações, com segurança e qualidade de vida. No dia em que o presidente da República fez um apelo e estabeleceu um limite de prazo [2023] para acabar com as assimetrias entre interior e litoral, a CGD anuncia mais um encerramento de balcão numa localidade do interior – São Vicente da Beira, no distrito de Castelo Branco –. Em 2017 encerrou 64 balcões. «Em 2018 serão encerrados entre 70 e 80», afirmação de Miguel Macedo. Não só as populações, incluindo as mais vulneráveis, ficam sem os serviços bancários, como muitos dos cerca de 2000 trabalhadores da CGD dispensados vivem com as suas famílias no interior e têm de procurar a subsistência no litoral, indo num sentido oposto ao que era esperado e recomendado.

O presidente [suspenso] do CD[7] do Sporting Clube de Portugal e presidente da SAD[8] do mesmo clube, há meses que tem vindo a abrir várias frentes de “guerra”, tendo sempre em vista os superiores interesse do Sporting. Num ato público de exaltação clubística, pediu a todos os comentadores desportivos afetos ao clube, e a todos os associados e adeptos, que deixassem de participar e ver outros canais televisivos, a não ser a Sporting TV. Depois disto, por diversas vezes, entrou em direto em variados canais, para intervir a “defender” o “seu” Sporting. Diz que “é preciso dar a palavra aos sócios” e fez tudo para impedir a AG[9] destitutiva do CD. Alega a defesa do cumprimento da lei, mas não aceita e desrespeita ordens do tribunal, para depois recorrer a estes, através de providências cautelares e queixas-crime, esperando que as decisões lhe serem favoráveis. Legalmente suspenso de funções no CD, continua a decidir a bel-prazer, a ponto de impedir a entrada, nas instalações onde era suposto desempenharem funções, os membros do Conselho de Gestão nomeado pelo presidente da AG, que cumpre os estatutos do clube. Como presidente da SAD, tem vindo a apregoar o “milagre económico”, enquanto o Conselho Fiscal revela preocupação pelas contas do clube, os empréstimos obrigacionistas encontram-se suspensos e o Banco de Portugal dá diretrizes para que os bancos não emprestem dinheiro a clubes de futebol. Diz que vai reaver 535 milhões de euros com as rescisões de contrato, por alegada “justa causa”, de nove jogadores do plantel principal, após ter contribuído para que esses leões “voassem” a custo zero, baixando assustadoramente os ativos da SAD, aproximando-a da insolvência ou fazendo com que o clube deixe de ter a maioria do capital, a favor de um qualquer multimilionário com tendência para gozo narcísico e exagerado exercício do poder – neste caso sim, seria o dono do clube –, ou aparecer um encapotado fundo de investidores mas em que, em ambos os casos, os sócios deixariam de ter a palavra. Tudo em nome dos superiores interesses do clube.

Afinal não se tratou de uma meditação transcendental, mas um simples exercício de meditação sobre as contradições neste estranho mundo, a fazer lembrar o provérbio: «Bem prega frei Tomás! Façamos o que ele diz, não o que ele faz».

© Jorge Nuno (2018)
   
          

  

 




[1] Maharishi Mahesh Yogi (1918-2008), guru indiano, fundador da Meditação Transcendental.
[2] Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.
[3] Jornal de Notícias, artigo assinado por Carla Sofia Luz.
[4] Empresa municipal de água e saneamento.
[5] Empresa de valorização e tratamento dos resíduos sólidos.
[6] Caixa Geral de Depósitos.
[7] Conselho Diretivo
[8] Sociedade Anónima Desportiva
[9] Assembleia Geral de Sócios.

09/06/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (18) - "Algarve - Allgarve - Oilgarve"


ALGARVE – ALLGARVE – OILGARVE

Na vida pessoal e na natureza, as mutações são constantes; nada é estático, nem definitivo. Dizia George Bernard Shaw[1]: «O progresso é impossível sem mudanças. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada». É preciso reconhecer que, na maior parte das vezes, é necessário muita ousadia e resiliência perante pressões adversas e que conduza, com sucesso, à superação de obstáculos.

Quando surge a palavra “Algarve”, associa-se mentalmente a outra palavra inglesa “relax”[2], o que é compreensível, por ser um dos maiores destinos turísticos dos portugueses, mas também estrangeiros, com predominância dos ingleses. Na BTL[3], o presidente da região de turismo do Algarve, Desidério Silva, afirmou que «o Algarve continua a ser o destino de férias dos turistas ingleses», tendo mencionado que só estes ocuparam, em 2017, 65,2 % das camas disponíveis na região, num total de 6,1 milhões de dormidas, representando metade dos passageiros movimentados no aeroporto de Faro. Dá que pensar! Dá que pensar… que empreendimentos turísticos, operadores turísticos e agências viagens e de aluguer de viaturas, companhias aéreas e, claro, turistas britânicos, tenham movimentado tantos milhões de libras esterlinas (GBP), em circuito fechado, e o dinheiro fique, na sua maioria, no Reino Unido. Dá que pensar… que um português, entrando num restaurante no Algarve, encontre ementas só em língua inglesa e empregados britânicos, e que para pedir uma simples mousse de chocolate o tenha que fazer em inglês. Dá que pensar… os enormes “outdoors”, à beira da estrada, cheios de frases tal como “Real Estate”, ou “Eco Luxe Exceptional Villas”, “Live the difference! Algarve Luxury Property”. Dá que pensar… a dependência britânica e os efeitos do Brexit[4] que, a curto prazo, inevitavelmente, irá alterar a sua afluência a esta região. Dá que pensar… a seca extrema que o país viveu em 2017, precisamente numa altura de época alta para o turismo, em que já se fazia sentir a falta de água e o seu consumo a subir exponencialmente. Dá que pensar… as “pegadas ecológicas”, originadas pelo turismo, com Portugal[5], em 2011, a deter «a 9.ª pegada ecológica mais elevada entre 24 países do Mediterrâneo”, sendo evidente na região algarvia. Para minimizar esta última situação, foi criado um projeto para «fornecer aos municípios as ferramentas para vivermos de forma sustentável com os nossos recursos naturais, preservando o planeta Terra[6]».

Na Feira de Turismo do Algarve, em 2007, o então ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, fez a apresentação pública da marca “Allgarve”. Mesmo ainda sem se saber bem o que se pretendia com a “marca”, esta já estava a ser alvo de chacota, pela “aproximação inglesada”, como se tratasse de subjugação e perda de soberania. Dizia este ministro, na inauguração, ao anunciar um investimento inicial de seis milhões de euros: «O turismo está ao nível mais alto de sempre, mas a ambição vai mais além disto: queremos mais turistas de curta duração, turistas de férias e mais estrangeiros que procurem Portugal para segunda residência» e estaria muito confiante nos resultados que viriam a ser suscitados pela marca “Allgarve”, já que achava poder contribuir para «criar mais oferta de qualidade, compatibilizar turismo e ambiente, aumentar o número de companhias “low cost” presentes no aeroporto de Faro (…) e dar benefícios fiscais para segunda residência de estrangeiros». Na altura, a AHETA[7] rejeitou esta campanha, por entender que ofendia «as mais elementares regras e princípios de marketing turístico». Cinco anos depois, Elidérico Viegas, presidente da AHETA, referiu que o insucesso do “Allgarve” [acabado de extinguir] se deveu a má estratégia e teimosia do ex-ministro Manuel Pinho e que «o programa nasceu torto, nunca se endireitou e morreu sem glória». Também alguns deputados algarvios, da oposição, consideraram-no «um sorvedouro de dinheiro» [4,6 milhões de euros, só no último ano, acabando sem dinheiro para vencimentos].

“Algarve, sim! Oilgarve, nunca!” é o título de um artigo[8], de 2016, que refere já terem sido «atribuídas 9 concessões para exploração de petróleo e gás natural em águas e terras algarvias. O Turismo do Algarve não é e não quer ser o Turismo Petrolífero – são duas palavras que não combinam». No presente, sucedem-se as manifestações “contra” e sessões de esclarecimento, estimuladas por ambientalistas, a que se juntam algumas formações partidárias, movimentos de cidadãos e populações locais. Foi anunciado pela PALP – Plataforma Algarve Livre de Petróleo, que a ENI, Galp Energia, Portfuel, Repsol e Partex, querem fazer prospeções já em setembro, tanto em terra como ao largo da costa. A PALP exige «um estudo de impacto social, económico e ambiental, e, ainda, [pretende] pressionar o estado para publicitar toda a informação inerente à prospeção, pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural em Portugal».

Sabe-se que o turismo representa 60% do emprego na região e que 40% deste território é área protegida. Sabe-se que a atividade de extração de hidrocarbonetos contribui para: o aquecimento global; fomentar a atividade sísmica, numa zona crítica; afastar a fauna marinha, devido ao intenso ruído que provoca; eventuais derrames de resíduos; perfurações indevidas, que podem atingir veios aquíferos[9]. Sabe-se que os combustíveis fósseis tendem a perder importância e que Portugal tem sido impulsionador – e muito bem – de energias alternativas renováveis, conseguindo-se chegar a uma produção autossuficiente.
      
Dá que pensar… até o resultado financeiro proveniente da exploração destes recursos naturais do subsolo poderá ir, maioritariamente, parar ao bolso de estrangeiros.

Ao mudarem-se mentalidades, que seja em abono deste planeta azul, com muitas manchas verdes e não negras. Que este despertar coletivo dê força à necessária resiliência contra “negócios escuros”, teimosia e más estratégias.

Allgarve… já era! Oilgarve… não, obrigado! Algarve, sempre!   

© Jorge Nuno (2018)


[1] Irlandês (1898 – 1950), foi dramaturgo / autor de comédias satíricas, romancista, contista, ensaísta e jornalista.
[2] Com o significado de tranquilidade, sossego, relaxamento…
[3] Bolsa de Turismo de Lisboa, de 2018.
[4] Designação da saída do Reino Unido da União Europeia.
[5] In site “Green Savers”.
[6] Idem.
[7] Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve.
[8] In esquerda.net
[9] Lençóis subterrâneos de água potável.

26/05/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (17) - "Loucos em Cima de Vulcões e à Frente de Touros"


LOUCOS EM CIMA DE VULCÕES E À FRENTE DE TOUROS

«Por isso é que eu sou das ilhas de bruma / onde as gaivotas vêm beijar a terra (…)», assim se cantava o refrão desta bela canção, de autoria de Manuel Medeiros Ferreira, e terminava o último ato “oficial” da visita, com cereja no topo do bolo, rotulado no programa como «serão cultural, com música tradicional e contemporânea açoriana». Foram bons apontamentos musicais com o maestro Carlos Frazão, ao piano, e a voz cristalina de Helena Oliveira, ambos talentosos micaelenses.

Para trás ficavam sete dias magníficos, perante cenários idílicos, onde é evidente a preservação e valorização do património natural, que nos toca profundamente. Miradouros e bermas da estrada floridos; furnas, grutas, escarpas, caldeiras e lagoas, resultantes de fenómenos vulcânicos; cascatas e piscinas naturais; reservas florestais, parques naturais e paisagens protegidas; termalismo; jardins botânicos e românticos; observação de aves, golfinhos e baleias; extensas e verdejantes pastagens,… tudo isto no reino das “vacas felizes”.

Foram igualmente felizes as iniciativas de marketing associadas ao «leite de pastagens de vacas felizes» – leite produzido neste arquipélago –, que promoveu a canção bem ritmada “Ilha das Vacas Felizes”, com uma letra que refere: «Uma vaca feliz / outra vaca feliz / uma ilha de vacas felizes / andam sempre a passear / têm vista para o mar / o pasto verdejante é o seu manjar / (…) na encosta de um vulcão / bem no meio do oceano / há vacas com muita sorte / vivem livres todo o ano (…)». Também resultam os folhetos turísticos «Açores, certificado pela natureza» ou, como pode ler-se num outro, «(…) transforma a paisagem em poesia».

Já em fevereiro de 2017 tinha escrito o seguinte, na minha crónica “Vacas que Riem –Vacas Felizes”, publicada na Bird Magazine: «É que (…) no arquipélago dos Açores, temos vacas que são criadas em prados verdes, apresentam boa produção leiteira e são mesmo apelidadas de “vacas felizes”. Estas vacas são expostas apenas ao puro som do marulhar, da sinfonia dos pingos da chuva atlântica, da húmida brisa, da folhagem da vegetação (com pastagens verdejantes cercadas de hortênsias azuis) e do som telúrico saído das profundezas destas ilhas vulcânicas, numa concórdia de elementos que embriagam. Trata-se de um programa natural, criado pela mãe-natureza, com a qual as vacas tão bem se harmonizam». (Para mais, aceder ao link: https://birdmagazine.blogspot.pt/2017/02/vacas-que-riem-vacas-felizes.html).

Durante este circuito, além da magia da natureza, ficaram bem patentes os aspetos ligados à fé, com realce para a grandiosidade da iluminação decorativa da fachada do convento de Nossa Senhora da Esperança, em Ponta Delgada, onde fica temporariamente o busto do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Estas festividades religiosas e pagãs atraem residentes e milhares de emigrantes e turistas. Destaque também para a simpatia do povo açoriano, a riqueza da cultura e da história, que se estende aos tempos do povoamento.
Sobre esta última, apesar de haver indícios de visitas humanas na idade antiga, crê-se que navegadores enviados pelo rei D. Dinis (1261 – 1325) terão chegado a algumas destas ilhas, mas terá sido Diogo de Silves, em 1427, a (re)descobrir a ilha de Santa Maria, seguindo-se São Miguel e mais algumas ilhas. O arranque do povoamento só se deu em 1439, determinado por carta régia de 2 de julho do mesmo ano; foi iniciado na ilha de Santa Maria por Gonçalo Velho, recém-nomeado capitão-donatário, acompanhado de famílias oriundas de várias proveniências de Portugal, a que se juntaram mouros, judeus e flamengos (estes por influência da irmã do Infante D. Henrique); estendeu-se à ilha de São Miguel em 1444, por nova carta régia, sendo ambas as ilhas doadas pelo Infante D. Henrique à Ordem de Cristo.

Sobre a natureza vulcânica e história das ilhas, sobressai o deslumbramento aquando da vista sobre as caldeiras e lagoas. É impressionante a visita ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, o qual entrou em erupção em setembro de 1957 e originou fortes abalos de terra, com enormes prejuízos materiais, obrigando à emigração de cerca de 40% da população faialenses e muitos açorianos de outras ilhas, deixando famílias separadas durante décadas.

É igualmente impressionante o relato da batalha da Salga, que ocorreu em 1581 na ilha Terceira, ao tempo do rei Filipe II de Castela, e que mostrou a heroicidade dos terceirenses ao não se querem render aos castelhanos, quando praticamente todo o território do reino de Portugal já lhe pertencia, desde o ano anterior. Após o desembarque de cerca de mil combatentes castelhanos e uma luta renhida, quando a vitória parecia pender para os invasores, apesar dos atos de bravura destes portugueses, é aqui que se dá reviravolta ao entrar em cena uma grande quantidade de vacas e bois (levados para as ilhas para produzir carne e leite), gado que foi encaminhado em direção aos castelhanos, depois de espicaçados com aguilhão e disparos das armas da época. Porque vestiam armaduras pesadas e retroceder para o mar mostrou-se fatal, tornou-se mais fácil a vitória portuguesa e a humilhação castelhana. É evidente que ficou o culto e a tradição das largadas de touros à corda nesta ilha. Começa logo pelas imagens de vídeo no aeroporto, enquanto se espera pela bagagem; no restaurante, enquanto se toma a refeição; numa loja, para comprar uma qualquer “recordação” do artesanato local, para oferecer… Um guia turístico, mesmo consciente dos custos da insularidade, dizia na despedida: “Podem achar que somos loucos por vivermos em cima de vulcões e corrermos à frente de touros, mas esta terra tem atrativos suficientes para nos fazer querer viver aqui. Voltem com mais tempo e verão que tenho razão”.

Chegado ao continente, deparo-me com notícias simultâneas em todas as estações de televisão, em que a cor predominante também é o verde. Depois de alguns “abalos” frequentes, que vinham a aumentar de intensidade, foi espicaçado o “vulcão” adormecido: um grupo de trinte e oito jovens, conotados com uma conhecida claque de futebol, correu algumas centenas de metros e entrou na Academia do Sporting, em Alcochete, causando terror entre jogadores da equipa profissional, equipa técnica e staff e que, face à gravidade da ocorrência, levou o juiz de instrução criminal a declarar a prisão preventiva, como medida de coacção, para vinte e três jovens – aqueles que foi possível deter e levar a tribunal. Ocorreu-me, que sendo Alcochete um concelho ribatejano com tradição nas touradas e largadas de touros, seria interessante ver os campinos, com o seu colete encarnado e barrete verde, encaminhar os touros na direção destes anormais membros da claque, que acham normal ir-se para “reuniões” de rosto coberto; seria interessante ver quão fortes seriam em grupo, com ou sem armaduras, perante uma manada de touros em passada rápida. Foi possível, no continente, ver estes loucos em cima de “vulcões” (criados por eles próprios) e que podem causar prejuízos de muitos milhões de euros. Mas, em contrapartida, há que reconhecer: daria mesmo gozo vê-los correr à frente de touros de lide, com pontas dos cornos afiados e massa bruta de 500 kg!

© Jorge Nuno (2018)

28/04/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (16) - Dos Clássicos ao Futuro, no Presente


DOS CLÁSSICOS AO FUTURO, NO PRESENTE

Há muito poucos dias assisti, no largo do Pópulo, em Braga, a uma exposição / concentração de veículos clássicos “Drive It Day”[1]. Com esta iniciativa pretende-se «promover o uso do veículo clássico, como forma de demonstrar a sua importância cultural e social e a dimensão do universo de entusiastas (…) com o objetivo de enaltecer o vigor da paixão pelos veículos antigos»[2]. Neste âmbito e nesse dia, por várias cidades da Europa, foi dada maior visibilidade a estas máquinas, com imensos quilómetros de estrada.

Estando eu, inevitavelmente ligado, por formação superior, à engenharia de máquinas, era suposto ser também um dos entusiastas, mesmo não estando na posse de uma qualquer semelhante “relíquia”, por vezes bem mais valiosas, comercialmente, do que muitas viaturas novas. É que sempre vi estas máquinas como ferramentas ao serviço do homem e que têm um limitado tempo útil de vida – cada vez mais curto – ao invés do homem, que tem vindo a aumentar a sua esperança de vida.

Estou consciente, e os responsáveis das marcas de automóveis também, que se joga muito com o símbolo do “status”, estando os respetivos departamentos de marketing sempre motivados a fomentar, num público-alvo específico, o desejo de aquisição de “aquela viatura” – a tal – a que dá “status”. Li algures que «o brasileiro não é apaixonado por carros, é apaixonado por status [que o carro confere]». É evidente que esta ideia é extensiva a muitos outros povos. Li também que «o homem tem uma grande paixão e uma relação intensa com os carros, como se fosse uma extensão do seu próprio corpo». Esta chega mesmo a ser a situação, também clássica, do homem que sobrepõe aquela sua máquina às pessoas chegadas que o rodeiam, e com quem se esperaria a existência de uma relação igualmente intensa, mas que acaba por se revelar secundarizada.

A minha natural tendência para desvalorizar as máquinas não invalida que tenha gostado de rever, nesta exposição, muitos modelos, até de marcas que já não existem, tal como o tinha feito no Museu do Caramulo, que exibe uma vasta coleção de automóveis antigos, entre outro espólio com muito interesse. Mas foi em Braga que vi sobressair um apreciável número de exemplares do célebre “carocha”, da marca Volkswagen, bem estimados e até, lamentavelmente, alguns deles adulterados, por lhe terem introduzidas peças e acessórios que não são da marca e que, de certo modo, os descaraterizam. Sobre esta marca e modelo, apenas três curiosidades:
– Um engenheiro alemão-judeu – Josef Ganz –, descendente de família judia de Budapeste, próximo do ano de 1924 viria a incentivar a modernização da indústria automóvel alemã, tendo lançado a ideia que os veículos deveriam ser mais baratos, mais económicos e mais seguros, fazendo surgir o conceito e a marca “Volkswagen”. Adolfo Hitler, em 1933, após ter visitado o Salão Internacional Automóvel de Berlim, apropriou-se da ideia do “carro do povo”, como sendo sua e de grande simbolismo para a propaganda nazi, e afastou Josef Ganz por ser judeu;
– É reconhecido o sucesso mundial deste modelo, que chegou a ter um milhão de veículos produzidos em 1954;
– Os meus dois primeiros carros foram precisamente dois “carochas”, o primeiro deles ainda de óculo traseiro pequeno. No local da exposição, revivi algumas das “grandes” viagens que fiz neles, com destaque para as deslocações de Lisboa para Bragança e vice-versa, numa altura em que havia apenas o troço de auto-estrada entre a capital e Vila Franca de Xira, percorrendo quase todo o trajeto em movimentadas e sinuosas estradas nacionais e até municipais. Eram autênticas aventuras, sempre com latas de óleo extra para atestar durante o percurso. Ainda hoje consigo reconhecer, ao longe, o som proveniente do trabalhar do motor do “carocha e relembro-o como se se tratasse de uma cigarra em pleno verão, ao atravessar aquelas serranias de Trás-os-Montes, sempre de janela aberta.
Cada vez aperta-se mais o cerco à circulação destes “clássicos”. Primeiro pela inexistência de catalisadores e filtros de partículas, e mesmo tendo-os, por não conseguirem travar as partículas nocivas que saem dos escapes, ficando fora dos padrões regulamentados. Como a preocupação com as questões ambientais, a saúde das populações e a pressão social revelam-se cada vez mais pertinentes, os governos de muitos países sentem-se obrigados a tomar decisões drásticas, proibindo, simplesmente, a circulação de viaturas que não cumpram determinadas normas ambientais, onde as viaturas a diesel são as primeiras a ser condenadas a deixar de existir. Tudo aponta para que a seguir aos carros movidos a gasóleo sejam suprimidos os de gasolina. É que dá que pensar a revelação de Helena Molin Valdés[3]: «nove em cada dez pessoas vive hoje em zonas onde a poluição atmosférica excede o limite de segurança imposto pela Organização Mundial de Saúde». Metrópoles como Paris, Madrid, Atenas e Cidade do México, lideram o movimento que quer banir a circulação de carros a gasóleo já a partir de 2025 e o governo francês já impôs metas mais ousadas, ao não querer que se venda viaturas a gasolina e a gasóleo depois de 2040…. E basta mostrar-se essa intenção para os potenciais interessados começarem a hesitar na compra e fazer baixar as vendas. Há pouco tempo atrás, verificava-se a tendência dos carros híbridos convencionais e híbridos plug-in (que têm certas vantagens sobre os primeiros), mas agora, mais do que nunca, a indústria automóvel está a voltar em força à produção de veículos elétricos. Digo “voltar”, pois vi, imagens confrangedoras de cemitérios de automóveis novos, elétricos, que devido a lóbis e falta de concertação estratégica, acabaram por “morrer” coletiva e prematuramente, tornando-se num fiasco financeiro. Tem-se vindo a trabalhar, a um ritmo alucinante, para aumentar várias vertentes da autonomia das viaturas, com um novo conceito, aliado à sofisticada tecnologia informática e robótica, e o resultado é a produção de autênticas maravilhas, como se se tratasse de ficção científica.

A transição já é uma realidade, com o futuro… hoje! A Tesla Motors e a Google estão a vencer a “corrida” concebendo veículos autónomos, deixando para trás marcas conceituadas da indústria automóvel. As tecnologias adotadas pela Tesla baseiam-se muito em sistemas de radares, câmaras, sensores… enquanto a Google desenvolve a robótica e «um sistema laser, capaz de criar mapas tridimensionais num raio de 60 metros» à medida que se desloca, conferindo maior segurança rodoviária.

Portugal, depois de ter feito um elevado investimento estratégico, em infra-estruturas, para produção de energia “verde”, em menos de uma década saboreia o fruto: março de 2018 foi o primeiro mês com 100% de energias renováveis! Agora, assinou em Bruxelas, um protocolo com Espanha, num projeto pioneiro na Europa, intitulado “C-Roads”, que conduzirá à criação de dois corredores para veículos de condução autónoma em estrada; sabe-se que um deles é Porto – Vigo e o outro Évora – Mérida, com obras previstas para avançar no início de 2019.

Com estas rápidas alterações, e atendendo a que nos dois primeiros meses do ano de 2018 o fisco terá arrecadado uma média de 9,2 milhões de euros por dia, só em impostos sobre os combustíveis, o governo vai ter de ser igualmente rápido a descobrir onde compensar essa rápida perda de receita, com a abolição ou redução do número de bombas de combustível e a perda de fundamento para cobrar tão elevado IUC[4] – que tem vindo sempre a crescer –, incluindo taxas extras baseadas na poluição produzida. Não deixa de ser irónico, estranho e incompreensível, que numa altura que se procura algum vanguardismo a nível europeu, no atual Orçamento de Estado «os veículos mais poluentes e portanto mais potentes e caros, sofram um desagravamento da taxa adicional de IUC»[5].

© Jorge Nuno (2018)


[1] “Estrangeirismo” que advém da iniciativa inglesa, com esta designação, e que rapidamente se estendeu a outros países europeus.
[2] Frases extraídas da página do Facebook do Município de Braga.
[3][3] Responsável da ONU para o Clima e Ar Limpo.
[4] Imposto Único de Circulação.
[5] In revista Turbo.