28/04/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (16) - Dos Clássicos ao Futuro, no Presente


DOS CLÁSSICOS AO FUTURO, NO PRESENTE

Há muito poucos dias assisti, no largo do Pópulo, em Braga, a uma exposição / concentração de veículos clássicos “Drive It Day”[1]. Com esta iniciativa pretende-se «promover o uso do veículo clássico, como forma de demonstrar a sua importância cultural e social e a dimensão do universo de entusiastas (…) com o objetivo de enaltecer o vigor da paixão pelos veículos antigos»[2]. Neste âmbito e nesse dia, por várias cidades da Europa, foi dada maior visibilidade a estas máquinas, com imensos quilómetros de estrada.

Estando eu, inevitavelmente ligado, por formação superior, à engenharia de máquinas, era suposto ser também um dos entusiastas, mesmo não estando na posse de uma qualquer semelhante “relíquia”, por vezes bem mais valiosas, comercialmente, do que muitas viaturas novas. É que sempre vi estas máquinas como ferramentas ao serviço do homem e que têm um limitado tempo útil de vida – cada vez mais curto – ao invés do homem, que tem vindo a aumentar a sua esperança de vida.

Estou consciente, e os responsáveis das marcas de automóveis também, que se joga muito com o símbolo do “status”, estando os respetivos departamentos de marketing sempre motivados a fomentar, num público-alvo específico, o desejo de aquisição de “aquela viatura” – a tal – a que dá “status”. Li algures que «o brasileiro não é apaixonado por carros, é apaixonado por status [que o carro confere]». É evidente que esta ideia é extensiva a muitos outros povos. Li também que «o homem tem uma grande paixão e uma relação intensa com os carros, como se fosse uma extensão do seu próprio corpo». Esta chega mesmo a ser a situação, também clássica, do homem que sobrepõe aquela sua máquina às pessoas chegadas que o rodeiam, e com quem se esperaria a existência de uma relação igualmente intensa, mas que acaba por se revelar secundarizada.

A minha natural tendência para desvalorizar as máquinas não invalida que tenha gostado de rever, nesta exposição, muitos modelos, até de marcas que já não existem, tal como o tinha feito no Museu do Caramulo, que exibe uma vasta coleção de automóveis antigos, entre outro espólio com muito interesse. Mas foi em Braga que vi sobressair um apreciável número de exemplares do célebre “carocha”, da marca Volkswagen, bem estimados e até, lamentavelmente, alguns deles adulterados, por lhe terem introduzidas peças e acessórios que não são da marca e que, de certo modo, os descaraterizam. Sobre esta marca e modelo, apenas três curiosidades:
– Um engenheiro alemão-judeu – Josef Ganz –, descendente de família judia de Budapeste, próximo do ano de 1924 viria a incentivar a modernização da indústria automóvel alemã, tendo lançado a ideia que os veículos deveriam ser mais baratos, mais económicos e mais seguros, fazendo surgir o conceito e a marca “Volkswagen”. Adolfo Hitler, em 1933, após ter visitado o Salão Internacional Automóvel de Berlim, apropriou-se da ideia do “carro do povo”, como sendo sua e de grande simbolismo para a propaganda nazi, e afastou Josef Ganz por ser judeu;
– É reconhecido o sucesso mundial deste modelo, que chegou a ter um milhão de veículos produzidos em 1954;
– Os meus dois primeiros carros foram precisamente dois “carochas”, o primeiro deles ainda de óculo traseiro pequeno. No local da exposição, revivi algumas das “grandes” viagens que fiz neles, com destaque para as deslocações de Lisboa para Bragança e vice-versa, numa altura em que havia apenas o troço de auto-estrada entre a capital e Vila Franca de Xira, percorrendo quase todo o trajeto em movimentadas e sinuosas estradas nacionais e até municipais. Eram autênticas aventuras, sempre com latas de óleo extra para atestar durante o percurso. Ainda hoje consigo reconhecer, ao longe, o som proveniente do trabalhar do motor do “carocha e relembro-o como se se tratasse de uma cigarra em pleno verão, ao atravessar aquelas serranias de Trás-os-Montes, sempre de janela aberta.
Cada vez aperta-se mais o cerco à circulação destes “clássicos”. Primeiro pela inexistência de catalisadores e filtros de partículas, e mesmo tendo-os, por não conseguirem travar as partículas nocivas que saem dos escapes, ficando fora dos padrões regulamentados. Como a preocupação com as questões ambientais, a saúde das populações e a pressão social revelam-se cada vez mais pertinentes, os governos de muitos países sentem-se obrigados a tomar decisões drásticas, proibindo, simplesmente, a circulação de viaturas que não cumpram determinadas normas ambientais, onde as viaturas a diesel são as primeiras a ser condenadas a deixar de existir. Tudo aponta para que a seguir aos carros movidos a gasóleo sejam suprimidos os de gasolina. É que dá que pensar a revelação de Helena Molin Valdés[3]: «nove em cada dez pessoas vive hoje em zonas onde a poluição atmosférica excede o limite de segurança imposto pela Organização Mundial de Saúde». Metrópoles como Paris, Madrid, Atenas e Cidade do México, lideram o movimento que quer banir a circulação de carros a gasóleo já a partir de 2025 e o governo francês já impôs metas mais ousadas, ao não querer que se venda viaturas a gasolina e a gasóleo depois de 2040…. E basta mostrar-se essa intenção para os potenciais interessados começarem a hesitar na compra e fazer baixar as vendas. Há pouco tempo atrás, verificava-se a tendência dos carros híbridos convencionais e híbridos plug-in (que têm certas vantagens sobre os primeiros), mas agora, mais do que nunca, a indústria automóvel está a voltar em força à produção de veículos elétricos. Digo “voltar”, pois vi, imagens confrangedoras de cemitérios de automóveis novos, elétricos, que devido a lóbis e falta de concertação estratégica, acabaram por “morrer” coletiva e prematuramente, tornando-se num fiasco financeiro. Tem-se vindo a trabalhar, a um ritmo alucinante, para aumentar várias vertentes da autonomia das viaturas, com um novo conceito, aliado à sofisticada tecnologia informática e robótica, e o resultado é a produção de autênticas maravilhas, como se se tratasse de ficção científica.

A transição já é uma realidade, com o futuro… hoje! A Tesla Motors e a Google estão a vencer a “corrida” concebendo veículos autónomos, deixando para trás marcas conceituadas da indústria automóvel. As tecnologias adotadas pela Tesla baseiam-se muito em sistemas de radares, câmaras, sensores… enquanto a Google desenvolve a robótica e «um sistema laser, capaz de criar mapas tridimensionais num raio de 60 metros» à medida que se desloca, conferindo maior segurança rodoviária.

Portugal, depois de ter feito um elevado investimento estratégico, em infra-estruturas, para produção de energia “verde”, em menos de uma década saboreia o fruto: março de 2018 foi o primeiro mês com 100% de energias renováveis! Agora, assinou em Bruxelas, um protocolo com Espanha, num projeto pioneiro na Europa, intitulado “C-Roads”, que conduzirá à criação de dois corredores para veículos de condução autónoma em estrada; sabe-se que um deles é Porto – Vigo e o outro Évora – Mérida, com obras previstas para avançar no início de 2019.

Com estas rápidas alterações, e atendendo a que nos dois primeiros meses do ano de 2018 o fisco terá arrecadado uma média de 9,2 milhões de euros por dia, só em impostos sobre os combustíveis, o governo vai ter de ser igualmente rápido a descobrir onde compensar essa rápida perda de receita, com a abolição ou redução do número de bombas de combustível e a perda de fundamento para cobrar tão elevado IUC[4] – que tem vindo sempre a crescer –, incluindo taxas extras baseadas na poluição produzida. Não deixa de ser irónico, estranho e incompreensível, que numa altura que se procura algum vanguardismo a nível europeu, no atual Orçamento de Estado «os veículos mais poluentes e portanto mais potentes e caros, sofram um desagravamento da taxa adicional de IUC»[5].

© Jorge Nuno (2018)


[1] “Estrangeirismo” que advém da iniciativa inglesa, com esta designação, e que rapidamente se estendeu a outros países europeus.
[2] Frases extraídas da página do Facebook do Município de Braga.
[3][3] Responsável da ONU para o Clima e Ar Limpo.
[4] Imposto Único de Circulação.
[5] In revista Turbo.

14/04/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (15) - Excessos... Milhões e Balde de Chocos


EXCESSOS… MILHÕES E BALDE DE CHOCOS.

“Soldado Milhões lutou sozinho contra os alemães”… era a frase fixa, na peça informativa de uma estação de TV portuguesa, no dia em que se comemorava o centenário da batalha de La Lys, ocorrida na 1.ª Guerra Mundial. Para os mais desprevenidos ou que desconheciam este caso, parecia algo excessivo, uma das habituais estratégias para captar a atenção e deixar o espectador agarrado ao televisor. Na verdade, relatava a história de Augusto Milhais, um transmontando, oriundo da aldeia de Valongo (mais tarde Valongo de Milhais), no concelho de Murça, e que viria a ser o soldado raso português mais condecorado de sempre, que teve as mais altas distinções, incluindo internacionais. A este terá sido dito: “Tu és Milhais mas vales milhões”. Fez parte da malograda 2.ª Divisão do Corpo Expedicionário Português e, num momento crítico, terá contrariado as ordens de um oficial, ficando sozinho nas trincheiras, apenas com uma metralhadora Lewis. Foi aí que terá enfrentado as tropas alemãs que se movimentavam na proximidade, facilitando a retirada de tropas portuguesas e britânicas, poupando-se, assim um número apreciável de vidas. Terá sido um médico escocês, salvo pelo “Milhões” – retirou-o de um pântano –, que despoletou a divulgação destes atos de heroicidade. Costuma-se fazer a analogia entre um cobarde vivo e um herói morto, mas este herói viveu até 1970, tendo falecido na mesma aldeia onde nasceu, quando estava quase a fazer 75 anos. “O Soldado Milhões” está em banda desenhada, na literatura através de “Milhões: Tragicomédia em 2 Atos” e agora, através do cinema, com cenas de guerra nas trincheiras e, mais tarde, a querer fugir do estrelato, dedicando-se à agricultura e à família. As cenas de guerra, com muitos efeitos especiais, foram filmadas no campo de tiro de Alcochete. Como legado do filme, fica para a posteridade a humanização desta figura que se tornou lendária e continuou humilde.

Ali bem perto, igualmente em Alcochete e também do outro lado do rio Tejo, outra “guerra” estourou e ocasionou um anormal e excessivo número de horas de TV, seja em canais generalistas, de informação ou desportivos, resultante de exageros de BdC. E como BdC poderia ser a abreviatura de “Balde de Chocos”! É que a expressão algarvia “Está mai louco que um balde de chocos” pretende designar alguém que está fortemente alterado, ou passado da cabeça. Também perturbado, o conhecido ator e cantor Vítor Espadinha – sócio do SCP há 64 anos e expulso por BdC – deu uma entrevista, em direto no CM TV, começando-a com a leitura de um breve texto, para concluir que, face ao que estava escrito naquele livro de medicina psiquiátrica, “Psicopata” é o termo que encaixa no perfil de BdC, para mais à frente apelidá-lo de “atrasado mental”, que “não regula bem da cabeça”. Nas bancadas, aquando do jogo de futebol da 1.ª Liga com o Paços de Ferreira, ouviram-se assobios e viram-se alguns cartazes e, entre eles, foi dado realce televisivo ao seguinte: “BdC Obrigado e Adeus”. BdC tinha anunciado, através de redes sociais, a suspensão e castigos para a quase totalidade do plantel principal, dizendo que iria cumprir as jornadas em falta com a equipa B e até com os juniores, chamando-lhes “meninos mimados”. A seguir, viu-se forçado a recuar, por não ter mais jogadores inscritos na Liga Europa; a resposta, no campo, foi uma exibição de gala da equipa, nesta competição da UEFA. O conceituado médico Eduardo Barroso, coloca-se ao lado de BdC e reconhece que “ele não está bem”, que se “devia afastar por uns tempos”. Eu também não gosto de pontapear ninguém, e muito menos quando está no chão; e nesta altura, pode-se admitir que BdC estará de rastos e derrotado em algumas dessas batalhas.

Ser-se presidente de uma instituição ecléctica, como esta, requer um perfil apropriado, e esse privilégio foi-lhe conferido através do voto, numa eleição recente e democrática, com dois candidatos e forte adesão dos sócios ao ato eleitoral. Tinha fixado a meta de 75% para continuar à frente dos destinos do clube e obteve 86,13%, legitimando, inequivocamente, a sua continuidade. Cumprindo, da sua ação e iniciativa sobressai: a construção do pavilhão João Rocha, o reaparecimento de modalidades extintas (com destaque para o ciclismo), o incremento do futebol feminino, a reorganização financeira, o reforço da equipa principal de futebol e das condições de trabalho…

Com o perfil e estilo de liderança apresentado, ao exercer, simultaneamente, o cargo de presidente do conselho de administração de uma sociedade cotada em bolsa, constitui um risco acrescido, com fortes implicações e impacto direto no bolso dos accionistas e dos obrigacionistas. Num passado recente e por várias vezes, a SAD deste clube teve necessidade de injeção de capitais. É evidente que os investidores esperam não só o retorno, pela valorização de ativos, das próprias acções cotadas, de proveitos em fundos, que chega a incluir uma percentagem sobre o passe dos jogadores vendidos. Ninguém gosta de ver um seu património ter uma queda acentuada de 33,33%, em poucas horas, devido à instabilidade criada por um líder que não sabe acautelar esse património. O investidor não tem, nem deve ter, a emocionalidade de um associado a vibrar pelo clube, e sabe da consequência e gravidade das ações congeladas em bolsa. Poucos dias depois de estalar a crise, com algumas demissões de membros dos órgãos sociais, sobrepõe-se a parte financeira e já se fala em possível insolvência da SAD, caso se tarde em encontrar soluções. Se se afastam os patrocinadores habituais, que não gostam de ver a sua marca associada a outra que está a ficar denegrida, ainda pior. Quanto a BdC, não fosse a sua tendência permanente para criar batalhas com várias frentes, para procurar protagonismo e notoriedade, e para agitar o já agitado balde de chocos, quem sabe… poderia ter ficado para a história sportinguista (deixem passar o “Excesso”) como “O General Milhões” e receio que não passe de “O Soldado Tostões”!

© Jorge Nuno (2018)     

16/03/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (14) - Virtude da Ignorância?



VIRTUDE DA IGNORÂNCIA?

Há algum tempo atrás vi um filme, lançado nos EUA em 2014, e que se intitula “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) ”. Certamente, só pelo “Birdman”, eu não teria visto o filme, mesmo lendo a sinopse, como faço sempre. Na verdade, verifiquei que se tratava de um ator que recusou fazer o quarto filme da mesma saga, na mesma personagem – o de um super-herói – e que, agora no teatro, entendia poder mostrar todo o seu talento, enquanto procurava repor a notoriedade que ia perdendo à medida que o tempo passava. Mais do que a sinopse ou o facto de o filme ter nove nomeações para os Óscares de 2015 e ter obtido quatro prémios – melhor filme, melhor realizador (o mexicano Alejandro González Iñarritu), melhor argumento e melhor fotografia – o que me levou a ver este filme foi o apêndice do título: “A Inesperada Virtude da Ignorância”! É a curiosidade própria de quem pretende, de forma permanente, ultrapassar a ignorância e, ao mesmo tempo, de quem tem dificuldade em descobrir qualquer virtude na ignorância.

Reconheço que, para muitos, é fácil e cómodo aceitar a ignorância como algo relaxante, evitando assim a toxicidade contagiante da verdade, que na maior parte das vezes magoa, e para as quais nem sempre se está preparado. Sim, porque a verdade poder ter algo de tóxico, na medida em que transforma a dor emocional em toxicidade, quando não há uma resposta adequada à dor produzida pelo efeito da verdade.

Neste sentido, há determinados acontecimentos, que resultam em notícias, e que produz efeitos diferentes, consoante o perfil de quem lê ou, simplesmente, ouve. O mesmo tema, a uns provoca umas “cócegas” que dá para sorrir, pelo sensacionalismo e incredibilidade, a outros uma enorme revolta, com vontade de partir tudo, sobrando a indiferença para uma maioria pachorrenta, que parece estar vacinada contra tudo aquilo que tem o condão de ferir ou chocar. Vejamos quatro casos, meramente exemplificativos, com algum distanciamento e sem procurar fazer juízos de valor:

– “Mulher enterrou o marido no quintal” [Correio da Manhã]. Envolveu um casal de escoceses que vivia há seis anos numa quinta em Linhares da Beira. Ele poderia sofrer de uma doença do foro oncológico, faleceu e sabe-se que a esposa não comunicou o óbito às autoridades. O corpo foi encontrado e identificado na quinta onde viviam, tanto pela PJ como pela polícia científica. O tribunal de Celorico de Beira condenou, por profanação de cadáver, esta mulher, professora, desempregada, ficando obrigada ao pagamento de uma multa de € 790 + “prisão subsidiária” de € 105 + as respetivas custas judiciais;

– “Trânsito cortado nos Aliados devido a viatura suspeita” [TVI24]. Tratava-se de uma carrinha preta, de matrícula portuguesa, registada em nome de um cidadão da Macedónia. O trânsito chegou a ser cortado nos dois sentidos durante cerca de 4 horas, com a polícia a instalar um perímetro de segurança e a ser activada uma equipa cinotécnica e uma brigada de inativação de explosivos, que não detetou nada suspeito, a não ser a viatura deixada em plena avenida dos Aliados, no Porto. Mais tarde foi referido – sem obter confirmação –, que este aparato ocorreu por avaria da viatura e que o proprietário terá ido, com um amigo, comer uns hambúrgueres;

– “DIAP abre inquérito ao caso do currículo de Feliciano Barreiras Duarte” [RTP]. Após notícia do semanário Sol, em que fica a suspeição sobre a falsificação do currículo apresentado para efeitos de mestrado, em Direito, na Universidade Autónoma de Lisboa (onde defendeu a sua dissertação, em 2014), a RTP noticiou ter recebido uma nota da Procuradoria- Geral da República, em que refere ter remetido para “inquérito no Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa os elementos que recolheu”, sobre este caso do currículo do atual secretário-geral do PSD. O visado, no ponto 1.1.4 da sua biografia oficial, escreveu: “Está a concluir o doutoramento com uma tese sobre ‘Políticas Públicas e Direita da Imigração’ em parceria com a Universidade Pública[1] de Berkeley, Califórnia, EUA, com o estatuto de visiting scholar (vidé abaixo Certificado de Inscrição na Universidade de Berkeley)”. O Departamento de Relações Públicas daquela Universidade desmentiu que esta pessoa tenha o estatuto de visiting scholar, correspondente a investigador convidado. O próprio retirou este item do seu currículo, disse que nunca esteve naquela universidade e espera serenamente pelo desfecho do caso, pois “nada fez de errado”;

– “Expresso diz que EDP pagou 10 milhões de IRC. Elétrica diz que pagou 481 milhões” [Negócios jornal on-line, numa alusão a notícia do semanário Expresso]. “A EDP [liderada por António Mexia] conseguiu, em 2017, uma taxa efetiva de imposto sobre os seus lucros de 0,7 %, o que representa a taxa mais baixa entre as empresas PSI-20 que já apresentaram as contas anuais.  Isso significaria que sobre um resultado líquido de 1,52 mil milhões de euros, o grupo EDP apurou um imposto líquido de 10,3 milhões”. Para que conste, “a EDP acabou o ano de 2017 com lucros de 1.113 milhões de euros e distribuiu 690 milhões de euros aos seus acionistas em dividendos”. Uma fonte oficial da EDP apressou-se a comunicar que “em 2017 pagou cerca de 481 milhões de euros em IRC em Portugal”, entendendo que o semanário Expresso “confunde o reporte contabilístico refletido no relatório e contas com os valores efectivamente pagos em sede de IRC”. Ter-se-á chegado ao valor de 0,7% de taxa de IRC a pagar devido a um “conjunto de créditos fiscais, benefícios relativos a dividendos e outros benefícios”, pode ler-se no Negócios. Carlos César, presidente do partido e líder parlamentar do PS, já solicitou ao governo [PS] informações acerca deste caso.

Cada um destes citados casos poderia ser abordado individualmente, em crónica, seja pela vertente da miséria humana, da necessidade de atenta vigilância e/ou de acabar com os lóbis instalados e “furos legislativos” conducentes a engenharias financeiras, apenas ao alcance de alguns e lesivas do erário; sempre com a intenção de realçar algo que possa despertar, modificar e exigir mudança de comportamentos – para melhor, subentenda-se.

No dia em que a BIRD Magazine estreia a sua nova página e que eu completo a minha 74.ª crónica, realço que o que fiz em total liberdade, englobando-as maioritariamente na rubrica “Cidadania e Sociedade”. Além desta, o leitor atento pode encontrar nesta revista on-line as seguintes rubricas: Ambiente e Natureza; Arte; Ciência e Tecnologia; Concursos; Desporto; Economia; Educação; Entrevistas; Filosofia; Gente da Minha Terra; Justiça; Life & Stile; Literatura; Mundo; Notícias; Poesia; Política; Psicologia; Religião; Saúde e Vida; Veterinária. São mais de cinquenta os cronistas residentes, que colaboram quinzenalmente, de forma regular. Se este projeto cresceu na blogosfera q.b., se o seu slogan é “O pouso das palavras, o voo das opiniões” e se hoje a BIRD aparece com um “novo ar”, tal reflete a vitalidade conferida pelo editor, pelos colaboradores e pelos leitores. Os leitores têm mesmo um importante peso, ao opinarem construtivamente sobre os conteúdos. É certo que alguns desses, perante uma conversa profunda, têm uma postura semelhante à de alguém ao lado que apenas se foca na gravata mal colocada, no cabelo despenteado ou na roupa que não combina, esquecendo, por completo, o conteúdo. Felizmente, o feedback positivo tem incentivado e dá créditos para continuar; o editor sabe-o. A BIRD Magazine é sinónimo de diminuição progressiva da ignorância. E como o país não precisa de gente esperta, mas sim da virtude de gente desperta!...

© Jorge Nuno (2018)




[1] A designação “Pública” está incorreta.

03/03/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (13) - "Teorema do Soutien"


TEOREMA DO SOUTIEN

Há dias assim! Quantas vezes já acordámos a trautear uma canção e já depois de almoço a canção ainda teima em persistir na cabeça, os lábios a mexer e uns sons a sair, mesmo que em tímida surdina? Mas não, desta vez eu acordei com algo estranho: “Teorema do Soutien”. Como não me tem saído da cabeça e como não tenho por hábito rejeitar ideias que surgem do “nada”, mesmo que à partida pareçam estúpidas, achei por bem fazer com que desse título a esta minha crónica, claramente ainda sem saber o que fazer com o título.

Em boa hora aceitei o convite e desafio, do editor da BIRD Magazine, para escrever crónicas quinzenais. Escrever por “obrigação” e com regularidade, parece algo estranho, mas para quem gosta do que faz tudo flui com normalidade e qualquer obstáculo é facilmente ultrapassado. A verdade é que a primeira crónica que escrevi, para esta revista on-line, foi publicada em 3 de janeiro de 2015 e totalizaram 73 crónicas até agora! Nunca me faltou motivação, nem temática. Fazendo uma retrospetiva, deparei-me com títulos algo estranhos, insólitos ou, simplesmente, apelativos… o que pode motivar a uma leitura do conteúdo, já que é aguçada a curiosidade. Entre muitos outros, lembro-me de: “A cigarra alegre e a formiga preguiçosa”; “A morte, o insólito e a prostituição”; “Quando a raposa guarda o galinheiro”; “Vacas que riem… vacas felizes”; “As minhas cuecas Channo”; “O Pai Natal escondeu o Menino Jesus”… Normalmente, parto para a escrita sem me preocupar com o título, ou até mesmo sem a ideia-chave da mensagem, que vai aparecendo à medida que se vai caminhando. Desta vez, antes de ligar a ignição para arrancar, já tinha título!  

Neste caso, começo por dizer que não sou especialista em soutiens, não irei falar dos enormes peitos da auxiliar de ação educativa da escola, nem irei dar destaque ao encerramento da fábrica da conceituada marca de roupa interior feminina – Triumph –, embora nesta última parte houvesse muito que abordar, que passaria por palavras como “desemprego”, “crime económico”… Sim, já que o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, considerou tratar-se de “um crime económico, preparado premeditadamente pela Triumph Internacional, no sentido de fechar a fábrica, passando por uma fase intermédia, que foi entregar por um ano a produção à Gramax”; ou então a entrega, no Conselho de Ministros, de uma peça de lingerie pelos trabalhadores da mesma fábrica, com uma dirigente do sindicato dos têxteis do sul afirmar: “Nós levámos um cinto de ligas para simbolizar a ida do senhor ministro da Economia [Caldeira Cabral] à empresa, quando apadrinhou todo este processo, a passagem da Triumph para a TGI – Gramax”. Como está expresso, foi um “cinto de ligas” e não um “soutien”, o que obrigaria a mudar o título de “Teorema do Soutien”, para “Teorema do Cinto de Ligas”, que deixaria de fazer sentido, face ao ocorrido neste meu acordar.

Lembrei-me que talvez o Diogo Piçarra tenha acordado a trautear uma canção que não existia, tal como eu com “Teorema do Soutien”. Como é um compositor e cantor que está na berra, com muito sucesso, terá entendido, naquele dia do ano de 2016, que valeria a pena desenvolver a ideia e transformar o seu trautear numa verdadeira canção, digna desse nome, guardá-la e apresentá-la na altura certa, o que aconteceu no Festival da Canção – agora revitalizado com a surpreendente vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. E valeu mesmo a pena, pois Diogo Piçarra teve a pontuação máxima do júri e dos espetadores, na segunda semifinal, e seria uma das canções favoritas à vitória final. Dois dias depois, senti o estrondo enorme da uma “bomba” ao ouvir falar da sua desistência deste festival, após pairar no ar a ideia de plágio. Tive conhecimento que o maestro António Vitorino de Almeida se apressou a ouvir as duas canções – “Canção do Fim” e “Abre os Meus Olhos” – e a afirmar que a canção levada ao Festival “não é um plágio, mas igual”, argumentando ainda que “a música é muito simples, é elementar e nestes casos é mais fácil acontecer plágios. Mas felicito o músico por nunca ter ouvido um cântico da IURD”. A Igreja Universal do Reino de Deus, numa nota enviada à agência Lusa, também se apressou a esclarecer que “não detém qualquer direito sobre a música [‘Abre os Meus Olhos’] que tem sido comparada com a ‘Canção do Fim’ e que Diogo Piçarra não tem qualquer ligação à IURD”. Li também que o cântico da IURD é plágio de uma terceira canção, indicando qual.

Fixando-me nestas duas, ouvi a versão pelo pastor Walter, no vol II de “Cânticos do Reino” e novamente a “Canção do Fim”, pelo Diogo Piçarra, e a estrutura musical é a mesma, com uma letra diferente. Fui à página do Facebook do Diogo Piçarra e li que decidiu terminar a sua participação no Festival da Canção. Atentamente, apreciei o que escreveu:
– “Não quero deixar de dizer o orgulho que poderia ser representar o meu país num concurso como a Eurovisão, mas já não faz sentido nenhum sequer tentar ganhar essa oportunidade. A minha carreira e vida não depende disto (…)”;
– “A simplicidade tem destas coisas e só quem não cria arte estará nesta posição. Faz parte da vida de um compositor e é algo que todos nós iremos ’sofrer’ a vida toda (…);
 – “A minha consciência está tranquila na medida em que eu próprio sou quem está mais surpreendido no meio disto tudo: nasci em 1990, não sou crente nem religioso, e agora descobrir que uma música evangélica de 1979 da Igreja Universal do Reino de Deus se assemelha a algo que tu criaste, é algo espantoso e no mínimo irónico (…)”.
Mais tarde, numa entrevista na TV, gostei da sua postura, do seu ar sereno, a mostrar elevação.

Para não vir também a ser acusado de plágio, fui pesquisar “Teorema do Soutien”, no Google, e encontrei coisas dispersas, ora relacionado com “Teorema” ora com “Soutien”, mas não a junção dos dois. Intimamente, esperava que alguém já tivesse descoberto esse teorema, o que me levaria a dizer que “já não faz sentido nenhum ganhar a oportunidade de criar o teorema” e punha um ponto final no assunto. Assim, estou à vontade para prosseguir com a minha investigação, quem sabe… relacionando tamanho e peso dos seios com a elasticidade do material, para chegar a conclusões mais profundas relacionadas com a própria vida. Até lá.

© Jorge Nuno (2018)  

16/02/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (12) - Inteligibilidade... ou Não!

INTELIGIBILIDADE… OU NÃO!

Isaac Newton[1] terá dito: “Se eu vi mais além que os outros, é porque me pus em pé em cima dos ombros de um gigante”. Esta frase, por si só, pressupõe que a pessoa [que a proferiu] seria alguém com uma grande dose de humildade e a denotar muito altruísmo, como se tratasse de uma forma generosa de reconhecer os importantes contributos e, assim, homenagear os que o precederam. Na verdade, Newton foi um grande vulto nas ciências, considerado mesmo o pai da ciência moderna, tendo deixado um importante legado nos âmbitos da física e matemática, mas também nas áreas da astronomia, alquimia, filosofia, mecânica, química e teologia. Mas sobre essa frase, Clifford M. Will[2] terá afirmado que Newton estaria a insultar um seu rival, de nome Robert Hooke[3], que era corcunda, deixando no ar a ideia que é preciso ter cuidado quando se tira alguma conclusão do que as pessoas dizem”.

Winston Churchill[4], após ter sido nomeado primeiro-ministro do Reino Unido, em 10 de maio de 1940 – que coincidiu com a data em que Adolf Hitler ordenou a ofensiva do exército alemão na Bélgica e Holanda –, revelou ter sido importante uma mobilização do povo britânico com base em discursos elaborados com todo o cuidado nos seus conteúdos. Tal, ajudou não só à referida mobilização, mas também contribuiu para assegurar uma difícil vitória, bem patente na frase que se eternizou – “Sangue, suor e lágrimas”. Deixou escrito na sua autobiografia “My Early Life”: “Quanto mais forte for a nossa imaginação, mais variegado é o nosso universo. Quando se deixa de sonhar, o universo deixa de existir”.

O conceito de inteligibilidade, que deu título a este texto, pretende referir: “qualidade de inteligível, do que se pode entender, compreender, depreender; condição do que pode entendido pela inteligência; característica do que é evidente, claro”. Se no primeiro parágrafo, a frase pode ter sido proferida por Newton com um significado bem diferente daquele que lhe atribuímos, podemos sentirmo-nos constrangidos por termos sido enganados pela nossa perceção e, também, pelo facto de cair por terra o caráter deste vulto da ciência ao gozar com a deficiência física de um parceiro do mesmo ramo; em boa verdade, deverá haver algum cuidado quando se tira alguma conclusão do que se ouve dizer. Quando se trata de um político, então “fica-se logo com o pé atrás”! No caso de Churchill, é evidente que estávamos perante um conservador, mas numa época em que o conceito de estadista era um privilégio vivido por muito poucos, a exigir um enorme rigor; medir bem o alcance das palavras proferidas e fazer-se entender q. b. para mobilizar uma nação a viver momentos difíceis, é coisa rara, mesmo com exagero linguístico, de difícil interpretação, quanto ao universo acabar quando se deixa de sonhar.

Salvaguardando as devidas distâncias com os dois casos citados, surgiu no ecrã da TV a frase: “Querem matar-me e os sportinguistas são responsáveis”, tendo como fundo uma imagem de Bruno de Carvalho no auditório Artur Agostinho, em Alvalade. Certamente, eu teria mais com que me preocupar, mas a frase ficou insistentemente na minha cabeça, a ponto de querer ver o conteúdo completo e em que condições e ambiente foi dita, para fazer a minha “leitura” e poder tirar as minhas conclusões. Depreendia-se, de imediato, que a frase seria do polémico presidente do Sporting Clube de Portugal. Vim a saber que se tratava de uma “sessão de esclarecimento” para jornalistas e outros convidados “sportingados”. A dado passo, pode ouvir-se: “No dia em que sair do Sporting, saio. Não sou politiqueiro, não preciso de aclamações. Sou muito altruísta, mas no mínimo tenho de sentir gratidão. A partir do momento que não sentir, não venho outra vez, porque afinal significa que não tenho a mais-valia para o Sporting que julgava que tinha. Vou dizer uma frase que disse numa Assembleia Geral. Com os sportinguistas atrás, farei tudo, levarei o Sporting ao céu. Não tenho dúvidas. Sem os sportinguistas atrás, matam-me. Neste momento estão quase a matar-me e a culpa sinceramente está a ser dos sportinguistas, porque eu preciso de militância e disse que não ia passar um segundo mandato igual ao primeiro. Efetivamente militância continua a ser pouca”. A frase simplificada que surgiu no ecrã confunde e arrasa o protagonista. Depois de se saber o contexto, até se pode compreender a intenção com que as coisas são ditas, não por ter pedido as alterações estatutárias propostas com o mínimo de 75% dos votos dos associados (que é a percentagem necessária), mas para forçar a militância que faça atingir os cerca de 86% (percentagem com que foi eleito) e que é exigido por si, como mínimo, para aprovação da continuidade do mandato dos órgãos sociais.

Winston Churchill foi muito contestado, a ponto dos conservadores perderem as eleições em 1945. Mas durante o período crítico da guerra soube afirmar-se e conduzir estrategicamente uma nação, com envolvimento da população, que durante aquele período sofreu muito os efeitos nefastos de uma guerra que não desejava.

Enquanto no universo sportinguista, com muitos sonhadores a visualizar o título de campeão nacional de futebol masculino, que esperam desde 2000, o presidente da direção está longe de saber adequar o seu discurso aos vários públicos e tem estado a abrir várias frentes de guerra, que acaba por prejudicar a estabilidade necessária a um clube vencedor. Talvez se compreenda agora a frase: se os sportinguistas deixarem de sonhar, o universo sportinguista deixa de existir.

© Jorge Nuno (2018)





[1] Britânico, viveu entre 1643 e 1727.
[2] Canadiano (n. 1946), físico e matemático, professor de física na Universidade de St. Louis, Missouri, E.U.A.
[3] Britânico, viveu entre 1635 e 1703, tendo-se revelado um grande cientista experimental, além de dar contributos nos âmbitos da geologia, química, arquitetura, matemática, filosofia, meteorologia e astronomia.
[4] Estadista britânico, viveu entre 1874 e 1965.

20/01/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (11) - Eternas Perseguições Religiosas?

ETERNAS PERSEGUIÇÕES RELIGIOSAS?

Todos nós, se aprofundarmos a essência de cada religião, verificamos que a maioria dos seus “fundamentos” podem ser aceites, pois falam em amor, humildade, fraternidade, tolerância, respeito, fé, humanidade… isso mesmo, dando pistas para que o homem se torne mais humano e, paradoxalmente, poder fazer a sua ascensão e aproximar-se da “divindade”! Mas não deixa de ser curioso: nas mais antigas religiões conhecidas, já se ouvia falar em deuses mitológicos que perseguiam outros deuses; os relatos veem-nos da antiga Grécia, Egipto e também da Babilónia. E o que espanta é como religiões de amor acabam em expressões de ódio, que fomentam e levam à prática autênticos genocídios; foi verdade antes do surgimento do cristianismo, manteve-se ao longo de séculos, sendo ainda mais evidente nos dias de hoje, com todo o mediatismo dos meios de comunicação e passagem de informação em tempo real.

Já em meados do séc. XVII, Blaise Pascal terá dito: “Os homens nunca praticam o mal de modo tão completo e animado como quando o fazem a partir da convicção religiosa”.

Não deixa de ser estranho que a fé – que era suposto unir –, mantenha numerosos grupos separados, muitas vezes alienados e dispostos a manter vivo o seu fundamentalismo, capaz de aniquilar os que não têm a mesma visão ideológica ou professam uma “fé” que não a sua. A disputa pelo poder e controlo de supostas religiões, conduz ao controlo de vastas regiões e de outros interesses, como se se tratasse de jogos geopolíticos estratégicos. No maior fanatismo, há sempre quem se sinta honrado em morrer como mártir, e pior é quando se pretender arrastar consigo o maior número de “infiéis”.

À sua maneira, cada confissão religiosa pretende enaltecer os seus mártires, mesmo que à distância de mais de dois milhares de anos muitos dos relatos possam ter sido adulterados, pela passagem de boca em boca, e transformados em convenientes mitos. No entanto, em muitas dessas estórias, parece haver alguma consistência na forma ou processos correntes de execução, à época, dos “traidores” ou inimigos a abater.

Dentro do cristianismo, em cada dia 20 de janeiro comemora-se o dia de São Fabiano e de São Sebastião. O primeiro é mais desconhecido; o segundo é uma figura mais popular, reconhecida como mártir, sendo mostrada a imagem de um jovem, seminu, amarrado a um tronco de árvore e com flechas a trespassá-lo. Tratava-se de um soldado romano, que chegou a integrar a guarda pretoriana, a qual protegia o próprio imperador Diocleciano. Consta que esse imperador fez-lhe um julgamento sumário, considerando Sebastião um traidor, por ajudar cristãos, condenou-o à morte, com flechas, e depois atirado ao rio. Sebastião terá sido encontrado por Irene (mais tarde considerada Santa Irene), mas como não estaria morto, esta cuidou dele até Sebastião ousar apresentar-se novamente perante o imperador. Com nova ordem de Diocleciano, foi espancado até à morte e o seu corpo atirado para um esgoto, em Roma. Luciana (mais tarde considerada Santa Luciana), recolheu e limpou o corpo, fazendo com que fosse sepultado nas catacumbas, em Roma. Há dúvidas quanto ao ano da sua morte, mas aponta-se a data de 286 d. C.

Recuando ao ano de 250 d. C., terá sido num dia 20 de janeiro que o imperador Décio iniciou uma perseguição generalizada aos cristãos, a começar em Roma pela aniquilação do papa Fabiano. Sobre este, consta que não pertencendo ao clero e numa altura em que se procurava ultrapassar o impasse na escolha de um novo papa, surgiu uma pomba branca sobre a cabeça de Fabiano, o que levou à unanimidade na sua escolha para suceder ao papa Antero, um sinal entendido como se se tratasse de “ordem sagrada”. Pela sua morte violenta, também foi considerado mártir e levado para as catacumbas de São Calisto, em Roma.

Cerca de 90 anos após a morte de São Sebastião, foi a vez dos cristãos passarem de perseguidos a perseguidores. Estava-se no tempo do imperador Teodósio I[1], em que este, um ano após o exercício do cargo, instituiu o “credo niceno”, através do Édito de Tessalónica. O cristianismo teria a exclusividade em todo o império – como religião de estado –, passando a haver tolerância “zero” a quem não fosse cristão. Deste modo, à força, foram abolidas práticas politeístas e fechados templos pagãos, comuns em várias partes do vasto território. Esse Édito dizia: “Queremos que todos os povos governados pela administração da nossa clemência professem a religião que o divino apóstolo Pedro deu aos romanos, que até hoje foi pregada como a pregou ele próprio (…). Isto é, segundo a doutrina católica e a doutrina evangélica cremos na divindade única do Pai, do Filho e do Espírito Santo sob o conceito de igual majestade e da piedosa Trindade. Ordenamos que tenham o nome de cristãos católicos que sigam esta norma, enquanto os demais os julgamos dementes e loucos sobre os quais pesará a infâmia da heresia. Os seus locais de reunião não receberão o nome de igrejas e serão objeto, primeiro da vingança divina, e depois serão castigados pela nossa própria iniciativa que adoptaremos segundo a vontade celestial”. Só em Tessalónica terão morrido mais de 6000 pessoas, por via do referido Édito.       

Serão eternas as perseguições religiosas? Segundo a perspetiva de Diana Cooper[2], “Os computadores vão usar frequências mais rápidas e levar informação de luz, possibilitando uma comunicação global instantânea e facilitando a compreensão entre culturas e os países. A tecnologia será contrabalançada pela ligação próxima com a natureza. (…) Por toda a parte, as mulheres estão a começar a assumir o seu poder. Elas estão a reconhecer a sua própria luz. Ao mesmo tempo, algumas religiões vão abrir-se para a espiritualidade, o que vai suavizar o dogma. Isto permitirá às pessoas que se unam, que se enalteçam e que respeitem as culturas umas das outras”.

© Jorge Nuno (2018)  



[1] Exerceu de 379 a 395 d. C., sendo o último imperador a governar todo o espaço do império romano, tanto a Oriente como a Ocidente.
[2] In “2032 - A Nova idade de Ouro”, sendo autora de 20 livros na área da espiritualidade, traduzidos em mais de 30 línguas.

03/01/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (10) - Magia e Reis

MAGIA E REIS

Em 2009, fiz uma viagem memorável a Israel e, entre muitos locais bíblicos, estive em território ocupado pela Autoridade Palestiniana. Para um turista, de visita a este território, pode chocar ver os muros, as barreiras militares instaladas do lado israelita, com soldados fortemente armados e, particularmente, quando apercebe-se de que está a entrar no autocarro um palestiniano, de metralhadora e dedo no gatilho. Como homem de fé, confiante ou anestesiado pela emoção da viagem – que decorria, de forma extremamente agradável, sem quaisquer incidentes –, não valorizei aquele facto; afinal, tratava-se de um inspeção de rotina. Pouco depois, encontrava-me em Belém, a mítica cidade natal de Jesus.

Aí, absorto nos meus pensamentos, retrocedi cerca de dois mil anos. Imaginei as dificuldades vividas naquela época e confrontei-as com os conflitos que se mantêm, atualmente, numa Terra Santa permanentemente debaixo de tensão.

Imaginei os Reis Magos a chegar alguns dias depois do nascimento, em camelos, guiados por uma estrela. Imaginei que se esse acontecimento fosse na Europa, em plena Idade Média, esses três reis – só pelo facto de serem apelidados de “magos” –, provavelmente, nunca teriam chegado ao destino, pois seriam queimados vivos na fogueira, em nome de um deus qualquer. E o relato de magos já vem de períodos muito anteriores a este! Não deixa de ser interessante que a Bíblia[1] refira Moisés e os magos – a vara de Aarão – como se segue: “O senhor disse a Moisés e a Aarão: quando o faraó vos disser: Fazei um prodígio, dirás a Aarão: Pega na tua vara e lança-a diante do faraó e transformar-se-á numa serpente”. (…) Aarão lançou a sua vara à frente do rei e dos seus servidores, e ela transformou-se numa serpente. O faraó mandou, porém, chamar os sábios e os magos: e os magos do Egito fizeram o mesmo com os seus encantamentos”. E foi preciso mais magia… surgindo as conhecidas pragas – águas convertidas em sangue, rãs, mosquitos, moscas venenosas, peste nos animais, úlceras, granizo, gafanhotos, trevas – ou ainda, como se pode ler[2]: “O Senhor disse a Moisés: E tu, ergue a tua vara, estende a tua mão sobre o mar[3], divide-o para que os filhos de Israel possam atravessá-lo a pé enxuto. (…) Moisés estendeu a mão sobre o mar, e o Senhor fustigou o mar com um impetuoso vento do oriente, que soprou durante toda a noite. Secou o mar, e as águas dividiram-se”, conseguindo, finalmente, a libertação do povo hebreu e encaminhá-lo para a Terra prometida.

Imaginei que se fosse na época atual, algum regulador impediria os Reis Magos de fazer chegar aquelas ofertas ao Menino Jesus, devido ao ouro, incenso e mirra, eventualmente, ultrapassarem o valor legal das ofertas permitidas por lei. Também a Bíblia[4] refere a grandeza no reinado de Salomão, filho do rei David, em que a tentação pelo ouro era enorme: “O peso de ouro que anualmente era levado a Salomão era de seiscentos e seis talentos[5], sem contar com o tributo que recebia grandes e pequenos vendedores dos reis da Arábia e de todos os governadores do país (…) Toda a gente desejava ver a face de Salomão para ouvir a sabedoria que o Senhor lhe tinha dado. E todos lhe traziam presentes (…) ouro, vestes, aromas, cavalos (…)”. Apesar da evidência dos factos, há um provérbio[6] atribuído a Salomão, que diz: “Os tesouros mal adquiridos de nada servem, mas a justiça livra da morte”.

É tradição cristã encerrar as festividades de Natal e de Ano Novo, em cada dia 6 de janeiro, comemorando a visita e oferendas dos três Reis Magos ao Menino Jesus. Há uma passagem no Novo Testamento[7] que refere os Magos do Oriente: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo de Rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. ‘Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?’ – perguntavam. ‘Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo’. Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E, reunindo todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: ‘Em Belém, da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta’. (…) Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes havia aparecido. E enviando-os a Belém, disse-lhes: ‘Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do Menino, e, depois de O encontrardes, vinde comunicar-mo, para que eu também vá adorá-Lo’. (…) E a estrela que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela sentiram grande alegria, e entrando na casa viram o Menino com Maria, Sua mãe. Prostraram-se, adoraram-No e, abrindo os cofres, oferece-Lhe presentes: ouro [por Belchior (ou Melchior), que terá partido da Europa, sendo esta uma oferta habitual aos “deuses” e à realeza], incenso [por Gaspar, que terá partido da Ásia e o levou para proteger o Messias] e mirra [por Baltazar, de África, e era uma oferta comum aos profetas]. Avisados em sonho a não voltarem para junto de Herodes, [os Reis magos] regressaram à sua terra por outro caminho”.

Nos países hispânicos, é tradição a entrega de ofertas às crianças no dia 6 de janeiro, com idêntico simbolismo das oferendas dos Reis Magos, para alegria das crianças. Há magia em dar e receber, desinteressadamente. Há magia na troca, a qual faz circular [boa] energia. Não passa, forçosa e unicamente, pelo ouro, jóias e outros bens similares, mas por riquezas imateriais. É evidente a magia que paira no ar durante a época natalícia e no início de um novo ano. Não deixa de ser impressionante como as pessoas dizem naturalmente: “Tudo de bom para ti; que a vida te sorria; tem um excelente ano…”. Escreveu, Deepak Chopra: “ A simples ideia de dar, de abençoar, de oferecer uma simples oração, tem o poder de afetar a vida dos outros”. Bom ano para todos.

© Jorge Nuno (2018)      


[1] In Êx. 7
[2] In Êx. 14
[3] Mar Vermelho
[4] In 1 Rs. 10
[5] 1 talento corresponde da 34,2 kg.
[6] Provérbios, coleção salomónica: 10-22.
[7] Evangelho Segundo S. Mateus – Mt 2.