15/09/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (24) - Afinal, Muda a Hora?

AFINAL, MUDA A HORA?

Afinal, muda a hora?
Pouco importa à patusca da minha vizinha; vizinha que se deita cedo com as galinhas; galinhas que dão uma saborosa canja; canja que há quem diga ser boa para a alma; alma francamente despreocupada com o inferno; inferno que estará a abarrotar de bem-intencionados; bem-intencionados que persistem em mudar a hora; hora de inverno, hora de verão, porque desde 1916 que é assim; assim, a pensar num esforço de guerra, pretendia-se poupar combustível; combustível atualmente com injustas sobretaxas por corrigir; corrigir estúpidos erros de um passado bélico, quando ainda se lia à luz da vela.  

Afinal, muda a hora?
É irrelevante para a minha gata; gata que é um regalo vê-la dormir; dormir bem não é para muitos; muitos acham mesmo que as insónias são um inferno; inferno que é somente aqui na Terra; terra que nos dá o pão; pão que não há em todas as mesas; mesas onde se tomam decisões; decisões nem sempre as mais acertadas; acertadas as horas, teimosamente, duas vezes por ano; ano que devia contemplar esta simples mudança; mudança que dizem ter implicações - esforço inútil no argumentar; argumentar tosco, simulando preocupação com as alterações na rotina dos animais, e de humanos com problemas cardiovasculares e perturbações de sono.

Afinal, muda a hora?
Quer lá saber a criança, ao ver desenhos animados; animados são os dias de quem tem entusiasmo pela vida; vida que deve ser vivida no presente; presente, disseram e responderam à consulta pública 4,6 milhões de europeus, que não querem a mudança da hora; hora é problema e chatice para o presidente da Comissão Europeia (CE), deixando-o agoniado; agoniado, fica todo e qualquer eurodeputado se tiver de debater o assunto à sexta-feira; sexta-feira é bom dia para os membros do Conselho Europeu reunirem e prolongar a estadia de férias num dos 27 estados-membros; estados-membros, CE, PE[1] e portugueses que não reagem ao saber que, entre 2006 e 2018, os consumidores portugueses desembolsaram 22,6 mil milhões de euros de rendas excessivas à produção de energia elétrica[2], sob a forma de enormes impostos indiretos, sem discussão nem transparência.    

Afinal, muda a hora?
Irra! Há cem anos que se anda a discutir a mudança de hora, quase sempre em torno da energia. Já não há paciência, nem para encadear mais acontecimentos. Não leio nem escrevo à luz da vela, embora reconheça que possa ter o seu encanto, numa perspetiva romântica. Eu faço a minha parte: com preocupações ambientais e de poupança nas finanças pessoais, uso as vulgarizadas lâmpadas LED e equipamentos elétricos e eletrónicos, classificados com A e alguns + + +. Vá, meus senhores, deixem-se de pruridos, despachem-se na formalização da decisão e deixem-nos à nossa sorte com o horário de verão o ano inteiro! Cá nos havemos de desenrascar, e não há outro povo como os portugueses para o desenrascanço; nisso somos mesmo bons. Quero pressa neste assunto, pois não achei graça nenhuma ter gozado o meu aniversário num dia com apenas 23 horas! Certamente a gata pressentiu a minha indignação e ficou com o sono alterado – só por isso. Quanto à minha vizinha, que continue a deitar-se cedo com as galinhas, que não é da minha conta. Quanto à criança, custa-me vê-la tantas horas a olhar para os desenhos animados no televisor ou no smartphone, quando se pode desenvolver harmoniosamente com tanta coisa agradável para fazer/mexer. A menos que, até lá, seja preciso esperar pela aprovação de dossiês legislativos pelo PE, para uniformizar o modo como todas as criancinhas devem brincar no espaço europeu. E se for um ato legislativo abrangido pela codecisão e o Conselho Europeu estiver em discordância? Ou a CE meter, dissimuladamente, a colherada onde não lhe compete, e revirar o processo, que nos obriga a repensar a apregoada democracia. A ser assim, as criancinhas bem podem ficar à espera… mas também, ao fim de poucas horas, caem para o lado carregadas de sono; ah… e sem preocupações com a mudança de hora.

Afinal, muda a hora?

© Jorge Nuno (2018)




[1] Parlamento Europeu.
[2] Divulgação feita por Abel Mateus (antigo presidente da Autoridade da Concorrência), na comissão parlamentar de inquérito às rendas excessivas da energia, em 11-09-2018. 

01/09/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (23) - Com a Mentira Me Enganas


COM A MENTIRA ME ENGANAS

“Notícia de última hora: desapareceu a estátua da Liberdade. Ah… ela sente-se cansada e sem energia; não lhe apetece trabalhar. Felizmente existe (…) magnésio e potássio. Agora sim, sente-se com energia para desfrutar da vida”.

“Para comemorarmos o 25.º aniversário, apresentamos-lhe o cadeirão elevador de pele autêntica que cuida da sua saúde, alivia as dores, e combate as insónias. (…) Tudo em suaves mensalidades, sem juros.”

“Apresento-vos a pulseira da felicidade (…) é uma jóia, símbolo do amor, prosperidade e sorte (…)”. É composta por: “elefante, com uma safira, que é o símbolo da proteção; trevo, com uma esmeralda, para que a sorte guie os seus passos; coração, com um rubi, para que brilhe sempre com a força do amor”.

“Agora pode perder 78% da gordura abdominal, em três meses, através das cápsulas (…)”.

“É importante mantermos os níveis de cálcio (…) dê mais vida àqueles que ama” e faz-se um apelo à compra de embalagens de um suplemento alimentar para “fortalecer os ossos” e para oferecer, incluindo até como presente de Natal.

“Apresento-vos a última novidade em frigideiras, feitas em partículas de cobre [aparece no ecrã “cobre a 100%”] e com revestimento de cerâmica. Comida fácil e saudável, sem truques e limpá-la é facílimo [aparece no ecrã “limpa com uma só passagem (…) é resistente para toda a vida”].

“Sente zumbidos nos ouvidos? Peça o seu guia dos zumbidos grátis”. “Precisa de ouvir melhor mas ainda não encontrou uma solução? É garantido! Diga adeus às pilhas (…) é totalmente recarregável. Se ligar já, recebe inteiramente grátis este cachecol para apoiar Portugal em todos os momentos”. “Amplificador auditivo por € 4,99. Agora pode ouvir a televisão agradavelmente com toda a família. Com quatro adaptadores de ouvidos e útil ferramenta de limpeza. Ouça mais, pague menos”. “Peça já o seu aparelho auditivo amostra grátis, sem compromisso”. “Conhece alguém que põe o som da TV demasiado alto? Já viu uma situação em que um familiar seu atravessa uma rua sem ouvir os carros que se aproximam? Você esforça-se para ouvir as conversas nos seus encontros e festas?”. “É a solução de baixo preço para ouvir os sons mais altos. Não se esforce para ouvir (…) receba o seu amplificador auditivo por € 4,99”. “Gostaria de melhorar drasticamente a sua audição? Temos 500 amostras grátis de aparelhos auditivos para oferecer. Ainda há 500.000 portugueses com dificuldades em ouvir e nada fazem. Ligue agora para receber a sua amostra grátis”. Este parágrafo reporta-se a anúncios de seis marcas diferentes de aparelhos, na TV, num curtíssimo espaço de tempo.
   
Imagine-se os seniores, em casa, sentados no sofá, durante o dia e num apreciável número de horas frente ao televisor e a serem bombardeados com todo este tipo de publicidade, a cada 20 minutos, se não mudarem de canal ou não desligarem o televisor.

Na ótica do investidor, é conhecida a importância da estratégia da comunicação e uma elaboração adequada de conteúdos publicitários, particularmente quando se pretende segmentar e atingir um determinado público-alvo. Focando-nos no mercado audiovisual, aqui apontado como exemplo, o objetivo é persuadir a aceitar a ideia e “convencer” esse público-alvo a adquirir o produto apresentado. A Igreja Católica Apostólica Romana, que tem denotado vontade e ousadia de dar orientações, e até querer regular a atividade em muitas áreas, fora da religião, também a publicidade não escapou. Ela reconhece a importância da publicidade, e pode ler-se na “Introdução” do documento intitulado “Ética da Publicidade”[1], que se constitui como «uma poderosa força de persuasão que modela as atitudes e comportamentos no mundo contemporâneo». Mais à frente, em “Algumas medidas a ser adotadas”, ponto 18, refere: «Os indispensáveis garantes dum comportamento ético correto da indústria publicitária são, antes de tudo, as consciências bem formadas e responsabilizadas dos profissionais da publicidade: consciências sensíveis ao próprio dever, não só de satisfazer os interesses dos que encomendam ou financiam o seu trabalho, mas também de respeitar e velar pelos direitos e interesses do seu público e de servir o bem comum (…). Torna-se, portanto, necessário prever estruturas externas e regras que apoiem e encorajem um exercício responsável da publicidade e desanimem os irresponsáveis» e, no ponto 20, «As normas governativas deveriam interessar-se (…) sobretudo nos programas de TV, (…) pelos conteúdos publicitários que se destinam a categorias fáceis de explorar, tais como crianças e pessoas idosas». É evidente que essas “normas governativas” existem na maior parte dos países, assim como há organismos que defendem os consumidores e alertam para práticas incorretas.

Se a pulseira não protege, nem dá sorte, nem faz a pessoa brilhar “com a força do amor”… Se o cadeirão não combate as insónias… Se o prejuízo nos aparelhos auditivos é de um valor quase simbólico, a que acresce o custo da chamada e dos portes de envio [mas com um par, na realidade, a custar 3 mil euros, já com desconto igual à idade]… Se o desaparecimento da estátua da Liberdade apenas consegue despertar a atenção… Se a frigideira não cumpre e deixa agarrar um simples ovo estrelado… Tudo isto parece inócuo, mas merece reflexão e atuação firme das entidades responsáveis.

Depois de imensas queixas, a DECO[2] testou a tal frigideira 100% de cobre, anunciada insistentemente na TV, e os técnicos da Proteste concluíram tratar-se de uma «frigideira de alumínio com um revestimento antiaderente» e afirmaram tratar-se de «publicidade enganosa». É que, para comparar, testaram mais duas frigideiras de outras marcas, e apontam precisamente uma (vendida numa grande superfície comercial, de origem sueca) como sendo mais eficaz e que tem um custo de € 3 – dez vezes mais barata!

O bastonário da Ordem dos Farmacêuticos[3] afirmou ter interposto uma providência cautelar para suspender a venda do produto destinado, supostamente, a “fortalecer os ossos”. Disse que se «ultrapassou tudo o que é minimamente aceitável» e alertou para o risco de lesões graves, originado pelo consumo indiscriminado deste tipo de produtos e que, por não serem considerados medicamentos, não têm controlo por parte do Infarmed[4]. «É uma situação que configura publicidade enganosa, abusiva, que cria falsas expetativas nos consumidores. Não está demonstrado que o suplemento de cálcio possa diminuir as fraturas ósseas. Pelo contrário, está demonstrado que as pessoas ficam expostas a riscos elevados de acidentes cardiovasculares, de problemas renais, até de problemas gastrointestinais e obstipação». Quem esteve na mais recente feira do livro de Braga e assistiu a uma sessão animada com Simone de Oliveira[5], viu-a gracejar, e bem, “desacreditando” este produto, pelo qual “deu a cara”. Quem conhece esta senhora, sabe da sua verticalidade e como se devia sentir desconfortável.

Nesta semana, enquanto nos intervalos passavam anúncios de automóveis ligeiros, com letras pequenas a indicar os consumos e emissões poluentes, nos vários canais noticiosos de TV surgiam os títulos: “Indústria automóvel enganou os automobilistas portugueses em 1,6 mil milhões de euros desde 2000, manipulando o real consumo dos veículos” [e as emissões poluentes], baseado num estudo encomendado pela Federação Europeia de Transportes e Ambiente. Já em 2012, um estudo, elaborado pelo Instituto Superior Técnico, indicava que os carros vendidos em Portugal tinham emissões poluentes, em estrada, que chegavam a ser seis vezes superiores ao que é garantido pelas marcas, em laboratório. A indústria automóvel refuta a ideia de “fraude”.

Até aos ajustes há quem cante, como os “Diabo na Cruz”: «(…) Quem viu corda ao pescoço / Se é safado se se safou (…) / Quem tem vala de bandido / Leva a frade luva branca (…) / Siga, siga a rusga agora / Siga a rusga, foi bem boa a nossa hora (…)».
© Jorge Nuno (2018)






  




[1] Elaborado pelo Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, datado de 22 de fevereiro de 1997.
[2] Defesa do Consumidor.
[3] Numa entrevista concedida à Rádio Renascença.
[4] Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos da Saúde.
[5] Cantora e atriz.

18/08/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (22) - Flagrantes... Em Noites Frescas de Verão


FLAGRANTES... EM NOITES FRESCAS DE VERÃO

Tal como o crescimento económico tem vindo a arrefecer, o mesmo acontece com as noites de verão, ficando o registo que julho de 2018 foi o mês mais frio em Portugal nos últimos trinta anos. Mesmo que se diga, e sinta, que as noites de verão já não são o que eram, sabe sempre bem relaxar perante espetáculos ao ar livre e gratuitos; se uns serão de puro entretenimento, outros possibilitam um autêntico “banho” de cultura e dão mais cor à nossa existência.

As festividades do 308.º aniversário do Regimento de Cavalaria N.º 6 encerraram na avenida Central, em Braga, com um concerto da Orquestra Ligeira do Exército, que brindou e encantou o numeroso público presente. Tendo a basílica dos Congregados mesmo ao lado, não se evitou o badalar dos sinos em pleno concerto, pelas 22 e 23 horas. Foi um facto desagradável a merecer um reparo, pois bastar-se-ia pedir previamente para se desligar o som ou reduzir o volume do toque eletrónico dos sinos, mas de difícil aplicabilidade, uma vez que aquela avenida está quase permanentemente em festa. Centrando-nos nas coisas boas, sobrepôs-se a já esperada qualidade do espetáculo.

Cinco dias depois, realizou-se um “Concerto de Verão” pela Orquestra Filarmónica de Braga, agora noutro local da cidade – o Rossio da Sé – mesmo ao lado da Sé de Braga. No alinhamento do programa surgiu a peça “1812”, de Tchaikovsky. Antes de se iniciar esta peça – superiormente escrita para comemoração da vitória das tropas russas sobre as de Napoleão –, o maestro Filipe Cunha fez uso do microfone para fazer o enquadramento e informar que os sinos da Sé iriam estar sincronizados com a música da orquestra; seria uma forma de dar ênfase ao sentimento de júbilo pelo fim da ameaça francesa. E os sinos tocaram mesmo, durante uns minutos, enquanto era executada esta peça! Parece ter sido pregada uma partida a quem antes do início do concerto afirmou: “Espero que os sinos da Sé não toquem durante o concerto”. Mais uma vez, com foco no lado positivo… foi um concerto de repertório bem seleccionado para a época e que cumpriu, visível pelos fortes e prolongados aplausos.

Pouco depois, e durante três dias, a avenida Central voltou a ser palco de novos festejos, desta vez em simultâneo: o Vinho Verde Fest e o Festival Internacional de Folclore. Enquanto esperava pelo início deste último, após ligar um canal noticioso de televisão no smartphone, deparei-me com o ministro da Administração Interna, no Algarve, rodeado de “autoridades”, a tentar chamar a atenção para os efeitos nefastos do elevado consumo de álcool e a necessidade de moderação no consumo. Olhando à volta do palco, nas bancadas e na própria avenida, era impressionante o número de pessoas com copos de vidro na mão, já vazios ou contendo bebidas. É que decorria a iniciativa a estimular a “prova de 200 vinhos [verdes da região] e harmonizações gastronómicas e vínicas, ‘showcookings’, animação com DJ’s…”. Não deixou de ser irónico!...

No Festival Internacional de Folclore, os espetadores mais atentos conseguiam observar algumas curiosidades e recortes de um passado longínquo ao recente, a evidenciar as inúmeras diferenças culturais entre povos de regiões distintas, mas, nalguns casos, com denominadores comuns. Continuando na ordem do dia a problemática da igualdade de género – conducente a “guerra de sexos” – e a violência, inclusive a doméstica, estas pareciam estar ali estranhamente representadas. Havia a presença de grupos do Minho (Portugal), Índia, Peru, Sérvia, Espanha, Eslovénia, Eslováquia, Itália, Polónia e Madeira (Portugal). O grupo indiano denotou performances distintas, mas em quase todas via-se claramente a separação por sexos – mulheres para um lado e homens para outro –, mas em que pairava no ar a magia da sedução, sem toque físico, tanto na dança mais clássica como ao estilo “bollywoodesco”. Do Peru, através de uma dança executada por um casal, ficou realçada novamente a sedução, a fazer lembrar um ritual de acasalamento entre aves sul-americanas. Ele rodeava-a, de lenço na mão, a tentar tocar-lhe e ela furtava-se ao toque; quando finalmente acedeu, ele pegou nela às costas e saiu de palco. O grupo da Sicília iniciou com os homens de cajado a ver as mulheres dançar. Aos poucos foram-se metendo, formando pares, até que estalou o desentendimento – a eterna luta de dois ou mais homens por uma mulher –, levando a parar o baile, afastamento das mulheres e simulação de uma tremenda luta com cajados; logo que reposta a serenidade, o baile prosseguiu, com o efeito tranquilizador da música. Da Eslovénia, surgiu um casal de noivos a brigar verbalmente em palco; descarregada a tensão, surge a reconciliação, o casamento e o animado baile com os noivos e os muitos convidados; numa das danças, surgem dois homens juntos, a dançar agarrados, o que leva a refletir sobre esta realidade – os sinais do tempo parecem acenar-nos com outras opções e mais tolerância –. Da Sérvia, verificava-se um início da dança a tender para a separação por mulheres e homens, e performances a ritmos vertiginosos, com graciosidade das mulheres, sempre sorridentes, e postura musculada dos homens, de cordoamento na mão, como se tratasse de um chicote, fazendo-o tocar com estrondo no chão, para intimidar e submeter. Os homens, com esse “chicote”, iam supostamente “eliminando os adversários” até ficar só um deles com uma mulher. Ironicamente, no fim, o homem saiu de palco amarrado pelo seu “chicote”, puxado pela mulher, deixando a ideia que, afinal, o homem machão, musculado, pode ser subjugado pela beleza e inteligência feminina.

Uns dias depois, quando uma massa de ar quente levou a que se tivessem vivido os dias mais quentes de sempre no interior e sul de Portugal, estava-se de volta à avenida Central para se viver “Do Bira ao Samba” e um carnaval fora do tempo. Um animado programa, a interligar Portugal e Brasil, incluiu a presença dos caretos de Ousilhão, de Trás-os-Montes (Portugal). Estes, com as suas travessuras e achocalhar, fizeram a ronda entre o público e criaram o “caos” junto das mulheres. A dado passo, vê-se um careto a agarrar uma jovem, colocá-la aos ombros e simular afastar-se do recinto com ela.

Não tem necessariamente de haver “moral da história”, mas daqui resultam evidências: as mudanças bruscas e extremas de temperatura, resultantes das alterações climáticas; o interesse da animação cultural na vida das pessoas; a complexidade do relacionamento humano, mesmo que visto sobre o prisma do folclore; o por quê de Braga ter a cidade com mais qualidade de vida[1] e a população com maior índice de felicidade em Portugal[2].

© Jorge Nuno (2018)



  


 





 





[1] Fonte: Eurobarómetro – Percepção da qualidade de vida nas cidades europeias [75 cidades].
[2] Idem.

21/07/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (21) - Evolução - Entre Cemitérios e Corridas


EVOLUÇÃO – ENTRE CEMITÉRIOS E CORRIDAS

Normalmente, quando alguém, ou algo, chega ao fim de vida, torna-se inevitável falar em cemitério, quer se goste ou não da palavra ou da ideia. Comecemos pela ilusão dos “carros de sonho”. Sim, tal como as pessoas muito ricas, com um estatuto privilegiado na sociedade, também as viaturas mais fiáveis e apelativas no mercado, por mais caras que sejam e que dão status, vão parar ao cemitério e deixam-nos a certeza de que nada é eterno. Exemplo disso é o “estranho” cemitério com Ferraris, em Sacramento, E.U.A.

Entretanto, parece “normal” o cemitério quando se trata de viaturas clássicas / antigas. Tanto existe no Alabama, E.U.A., como em inúmeros locais do mundo, e que tem vindo a despoletar questões ambientais, pelos verdadeiros atentados à natureza. O maior cemitério de carros clássicos da Europa está situado num país impensável – a Suécia! Aconteceu a partir de 1967, ano em que se fez um referendo e foi aprovada a condução com o volante à esquerda, o que provocou a substituição, em massa, de viaturas com o volante à direita. Em 2017, a marca sueca Volvo anunciou que só iria produzir veículos elétricos. Prevê-se, num futuro próximo, um novo incremento de carros usados, movidos a gasóleo e gasolina, abandonados em cemitérios naquele país.    

No final de 2015, rebentou o escândalo, rotulado como o Dieselgate, após a descoberta que uma conceituada marca alemã – a Volkswagen (VW) – manipulou o software de mais de onze milhões de viaturas movidas a gasóleo e produzidas nas suas fábricas, para contornar os testes de emissões poluentes, que evidenciavam emissões bem superiores ao anunciado. Pressionada pelos E.U.A., a VW readquiriu, aos proprietários e concessionários, cerca de 350.000 veículos, gastando 7,4 mil milhões de dólares americanos e depositou-os em vários lotes de terreno espalhados pelo território norte-americano, com um total de 37 cemitérios. Nestes, inclui-se os cemitérios gigantes de Victorville, no deserto californiano, e em Detroit, sendo surpreendente e chocante a vista aérea com uma imensidão de automóveis novos e seminovos, alinhados, à espera de ser demolidos [e já o foram cerca de 20.000, segundo a agência Reuters]. Enquanto executivos da VW aguardam julgamento, outros responsáveis da marca admitem que, apesar dos elevados custos, as viaturas possam vir a ser reparadas e devolvidas aos clientes, prevendo-se que algumas outras possam ser “recondicionadas”.

Observa-se uma produção na indústria automóvel superior à procura, que provoca o armazenamento dos stocks excedentes a céu aberto, em muitos pontos do mundo. Entre outros, são muito conhecidos os casos de viaturas novas não escoadas e em elevado número nos seguintes locais: porto de Sheerness, Corby e Avonmouth, Inglaterra; São Petersburgo, Rússia; porto de Civitavecchia, Itália e porto de Valência, Espanha.

Contrariamente ao exposto, em Portugal, as vendas de viaturas novas tem vindo a disparar. O Diário de Noticias on-line, de 17 de julho de 2018, divulgou que «em maio de 2018 foram batidos recordes [na concessão de crédito automóvel, neste país]», sendo que nos primeiros cinco meses do ano registaram-se mais de 89.000 financiamentos concedidos[1], a «um ritmo de quase 600 por dia», levando a empréstimos de «mais de 1,26 mil milhões de euros nesse período». As novas regras de concessão de crédito recomendadas pelo Banco de Portugal vêm colocar travão nas vendas. A par desta iniciativa, a Comissão Europeia quer que os estados-membros apliquem o novo método WLTP (worldwide harmonized light vehicles test procedure), mais realista quanto a consumos e emissões poluentes, transitoriamente, a partir de 1 de setembro, que levará a aumentos significativos do custo de aquisição das viaturas convencionais novas, e definitivamente em janeiro de 2019, que conduzirá a novo aumento.    

Quanto aos muitos milhares de automóveis elétricos, produzidos inicialmente como um produto inovador, mas com um risco mal calculado, foram apodrecendo em grandes cemitérios, devido a lóbis da indústria petrolífera e da indústria automóvel convencional, além da falta de autonomia das viaturas elétricas e da inexistência de pontos de abastecimento elétrico, confinando-os a pequenos circuitos locais.

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / muda-se o ser, muda-se a confiança: / todo o mundo é composto de mudança / tomando sempre novas qualidades (…)»[2]. Em Portugal, a venda de carros elétricos também disparou, registando-se um aumento de 130% em julho de 2017, face a período homólogo. Com os incentivos fiscais, decorrentes da ausência de emissões poluentes, a tendência é para continuar a aumentar as vendas de veículo com esta tecnologia amiga do ambiente, reforçado pelo novo ajuste que faz disparar o preço das viaturas a gasolina e gasóleo.

Atenta à evolução, a FIA[3] criou a série Fórmula E, com carros elétricos e que, além da competição, promovem o desenvolvimento deste tipo de viatura, ao nível da potência, aerodinâmica, eficiência…

Em junho de 2018, realizou-se em Portugal o 1.º Eco Rally, com carros exclusivamente elétricos, integrado no FIA Electric and New Energy Championship 2018. Teve classificativas nas serras da Arrábida e de Sintra. Segundo a UVE[4], que esteve na organização, «pretende-se medir a regularidade, não a velocidade pura».

No cemitério do Gethsêmani Morumbi, São Paulo, Brasil, que tem uma área de 135.000 metros quadrados, está disponível uma significativa frota de veículos elétricos para facilitar o acesso das pessoas às campas distantes da portaria, e também para transporte dos defuntos à sua última morada. 

Até lá… bons passeios, sem pressa e, preferivelmente, sem poluição.
© Jorge Nuno (2018)

       




[1] Fonte: Banco de Portugal.
[2] Luís Vaz de Camões, num soneto escrito em pleno século XVI.
[3] Federação Internacional do Automobilismo.
[4] Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos.

07/07/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (20) - "A Última Coca-Cola no Deserto"


A ÚLTIMA COCA-COLA NO DESERTO

Para Portugal, o Mundial da Rússia já é passado. Poucas horas a seguir à desilusão, os portugueses atentos conseguiram ganhar algum de ânimo, ao saber que, pela segunda vez consecutiva, este país é o grande triunfador dos World Travel Awards, considerados os “Óscares” do Turismo. Obteve 36 prémios, entre eles: o Melhor Destino Europeu (pelo segundo ano consecutivo); Lisboa, como sendo a Melhor Cidade Destino da Europa e com o Melhor Porto de Cruzeiros (pelo terceiro ano consecutivo); a Madeira a ser considerada o Melhor Destino Insular; os passadiços do Paiva, na Serra da Freita, a Melhor Atração de Turismo Aventura… Na mesma ocasião, soube-se também que Portugal terminou a sua participação nos Jogos do Mediterrâneo – em que fez a sua estreia, representado em 29 modalidades – e conseguiu três medalhas de ouro, oito de prata e treze de bronze, atenuando a desilusão do futebol.

É certo que o elevado número de turistas que nos visitam fomentam a economia, contribuindo para que haja uma sensação coletiva agradável de um Portugal que, decididamente, terá saído da crise, ajudando a superá-la. Parece respirar-se de outra forma, com mais confiança no futuro. Mas também é certo que este inusitado afluxo de turistas, particularmente nas grandes metrópoles de Lisboa e Porto, e ainda mais nos seus centros históricos, estão a causar problemas impensáveis há pouco anos atrás. São contratos de arrendamento a não ser renovados e os moradores a ser despejados, para investimento no turismo de habitação ou requalificação para reinvestimento, e a muita procura a fazer disparar os preços nas vendas dos imóveis, criando um mercado artificial, com valores altamente inflacionados, que leva o Banco de Portugal a apertar os critérios para a concessão de empréstimo para a compra de habitação e para o crédito ao consumo, que colide contra tanto entusiasmo.

Os portugueses ainda mais atentos não deixam passar em claro um novo máximo histórico da nossa dívida pública, preocupante, atingido em maio deste ano; representa um total de 250.313 milhões de euros, de acordo com dados revelados pelo Banco de Portugal. Só o setor empresarial do Estado, em 2017, tem uma dívida de 24.290,7 milhões de euros, segundo o Jornal Económico, sendo que «a Infraestruturas de Portugal continua a ser a empresa pública mais endividada (…) com uma dívida de 8.289 milhões [de euros]».

Bem, talvez se compreenda que os portugueses prefiram saber as novidades no arranque da época desportiva dos “três grandes”, cada um, à sua maneira, a procurar acumular pontos antes do apito inicial do jogo. Sabe-se da importância em atribuir importância a algo, como forma de a promover, em que a imagem positiva daí resultante dá frutos. Veja-se o caso das finanças portuguesas e do respetivo ministro – Mário Centeno –, que em virtude do “milagre” conseguido, foi eleito presidente do Eurogrupo. Até parece que ele era a última bolacha do pacote ou a última coca-cola no deserto.

Talvez se compreenda a necessidade de introduzir o marketing em quase tudo, se entendermos o conceito, segundo Philip Kotler, como a «ciência e a arte de explorar, criar e entregar valor para satisfazer as necessidades de um mercado-alvo com lucro. Marketing identifica necessidades e desejos não realizados». E neste sentido, Portugal tem apostado no Turismo e na própria imagem no exterior e, no futebol, a SAD do Sporting Clube de Portugal tem muito trabalho a fazer, principalmente para unir os associados e adeptos, depois de ver desbaratinado o seu plantel principal. Quanto ao ex-treinador deste clube, tantas vezes acusado de se achar melhor treinador que qualquer outro, sempre me pareceu um homem simples, que percebe do negócio, que sabe o que quer e o que não quer. Deliberadamente, ou não, soube construir a sua imagem e quando foi “empurrado” para fora de um grande clube, foi logo acolhido por outro grande clube, e agora por outro, de grandes posses financeiras, na Arábia Saudita – país em que mais de metade do seu território é deserto. Não sabemos se os adeptos do Al-Hilal entenderam que Jorge Jesus seria a última coca-cola no deserto, ou que o próprio pense isso de si mesmo, mas retemos, com alguma estranheza, o entusiasmo com que foi recebido no aeroporto de Riade.

No Mundial não fomos além dois oitavos, é uma realidade; mas há realidades só possíveis no mundo do futebol, como é o caso de dezenas de muçulmanos a aclamar, em uníssono, o ex-treinador do Sporting Clube de Portugal: “Jesus! Jesus! Jesus!...”!

© Jorge Nuno (2018)
               

23/06/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (19) - "Que Bem Prega Frei Tomás!"


QUE BEM PREGA FREI TOMÁS!

Com a recente entrada no verão, as férias, o facto de se estar em plena animação nos festejos dos santos populares, ou no desenrolar do Campeonato do Mundo de Futebol, temática não faltaria para a elaboração desta crónica, que poderia ser escrita em modo “soft”, de “relax” ou, eventualmente, a realçar o entusiasmo que se vive com esta competição de futebol ou nos arraiais. Como José Régio: «sei que não vou por aí». É que, perante acontecimentos recentes, não consigo desligar a mente da “moral” – ou falta dela – dos que se arrogam apregoá-la. Admito que até poderia dar jeito alguma meditação transcendental, para entrarmos no verdadeiro espírito do verão, do defeso, e mudarmos temporariamente o “chip”, até se retomar a vida rotineira e agitada.

Começando por aqui, ocorreu-me alguns ensinamentos de Maharishi[1], que descrevo: «Faz o que o mestre diz e não o que ele faz» e exemplificou, numa alusão a Jesus de Nazaré: «se o mestre caminha sobre as águas, não tentes andar sobre as águas, pois o mais certo é afogares-te», ou «não te crucifiques se o teu mestre for crucificado». Há que reconhecer: esta pode ser uma versão diferente daquela em que surge a moral que se prega para os outros, mas que os próprios não adoptam. E o nosso pequeno mundo está cheio destas últimas!

Retrocedamos ao primeiro dia do ano de 2008. Precisamente nessa passagem de ano, no momento da entrada em vigor da nova legislação de prevenção tabágica, o então inspetor-geral da ASAE[2] – António Nunes – foi apanhado a fumar no Casino do Estoril. Tal, causou um enorme ruído, pois ele era o garante que a instituição que liderava iria fiscalizar e multar os incumpridores. Perante este facto, o casino apressou-se a comunicar à imprensa que António Nunes estaria numa zona de fumadores. Certo é que o diretor-geral da Saúde [à época] – Francisco George – reuniu de imediato com o órgão consultivo e os conselheiros consideraram que «é perfeitamente possível que nos casinos se possa fumar», combinando as leis do tabaco e do jogo, sem no entanto assegurar o direito dos trabalhadores do casino poderem exercer a sua atividade num ambiente despoluído, e evitar doenças graves. Mais certezas, foi que decresceram as receitas dos casinos, após a entrada em vigor desta lei; que a ASAE “fechou os olhos” quanto ao rigoroso cumprimento da lei; que o processo ficou inquinado de início.

Na atualidade…

Segundo uma notícia do JN[3] do dia 6 de junho de 2018, começa por se afirmar que «A reciclagem está estagnada, apesar dos portugueses terem produzido mais lixo em 2017 do que nos anos anteriores (…) cada habitante fez 1,32 quilogramas de resíduos por dia. No entanto, a taxa de reciclagem continua teimosamente nos 38 %, tal como há dois anos. Portugal está mais longe de cumprir as metas do Plano Estratégico para os Resíduos Urbanos, a que se propôs para 2020. O país tem três anos para alcançar uma taxa de reciclagem de 50% – o que, a avaliar pelos últimos anos, é quase impossível». A Agere[4] e a Braval[5] atuam em parceria na bonita cidade onde habito, e levam 38% do valor da minha fatura da água para saneamento e 17% para resíduos sólidos. A primeira, tem um site atraente, com destaque para «um gesto pelo ambiente». No último dia 3 de maio, apresentou na praça do Município, com pompa e circunstância, os novos sistemas de recolha de lixo. A segunda, aproveitou o Dia Mundial do Ambiente – a 5 de junho – para sensibilizar os munícipes a fazerem a separação do lixo. Há onze meses que ando a lutar, através de pedidos formais e de sucessivas reclamações, para que sejam colocados contentores para resíduos sólidos comuns e outros que permitam a separação seletiva de lixos recicláveis na minha zona. Há poucos dias surgiu a promessa de colocação de um contentor em setembro, mantendo-se o lixo nos passeios até lá (causando mal ao ambiente e à saúde pública), sem expetativas de reciclagem. Entretanto, em minha casa, a fazer fé nas estatísticas, foram produzidos, nestes dez meses, 897 quilogramas de lixo e nenhum foi reciclado, apesar de eu pretender fazê-lo; mas ficou a saber-se o por quê.

No site da CGD[6], pode ler-se que esta instituição «é um banco público português (…) o maior banco de Portugal detido pelo Governo da República Portuguesa». O seu slogan é mesmo: «Qual é o banco que está consigo? A Caixa. Com certeza». Dois dias após tomar posse como presidente do conselho de administração, Miguel Macedo, em carta dirigida aos trabalhadores, afirmou o «compromisso de reestruturação e da capitalização (…) que a Caixa manterá a sua liderança e, com certeza, quererá consolidar-se no futuro». À conta dos incêndios no interior do país, tem vindo a ser abordado publicamente, com insistência, por autarquias, deputados, governantes e as forças vivas das diversas regiões do interior, a necessidade de combater a desertificação e criar condições à fixação das populações, com segurança e qualidade de vida. No dia em que o presidente da República fez um apelo e estabeleceu um limite de prazo [2023] para acabar com as assimetrias entre interior e litoral, a CGD anuncia mais um encerramento de balcão numa localidade do interior – São Vicente da Beira, no distrito de Castelo Branco –. Em 2017 encerrou 64 balcões. «Em 2018 serão encerrados entre 70 e 80», afirmação de Miguel Macedo. Não só as populações, incluindo as mais vulneráveis, ficam sem os serviços bancários, como muitos dos cerca de 2000 trabalhadores da CGD dispensados vivem com as suas famílias no interior e têm de procurar a subsistência no litoral, indo num sentido oposto ao que era esperado e recomendado.

O presidente [suspenso] do CD[7] do Sporting Clube de Portugal e presidente da SAD[8] do mesmo clube, há meses que tem vindo a abrir várias frentes de “guerra”, tendo sempre em vista os superiores interesse do Sporting. Num ato público de exaltação clubística, pediu a todos os comentadores desportivos afetos ao clube, e a todos os associados e adeptos, que deixassem de participar e ver outros canais televisivos, a não ser a Sporting TV. Depois disto, por diversas vezes, entrou em direto em variados canais, para intervir a “defender” o “seu” Sporting. Diz que “é preciso dar a palavra aos sócios” e fez tudo para impedir a AG[9] destitutiva do CD. Alega a defesa do cumprimento da lei, mas não aceita e desrespeita ordens do tribunal, para depois recorrer a estes, através de providências cautelares e queixas-crime, esperando que as decisões lhe serem favoráveis. Legalmente suspenso de funções no CD, continua a decidir a bel-prazer, a ponto de impedir a entrada, nas instalações onde era suposto desempenharem funções, os membros do Conselho de Gestão nomeado pelo presidente da AG, que cumpre os estatutos do clube. Como presidente da SAD, tem vindo a apregoar o “milagre económico”, enquanto o Conselho Fiscal revela preocupação pelas contas do clube, os empréstimos obrigacionistas encontram-se suspensos e o Banco de Portugal dá diretrizes para que os bancos não emprestem dinheiro a clubes de futebol. Diz que vai reaver 535 milhões de euros com as rescisões de contrato, por alegada “justa causa”, de nove jogadores do plantel principal, após ter contribuído para que esses leões “voassem” a custo zero, baixando assustadoramente os ativos da SAD, aproximando-a da insolvência ou fazendo com que o clube deixe de ter a maioria do capital, a favor de um qualquer multimilionário com tendência para gozo narcísico e exagerado exercício do poder – neste caso sim, seria o dono do clube –, ou aparecer um encapotado fundo de investidores mas em que, em ambos os casos, os sócios deixariam de ter a palavra. Tudo em nome dos superiores interesses do clube.

Afinal não se tratou de uma meditação transcendental, mas um simples exercício de meditação sobre as contradições neste estranho mundo, a fazer lembrar o provérbio: «Bem prega frei Tomás! Façamos o que ele diz, não o que ele faz».

© Jorge Nuno (2018)
   
          

  

 




[1] Maharishi Mahesh Yogi (1918-2008), guru indiano, fundador da Meditação Transcendental.
[2] Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.
[3] Jornal de Notícias, artigo assinado por Carla Sofia Luz.
[4] Empresa municipal de água e saneamento.
[5] Empresa de valorização e tratamento dos resíduos sólidos.
[6] Caixa Geral de Depósitos.
[7] Conselho Diretivo
[8] Sociedade Anónima Desportiva
[9] Assembleia Geral de Sócios.

09/06/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (18) - "Algarve - Allgarve - Oilgarve"


ALGARVE – ALLGARVE – OILGARVE

Na vida pessoal e na natureza, as mutações são constantes; nada é estático, nem definitivo. Dizia George Bernard Shaw[1]: «O progresso é impossível sem mudanças. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada». É preciso reconhecer que, na maior parte das vezes, é necessário muita ousadia e resiliência perante pressões adversas e que conduza, com sucesso, à superação de obstáculos.

Quando surge a palavra “Algarve”, associa-se mentalmente a outra palavra inglesa “relax”[2], o que é compreensível, por ser um dos maiores destinos turísticos dos portugueses, mas também estrangeiros, com predominância dos ingleses. Na BTL[3], o presidente da região de turismo do Algarve, Desidério Silva, afirmou que «o Algarve continua a ser o destino de férias dos turistas ingleses», tendo mencionado que só estes ocuparam, em 2017, 65,2 % das camas disponíveis na região, num total de 6,1 milhões de dormidas, representando metade dos passageiros movimentados no aeroporto de Faro. Dá que pensar! Dá que pensar… que empreendimentos turísticos, operadores turísticos e agências viagens e de aluguer de viaturas, companhias aéreas e, claro, turistas britânicos, tenham movimentado tantos milhões de libras esterlinas (GBP), em circuito fechado, e o dinheiro fique, na sua maioria, no Reino Unido. Dá que pensar… que um português, entrando num restaurante no Algarve, encontre ementas só em língua inglesa e empregados britânicos, e que para pedir uma simples mousse de chocolate o tenha que fazer em inglês. Dá que pensar… os enormes “outdoors”, à beira da estrada, cheios de frases tal como “Real Estate”, ou “Eco Luxe Exceptional Villas”, “Live the difference! Algarve Luxury Property”. Dá que pensar… a dependência britânica e os efeitos do Brexit[4] que, a curto prazo, inevitavelmente, irá alterar a sua afluência a esta região. Dá que pensar… a seca extrema que o país viveu em 2017, precisamente numa altura de época alta para o turismo, em que já se fazia sentir a falta de água e o seu consumo a subir exponencialmente. Dá que pensar… as “pegadas ecológicas”, originadas pelo turismo, com Portugal[5], em 2011, a deter «a 9.ª pegada ecológica mais elevada entre 24 países do Mediterrâneo”, sendo evidente na região algarvia. Para minimizar esta última situação, foi criado um projeto para «fornecer aos municípios as ferramentas para vivermos de forma sustentável com os nossos recursos naturais, preservando o planeta Terra[6]».

Na Feira de Turismo do Algarve, em 2007, o então ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho, fez a apresentação pública da marca “Allgarve”. Mesmo ainda sem se saber bem o que se pretendia com a “marca”, esta já estava a ser alvo de chacota, pela “aproximação inglesada”, como se tratasse de subjugação e perda de soberania. Dizia este ministro, na inauguração, ao anunciar um investimento inicial de seis milhões de euros: «O turismo está ao nível mais alto de sempre, mas a ambição vai mais além disto: queremos mais turistas de curta duração, turistas de férias e mais estrangeiros que procurem Portugal para segunda residência» e estaria muito confiante nos resultados que viriam a ser suscitados pela marca “Allgarve”, já que achava poder contribuir para «criar mais oferta de qualidade, compatibilizar turismo e ambiente, aumentar o número de companhias “low cost” presentes no aeroporto de Faro (…) e dar benefícios fiscais para segunda residência de estrangeiros». Na altura, a AHETA[7] rejeitou esta campanha, por entender que ofendia «as mais elementares regras e princípios de marketing turístico». Cinco anos depois, Elidérico Viegas, presidente da AHETA, referiu que o insucesso do “Allgarve” [acabado de extinguir] se deveu a má estratégia e teimosia do ex-ministro Manuel Pinho e que «o programa nasceu torto, nunca se endireitou e morreu sem glória». Também alguns deputados algarvios, da oposição, consideraram-no «um sorvedouro de dinheiro» [4,6 milhões de euros, só no último ano, acabando sem dinheiro para vencimentos].

“Algarve, sim! Oilgarve, nunca!” é o título de um artigo[8], de 2016, que refere já terem sido «atribuídas 9 concessões para exploração de petróleo e gás natural em águas e terras algarvias. O Turismo do Algarve não é e não quer ser o Turismo Petrolífero – são duas palavras que não combinam». No presente, sucedem-se as manifestações “contra” e sessões de esclarecimento, estimuladas por ambientalistas, a que se juntam algumas formações partidárias, movimentos de cidadãos e populações locais. Foi anunciado pela PALP – Plataforma Algarve Livre de Petróleo, que a ENI, Galp Energia, Portfuel, Repsol e Partex, querem fazer prospeções já em setembro, tanto em terra como ao largo da costa. A PALP exige «um estudo de impacto social, económico e ambiental, e, ainda, [pretende] pressionar o estado para publicitar toda a informação inerente à prospeção, pesquisa, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural em Portugal».

Sabe-se que o turismo representa 60% do emprego na região e que 40% deste território é área protegida. Sabe-se que a atividade de extração de hidrocarbonetos contribui para: o aquecimento global; fomentar a atividade sísmica, numa zona crítica; afastar a fauna marinha, devido ao intenso ruído que provoca; eventuais derrames de resíduos; perfurações indevidas, que podem atingir veios aquíferos[9]. Sabe-se que os combustíveis fósseis tendem a perder importância e que Portugal tem sido impulsionador – e muito bem – de energias alternativas renováveis, conseguindo-se chegar a uma produção autossuficiente.
      
Dá que pensar… até o resultado financeiro proveniente da exploração destes recursos naturais do subsolo poderá ir, maioritariamente, parar ao bolso de estrangeiros.

Ao mudarem-se mentalidades, que seja em abono deste planeta azul, com muitas manchas verdes e não negras. Que este despertar coletivo dê força à necessária resiliência contra “negócios escuros”, teimosia e más estratégias.

Allgarve… já era! Oilgarve… não, obrigado! Algarve, sempre!   

© Jorge Nuno (2018)


[1] Irlandês (1898 – 1950), foi dramaturgo / autor de comédias satíricas, romancista, contista, ensaísta e jornalista.
[2] Com o significado de tranquilidade, sossego, relaxamento…
[3] Bolsa de Turismo de Lisboa, de 2018.
[4] Designação da saída do Reino Unido da União Europeia.
[5] In site “Green Savers”.
[6] Idem.
[7] Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve.
[8] In esquerda.net
[9] Lençóis subterrâneos de água potável.