10/11/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (28) - Dá que Pensar...


DÁ QUE PENSAR…

A UM[1] tem, sob a égide da AAUM[2], 20 grupos culturais e todos com intensa atividade ao longo do ano, apesar da cíclica rotatividade dos estudantes nas universidade. Para que se fique com uma ideia, aqui ficam os grupos culturais conhecidos (quase todos acrescidos da designação UM): Afonsina – Tuna de Engenharia; ARCUM – Associação Recreativa e Cultural; Augustuna – Tuna Académica; Azeituna – Tuna de Ciências; Bomboémia – Grupo de Percussão; CAUM – Coro Académico; Gatuna – Tuna Feminina; GFados UM – Grupo de Fados e Serenatas; GFUM – Grupo Folclórico; GPUM – Grupo de Poesia; GMP – Grupo de Música Popular; iPum – Percussão Universitária; Jogralhos – Grupo de Jograis; Literatuna – Tuna de Letras; OPUM DEI – Ordem Profética; TUM – Teatro Universitário; TMUM – Tuna de Medicina; TUM – Tuna Universitária; Tun’ao Minho – Tuna Académica Feminina; Tun’Obebes – Tuna Feminina de Engenharia.    
Estes jovens, com a habitual irreverência (e algumas picardias), mas com um entusiasmo contagiante e sã convivência, criam e perpetuam eventos, conseguindo feitos notáveis no âmbito cultural, certamente com parcos recursos; passam a dispor de mais ferramentas para singrar no mundo do trabalho – casos do desenvolvimento da iniciativa própria, da capacidade de comunicação em público e da capacidade de liderança – e projetam uma imagem positiva da universidade que os acolhe, e com esta mantêm uma forte ligação, mesmo tendo passado vinte ou mais anos.

Foi noticiado pelo DN[3]: «PSP[4] já tem 16 sindicatos e 36 mil dias de folga para os dirigentes. São os próprios sindicatos a dizer que é “uma vergonha” o que se passa na polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios. Há um “Vertical”, outro “Independente”, outro “Autónomo”, outro “Livre” e até um dos “Polícias do Porto”. Já resta pouca imaginação para dar nomes a tantos sindicatos da PSP, que atingiu número recorde, inigualável noutro setor, de 16. O mais recente – Organização Sindical dos Polícias – nasceu em fevereiro [de 2018] e conta com 459 dirigentes e delegados sindicais para 451 associados».
A primeira tentativa para alterar a lei do regime sindical da PSP, deveu-se à ex-ministra Constança Urbano de Sousa, que tutelava a instituição e que tinha de reunir com 16 sindicatos para negociar as carreiras e condições de trabalho. Com oposição de três partidos no Parlamento [PCP, BE e CDS], o projeto de lei acabou na gaveta, numa ocasião em que se considerou estar-se perante a aplicação da lei da rolha aos dirigentes, silenciando-os quanto à denúncia das condições de trabalho. É reconhecido que esta é uma profissão de risco e que os agentes, por exemplo, em perseguição ou confronto com criminosos, caso danifiquem a farda ou a viatura em que seguem, continuam a ter de pagar os estragos do seu bolso.

Quase o mesmo número de organizações culturais de estudantes numa só universidade e das organizações sindicais de polícia a nível nacional, e dá que pensar… Como é que a atividade cultural dos jovens é visível e dá frutos, praticamente sem custos para os contribuintes, e as dos representantes dos respeitáveis agentes da autoridade nem sequer conseguem resolver o problema de uma farda rota em serviço, e são um sorvedouro de recursos humanos e financeiros, sem que algo seja feito para corrigir esta situação.

O JN[5] refere ter consultado, em 2016, a lista disponível com as subvenções políticas vitalícias. Tratou-se do ano em que o Tribunal Constitucional repôs subvenções a ex-políticos e ex-juízes desse mesmo tribunal, após pedido de fiscalização, por parte de 30 deputados do PS e PSD, do diploma de governo de José Sócrates que suprimia essas subvenções [2005] e do governo de Passos Coelho que proibia a «acumulação com salários do setor público e cria teto para acumulação do setor privado [2013]». Dá-nos a conhecer que em 2017 havia 318 pessoas a receber as chamadas “pensões douradas”, à custa do Orçamento do Estado, ou seja, dinheiro dos contribuintes. Na mesma página, pode ler-se: «Governo decidiu sozinho esconder lista de subvenções vitalícias (…) sem pedir parecer a ninguém (…). O Ministério da Segurança Social justificou-se com o novo regulamento da proteção de dados (…). A CNPD[6] apontou, ao JN, que a lista das subvenções políticas não conta com qualquer legislação que obrigue a sua publicitação, ao contrário do que acontece com as listas de devedores da Segurança Social e da Autoridade Tributária, que estão previstas em lei”. “Não há qualquer semelhança entre as listas”, explicou [a CNPD]».

Não deixa de ser curioso e dá que pensar… o parlamentar, não legisla sobre o que não lhe interessa [a ele próprio] e deixa o “buraco” para uma decisão arbitrária – sem ter de respeitar leis ou regras. Os juízes do Supremo, neste caso, deliberam sobre aquilo que lhes interessa particularmente e não sobre justiça social e verdadeiro interesse público.

Neste número do JN[7] também se pode ler: «Governo pede mais 886 milhões para bancos falidos[8]. (…) no OE[9]2018, o pedido de autorização de despesa (concedido pelo Parlamento na versão final do documento) subiu para 1017 milhões de euros, mas, até à data (como acontece todos os anos) não há informação sobre a evolução destes gastos na execução orçamental». Parece um poço sem fundo, pois no próximo OE serão canalizados «337,6 milhões de euros para três veículos do Banif; 548,2 milhões para três sociedades com os restos do BPN». Este último, foi nacionalizado em 2008, e a falência e resolução do Banif deu-se em 2015. Dá que pensar… quando o próprio ministro das finanças, no debate sobre o OE2019, refere um saldo orçamental nulo no caso dos três fundos do Banif, voam 886 milhões – dinheiro dos contribuintes – e ninguém parece saber quando acaba esta sangria.
© Jorge Nuno (2018)     



[1] Universidade do Minho
[2] Associação de Estudantes da UM
[3] Diário de Notícias online, de 4 de abril de 2018, com artigo assinado por Marcelina Valentina
[4] Polícia de Segurança Pública
[5] Jornal de Notícias, em 29 de outubro de 2018, p.9
[6] Comissão Nacional de Proteção de Dados
[7] Jornal de Notícias, em 29 de outubro de 2018, p.14
[8] Título referente ao Orçamento de Estado para 2019
[9] Orçamento de Estado para 2018

05/11/2018

Mar de Energia


MAR DE ENERGIA

Aqui, no meu espaço de realidade
criada em laboratório de vida,
sem querer ter poder sobre o meu íntimo
– tão só, usar o que daí advém –
saio de um ciclo padrão rotineiro
reescrevendo a forma de pensar.
Com muita sede de compreensão,
deixo fluir sentimentos ocultos,
vivo um conteúdo emocional forte.
Fundo, vejo o que preciso mudar.
Fora com aquelas cassetes velhas!...
Elimino o excesso de bagagem
que estava ancorado dentro de mim
e não dava conta do seu efeito.
Reparo… há máscaras a cair!
Sem julgamentos, deixo-me envolver
na teia dinâmica de energia
que brota de excelsa fonte invisível
e trespassa o fogo do coração.
Sinto que a realidade é alterada.
Sem filtros, há novo alento – o meu prana.
Tal como numa visão holográfica,
vejo-me fluir, em passos de dança,
e levitar neste mar de energia.

© Jorge Nuno (2018)

27/10/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (27) - Adeus Dinheiro!...


ADEUS DINHEIRO!…

«Quando a última árvore for cortada, o último rio envenenado e o último peixe pescado, então o homem percebeu que o dinheiro não se come» – frase atribuída a Gerónimo (1829-1909), chefe índio apache.

Esta frase, proveniente da sabedoria indígena, vem a propósito da estupidez humana, supostamente num mundo evoluído, mas que engloba crimes ambientais de consequências trágicas, além de outros crimes que geram cada vez mais desigualdades entre povos, conducentes à guerra, à fome e a migrações em massa, em várias partes do globo.

Segundo a Newsweek, o presidente norte-americano Donald Trump quer «aumentar para 716 mil milhões de dólares o orçamento da defesa», em 2019, representando um aumento de 7% face ao ano anterior. Em julho deste ano, exigiu em Bruxelas que os países da NATO[1] «aumentem os gastos com a defesa [de 2%] para 4% do PIB», reforçando que «os países europeus devem contribuir com mais [dinheiro]». Segundo o SIPRI[2], a China terá um orçamento de cerca de um terço e a Rússia cerca de oito vezes menos do que os gastos dos EUA com a defesa / manutenção das guerras. Com a recente ameaça de denúncia unilateral, pelos EUA, do acordo com a Rússia sobre o nuclear, feito entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, está aberto caminho para a proliferação de armamento nuclear, para regozijo do lóbi da indústria de armamento norte-americana, e desassossego do mundo. Os EUA são livres de fazer novos acordos ou quebrar os existentes, como é o caso do comércio, e que envolve também a Europa. A propósito do comércio, o presidente Trump, em agosto de 2018, também ameaçou retirar os EUA da OMC[3], levando a um aumento de tensão com a China e junto de uma diversidade de países. E porque não falar em “guerra comercial”, em que todos perdem? Com o aumento das despesas militares, “voa” o dinheiro dos contribuintes. Com a desordem do comércio mundial, abre-se caminho à queda do sistema capitalista. A banca, que tem vindo a dar sinais negativos, tem feito “voar” muito dinheiro dos contribuintes e depositantes.

Diana Cooper, no seu livro “2032 – A Nova Idade de Ouro”, escreveu: «Diz-se que as culturas têm os líderes que merecem. A Lei da Atração postula que atraímos os reflexos do nosso ser interior. A humanidade tridimensional vota em líderes de baixa qualidade. Durante séculos tivemos a denominação masculina. Do ponto de vista negativo, os homens exibem características como: controlo, lógica desprovida de sentimento, autoritarismo, separação e curto prazo. (…) os trabalhadores (…) começam a esperar que os seus líderes demonstrem mais fibra moral e mais honestidade. Este raio está a dissolver o velho paradigma masculino e a tocar a consciência das pessoas com o novo. O poder está, realmente, nas mãos da população. No mundo tridimensional demo-lo aos políticos e às grandes empresas. Para entrar no novo temos de o exigir de volta». É neste livro que se pode ler que o dinheiro irá mesmo desaparecer! Os leitores foram sossegados, ao afirmar que as pessoas serão capazes de encontrar caminhos alternativos.

Em julho deste ano, escrevi a crónica “Evolução – Entre Cemitérios e Corridas”. Nela referi a Suécia, por ter criado o maior cemitério de viaturas automóveis do mundo, originando um impacto ambiental negativo com este abandono de viaturas, ao adotar o que era comum na Europa – viaturas com o volante do lado esquerdo. Recentemente, a marca sueca Volvo anunciou que, a partir de 2019, só vai produzir automóveis com motores elétricos, mostrando estar numa onda positiva, favorável ao ambiente. E é precisamente da Suécia que vem a notícia que este será o primeiro país do mundo a abolir o dinheiro de papel. O Banco Central da Suécia refere mesmo a data de 2030. Tudo isto vem favorecer a atuação da Agência Nacional Anticorrupção e da Autoridade Sueca para Crimes Financeiros, que se situam fisicamente muito próximo, fiscalizam e atuam com firmeza. Gunnar Stetler, responsável pelo funcionamento da primeira instituição, afirmou numa entrevista à jornalista Claudia Wakkin, autora do livro “Um País Sem Excelências e Mordomias”, que só se registaram dois casos de corrupção desde os anos setenta (século passado), envolvendo deputados e membros do governo. Quanto a outros setores, em 75% dos casos investigados verifica-se condenação. Refere ainda que o que mantém a Suécia no topo dos países menos corruptos é a «transparência dos atos de poder, o alto grau de instrução da população e igualdade social».

Em Portugal, ao ter ficado escandalizado com a atuação do meu banco – três vezes no espaço de um ano, abusou na subida de comissões bancárias – cancelei a conta e mudei-me para outro banco, de atendimento personalizado, que não tem tesouraria, logo, não movimenta dinheiro físico!

Vejamos outra realidade, caricaturada por Chico Buarque de Holanda, cantor e compositor brasileiro, um homem de grande coerência poética e enorme consciência política. Tem algumas peças musicais que falam de dinheiro, claro, como crítica social. Uma dessas canções intitulou-a “Dinheiro em Penca”, é pouco conhecida em Portugal e tem uma extensa letra, como é seu hábito; a dado passo, pode-se ouvir-se/ler-se: “(…) Meu padrinho quando moço / Era muito fazendeiro / Tirou ouro do sertão / Foi gastar no estrangeiro / O dinheiro da boiada / Transferiu pro estrangeiro / (…) Eu também já tive um tio / Que virou velho gaiteiro / Que gostava de mulher / Como eu gosto de dinheiro / Era louco por mulher / Eu me amarro no dinheiro / Fui mascate no sertão / Caminhei o norte inteiro / Vendi grampo a prestação / Guarda-chuva em fevereiro / Até hoje estou esperando / A remessa do dinheiro (…) / Uma vez em Nova York / Liguei pro meu feiticeiro / Que atendeu o telefone / Lá no Rio de Janeiro / Eu então falei pra ele / Procurar meu macumbeiro / Pra avisar pro pai-de-santo / Pra arranjar algum dinheiro / Pra pedir pro delegado / Pra soltar meu curandeiro / Ao doutor seu delegado / pra soltar meu curandeiro / Mas o tal telefone / Lá se foi o meu dinheiro (…)”. Pelo teor da letra, literalmente, disse adeus ao dinheiro. Mas se o Chico esperasse mais uns anitos para compor esta canção, ela deixaria de fazer sentido, já que, ao que tudo indica, o dinheiro deixará mesmo de circular.

© Jorge Nuno (2018)  



[1] Organização do Tratado do Atlântico Norte.
[2] Stockolm International Peace Research Institute – que realiza pesquisas sobre conflitos, tendo em vista a paz e segurança internacional.
[3] Organização Mundial do Comércio.

13/10/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (26) - Lá Vai Uma, Lá Vão Duas...


LÁ VAI UMA, LÁ VÃO DUAS…

“Lá vai uma, lá vão duas…/ e as palavras a pousar / podem ser nuas e cruas / opiniões a voar”, podia começar assim a nova versão da letra [feita por mim] de uma conhecida canção infantil, mas já lá vamos! Prometi voltar com mais cantigas, e cá estou. Começo com uma que teve muito sucesso, que se chama “O mar enrola na areia” e diz assim:
«(…)Também o mar é casado, ai, / também o mar tem mulher /
é casado com a areia / bate nela quando quer.»
Com novas sensibilidades à flor da pele, num mundo que se quer sem violência – mas que está pejado dele –, por deixar transparecer intenções subjacentes, esta letra inicial já foi objeto de transformações, passando o último verso para: «pode vê-la quando quer» ou «dá-lhe beijos quando quer». Reconheçamos: fica mais suave e é politicamente correto.

Também há motivos fortes para se abordar algumas eternas canções infantis, com lengalengas divertidas para memorizar, brincar e serem usadas como dança de roda. Assim se cantava, com a alegria e inocência natural de criança: “Sebastião come tudo!”; “A criada lá de cima”; “Lá vai uma, lá vão duas”; “Atirei o pau ao gato”; “A Barata diz que tem”; “Olha a bola Manel”, entre muitas outras.

Comecemos com “Sebastião come tudo!” e prestemos atenção à letra [para nos situarmos na época, tem partitura original datada de 1943, em plena ditadura do Estado Novo]:
«Sebastião come tudo, tudo, tudo / Sebastião come tudo sem colher
Sebastião fica todo barrigudo / E depois dá pancada na mulher».
Outra vez a falar-se em bater na mulher? Ensina-se estas coisas às criancinhas, e ainda por cima a cantar, e depois espera-se que em adultos tenham comportamentos diferentes! Mais uma vez, houve quem alterasse o último verso para «dá-lhe nela quando quer» – assim já não se fala em pancada, e fica mais soft – ou «e por fim dá beijinhos na mulher» – beijinhos, sim, pois claro! Mas se o menino no infantário come tudo, tudo, tudo… e depois anda a dar muitos beijinhos na maior amiga, que também usa fralda, está o caldo entornado e a colher não serve para nada –.

Façamos agora “dois em um” com as canções “Lá vai uma, lá vão duas” e “Atirei o pau ao gato”:
«Lá vai uma, lá vão duas / três pombinhas a voar /
uma é minha, outra é tua / outra é de quem a apanhar»
(…)
«Atirei o pau ao gato / mas o gato não morreu /
Dona Chica assustou-se / com o berro / com o berro que o gato deu.
Miau!»
O PAN[1] vai ter um trabalho enorme para forçar a mudança de mentalidades, quanto à forma de encarar os animais, por serem gerações atrás de gerações, enquanto crianças, a correr atrás das pombas para as apanhar – e logo um símbolo da paz! – e a atirar paus a gatos, acabando por assustar as muitas Donas Chicas e os próprios gatos. Já conseguiu algo com a recente abolição da atividade desportiva do tiro ao pombo! Quanto a esta última canção, já se cantam os dois primeiros versos do seguinte modo: «Atirei o peixe ao gato / Mas o gato não comeu (…)». Se fosse o gato vadio que rondava a casa da minha avó, até lhe roubava o peixe que tinha destinado para o almoço da família. Agora, por comodismo, força-se o hábito alimentar dos gatos, com latinhas de húmidos gourmet, e dá nisto!

 Vejamos outro mau exemplo para as meninas, em “A criada lá de cima”:  
«A criada lá de cima / é feita de papelão…/
quando vai fazer a cama / diz assim para o patrão: /
sete e sete, são catorze / com mais sete vinte e um /
tenho sete namorados / e não gosto de nenhum».
Numa sociedade que promove a monogamia, ao ver-se que as meninas começam cedo a interiorizar a ideia de ter sete namorados, não é de estranhar que sejam atiradiças; e esta até parece querer atirar-se ao patrão, enquanto faz a cama. É preciso o homem ser firme, para não se ver envolvido num assédio sexual distorcido, ou até mesmo num processo judicial por violação de menores, se for o caso. Como não acho jeito ao verso: «é feita de papelão…», experimentemos corrigir para: «é enorme furacão»; «está em grande solidão»; «aumenta seu ganha-pão» ou «precisa de um chapadão». Pensando bem, creio que «precisa de um chapadão» seria a versão original e foi corrigida para «é feita de papelão…», quem sabe… pelo Diácono Remédios[2].

Aqui está uma cantiga que deve ter sida cantada muito pelos Relvas deste país, quando miúdos:
«A Barata diz que tem um anel de formatura
é mentira da Barata, ela tem é casca dura
ah ra ra, iu ru ru, ela tem a casca dura (…)»
Começa-se cedo a mentir e com a mania das grandezas, e quando estas criaturas chegam à política é o que se vê, com cabeças duras em cargos de responsabilidade.

A verdade é que tem vindo a crescer um movimento preocupante para impor certos conceitos, em grande parte baseados em estereótipos sociais e… preconceitos[3], em que muitas vezes se julga o livro pela capa, levando-se a cometer excessos.

Ainda bem que não foi adulterada a canção que tanto se trauteava e que diz:
«Olha a bola, Manel / olha a bola, Manel (…)
O Manel tinha uma bola / mas agora não tem não /
e a gente a ver se o consola / vai cantar esta canção (…)»
Se eu o quisesse fazer, deixaria uma minha versão adaptada ao craque da bola, que há anos tem sido o melhor do mundo, e neste um “annus horribilis”[4]:
“CR queria a bola / mas agora não tem não /
e a gente a ver se o consola / vai cantar esta canção (…)».
Pior seria a adaptação para um anúncio solidário, de apoio a homens que sofreram uma orquiectomia[5]. Mas nunca se sabe!

Creio que ninguém ousou mexer na letra de “Os vampiros”, da autoria do Zeca Afonso, conhecida como “Eles comem tudo”. Seria imperdoável violar algo que serviu de «combate cultural e cívico em tempo de censura e símbolo da resistência contra o fascismo». Senão vejamos:
« (…) No chão do medo tombaram os vencidos
ouvem-se os gritos na noite abafada
jazem nos fossos vítimas dum credo
e não se esgota o sangue da manada.
Se alguém se engana com seu ar sisudo
e lhes franqueia as portas à chegada
eles comem tudo, eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada».
Mesmo sabendo que os Sebastiões barrigudos e os inúmeros vampiros continuam a ser grandes comilões, não há necessidade de dar pancada na mulher, até porque ela pode combinar com o amante e matar o marido. Decididamente, não altero a letra do “Lá vai uma, lá vão duas…”; mas que é um exercício tentador para agitar a malta, é!

© Jorge Nuno (2018)




[1] Partido dos Animais e da Natureza
[2] Personagem criada pelo humorista Herman José
[3] Como avaliação negativa em relação ao grupo; confuso, não é?
[4] Por não conseguir, em 2018, os troféus de jogador do ano UEFA e melhor jogador da FIFA, além de outros casos mediáticos que prejudicam a sua imagem, do clube que representa e dos patrocinadores.
[5] Remoção cirúrgica de testículos

28/09/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (25) - Casa de Meninas


CASA DE MENINAS

Neste mês tive o privilégio de assistir a dois espetáculos, um com a Gisela João e outro com a Ana Moura, ambas excelentes fadistas e fãs da diva Amália Rodrigues. Assim sendo, não será de estranhar que ambas tivessem cantado a conhecidíssima “Casa da Mariquinhas”. Foi sempre uma canção que me intrigou, tanto pelas dúvidas quanto aos verdadeiros autores da música e letra, como pela aparente saudade da Amália por uma casa de meninas, em tempo de ditadura. Pronto, cantava-se lá o fado e pode ser a explicação. Quanto ao autores… surgem Carlos Ramos, Silva Tavares, Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues, Alberto Janes, Capicua (mas esta será de excluir de imediato da versão inicial, pois nessa altura, se calhar, a mãe ainda nem tinha nascido). Uma primeira versão, atribuída a Silva Tavares e Alfredo Marceneiro, dizia o seguinte:
“(…)
Vive com muitas amigas
aquela de quem vos falo
e não há maior regalo
que a vida das raparigas
(…)
Pretendida, desejada
altiva como as rainhas
ri das muitas coitadinhas
que a censuram rudemente
por verem cheia de gente
a casa da Mariquinhas”.
Os autores não precisaram de incentivar ao consumo de ginjinhas e entendiam haver “regalo da vida das raparigas”, em tempos difíceis, mas em que elas eram obrigadas a ir à “examina”[1], e realçaram o perfil da dona do bordel. Oh… desculpem, da casa de fados.

O Carlos Ramos também terá dado voz a este tema. Sei que Fernando Maurício cantou “O leilão da casa da Mariquinhas”, não havendo dúvidas, pelos relatos escritos, que muitos ficaram desolados com o desaparecimento desta casa e da proprietária:
“(…)
Aprendiam-lhe as cantigas,
as mais ternas, coitadinhas,
formosas como andorinhas,
olhos e peitos em brasa…
que pena eu tenho
da formosa Mariquinhas”.

Mas foi a Amália a dar-lhe notoriedade, como em quase tudo que cantava. Ao que tudo indica, houve mão de Alberto Janes, com quem fazia uma parceria muito criativa, e surgiu este “remake” com o nome “Vou dar de beber à dor”:
“Foi no domingo passado que passei
à casa onde vivia a Mariquinhas
mas está tudo tão mudado
(…)
Entrei e onde era a sala agora está
à secretária um lingrinhas
(…)
E lá para dentro quem passa
hoje é para ir aos penhores
entregar ao usurário umas coisinhas
pois chega a esta desgraça toda a graça
da casa da Mariquinhas.
(…)
Recordações de calor
e das saudades o gosto eu vou procurar esquecer
numas ginjinhas
pois dar de beber à dor é o melhor
já dizia a Mariquinhas.

Se a Amália vivesse na época atual, teria de mudar… talvez fazer ainda uma nova versão, já que a canção incentiva à fuga à realidade e ao consumo de álcool, numa altura em que há campanhas para a sua redução, pela PRP[2]; a simples palavra “lingrinhas” seria denegrir a imagem de alguém que assume a sua sexualidade como entender, e teria à pega a comunidade LGBGT[3]; a SPA[4] a acusá-la de plágio e a exigir direitos autorais na música; por ser do domínio público, levaria a ASAE[5] a atuar, verificando o negócio da casa de penhores, e seria fechada à mesma, por negócio ilícito com ouro, logo aproveitado por fundos de investimento para especulação imobiliária ou para alojamento local. 

Também ouvi, presencialmente, a Amália a cantar a sua versão, mas aprecio mais a adaptação cantada pela Gisela João – com o seu vozeirão e alegria em palco –, creio que escrita pela Capicua (que acha estranhamente acha que hoje “as vacas são lingrinhas”):
“Foi numa rua escura que encontrei
a tal casa de fado ‘A Mariquinhas’
que de Alfredo Marceneiro
veio ao nosso cancioneiro
como sendo uma casa de meninas.
(…)
Mas foi sol de pouca dura
que mesmo sem ditadura
hoje em dia até as vacas são lingrinhas,
agora veem meus olhos
que nem amor, nem penhor,
esta casa está mais velha que as vizinhas
(…)
por fora toda riscada,
e encostada na fachada, uma menina[6],
mas esta não canta o fado
só sabe fumar cigarro
(…)
E aqui estou eu à porta desgostosa
vendo a casa que está morta em ruínas
por causa deste senhores
até já nem tem penhores
porque já ninguém tem ouro nas voltinhas
mas se eu fechar os olhos
e imaginar as farras
(…)
vou cantar toda a vida.   
    
Na verdade, tanta gente preocupada com o fecho da casa da Mariquinhas! E a pastelaria Suíça, símbolo do Rossio e da baixa pombalina de Lisboa – que teve o mesmo destino, com todo o quarteirão a ser comprado por um fundo de investimento estrangeiro – não teve direito a indignação, nem nenhuma cantiga! Intrigante… 

Não pretendo fazer a apologia da casa de meninas, mas não haverá maior promiscuidade e prostituição nos negócios imobiliários, sempre que se movimentam muitos milhões nos centros históricos das grandes cidades?   

Obs.: Prometo voltar, para abordar outras cantigas…

© Jorge Nuno (2018)  



[1] Controlo sanitário.
[2] Prevenção Rodoviária Portuguesa.
[3] Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgénero.
[4] Sociedade Portuguesa de Autores.
[5] Autoridade de Segurança Alimentar e Económica.
[6] Que agora não vai à “examina”.