19/01/2019

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (31) - Quatro Anos de Crónicas na BIRD Magazine


QUATRO ANOS DE CRÓNICAS NA BIRD MAGAZINE

Estávamos no final do ano de 2014 quando aceitei o desafio de escrever quinzenalmente para a BIRD Magazine. Foi-me dito que o poderia fazer de forma livre, sem temática específica, sem pressões. Iniciei essa tarefa no arranque de 2015, precisamente no dia 3 de janeiro, com a crónica “Sem Rosto e Sem Rasto”. Eu próprio fiquei surpreendido com a rapidez e facilidade com que a escrevi, mas, acima de tudo, com o seu tom irónico e um toque de humor, perante assuntos sérios – fórmula que fui repetindo, apesar da variação das temáticas abordadas –. Seguiu-se “Os Degraus da Felicidade”, “A Lucidez do Embriagado, “Leaks Há Muitos, Seu Palerma!”, “Aqui Há gato!”, “Não Há Coração que Aguente!”… Os títulos, que surgiam espontaneamente, pareciam apelativos e poderiam conduzir à leitura. Sentia prazer na escrita e, sem presunção, entendo que isso transparecia através da mesma. Sei que as pessoas, de uma forma geral, rejeitam ler textos extensos, mas esse entusiasmo pela escrita levava a “soltar-me”, para depois ter um esforço suplementar de síntese e não ultrapassar as duas páginas A4, quando é expectável que as crónicas tenham uma narração curta. Mesmo assim, as estatísticas das visitas às crónicas na BIRD Magazine – replicadas no meu blogue pessoal –, eram muito animadoras.

Rapidamente, entendi que as devia autointitular “Crónicas do Fim do Mundo”, embora sem essa designação na revista online; escrevi sessenta crónicas até junho de 2017, altura em que fiz uma mudança pessoal e radical. Daí em diante, e mantendo a determinação de escrever, autointitulei-as “Crónicas do Coração do Minho”; surgiram mais trinta e uma crónicas, até ao presente. Com esta, completa-se um total de noventa e uma crónicas, precisamente após completar quatro anos de participação.

A liberdade de abordagem das temáticas levou ao aparecimento de textos que seriam integrados nas categorias “Ambiente e Natureza”, “Desporto”, Ciência e Tecnologia”, “Filosofia”, “Lifestyle”… mas, tendencialmente, “Cidadania e Sociedade”. Sabe-se que o cronista inspira-se, naturalmente, em acontecimentos do dia a dia. Muitas vezes, senti necessidade de efetuar trabalhos de pesquisa para sustentar, realisticamente, o que fundamentava, sem pretender torná-los em artigos de opinião. Por diversas vezes, abordei conteúdos polémicos, de modo a fomentar discussão e despertar consciências adormecidas. Mostrei a minha faceta irreverente, a par da vontade de passar mensagens, deixando ao leitor a capacidade e liberdade para as assimilar ou rejeitar.

Acredito que a democracia só faz sentido e se consolida com a intervenção cívica dos cidadãos, e que essa intervenção será tanto mais eficaz quanto mais conscientes estiverem da realidade que os cerca. Na BIRD Magazine colaboram, regularmente, várias dezenas de cronistas, em vários domínios, e sei que estes dão um importante contributo para um aumento dessa tomada de consciência. Senti-me honrado em fazer parte desta equipa. Contudo, há novos desafios que se colocam, a requerer novas estratégias. Sabe-se que há o “nascer, crescer, envelhecer e morrer”. Mas sabe-se também que a alegria de viver pode prolongar a existência. Mesmo após a morte pode haver o renascer, com experiências acumuladas, que conduzam a novos patamares de progresso. Simplesmente: é preciso acreditar! Cessou a minha participação nesta revista online, sem dramas. Se há necessidade de mudança, o princípio de um novo ano é sempre um incentivo.

© Jorge Nuno (2019)

11/12/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (30) - Avanços e Recuos


AVANÇOS E RECUOS

Sentia-se ultrapassada a questão do repúdio das touradas, que paulatinamente ia entrando no esquecimento, após: alguns “olés” numa das caricatas sessões da AR[1]; estranheza na divisão dos deputados do PS[2], com liberdade de voto quanto ao IVA[3] nas touradas e que levou a que 40 deputados votassem contra a proposta do seu partido para reduzir o IVA e 43 deputados a favor; o primeiro-ministro ter afirmado que não era favorável a que a RTP[4] transmitisse este tipo de espetáculos… Para surpresa dos mais atentos, resolveu a própria RTP passar uma reportagem, intitulada “Outras Histórias”, que abordava a vida de Ricardo Chibanga – o primeiro toureiro africano, de Moçambique, e único negro da tauromaquia mundial –. Afinal, parece que: o IVA das touradas são “trocos”; a transmissão desta reportagem não suscitou reações e surge até como o reconhecimento do mérito e uma homenagem a este homem famoso, que dedicou a sua vida à arte tauromáquica; quer se goste ou não de touradas, elas vão continuar por mais uns tempos e, estranhamente, com IVA mais baixo.

Tal como no surf, se o mar está flat[5], é preciso estar atento, saber esperar e procurar apanhar a melhor onda; eis que aparece a aquela que aparenta ser a onda certa que leva Portugal a viver novos momentos de glória.

Portugal foi novamente considerado o melhor destino turístico do mundo; Lisboa a melhor cidade do mundo para se visitar; registaram-se mais prémios para a ilha da Madeira, para Sintra e passadiços do Paiva, além de outros onze prémios de turismo, que dão notoriedade ao país e faz aumentar o fluxo de turistas, criando riqueza. Mas também deixam “pegadas” turísticas, situações de pré-rutura nos aeroportos, agitação no mercado hoteleiro e de habitação local, riscos de bolha imobiliária, devido à especulação, e subida exponencial dos preços para as populações locais.

O secretário de Estado adjunto e das Finanças afirmou que o governo de Portugal irá fazer o pagamento antecipado do que resta da dívida pública ao FMI[6], alegando que esta estratégia já permitiu ao país uma poupança de 1400 milhões de euros, em três anos, em juros de dívida pública. As agências de notação financeira Fitch e Standard&Poor colocaram Portugal no grau de “investimento”, já fora dos patamares de lixo, trazendo mais confiança aos mercados, o que faz descer os juros da dívida pública. Uma dívida pública que atingiu novo recorde em outubro de 2018, estando ligeiramente acima dos 251 mil milhões com a emissão dos títulos de dívida nesse mês, agravado com novo leilão de 1.250 milhões de euros, em novembro, com a emissão de obrigações para pagar ao FMI. O ministro da Finanças, vem desdramatizar, dizendo que este agravamento será anulado no final do presente ano, com a amortização total da dívida ao FMI e, como não podia deixar de ser, mostra confiança no rumo certo, com a economia portuguesa a crescer, mesmo que o Banco de Portugal indique haver uma desaceleração.

Apesar da generosidade dos promotores, dois eventos recentes mostram que algo está mal, mesmo que se diga haver avanços significativos em vários aspetos da economia deste país. Trata-se de um espetáculo solidário no Coliseu do Porto, a favor do IPO[7] do Porto e a campanha de recolha de alimentos pelo Banco Alimentar. O primeiro, dá continuidade à iniciativa do Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés; o segundo, vê aumentado, a cada ano, o número de voluntários e de bens recolhidos. Dados estatísticos do segundo trimestre de 2018 apontam Portugal como o quarto país da União Europeia onde os salários menos subiram. Há quem tenha o desplante de afirmar que isto dá a Portugal uma vantagem competitiva [à custa de salários baixos, claro!]. Qualquer instituto público com a importância do IPO tem de ser governado com dinheiros públicos oriundos do OE[8] e não de coletas. Recolher mais de 2.000 toneladas de alimentos doados, apenas num fim de semana, é obra! Ter a presença dos presidentes da república de Portugal e de Cabo Verde, também! Para o sucesso foi importante a participação cívica de mais de 40.000 voluntários e a generosidade dos doadores. Estes bens destinam-se a 400 mil pessoas carenciadas, apoiadas por 2.600 IPSS[9]. Um relatório recente aponta que 43% destas instituições dão prejuízo. As dificuldades por que passa uma parte significativa da população são uma realidade, e a fome também. Por alguma razão se agudiza a luta dos trabalhadores de várias áreas socioprofissionais.

Para quando a elaboração de estratégias exequíveis de erradicação da pobreza, mesmo que a médio prazo? Quando veremos uma significativa franja da população ativa a contribuir para a criação da riqueza, sem necessidade de donativos de géneros alimentícios, ao ter a possibilidade de exercer uma atividade remunerada e justa?

© Jorge Nuno (2018)

 


[1] Assembleia da República
[2] Partido Socialista
[3] Imposto sobre o Valor Acrescentado
[4] Rádio e Televisão de Portugal
[5] Sem ondas
[6] Fundo Monetário Internacional
[7] Instituto Português de Oncologia
[8] Orçamento de Estado
[9] Instituições Particulares de Solidariedade Social

24/11/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (29) - Visionários, Milhões, Sanitas e Notícias Falsas


VISIONÁRIOS, MILHÕES, SANITAS E NOTÍCIAS FALSAS

Têm surgido, cada vez com mais frequência, investigadores e investidores visionários e arrojados, a conseguir feitos extraordinários, envolvendo, inevitavelmente, muitos milhões. Para corroborar o que se afirma, aqui ficam três casos surpreendentes, noticiados recentemente.

1 - «Implante no cérebro permitiu usar tablets com o pensamento[1]». Dá-se conta de um teste, bem-sucedido, com três voluntários tetraplégicos, que se deixaram submeter ao implante de um chip – «um pequeno sensor [do tamanho de um comprimido], instalado na parte córtex responsável pelo movimento». Estes voluntários «conseguiram usar programas num tablet para mandar correio eletrónico, trocar mensagens num chat, ouvir música e usar aplicações de partilha de vídeos (…). Navegaram na Internet, fizeram compras online, contactaram família, amigos, trocaram mensagens entre si e com a equipa de investigadores de várias instituições norte-americanas, como as universidades de Stanford e Brown». É referido no artigo que «a tecnologia Braingate deteta sinais associados com movimentos registados no córtex motor, descodifica-os e envia-os para dispositivos externos»; assim, é possível «mover o cursor e selecionar um ícone 22 vezes por minuto numa série de aplicações». Nasce a esperança de melhor qualidade de vida para pessoas tetraplégicas ou que sofram de esclerose lateral amiotrófica.

2 – Os parlamentares europeus, com o apoio de técnicos especializados, andaram uma enormidade de tempo para harmonizar as normas europeias relativas às sanitas nos estados-membros. Tê-lo-ão conseguido, com a referência e título da norma: EN 997:2012 «Sanitas independentes e conjuntos de sanitas e cisternas com sifão incorporado». A entrada em vigor deu-se em 1.12.2012. Passados seis anos, não é preciso ser-se muito viajado para nos apercebermos da disparidade de sanitas existentes, dos elevados consumos de água na descarga, a revelar pouca eficiência e, em muitos casos, inexistência de redes ou de falta de tratamento de esgotos. O visionário e filantropo Bill Gates – o fundador da Microsoft – foi mais longe, investindo mais de 200 milhões de dólares em sete anos de trabalho de investigação nesta área, através da Fundação Bill e Melinda Gates – que tanto tem contribuído para o desenvolvimento humano –. A notícia é dada do seguinte modo: «Bill Gates apresentou o futuro da sanita[2]», sabendo-se que «2,3 mil milhões de pessoas em todo o mundo ainda não tem acesso a saneamento básico[3]». Recentemente, Bill Gates esteve num evento, em Pequim, precisamente sobre saneamento; terá levado consigo um frasco com fezes humanas, para sensibilizar para esta problemática, e «apresentar 20 ideias para melhorar o saneamento em locais que não tem redes de esgotos». Naquele frasco, poderiam estar «quase 200 biliões de rotavírus, 20 mil milhões de bactérias e 100 mil ovos de larvas parasitárias», daí surgirem tantas doenças como a cólera, diarreia e outras. As vinte ideias apresentadas seriam «20 protótipos de produtos sanitários, pensados para destruir bactérias e outros organismos causadores de doenças», tendo chegado a uma sanita inovadora que «separa resíduos sólidos dos líquidos e dispensa a criação de uma rede de esgotos»; prevê-se que possam estar disponíveis em 2030. Até lá, continuarão a morrer – segundo ele – cerca de 500 mil pessoas por ano, devido a mau saneamento.

3 – «O homem mais rico em Portugal, conhecido como o ‘Rei da Indústria Alimentar’ devolve ao povo no seu último projeto[4]». Trata-se de Alexandre Soares dos Santos, o tal que foi acusado de: desviar a sede do grupo Jerónimo Martins para a Holanda, por haver ali uma menor tributação fiscal; promover campanhas sem IVA nos hipermercados Pingo Doce no dia 1.º de Maio, em vez de libertar os seus milhares de colaboradores neste dia do trabalhador; fazer comentários polémicos, mal aceite, apesar de estarmos numa democracia. A notícia que tem vindo a circular no site da CNN, assinado pela jornalista Kaya Yurieff, garante que «O dono do Pingo Doce investiu 100 milhões de euros em bitcoins» e continua: «Apesar da ingratidão e injustiças do governo em Portugal, Soares dos Santos prestou uma ajuda tremenda ao governo nas últimas décadas. As suas contribuições para a civilização portuguesa e assistência que prestou ao governo não tem paralelo nos últimos 20 anos e, com 93 anos, elaborou discretamente um plano para devolver o controlo financeiro ao povo português com um investimento de 100 milhões na sua última empresa Bitcoin Revolution. Este é o seu último desejo». Sugere-se a obtenção de lucros fáceis e acentuados, com um investimento mínimo de € 250, que pode render mais de € 1500 num curtíssimo espaço de tempo. No Polígrafo[5] surge o título: «Fake news sobre Alexandre Soares dos Santos anuncia investimentos que nunca existiu». A suposta autora «garante ao Polígrafo que nunca a escreveu». Confirma-se que a CNN não tem conteúdos em Português, que depois de clicar no seu site é remetido para Sundaynewsfeed, que «Soares dos Santos não investiu na dita empresa Bitcoin Revolution, nem tem qualquer ligação a essa entidade (…) que aparenta ser um esquema fraudulento. Toda a informação apresentada no artigo é falsa, servindo de chamariz para a promoção da Bitcoin Revolution e captação de eventuais investidores (…) e acabam por ser pedidos dados pessoais e bancários».

Estão a proliferar as fake news – ou notícias falsas – que, por não serem imediatamente desmascaradas, podem conduzir a situações fraudulentas, criar demasiado ruído em torno de determinado assunto, desviar a atenção de reais problemas, fazer extremar posições com aproveitamento político e até fazer mudar o sentido de voto em período eleitoral. Toda a atenção é pouca, pois são notícias em que as pessoas embarcam facilmente e discutem logo nas redes socias, influenciando-se mutuamente. Está ser muito frequente nas notícias sobre desporto. E então, quando se trata de dinheiro, quando a galinha é muito gorda… há que ter cuidado redobrado com as promessas de lucro fácil.
© Jorge Nuno (2018)


[1] Título do artigo do DN/Lusa, 21.11. 2018
[2] Título do artigo do Jornal Público, 6.11.2018, assinado por Inês Chaíça
[3] Dados da OMS – Organização Mundial de Saúde
[4] In CNN, pela jornalista Kaya Urieff, em 18.09.2018 
[5] Considera-se o primeiro jornal português de Fact Cheking

10/11/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (28) - Dá que Pensar...


DÁ QUE PENSAR…

A UM[1] tem, sob a égide da AAUM[2], 20 grupos culturais e todos com intensa atividade ao longo do ano, apesar da cíclica rotatividade dos estudantes nas universidade. Para que se fique com uma ideia, aqui ficam os grupos culturais conhecidos (quase todos acrescidos da designação UM): Afonsina – Tuna de Engenharia; ARCUM – Associação Recreativa e Cultural; Augustuna – Tuna Académica; Azeituna – Tuna de Ciências; Bomboémia – Grupo de Percussão; CAUM – Coro Académico; Gatuna – Tuna Feminina; GFados UM – Grupo de Fados e Serenatas; GFUM – Grupo Folclórico; GPUM – Grupo de Poesia; GMP – Grupo de Música Popular; iPum – Percussão Universitária; Jogralhos – Grupo de Jograis; Literatuna – Tuna de Letras; OPUM DEI – Ordem Profética; TUM – Teatro Universitário; TMUM – Tuna de Medicina; TUM – Tuna Universitária; Tun’ao Minho – Tuna Académica Feminina; Tun’Obebes – Tuna Feminina de Engenharia.    
Estes jovens, com a habitual irreverência (e algumas picardias), mas com um entusiasmo contagiante e sã convivência, criam e perpetuam eventos, conseguindo feitos notáveis no âmbito cultural, certamente com parcos recursos; passam a dispor de mais ferramentas para singrar no mundo do trabalho – casos do desenvolvimento da iniciativa própria, da capacidade de comunicação em público e da capacidade de liderança – e projetam uma imagem positiva da universidade que os acolhe, e com esta mantêm uma forte ligação, mesmo tendo passado vinte ou mais anos.

Foi noticiado pelo DN[3]: «PSP[4] já tem 16 sindicatos e 36 mil dias de folga para os dirigentes. São os próprios sindicatos a dizer que é “uma vergonha” o que se passa na polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios. Há um “Vertical”, outro “Independente”, outro “Autónomo”, outro “Livre” e até um dos “Polícias do Porto”. Já resta pouca imaginação para dar nomes a tantos sindicatos da PSP, que atingiu número recorde, inigualável noutro setor, de 16. O mais recente – Organização Sindical dos Polícias – nasceu em fevereiro [de 2018] e conta com 459 dirigentes e delegados sindicais para 451 associados».
A primeira tentativa para alterar a lei do regime sindical da PSP, deveu-se à ex-ministra Constança Urbano de Sousa, que tutelava a instituição e que tinha de reunir com 16 sindicatos para negociar as carreiras e condições de trabalho. Com oposição de três partidos no Parlamento [PCP, BE e CDS], o projeto de lei acabou na gaveta, numa ocasião em que se considerou estar-se perante a aplicação da lei da rolha aos dirigentes, silenciando-os quanto à denúncia das condições de trabalho. É reconhecido que esta é uma profissão de risco e que os agentes, por exemplo, em perseguição ou confronto com criminosos, caso danifiquem a farda ou a viatura em que seguem, continuam a ter de pagar os estragos do seu bolso.

Quase o mesmo número de organizações culturais de estudantes numa só universidade e das organizações sindicais de polícia a nível nacional, e dá que pensar… Como é que a atividade cultural dos jovens é visível e dá frutos, praticamente sem custos para os contribuintes, e as dos representantes dos respeitáveis agentes da autoridade nem sequer conseguem resolver o problema de uma farda rota em serviço, e são um sorvedouro de recursos humanos e financeiros, sem que algo seja feito para corrigir esta situação.

O JN[5] refere ter consultado, em 2016, a lista disponível com as subvenções políticas vitalícias. Tratou-se do ano em que o Tribunal Constitucional repôs subvenções a ex-políticos e ex-juízes desse mesmo tribunal, após pedido de fiscalização, por parte de 30 deputados do PS e PSD, do diploma de governo de José Sócrates que suprimia essas subvenções [2005] e do governo de Passos Coelho que proibia a «acumulação com salários do setor público e cria teto para acumulação do setor privado [2013]». Dá-nos a conhecer que em 2017 havia 318 pessoas a receber as chamadas “pensões douradas”, à custa do Orçamento do Estado, ou seja, dinheiro dos contribuintes. Na mesma página, pode ler-se: «Governo decidiu sozinho esconder lista de subvenções vitalícias (…) sem pedir parecer a ninguém (…). O Ministério da Segurança Social justificou-se com o novo regulamento da proteção de dados (…). A CNPD[6] apontou, ao JN, que a lista das subvenções políticas não conta com qualquer legislação que obrigue a sua publicitação, ao contrário do que acontece com as listas de devedores da Segurança Social e da Autoridade Tributária, que estão previstas em lei”. “Não há qualquer semelhança entre as listas”, explicou [a CNPD]».

Não deixa de ser curioso e dá que pensar… o parlamentar, não legisla sobre o que não lhe interessa [a ele próprio] e deixa o “buraco” para uma decisão arbitrária – sem ter de respeitar leis ou regras. Os juízes do Supremo, neste caso, deliberam sobre aquilo que lhes interessa particularmente e não sobre justiça social e verdadeiro interesse público.

Neste número do JN[7] também se pode ler: «Governo pede mais 886 milhões para bancos falidos[8]. (…) no OE[9]2018, o pedido de autorização de despesa (concedido pelo Parlamento na versão final do documento) subiu para 1017 milhões de euros, mas, até à data (como acontece todos os anos) não há informação sobre a evolução destes gastos na execução orçamental». Parece um poço sem fundo, pois no próximo OE serão canalizados «337,6 milhões de euros para três veículos do Banif; 548,2 milhões para três sociedades com os restos do BPN». Este último, foi nacionalizado em 2008, e a falência e resolução do Banif deu-se em 2015. Dá que pensar… quando o próprio ministro das finanças, no debate sobre o OE2019, refere um saldo orçamental nulo no caso dos três fundos do Banif, voam 886 milhões – dinheiro dos contribuintes – e ninguém parece saber quando acaba esta sangria.
© Jorge Nuno (2018)     



[1] Universidade do Minho
[2] Associação de Estudantes da UM
[3] Diário de Notícias online, de 4 de abril de 2018, com artigo assinado por Marcelina Valentina
[4] Polícia de Segurança Pública
[5] Jornal de Notícias, em 29 de outubro de 2018, p.9
[6] Comissão Nacional de Proteção de Dados
[7] Jornal de Notícias, em 29 de outubro de 2018, p.14
[8] Título referente ao Orçamento de Estado para 2019
[9] Orçamento de Estado para 2018

05/11/2018

Mar de Energia


MAR DE ENERGIA

Aqui, no meu espaço de realidade
criada em laboratório de vida,
sem querer ter poder sobre o meu íntimo
– tão só, usar o que daí advém –
saio de um ciclo padrão rotineiro
reescrevendo a forma de pensar.
Com muita sede de compreensão,
deixo fluir sentimentos ocultos,
vivo um conteúdo emocional forte.
Fundo, vejo o que preciso mudar.
Fora com aquelas cassetes velhas!...
Elimino o excesso de bagagem
que estava ancorado dentro de mim
e não dava conta do seu efeito.
Reparo… há máscaras a cair!
Sem julgamentos, deixo-me envolver
na teia dinâmica de energia
que brota de excelsa fonte invisível
e trespassa o fogo do coração.
Sinto que a realidade é alterada.
Sem filtros, há novo alento – o meu prana.
Tal como numa visão holográfica,
vejo-me fluir, em passos de dança,
e levitar neste mar de energia.

© Jorge Nuno (2018)

27/10/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (27) - Adeus Dinheiro!...


ADEUS DINHEIRO!…

«Quando a última árvore for cortada, o último rio envenenado e o último peixe pescado, então o homem percebeu que o dinheiro não se come» – frase atribuída a Gerónimo (1829-1909), chefe índio apache.

Esta frase, proveniente da sabedoria indígena, vem a propósito da estupidez humana, supostamente num mundo evoluído, mas que engloba crimes ambientais de consequências trágicas, além de outros crimes que geram cada vez mais desigualdades entre povos, conducentes à guerra, à fome e a migrações em massa, em várias partes do globo.

Segundo a Newsweek, o presidente norte-americano Donald Trump quer «aumentar para 716 mil milhões de dólares o orçamento da defesa», em 2019, representando um aumento de 7% face ao ano anterior. Em julho deste ano, exigiu em Bruxelas que os países da NATO[1] «aumentem os gastos com a defesa [de 2%] para 4% do PIB», reforçando que «os países europeus devem contribuir com mais [dinheiro]». Segundo o SIPRI[2], a China terá um orçamento de cerca de um terço e a Rússia cerca de oito vezes menos do que os gastos dos EUA com a defesa / manutenção das guerras. Com a recente ameaça de denúncia unilateral, pelos EUA, do acordo com a Rússia sobre o nuclear, feito entre Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev, está aberto caminho para a proliferação de armamento nuclear, para regozijo do lóbi da indústria de armamento norte-americana, e desassossego do mundo. Os EUA são livres de fazer novos acordos ou quebrar os existentes, como é o caso do comércio, e que envolve também a Europa. A propósito do comércio, o presidente Trump, em agosto de 2018, também ameaçou retirar os EUA da OMC[3], levando a um aumento de tensão com a China e junto de uma diversidade de países. E porque não falar em “guerra comercial”, em que todos perdem? Com o aumento das despesas militares, “voa” o dinheiro dos contribuintes. Com a desordem do comércio mundial, abre-se caminho à queda do sistema capitalista. A banca, que tem vindo a dar sinais negativos, tem feito “voar” muito dinheiro dos contribuintes e depositantes.

Diana Cooper, no seu livro “2032 – A Nova Idade de Ouro”, escreveu: «Diz-se que as culturas têm os líderes que merecem. A Lei da Atração postula que atraímos os reflexos do nosso ser interior. A humanidade tridimensional vota em líderes de baixa qualidade. Durante séculos tivemos a denominação masculina. Do ponto de vista negativo, os homens exibem características como: controlo, lógica desprovida de sentimento, autoritarismo, separação e curto prazo. (…) os trabalhadores (…) começam a esperar que os seus líderes demonstrem mais fibra moral e mais honestidade. Este raio está a dissolver o velho paradigma masculino e a tocar a consciência das pessoas com o novo. O poder está, realmente, nas mãos da população. No mundo tridimensional demo-lo aos políticos e às grandes empresas. Para entrar no novo temos de o exigir de volta». É neste livro que se pode ler que o dinheiro irá mesmo desaparecer! Os leitores foram sossegados, ao afirmar que as pessoas serão capazes de encontrar caminhos alternativos.

Em julho deste ano, escrevi a crónica “Evolução – Entre Cemitérios e Corridas”. Nela referi a Suécia, por ter criado o maior cemitério de viaturas automóveis do mundo, originando um impacto ambiental negativo com este abandono de viaturas, ao adotar o que era comum na Europa – viaturas com o volante do lado esquerdo. Recentemente, a marca sueca Volvo anunciou que, a partir de 2019, só vai produzir automóveis com motores elétricos, mostrando estar numa onda positiva, favorável ao ambiente. E é precisamente da Suécia que vem a notícia que este será o primeiro país do mundo a abolir o dinheiro de papel. O Banco Central da Suécia refere mesmo a data de 2030. Tudo isto vem favorecer a atuação da Agência Nacional Anticorrupção e da Autoridade Sueca para Crimes Financeiros, que se situam fisicamente muito próximo, fiscalizam e atuam com firmeza. Gunnar Stetler, responsável pelo funcionamento da primeira instituição, afirmou numa entrevista à jornalista Claudia Wakkin, autora do livro “Um País Sem Excelências e Mordomias”, que só se registaram dois casos de corrupção desde os anos setenta (século passado), envolvendo deputados e membros do governo. Quanto a outros setores, em 75% dos casos investigados verifica-se condenação. Refere ainda que o que mantém a Suécia no topo dos países menos corruptos é a «transparência dos atos de poder, o alto grau de instrução da população e igualdade social».

Em Portugal, ao ter ficado escandalizado com a atuação do meu banco – três vezes no espaço de um ano, abusou na subida de comissões bancárias – cancelei a conta e mudei-me para outro banco, de atendimento personalizado, que não tem tesouraria, logo, não movimenta dinheiro físico!

Vejamos outra realidade, caricaturada por Chico Buarque de Holanda, cantor e compositor brasileiro, um homem de grande coerência poética e enorme consciência política. Tem algumas peças musicais que falam de dinheiro, claro, como crítica social. Uma dessas canções intitulou-a “Dinheiro em Penca”, é pouco conhecida em Portugal e tem uma extensa letra, como é seu hábito; a dado passo, pode-se ouvir-se/ler-se: “(…) Meu padrinho quando moço / Era muito fazendeiro / Tirou ouro do sertão / Foi gastar no estrangeiro / O dinheiro da boiada / Transferiu pro estrangeiro / (…) Eu também já tive um tio / Que virou velho gaiteiro / Que gostava de mulher / Como eu gosto de dinheiro / Era louco por mulher / Eu me amarro no dinheiro / Fui mascate no sertão / Caminhei o norte inteiro / Vendi grampo a prestação / Guarda-chuva em fevereiro / Até hoje estou esperando / A remessa do dinheiro (…) / Uma vez em Nova York / Liguei pro meu feiticeiro / Que atendeu o telefone / Lá no Rio de Janeiro / Eu então falei pra ele / Procurar meu macumbeiro / Pra avisar pro pai-de-santo / Pra arranjar algum dinheiro / Pra pedir pro delegado / Pra soltar meu curandeiro / Ao doutor seu delegado / pra soltar meu curandeiro / Mas o tal telefone / Lá se foi o meu dinheiro (…)”. Pelo teor da letra, literalmente, disse adeus ao dinheiro. Mas se o Chico esperasse mais uns anitos para compor esta canção, ela deixaria de fazer sentido, já que, ao que tudo indica, o dinheiro deixará mesmo de circular.

© Jorge Nuno (2018)  



[1] Organização do Tratado do Atlântico Norte.
[2] Stockolm International Peace Research Institute – que realiza pesquisas sobre conflitos, tendo em vista a paz e segurança internacional.
[3] Organização Mundial do Comércio.

13/10/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (26) - Lá Vai Uma, Lá Vão Duas...


LÁ VAI UMA, LÁ VÃO DUAS…

“Lá vai uma, lá vão duas…/ e as palavras a pousar / podem ser nuas e cruas / opiniões a voar”, podia começar assim a nova versão da letra [feita por mim] de uma conhecida canção infantil, mas já lá vamos! Prometi voltar com mais cantigas, e cá estou. Começo com uma que teve muito sucesso, que se chama “O mar enrola na areia” e diz assim:
«(…)Também o mar é casado, ai, / também o mar tem mulher /
é casado com a areia / bate nela quando quer.»
Com novas sensibilidades à flor da pele, num mundo que se quer sem violência – mas que está pejado dele –, por deixar transparecer intenções subjacentes, esta letra inicial já foi objeto de transformações, passando o último verso para: «pode vê-la quando quer» ou «dá-lhe beijos quando quer». Reconheçamos: fica mais suave e é politicamente correto.

Também há motivos fortes para se abordar algumas eternas canções infantis, com lengalengas divertidas para memorizar, brincar e serem usadas como dança de roda. Assim se cantava, com a alegria e inocência natural de criança: “Sebastião come tudo!”; “A criada lá de cima”; “Lá vai uma, lá vão duas”; “Atirei o pau ao gato”; “A Barata diz que tem”; “Olha a bola Manel”, entre muitas outras.

Comecemos com “Sebastião come tudo!” e prestemos atenção à letra [para nos situarmos na época, tem partitura original datada de 1943, em plena ditadura do Estado Novo]:
«Sebastião come tudo, tudo, tudo / Sebastião come tudo sem colher
Sebastião fica todo barrigudo / E depois dá pancada na mulher».
Outra vez a falar-se em bater na mulher? Ensina-se estas coisas às criancinhas, e ainda por cima a cantar, e depois espera-se que em adultos tenham comportamentos diferentes! Mais uma vez, houve quem alterasse o último verso para «dá-lhe nela quando quer» – assim já não se fala em pancada, e fica mais soft – ou «e por fim dá beijinhos na mulher» – beijinhos, sim, pois claro! Mas se o menino no infantário come tudo, tudo, tudo… e depois anda a dar muitos beijinhos na maior amiga, que também usa fralda, está o caldo entornado e a colher não serve para nada –.

Façamos agora “dois em um” com as canções “Lá vai uma, lá vão duas” e “Atirei o pau ao gato”:
«Lá vai uma, lá vão duas / três pombinhas a voar /
uma é minha, outra é tua / outra é de quem a apanhar»
(…)
«Atirei o pau ao gato / mas o gato não morreu /
Dona Chica assustou-se / com o berro / com o berro que o gato deu.
Miau!»
O PAN[1] vai ter um trabalho enorme para forçar a mudança de mentalidades, quanto à forma de encarar os animais, por serem gerações atrás de gerações, enquanto crianças, a correr atrás das pombas para as apanhar – e logo um símbolo da paz! – e a atirar paus a gatos, acabando por assustar as muitas Donas Chicas e os próprios gatos. Já conseguiu algo com a recente abolição da atividade desportiva do tiro ao pombo! Quanto a esta última canção, já se cantam os dois primeiros versos do seguinte modo: «Atirei o peixe ao gato / Mas o gato não comeu (…)». Se fosse o gato vadio que rondava a casa da minha avó, até lhe roubava o peixe que tinha destinado para o almoço da família. Agora, por comodismo, força-se o hábito alimentar dos gatos, com latinhas de húmidos gourmet, e dá nisto!

 Vejamos outro mau exemplo para as meninas, em “A criada lá de cima”:  
«A criada lá de cima / é feita de papelão…/
quando vai fazer a cama / diz assim para o patrão: /
sete e sete, são catorze / com mais sete vinte e um /
tenho sete namorados / e não gosto de nenhum».
Numa sociedade que promove a monogamia, ao ver-se que as meninas começam cedo a interiorizar a ideia de ter sete namorados, não é de estranhar que sejam atiradiças; e esta até parece querer atirar-se ao patrão, enquanto faz a cama. É preciso o homem ser firme, para não se ver envolvido num assédio sexual distorcido, ou até mesmo num processo judicial por violação de menores, se for o caso. Como não acho jeito ao verso: «é feita de papelão…», experimentemos corrigir para: «é enorme furacão»; «está em grande solidão»; «aumenta seu ganha-pão» ou «precisa de um chapadão». Pensando bem, creio que «precisa de um chapadão» seria a versão original e foi corrigida para «é feita de papelão…», quem sabe… pelo Diácono Remédios[2].

Aqui está uma cantiga que deve ter sida cantada muito pelos Relvas deste país, quando miúdos:
«A Barata diz que tem um anel de formatura
é mentira da Barata, ela tem é casca dura
ah ra ra, iu ru ru, ela tem a casca dura (…)»
Começa-se cedo a mentir e com a mania das grandezas, e quando estas criaturas chegam à política é o que se vê, com cabeças duras em cargos de responsabilidade.

A verdade é que tem vindo a crescer um movimento preocupante para impor certos conceitos, em grande parte baseados em estereótipos sociais e… preconceitos[3], em que muitas vezes se julga o livro pela capa, levando-se a cometer excessos.

Ainda bem que não foi adulterada a canção que tanto se trauteava e que diz:
«Olha a bola, Manel / olha a bola, Manel (…)
O Manel tinha uma bola / mas agora não tem não /
e a gente a ver se o consola / vai cantar esta canção (…)»
Se eu o quisesse fazer, deixaria uma minha versão adaptada ao craque da bola, que há anos tem sido o melhor do mundo, e neste um “annus horribilis”[4]:
“CR queria a bola / mas agora não tem não /
e a gente a ver se o consola / vai cantar esta canção (…)».
Pior seria a adaptação para um anúncio solidário, de apoio a homens que sofreram uma orquiectomia[5]. Mas nunca se sabe!

Creio que ninguém ousou mexer na letra de “Os vampiros”, da autoria do Zeca Afonso, conhecida como “Eles comem tudo”. Seria imperdoável violar algo que serviu de «combate cultural e cívico em tempo de censura e símbolo da resistência contra o fascismo». Senão vejamos:
« (…) No chão do medo tombaram os vencidos
ouvem-se os gritos na noite abafada
jazem nos fossos vítimas dum credo
e não se esgota o sangue da manada.
Se alguém se engana com seu ar sisudo
e lhes franqueia as portas à chegada
eles comem tudo, eles comem tudo
eles comem tudo e não deixam nada».
Mesmo sabendo que os Sebastiões barrigudos e os inúmeros vampiros continuam a ser grandes comilões, não há necessidade de dar pancada na mulher, até porque ela pode combinar com o amante e matar o marido. Decididamente, não altero a letra do “Lá vai uma, lá vão duas…”; mas que é um exercício tentador para agitar a malta, é!

© Jorge Nuno (2018)




[1] Partido dos Animais e da Natureza
[2] Personagem criada pelo humorista Herman José
[3] Como avaliação negativa em relação ao grupo; confuso, não é?
[4] Por não conseguir, em 2018, os troféus de jogador do ano UEFA e melhor jogador da FIFA, além de outros casos mediáticos que prejudicam a sua imagem, do clube que representa e dos patrocinadores.
[5] Remoção cirúrgica de testículos