07/06/2019

Poesia aldravista 1

Poesia Aldravista

(para quem desconhece, trata.se de poesia sintética, que  procura dizer muito em poucas palavras, sendo corrente utilizar-se seis palavras).
Foto de Jorge Nuno, no porto de pesca da Póvoa de Varzim.




06/06/2019

Poderá Ser Saudade...


PODERÁ SER SAUDADE… *

Após uma mudança radical, impensável há cerca de três anos atrás, vejo-me numa caminhada diferente da que sonhei em abril de 2004 e que reproduzo. Tratava-se de uma caminhada a pé, muito morosa, cansativa, embora fosse apreciando esta aventura, cheia de peripécias rocambolescas. Ficava a sensação de saber qual o destino, mas sem ter presente o nome da localidade, o que se poderia tornar confuso para um qualquer incauto viajante. Acordado, sempre tive presente o provérbio do povo berbere:
Se não sabes para onde queres ir, vais demorar muito tempo a lá chegar.
Neste caso, a sonhar, mesmo sem smartphone, dados móveis e GPS, acreditava ir no caminho certo. Não posso afirmar que se tratava de algo semelhante a um peregrino que se dirigia a Santiago de Compostela mas, se o fosse, não havia itinerário original do caminho português de Santiago, com as habituais sinaléticas da concha amarela. Cada vez mais se consolidava a ideia de haver um desígnio superior nesta viagem. Finalmente, vejo-me chegar a uma povoação que não identifiquei de imediato, por haver terrenos barrentos remexidos, como quem anda a fazer terraplanagens e a abrir uma estrada mais larga do que o habitual. Estremeci quando o meu olhar alcançou, ao longe, por cima de arvoredo, algo que conhecia bem: o castelo e o monte de São Bartolomeu. Tinha chegado a Bragança, pela entrada do Portelo e encontrava-me na zona da Quinta da Braguinha. Senti uma alegria imensa por estar numa cidade de onde não queria sair há três décadas, mas que outros condicionalismos acabaram por me empurrar para a capital do país. Quando acordei, anotei o sonho e tentei decifrá-lo. Tudo se precipitou e quatro meses depois fazia um contrato de promessa de compra-venda para a minha nova residência, em construção na zona da… Braguinha. Quando fiquei aí instalado, perpetuei, em 2006, o referido sonho, executando a obra de pintura a óleo “Névoa sobre Bragança”, que tem um significado especial para mim.

À presente data, a viver noutra cidade, após um upgrade ao meu computador pessoal, personalizei o fundo do ambiente de trabalho, utilizando uma foto tirada por mim em 2016, com uma vista parcial de Bragança. A partir do monte de São Bartolomeu podia ver-se, ao longe as serranias de Espanha e do Parque Natural de Montezinho e, na cidade, com algum realce: as zonas do Campo Redondo e da Mãe d’Água; os novos bairros do Sol e da Rica Fé; o antigo Liceu (agora requalificado); as torres de iluminação do estádio municipal; os edifícios da autarquia; a nova catedral; o centro histórico; a torre da antiga sé; o castelo; e distinguia, perfeitamente, a minha anterior residência. A “minha” residência!… Fiquei por longo tempo a olhar para esta “nova” imagem no monitor. Surgiu um turbilhão de ideias, estranhamente com tendência para o nostálgico, esboçando uns sorrisos quando entrecortava com a lembrança de algumas loucuras ou casos insólitos. Este “estranhamente” é porque não me considero saudosista; acredito que “para a frente é que é o caminho”, desbravando novos caminhos – como fiz toda a vida –. Mas, poderá chamar-se a isto saudade?

Ao fixar-me nos edifícios da autarquia, relembrei episódios ocorridos aí há 45 anos, onde estava instalado o Batalhão de Caçadores N.º 3, e a loucura e irreverência da juventude, com os militares mais ousados ou esclarecidos, a quebrar ou a contornar os protocolos do rigor militar, num camuflado desafio à autoridade, que tinham dificuldade em reconhecer ou aceitar.

Poucos meses depois do 25 de abril de 1974, em pleno verão, não sendo apreciador da monotonia de tarefas semelhantes à de amanuense, prontifiquei-me, voluntariamente, para ir com sapadores fazer rebentamento de explosivos. Fizemo-lo num dos morros desertos, apenas com vegetação rasteira, para os lados da aldeia de França, já muito próximo da fronteira com Espanha. Refletindo agora, não sei como se pode ter prazer em ouvir aqueles estrondos e ver uma imensidão de cascalho ser projetado em todas as direções. Igual prazer, foi ver, através de binóculos, os carabineiros que observavam a movimentação dos militares em território português, numa altura em que nuestros hermanos ainda não tinham resgatado a liberdade e a democracia, enquanto por cá essa sensação recente estava em alta. Já no inverno anterior, igualmente rigoroso ao de todos os anos na Terra Fria, relembro o espanto e a “patinagem” de jovens militares em exercícios militares, em pleno rio Sabor gelado, poucos quilómetros a norte da cidade. Estes, tentavam levianamente explorar e desafiar as leis da física, levando ao limite o esforço para quebrar aquela massa gelada, até descobrirem o desagradável sabor de um banho naquelas condições, perante as estridentes e contagiantes gargalhadas dos menos ousados. Pouco antes, já se tinha testado o trabalho em equipa, forçosamente e com sucesso, segurando e arrastando, com cordas, a primeira viatura militar em que seguia – uma viatura pesada Berliet – prestes a despenhar-se numa ravina sobranceira ao rio Sabor, antes de uma curva acentuada da N 103-7, cujo asfalto encontrava-se com gelo. Poderia ter sido fatal para mais de 30 militares mas, felizmente, acabou por não ser notícia.    

Repentinamente, vem-me à mente a pequena rua Dr. António Cagigal, contígua à rua Alexandre Herculano, recordando a venda de leite à porta, de manhã cedo, e logo fervido, acompanhado de trigo, comido ainda morno – sabor que, apesar dos tempos longínquos, ainda não se extinguiu totalmente do meu paladar. Na mesma rua, relembro o amigo Humberto da Silva Queiroz, um conhecidíssimo empresário alto-duriense radicado em Bragança, já falecido. Construiu, à época, a mais conceituada casa de pronto-a-vestir da cidade. Era um homem austero, por vezes irritante, particularmente quando se aproximava a hora de fechar o estabelecimento, ao fim do dia; pegava numa vassoura e, para espanto daqueles que não o conheciam assim tão bem, começava a varrer junto dos pés dos clientes; o seu silêncio e este gesto, era a forma pouco ou nada agradável que encontrava para dizer: “Amanhã é outro dia, venham com mais tempo!”. Vejo-o subir essa pequena rua íngreme, sozinho, pausadamente, sem pressa, com o seu “gasparinho” numa das mãos. Tratava-se do cofre com o dinheiro vivo das vendas diárias, numa altura em que nem se sonhava, sequer, na via eletrónica, tanto para transferências bancárias ou pagamentos automáticos com cartões de débito ou de crédito, ou sistema de compras e transferências imediatas com smartphone ou tablet, conhecido como “MB WAY”; também, numa altura em que as pessoas se sentiam em segurança na rua, na posse de bens de valor, sem necessidade de dissimular ou ir acompanhado de guarda-costas. Mas esta figura austera quebrou, completamente, num dia de aniversário. Adaptei a letra da canção “Y Viva España” – um pasodoble de grande sucesso em 1972 e anos seguintes – e escrevi à mão essa “nova” letra em várias folhas, que entreguei aos seus empregados. Ao fim daquele dia de trabalho, reuniu-se os empregados daquela casa, em combinação com a própria esposa – D. Mariazinha Queiroz –, uma doçura de senhora e a verdadeira “alma” daquele estabelecimento comercial, ficando um lugarzinho reservado para ela no meu coração, esteja onde estiver noutra dimensão. Quando o Queiroz surgiu à porta com o seu “gasparinho”, comecei a entoar a canção com o meu acordeão, logo seguido do coro improvisado. Surpreendido ao som de “E Viva o Queiroz!...” os seus olhos ficaram humedecidos. Tratou-se de um momento memorável, intimista, de fraterno convívio; seguramente, bem diferente dos que ele passava regularmente com os amigos, à noite, para beber os seus whiskeys ou outras bebidas, só ao alcance de alguns. 

Surgem em catadupa outras loucuras, como a de ir ver jogos de futebol no estádio municipal de Bragança, em apoio ao Clube Desportivo de Bragança, ao domingo e em pleno inverno, com temperaturas baixíssimas, algumas vezes negativas e, por vezes, com a crueldade do vento norte, quando a Sanábria se encontrava coberta de neve. Ninguém com luvas consegue ouvir-se a bater palmas, por muito merecidas que sejam, o que faz com que, só por isso, um evento desportivo deixe de fazer sentido. Afinal, a frieza do ambiente externo parecia contagiar e afetar os espetadores. Sobrepondo-se a tudo, ouvia-se com enorme destaque, isso sim, uma assídua e conhecida senhora da cidade, a gritar repetida e entusiasticamente das bancadas para o campo: “Força equiiiiipaaaaa!”. Isto, até chegar a altura em que o discurso, sempre a alta voz, se alterava. Perante um resultado desfavorável, uma simples falta não assinalada ou suposta evidência de dualidade de critérios pela “malandragem” da arbitragem, era vista com o intuito de prejudicar a equipa da casa, e surgia o grito de revolta: “Vocês são todos uns corruuuuuuptoooos!”. Tal, era recorrente e, uma das vezes, um amigo ao meu lado tocou-me no braço, olhei e disse-me: “Ela tem um filho árbitro!”. Esbocei um sorriso, voltei a olhar para o relvado. Mas sempre senti que aquela senhora fazia falta nas bancadas para empolgar os jogadores e a assistência, além de ela própria descarregar a tensão acumulada durante uma semana no seu emprego.

Já em tempos de telemóveis, revejo, num relâmpago, a minha queda nas escadas, cobertas de neve, da Escola Abade de Baçal e o voo do telemóvel a uma distância aparentemente impossível, tal o impulso involuntário. Não, não parti o telemóvel, como aborda a canção vencedora do Festival da Canção 2019, que faz parte da programação anual da RTP! Pode não parecer, mas esta estranha canção – com letra, música e interpretação do jovem Conan Osíris – também refere a “Saudade”, senão vejamos:
Eu parti o telemóvel / a tentar ligar para o céu / pa’ saber se eu mato a saudade / ou quem morre sou eu (…)
E se eu partir o telemóvel / eu só parto aquilo que é meu / tou para ver se a saudade morre / vai na volta, quem morre sou eu (…)
Eu partia telemóveis / mas eu nunca mais parto o meu / eu sei que a saudade tá morta /
quem a mandou a flecha fui eu.
Se um jovem sente necessidade de abordar a “Saudade” (mesmo com um português criticável pelos puristas da língua), por que não ser um sexagenário a fazê-lo, já que tem muitas outras vivências acumuladas?

Assim, no meu caso e numa abordagem pela “rama”, não sei se o que sinto se pode descrever como saudade e muito menos se ela está morta, pois temos tendência a negar evidências. Se saudade descreve sentimentos de perda, sim, tenho saudade dos familiares e amigos que já partiram; dos que deixei na cidade, há sempre a possibilidade de os ir revendo umas duas vezes por ano. É inegável que gosto de saborear as coisas boas, independentemente de quando ocorreram, e esta cidade traz-me boas recordações e um misto de emoções. Inclino-me mais para a canção “Pode Ser Saudade”, criada por Jorge Fernando:  
Venho aqui buscar a asas / dos sonhos de menino / neste chão e nestas casas / foi crescendo o meu destino. Depois, parti p’ra longe, sem saber / que aqui ficava muito do meu ser. Esta emoção de estar aqui / pode ser saudade… pode ser saudade (…).

Afinal, num trabalho mais profundo de introspeção, reconheço estar aqui muito do meu ser, pelo que a emoção que sinto pode ser saudade.

© Jorge Nuno (2019)


* Texto publicado em "Rostos de Terra", coletânea promovida e editada pela Academia de Letras de Trás-os-Montes, e apresentada em 24 de maio de 2019, durante o Festival Literário de Bragança.

19/01/2019

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (31) - Quatro Anos de Crónicas na BIRD Magazine


QUATRO ANOS DE CRÓNICAS NA BIRD MAGAZINE

Estávamos no final do ano de 2014 quando aceitei o desafio de escrever quinzenalmente para a BIRD Magazine. Foi-me dito que o poderia fazer de forma livre, sem temática específica, sem pressões. Iniciei essa tarefa no arranque de 2015, precisamente no dia 3 de janeiro, com a crónica “Sem Rosto e Sem Rasto”. Eu próprio fiquei surpreendido com a rapidez e facilidade com que a escrevi, mas, acima de tudo, com o seu tom irónico e um toque de humor, perante assuntos sérios – fórmula que fui repetindo, apesar da variação das temáticas abordadas –. Seguiu-se “Os Degraus da Felicidade”, “A Lucidez do Embriagado, “Leaks Há Muitos, Seu Palerma!”, “Aqui Há gato!”, “Não Há Coração que Aguente!”… Os títulos, que surgiam espontaneamente, pareciam apelativos e poderiam conduzir à leitura. Sentia prazer na escrita e, sem presunção, entendo que isso transparecia através da mesma. Sei que as pessoas, de uma forma geral, rejeitam ler textos extensos, mas esse entusiasmo pela escrita levava a “soltar-me”, para depois ter um esforço suplementar de síntese e não ultrapassar as duas páginas A4, quando é expectável que as crónicas tenham uma narração curta. Mesmo assim, as estatísticas das visitas às crónicas na BIRD Magazine – replicadas no meu blogue pessoal –, eram muito animadoras.

Rapidamente, entendi que as devia autointitular “Crónicas do Fim do Mundo”, embora sem essa designação na revista online; escrevi sessenta crónicas até junho de 2017, altura em que fiz uma mudança pessoal e radical. Daí em diante, e mantendo a determinação de escrever, autointitulei-as “Crónicas do Coração do Minho”; surgiram mais trinta e uma crónicas, até ao presente. Com esta, completa-se um total de noventa e uma crónicas, precisamente após completar quatro anos de participação.

A liberdade de abordagem das temáticas levou ao aparecimento de textos que seriam integrados nas categorias “Ambiente e Natureza”, “Desporto”, Ciência e Tecnologia”, “Filosofia”, “Lifestyle”… mas, tendencialmente, “Cidadania e Sociedade”. Sabe-se que o cronista inspira-se, naturalmente, em acontecimentos do dia a dia. Muitas vezes, senti necessidade de efetuar trabalhos de pesquisa para sustentar, realisticamente, o que fundamentava, sem pretender torná-los em artigos de opinião. Por diversas vezes, abordei conteúdos polémicos, de modo a fomentar discussão e despertar consciências adormecidas. Mostrei a minha faceta irreverente, a par da vontade de passar mensagens, deixando ao leitor a capacidade e liberdade para as assimilar ou rejeitar.

Acredito que a democracia só faz sentido e se consolida com a intervenção cívica dos cidadãos, e que essa intervenção será tanto mais eficaz quanto mais conscientes estiverem da realidade que os cerca. Na BIRD Magazine colaboram, regularmente, várias dezenas de cronistas, em vários domínios, e sei que estes dão um importante contributo para um aumento dessa tomada de consciência. Senti-me honrado em fazer parte desta equipa. Contudo, há novos desafios que se colocam, a requerer novas estratégias. Sabe-se que há o “nascer, crescer, envelhecer e morrer”. Mas sabe-se também que a alegria de viver pode prolongar a existência. Mesmo após a morte pode haver o renascer, com experiências acumuladas, que conduzam a novos patamares de progresso. Simplesmente: é preciso acreditar! Cessou a minha participação nesta revista online, sem dramas. Se há necessidade de mudança, o princípio de um novo ano é sempre um incentivo.

© Jorge Nuno (2019)

11/12/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (30) - Avanços e Recuos


AVANÇOS E RECUOS

Sentia-se ultrapassada a questão do repúdio das touradas, que paulatinamente ia entrando no esquecimento, após: alguns “olés” numa das caricatas sessões da AR[1]; estranheza na divisão dos deputados do PS[2], com liberdade de voto quanto ao IVA[3] nas touradas e que levou a que 40 deputados votassem contra a proposta do seu partido para reduzir o IVA e 43 deputados a favor; o primeiro-ministro ter afirmado que não era favorável a que a RTP[4] transmitisse este tipo de espetáculos… Para surpresa dos mais atentos, resolveu a própria RTP passar uma reportagem, intitulada “Outras Histórias”, que abordava a vida de Ricardo Chibanga – o primeiro toureiro africano, de Moçambique, e único negro da tauromaquia mundial –. Afinal, parece que: o IVA das touradas são “trocos”; a transmissão desta reportagem não suscitou reações e surge até como o reconhecimento do mérito e uma homenagem a este homem famoso, que dedicou a sua vida à arte tauromáquica; quer se goste ou não de touradas, elas vão continuar por mais uns tempos e, estranhamente, com IVA mais baixo.

Tal como no surf, se o mar está flat[5], é preciso estar atento, saber esperar e procurar apanhar a melhor onda; eis que aparece a aquela que aparenta ser a onda certa que leva Portugal a viver novos momentos de glória.

Portugal foi novamente considerado o melhor destino turístico do mundo; Lisboa a melhor cidade do mundo para se visitar; registaram-se mais prémios para a ilha da Madeira, para Sintra e passadiços do Paiva, além de outros onze prémios de turismo, que dão notoriedade ao país e faz aumentar o fluxo de turistas, criando riqueza. Mas também deixam “pegadas” turísticas, situações de pré-rutura nos aeroportos, agitação no mercado hoteleiro e de habitação local, riscos de bolha imobiliária, devido à especulação, e subida exponencial dos preços para as populações locais.

O secretário de Estado adjunto e das Finanças afirmou que o governo de Portugal irá fazer o pagamento antecipado do que resta da dívida pública ao FMI[6], alegando que esta estratégia já permitiu ao país uma poupança de 1400 milhões de euros, em três anos, em juros de dívida pública. As agências de notação financeira Fitch e Standard&Poor colocaram Portugal no grau de “investimento”, já fora dos patamares de lixo, trazendo mais confiança aos mercados, o que faz descer os juros da dívida pública. Uma dívida pública que atingiu novo recorde em outubro de 2018, estando ligeiramente acima dos 251 mil milhões com a emissão dos títulos de dívida nesse mês, agravado com novo leilão de 1.250 milhões de euros, em novembro, com a emissão de obrigações para pagar ao FMI. O ministro da Finanças, vem desdramatizar, dizendo que este agravamento será anulado no final do presente ano, com a amortização total da dívida ao FMI e, como não podia deixar de ser, mostra confiança no rumo certo, com a economia portuguesa a crescer, mesmo que o Banco de Portugal indique haver uma desaceleração.

Apesar da generosidade dos promotores, dois eventos recentes mostram que algo está mal, mesmo que se diga haver avanços significativos em vários aspetos da economia deste país. Trata-se de um espetáculo solidário no Coliseu do Porto, a favor do IPO[7] do Porto e a campanha de recolha de alimentos pelo Banco Alimentar. O primeiro, dá continuidade à iniciativa do Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés; o segundo, vê aumentado, a cada ano, o número de voluntários e de bens recolhidos. Dados estatísticos do segundo trimestre de 2018 apontam Portugal como o quarto país da União Europeia onde os salários menos subiram. Há quem tenha o desplante de afirmar que isto dá a Portugal uma vantagem competitiva [à custa de salários baixos, claro!]. Qualquer instituto público com a importância do IPO tem de ser governado com dinheiros públicos oriundos do OE[8] e não de coletas. Recolher mais de 2.000 toneladas de alimentos doados, apenas num fim de semana, é obra! Ter a presença dos presidentes da república de Portugal e de Cabo Verde, também! Para o sucesso foi importante a participação cívica de mais de 40.000 voluntários e a generosidade dos doadores. Estes bens destinam-se a 400 mil pessoas carenciadas, apoiadas por 2.600 IPSS[9]. Um relatório recente aponta que 43% destas instituições dão prejuízo. As dificuldades por que passa uma parte significativa da população são uma realidade, e a fome também. Por alguma razão se agudiza a luta dos trabalhadores de várias áreas socioprofissionais.

Para quando a elaboração de estratégias exequíveis de erradicação da pobreza, mesmo que a médio prazo? Quando veremos uma significativa franja da população ativa a contribuir para a criação da riqueza, sem necessidade de donativos de géneros alimentícios, ao ter a possibilidade de exercer uma atividade remunerada e justa?

© Jorge Nuno (2018)

 


[1] Assembleia da República
[2] Partido Socialista
[3] Imposto sobre o Valor Acrescentado
[4] Rádio e Televisão de Portugal
[5] Sem ondas
[6] Fundo Monetário Internacional
[7] Instituto Português de Oncologia
[8] Orçamento de Estado
[9] Instituições Particulares de Solidariedade Social

24/11/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (29) - Visionários, Milhões, Sanitas e Notícias Falsas


VISIONÁRIOS, MILHÕES, SANITAS E NOTÍCIAS FALSAS

Têm surgido, cada vez com mais frequência, investigadores e investidores visionários e arrojados, a conseguir feitos extraordinários, envolvendo, inevitavelmente, muitos milhões. Para corroborar o que se afirma, aqui ficam três casos surpreendentes, noticiados recentemente.

1 - «Implante no cérebro permitiu usar tablets com o pensamento[1]». Dá-se conta de um teste, bem-sucedido, com três voluntários tetraplégicos, que se deixaram submeter ao implante de um chip – «um pequeno sensor [do tamanho de um comprimido], instalado na parte córtex responsável pelo movimento». Estes voluntários «conseguiram usar programas num tablet para mandar correio eletrónico, trocar mensagens num chat, ouvir música e usar aplicações de partilha de vídeos (…). Navegaram na Internet, fizeram compras online, contactaram família, amigos, trocaram mensagens entre si e com a equipa de investigadores de várias instituições norte-americanas, como as universidades de Stanford e Brown». É referido no artigo que «a tecnologia Braingate deteta sinais associados com movimentos registados no córtex motor, descodifica-os e envia-os para dispositivos externos»; assim, é possível «mover o cursor e selecionar um ícone 22 vezes por minuto numa série de aplicações». Nasce a esperança de melhor qualidade de vida para pessoas tetraplégicas ou que sofram de esclerose lateral amiotrófica.

2 – Os parlamentares europeus, com o apoio de técnicos especializados, andaram uma enormidade de tempo para harmonizar as normas europeias relativas às sanitas nos estados-membros. Tê-lo-ão conseguido, com a referência e título da norma: EN 997:2012 «Sanitas independentes e conjuntos de sanitas e cisternas com sifão incorporado». A entrada em vigor deu-se em 1.12.2012. Passados seis anos, não é preciso ser-se muito viajado para nos apercebermos da disparidade de sanitas existentes, dos elevados consumos de água na descarga, a revelar pouca eficiência e, em muitos casos, inexistência de redes ou de falta de tratamento de esgotos. O visionário e filantropo Bill Gates – o fundador da Microsoft – foi mais longe, investindo mais de 200 milhões de dólares em sete anos de trabalho de investigação nesta área, através da Fundação Bill e Melinda Gates – que tanto tem contribuído para o desenvolvimento humano –. A notícia é dada do seguinte modo: «Bill Gates apresentou o futuro da sanita[2]», sabendo-se que «2,3 mil milhões de pessoas em todo o mundo ainda não tem acesso a saneamento básico[3]». Recentemente, Bill Gates esteve num evento, em Pequim, precisamente sobre saneamento; terá levado consigo um frasco com fezes humanas, para sensibilizar para esta problemática, e «apresentar 20 ideias para melhorar o saneamento em locais que não tem redes de esgotos». Naquele frasco, poderiam estar «quase 200 biliões de rotavírus, 20 mil milhões de bactérias e 100 mil ovos de larvas parasitárias», daí surgirem tantas doenças como a cólera, diarreia e outras. As vinte ideias apresentadas seriam «20 protótipos de produtos sanitários, pensados para destruir bactérias e outros organismos causadores de doenças», tendo chegado a uma sanita inovadora que «separa resíduos sólidos dos líquidos e dispensa a criação de uma rede de esgotos»; prevê-se que possam estar disponíveis em 2030. Até lá, continuarão a morrer – segundo ele – cerca de 500 mil pessoas por ano, devido a mau saneamento.

3 – «O homem mais rico em Portugal, conhecido como o ‘Rei da Indústria Alimentar’ devolve ao povo no seu último projeto[4]». Trata-se de Alexandre Soares dos Santos, o tal que foi acusado de: desviar a sede do grupo Jerónimo Martins para a Holanda, por haver ali uma menor tributação fiscal; promover campanhas sem IVA nos hipermercados Pingo Doce no dia 1.º de Maio, em vez de libertar os seus milhares de colaboradores neste dia do trabalhador; fazer comentários polémicos, mal aceite, apesar de estarmos numa democracia. A notícia que tem vindo a circular no site da CNN, assinado pela jornalista Kaya Yurieff, garante que «O dono do Pingo Doce investiu 100 milhões de euros em bitcoins» e continua: «Apesar da ingratidão e injustiças do governo em Portugal, Soares dos Santos prestou uma ajuda tremenda ao governo nas últimas décadas. As suas contribuições para a civilização portuguesa e assistência que prestou ao governo não tem paralelo nos últimos 20 anos e, com 93 anos, elaborou discretamente um plano para devolver o controlo financeiro ao povo português com um investimento de 100 milhões na sua última empresa Bitcoin Revolution. Este é o seu último desejo». Sugere-se a obtenção de lucros fáceis e acentuados, com um investimento mínimo de € 250, que pode render mais de € 1500 num curtíssimo espaço de tempo. No Polígrafo[5] surge o título: «Fake news sobre Alexandre Soares dos Santos anuncia investimentos que nunca existiu». A suposta autora «garante ao Polígrafo que nunca a escreveu». Confirma-se que a CNN não tem conteúdos em Português, que depois de clicar no seu site é remetido para Sundaynewsfeed, que «Soares dos Santos não investiu na dita empresa Bitcoin Revolution, nem tem qualquer ligação a essa entidade (…) que aparenta ser um esquema fraudulento. Toda a informação apresentada no artigo é falsa, servindo de chamariz para a promoção da Bitcoin Revolution e captação de eventuais investidores (…) e acabam por ser pedidos dados pessoais e bancários».

Estão a proliferar as fake news – ou notícias falsas – que, por não serem imediatamente desmascaradas, podem conduzir a situações fraudulentas, criar demasiado ruído em torno de determinado assunto, desviar a atenção de reais problemas, fazer extremar posições com aproveitamento político e até fazer mudar o sentido de voto em período eleitoral. Toda a atenção é pouca, pois são notícias em que as pessoas embarcam facilmente e discutem logo nas redes socias, influenciando-se mutuamente. Está ser muito frequente nas notícias sobre desporto. E então, quando se trata de dinheiro, quando a galinha é muito gorda… há que ter cuidado redobrado com as promessas de lucro fácil.
© Jorge Nuno (2018)


[1] Título do artigo do DN/Lusa, 21.11. 2018
[2] Título do artigo do Jornal Público, 6.11.2018, assinado por Inês Chaíça
[3] Dados da OMS – Organização Mundial de Saúde
[4] In CNN, pela jornalista Kaya Urieff, em 18.09.2018 
[5] Considera-se o primeiro jornal português de Fact Cheking

10/11/2018

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (28) - Dá que Pensar...


DÁ QUE PENSAR…

A UM[1] tem, sob a égide da AAUM[2], 20 grupos culturais e todos com intensa atividade ao longo do ano, apesar da cíclica rotatividade dos estudantes nas universidade. Para que se fique com uma ideia, aqui ficam os grupos culturais conhecidos (quase todos acrescidos da designação UM): Afonsina – Tuna de Engenharia; ARCUM – Associação Recreativa e Cultural; Augustuna – Tuna Académica; Azeituna – Tuna de Ciências; Bomboémia – Grupo de Percussão; CAUM – Coro Académico; Gatuna – Tuna Feminina; GFados UM – Grupo de Fados e Serenatas; GFUM – Grupo Folclórico; GPUM – Grupo de Poesia; GMP – Grupo de Música Popular; iPum – Percussão Universitária; Jogralhos – Grupo de Jograis; Literatuna – Tuna de Letras; OPUM DEI – Ordem Profética; TUM – Teatro Universitário; TMUM – Tuna de Medicina; TUM – Tuna Universitária; Tun’ao Minho – Tuna Académica Feminina; Tun’Obebes – Tuna Feminina de Engenharia.    
Estes jovens, com a habitual irreverência (e algumas picardias), mas com um entusiasmo contagiante e sã convivência, criam e perpetuam eventos, conseguindo feitos notáveis no âmbito cultural, certamente com parcos recursos; passam a dispor de mais ferramentas para singrar no mundo do trabalho – casos do desenvolvimento da iniciativa própria, da capacidade de comunicação em público e da capacidade de liderança – e projetam uma imagem positiva da universidade que os acolhe, e com esta mantêm uma forte ligação, mesmo tendo passado vinte ou mais anos.

Foi noticiado pelo DN[3]: «PSP[4] já tem 16 sindicatos e 36 mil dias de folga para os dirigentes. São os próprios sindicatos a dizer que é “uma vergonha” o que se passa na polícia. Três sindicatos têm mais dirigentes que sócios. Há um “Vertical”, outro “Independente”, outro “Autónomo”, outro “Livre” e até um dos “Polícias do Porto”. Já resta pouca imaginação para dar nomes a tantos sindicatos da PSP, que atingiu número recorde, inigualável noutro setor, de 16. O mais recente – Organização Sindical dos Polícias – nasceu em fevereiro [de 2018] e conta com 459 dirigentes e delegados sindicais para 451 associados».
A primeira tentativa para alterar a lei do regime sindical da PSP, deveu-se à ex-ministra Constança Urbano de Sousa, que tutelava a instituição e que tinha de reunir com 16 sindicatos para negociar as carreiras e condições de trabalho. Com oposição de três partidos no Parlamento [PCP, BE e CDS], o projeto de lei acabou na gaveta, numa ocasião em que se considerou estar-se perante a aplicação da lei da rolha aos dirigentes, silenciando-os quanto à denúncia das condições de trabalho. É reconhecido que esta é uma profissão de risco e que os agentes, por exemplo, em perseguição ou confronto com criminosos, caso danifiquem a farda ou a viatura em que seguem, continuam a ter de pagar os estragos do seu bolso.

Quase o mesmo número de organizações culturais de estudantes numa só universidade e das organizações sindicais de polícia a nível nacional, e dá que pensar… Como é que a atividade cultural dos jovens é visível e dá frutos, praticamente sem custos para os contribuintes, e as dos representantes dos respeitáveis agentes da autoridade nem sequer conseguem resolver o problema de uma farda rota em serviço, e são um sorvedouro de recursos humanos e financeiros, sem que algo seja feito para corrigir esta situação.

O JN[5] refere ter consultado, em 2016, a lista disponível com as subvenções políticas vitalícias. Tratou-se do ano em que o Tribunal Constitucional repôs subvenções a ex-políticos e ex-juízes desse mesmo tribunal, após pedido de fiscalização, por parte de 30 deputados do PS e PSD, do diploma de governo de José Sócrates que suprimia essas subvenções [2005] e do governo de Passos Coelho que proibia a «acumulação com salários do setor público e cria teto para acumulação do setor privado [2013]». Dá-nos a conhecer que em 2017 havia 318 pessoas a receber as chamadas “pensões douradas”, à custa do Orçamento do Estado, ou seja, dinheiro dos contribuintes. Na mesma página, pode ler-se: «Governo decidiu sozinho esconder lista de subvenções vitalícias (…) sem pedir parecer a ninguém (…). O Ministério da Segurança Social justificou-se com o novo regulamento da proteção de dados (…). A CNPD[6] apontou, ao JN, que a lista das subvenções políticas não conta com qualquer legislação que obrigue a sua publicitação, ao contrário do que acontece com as listas de devedores da Segurança Social e da Autoridade Tributária, que estão previstas em lei”. “Não há qualquer semelhança entre as listas”, explicou [a CNPD]».

Não deixa de ser curioso e dá que pensar… o parlamentar, não legisla sobre o que não lhe interessa [a ele próprio] e deixa o “buraco” para uma decisão arbitrária – sem ter de respeitar leis ou regras. Os juízes do Supremo, neste caso, deliberam sobre aquilo que lhes interessa particularmente e não sobre justiça social e verdadeiro interesse público.

Neste número do JN[7] também se pode ler: «Governo pede mais 886 milhões para bancos falidos[8]. (…) no OE[9]2018, o pedido de autorização de despesa (concedido pelo Parlamento na versão final do documento) subiu para 1017 milhões de euros, mas, até à data (como acontece todos os anos) não há informação sobre a evolução destes gastos na execução orçamental». Parece um poço sem fundo, pois no próximo OE serão canalizados «337,6 milhões de euros para três veículos do Banif; 548,2 milhões para três sociedades com os restos do BPN». Este último, foi nacionalizado em 2008, e a falência e resolução do Banif deu-se em 2015. Dá que pensar… quando o próprio ministro das finanças, no debate sobre o OE2019, refere um saldo orçamental nulo no caso dos três fundos do Banif, voam 886 milhões – dinheiro dos contribuintes – e ninguém parece saber quando acaba esta sangria.
© Jorge Nuno (2018)     



[1] Universidade do Minho
[2] Associação de Estudantes da UM
[3] Diário de Notícias online, de 4 de abril de 2018, com artigo assinado por Marcelina Valentina
[4] Polícia de Segurança Pública
[5] Jornal de Notícias, em 29 de outubro de 2018, p.9
[6] Comissão Nacional de Proteção de Dados
[7] Jornal de Notícias, em 29 de outubro de 2018, p.14
[8] Título referente ao Orçamento de Estado para 2019
[9] Orçamento de Estado para 2018

05/11/2018

Mar de Energia


MAR DE ENERGIA

Aqui, no meu espaço de realidade
criada em laboratório de vida,
sem querer ter poder sobre o meu íntimo
– tão só, usar o que daí advém –
saio de um ciclo padrão rotineiro
reescrevendo a forma de pensar.
Com muita sede de compreensão,
deixo fluir sentimentos ocultos,
vivo um conteúdo emocional forte.
Fundo, vejo o que preciso mudar.
Fora com aquelas cassetes velhas!...
Elimino o excesso de bagagem
que estava ancorado dentro de mim
e não dava conta do seu efeito.
Reparo… há máscaras a cair!
Sem julgamentos, deixo-me envolver
na teia dinâmica de energia
que brota de excelsa fonte invisível
e trespassa o fogo do coração.
Sinto que a realidade é alterada.
Sem filtros, há novo alento – o meu prana.
Tal como numa visão holográfica,
vejo-me fluir, em passos de dança,
e levitar neste mar de energia.

© Jorge Nuno (2018)