01/04/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO - Crónica: "(In)verdades... Para Inglês Ver"

(IN)VERDADES… PARA INGLÊS VER

O Jornal Económico, na presente semana, tem um título assustador: “Tsunami vai engolir a Península Ibérica”. Para quem lê o título, associaria imediatamente a sensacionalismo ou a uma brincadeira de mau gosto. Não, garanto que nada tem a ver com o Dia das Mentiras! Refere o documentário “La Gran Ola (A Grande Onda)”, realizado pelo espanhol Fernando Arroyo. O próprio terá dito: “esta é a verdade sobre os tsunamis em Espanha e em Portugal. Podem acreditar… ou não”. No desenvolvimento da notícia pode ler-se: “será apenas uma questão de tempo antes que um muro gigante de água atinja a costa de Espanha e Portugal”.

No princípio dos anos 90, recebi formação na Proteção Civil, em Lisboa; aí ouvi abordar, também, a eventualidade de haver um enorme tsunami, provavelmente idêntico ao verificado no terramoto de 1755. Sobre a previsibilidade destes estudos não creio que se possa falar em verdade ou mentira, nem será uma questão de fé, ainda mais pelo facto de uma frase retirada do contexto provocar adulteração do sentido. Pessoalmente, entendo haver a forte probabilidade de ocorrer um tsunami, em zonas de falhas sísmicas. O problema será real e uma verdade indesmentível, isso sim, ao não se acautelar essa possibilidade, não criando as condições de deteção de um fenómeno dessa natureza de modo a minimizar os estragos catastróficos que venham a ocorrer.

Igualmente num programa televisivo sobre economia, na RTP3, nesta mesma semana, poderia ficar pasmado com alguns comentários sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e, por exemplo, como um desastre ecológico pode fazer aumentar o PIB. Mas não fiquei. Se seguirmos o raciocínio dos economistas – em que muitos sugerem que “o PIB distorce a realidade, pois mede a produção, independentemente de ser boa ou má, desde que haja transação de moeda (ficando de fora a economia doméstica, informal ou ilegal)” –, então o PIB contabiliza as indústrias poluentes, já que leva ao investimento posterior na recuperação dos danos causados por essas mesmas indústrias. Estranhamente, se se juntar uma imensidão de voluntários para minimizar os estragos… esse trabalho não entra no PIB. Certamente alguém dirá: “não, não pode ser verdade!”.

E se acrescentar que nesse mesmo programa televisivo foi dito [com toda a seriedade] que “a economia grega deu um salto de 25% porque contabilizou a prostituição”? Estou mesmo a antever a reação: “Oh… este está a dar-me tanga!”.
Também “no Reino Unido uma hora de sexo paga soma valor para o PIB, mas apenas a prostituição feminina é considerada atividade económica. A prostituição masculina não tem a mesma dignidade estatística”. Agora digo eu: “Vá-se lá saber porquê!”.
A questão é que “o PIB não faz julgamentos morais: se a prostituição é monetizada e se a troca for registada, por que não incluí-la?”, foi dito. Poderá não ser inocente as várias tentativas para legalizar a prostituição em Portugal, claro… com iniciativa no Parlamento, onde demasiadas vezes se ouvia dizer: “Vossa Excelência acabou de dizer uma inverdade!”; agora já se vai dizendo: “Vossa Excelência mentiu!”.   

Também parece clara a afirmação do presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem – que diz ser direto – e disparou, abusivamente, a ideia que “os países do sul gastam dinheiro em copos e mulheres e depois pedem solidariedade”, para logo referir que foi mal interpretado e que se referia a si próprio (ao sentir-se fortemente atacado por todos os quadrantes políticos). Ora bem, se o PIB holandês está controlado e o PIB português é uma constante preocupação para todos; se no conjunto de quatro dezenas de países mundiais, Portugal está em sétimo no número médio de horas de trabalho anuais e a Holanda está em penúltimo; se a prostituição não está legalizada em Portugal e está na Holanda; se os portugueses continuam a ter fraquíssimos rendimentos do trabalho comparativamente com os holandeses; se o senhor Dijsselbloem admite que é ele que gasta dinheiro nos copos e mulheres, então, tudo isto ajuda a compreender como melhorar o PIB, e que foi errada a medida de austeridade que ele próprio ajudou a impor em Portugal.
Há determinados factos incríveis que ocorrem na nossa vida, como algo surreal, pelo absurdo, que nos sentimos impelidos a mentir (mesmo que seja uma pequena mentira, sem consequências e perfeitamente evitável); é que ao dizermos a verdade parece que ninguém acredita, ou fica dúvida no ar. E se formos aldrabões compulsivos? Bem, para estes há o ditado: “Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo”. E se ousarmos mesmo dizer a verdade e não tivermos medo de cair no ridículo? E se disser que escrevi um poema, em inglês, e que me asseguraram, em Londres, que o loiro Boris Johnson – o mentor do Brexit – o leu? Inicialmente, confesso que eu próprio não acreditei, porque não o estou a ver interessado em poesia. Não tenho a pretensão de dizer que o meu poema teve algum efeito na decisão desta saída anunciada da União Europeia [UE], o que seria algo verdadeiramente incrível, por se tratar de um português. Mas verdade, verdade… é que agora a UE ficou agitadíssima, para não dizer assustada, e o próprio RU tem no seu seio a Irlanda do Norte em polvorosa (para não variar) e a Escócia a querer a referendar novamente a “independência”, para regressar à EU (a lembrar que os fracos não desistem).

Para que não se pense que estou a “dar tanga”, aqui fica o poema, escrito já em 2012, a dar [timidamente] razão aos britânicos por não querem estar na moeda única:

POEM FOR THE ENGLISH TO SEE (Poema para Inglês Ver)

You know, my friend, you certainly do!...
Our countries have something in common in the Guinness.
I mean the world’s oldest diplomatic allegiance.
Which dates back to the war of Aljubarrota, fought against Castela!
You also know that since then not everything has been a bed of roses.
There have been clever opportunistic men in this country,
wanting to connect Angola and Mozambique
and they called it the pink map.
Your ultimatum called them to reason and put an end to their plan
(no wonder, you owned the world’s biggest Empire!)
that Allegiance and the African colonies forced us into a World War
against the German expansion,
taking the lives of 10.000 Portuguese citizens.
Putting that aside and forgetting the competition for global economic interests.
Today, there’s the sun and the beaches in the Algarve,
The tourism and hotel business,
in the most representative Portuguese places,
nightlife, beer, plenty of beer and football!
Perhaps I didn’t like you that much…
and I criticized you, I called you conservative for keeping the pound.
Damn… you surely were right!

© Jorge Nuno (2017)


21/03/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (55): Crónica - "Gestos de Cidadania e Construção de Moinhos"

GESTOS DE CIDADANIA E CONSTRUÇÃO DE MOINHOS

Entre as múltiplas atividades que promoveram o meu crescimento, registo, com agrado, a dedicação de cerca de 30 anos da minha vida à educação e formação de adultos, alguns envolvendo uma complexa diversidade cultural na escola. Pode soar a autoelogio, mas não deixo de referir que quase na totalidade desse tempo senti-me motivado, com iniciativa na procura da inovação, tendo-me envolvido em projetos de importância estratégica para o país, abrangendo este setor, mas particularmente para as pessoas – os verdadeiros destinatários dessas estratégias –. Tinha consciência de que por trás do meu ganha-pão estava o interesse social da atividade realizada. Talvez como resultado desse meu crescimento sustentado, enquanto pessoa, encarei esta atividade com profissionalismo e espírito de missão. Tive mesmo genuínos momentos de alegria interior quando fui professor nos primeiros quatro anos de uma universidade sénior, até mudar de região e de panorama.

Não tenho dúvida que políticas erradas, a começar pelo “deitar abaixo” projetos em marcha com provas dadas, passando também pelo desinvestimento público no setor, até se sentir o vazio que fica, o desencanto dos agentes da educação e da formação, o baixar de braços, apatia generalizada, o crescimento do voyeurismo através da TV e de outros programas da treta, com os canais televisivos a baixar o nível qualitativo dos programas, numa competição desenfreada para obter as maiores audiências… Sabemos que a vida é feita de altos e baixos, ficando agora a ideia que estaremos perante um novo fôlego, com o atual Presidente da República (PR) portuguesa a deixar transparecer que a quer puxar para cima.  

Lembro-me de ter lido algures que “quem não promove a cultura por uma questão ‘cultural’ não quer que os outros pensem cidadania”. Lembro-me da minha persistência em querer passar a mensagem que a cultura pode levar a que sejamos interventivos na sociedade, para que haja mais vontade de sermos atores, declinando a ideia de sermos meros espetadores passivos. Mais cultos, não permitiríamos a continuidade da existência de mecanismos de esbanjamento dos dinheiros públicos, pois seríamos mais vigilantes e exigentes. Mais cultos, não nos deixaríamos enganar pela demagogia e por populismos extremistas. Mais cultos, não permitiríamos que a democracia fosse mal-usada, a ponto de a tornar frágil, já que instituições fortes e credíveis seriam sustentadas por pessoas responsáveis, com caráter, exigentes consigo próprias e com os outros.

Acabei de ler numa nota de rodapé de um canal televiso, sem saber mais pormenores, que o presidente americano quer diminuir o investimento federal nas artes e nas humanidades. Durante a campanha eleitoral, quando confrontado com uma notícia de 1998, que dava conta de ter afirmado que seria simples ser candidato pelo Partido Republicano “porque os seus eleitores são burros”, não desmentiu (apesar da notícia poder ser falsa) e terá dito que não se importava nada que estúpidos e ignorantes votassem nele, desde que, com isso, contribuíssem para a sua eleição. Muitas outras notícias, eventualmente falsas, colocadas nas redes sociais, terão contribuído para atrair eleitores indecisos e pouco esclarecidos. Vitorioso, em tempos de mudança, continua a ordem para a construção dos muros.

Contrastando, tenho vindo a ser surpreendido, pela positiva, pelo atual PR de Portugal. Uma das últimas surpresas relaciona-se com a devolução (não doação) de 45 mil euros que sobraram da sua campanha eleitoral, paga com dinheiro dos contribuintes. E fê-lo, entregando 20 mil euros à Associação de Solidariedade Social e Recreativa de Nespereira, uma IPSS de Cinfães, que ele considerou ser um dos concelhos mais carenciados do país, sendo essa quantia destinada à aquisição de uma carrinha de apoio domiciliário; entregou também 25 mil euros ao agrupamento de escolas de Mogadouro, destinado ao investimento num laboratório – que não tinha –, ficando a saber-se que este agrupamento ficou em último no ranking das escolas, ao nível de ensino secundário. Houve logo quem comentasse publicamente o assunto, referindo-o como “esmola presidencial”, de querer um povo “venerador”, que “a generosidade do Presidente pode ser uma precipitada e pouco informada beatitude”… Todos sabemos que não é da competência do PR efectuar este tipo de financiamento e que nada o obriga a seguir as pisadas e a ter a postura dos seus antecessores. Os mais esclarecidos sabem que o ranking das escolas é de uma tremenda injustiça, por compararem realidades diferentes. Os mais esclarecidos não aceitam que as IPSS tenham a importância que têm hoje, particularmente no interior desertificado, quando os governantes têm ferramentas para possibilitar aos setores público e privado desenvolver essas regiões, criar riqueza e minimizar a pobreza e o isolamento das populações. Também os esclarecidos chineses, através de um seu provérbio milenar, sabiam e sabem que “quando sopram ventos de mudança, uns constroem muros, outros constroem moinhos”.


© Jorge Nuno (2017)    

04/03/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (54) - Crónica: "Quando a Raposa Guarda o Galinheiro"

QUANDO A RAPOSA GUARDA O GALINHEIRO

Escreveu María Elvira Pombo Marchand, no seu livro “Pela mão dos anjos”, que “Magia é a capacidade de nos transformarmos assim como à nossa realidade”, dando a indicação que “o objetivo da magia é a felicidade. O requisito principal para que aconteça magia é acreditar que tudo é possível”. Também Kyle Gray escreveu, no seu livro “Orações aos anjos – como pedir ajuda ao céu para criar milagres”, que “rezar é algo universal. Todas as religiões e sistemas de crenças incluem uma ou outra forma de oração. Todos os dias, as pessoas rezam para ter saúde, dinheiro, sucesso, ou até só para terem boas colheitas. Para muitos, a oração é uma prática diária; para outros, o último recurso em desespero de causa”. Pois bem, dirijo-me a crentes e a não crentes e informo que hoje é o Dia Mundial da Oração. Entendo que, a comemorar-se este dia, deveria ser no Dia de Todos os Santos, pois a oração coletiva, reforçada a Todos os Santos, poderia trazer magia e criar autênticos milagres, com maior facilidade. E como estamos a precisar que aconteça magia e autênticos milagres!…

O Banco de Portugal (BdP), através da nota de informação estatística 23/2017, anuncia um acréscimo da dívida pública em janeiro de 2017, estando agora nos 242,8 mil milhões de euros, que resulta de um aumento de 1,8 mil milhões de euros, relativamente ao final do ano de 2016. Quando estão apontadas falhas graves à supervisão do BdP – longe de cumprir a sua missão e ainda a ocultar informação pertinente, por se considerar soberano e não ter de prestar contas a ninguém, o que não deixa de ser estranho num estado democrático –, eis que o governo quer impor duas mulheres no conselho de administração do BdP, quando o expectável seria atalhar pela substituição do fragilizado governador.  

O polémico assunto dos e-mails trocados entre o anterior presidente da CGD e o atual ministro das Finanças acaba por ser abafado, temporariamente, com o surgimento de nova polémica. Esta dá-nos conta que, entre 2010 a 2014, teriam sido transferidos para offshores em paraísos fiscais valores aproximados a 4 mil milhões de euros / ano; em 2015 dispara para 8.885 milhões de euros. O atual secretário de estado dos Assuntos Fiscais – o tal que viajou para Paris, para ver o jogo Portugal – Hungria, no Campeonato Europeu de Futebol de 2016, a expensas da GALP, apesar de representar o estado português num conflito fiscal milionário com essa empresa, por esta recusar o pagamento de dois impostos com um valor total superior a 100 milhões de euros – deu indicação aos serviços de administração tributária para verificação das declarações entregues pelos bancos no portal da Autoridade Tributária (AT) e ter-se-á concluído que havia falhas no registo dos offshores, entre 2011 e 2015. Este facto originou que essa imensidão de dinheiro saísse do país, sem controlo nem o correspondente pagamento de impostos. Em audição parlamentar, ainda desresponsabilizou politicamente os governantes, dizendo que se terá tratado de um erro informático e deixou no ar a ideia de que não terá havido manipulação de informação para encobrir uma eventual fuga de capitais. É afirmado, publicamente, que estariam ocultas 97% das transferências financeiras para offshores do Panamá.

O secretário de estado dos Assuntos Fiscais do anterior governo, após esta descoberta, também em audição parlamentar, veio dizer que ocultou o facto para não alertar e, com isso, poder vir a beneficiar o infrator. Assumiu individualmente essa responsabilidade (coisa rara), acrescentando que “não há impostos perdidos nas transferências em causa” (coisa estranha) para, de seguida, ser elogiado pelo caráter (coisa bizarra) por uma deputada do CDS-PP, partido onde é membro da Comissão Política Nacional. Apressaram-se os habituais comentadores acreditados na matéria, instalados em determinados canais televisivos, a explicar da legalidade das operações e a minimizar esta ocorrência, retirando-lhe a carga política, atirando a responsabilidade para os técnicos que manuseiam os sistemas informáticos, manipulam a informação e fornecem, aos respetivos políticos em funções no setor, os dados trabalhados, que é suposto serem credíveis. Lembra-se que, por aquela altura havia a estratégia, incentivada pela troika, de “espremer” os portugueses da classe média-baixa e todos os que já possuíam baixos rendimentos, como sendo a única alternativa para resolver os problemas de insolvabilidade do país. 

O referido ex-membro do governo é advogado, especialista em direito fiscal, docente da disciplina de fiscalidade no “Mestrado em Direito e Gestão” promovido pela Nova School of Business and Economics, em Lisboa. É neste estabelecimento do ensino superior, e noutros similares, em cursos financiados, em parte, com dinheiro dos contribuintes, que se formam os reputados fiscalistas, a quem mais tarde é dada uma remuneração principesca pelo seu trabalho, tendo em vista ultrapassar os “podres” da legislação e permitir às empresas fugir aos impostos. Numa altura em que o atual governo, através de uma equipa de juristas da Presidência do Conselho de Ministros, está a procurar limpar a legislação desadequada à atualidade, tendo já sido encontradas 1500 leis obsoletas aprovadas entre 1974 e 1978, estará na hora de se deixar de encomendar legislação a conhecidos grupos de advogados associados que, com alguma promiscuidade na sua ligação a deputados, têm criado legislação com “buracos” e mais tarde assessorarem na solução. Entretanto, é confrangedor ver que não se usa os instrumentos da procura da incómoda verdade… enquanto passa incólume quem faz uso dos paraísos fiscais, por falta de mecanismos de troca de informação ou de vontade de exercer o controlo.

O ex-Dono Disto Tudo, do BES, no interrogatório judicial da Operação Marquês, terá referido que “só o diabo pode explicar coincidências das transferências para Bataglia e os negócios da PT [que leva dois importantes antigos gestores da PT a serem constituídos arguidos, por benefício próprio de muitos milhões]. Do Grupo Espírito Santo terá sido desviado 8 milhões de euros para um offshore, em nome do ex-Dono Disto Tudo, havendo um comunicado dos seus advogados a referir que esta operação e “a tese de fortuna escondida (…) é pura ficção”.

Apesar do diabo ter sido queimado recentemente pelo Carnaval, quem sabe se, em Dia Mundial de Oração, não se justificará mesmo as orações a Todos os Santos, centradas num único objetivo – impedir que as raposas deixem de guardar os galinheiros –. 

© Jorge Nuno (2017)

21/02/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (53) - Crónica: "Vacas que Riem - Vacas Felizes"

VACAS QUE RIEM — VACAS FELIZES

Numa minha anterior crónica, escrita já em 2017, abordei a notícia que dava conta que um produtor do Reino Unido descobriu que as suas “cabras produzem mais de 20% de leite do que o habitual, quando expostas ao tema “All I want for Christmas is you”, de Mariah Carey. Não tenho razões para duvidar que tivessem produzido mais, mas, sinceramente, não acho que sejam “cabras felizes”. Não estou a ver este produtor a colocar altifalantes nos prados verdes e húmidos do Reino Unido, para extasiar musicalmente os seus animais. E não estou a ver estas cabras felizes por estarem sempre a ouvir o mesmo tema, independentemente da preferência do produtor de leite por esta cantora, compositora e produtora musical americana.

É que nós por cá, no arquipélago dos Açores, temos vacas que são criadas em prados verdes, apresentam boa produção leiteira e são mesmo apelidadas de “vacas felizes”. Estas vacas são expostas apenas ao puro som do marulhar, da sinfonia dos pingos da chuva atlântica, da húmida brisa, da folhagem da vegetação (com pastagens verdejantes cercadas de hortênsias azuis) e do som telúrico saído das profundezas destas ilhas vulcânicas, numa concórdia de elementos que embriagam. Trata-se de um programa natural, criado pela mãe-natureza, com a qual as vacas tão bem se harmonizam.

Já me tinha habituado à imagem do queijo “La vache qui rit” [criado em França, em 1921], com uma vaca muito simpática e sorridente, tendo como brincos duas embalagens de queijo fundido, cremoso, em triângulos e que depois vi convertido, em Portugal, para “A vaca que ri”, nos mesmos moldes.

A Bel Portugal detém as marcas “A vaca que ri”, “Mini Babybel”, “Terra Nostra” e “Limiano”. Com novos proprietários em 1999, foi deslocalizada a produção desta última marca de Ponte de Lima – que lhe deu o nome – para Vale de Cambra, tendo Daniel Campelo efetuado greve de fome em defesa deste queijo, do nome e da manutenção da fábrica em Ponte de Lima. Um ano depois, este ex-deputado do CDS negociou com o governo um pacote de medidas especiais para o concelho minhoto, numa altura em que o governo precisava de um voto no parlamento para aprovar o Orçamento de Estado. Ficou conhecido como o “deputado do queijo”, tendo originado imensas piadas e muito riso coletivo, provavelmente contagiando as vacas daquela bela e ainda virgem região minhota.

Como a BEL Portugal pertence ao grupo francês Bel, que sabe do ofício, o marketing foi feliz ao propor a criação do programa da marca “Terra Nostra”, que intitulou “Programa Leite de Vacas Felizes”. Como se não bastasse o nome do programa, deu-se ao cuidado de apontar cinco razões para se beber leite desta marca, com destaque para o facto de se tratar de leite de pastagens, legível na própria embalagem:
– Terra única – Açores – terra vulcânica onde a chuva atlântica rega os nossos pastos o ano inteiro;
– Bem-estar animal – as nossas vacas vivem felizes ao ar livre 365 dias por ano e não fechadas em estábulos;
– Erva fresca – as nossas vacas desfrutam de alimentação natural e saudável à base de erva fresca;
– Leite puro – leite de elevada qualidade, exclusivo de produtores do Programa de Leite de Vacas Felizes;
– Rico nutricionalmente – recolhido em menos de 24 horas para manter a sua frescura, este leite é naturalmente rico em proteína, cálcio e fonte de fósforo.
Resumindo, o programa assenta nas pastagens, bem-estar animal, qualidade e segurança alimentar e eficiência. Foi bem-sucedido, a ponto de ser premiado, recentemente, nos Troféus Luso-Franceses (22.ª edição), promovido pela Câmara do Comércio e Indústria Luso-Francesa.

Terá sido injusto se não mostraram o prémio às vacas felizes, que dão todos os dias mais que o “litro”. Deve fazer-se tudo para que se mantenham felizes. Os promotores, que gostam de testar coisas novas, esqueçam a música da Mariah Carey, os altifalantes a estragar o ambiente paradisíaco, ou sequer os vários meios de comunicação social por perto. Elas não gostariam de saber alguns destes factos, como mera exemplificação:
– desde 2011 fecharam 1620 balcões (da banca), em todo o país, a uma média de um balcão por dia; que a banca tem vindo a tremer e nesse período de tempo já perdeu cerca de 10.000 funcionários e que, como se não bastasse, a Caixa Geral de Depósitos vai dispensar mais 2.200 funcionários até 2020;
– o que está escrito no relatório da precariedade no Estado, que dá conta de 116.165 contratos temporários no Estado e nas empresas públicas e que não contempla os inúmeros falsos recibos verdes e recurso a “outsourcing”, havendo 55.974 contratos a termo, dos quais 26.133 é na Educação, 12.771 na Defesa Nacional, 11.180 na Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e 3609 na Saúde, entre outros, dando o Estado um sinal muito negativo ao setor privado;
– o que está escrito no relatório do projeto “Saúde.come”, com a coordenadora Helena Canhão a dar conta da expressiva percentagem das famílias portuguesas sem acesso a uma boa alimentação, que provoca menos eficácia no estudo e no trabalho (assim não se pode exigir o “litro”), em que a falta de poder económico terá potenciado este problema, além da deficiente informação, o que origina uma espiral de problemas, que passa pelas doenças crónicas graves, como obesidade e diabetes;
– a necessidade do presidente da República vir a público chamar a atenção para a necessidade de se arranjarem estratégias de combate à pobreza, alguém se agita, momentaneamente, como tendo urticária, para ficar tudo na mesma;
– os vários processos em tribunal que se arrastam, estrategicamente ou pela complexidade dos processos, contra pessoas acusadas de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais, só faltando a tentativa de regular a despenalização da corrupção, como na Roménia;
– de ver a agência de rating Fitch elogiar o governo português pela sua capacidade de gerar consensos, congratular-se com a meta do défice conseguido e manter Portugal como “lixo”;
– a dualidade de critérios no seio da União Europeia (EU), que enfraquece e prejudica os Estados-membros mais frágeis, criando instabilidade na união monetária.
Mas, sinceramente, não creio que as vacas queiram deixar de ser felizes ao saber se o Banco Central Europeu diz se está preparado (ou não) para comprar dívida portuguesa e se detém atualmente 25,2 mil milhões de euros de ativos portugueses, continuando Portugal, progressivamente, a sua caminhada de endividamento, hipotecando o presente e o futuro. Sinceramente… não creio, pois também os portugueses não me parecem estar interessados nesse tipo de notícias. Sei que as vacas felizes estão a dar mais que o “litro” e estranho a baixa produtividade dos portugueses, evidenciada pelo Eurostat em 2011, colocando Portugal quase no fim da lista de países da UE, quanto a produtividade real por hora trabalhada. Estranho ainda mais, já que o estudo da Católica Lisbon School of Business & Economics, promovido pelo Observatório da Sociedade Portuguesa, em plena crise no país, concluiu que os portugueses sentem-se felizes (72%) e satisfeitos (67%) com a vida. Decididamente, parece que ninguém quer deixar de ser feliz e acho que é o caminho certo! Mas não à custa da falta de conhecimento / ignorância dos problemas, situação cómoda em que se fica sempre à espera que alguém resolva por nós.

© Jorge Nuno (2017)


20/01/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (52): Crónica: "Hoje é Dia de Pequena Crónica - Como é Possível?"

HOJE É DIA DE PEQUENA CRÓNICA – COMO É POSSÍVEL?

Há muito que ando para escrever uma crónica pequena e não consigo. Tenho consciência que quanto maior for a crónica menos as probabilidades de ser lida, já que há a tendência natural para desencorajar a leitura até ao fim, mesmo que o tema seja entusiasmante para quem escreve e para quem lê; e só gosto de escrever sobre o que me entusiasma. Assim, faço hoje um apelo interno à minha capacidade de síntese para a encurtar e, reparo, com esta introdução já ocupei [até aqui] seis linhas e vou escrever sobre algo que não me entusiasma, já para não aplicar a palavra “fascina”! Vamos então ao que interessa, se é que interessa.

Em surdina, tenho andado a remoer: “como é possível, num país com a grandeza dos Estados Unidos da América, o Partido Republicano não ter conseguido eleger um candidato credível e consensual, de modo a sentir-se que será o presidente de todos os americanos?”; “como é possível um candidato presidencial [o mesmo, de referido partido] avançar para uma campanha, baseada no improviso, sem a estratégia do próprio partido?”; “como é que um candidato, com aquele perfil, foi capaz de vencer as eleições presidenciais?”; “como é possível um candidato eleito agitar tanto o mundo, deixando-o à beira de uma ataque nervos?”; “como é possível o presidente cessante dizer adeus à Casa Branca com um índice de popularidade de 60% e um presidente a tomar posse no cargo com o referido índice nos 40%?”; “como é possível um candidato eleito ter aberto frentes de hostilidade contra países da União Europeia, países tradicionalmente amigos, e fazer um novo inimigo de estimação – a China?”; “como é possível um país, com serviços de inteligência e meios tecnológicos sofisticados, deixar que outro país – com quem mantém uma “guerra fria” de muitas décadas – consiga desvirtuar a intenção de voto e, depois disso, surgir como país amigo?”.

Bem posso questionar!...

Valha-nos ao menos, por cá, a vitalidade e popularidade do interventivo presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que, mantendo-se em elevado estado de graça, surge a todo o instante em todo o lado, distribuindo afetos, beijos, abraços e tirando selfies sempre com um sorriso, incluindo apanhar roupa da corda a uma idosa, enquanto dialogava com ela, ou uma ida ao encontro de sem-abrigo, numa noite gelada. Este perfil, faz com que seja o político mais perto do povo (apesar de sempre ter pertencido às elites) e obtenha o maior índice de popularidade de toda a classe política; no final do ano anterior, chegou a bater todos recordes de popularidade (desde que existe o barómetro da Universidade Católica Portuguesa), com uma notoriedade de 99% e 97% de avaliações positivas, através de inquirição do CESOP – Universidade Católica. Então o contraste é claramente enorme quando se pensa na má imagem de Cavaco Silva na hora de saída do cargo, avaliado com a nota negativa de 7,7 pelo mesmo barómetro.  Não admira que o Observador tenha considerado o atual presidente da República como a Figura Política do Ano (2016).
Apesar de nós, portugueses, termos a tendência para sermos muito rezingões e acharmos que tudo está mal… eu acho que Portugal é um país muito especial. É fácil gostar-se deste país, e não é só pelo sol, paisagem e gastronomia. É que mesmo em plena vaga de frio, a assolar toda a Europa, o que mais brilha é o calor humano, com o presidente português no topo da pirâmide, enquanto durar o estado de graça. Mas esse estado de graça cultiva-se e, seguramente, não é semeando ventos!

Obs.: se a crónica não ficou assim tão pequena é porque, afinal, entusiasmei-me!


© Jorge Nuno (2017)   

08/01/2017

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (51) - Crónica "Estranhos Patetas Alegres e Patetas Tristes

ESTRANHOS PATETAS TRISTES E PATETAS ALEGRES

Ao cair do (p)ano de 2016, um artigo do Jornal de Notícias dá conta que um produtor do Reino Unido descobriu que as suas cabras produzem mais de 20% de leite do que o habitual, quando expostas ao tema “All I want for Christmas is you”, de Mariah Carey. Segundo o site brasileiro Canal Rural, isto acontece porque “as músicas de Natal costumam ser calmas, lentas e cheias de boas vibrações”.

Acho que os portugueses também apanharam boas vibrações neste Natal, pois os seus índices de confiança ultrapassaram os do ano 2000. Segundo a manchete do jornal Correio da Manhã, também em final de ano, dá conta da “Fúria consumista – Portugueses gastam 210 milhões por dia no Natal”, com o valor total de levantamentos em máquinas ATM e pagamento através de TPA a ultrapassar os 5,7 mil milhões no Natal e Ano Novo, e ainda faltavam uns dias para acabar o ano. O jornal britânico “Financial Times”, pela mão do jornalista Peter Wise, aponta ao primeiro-ministro português “índices de popularidade [de fazer inveja] que outros políticos do centro-esquerda europeu apenas podem sonhar”, entendendo que este confundiu os críticos, por ter superado as expetativas, apesar do “modesto crescimento económico” e do “frágil setor financeiro”.

A propósito do setor financeiro, ouve-se, insistentemente, que o BCE – Banco Central Europeu está a ser pressionado para que não apoie os países periféricos, onde se inclui Portugal. Não será por acaso que estão a subir os juros da dívida portuguesa, a 10 anos, encontrando-se nos 4%, o que faz com que Portugal pague mais de 8 mil milhões de euros só de juros anuais.

A TVI24 noticiou que o fogo de artifício na passagem de ano na Madeira teve o dobro dos disparos de 2006, tendo sido disparadas 132.000 peças. Já naquele ano o “Guiness World Record” tinha atribuído o título de “Maior Espetáculo Pirotécnico do Mundo” à passagem de ano na Madeira. O Governo Regional da Madeira terá despendido 800.000 euros em oito minutos de diversão. Em contrapartida, terá contribuído para que a ocupação hoteleira tenha ultrapassado os 92%. A “estragar” a festa, mais uma vez a PGR – Procuradoria-geral da República investiga se existem indícios da prática de crime na adjudicação do material pirotécnico (cerca de 70% de produção nacional) e na execução orçamental.

Já em 2017, o Jornal de Notícias, tem como título de um artigo: “Nunca se investiu tanto em escritórios em Portugal”, para em letras mais pequenas se poder ler “Investimento imobiliário no segmento comercial foi de 1,3 mil milhões de euros em 2016 e espera-se que este valor seja ultrapassado em 2017”.

Como vem sendo habitual, com o novo ano surgem os aumentos dos custos com a electricidade, gás, transportes, telecomunicações, portagens… enquanto o IAS – Indexante dos Apoio Sociais (congelado desde 2009) crescerá 0,7%, passando de 419,22 euros para 422,15 euros, traduzindo-se num aumento inferior a 3 euros mensais, o que significa 13,5 milhões de euros retirados em 2017 aos cofres do Estado.
Um estudo recente do Observatório da Natalidade e do Envelhecimento em Portugal, tendo como coordenador Telmo Vieira (ISEG), envolveu uma amostra de 1335 pessoas, com 35 ou mais anos, e aponta que quase 70% dos inquiridos não tem qualquer tipo de poupança para a reforma e que 7% dos reformados entrevistados não podem comprar os medicamentos prescritos. O estudo, a juntar-se a outros, reforça que “é preocupante a sustentabilidade do sistema de previdência social em Portugal”.

Também já em 2017, o Jornal de Notícias faz manchete: “Insolvências – todos os dias há 30 portugueses a abrir falência [declarados insolventes pelos tribunais]”. Continuando a ler, fica-se a saber que foram afetadas 11006 famílias, sendo que 635 aderiram ao PER – Programa Especial de Revitalização, continuando o GAS – Gabinete de Apoio ao Sobreendividado [da DECO] a receber estes pedidos de ajuda. Haverá 26030 registos de casos de sobreendividamento nos primeiros dez meses de 2016. Segundo a coordenadora do GAS – Natália Nunes –, numa entrevista concedida ao jornal Correio da Manhã, 15% dos que pediram ajuda são reformados com baixo rendimento, mas também há pedidos de ajuda entre quem tem “empregos precários e com salários muito baixos” e considera que “a situação financeira das famílias não teve alterações que acompanhem este aumento da procura de crédito, que é preocupante”.

Apesar da situação ser preocupante, prefiro ver esta onda de optimismo. Na minha adolescência fixei uma frase, que guardo até hoje, e que rezava assim: “Um pessimista é um pateta triste; um otimista é um pateta alegre”. Estava cansado de ver tanto pateta triste; sinceramente, prefiro os patetas alegres. Deve sentir-se as influências semelhantes às das cabras. Com tanta música de Natal a espalhar “boas vibrações” pelas ruas, só pode! E esta “boa onda” deixa-nos antever os resultados das próximas eleições autárquicas.


© Jorge Nuno (2017)

Crónica publicada na BIRD Magazine de 07-01-2017

22/12/2016

A Viagem

A VIAGEM

“Limita-se uma vida ao seu destino”
Como se um passageiro clandestino,
De fardo, nem ousasse caminhar…
“Pesada cruz de sombras e canseiras”
Por quem comete um chorrilho de asneiras
E, livre, não se deixa condenar.

“As rochas são fantasmas na penumbra”
Para quem na vida pouco vislumbra,
Mas realce “há sempre na noite escura”…
Em que na pura exaltação dos credos
“A madrugada vem despir os medos”
E o teu olhar devolve-me doçura.

“Tremem mãos de comoção no instante”
Como se fosse em viagem errante
“Onde ao lavrar os sonhos me confundo”.
“Ser um menino-velho com ideias”
E partilhar contigo vida a meias
Vem dar alento ao meu pequeno mundo.

Pouco importa ver as frases bordadas,
“O vício das palavras relembradas”…
“P’ra mascarar aquilo que pareço”;
Ou “se a saudade é roxa ou prateada”,
A minha poesia a ser cantada,
Vastos elogios que não mereço…

Quando um dia aquela negra ceifeira
Vier rondar para eu ser poeira,
Sem negociar uns quaisquer critérios
E não retroceder envergonhada,
Nem quiser a viagem adiada…
Irei “subir a rampa dos mistérios”.

“Há retalho do mundo à minha espera”,
Mais além do que se vê nesta esfera,
“Com música astral das noites brancas”.
“Um mundo dos espíritos das horas”
Que no teu relógio já não ignoras
E tudo irá fluir sem alavancas.

Mas “sei que alguém nos becos da memória”
Anotará a verdadeira estória
(Mesmo sem ter que a contar às crianças).
Neste longo amor, que eu tanto bendigo,
“Sei que o meu coração vai ter contigo”,
Ser peregrino de boas lembranças.

Não “esconjuro o feitiço do retorno”
E para obviar todo este transtorno
Irei fazer aquilo que apetece…
Surgir em qualquer noite de luar,
Afável, envolver-me a namorar
“Em loucuras de amor que o amor tece”.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Baseado em alguns versos ou ideias extraídas da obra poética de Ulisses Duarte, a quem desta forma presto a minha homenagem. Envolve trabalhos da obra póstuma “Palavras com Distância”, os poemas “A Nau do Tempo”, “O Telefonema”, “O Limite”, o “Conto da Morte Anunciada” e parte da compilação de versos de Ulisses Duarte, feita pelo poeta Albertino Galvão.