15/01/2021

Crónicas de Língua Afiada: CAUTELA E CALDOS DE GALINHA... Parte II

 

CAUTELA E CALDOS DE GALINHA…

Parte II

 

Com novo confinamento geral, ainda mais condicionados, há quem “desligue”, pelo cansaço e desespero… mas será útil continuarmos despertos para a informação. As manchetes ou breves notas de rodapé, nos diversos meios de comunicação, por vezes surpreendem-nos e conduz-nos a reflexão ou, no mínimo, a um simples questionar.

«Caos no hospital de Setúbal». «Doente tratado no chão[1] [no hospital de São Bernardo, Setúbal]».

«Urgências sem espaço para covid». «Doentes esperam em ambulâncias[2]», no hospital dos Covões, Coimbra, que esgotou a capacidade de resposta.

«Doentes com frio enrolados em cobertores[3]» e «Enfermeiros [da urgência] do hospital de Famalicão fazem vigília», como “grito de ajuda” e dizem-se exaustos. 

«Dois hospitais da região de Lisboa já estão a transferir doentes para o Norte». «A situação dos hospitais é crítica[4]». Ficou-se a saber que houve transferência de doentes covid: dos hospitais Beatriz Ângelo, Loures e Fernando Fonseca, Amadora-Sintra, para os hospitais Santos Silva, Gaia e Santo António, Porto; do hospital Curry Cabral, Lisboa, para o hospital do Algarve e hospital Pêro da Covilhã; do hospital Garcia de Orta, Almada, para o hospital Pedro Hispano, Matosinhos. Entretanto, o hospital de Santa Maria, Lisboa, anunciou que «toda a atividade cirúrgica não urgente fica suspensa[5]».

«Falta de pessoal para inquéritos epidemiológicos – inquéritos são fundamentais para travar contágio[6]».

«Médico saudável morre com patologia no sangue 16 dias após receber a vacina [da Pfizer] contra a covi-19[7]». Trata-se de Gregory Michael, obstetra, de 56 anos, da Florida, EUA, que «desenvolveu uma doença rara que faz com que o corpo destrua as próprias plaquetas, essenciais para ajudar o sangue a coagular».

«Cerca de 140 profissionais de saúde de Viseu recusam vacinas». Soube-se que ao terceiro dia do plano de vacinação, no hospital de São Teotónio, terão sido 140 a dizer “não”, em cerca de 2800 profissionais de saúde.

«Os profissionais de saúde que têm rejeitado a vacina contra a covid-19 são claramente residuais», afirmou[8] Eduardo Pinheiro – secretário de Estado da Mobilidade e coordenador da Região Norte, no âmbito da declaração do estado de emergência, aquando da visita ao hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães, tendo dito «desconhecer quaisquer reações adversas à vacina».

«As vacinas Pfizer / BioNTech reduz os casos de covid em cerca de 95% das pessoas imunizadas (…) Efeitos colaterais das vacinas: o que se sabe sobre a segurança dos imunizantes contra a covid-19[9]», num artigo assinado por James Gallagher, repórter de Saúde e Ciência da BBC. Nele, afirma que na medicina há uma importante diferença entre “seguro” e “inofensivo” e também entre “risco” e “arriscado”; e que sempre existe algum tipo de risco envolvido em vacinas.

«Nem tudo são rosas. Efeitos colaterais das vacinas podem ser graves, alertam Especialistas[10]». «As autoridades da saúde pública e os fabricantes de medicamentos têm de alertar a população que as vacinas contra o novo coronavírus podem ter efeitos colaterais graves, ou seja, neste processo “nem tudo são rosas” e as populações têm de se preparar para os resultados desagradáveis[11]». «Nós temos de consciencializar os pacientes que isto não será só um passeio no parque[12]». «Se tiverem [na família] que perder 14 dias de trabalho, é uma grande perda (…) acho que temos de pensar sobre a própria vacina (…) acho que isso deve ser equilibrado com o risco de contrair uma infeção[13]».    

«[Tedros Ghebreyesus – diretor-geral da] OMS aponta o dedo ao relaxamento das medidas[14] [aconselhadas desde o início da pandemia]».

«Sete em dez portugueses em quarentena acusaram sofrimento[15]».

Na sessão governativa preparatória para o novo confinamento geral, Pedro Sisa Vieira – ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital – referiu[16] que «é necessário reduzir contágios, para reduzir contágios é necessário reduzir contactos, para reduzir contactos é preciso que as pessoas restrinjam as suas deslocações ao mínimo indispensáveis».

«Desemprego registado em outubro subiu 134% no Algarve[17]».

«Mais casos covid no Algarve – lares têm falta de recursos humanos[18]», com muitos funcionários em isolamento profilático. «Região com dificuldade em contratar para lares». A delegada regional de Saúde – Ana Cristina Ferreira – apelou aos jovens desempregados para aceitar as vagas existentes e reforçar as equipas nos lares, dizendo que este “é um trabalho muito recompensador”, pelo que “está na hora de dizer sim”, acrescentando, no mesmo discurso, a realidade crua: “é um trabalho muito duro, provavelmente não muito bem pago e esta situação agrava a aceitação do trabalho”.

A esta amálgama de notícias preocupantes, podemos juntar um pouco da sabedoria popular: «Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém».

© Jorge Nuno (2021)



[1] In CMTV, 09-01-2021, 13:00.

[2] In CMTV, 09-01-2021, 13:00.

[3] In TVI – J1, 09-01-2021, 13:00.

[4] In TVI – J1, 09-01-2021, 13:00.

[5] In www-observador.pt, 09-01-2021, 01:05.

[6] In SIC N, 11-01-2021, 16:34.

[7] In www.cmjornal.pt, 08-01-2021, 10:30.

[8] In Expresso, 30-12-2020.

[9] In www.bbc.com / portuguese, 10-12-2020.

[10] In m.noticias.sapo.pt, 24-11-2021, 18:06.

[11] In Executive Digest, 24-11-2020, artigo assinado por Simone Silva.

[12] Sandra Fryhofer, da American Medical Association.

[13] Grace Lee, professora de pediatria da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, Califórnia, EUA.

[14] In TVI J1, 09-01-2021, 13:19.

[15] In SIC N, 09-01-2021, 18:01.

[16] In SIC N, 09-01-2021, 18:06.

[17] In www. Sulinformacao.pt, 11-11-2020, 17:18.

[18] In SIC N, 09-01-2021, 18:19.

 

17/12/2020

Crónicas de Língua Afiada: CAUTELA E CALDOS DE GALINHA...

CAUTELA E CALDOS DE GALINHA…

Parte I

 Provavelmente menos dispersos, pela redução drástica de saídas para o exterior, agora em casa, algo condicionados, talvez fiquemos mais despertos para as notícias. As manchetes ou breves notas de rodapé, nos diversos meios de comunicação, por vezes surpreendem-nos e conduz-nos a reflexão ou, no mínimo, a um simples questionar. Proliferam frases descontextualizadas, notícias falsas e outras, que procuram cativar a atenção, ou desviar atenções. Os meios de comunicação mais credíveis, são-no porque tendem a investigar, previamente, a fonte e veracidade de cada notícia. Como há acontecimentos que surgem que nem “bombas” e causam tal estardalhaço, que esse apuramento da veracidade é tão diminuto que, sem intencionalidade e sem identificar a fonte, apenas a dizem segura ou nem isso. Outros, sabem o que fazer para fidelizar os mais incautos, que os levam a acreditar em tudo, mesmo em notícias distorcidas e que contém apenas um “cheirinho” de conteúdo verdadeiro. Não será por acaso que surgiu, recentemente, a necessidade de criar o programa televisivo “Polígrafo SIC”, numa parceria com “Polígrafo” – um «projeto jornalístico online que tem como principal objetivo apurar a verdade e não a mentira no espaço público».

Há algumas notícias que parecerem incoerentes, inverosímeis e absurdas, e acabam por nos deixar com “a pulga atrás da orelha”. Vejamos esta: «Remédio antipulgas reduz carga viral do coronavírus…». Escalpelizando o artigo[1], fica-se a saber que «pesquisadores da Universidade Monash [pública, em Melbourne] na Austrália, publicaram, em 3 de abril de 2020, um estudo no qual indicam que o uso de um remédio parasitário (usado contra vermes e parasitas, como piolhos, pulgas, sarna e filariose em humanos e animais) diminuíam a quase zero o material viral do novo coronavírus em testes com células cultivadas em laboratório (…). No entanto, ainda não se sabe se o efeito seria o mesmo em animais vivos», já que se tratou de um teste inicial em células. Fica-se a saber também que o «medicamento ainda precisa passar por muitas etapas de testes antes de ser usado em humanos». Esta, envolve uma Universidade credível e refere testes laboratoriais.

A criação de um medicamento pressupõe que, na sua composição, venha a conter substâncias ativas com propriedades curativas, mas também preventivas. A criação de uma vacina tem outras caraterísticas, por resultar de preparação biológica, grande parte das vezes com algumas substâncias tóxicas, para criar imunidade na população e, assim, erradicar determinadas doenças infeciosas.

«Remédio maldito – 10 mil crianças em 46 países nasceram com malformações[2]»; «Plano de vacinação contra covid-19 – conselho de ética nunca foi ouvido pelo Governo[3]»; «Vacina da Sanofi-GSK ineficaz entre mais velhos[4]»; «Paralisia facial afetou quatro voluntários da vacina Pfizer[5]»; «Apenas 61% dos portugueses estão dispostos a receber a vacina contra a covid-19 de imediato[6]»; «Mutação pode condicionar as vacinas? Não é provável… nem impossível[7]»; «Natal sem restrições pode causar mais 1500 mortes em Portugal por covid-19[8]»; «Natal – DGS aconselha ceia sem avós ou celebrada na véspera[9]»; «2020 é o ano com mais mortes em Portugal[10] – há várias décadas [70 anos] que não se registava uma taxa de mortalidade tão elevada»; «692 mil portugueses não realizaram consultas médicas que estavam marcadas durante o tempo de pandemia[11]»; «Aumento da mortalidade nos primeiros meses da pandemia? As ondas de calor não explicam tudo[12]». Vários canais televisivos mostraram a ministra da saúde – Marta Temido – a justificar o elevado número de mortes, com destaque para o envelhecimento da população, onda de calor, efeitos indiretos da pandemia e covid-19. «Mortalidade entre março e novembro – covid-19 só justifica 4,6% das mortes em Portugal[13]?».

Na verdade, esta amálgama de manchetes e de notas de rodapé dá que pensar.  Para se chegar a um medicamento «é preciso um longo, rigoroso e dispendioso processo» e alguns milhares de pessoas afetadas penosamente, para toda a vida. Para se chegar a uma vacina, ainda deverá ser um mais longo, rigoroso e dispendioso processo, já que poderá tornar-se um flagelo, caso os efeitos nefastos secundários comecem a surgir em elevada escala, em todos os continentes.

Relembrando a informação oficial da DGS algo desastrada e também a muita contrainformação existente, há que estar atento, fazer a triagem da informação, aumentar conhecimento e agir em conformidade, para reduzir a propagação deste novo coronavírus. Entretanto, podemos juntar um pouco da sabedoria popular: «Depressa e bem não há quem», «Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém».

© Jorge Nuno (2020)



[1] Artigo de Matheus Moreira, in Folha de São Paulo.

[2] Exclusivo CMTV, em que é dito que para se chegar a um medicamento «é preciso um longo, rigoroso e dispendioso processo».

[3] SIC, 14-12-2020.

[4] TVI24, 12-12-2020.

[5] Artigo de Mariana Branco, in Ciência&Saúde, 11-12-2020, ficando-se a saber que foram quatro casos entre 21.720 voluntários. 

[6] Sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o Público e RTP, in Público, 16-12-2020.

[7] In Diário de Notícias, 16-12-2020.

[8] RTPNotícias, 13-12-2020.

[9] In Jornal de Notícias, 16-12-2020.

[10] TVI24, 12-12-2020.

[11] Correio da Manhã, citando Agência Lusa, 29-09-2020.

[12] Artigo de Ana Cristina Pereira, in Público, 02-11-2020, com base no estudo do Grupo de Investigação em Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, que cruza «efeitos das ondas de calor e redução dos cuidados prestados a doentes agudos e crónicos sem Covid-19)».

[13] Polígrafo SIC, 15-12-2020, depois de cruzar dados do INE e da DGS, refere estar correta a percentagem, mas não o número de óbitos apresentados numa notícia divulgada nas redes sociais.

03/12/2020

Crónicas de Língua Afiada: HÁ DIAS ASSIM!...

HÁ DIAS ASSIM!...

Portugal deixou de ser o melhor destino turístico do mundo. Empresários da restauração criaram o movimento “Sobreviver a Pão e Água”, alguns entraram em greve de fome e admite-se que 43% das empresas deste setor avança para insolvência, caso não haja apoios imediatos. Está limitada a circulação entre concelhos. Mais de 80% dos hotéis no Algarve estão encerrados. Com atraso no programa Ferrovia 2020, IP – Infraestruturas de Portugal prevê investir[1] 2.175 milhões de euros, até final de 2023, na modernização da via férrea e do material circulante, voltando a falar-se do comboio de alta velocidade, agora entre Lisboa e Porto; o plano de reestruturação da TAP, com previsão de injeção de quantias astronómicas estatais no capital da empresa[2], prevê também a redução de 20 aviões na frota, sendo que a plataforma de sindicatos que representa os trabalhadores da TAP fala na intenção de “reduzir 4600 trabalhadores, num universo de quase 11 mil  trabalhadores em janeiro de 2020” e a direção do Sindicato dos Pilotos da Aviação refere que o plano de reestruturação da TAP implica despedir 500 pilotos[3] e redução de 25% do salário dos que se mantêm. Aumenta o apoio social e, por quebra da economia, agrava-se a colheita de impostos, levando a Comissão Europeia a prever[4] para 2020, uma “contração da economia portuguesa em 9,3%” com “saldo orçamental de -7,3 % [negativo] do PIB” e uma “dívida pública de 135,1% do PIB”. Causa preocupação o aumento exponencial do número de pedidos de apoio ao Banco Alimentar e outras organizações similares… E os dias vão-se repetindo numa toada de “nuvens negras”.

Há dias assim!... Quando pensávamos que, ao menos, iríamos ficar aliviados da sangria do dinheiro dos contribuintes, provocada pelo Novo Banco, após aprovação pela “coligação negativa” no Parlamento da anulação da transferência de mais uma tranche de 476 milhões do Fundo de Resolução, eis que o presidente da República – Marcelo Rebelo de Sousa – e o ministro das Finanças – João Leão – vieram a público afirmar que há indícios de inconstitucionalidade nesta decisão do Parlamento, pelo que a decisão poderá ser revertida. Sem esperar pela decisão do Tribunal Constitucional, o primeiro-ministro – António Costa –, via telefone, sossegou a presidente do Banco Central Europeu – Christine Lagarde – assegurando-lhe que o Estado português vai cumprir o contrato relacionado com o Novo Banco, assumido na venda, mesmo não estando autorizado a injetar dinheiro neste banco, por não constar no OE para 2021.     

Com a economia a ficar de pantanas, parece que a questão dos idosos no país ficou para quinto ou sexto plano, aparentando não ser algo prioritário, pelo menos deduzia-se tal pelo esboço do plano de vacinação à covid-19. A polémica diretora-geral da Saúde – Graça Freitas – apresentou, num encontro de trabalho com peritos, um plano preliminar do organismo que lidera, sendo essa tarefa feita e proposta por um grupo coordenador de vacinação criado para o efeito. Devido a fuga de informação, foi criado um estridente ruído e o caso não era para menos. O jornal Expresso apressou-se a divulgar que “no fim da lista de prioridades está o grupo de pessoas com mais de 65 anos”. Dito assim… choca! E pelos relatos, terá chocado os peritos neste encontro, deixando incrédulos os portugueses mais atentos. Ainda mais por na Alemanha, a chanceler Angela Merkel ter anunciado que os idosos serão a primeira prioridade na vacinação, e a justificação é simples: é a população mais vulnerável, que mais ocupa as camas das enfermarias e unidades de cuidados intensivos, e a que tem maior índice de mortalidade. Em Portugal, o Ministério da Saúde não tardou a emitir um comunicado, não desmentindo, mas esclarecendo que “as informações vindas a público” relacionadas com o plano de vacinação “estão incluídas num documento meramente técnico e são parcelares e desatualizadas”, referindo também que “a estratégia de vacinação contra a covid-19, em preparação pela Direção-Geral de Saúde, ainda não foi discutida com o Ministério da Saúde nem validada politicamente”. Também a estação de televisão SIC anunciou que “as pessoas com mais de 75 anos ficarão de fora do plano de vacinação, já que as farmacêuticas [envolvidas no desenvolvimento e fabrico das vacinas] e a Agência Europeia do Medicamento não apresentaram provas suficientes sobre a eficácia da vacina neste grupo etário”. O Secretário de Estado Adjunto e da Saúde – António Lacerda Sales –, numa conferência de imprensa em Beja, não perdeu tempo a afirmar que “os idosos, como os doentes com comorbilidade, serão uma prioridade para este Governo, aliás como tem sido uma prática sempre deste Governo priorizar as faixas mais vulneráveis”; adiantou também que “há determinadas vacinas” que, devido a critérios técnicos, têm “uma indicação para determinadas faixas etárias”, mas essa “é a única limitação, porque, “para este Governo não há nenhuma limitação de idade”. O presidente da República afirmou que “não há decisão nenhuma, muito menos há uma decisão que seja uma decisão tonta (…) é de presumir que as pessoas responsáveis não tenham ideias tontas”. O primeiro ministro também se apressou a afirmar que os cidadãos com idades superiores a 75 anos, sem doenças graves, poderão vir a ter acesso prioritário a essas vacinas; escreveu mesmo no Twitter: “Não é admissível desistir de proteger a vida em função da idade (…) há critérios técnicos que nunca poderão ser aceites pelos responsáveis políticos”, ficando a ideia que esta onda de indignação terá sido serenada logo à nascença. Há dias assim!... E a responsável da DGS continua algo desastrada na comunicação, tal como quando referiu, em 22 de março de 2020, que “as máscaras dão uma falsa sensação de segurança”.

Dois estudos da DECO[5], realizados junto de 2250 inquiridos, contrariaram algumas das afirmações do Secretário de Estado Adjunto da Saúde, pois alertam para a deterioração da qualidade de vida de idosos em lares, com elevado de “tempo de espera por vagas, valor incomportável dos lares para idosos e deterioração da sua qualidade de vida e saúde durante a pandemia de covid-19 (…) expôs, de forma inquestionável as debilidades dos atuais modelos”, abordando a “desproteção a que está votada uma parte vulnerável e crescente da população portuguesa” e apela à “revisão do modelo estrutural das instituições”.

Há dias assim!... Num arejar do ar, a aliviar as tais “nuvens negras”, surge a imagem, na RTP, de Ursula von der Leyer, presidente da Comissão Europeia, numa sua entrevista a esta estação televisiva, onde afirma: “Tenho boas notícias para Portugal, porque a partir de amanhã [1 de dezembro de 2020] Portugal irá receber a primeira tranche do programa de auxílio que disponibilizará 3 mil milhões de euros. E o programa de auxílio apoia empresas e trabalhadores. Diz às empresas para não porem os empregados em layoff, mesmo que não haja trabalho suficiente a fazer, mantenham-nas nas empresas. Nós iremos subsidiar os salários (…) para que as empresas fiáveis [viáveis?] se mantenham em operação e quando a crise terminar e o mercado melhorar, poderão aceitar as encomendas, porque têm o pessoal habilitado nas empresas. É para isso que servem os 3 mil milhões do programa de auxílio”. Não foi referido, mas esta tranche é a fundo perdido. Mais tranches virão, mas com pagamento de juros, a pagar pelo contribuinte, aumentando ainda mais a elevada dívida do Estado, que atingiu, por agora, o recorde de 334,4 milhões de euros[6]. Resta a esperança que estas tranches de auxílio sejam aplicadas corretamente, com supervisão com “malha de pente fino”, para que estimulem a retoma da economia e criem condições à melhoria efetiva das condições de vida dos cidadãos.

© Jorge Nuno (2020)

Obs.: Crónica publicada hoje na BIRD Magazine



[1] Com verbas canalizadas do Orçamento de Estado.

[2] O Jornal Económico, em 22 de maio de 2020, com base numa fonte, afirmava a necessidade de injetar capital na ordem dos mil milhões de euros (e em julho de 2020 apontava-se 1,200 mil milhões de euros)

[3] Informação divulgada pela Agência Lusa, em 28 de novembro de 2020.

[4] Dados mais recentes, divulgados pela Agência Lusa, em 5 de novembro de 2020.

[5] Noticiado pela Agência Lusa, em 26 de novembro de 2020.

[6] Valor referente ao setor público, publicado no Boletim Estatístico do Banco de Portugal, em 20 de outubro de 2020.

19/11/2020

Crónicas Leves: Em Dia Internacional do Homem

Em Dia Internacional do Homem

 

Hoje, dia 19 de novembro, é celebrado o Dia Internacional do Homem. Acontece em cerca de 40 países do mundo, incluindo em Portugal – apesar de passar despercebido à maioria da população. Na verdade, esta comemoração não consta da lista de eventos apoiados pela Organização das Nações Unidas [ONU], mesmo que o objetivo mais amplo da comemoração seja promover os valores humanitários básicos, algo para que a ONU está vocacionada.

Como há tanta preocupação com a igualdade de género, com o Dia Internacional da Mulher a ser comemorado desde 1909, poder-se-ia dizer que se estranha como durou 90 anos até se criar este dia, especialmente dedicado aos homens.

Eis os cinco pilares do Dia Internacional do Homem[1], que assentam no seguinte:

– Promover papéis masculinos positivos (…) de homens do dia a dia, cujas vidas são decentes e honestas;

– Comemorar as contribuições masculinas positivas para a sociedade, comunidade, vizinhança, família, casamento, guarda de crianças e meio ambiente;

– Focar na saúde e bem-estar do homem: social, mental, emocional, físico e espiritual;

– Destacar a descriminação contra os homens e meninos, nas áreas de serviços sociais, nas atitudes e expetativas sociais e no direito;

– Criar um mundo mais seguro e melhor, onde as pessoas possam sentir-se seguras e crescer para alcançar seu pleno potencial.

Com a habitual visão irónica e diferente, Osho questiona[2]: «(…) Onde se encontra a verdadeira essência da masculinidade? O que significa, às portas de uma nova era, ser-se homem? Será possível repensar a identidade masculina, de forma a torná-la uma parte fundamental da construção de um mundo melhor?» A dado passo diz-nos que «a libertação do homem ainda está por acontecer. Tal como as mulheres, os homens precisam de um grande movimento de libertação – libertação do passado, libertação de uma escravatura de valores que negam a vida e libertação dos condicionalismos sociais impostos à humanidade por todas as religiões durante milhares de anos». Para ele, «a vida pode ser vivida de duas formas: como um cálculo – na ciência, tecnologia, matemática ou economia – ou como um poema – na arte, música, beleza e amor. (…) O homem acaba por se desviar da sua verdadeira natureza e do seu ser original, perdendo a capacidade de ser feliz sem motivo aparente. (…) O homem acaba por perder o acesso às suas capacidades femininas de sensibilidade, delicadeza, amor e intuição, transformando-o em mero robô: racional, eficiente e sem sentimentos. (…) A minha visão do novo homem é a de um rebelde, de um homem que procura o seu ser original e a sua face original. Um homem disposto a tirar todas as máscaras, pretensões e hipocrisias, mostrando ao mundo o que realmente é».

A tarefa interna, preconizada por Osho – que conduzirá a um mundo bem melhor –, será muito facilitada se houver a busca de um sentido por parte do homem e que será a sua alavanca motivacional.

Mas apesar das boas intenções na criação deste Dia Internacional, seria bom pensarmos que estará na hora de cada um deixar de “puxar a brasa à sua sardinha” ou de apenas “cuidar do seu quintalinho”. Homens, mulheres, jovens e crianças, juntos, podem fazer com que aconteçam coisas fantásticas. Exemplo disso, foi o surgimento de um coro com cerca de 3000 pessoas de vários grupos etários, que não se conheciam e a convite, em Haifa – Israel, juntaram-se embalados pelo som de uma música vibrante e cantaram, em três línguas, aquilo que se pode considerar a celebração da coexistência. Eis um “cheirinho” da letra, traduzida para português: «Um dia… / às vezes eu me deito sob a lua / e agradeço a Deus por estar respirando / e então oro e peço / para não me levantar cedo / porque estou aqui por uma razão / às vezes me afogo em lágrimas / mas nunca deixo que isso me derrube / e quando algo negativo me envolve / eu sei que um dia tudo vai mudar / pois toda a minha vida tenho esperado / tenho orado / para as pessoas dizerem: não queremos mais brigar / que não haverá mais guerras / e as nossas crianças irão brincar / um dia… / um dia tudo isso irá mudar / trate todos igualmente / vamos parar com a violência / vamos parar com o ódio / pare!».

Este, numa primeira fase, bem podia ser um hino inspirador do Dia Internacional do Ser Humano, pela aceitação da diferença e coexistência pacífica dos povos, sem necessidade de especificar “homem”, “mulher” ou “criança”, já que haveria alicerces para a criação de um mundo mais seguro e melhor.

William Butler Yeats[3] deixou-nos o belíssimo poema: «Tivesse eu os tecidos bordados dos céus / lavrados com a prata e o ouro da luz / os tecidos azuis e foscos e de breu / que têm a noite, a luz e a meia-luz / estenderia esses tecidos a teus pés; / mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos; / são os meus sonhos que eu estendi a teus pés; / sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos».

Ousemos conhecermo-nos melhor, manter a máscara facial de segurança por mais uns tempos, e deixar cair agora a outra máscara. Ousemos reconhecer o valor das emoções positivas na promoção da saúde e bem-estar e fazer algo nesse sentido. Ousemos interagir, partilhando esse ânimo e positividade, mesmo que nos imponham distanciamento social. Ousemos apreciar a vida e vivê-la com “descomplicómetro” e de forma simples. Ousemos sonhar, não deixando que os nossos sonhos individuais e/ou coletivos sejam maltratados. Hoje, em vez de “Homem” ou “Ser Humano”, até poderia ser o Dia Internacional de “Qualquer Coisa”… e bastaria um pequeno esforço nas transformações pessoais para nos fazer acreditar que uma nova era está aí.

© Jorge Nuno (2020)



[1] In Wikipédia

[2] In “O Livro do Homem – As Facetas do Masculino”, com excertos de obras selecionadas de Osho (1931-1990).

[3] Poeta irlandês (1865-1939)

05/11/2020

Crónicas Leves: DINHEIRO E COUVES DE BRUXELAS

DINHEIRO E COUVES DE BRUXELAS

 

Os portugueses andam preocupados, naturalmente, com as consequências da segunda vaga da pandemia que se instalou no país e no mundo, e que parece ter vindo para ficar. São empregos que se perdem e, em imensos casos, redução de rendimentos das famílias; dispara o número de pedidos de ajuda alimentar; aumenta sistematicamente o número de infetados, tal como o número de internamentos hospitalares e nas unidades de cuidados intensivos, com os serviços do SNS a ficar em rutura; incerteza quanto ao resultado das estratégias de ziguezague adotadas para o combate à pandemia, com falta de lógica e incoerência à mistura, o que agrava a situação pelo “baixar da guarda”, originada pela falta de credibilidade nas diretrizes e em quem as emite.  

 

Há demasiada incerteza quanto a um futuro próximo. São factos que abalam a estabilidade emocional e física do cidadão. A saúde mental dos portugueses está a ficar preocupante e talvez não se esteja a dar a devida atenção ao assunto, tal como não se dá a outras patologias. Chega-nos a ideia que o foco do governo estará na pandemia e na minimização dos estragos. O Orçamento de Estado para 2021 reflete preocupações sociais, sabendo que haverá inevitavelmente decréscimo da produção, com diminuição do PIB, sendo que os mais recentes indicadores económicos refletem uma estranha ligeira subida das exportações e uma diminuição bem maior das importações, fruto da evidente falta de poder de compra dos portugueses.

 

A Comissão Europeia, consciente das dificuldades que os Estados-membros irão atravessar nos anos que se seguem, fez o que lhe competia – delinear um plano de recuperação económica – mas que esbarra com a burocracia instalada no Parlamento Europeu, própria da regulamentação e das necessárias consultas e negociações com todos governos dos 27 países que compõem a União Europeia. Até chegar à aprovação final e chegada do dinheiro a cada um desses países, serão demasiados longos meses para um cidadão que não tem dinheiro para colocar na mesa algo para comer, nem espera que alguma vez lhe chegue aos bolsos qualquer importância para adquirir, sequer, simples couves de Bruxelas.

Mas esse dinheiro, vindo de Bruxelas, irá chegar ao país. Já foram noticiadas verbas distintas; há quem aponte para mais de 58 mil milhões de euros [MM€], durante dez anos, a um ritmo de cerca de 6 MM€ / ano.  Poderão ser 45 MM€ de fundos europeus, a fundo perdido, e mais de 12 MM€ por empréstimo. Estas importâncias aguçam o apetite e já se aprontam os comilões do costume para chegar ao pote, que vai ser posto ao lume. Com a população adormecida e dócil – quando se fala da perda de direitos, liberdades e garantias, que deviam ser asseguradas pela Constituição da República Portuguesa, esquecida na gaveta – parece mais fácil meter-se a mão na massa.

Devemos estar preocupados com a boa aplicação e controlo do dinheiro europeu, pois espera-se que essas elevadíssimas quantias sirvam para a recuperação económica do país. Lembra-se o Índice de Perceção da Corrupção (CPI) em Portugal, disponível através do relatório anual de 2019, elaborado pela Transparência Internacional e divulgado no site da Transparência e Integridade, onde se lê na capa deste: «É urgente implementar uma verdadeira estratégia nacional contra a corrupção». É que Portugal tem 62 pontos, numa escala de 0 a 100 – fica abaixo da média da Europa Ocidental (66) e abaixo da média da União Europeia (64), ocupando a posição 30 num grupo de 180 países. Nesse relatório também se pode ler: “Os resultados demonstram que os países mais bem classificados no CPI são os que têm políticas de transparência proativas, designadamente no que se refere ao financiamento político, à regulação do lóbi e de conflitos de interesses, e a mecanismos eficientes de consulta pública”. Em Portugal não está a funcionar a entidade da transparência, que era suposto fiscalizar os rendimentos dos políticos e titulares de cargos públicos; não são recrutados os recursos humanos necessários, particularmente técnicos informáticos; nem estará pronta a funcionar a plataforma que irá analisar as declarações apresentadas.

O jornalismo de investigação tem feito um trabalho incómodo, onde todas as semanas surgem novos casos de corrupção, fuga ao fisco, branqueamento de capitais… mas as suspeições fundamentadas ocasionam ruído no momento e acabam por “cair em saco roto”. Recentemente, o Diretor Nacional da Polícia Judiciária (PJ) disse que Portugal não é um país corrupto, mas precisa de mais inspetores. A verdade é que o número de inspetores da PJ é bastante menor do que há uns anos, o que será mais impeditivo de mais ação no combate à corrupção. No papel, será um pacote legislativo com bons princípios, mas sem meios de combate à corrupção, transformando-se num processo de intenções para fazer crer que há interesse no combate à corrupção e enriquecimento ilícito. As estratégias são moldadas em gabinetes, sem consulta prévia. A Comissão de Ética da Assembleia da República não mostra trabalho, quando se aborda a corrupção. Os megaprocessos jurídicos acabam por atrasar demasiado a aplicação da justiça, permitindo que os infratores se passeiem impunemente, continuando a atividade criminosa. A antever a chegada do dinheiro de Bruxelas, regista-se a “coincidência” do afastamento da anterior Procuradora-Geral da República e do Presidente do Tribunal de Contas, não renovando a sua continuidade – que pode ser um mau indicador – e as presidências das Comissões de Coordenação Regional (CCDR) a negociadas entre os dois maiores partidos políticos que mostram, neste caso, convergências de interesses. Lembra-se que as CCDR, como serviços descentralizados da administração central, são «dotadas de autonomia administrativa e financeira, incumbidas de executar medidas proveitosas para o desenvolvimento das respetivas regiões (…)», o que faz pressupor que, entrado o dinheiro, é gerido autonomamente em que, pelo passado recente, deixa dúvidas (ou pior, certezas) quanto a “códigos de conduta”.

 

Escreveu George Orwell: «É preciso uma luta constante para ver aquilo que está mesmo à frente dos nossos olhos». Neste caso, acrescenta-se: e se aquilo não é eticamente bonito de ver, haja coragem, fazendo uso de proatividade, para exigir a criação dos meios adequados, pois espera-se, em prol de todos, a devida aplicação do dinheiro vindo de Bruxelas, e ainda mais pelo empréstimo vir a ser liquidado com dinheiro dos contribuintes.  

  

© Jorge Nuno (2020)