19/11/2020

Crónicas Leves: Em Dia Internacional do Homem

Em Dia Internacional do Homem

 

Hoje, dia 19 de novembro, é celebrado o Dia Internacional do Homem. Acontece em cerca de 40 países do mundo, incluindo em Portugal – apesar de passar despercebido à maioria da população. Na verdade, esta comemoração não consta da lista de eventos apoiados pela Organização das Nações Unidas [ONU], mesmo que o objetivo mais amplo da comemoração seja promover os valores humanitários básicos, algo para que a ONU está vocacionada.

Como há tanta preocupação com a igualdade de género, com o Dia Internacional da Mulher a ser comemorado desde 1909, poder-se-ia dizer que se estranha como durou 90 anos até se criar este dia, especialmente dedicado aos homens.

Eis os cinco pilares do Dia Internacional do Homem[1], que assentam no seguinte:

– Promover papéis masculinos positivos (…) de homens do dia a dia, cujas vidas são decentes e honestas;

– Comemorar as contribuições masculinas positivas para a sociedade, comunidade, vizinhança, família, casamento, guarda de crianças e meio ambiente;

– Focar na saúde e bem-estar do homem: social, mental, emocional, físico e espiritual;

– Destacar a descriminação contra os homens e meninos, nas áreas de serviços sociais, nas atitudes e expetativas sociais e no direito;

– Criar um mundo mais seguro e melhor, onde as pessoas possam sentir-se seguras e crescer para alcançar seu pleno potencial.

Com a habitual visão irónica e diferente, Osho questiona[2]: «(…) Onde se encontra a verdadeira essência da masculinidade? O que significa, às portas de uma nova era, ser-se homem? Será possível repensar a identidade masculina, de forma a torná-la uma parte fundamental da construção de um mundo melhor?» A dado passo diz-nos que «a libertação do homem ainda está por acontecer. Tal como as mulheres, os homens precisam de um grande movimento de libertação – libertação do passado, libertação de uma escravatura de valores que negam a vida e libertação dos condicionalismos sociais impostos à humanidade por todas as religiões durante milhares de anos». Para ele, «a vida pode ser vivida de duas formas: como um cálculo – na ciência, tecnologia, matemática ou economia – ou como um poema – na arte, música, beleza e amor. (…) O homem acaba por se desviar da sua verdadeira natureza e do seu ser original, perdendo a capacidade de ser feliz sem motivo aparente. (…) O homem acaba por perder o acesso às suas capacidades femininas de sensibilidade, delicadeza, amor e intuição, transformando-o em mero robô: racional, eficiente e sem sentimentos. (…) A minha visão do novo homem é a de um rebelde, de um homem que procura o seu ser original e a sua face original. Um homem disposto a tirar todas as máscaras, pretensões e hipocrisias, mostrando ao mundo o que realmente é».

A tarefa interna, preconizada por Osho – que conduzirá a um mundo bem melhor –, será muito facilitada se houver a busca de um sentido por parte do homem e que será a sua alavanca motivacional.

Mas apesar das boas intenções na criação deste Dia Internacional, seria bom pensarmos que estará na hora de cada um deixar de “puxar a brasa à sua sardinha” ou de apenas “cuidar do seu quintalinho”. Homens, mulheres, jovens e crianças, juntos, podem fazer com que aconteçam coisas fantásticas. Exemplo disso, foi o surgimento de um coro com cerca de 3000 pessoas de vários grupos etários, que não se conheciam e a convite, em Haifa – Israel, juntaram-se embalados pelo som de uma música vibrante e cantaram, em três línguas, aquilo que se pode considerar a celebração da coexistência. Eis um “cheirinho” da letra, traduzida para português: «Um dia… / às vezes eu me deito sob a lua / e agradeço a Deus por estar respirando / e então oro e peço / para não me levantar cedo / porque estou aqui por uma razão / às vezes me afogo em lágrimas / mas nunca deixo que isso me derrube / e quando algo negativo me envolve / eu sei que um dia tudo vai mudar / pois toda a minha vida tenho esperado / tenho orado / para as pessoas dizerem: não queremos mais brigar / que não haverá mais guerras / e as nossas crianças irão brincar / um dia… / um dia tudo isso irá mudar / trate todos igualmente / vamos parar com a violência / vamos parar com o ódio / pare!».

Este, numa primeira fase, bem podia ser um hino inspirador do Dia Internacional do Ser Humano, pela aceitação da diferença e coexistência pacífica dos povos, sem necessidade de especificar “homem”, “mulher” ou “criança”, já que haveria alicerces para a criação de um mundo mais seguro e melhor.

William Butler Yeats[3] deixou-nos o belíssimo poema: «Tivesse eu os tecidos bordados dos céus / lavrados com a prata e o ouro da luz / os tecidos azuis e foscos e de breu / que têm a noite, a luz e a meia-luz / estenderia esses tecidos a teus pés; / mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos; / são os meus sonhos que eu estendi a teus pés; / sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos».

Ousemos conhecermo-nos melhor, manter a máscara facial de segurança por mais uns tempos, e deixar cair agora a outra máscara. Ousemos reconhecer o valor das emoções positivas na promoção da saúde e bem-estar e fazer algo nesse sentido. Ousemos interagir, partilhando esse ânimo e positividade, mesmo que nos imponham distanciamento social. Ousemos apreciar a vida e vivê-la com “descomplicómetro” e de forma simples. Ousemos sonhar, não deixando que os nossos sonhos individuais e/ou coletivos sejam maltratados. Hoje, em vez de “Homem” ou “Ser Humano”, até poderia ser o Dia Internacional de “Qualquer Coisa”… e bastaria um pequeno esforço nas transformações pessoais para nos fazer acreditar que uma nova era está aí.

© Jorge Nuno (2020)



[1] In Wikipédia

[2] In “O Livro do Homem – As Facetas do Masculino”, com excertos de obras selecionadas de Osho (1931-1990).

[3] Poeta irlandês (1865-1939)

05/11/2020

Crónicas Leves: DINHEIRO E COUVES DE BRUXELAS

DINHEIRO E COUVES DE BRUXELAS

 

Os portugueses andam preocupados, naturalmente, com as consequências da segunda vaga da pandemia que se instalou no país e no mundo, e que parece ter vindo para ficar. São empregos que se perdem e, em imensos casos, redução de rendimentos das famílias; dispara o número de pedidos de ajuda alimentar; aumenta sistematicamente o número de infetados, tal como o número de internamentos hospitalares e nas unidades de cuidados intensivos, com os serviços do SNS a ficar em rutura; incerteza quanto ao resultado das estratégias de ziguezague adotadas para o combate à pandemia, com falta de lógica e incoerência à mistura, o que agrava a situação pelo “baixar da guarda”, originada pela falta de credibilidade nas diretrizes e em quem as emite.  

 

Há demasiada incerteza quanto a um futuro próximo. São factos que abalam a estabilidade emocional e física do cidadão. A saúde mental dos portugueses está a ficar preocupante e talvez não se esteja a dar a devida atenção ao assunto, tal como não se dá a outras patologias. Chega-nos a ideia que o foco do governo estará na pandemia e na minimização dos estragos. O Orçamento de Estado para 2021 reflete preocupações sociais, sabendo que haverá inevitavelmente decréscimo da produção, com diminuição do PIB, sendo que os mais recentes indicadores económicos refletem uma estranha ligeira subida das exportações e uma diminuição bem maior das importações, fruto da evidente falta de poder de compra dos portugueses.

 

A Comissão Europeia, consciente das dificuldades que os Estados-membros irão atravessar nos anos que se seguem, fez o que lhe competia – delinear um plano de recuperação económica – mas que esbarra com a burocracia instalada no Parlamento Europeu, própria da regulamentação e das necessárias consultas e negociações com todos governos dos 27 países que compõem a União Europeia. Até chegar à aprovação final e chegada do dinheiro a cada um desses países, serão demasiados longos meses para um cidadão que não tem dinheiro para colocar na mesa algo para comer, nem espera que alguma vez lhe chegue aos bolsos qualquer importância para adquirir, sequer, simples couves de Bruxelas.

Mas esse dinheiro, vindo de Bruxelas, irá chegar ao país. Já foram noticiadas verbas distintas; há quem aponte para mais de 58 mil milhões de euros [MM€], durante dez anos, a um ritmo de cerca de 6 MM€ / ano.  Poderão ser 45 MM€ de fundos europeus, a fundo perdido, e mais de 12 MM€ por empréstimo. Estas importâncias aguçam o apetite e já se aprontam os comilões do costume para chegar ao pote, que vai ser posto ao lume. Com a população adormecida e dócil – quando se fala da perda de direitos, liberdades e garantias, que deviam ser asseguradas pela Constituição da República Portuguesa, esquecida na gaveta – parece mais fácil meter-se a mão na massa.

Devemos estar preocupados com a boa aplicação e controlo do dinheiro europeu, pois espera-se que essas elevadíssimas quantias sirvam para a recuperação económica do país. Lembra-se o Índice de Perceção da Corrupção (CPI) em Portugal, disponível através do relatório anual de 2019, elaborado pela Transparência Internacional e divulgado no site da Transparência e Integridade, onde se lê na capa deste: «É urgente implementar uma verdadeira estratégia nacional contra a corrupção». É que Portugal tem 62 pontos, numa escala de 0 a 100 – fica abaixo da média da Europa Ocidental (66) e abaixo da média da União Europeia (64), ocupando a posição 30 num grupo de 180 países. Nesse relatório também se pode ler: “Os resultados demonstram que os países mais bem classificados no CPI são os que têm políticas de transparência proativas, designadamente no que se refere ao financiamento político, à regulação do lóbi e de conflitos de interesses, e a mecanismos eficientes de consulta pública”. Em Portugal não está a funcionar a entidade da transparência, que era suposto fiscalizar os rendimentos dos políticos e titulares de cargos públicos; não são recrutados os recursos humanos necessários, particularmente técnicos informáticos; nem estará pronta a funcionar a plataforma que irá analisar as declarações apresentadas.

O jornalismo de investigação tem feito um trabalho incómodo, onde todas as semanas surgem novos casos de corrupção, fuga ao fisco, branqueamento de capitais… mas as suspeições fundamentadas ocasionam ruído no momento e acabam por “cair em saco roto”. Recentemente, o Diretor Nacional da Polícia Judiciária (PJ) disse que Portugal não é um país corrupto, mas precisa de mais inspetores. A verdade é que o número de inspetores da PJ é bastante menor do que há uns anos, o que será mais impeditivo de mais ação no combate à corrupção. No papel, será um pacote legislativo com bons princípios, mas sem meios de combate à corrupção, transformando-se num processo de intenções para fazer crer que há interesse no combate à corrupção e enriquecimento ilícito. As estratégias são moldadas em gabinetes, sem consulta prévia. A Comissão de Ética da Assembleia da República não mostra trabalho, quando se aborda a corrupção. Os megaprocessos jurídicos acabam por atrasar demasiado a aplicação da justiça, permitindo que os infratores se passeiem impunemente, continuando a atividade criminosa. A antever a chegada do dinheiro de Bruxelas, regista-se a “coincidência” do afastamento da anterior Procuradora-Geral da República e do Presidente do Tribunal de Contas, não renovando a sua continuidade – que pode ser um mau indicador – e as presidências das Comissões de Coordenação Regional (CCDR) a negociadas entre os dois maiores partidos políticos que mostram, neste caso, convergências de interesses. Lembra-se que as CCDR, como serviços descentralizados da administração central, são «dotadas de autonomia administrativa e financeira, incumbidas de executar medidas proveitosas para o desenvolvimento das respetivas regiões (…)», o que faz pressupor que, entrado o dinheiro, é gerido autonomamente em que, pelo passado recente, deixa dúvidas (ou pior, certezas) quanto a “códigos de conduta”.

 

Escreveu George Orwell: «É preciso uma luta constante para ver aquilo que está mesmo à frente dos nossos olhos». Neste caso, acrescenta-se: e se aquilo não é eticamente bonito de ver, haja coragem, fazendo uso de proatividade, para exigir a criação dos meios adequados, pois espera-se, em prol de todos, a devida aplicação do dinheiro vindo de Bruxelas, e ainda mais pelo empréstimo vir a ser liquidado com dinheiro dos contribuintes.  

  

© Jorge Nuno (2020)

01/07/2020

Crónicas Leves: OH SANTA IGNORÂNCIA!...


Oh Santa Ignorância!...

«O mundo começa a assistir ao incremento do poder do povo. Quando os indivíduos, no mundo inteiro, começarem a aceitar a responsabilidade pessoal, farão as suas próprias escolhas. Por todo o mundo, os cidadãos exigem liberdade, honestidade, paz e justiça. O velho paradigma de líderes e liderados, de ricos e pobres, de autoridade e submissão, de visões políticas adversárias ou de ditaduras está a perder a sua eficácia. A cocriação e a cooperação estão já a tornar-se possibilidades»[1]. Este extrato da obra de Diana Cooper mostra-nos uma projeção para a realidade atual e futuro próximo. Já há uns anos que se verifica uma agitação de massas por todo o mundo, sempre em crescendo. Muita dessa luta faz sentido e tem como fim, supostamente, provocar mudança. Contudo, há casos de instrumentalização, de abusos, aproveitamento político e até aproveitamento pessoal, quando se fala do envolvimento direto na luta.

Alguns dos casos mais recentes surgiram após abuso policial sobre cidadãos negros, que levou à indignação de milhões de cidadãos nos Estados Unidos da América, com manifestações nas ruas, destruição de bens públicos e privados, pilhagens, paragem da atividade económica na maioria das cidades daquele país… que se estendeu a outros países, noutros continentes. Começou então um movimento para destruir todas as marcas do colonialismo, da escravatura, da supremacia branca sobre a raça negra, sendo um ato de fé a destruição das estátuas representativas de figuras que tiveram o seu papel na história, nem sempre pelas melhores razões, aos olhos de quem observa a história alguns séculos depois. Com a pressão de populares nos protestos antirracistas, e com anuência forçada do poder político em diversos países, têm vindo a ser retiradas estátuas que, de algum modo, estejam associadas à escravatura e subjugação da raça negra, embora se saiba que não se apaga a história ocultando as parte menos boas.

Retemos na memória um acontecimento de 2001, em que assistimos, perplexos, à destruição de estátuas gigantes de Buda, esculpidas nas rochas (com 55 e 38 metros de altura), no século V, em Bamiyan, na antiga rota da seda, que ligava a China à Índia. As estátuas e a “paisagem cultural” estavam classificadas na lista de Património Mundial, pela UNESCO. Quem deu ordem de destruição foi o governo fundamentalista islâmico talibã, no Afeganistão.

Em Portugal, parece ter-se seguido algum fundamentalismo nos protestos, a par de ignorância, em que indivíduos, a coberto da noite, vandalizaram alguns espaços. A estátua do Pe. António Vieira, rodeado de crianças indígenas, foi um deles. Na sua base escreveram a palavra “Descoloniza” e borraram a sua cara a tinta vermelha, e desenharam corações vermelhos sobre o peito das crianças. Qualquer pessoa, minimamente culta, sabe situar a época em que viveu o Pe. António Vieira, o seu caráter e a sua obra. Por estar devidamente documentado e para que não haja dúvidas: viveu entre 1608 e 1697; a sua mãe era filha de uma africana; pertenceu à Companhia de Jesus, logo, era jesuíta; notabilizou-se como orador/pregador, na filosofia e teologia, na escrita, no seu papel como missionário no Brasil, como diplomata e conviveu de perto com a realeza e com dois papas.

É conhecido o papel do Pe. António Vieira como grande defensor, na corte, dos judeus que vinham a ser forçados a converter-se ao cristianismo[2], ou eram expulsos de Portugal, ou iam “voluntariamente” para o Brasil, pois entendia que os judeus eram livres de fazer a sua escolha; e foi um grande defensor dos direitos dos povos indígenas, explorados e ultrajados pelos colonos portugueses no Brasil. Há que reconhecer: numa época em que estava instituída a escravização, ter ousadia de pedir insistentemente a abolição da escravatura, revela ser um homem de coragem!

Mas vamos ao resumo dos factos cronológicos com maior destaque:
1654 – Vindo do Brasil, pediu ao rei D. João IV de Portugal, “providências favoráveis aos índios [do Estado do Maranhão]”;
1661 – Foi expulso do Estado do Maranhão, por combater a escravidão dos índios;
1667 – Por ter entrado em conflito com o Tribunal do Santo Ofício – a Inquisição de má memória, pelas atrocidades cometidas – ao ousar criticar a atuação do clero, conivente com atos pouco consentâneos com a doutrina da igreja, acabou por ser acusado de heresia pelo apoio à causa dos direitos dos judeus e pelos seus manuscritos “sebastianistas”, sendo proferida a sentença «… seja privado para sempre da voz ativa e passiva e do poder de pregar…», pelo que ficou preso em Coimbra;
1668 – Foi amnistiado pelo rei D. Pedro II de Portugal;
1669 – Em Roma, combateu a Inquisição Portuguesa e o papa Clemente IX anulou as suas condenações e penas;
1675 – O papa Clemente X isentou-o «por toda a vida de qualquer jurisdição, poder e autoridade dos inquisidores presentes e futuros de Portugal»;
1690 – Promoveu a missão entre os índios Cariris, da Bahia, Brasil, financiando-a com o lucro da venda dos seus livros;
1694 – Emitiu um parecer favorável da liberdade dos índios, contra as administrações particulares da capitania de São Paulo, Brasil.

Como se tudo isto não chegasse… o Pe. António Vieira deixou-nos um importante legado cultural, com um valioso património literário. Ainda nos dias de hoje se continua a investigar este património, reunindo-se documentação produzida por ele, envolvendo o Brasil e vários países europeus. Estão ao nosso alcance cartas, obras proféticas, escritos políticos, e principalmente os seus “Sermões”, no âmbito de temas políticos e missionários, sendo o mais célebre o “Sermão de Santo António aos Peixes”, pregado em São Luís do Maranhão, em 1654. Sobre este, aqui fica um pequeno excerto: «(…) Porque os grandes têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos, senão que devoram e engolem os povos inteiros. E de que modo os devoram e comem? Não como os outros comeres, senão como pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses do ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come; e isto é o que padecem os pequenos: são o pão quotidiano dos grandes; e assim como pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem. Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e ao olhardes uns para os outros vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade. (…) Mas se entre vós se acham acaso alguns dos que, seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e tornam para os mares pátrios, bem ouviram estes lá no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos, quando lá chegam acham outros maiores que os comam também a eles (…)».

O Pe. António Vieira foi um lutador, não pela espada, mas pela palavra, tendo pugnado pela honestidade, liberdade e justiça entre os homens, mesmo que, com a sua coragem, tivesse de abdicar da paz. Os indígenas tratavam-no por “paiaçu”, que significa em Tupi “grande padre / pai”, tal era o enorme respeito que tinham por ele.

Oh santa ignorância… de quem conspurcou a estátua que perpetuava a sua memória!

© Jorge Nuno (2020)      


[1] In “2032 – A Nova Idade de Ouro”, p. 98, de Diana Cooper, com 1.ª edição em setembro de 2012, Ed. Nascente.
[2] cristãos novos

17/06/2020

Crónicas Leves: LEMBRANÇA - MUDANÇA - ESPERANÇA - Parte II


LEMBRANÇA – MUDANÇA – ESPERANÇA

Parte II

Por ocasião da inauguração do túnel do Marão, fiz uma abordagem às caraterísticas únicas do território transmontano, às suas gentes e à importância deste projeto e da autoestrada A4, tão necessários ao desenvolvimento da região. Decorridos quatro anos, em plena pandemia, foi estranho e confrangedor observar a falta de tráfego no túnel e autoestrada, fronteiras fechadas e a paralisação da vida económica e social. Sem estar centrado na pandemia, no nordeste transmontano, este texto não deixa de refletir essa estranheza, finalizando, nesta segunda parte, com uma abordagem ao que se intui serem as caraterísticas da população transmontana mais esclarecida e resiliente.        

Foi por esta fronteira [Quintanilha] que saí pela primeira vez do país, ainda sem a democracia institucional a fazer parte da vida de ambos os povos. O controlo fronteiriço era muito apertado, de um lado e de outro. A viagem foi de apenas um dia e reentrei pelo mesmo sítio. Poucos metros decorridos, já em Portugal, iniciei o caminho sinuoso para Bragança. Precisamente em frente à capela da Senhora da Ribeira, rejubilei de satisfação e alívio, pois estranhamente… custava a acreditar que, tendo mandado abrir a mala do carro, acabassem por não ver, ou dar importância, à nova guitarra acústica que tinha adquirido e que se encontrava sobre a tampa da mala.   

Bastantes anos mais tarde, rejubilei quando finalmente foi aprovado o Acordo (ou tratado) de Schengen, que levou à política de abertura de fronteiras, agilizando a livre circulação de pessoas, bens e capitais entre os trinta países europeus que o subscreveram. Rejubilei, com a construção de uma nova ponte sobre o rio Maçãs, sem necessidade de controlo aduaneiro, e com a abertura do troço de autoestrada a ligar Quintanilha a Bragança, reduzindo-se a viagem para cerca de 10 minutos. 

O mediatismo da fronteira de Quintanilha foi grande, recentemente, aparecendo com maior frequência nos meios de comunicação, quando nada o fazia prever. Parece de difícil entendimento que, num curto espaço de tempo, sejam as próprias populações – que tão bem sabem ser hospitaleiras – assim como autarcas desta região, a pedir encarecida e insistentemente que fechem as fronteiras. Também esta autoestrada, tão importante para o desenvolvimento da região, ficou confinada a tráfego muito reduzido e controlado. O acesso à ponte sobre o rio Maçãs foi cortado, deixando de ser utilizada, e o trânsito desviado, de modo a confiná-lo à estreita passagem, junto ao antigo posto fronteiriço.  A própria União Europeia acabou por tomar a decisão drástica de fechar, temporariamente, todas as fronteiras, sendo impedidos cidadãos europeus de circular no próprio espaço europeu.

Escavando mais fundo no citado texto de Torga, perante factos recentes, fixo-me na frase “Que terror respeitoso se apodera de nós?” e interrogo-me: como se sentirá cada um, tendo de trancar-se dentro de casa e ficar ainda mais isolado? E o impedimento de assistir a rituais religiosos, incluindo acompanhar amigos à sua última morada? E o impedimento de ser visitado por familiares distantes, que tradicionalmente estavam presentes no período festivo da Páscoa? Que sequelas ficam, mesmo sem contaminação viral? Que aprendizagens ficam após esta pandemia?

Do meu poema “O Reparador Beijo Invisível”, de 2012, extraí o seguinte:
“Um planeta em expiação / espera demorada para se redimir / Ambiências conturbadas, eternas lutas intestinas / por coisas grandes e pequenas / Muita gente à deriva… / num contágio virulento (…)”.

De um outro meu poema, também truncado – “Dor que Dói”: “Se a dor é dor que dói / e faz desabar o mundo… / se isso alivia / há que subir à montanha / e gritar a dor / Gritar, gritar bem alto! / Enquanto não nos reencontrarmos / o grito será apenas um escape / Conseguido o reencontro / podemos voltar à montanha / para agradecer / para contemplar / mas já não será preciso gritar!”.

E neste meu recente poema, inacabado, mas suficiente…
Por que temo sem razão?
Não trouxe nada comigo
pois cheguei de mãos vazias
nem o corpo me pertence
e quando um dia partir
tenho à espera outra vida.

Pensando no durante e pós pandemia, é dado aqui realce às caraterísticas da população transmontana mais esclarecida, forte emocionalmente, resiliente e ousada q. b.:
– Confia no porvir;
– Sabe que a perda enfraquece, mas não dita o fracasso;
– Aceita os desafios que têm pela frente, antevendo um antes e um depois;
– Está consciente que nada ficará como anteriormente e a realidade será outra;
– Encontra a energia e saber necessários para encontrar novas soluções;
– Acredita que o sonho é maior do que o medo;
– Não duvida que há vida para lá dos ciclos que se fecham;
– Conhece o valor da compaixão e da solidariedade, abre o coração e puxa pelos que a cercam;
– Aposta na capacidade de regeneração, confiante num recomeço, mesmo envolto em incertezas;
– Sabe que “a semente desperdiçada é aquela que fica por lançar à terra” e não deixa que fique por semear a esperança e que, só pensar nisso, já desperta agradáveis sensações;
– Sabe que a mudança ocorre quando o coração quiser e que, cada um, contribuirá para a mola impulsionadora da mudança da consciência coletiva, tão necessária para constituir um ponto de viragem na humanidade.

Apenas anseia a ocasião para experienciar, de novo, o poder físico de múltiplos abraços afetivos.

© Jorge Nuno (2020)

03/06/2020

Crónicas Leves: LEMBRANÇA - MUDANÇA – ESPERANÇA Parte I



LEMBRANÇA - MUDANÇA – ESPERANÇA

Parte I


Todos sabemos que este território transmontano foi apelidado de “Reino Maravilhoso”, pela mão e genialidade de Miguel Torga, que referiu nos seus escritos “(…) De repente, rasga a crosta de silêncio uma voz de franqueza desembainhada: Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico porque o nume invisível ordena: - Entre!
A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.”

O dito popular “Para lá do Marão, mandam os que lá estão” [na ótica de quem vive no litoral] poderá ter alimentado a ideia generalizada – e o ego de alguns transmontanos, com toda a carga simbológica que representa –, que devido ao seu isolamento de longos séculos, com difíceis acessos, isso remetia-os para uma sensação de poder e de “independência”, sendo implícita a rejeição do poder centralizado da muito afastada capital do país. E foi esse poder centralizado que, por demasiado tempo, pareceu desconhecer a realidade e as necessidades “para lá do Marão”, agudizando o fosso entre o litoral e esta região do interior.

A região transmontana foi galvanizada com a criação da autoestrada A4 e com abertura do túnel do Marão – que fura, durante cerca de seis quilómetros, o “oceano megalítico”. Eu chamar-lhe-ia “encrespado e tortuoso oceano megalítico”, ao centrar a atenção na conhecida Estrada Nacional 15, quando tinha necessidade de a percorrer, acompanhando aquele serpentear na Serra do Marão. É certo que perdeu a importância estratégica que deteve durante imensos anos, e que deixarei de ver, lá bem no alto, aquela panorâmica inesquecível de cortar a respiração. Mas é incontornável que o túnel do Marão passou a ter um importante papel na aproximação entre o litoral e o interior transmontano, mesmo com a decisão das portagens definidas por quem está “para lá do Marão” [na ótica de um transmontano]. Sempre que entro no túnel, no sentido Porto – Vila Real, sinto que estou a entrar no Reino Maravilhoso e de lembro-me de Torga: “Esta terra é a própria generosidade ao natural. Como um paraíso, basta estender a mão”.
Quanto ao “nume invisível”, poderá entender-se como uma entidade superior, um ser divino, que inspira e/ou protege o homem [ao longo de séculos]. Aquele “Entre!”, pela voz celestial ou pela mão do poeta, representará a intenção de realçar a forma franca e hospitaleira do povo desta região. Creio que é esse “nume invisível” que o povo continua a aceitar, elevando as mãos e o pensamento ao Alto.

Tem sido assim desde há muitos séculos. Lembremo-nos da capela que o povo de Quintanilha ergueu, por volta de 1258, para venerar a Senhora da Ribeira. Segundo a crença popular, passada de boca em boca, uma rapariga pastora, muda, terá sido visitada por Nossa Senhora – que a deixou a falar –, para que pedisse à população que construísse uma ermida naquele local da aparição. Passadas cerca de três décadas, foi precisamente por aquele local que deu entrada em Portugal a jovem infanta Isabel de Aragão – mais tarde aclamada pelo povo como Rainha Santa Isabel e, por fim, beatificada, pelo papa Leão X e canonizada pelo papa Urbano XVIII.

Não consigo imaginar o sentimento com que esta jovem, filha do rei de Aragão, entrou neste Reino Maravilhoso, que também passou a ser seu. Esperava-a em Bragança o infante D. Afonso e, em comitiva, seguiram para Trancoso, onde se realizou a cerimónia de casamento com o rei D. Dinis, apesar de já ter havido, em Barcelona, o casamento [até então, inédito] por procuração. Pelos feitos corajosos, como pacificadora no reino, e por ter exercido tanta influência benéfica junto de pobres e necessitados – a que não foi alheio ser seguidora e devota de São Francisco de Assis – foi apelidada de Rainha da Bondade e da Paz. Terá sido ela própria a dar ordem para a reconstrução da ermida da Senhora da Ribeira.

Frei Agostinho de Santa Maria (séc. XVII) terá afirmado que este templo religioso era [à época] o de maior peregrinação em Trás-os-Montes.

Foi no princípio da década de setenta, do século passado, que eu soube da existência dos concorridos festejos dedicados à Nossa Senhora da Ribeira, que acabaram por se fixar no último domingo de maio. Durante vários anos, assisti a uma grande afluência de gente vinda das várias aldeias e cidades mais próximas e também de Espanha. Na cerimónia religiosa, fazem-se representar todas as paróquias das redondezas, onde surgem as imagens dos respetivos santos protetores, que desfilam em procissão. É agradável de observar aquela humilde crença inabalável, facto que tenho retido na memória. Regista-se, igualmente como agradável que, embora existindo, a poucos metros do local, uma “fronteira” entre os dois países, há uma missa em castelhano e outra em português, mas acima de tudo um convívio salutar e harmonioso entre estes dois povos irmãos.  

(Continua na Parte II)

20/05/2020

Crónicas Leves - ESTRANHO MUNDO - Parte III




ESTRANHO MUNDO

Parte III

O presidente da maior potência mundial e económica vê-se debaixo de fogo, no seu país, por não conseguir dar resposta efetiva ao controlo da pandemia. Desde o início desta, cerca de 38 milhões de cidadãos desse país ou a trabalhar nele, submeteram o pedido de subsídio de desemprego e, só em cinco semanas, registou-se cerca de 26 milhões de desempregados, a uma média superior a 5 milhões em cada semana. Até ao momento, é o país com mais mortes e casos de infeção confirmados por Covid-19 – e falamos de microrganismos, digamos “invisíveis” –. Pois à falta de resposta eficaz, o presidente afirmou que o número de casos de infeção é motivo de orgulho e avança com a oficialização da criação de um novo ramo das Forças Armadas – a Força Espacial –, como uma necessidade imperiosa de militarizar o espaço, que é com quem diz, preparar o país para deter o domínio da guerra espacial.

Incongruências acontecem um pouco por todo o mundo, fazendo com que aconteça mais do mesmo! Há logo quem se aproveite da pandemia para entrar no campo dos ilícitos criminais, com fraudes a pretexto de donativos, equipamentos ou soluções para esta pandemia, etc., etc…
Vejamos alguns casos: 
O Gmail[1] divulgou que, só numa semana de abril de 2020, registou uma média diária de 18 milhões de e-mails falsos, relativos à Covid-19. Com domínios falsos ou software malicioso, havia o propósito de extorquir dinheiro, sob a forma de donativos ou outros, ou ter acesso aos dados pessoais dos utilizadores.  
A Europol e Interpol, com apoio das autoridades financeiras da Alemanha, Irlanda, Holanda e Reino Unido, desmontaram um esquema fraudulento de fornecimento de máscaras faciais “inexistentes”, após clonagem de uma página de Internet de uma conhecida empresa – negócio a envolver muitos milhões de euros, um previsto transporte em 52 camiões, com direito a escolta policial, e que terá lesado as autoridades de saúde alemãs, com parte do dinheiro a ir parar ao Reino Unido e Nigéria.
A envolver o Reino Unido e Bélgica, uma suposta empresa farmacêutica, não legalizada, criou um nome muito semelhante à que está autorizada a produzir e comercializar um determinado fármaco. Deste modo, circula um medicamento falso, à venda através da Internet, para tratamento da Covid-19. Com embalagem idêntica, quem o adquire, pensa estar a comprar hidroxicloroquina ou cloroquina. O original poderá estar a apresentar, pontualmente, resultados favoráveis no combate a esta nova doença, mas as autoridades sanitárias insistem em alertar para várias contraindicações deste medicamento, que foi concebido para tratamento de outra doença – a malária.
No sul de Itália – a região mais pobre e com mais desemprego no país –, continua o receio, com fundamento, que possa voltar a ficar sob forte influência da máfia, após e ainda durante o novo coronavírus, caso o Estado não consiga apoiar a população e empresas necessitadas. As notícias mais sensacionalistas apontam: “Máfia mata a fome aos pobres”. A questão é que, com pouca empregabilidade e com a obrigatoriedade de encerramento de comércio, indústria e serviços, a máfia estará num ascendente junto desses setores, financiado agora para deixar os empregadores reféns.
Por cá…
A ASAE[2] recebeu, no primeiro mês em que foi declarada a pandemia, cerca de 4500 queixas por especulação de preços, o que levou a vários processos-crime e processos de contraordenação, por ser evidente estar-se perante a prática de obtenção de lucro ilegítimo em produtos como o álcool, gel desinfetante e máscaras de proteção individual.
O Centro Nacional de Cibersegurança e as autoridades de saúde, têm vindo a alertar para campanhas de smishing (phishing por SMS) – uso de App fraudulentas, roubo de informação confidencial, ou bloqueio de telemóveis, beneficiando financeiramente os infratores. Alguém que se faz passar pelo SNS - Serviço Nacional de Saúde, por uma entidade bancária ou, simplesmente, uma App que pretende dar informação sobre a pandemia em tempo real, e direciona o “lesado” para um site falso ou suposto homebanking. Constata-se a extorsão de 100 dólares em bit coin[3] para desbloquear cada telemóvel; acesso a dados do cartão de crédito, para uso indevido; direcionadas quantias generosas de donativos para contas que nada têm a ver com solidariedade…
Há quem se faça passar por médico e procure o contacto pessoal, selecionando, preferencialmente, pessoas idosas, como se fossem fazer testes, e acabam por burlar essas pessoas mais vulneráveis. 


Com mais de 4,9 milhões de pessoas infetadas em 196 países e territórios, e registo de 323.370 mortes[4], há pessoas, sem escrúpulos, que se aproveitam da desgraça alheia e tudo fazem para ter elevados proveitos, com alguns a querer tornarem-se milionários facilmente, numa altura em que o mundo está numa fase de empobrecimento abrupto.   

O seguinte provérbio oriental é muita realista: “tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis criam homens frágeis que criam tempos difíceis”. Saibamos construir um futuro novo, para não se repetirem ciclos que não desejamos.

Obs.: Quanto à foto que acompanha a crónica… se fosse na região de Bragança, alguém diria logo: “Bô, e este agora!?... Emalucou!”. Acontece que um apreciável grupo de amigos (mais de cem), em poucas horas, reagiu favoravelmente a um meu post, em que lhes solicitava sugestões de penteado para um enorme cabelo, como forma de atenuar a falta de ida ao cabeleireiro, durante este período de confinamento. A verdade é que, na votação, o rabo de cavalo ganhou. E, afinal… optei pelo cabelo com tranças como a Pipi das Meias Altas! Expliquei-lhes que exerci o meu direito a ter opinião própria e pedi-lhes para não ficarem indignados, ao saberem que não respeitei o seu sentido de voto. Se formos a ver bem, ninguém mostrou indignação quando, num passado recente, uns ganharam as eleições legislativas e outros formaram o Governo de Portugal. Bem, houve alguns… lembro-me da Múmia e do Calimero, sendo que este, quando viu amputado o futuro, não parou de chorar durante meses, a dizer que o lugar era dele e não lhe deram as oportunidades que merecia. Quanto ao Submarino, esse, mais sabido e racional, simplesmente apressou-se a usar a fotocopiadora, até acabarem as resmas de papel ou o toner. E a conversa continuou referindo, a dado passo, o que disse o marido da minha mulher a dias, que tem uma prima que mora mesmo em frente a uma cabeleireira e que pintava o cabelo todos os dias, até estalar esta crise: “Pintar o cabelo faz mal à moleirinha, mas as clientes querem e eu faço a vontade!”. Eu não acho que me tenha feito mal à moleirinha!
No fundo, esta foto nada tem de estranho; pois estranho, estranho… parece estar o mundo! No entanto, no meio desta estranheza, alguns conseguem discernir com lucidez e extrair algumas revelações, um pulsar… Não fosse este último aspeto, poder-se-ia dizer: mas que estranho mundo!

© Jorge Nuno (2020)




[1] Serviço gratuito de correio eletrónico da Google.
[2] Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica.
[3] Moeda virtual, para transações eletrónicas (sem rasto…)
[4] divulgados pela Agência France Press em 20-05-2020, baseado em dados oficiais, mas que poderão ser muito mais graves, devido à incerteza relativamente aos números reais em África e América do Sul.

07/05/2020

Crónicas Leves: ESTRANHO MUNDO - Parte I


ESTRANHO MUNDO

Parte I

Meio ambiente muito menos poluído; cidades desertas e animais selvagens a passear-se nelas; uma vaca no telhado; mortos a entrar nas contas dos recuperados; libertação de 10% dos reclusos existentes em Portugal e obrigatoriedade de levantamento de dinheiro no banco com máscara; fraude de milhões de euros com máscaras de proteção individual que nunca existiram; Máfia a perfilar-se para substituir o Estado italiano na proteção do setor empresarial no sul do país; preço do crude com uma descida vertiginosa de 306%[1] nos Estados Unidos da América [EUA], a ficar em valores negativos, devido ao mundo inundado de petróleo não consumido, e produtores de petróleo a pagar 37,60 dólares por barril, que eles próprios vendem… tudo isto, em plena pandemia.

É incrível a rapidez com que as rotinas, hábitos e aspetos económicos, sociais e culturais enraizados, e até o tão necessário bom senso, estão a ser alterados. Regista-se, pela positiva, um forte aumento de genuínos atos solidários, de altruísmo, e alegria em partilhar, sem esperar nada em troca. Pela negativa, mantêm-se alguns esquemas a pender para o ditatorial, de pressão, controlo de influência e instrumentalização de instituições e, outros, fraudulentos, para a obtenção de proveitos à margem da lei e dos mais elementares princípios éticos, quando se esperavam melhorias na mudança de atitude.

A principal potência económica e militar – EUA – pela voz do seu presidente, Donald Trump, pretendeu comprar a exclusividade da vacina que viesse a tratar ou abrandar a expansão da doença Covid-19, de modo a tirar vantagens económicas com a mesma. Constatou-se que o astronómico investimento no seu poder bélico de pouco tem servido para combater este inimigo invisível; prova disso, é o facto de entre os 4.800 membros da tripulação do porta-aviões “Theodore Roosevelt” – quando 92% dessa mesma tripulação já estava testada – surgirem 550 testes positivos, que levou à demissão do comandante, pelo facto de ter pedido a evacuação de uma parte significativa dos militares infetados. É o país com maior taxa de mortalidade mundial, provocada por este vírus, quando era suposto ser o mais bem preparado para o enfrentar. O seu presidente (talvez a pensar nas próximas eleições internas), pediu aos militantes do seu partido para se manifestarem a favor do “regresso da economia”, contra os governadores dos Estados sob influência do partido opositor, por estes estarem a favor do isolamento social e valorizarem a vida das pessoas, secundarizando a economia; hostilizou o regime chinês, abrindo uma “guerra comercial” prejudicial para ambas as partes e para o mundo, afirmou que esse regime tem vindo a ocultar os dados reais desta pandemia e, agora, pede-lhes desesperadamente ajuda. Acha que é hora de despedir Anthony S. Fauci – diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas, e principal especialista na matéria ao serviço do governo –, por ter corrigido o presidente durante conferências de imprensa e fazer recomendações opostas às intenções do presidente. Como se não bastasse, o presidente atacou a Organização Mundial de Saúde [OMS], acusando-a de má gestão, por não avaliar o risco da pandemia, por encobrir falhas e por ter beneficiado a China, e anunciou a suspensão do financiamento de cerca de 500 milhões de dólares a esta importante Organização, quando esta mais precisa de apoios.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, afastou do cargo o seu ministro da Saúde – o médico Luiz Henrique Mandetta –, por este seguir rigorosamente as orientações da OMS e opor-se à ideia do presidente, que entende não haver necessidade de isolamento social e não encontra justificação para que a economia pare. Fala em “histeria” e acha que as medidas adotadas contra o novo coronavírus representam “extremismo”. A pretexto da política preconizada pela OMS, atacou, verbalmente, governadores e todos aqueles que defendem o confinamento e muita prudência no regresso da atividade económica; incentivou manifestantes contra os respetivos governadores com ideias opostas à sua; fruto deste incentivo, em seis dessas capitais, viu-se grande quantidade de pessoas nas ruas a manifestarem-se – com o presidente numa delas – complicando o controlo sanitário nessas regiões, o que se tornou preocupante, uma vez que só a cidade de São Paulo tem 11,8 milhões de habitantes, mais do que a população de Portugal.

O presidente chileno – Miguel Juan Sebastian Piñera – surpreendeu o mundo, ao anunciar na televisão que os mortos, pela pandemia, entram nas contas dos doentes recuperados, uma vez que já não contagiam ninguém. Como se não bastasse, quase em simultâneo, foi referido que irão ser libertados – supostamente, para conter o avanço da pandemia –, mais de 100 condenados por crimes contra a humanidade, pelo envolvimento em mais de 3.400 casos de desaparecimento, assassinato, tortura ou sequestro, ao tempo, colaboradores do regime ditatorial de Augusto Pinochet.
Em Portugal, o presidente da República, sob proposta do Governo, indultou cerca de 1.200 presos – representando cerca de 10% do total de reclusos existentes – saindo, a pretexto de prevenir o contágio nas prisões, como se se tratasse de uma extensão, alargada, de licenças precárias. Serviu de chacota e, também, indignação de grupos de cidadãos, mas o curioso foi observar que houve reclusos, atingidos por esta iniciativa, a recusar sair da prisão. Contrariando afirmações recentes do presidente da República, foi anunciada a saída, com licença precária de 45 dias, por ato administrativo do Diretor-geral dos Serviços Prisionais (sem intervenção de um juiz do Tribunal de Execução de Penas), de um conhecido homicida, condenado a 23 anos de prisão, no processo Noite Branca; criada estupefação e mal-estar, a licença acabou por ser suspensa in extremis, devido a um processo pendente por agressão do recluso a guardas prisionais.

Enquanto o primeiro-ministro António Costa elogiava a capacidade de resiliência, o acatamento das orientações da Direção-geral de Saúde e a unidade dos portugueses nestes momentos difíceis para a vida do país e dos próprios cidadãos, ele próprio acabou por dividir os portugueses.
Creio que os portugueses entenderão, por exemplo, ver pela primeira vez: o papa Francisco sozinho na praça de São Pedro, no Vaticano, em pleno domingo de Páscoa ou o recinto de Fátima estar encerrado, a crentes e não crentes, no dia 13 de maio; não haver quaisquer desfiles oficiais, promovidos pelas centrais sindicais, e festas no Dia do Trabalhador; comemoração de simples aniversários em família alargada; funerais sem acompanhantes e pouquíssimos familiares; ter de ficar em casa, privado do direito constitucional de liberdade, e não poder sair à rua, com liberdade de escolha do destino… Não entendem, ou é difícil entender, como é possível anunciar, nesta altura, a presença de 300 pessoas num espaço fechado – a Assembleia da República – entre deputados e convidados (a que se juntam 100 funcionários no apoio logístico), na comemoração oficial do 46.º aniversário do “25 de abril”. Perante a indignação surgida de imediato – que o presidente da AR diz não entender –, esse número foi reduzido para 130, e logo passou para 100, quando se esperava que fosse anunciado o seu cancelamento. Não houve comemoração oficial na AR nesta data – importante para os portugueses –, nos anos de 1983, devido a marcação de eleições para esse dia, 1992 e 1993, por opção do ex-presidente Mário Soares e, em 2011, pela dissolução da AR e calendário eleitoral. As motivações para não as haver em 2020 são bem maiores, e seria um importante sinal positivo aos portugueses. Se naqueles quatro anos não havia evidências que a democracia estivesse em perigo, agora também não; e se estivesse, quem ocupa tão importantes cargos de Estado e se apregoa “defensor da democracia”, com estas atitudes irrefletidas, de autista ou de teimosia, acaba por dar força aos populistas e aos que pretendem um regresso ao passado e, naturalmente, espreitam todas as escorregadelas, como oportunidades para minar o terreno da democracia e beneficiar com isso. O presidente da “Associação 25 de Abril” – Vasco Lourenço, um “capitão de abril” – lamenta o “oportunismo disfarçado” de quem contesta as comemorações na AR, mas ele próprio contesta o elevado número de pessoas presentes e diz que não estará presente.
É, no mínimo, estranho ver os portugueses “presos” em casa e os representantes da nação, e convidados, a comemorar a liberdade.

(Continua em ESTRANHO MUNDO II)

© Jorge Nuno (2020)


[1] Em 20-04-2020.