03/06/2020

Crónicas Leves: LEMBRANÇA - MUDANÇA – ESPERANÇA Parte I



LEMBRANÇA - MUDANÇA – ESPERANÇA

Parte I


Todos sabemos que este território transmontano foi apelidado de “Reino Maravilhoso”, pela mão e genialidade de Miguel Torga, que referiu nos seus escritos “(…) De repente, rasga a crosta de silêncio uma voz de franqueza desembainhada: Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico porque o nume invisível ordena: - Entre!
A gente entra e já está no Reino Maravilhoso.”

O dito popular “Para lá do Marão, mandam os que lá estão” [na ótica de quem vive no litoral] poderá ter alimentado a ideia generalizada – e o ego de alguns transmontanos, com toda a carga simbológica que representa –, que devido ao seu isolamento de longos séculos, com difíceis acessos, isso remetia-os para uma sensação de poder e de “independência”, sendo implícita a rejeição do poder centralizado da muito afastada capital do país. E foi esse poder centralizado que, por demasiado tempo, pareceu desconhecer a realidade e as necessidades “para lá do Marão”, agudizando o fosso entre o litoral e esta região do interior.

A região transmontana foi galvanizada com a criação da autoestrada A4 e com abertura do túnel do Marão – que fura, durante cerca de seis quilómetros, o “oceano megalítico”. Eu chamar-lhe-ia “encrespado e tortuoso oceano megalítico”, ao centrar a atenção na conhecida Estrada Nacional 15, quando tinha necessidade de a percorrer, acompanhando aquele serpentear na Serra do Marão. É certo que perdeu a importância estratégica que deteve durante imensos anos, e que deixarei de ver, lá bem no alto, aquela panorâmica inesquecível de cortar a respiração. Mas é incontornável que o túnel do Marão passou a ter um importante papel na aproximação entre o litoral e o interior transmontano, mesmo com a decisão das portagens definidas por quem está “para lá do Marão” [na ótica de um transmontano]. Sempre que entro no túnel, no sentido Porto – Vila Real, sinto que estou a entrar no Reino Maravilhoso e de lembro-me de Torga: “Esta terra é a própria generosidade ao natural. Como um paraíso, basta estender a mão”.
Quanto ao “nume invisível”, poderá entender-se como uma entidade superior, um ser divino, que inspira e/ou protege o homem [ao longo de séculos]. Aquele “Entre!”, pela voz celestial ou pela mão do poeta, representará a intenção de realçar a forma franca e hospitaleira do povo desta região. Creio que é esse “nume invisível” que o povo continua a aceitar, elevando as mãos e o pensamento ao Alto.

Tem sido assim desde há muitos séculos. Lembremo-nos da capela que o povo de Quintanilha ergueu, por volta de 1258, para venerar a Senhora da Ribeira. Segundo a crença popular, passada de boca em boca, uma rapariga pastora, muda, terá sido visitada por Nossa Senhora – que a deixou a falar –, para que pedisse à população que construísse uma ermida naquele local da aparição. Passadas cerca de três décadas, foi precisamente por aquele local que deu entrada em Portugal a jovem infanta Isabel de Aragão – mais tarde aclamada pelo povo como Rainha Santa Isabel e, por fim, beatificada, pelo papa Leão X e canonizada pelo papa Urbano XVIII.

Não consigo imaginar o sentimento com que esta jovem, filha do rei de Aragão, entrou neste Reino Maravilhoso, que também passou a ser seu. Esperava-a em Bragança o infante D. Afonso e, em comitiva, seguiram para Trancoso, onde se realizou a cerimónia de casamento com o rei D. Dinis, apesar de já ter havido, em Barcelona, o casamento [até então, inédito] por procuração. Pelos feitos corajosos, como pacificadora no reino, e por ter exercido tanta influência benéfica junto de pobres e necessitados – a que não foi alheio ser seguidora e devota de São Francisco de Assis – foi apelidada de Rainha da Bondade e da Paz. Terá sido ela própria a dar ordem para a reconstrução da ermida da Senhora da Ribeira.

Frei Agostinho de Santa Maria (séc. XVII) terá afirmado que este templo religioso era [à época] o de maior peregrinação em Trás-os-Montes.

Foi no princípio da década de setenta, do século passado, que eu soube da existência dos concorridos festejos dedicados à Nossa Senhora da Ribeira, que acabaram por se fixar no último domingo de maio. Durante vários anos, assisti a uma grande afluência de gente vinda das várias aldeias e cidades mais próximas e também de Espanha. Na cerimónia religiosa, fazem-se representar todas as paróquias das redondezas, onde surgem as imagens dos respetivos santos protetores, que desfilam em procissão. É agradável de observar aquela humilde crença inabalável, facto que tenho retido na memória. Regista-se, igualmente como agradável que, embora existindo, a poucos metros do local, uma “fronteira” entre os dois países, há uma missa em castelhano e outra em português, mas acima de tudo um convívio salutar e harmonioso entre estes dois povos irmãos.  

(Continua na Parte II)

20/05/2020

Crónicas Leves - ESTRANHO MUNDO - Parte III




ESTRANHO MUNDO

Parte III

O presidente da maior potência mundial e económica vê-se debaixo de fogo, no seu país, por não conseguir dar resposta efetiva ao controlo da pandemia. Desde o início desta, cerca de 38 milhões de cidadãos desse país ou a trabalhar nele, submeteram o pedido de subsídio de desemprego e, só em cinco semanas, registou-se cerca de 26 milhões de desempregados, a uma média superior a 5 milhões em cada semana. Até ao momento, é o país com mais mortes e casos de infeção confirmados por Covid-19 – e falamos de microrganismos, digamos “invisíveis” –. Pois à falta de resposta eficaz, o presidente afirmou que o número de casos de infeção é motivo de orgulho e avança com a oficialização da criação de um novo ramo das Forças Armadas – a Força Espacial –, como uma necessidade imperiosa de militarizar o espaço, que é com quem diz, preparar o país para deter o domínio da guerra espacial.

Incongruências acontecem um pouco por todo o mundo, fazendo com que aconteça mais do mesmo! Há logo quem se aproveite da pandemia para entrar no campo dos ilícitos criminais, com fraudes a pretexto de donativos, equipamentos ou soluções para esta pandemia, etc., etc…
Vejamos alguns casos: 
O Gmail[1] divulgou que, só numa semana de abril de 2020, registou uma média diária de 18 milhões de e-mails falsos, relativos à Covid-19. Com domínios falsos ou software malicioso, havia o propósito de extorquir dinheiro, sob a forma de donativos ou outros, ou ter acesso aos dados pessoais dos utilizadores.  
A Europol e Interpol, com apoio das autoridades financeiras da Alemanha, Irlanda, Holanda e Reino Unido, desmontaram um esquema fraudulento de fornecimento de máscaras faciais “inexistentes”, após clonagem de uma página de Internet de uma conhecida empresa – negócio a envolver muitos milhões de euros, um previsto transporte em 52 camiões, com direito a escolta policial, e que terá lesado as autoridades de saúde alemãs, com parte do dinheiro a ir parar ao Reino Unido e Nigéria.
A envolver o Reino Unido e Bélgica, uma suposta empresa farmacêutica, não legalizada, criou um nome muito semelhante à que está autorizada a produzir e comercializar um determinado fármaco. Deste modo, circula um medicamento falso, à venda através da Internet, para tratamento da Covid-19. Com embalagem idêntica, quem o adquire, pensa estar a comprar hidroxicloroquina ou cloroquina. O original poderá estar a apresentar, pontualmente, resultados favoráveis no combate a esta nova doença, mas as autoridades sanitárias insistem em alertar para várias contraindicações deste medicamento, que foi concebido para tratamento de outra doença – a malária.
No sul de Itália – a região mais pobre e com mais desemprego no país –, continua o receio, com fundamento, que possa voltar a ficar sob forte influência da máfia, após e ainda durante o novo coronavírus, caso o Estado não consiga apoiar a população e empresas necessitadas. As notícias mais sensacionalistas apontam: “Máfia mata a fome aos pobres”. A questão é que, com pouca empregabilidade e com a obrigatoriedade de encerramento de comércio, indústria e serviços, a máfia estará num ascendente junto desses setores, financiado agora para deixar os empregadores reféns.
Por cá…
A ASAE[2] recebeu, no primeiro mês em que foi declarada a pandemia, cerca de 4500 queixas por especulação de preços, o que levou a vários processos-crime e processos de contraordenação, por ser evidente estar-se perante a prática de obtenção de lucro ilegítimo em produtos como o álcool, gel desinfetante e máscaras de proteção individual.
O Centro Nacional de Cibersegurança e as autoridades de saúde, têm vindo a alertar para campanhas de smishing (phishing por SMS) – uso de App fraudulentas, roubo de informação confidencial, ou bloqueio de telemóveis, beneficiando financeiramente os infratores. Alguém que se faz passar pelo SNS - Serviço Nacional de Saúde, por uma entidade bancária ou, simplesmente, uma App que pretende dar informação sobre a pandemia em tempo real, e direciona o “lesado” para um site falso ou suposto homebanking. Constata-se a extorsão de 100 dólares em bit coin[3] para desbloquear cada telemóvel; acesso a dados do cartão de crédito, para uso indevido; direcionadas quantias generosas de donativos para contas que nada têm a ver com solidariedade…
Há quem se faça passar por médico e procure o contacto pessoal, selecionando, preferencialmente, pessoas idosas, como se fossem fazer testes, e acabam por burlar essas pessoas mais vulneráveis. 


Com mais de 4,9 milhões de pessoas infetadas em 196 países e territórios, e registo de 323.370 mortes[4], há pessoas, sem escrúpulos, que se aproveitam da desgraça alheia e tudo fazem para ter elevados proveitos, com alguns a querer tornarem-se milionários facilmente, numa altura em que o mundo está numa fase de empobrecimento abrupto.   

O seguinte provérbio oriental é muita realista: “tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis e tempos fáceis criam homens frágeis que criam tempos difíceis”. Saibamos construir um futuro novo, para não se repetirem ciclos que não desejamos.

Obs.: Quanto à foto que acompanha a crónica… se fosse na região de Bragança, alguém diria logo: “Bô, e este agora!?... Emalucou!”. Acontece que um apreciável grupo de amigos (mais de cem), em poucas horas, reagiu favoravelmente a um meu post, em que lhes solicitava sugestões de penteado para um enorme cabelo, como forma de atenuar a falta de ida ao cabeleireiro, durante este período de confinamento. A verdade é que, na votação, o rabo de cavalo ganhou. E, afinal… optei pelo cabelo com tranças como a Pipi das Meias Altas! Expliquei-lhes que exerci o meu direito a ter opinião própria e pedi-lhes para não ficarem indignados, ao saberem que não respeitei o seu sentido de voto. Se formos a ver bem, ninguém mostrou indignação quando, num passado recente, uns ganharam as eleições legislativas e outros formaram o Governo de Portugal. Bem, houve alguns… lembro-me da Múmia e do Calimero, sendo que este, quando viu amputado o futuro, não parou de chorar durante meses, a dizer que o lugar era dele e não lhe deram as oportunidades que merecia. Quanto ao Submarino, esse, mais sabido e racional, simplesmente apressou-se a usar a fotocopiadora, até acabarem as resmas de papel ou o toner. E a conversa continuou referindo, a dado passo, o que disse o marido da minha mulher a dias, que tem uma prima que mora mesmo em frente a uma cabeleireira e que pintava o cabelo todos os dias, até estalar esta crise: “Pintar o cabelo faz mal à moleirinha, mas as clientes querem e eu faço a vontade!”. Eu não acho que me tenha feito mal à moleirinha!
No fundo, esta foto nada tem de estranho; pois estranho, estranho… parece estar o mundo! No entanto, no meio desta estranheza, alguns conseguem discernir com lucidez e extrair algumas revelações, um pulsar… Não fosse este último aspeto, poder-se-ia dizer: mas que estranho mundo!

© Jorge Nuno (2020)




[1] Serviço gratuito de correio eletrónico da Google.
[2] Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica.
[3] Moeda virtual, para transações eletrónicas (sem rasto…)
[4] divulgados pela Agência France Press em 20-05-2020, baseado em dados oficiais, mas que poderão ser muito mais graves, devido à incerteza relativamente aos números reais em África e América do Sul.

07/05/2020

Crónicas Leves: ESTRANHO MUNDO - Parte I


ESTRANHO MUNDO

Parte I

Meio ambiente muito menos poluído; cidades desertas e animais selvagens a passear-se nelas; uma vaca no telhado; mortos a entrar nas contas dos recuperados; libertação de 10% dos reclusos existentes em Portugal e obrigatoriedade de levantamento de dinheiro no banco com máscara; fraude de milhões de euros com máscaras de proteção individual que nunca existiram; Máfia a perfilar-se para substituir o Estado italiano na proteção do setor empresarial no sul do país; preço do crude com uma descida vertiginosa de 306%[1] nos Estados Unidos da América [EUA], a ficar em valores negativos, devido ao mundo inundado de petróleo não consumido, e produtores de petróleo a pagar 37,60 dólares por barril, que eles próprios vendem… tudo isto, em plena pandemia.

É incrível a rapidez com que as rotinas, hábitos e aspetos económicos, sociais e culturais enraizados, e até o tão necessário bom senso, estão a ser alterados. Regista-se, pela positiva, um forte aumento de genuínos atos solidários, de altruísmo, e alegria em partilhar, sem esperar nada em troca. Pela negativa, mantêm-se alguns esquemas a pender para o ditatorial, de pressão, controlo de influência e instrumentalização de instituições e, outros, fraudulentos, para a obtenção de proveitos à margem da lei e dos mais elementares princípios éticos, quando se esperavam melhorias na mudança de atitude.

A principal potência económica e militar – EUA – pela voz do seu presidente, Donald Trump, pretendeu comprar a exclusividade da vacina que viesse a tratar ou abrandar a expansão da doença Covid-19, de modo a tirar vantagens económicas com a mesma. Constatou-se que o astronómico investimento no seu poder bélico de pouco tem servido para combater este inimigo invisível; prova disso, é o facto de entre os 4.800 membros da tripulação do porta-aviões “Theodore Roosevelt” – quando 92% dessa mesma tripulação já estava testada – surgirem 550 testes positivos, que levou à demissão do comandante, pelo facto de ter pedido a evacuação de uma parte significativa dos militares infetados. É o país com maior taxa de mortalidade mundial, provocada por este vírus, quando era suposto ser o mais bem preparado para o enfrentar. O seu presidente (talvez a pensar nas próximas eleições internas), pediu aos militantes do seu partido para se manifestarem a favor do “regresso da economia”, contra os governadores dos Estados sob influência do partido opositor, por estes estarem a favor do isolamento social e valorizarem a vida das pessoas, secundarizando a economia; hostilizou o regime chinês, abrindo uma “guerra comercial” prejudicial para ambas as partes e para o mundo, afirmou que esse regime tem vindo a ocultar os dados reais desta pandemia e, agora, pede-lhes desesperadamente ajuda. Acha que é hora de despedir Anthony S. Fauci – diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infeciosas, e principal especialista na matéria ao serviço do governo –, por ter corrigido o presidente durante conferências de imprensa e fazer recomendações opostas às intenções do presidente. Como se não bastasse, o presidente atacou a Organização Mundial de Saúde [OMS], acusando-a de má gestão, por não avaliar o risco da pandemia, por encobrir falhas e por ter beneficiado a China, e anunciou a suspensão do financiamento de cerca de 500 milhões de dólares a esta importante Organização, quando esta mais precisa de apoios.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro, afastou do cargo o seu ministro da Saúde – o médico Luiz Henrique Mandetta –, por este seguir rigorosamente as orientações da OMS e opor-se à ideia do presidente, que entende não haver necessidade de isolamento social e não encontra justificação para que a economia pare. Fala em “histeria” e acha que as medidas adotadas contra o novo coronavírus representam “extremismo”. A pretexto da política preconizada pela OMS, atacou, verbalmente, governadores e todos aqueles que defendem o confinamento e muita prudência no regresso da atividade económica; incentivou manifestantes contra os respetivos governadores com ideias opostas à sua; fruto deste incentivo, em seis dessas capitais, viu-se grande quantidade de pessoas nas ruas a manifestarem-se – com o presidente numa delas – complicando o controlo sanitário nessas regiões, o que se tornou preocupante, uma vez que só a cidade de São Paulo tem 11,8 milhões de habitantes, mais do que a população de Portugal.

O presidente chileno – Miguel Juan Sebastian Piñera – surpreendeu o mundo, ao anunciar na televisão que os mortos, pela pandemia, entram nas contas dos doentes recuperados, uma vez que já não contagiam ninguém. Como se não bastasse, quase em simultâneo, foi referido que irão ser libertados – supostamente, para conter o avanço da pandemia –, mais de 100 condenados por crimes contra a humanidade, pelo envolvimento em mais de 3.400 casos de desaparecimento, assassinato, tortura ou sequestro, ao tempo, colaboradores do regime ditatorial de Augusto Pinochet.
Em Portugal, o presidente da República, sob proposta do Governo, indultou cerca de 1.200 presos – representando cerca de 10% do total de reclusos existentes – saindo, a pretexto de prevenir o contágio nas prisões, como se se tratasse de uma extensão, alargada, de licenças precárias. Serviu de chacota e, também, indignação de grupos de cidadãos, mas o curioso foi observar que houve reclusos, atingidos por esta iniciativa, a recusar sair da prisão. Contrariando afirmações recentes do presidente da República, foi anunciada a saída, com licença precária de 45 dias, por ato administrativo do Diretor-geral dos Serviços Prisionais (sem intervenção de um juiz do Tribunal de Execução de Penas), de um conhecido homicida, condenado a 23 anos de prisão, no processo Noite Branca; criada estupefação e mal-estar, a licença acabou por ser suspensa in extremis, devido a um processo pendente por agressão do recluso a guardas prisionais.

Enquanto o primeiro-ministro António Costa elogiava a capacidade de resiliência, o acatamento das orientações da Direção-geral de Saúde e a unidade dos portugueses nestes momentos difíceis para a vida do país e dos próprios cidadãos, ele próprio acabou por dividir os portugueses.
Creio que os portugueses entenderão, por exemplo, ver pela primeira vez: o papa Francisco sozinho na praça de São Pedro, no Vaticano, em pleno domingo de Páscoa ou o recinto de Fátima estar encerrado, a crentes e não crentes, no dia 13 de maio; não haver quaisquer desfiles oficiais, promovidos pelas centrais sindicais, e festas no Dia do Trabalhador; comemoração de simples aniversários em família alargada; funerais sem acompanhantes e pouquíssimos familiares; ter de ficar em casa, privado do direito constitucional de liberdade, e não poder sair à rua, com liberdade de escolha do destino… Não entendem, ou é difícil entender, como é possível anunciar, nesta altura, a presença de 300 pessoas num espaço fechado – a Assembleia da República – entre deputados e convidados (a que se juntam 100 funcionários no apoio logístico), na comemoração oficial do 46.º aniversário do “25 de abril”. Perante a indignação surgida de imediato – que o presidente da AR diz não entender –, esse número foi reduzido para 130, e logo passou para 100, quando se esperava que fosse anunciado o seu cancelamento. Não houve comemoração oficial na AR nesta data – importante para os portugueses –, nos anos de 1983, devido a marcação de eleições para esse dia, 1992 e 1993, por opção do ex-presidente Mário Soares e, em 2011, pela dissolução da AR e calendário eleitoral. As motivações para não as haver em 2020 são bem maiores, e seria um importante sinal positivo aos portugueses. Se naqueles quatro anos não havia evidências que a democracia estivesse em perigo, agora também não; e se estivesse, quem ocupa tão importantes cargos de Estado e se apregoa “defensor da democracia”, com estas atitudes irrefletidas, de autista ou de teimosia, acaba por dar força aos populistas e aos que pretendem um regresso ao passado e, naturalmente, espreitam todas as escorregadelas, como oportunidades para minar o terreno da democracia e beneficiar com isso. O presidente da “Associação 25 de Abril” – Vasco Lourenço, um “capitão de abril” – lamenta o “oportunismo disfarçado” de quem contesta as comemorações na AR, mas ele próprio contesta o elevado número de pessoas presentes e diz que não estará presente.
É, no mínimo, estranho ver os portugueses “presos” em casa e os representantes da nação, e convidados, a comemorar a liberdade.

(Continua em ESTRANHO MUNDO II)

© Jorge Nuno (2020)


[1] Em 20-04-2020.

Crónicas Leves: ESTRANHO MUNDO - Parte II


ESTRANHO MUNDO

Parte II


Uma visita ao site Global Firepower[1] permite-nos tomar conhecimento das maiores potências militares do planeta. Os primeiros seis países, por ordem decrescente, são: Estados Unidos da América [EUA]; Federação Russa; República Popular da China [RPC]; Índia; França e Reino Unido. Os membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas [ONU], que têm direito a veto, são, precisamente, cinco dos seis países mencionados com maior poder bélico, com exclusão da Índia.
A indústria militar está a gerar três milhões de dólares por minuto, registando-se um aumento substancial das despesas mundiais com o esforço de guerra, superando, em muito, os tempos da chamada Guerra Fria, em que houve desenfreada corrida ao armamento.
Já em 2007, Joseph Stiglitz – Nobel da Economia 2001 – e Linda Bilmes – economista de Harvard – chegaram ao custo real bélico dos EUA no Iraque, no Afeganistão e num outro projeto associado ao “combate ao terrorismo”, cifrando-se nos 600 biliões de dólares[2].
Como é possível que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU queiram a paz na Terra se são eles têm interesse na promoção da guerra, e basta o veto de apenas um para abortar qualquer esforço de paz?
Líderes que querem alterar a constituição para eternizar um poder absoluto, com projetos megalómanos de globalização, sem opositores internos – que silenciam – e que, perante situações externas que ainda não controlam, compram o silêncio de outros líderes menos poderosos.
Um líder a sugerir, frente às câmeras de televisão, numa sala cheia de jornalistas, que fosse injetado um desinfetante no corpo das pessoas, como forma de eliminar o novo coronavírus, a fazer disparar o número de pessoas que acorreram às urgências, por intoxicação. Coisa menor… por se tratar de “notícias falsas”, disse.
Loucos, ganância, contrainformação, acusações de vírus criado em laboratório, seja em Kansas [EUA] ou em Wuhan [RPC], e população infetada em 195 países do mundo.

Isto, faz-nos lembrar a peça dramática “O Rei Lear”, de William Shakespeare, em que um dos temas principais desta obra-prima – escrita com o seu ideal de justiça e humanidade[3] – é a cobiça, apresentando-nos, na parte final, um rei que enlouqueceu. Fiquemo-nos por quatro ideias:
– o bobo diz a verdade ao rei e ele não percebe;
– é uma infelicidade da época que “os loucos guiem os cegos”;
– “essa é a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas não nos correm bem (…) coloca-se a culpa no sol, na lua e nas estrelas, como se fôssemos tolos por compulsão celeste, velhacos, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas (…) sendo toda a nossa ruindade atribuída a influência divina”, e nunca o próprio assume a culpa, pois será sempre alheia;
– no bosque, o rei Lear pergunta ao cego, o conde de Gloucester: “Como é que você vê o mundo?” e Gloucester responde: “Eu vejo-o com todo o meu sentimento”.

Estranho mundo com tanta cegueira! Se o povo de alguns desses países é obrigado a não ver, noutros, mais livres, é incompreensível a cegueira.
Três dos países, considerados potências militares e que integram o Conselho de Segurança da ONU, estão no Top5 de óbitos pela Covid-19!

Ainda se vai conseguindo extrair algumas revelações, um pulsar… que apesar de intenso, acabam por ser poucos a conseguir discerni-lo com lucidez. Temos tido agora muito tempo para refletir e fazer-nos desejar, ardentemente, que surja o “milagre” da visão, em cada um de nós, e colocar essa visão e todo o nosso sentimento – positivo, espera-se – ao serviço da humanidade, para uma existência mais consciente, fraterna e justa, sem loucos ao leme.

(Continua na Parte III)

© Jorge Nuno (2020)


[1] dados de 2018.
[2] um bilião equivale a 1 seguido de doze zeros [1 000 000 000 000].
[3] por volta de 1605.

09/04/2020

Crónicas Leves: A IDADE... PESA!


A IDADE… PESA!

Desde o início da fase de pandemia, temos assistido, com alguma estupefação, à “partida” de muitas pessoas acomodadas em lares de idosos – agora designados residências seniores –, onde era suposto estarem em segurança. Cresceu tanto a indignação, como a preocupação de particulares, instituições e autarquias, que levou a um acelerar de processos, para proteger e salvar vidas neste grupo etário de portugueses.

Até há poucos meses travou-se uma luta, ruidosa, contra e a favor da legalização da eutanásia… silenciada pela força das circunstâncias atuais, como tantos outros assuntos considerados extremamente importantes para a sociedade portuguesa e que, de um momento para o outro, deixaram de o ser. Mas terá, forçosamente, de ser debatida a situação crítica das pessoas de mais idade, por estarem numa situação de fragilidade e por serem muito vulneráveis ao contágio, devido ao seu sistema imunológico – criado naturalmente para defender o corpo contra “invasores” – apresentar menos defesas, nesta fase da vida. Mais do que isso, terão de ser encontradas, rapidamente, soluções duradouras e fiáveis, para um futuro próximo mais tranquilo e risonho.   

Há oito anos atrás, em 2012, encontrava-se a Troika instalada em Portugal e, no Governo, Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Vítor Gaspar, com os cargos mais importantes e a ser apelidados pela Troika como “alunos exemplares”. Na terceira avaliação regular, feita pela Troika, afirmava-se em comunicado que “as políticas estão, em geral, a ser executadas como planeado e o ajustamento económico está em curso”. Precisamente nesse ano, foi colocada a questão do direito à proteção da saúde – que, como era de esperar, estava a entrar no “esquecimento” –, querendo o Governo minimizar custos com a não presença de idosos em hospitais públicos e racionar medicamentos a doentes com cancro, SIDA e doenças crónicas, entre outros. Lembra-se o documento produzido pela Associação Portuguesa de Bioética [APB], assinado em 24 de novembro de 2012, relacionado com “racionamento em saúde”, tendo como relator Rui Neves. Diz o seguinte, em determinada parte: “O direito à proteção da saúde é, hoje, considerado como uma conquista civilizacional, o que implica que a salvaguarda deste direito é uma responsabilidade da sociedade e das suas instituições democráticas”. A pág. 5, do mesmo documento, tem um capítulo sobre “Discriminação e Estigmatização”. Vejamos: “(…) a mudança de paradigma proposta – mudança que preconiza a adoção de utilitarismo como doutrina base no acesso à saúde – permite a limitação do fornecimento de cuidados de saúde apenas com base neste critério. Para além de ser eticamente inaceitável a limitação de cuidados de saúde a uma pessoa apenas pelo facto de se ser idoso (sendo aliás impossível determinar com clareza a linha a partir da qual se é idoso) (…) e isso é contrário à doutrina de igual dignidade de todas as pessoas”. No ponto 3 – “Recomendações” – é referido: “Assim, face ao exposto, a Associação Portuguesa de Biomédica recomenda:
a)      Que o Ministério da Saúde suspenda a aplicação das recomendações do parecer 64/CNECV/2012, dado que algumas inferências – nomeadamente o racionamento com base na idade – são eticamente questionáveis e de constitucionalidade duvidosa.
b)      (…) garantindo o exercício de igualdade de acesso e impedindo práticas discricionárias e arbitrárias por parte dos hospitais públicos portugueses”.
   
Nos dias de hoje, é conhecida a espantosa dedicação das equipas médicas e do pessoal de enfermagem, assim como os demais profissionais da área da saúde que, apesar de exaustas e saberem que têm diariamente a sua vida em risco, mantêm-se firmes no seu posto de trabalho, procurando salvar o maior número possível de vidas humanas. Como não há “mãos a medir”… e impotentes para tratar um número anormal de pessoas infetadas, particularmente as de idade mais avançada, estas equipas médicas acabam, inevitavelmente, por “selecionar” quem deve viver e ser deixado para trás, de certo modo, abandonado à sua sorte. Aliás, replica o exemplo de outros países civilizados da União Europeia, ainda com maior tragédia humana. Na prática, tiveram “carta branca” da mesma APB que, embora desconhecendo-se a existência de protocolo, terá recomendado agora o oposto do que preconizava em 2012, e que “encapotadamente” está a ser levado a efeito.

Lembremos alguns factos, estudos e afirmações de há dois anos atrás, para que se faça uma analogia com a atualidade. Os números oficias da DGS, em 8 de abril de 2020, apontam para 380 óbitos em Portugal, provocadas pelo novo coronavírus, sendo maioritariamente pessoas com 65 ou mais anos. Lembra-se que o número de mortes só em dois dias – precisamente os dias 5 e 6 de agosto de 2018 – foi de cerca de mil mortes, em que, mais uma vez, a população mais idosa não resistiu às temperaturas acima de 40º C. Com dados consolidados em dezembro de 2018, ficou-se a saber que o número de mortes em Portugal, em 2016, foi considerado o maior de sempre, com 110.573. Apontaram-se causas como envelhecimento da população e os fenómenos como a onda de calor, resultado das alterações climáticas. Tendo como fonte o INE – Instituto Nacional de Estatística, em 2019, mas referente a 2017, o número total de óbitos foi de 110.187 e o de pessoas com 65 ou mais anos foi de 49.477, sendo as doenças respiratórias a terceira causa de morte – um pouco acima de média europeia. O ano de 2018 voltou a ser considerado aquele com mais mortes em Portugal – 113.000 (números “redondos”), havendo mais 3% do que em 2017). Sabe-se que foi registado, nos últimos anos, um pronunciado envelhecimento da população, quando não havia um evidente aumento do risco de mortalidade.

Disse a diretora da Pordata – Maria João Valente Rosa – que “o envelhecimento da população é um facto, veio para ficar e é pelas melhores causas, é porque conquistámos espaço à morte”. Também a presidente da Sociedade Portuguesa de Demografia – Maria Filomena Mendes –, disse, ao Diário de Notícias, que é “inevitável” ter um aumento da mortalidade em idades tardias, já que estamos a empurrar a idade da morte até cada vez mais tarde, com muita população próxima dos 100 anos. Há mesmo um estudo do Instituto para as Métricas e Avaliação, ligado à Universidade de Washington, com publicação em outubro de 2018, que aponta Portugal no TOP5 dos países com maior esperança média de vida dentro de 20 anos [agora, dentro de 18 anos], passando a esperança de vida de 81 para 84,5 anos. Maria João Valente Rosa ainda preconiza: “temos de decidir se queremos acordar”, avançando com a ideia que atualmente os serviços de saúde estão centrados nos hospitais e urgências e defende “cuidados de mais proximidade, para responder a pessoas cada vez mais com doenças crónicas, com doenças degenerativas e com menor mobilidade” 

Compreende-se como a idade… pesa, particularmente no Orçamento de Estado! Mas após uma vida de trabalho, as pessoas merecem viver os muitos anos que ainda têm pela frente, em segurança, com qualidade e dignidade.

© Jorge Nuno (2020)

Crónicas Leves: DE REPENTE...


DE REPENTE…

De repente… os casos fraturantes no país, causadores de polémicas e descontentamento aguerrido, desaparecem como que por magia.

De repente… deixa de se falar:
– na extração de lítio em áreas protegidas, que apresenta consequências nefastas para populações e ambiente;
– no futuro aeroporto internacional do Montijo, a criar na Reserva Natural do Estuário do Tejo, e nos restantes aeroportos do país, que habitualmente nos picos de tráfego, e até em condições normais, “rebentam pelas costuras”;
– nos transportes públicos, como motivo de queixa sistemática, por serem suprimidos, insuficientes, obsoletos ou sem condições para absorver tantos passageiros, após redução dos custos dos passes sociais;
– no preço dos combustíveis, pelas piores razões, que subia paulatinamente e era fruto de receita fiscal abusiva, tornando-o dos mais caros da Europa;
– nas cidades sobrelotadas de veículos automóveis, com custos de estacionamento e fiscalização provocatórios e exagerados, e nos efeitos decorrentes da poluição atmosférica;
– nas cobranças elevadas nas portagens das autoestradas, incluindo aquelas em que era suposto, desde o início, serem “sem custos para o utilizador”, mas que levam milhões de euros diários para os bolsos de alguns, que em nada contribuem para a riqueza do país;
– na construção desordenada junto à orla costeira, com projetos aprovados sob suspeita de corrupção, mesmo sabendo da inevitável subida da água do mar;
– no consumismo desenfreado e a viver-se acima das possibilidades, com um crescente aumento de famílias endividadas;                                                                            
na eutanásia, que tem inflamado a sociedade portuguesa e a vida política num esgrimir de argumentos, ficando agora como que num silêncio de casa mortuária;
– no futebol e violência correlacionada, que arrasta paixões exacerbadas, a ocupar imensas horas de programação diária nos canais de televisão noticiosos e desportivos;
nos lóbis que imperam e comandam nos gabinetes da democracia representativa;
nos preços especulativos na habitação, hotelaria e restauração, entre outros, em boa parte por Portugal ser considerado o melhor destino turístico europeu, pelo terceiro ano consecutivo;
– nos casos mediáticos de políticos, banqueiros, gestores, juízes, militares, agentes desportivos, hacker Rui Pinto (que trouxe à luz do dia negócios escuros)… todos com processos a decorrer na justiça;
– nos muitos milhares de milhões de euros engolidos, pela banca, aos vários Orçamentos de Estado e esses bancos a ser engolidos por tubarões;
(…)

Por enquanto, ainda não se descobriu qual a resposta para as seguintes questões: e agora, banca, qual vai ser o teu papel? entras em cena, pelas melhores razões, és engolida por tubarões ainda maiores, abres insolvência, ou esperas esta oportunidade para continuar a sangria?  

Mas de repente… com alguma incredibilidade, descobre-se que:
já não há atividade cultural e desportiva; hotéis estão às moscas; alguns restaurantes só funcionam em regime de takeaway; comércio, indústria e serviços públicos e privados encontram-se encerrados; adotam-se e criam-se regras para o teletrabalho; suprimem-se transporte públicos, que ficam confinados a um terço da lotação; cancelam-se ligações aéreas; fecham-se fronteiras… em suma: o país para;
– as pessoas “imprescindíveis”, com empregos seguros, afinal ficam na contingência de não o serem, podendo engrossar as listas de desempregados, ou as suas empresas entrarem em situação temporária de lay-off, com redução de horário e perda parcial de vencimento;     
– há fragilidades grosseiras nos serviços públicos de saúde, por falta de investimento e de preparação para lidar com situações epidémicas, negligenciando a saúde e a vida, não só dos cidadãos, como dos próprios profissionais de saúde;
– a valiosa Constituição da República Portuguesa, em parte, é metida na gaveta, passando a considerar-se crime de desobediência quando qualquer pessoa não respeite o isolamento social com caráter obrigatório, logo, quando é metida compulsivamente em casa;
as pessoas, a solidariedade e a família passam a ser o mais importante e, finalmente, já há tempo para a família, pese embora a constatação de dificuldades no relacionamento prolongado dentro de portas e da incompreensão, por parte de crianças, do por quê da falta de beijos e abraços, ou da razão de não poderem ir a casa dos avós;
– apesar da debandada de muitos voluntários, houve acolhimento, mesmo que temporário, em abrigos para os sem-abrigo, continuando a ser-lhes prestado auxílio;
– prolifera o bom-humor nas redes sociais, aligeirando a carga emocional;
é evidente o reconhecimento da população pelo trabalho dos profissionais de saúde;
– a vida é um bem a preservar e cada um de nós tem, igualmente, o dever de preocupar-se com o bem-estar coletivo;
– após o enorme esforço de vários países da União Europeia [UE] que levou à criação do Tratado Schengen, com abolição do controlo de fronteiras internas dos Estados-membros e de outros Estados Associados, é a Comissão Europeia [CE] que se vê obrigada a mandar encerrar todas as fronteiras, perante os efeitos deste inimigo invisível. De repente… quando até há poucas semanas entravam, diariamente no espaço europeu, milhares de migrantes oriundos do Médio-Oriente e África, agora, com perplexidade e aflição, veem-se barrados cidadãos comunitários nas fronteiras dos mesmos Estados-membros a que pertencem; 
 – é nesta ambiência de mar revolto que se descobrem os verdadeiros timoneiros e espera-se que caiam, desmascarados, os líderes mundiais, estúpidos, populistas e inconscientes.

O diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente referiu, em 2015, com base em estimativas da OMS, que “todos os anos a poluição do ar causa sete milhões de mortes prematuras no mundo”. Sabe-se que destes, um milhão de mortes prematuras ocorria na China e, em França, cerca de 48.000. É afirmado também que “para limitar o aumento da temperatura global [no planeta] a 1,5 º C acima da era pré-industrial, seria preciso reduzir em 7,6% ao ano as emissões de gases com efeito de estufa”. Os especialistas entendem que em 2020 esse número pode ser atingido, baseado em estudos e imagens de satélite da NASA e da Agência Espacial Europeia. Estas imagens mostram-nos, claramente, quais os efeitos colaterais desta pandemia do Covid-19 e das medidas drásticas adotadas pelos países mais atingidos: a despoluição “forçada” pela inatividade do setor industrial e descida drástica da circulação aérea, marítima e terrestre.

François Gemenne[1] faz uma afirmação que, até certo ponto, parece surpreendente: “Por incrível que pareça, acho que o número de mortes devido ao coronavírus pode acabar por ser um mal menor, dadas as [possíveis] mortes por poluição do ar”.

Anthony William, refere[2]: “No século XX, a medicina fez grandes progressos na área da virologia… mas tudo isso foi varrido para baixo do tapete. Como não havia financiamento para levar essas descobertas até ao nível seguinte, deixaram esses médicos espantosos à deriva quando as suas descobertas acerca de certos vírus foram, em grande medida, ignoradas”.

De repente… a CE, que tudo tem feito para ter um controlo absoluto sobre os orçamentos de cada Estado-membro, fazendo imposições, algumas mesquinhas e inadequadas à realidade do país, agora dá carta branca a cada um desses Estados para gastar o que for preciso no combate ao novo coronavírus. Por antecipação, seria bem mais vantajoso, económica e socialmente, que a estratégia de investimento da UE tivesse abrangido a adequada investigação em virologia.

De repente… a população, apesar de preocupada, tem melhor qualidade do ar; e a mãe natureza agradece.

De repente… questionamo-nos:
– não estaria mesmo a ser necessário este momento de paragem forçada, para pensar?
– não se estará a escrever direito por linhas tortas?

Tudo será diferente pós Covid-19. E a solução passa por cada um de nós. Renasçamos com maior consciência cívica, mais interventivos, mais solidários, mais humanos!

© Jorge Nuno (2020)


[1] Diretor do Observatório Hugo.
[2] In “Médico Médium – Segredos da Cura de Doenças Crónicas e Misteriosas”, Ed. Pergaminho.

10/03/2020

Crónicas Leves: A DONA PRUDÊNCIA FOI AO ENTERRO


A DONA PRUDÊNCIA FOI AO ENTERRO

Há várias décadas conheci uma senhora que, quando falava, tinha a tendência de aproximar a mão da boca, chegando mesmo a tapá-la com frequência. Desde sempre, com o habitual desejo em tentar descodificar a linguagem corporal, fiz algumas conjeturas: resquícios da condição da mulher durante a ditadura do Estado Novo; insegurança pessoal, perante um interlocutor com quem não tinha um relacionamento de proximidade e pretendia deixar boa impressão ou, pelo menos, não defraudar expetativas; forma inconsciente de suprimir palavras enganosas, na tentativa de ocultar uma ou mais mentiras – o que, honestamente, não me parecia ser esta a situação.

Lembro-me de ter lido algo semelhante na interessante obra literária ”Conquistadores – Como Portugal criou o primeiro império global”, de Roger Crowley[1], sobre Vasco da Gama, capitão-mor da frota portuguesa envolvida na descoberta do caminho marítimo para a Índia. Aquando da chegada a Calecute, em 1498, em representação do rei D. Manuel I, Vasco da Gama foi recebido pelo samorim – o monarca indiano –, e foi previamente instruído: “[deveria] usar os gestos corretos, não aproximar-se demasiado, e falar com a mão diante da boca”. Com o desenrolar da leitura, concluí que se tratava simplesmente de uma questão de educação e um aspeto cultural daquele país, a respeitar. Mas também poderia resultar de um eventual conhecimento da peste negra na Europa, que terá vitimado um terço dos europeus[2], levando o samurai a ser previdente.  

De há uns anos para cá, tem-se visto, seja os deputados e membros do governo na Assembleia da República, ou jogadores de futebol e equipas técnicas em campo, a falar com a mão à frente da boca. Neste caso, estará longe de significar educação, embora, pela repetição insistente, este gesto parece ter deixado de ser censurável; no fundo e mais uma vez, é tudo uma questão de prudência, face à capacidade de leitura labial através das imagens televisivas. 

Ainda em relação às mãos, é ancestral o tipo de saudação nas culturas indianas e nepalesas. Intitula-se “namastê” e consta em juntar as palmas mãos, próximas do peito, com os dedos a apontar para cima, acompanhado de uma ligeira vénia, significativa de respeito. Não há contacto físico nessa saudação entre duas ou mais pessoas.  

Na cultura ocidental, instituiu-se o aperto de mão, o abraço e beijo, como forma de cumprimento. Lembra-se o encontro de 2017, entre Donald Trump e Angela Merkel, em que, perante as câmaras de televisão, ela estendeu-lhe a mão educadamente e ele ignorou, deixando-a “pendurada” durante uns bons segundos. Este gesto descortês do presidente americano correu mundo. Três anos depois, uma peça jornalística na TV mostrou a chanceler alemã a estender a mão a um eurodeputado, em Bruxelas, com ele a recusar o cumprimento, mas fazendo questão de sorrir e dizer algo não traduzido. Afinal, era uma forma de prevenir a propagação do surto do novo coronavírus, ainda em fase inicial na Europa, e não houve lugar a desconforto nem polémica.
Por cá, a diretora-geral de Saúde, logo no início da “crise”, fez recomendações para que os portugueses evitassem os beijos e abraços. Só faltou usar a estratégia de um funcionário auxiliar, contratado por uma escola secundária da região de Lisboa, nos anos oitenta do século passado, que vinha dos serviços prisionais e tinha como tarefa espontânea separar à força os jovens estudantes enamorados, que se beijavam no recinto escolar.

Até a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portuguesa de Futebol Profissional, que tanto têm apregoado o fair-play – associado à ética no desporto – fizeram recomendações para que não houvesse apertos de mão entre agentes desportivos em campo, nem dar as mãos às crianças que acompanham os jogadores e equipa de arbitragem no início de cada jogo; sugeriram que jogadores e árbitros se cumprimentassem apenas com um toque de cotovelo. Num jogo da primeira Liga, viu-se o respeito por essa orientação; no final do mesmo, acabaram todos aos abraços e apertos de mão, mas antes assim do que aos murros e empurrões.  Ao longo de anos, após a apreciação de processos disciplinares instaurados por atos reprováveis de adeptos, os respetivos Conselhos de Disciplina aplicaram o castigo de jogos à porta fechada. Alguns desses castigos nunca foram cumpridos pelos clubes, que recorreram até onde foi preciso, ficando os castigos para as calendas gregas... Ambas as entidades e os clubes, acataram agora, parcialmente, as recomendações da DGS e da ministra da Saúde, para a suspensão ou adiamento de eventos com mais de 5 mil pessoas em áreas abertas ou, no caso do futebol, as várias competições prosseguirem, mas com estádios vazios, tanto na primeira e segunda Ligas, e também em alguns jogos do Campeonato de Portugal. A finalidade é evidente:  evitar o contágio de milhares de espetadores no mesmo recinto.

Marcelo Rebelo de Sousa – o presidente dos afetos – que tanto se desdobrava em abraços e beijos, veio dizer que só passaria a dar beijos a quem pedisse. Pouco depois, anunciou que, por ter estado em contacto com estudantes de um concelho do Norte, onde se registaram casos “positivos” e, embora não tivesse sintomas nem contraído o COVID-19, iria ficar em casa, de quarentena. Estaria a fazer a apreciação do Orçamento de Estado, e sobra-lhe algum para tempo para se dedicar à leitura – que, como se sabe, tanto gosta! Afirmou que este isolamento social voluntário serviria de exemplo para os portugueses.

Como diz o ditado português: “O seguro morreu de velho e a dona prudência foi ao enterro”.

© Jorge Nuno (2020)   


[1] Da Editorial Presença
[2] Estimativa pouco fiável, atendendo à época.