27/02/2020

Crónicas Leves: QUANDO BRILHA O SOL


QUANDO BRILHA O SOL

Um ranking, de 2018, aponta-nos a Finlândia como tendo o povo mais feliz do mundo. No entanto, existe um relatório intitulado “Na Sombra da Felicidade”, elaborado pelo Conselho de Ministros Nórdicos e do Instituto de Pesquisa da Felicidade, que revela dados surpreendentes, muitos deles associados à saúde mental, indiciando que não se sentem mais felizes quando são jovens. Há um destaque para a faixa etária entre os 16 e os 24 anos, pelas piores razões, já que têm vindo a aumentar os pedidos de ajuda no âmbito da saúde mental, sendo o suicídio responsável por 35% de todas as mortes de jovens naquele país.

Pode ler-se, num artigo disponível no site da BBC News Brasil[1], que a Finlândia, com 5,5 milhões de habitantes, “é uma nação de mentalidade melancólica, algo ligado aos seus longos e escuros invernos. De facto, não é um lugar onde você vê regularmente manifestações de alegria ou outras emoções positivas”, referindo mais à frente que “as taxas de suicídio na Finlândia de hoje são 50% menores do que na década de 1990 e caíram em todas as faixas etárias – uma mudança associada a uma campanha nacional de prevenção e a tratamentos melhores para a depressão”.

Numa viagem de comboio, há cerca de 48 anos, entre Coimbra e Lisboa, em conversa com uma jovem turista finlandesa, ao perguntar-lhe o que mais gostava de Portugal, respondeu de imediato: “O sol!”. Confesso, na altura fiquei surpreendido. Fui-me apercebendo, com o decorrer dos anos, que os países nórdicos teriam um elevado nível de vida, comparado com Portugal, mas, na verdade, falta-lhes o sol.

Há poucos meses atrás, os vários canais de TV em Portugal, generalistas e de notícias, noticiavam a preocupante saúde mental dos portugueses. O site do Correio da Manhã[2] apresentava o título: “Portugal é o segundo país da Europa com maior prevalência de doenças mentais”.  Nesse artigo, pode ler-se, em jeito de conselho: “Angústia ou tristeza prolongada, dificuldade em adormecer ou manter o sono, pensar que é inútil, sentir-se um peso para os outros ou ter vontade de morrer, são sinais a que deve estar atento e, segundo os especialistas, são razões para procurar ajuda médica (…) estima-se que mais de um quinto dos portugueses sofra de perturbação psiquiátrica”. Quase a concluir o artigo, é referido o relatório “Health at a Glance 2018”, deixando a ideia que Portugal está entre os países com maior prevalência de demência: “20 em cada mil habitantes sofrem de doenças mentais”.

Quais serão as razões que levam a que um país, nestas circunstâncias, seja rotulado como tendo o povo mais feliz do mundo? Serão estereótipos criados ao longo de anos? É que não bate certo quando se fala de mentalidade melancólica, não haver manifestações de alegria, com uma forte prevalência de suicídio (embora em fase de abrandamento), sendo um facto o pouco sol durante o ano. Por outro lado, genericamente, o povo português, a par da tendência para a nostalgia – não será por acaso que o fado tem vingado –, manifesta uma genuína alegria, particularmente no Norte, mesmo estando longe do nível de vida e dos apoios sociais existentes na Finlândia. E por que será que tendo Portugal muito sol, existe tão elevada prevalência de doenças mentais?

Este inverno tem sido muito chuvoso, com demasiado tempo nublado – tendencialmente a Norte –, levando a que haja registo de imensas semanas sem se ver o sol. Admitamos que este tempo deixa as pessoas neuróticas, afetando o equilíbrio emocional, o sono, a produção, em suma, a vida de cada um. Como se não bastasse o tempo, há preocupações extra com: a rápida difusão do coronavírus; a ambiência da corrupção generalizada e, particularmente, no seio da justiça a envolver juízes; casos pontuais de racismo, violência, xenofobia e intolerância, amplificados com demasiado ruído… A discussão e aprovação na Assembleia da República da despenalização da eutanásia, também não terá ajudado, quando era suposto o foco estar na resolução da falta de cuidados paliativos.

Finalmente, surgiu o esplendoroso sol, mesmo que apenas por alguns dias seguidos!

Parece que ganhámos alma nova e passámos a encarar a vida com outro olhar e um sentimento de maior leveza. Até já se repara no desabrochar das flores. E é nesta nova ambiência que extravasa a alegria. Imagine-se a seguinte cena caseira, quando uma pessoa, até então afetada negativamente pela falta de sol, começa a cantarolar brejeirices da música tradicional/popular portuguesa do Quim Barreiros, Augusto Canário  Rosinha, logo que o sol mostra o seu ar sorridente (tal como as crianças o imaginam e pintam):
– “Ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser / Que garagem apertadinha, que doçura de mulher / Tiro cedo e ponho à noite, e às vezes à tardinha / Estava até mudando o óleo na garagem da vizinha…”
Admirada com esta mudança de humor, ela tenta ironizar e lança umas farpas:
Ó homem, o que é que te deu? Deixa lá o carro e vai mas é de bicicleta, para ver se queimas as banhas!
Ele, aproveita a deixa e prossegue com outra cantiga encadeada:
– “Andam todos loucos para montar / Na bicicleta da Mariazinha / Eu também estou doido p’ra falar com ela / Se ela me deixar também dou uma voltinha…”
Olha este!... Dar uma voltinha… tu nem podes com um gato pelo rabo!
– “Mas o que eu amo de paixão /São gatinhas, podem crer / São mais doces, mais ternurentas / são lindas de morrer. Às vezes até à noite / É de gatas que acabo de falar / Pode até parecer estranho / Mas não tenho culpa de gostar. É de gatas, é de gatas que eu gosto…”
Olha lá… e de ratas, não gostas?
– “Sempre gostei de mulher / Que não me dê chatice / Porque há aí muita menina / Que tem muita ratice. Namorei uma cachopa /Por simples brincadeira / E quando quis sair / Estava preso na ratoeira. Era uma songa-monga / Boazinha e sensata / Tinha cara de anjinho / Mas fina como uma rata…”
Ai, ai!... Isso é comigo ou o sol queimou-te os fusíveis? É que essa cabecinha deve estar a delirar!
– “Pezinho com pezinho, ai, ai, ai / Perninha com perninha, ai, ai, ai / Encosta a cabecinha, encosta, encosta /Do roça, roça é que a malta gosta…”
Desisto!  diz ela, por não conseguir acompanhar a pedalada do marido.  

Acredito que com esta nova mudança de tempo – muita chuva e céu cinzento de volta –, já não daria vontade de cantar, em ritmo de samba: “Chupa Teresa! Chupa Teresa! Qu’este gelado gostoso / É feito de framboesa! Há gelado de morango / Baunilha e abacaxi / As garotas do meu bairro / Vêm todas chupar aqui!”. Provavelmente, alguém não acharia graça e faria chover ainda mais críticas por metro quadrado do que a própria água da chuva, exigindo que se seja “politicamente correto”. Viu-se neste Carnaval – época em que se diz que “ninguém leva a mal” –, onde há temas tabus, com abordagem proibida, tal como a está a ser na sociedade, de forma doentia, ao longo de todo o ano.

Segundo Almada Negreiros: “A alegria é a coisa mais séria da vida”.

Alheio a tudo isto, quando brilha o sol a vida passa ter mais fulgor!

© Jorge Nuno (2020)
  


[1] 29 de setembro de 2019.
[2] 5 de outubro de 2019, com artigo assinado por Elsa Custódio e Edgar Nascimento.

Crónicas Leves: GENTE QUE NÃO VAI À BOLA

GENTE QUE NÃO VAI À BOLA

Sinto-me tentado a recuar vinte anos, quando monitorizava “Formação Pessoal e Social”. Num dos módulos, criei a atividade “As profissões que admiro”, tendo como objetivo “refletir sobre os valores pessoais e conhecer os valores do grupo, relativamente ao prestígio atribuído a determinada profissão”. No fim, comentava-se o que é o prestígio e que valores lhes era atribuído, para depois estimular a autoestima, caso necessário. Para o efeito, criei uma lista com 15 profissões[1] para hierarquizar, deixando um campo aberto para inclusão de outra profissão, anotada livremente. Com uma amostra superior a 150 formandos adultos, a primeira escolha recaiu quase na totalidade sobre a profissão de “juiz”.

Em duas décadas muito tem mudado, incluindo os valores éticos e deontológicos, tal como a perceção do prestígio dos juízes. Reconheço que seria interessante “medir” o desvio verificado, já que há, cada vez mais, estupefação em relação a despachos, sentenças e acórdãos proferidos por juízes, deixando-nos um sentimento de que a justiça não funciona, ou só funciona para alguns, deixando-a fragilizada.

Uma notícia do JN[2] dá-nos conta de que o “Modelo de Braga no combate à violência [no desporto] alarga-se ao país – juízes e procuradores andam nos estádios a conhecer a realidade do desporto. Projeto já sancionou 60 adeptos”. Os referidos adeptos estarão proibidos, pela via judicial, de aceder a recintos desportivos, de várias modalidades. Tal, resulta “de um projeto-piloto [na comarca de Braga] desde a Liga das Nações, no verão de 2019]”. O coordenador do Ministério Público do Distrito Judicial de Braga, terá referido: “Temos vindo com este pleno de ação a aplicar mecanismos legais com magistrados a seguir todas as fases dos policiamentos, antes, durante e após os jogos, para avaliarem a complexidade do fenómeno. Ao conhecer melhor o meio em que se desenvolvem as situações terão, pelo menos, decisões mais adequadas aos casos concretos, tendo resultado na interdição judicial de adeptos, aplicada ao fim de poucas horas dos casos”. Ao que tudo indica, estes juízes e procuradores foram à bola, e terão tomado consciência do flagelo da violência no desporto e da necessidade de agilizar a sua erradicação.

No mesmo jornal[3] pode ler-se: “Juízes recuam na proibição de cargos no futebol”. O líder da Associação Sindical dos Juízes terá estado na origem da proposta de proibição de juízes desempenharem funções em órgãos de clubes desportivos e/ou respetivas Sociedades Anónimas Desportivas [SAD]. Clubes mais relevantes e a própria Federação Portuguesa de Futebol têm juízes nos seus órgãos sociais. Fazem-no, normalmente, na Mesa da Assembleia Geral, Conselho Fiscal e Disciplinar, Conselho de Justiça… muitos são juízes conselheiros, com alguns deles jubilados. O Conselho Superior da Magistratura [CSM] deliberou não proibir, de imediato, a participação de juízes nas estruturas dos clubes e SAD, e permite que quem esteja a exercer funções termine o seu mandato em curso. É de acreditar que estes juízes, com a sua paixão clubística, irão mesmo à bola.

Um artigo do JN[4] lembra: “Megainvestigação do Fisco ao mundo do futebol já decorre há vários anos – Os principais negócios do futebol português começaram a ser escrutinados pela Autoridade Tributária [AT] em 2016, e vários deles levaram à abertura de inquéritos por parte do Ministério Público [MP], mas nenhum foi ainda concluído com acusação, não tendo ocorrido, também, liquidação de impostos em falta (…)”. Trata-se de casos de fraude fiscal e branqueamento e os processos terão sido organizados em cinco megainquéritos. É evidente que a criação de um qualquer megainquérito, por mais bem-intencionado que seja, dificulta as conclusões em tempo útil. Neste caso, não ficará no ar a suspeição se os juízes, ao serviço dos clubes, serão “conselheiros” das respetivas direções e, paralelamente, moverem influências externas, p.e., para deixar prescrever os prazos de processos em curso? Como é possível que tal aconteça? Basta haver o argumento da escassez de meios humanos das equipas de investigação alocadas à investigação, tanto do DCIAP – Departamento Central de Investigação e Ação Penal, do MP e da Direção de Serviços de Investigação de Fraude e Ações Inspetivas, da AT. Ou, como terá afirmado uma fonte da AT, que “a investigação tem sido prejudicada por demasiadas mudanças de magistrados nas equipas (,,,)” o que, atendendo à complexidade, leva a perder o fio à meada, provocando atrasos na sua conclusão. É de prever que muitos dos juízes, que vão em trabalho aos estádios, acabem por também ir à bola.

É conhecida uma lista de 45 magistrados, alegadamente convidados por um glorioso clube português para assistirem aos jogos de futebol no seu estádio. Um deles, desembargador, terá rejeitado um recurso do hacker Rui Pinto, para anular a medida de coação a que ficou sujeito – prisão preventiva. No site da TSF[5] pode ler-se a seguinte afirmação à Lusa, proferida pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça [CSJ], quando soube que a ex-eurodeputada Ana Gomes citou o seu nome, como estando incluído nessa lista: “Repudio, em meu nome pessoal e como presidente do CSJ e do CSM, insinuações gerais de parcialidade da justiça que têm surgido a este propósito [em relação aos clubes]”, assegurando que nunca aceitou convites de qualquer clube de futebol para assistir a jogos. Um conselheiro no Tribunal da Relação de Lisboa [TRL], disse que foi ver um jogo há muitos anos, que pagou o bilhete e até deixou de ser sócio. O próprio presidente do TRL, terá garantido ao JN que já não entra num estádio de futebol há mais de 40 anos; “a última vez que fui ao futebol foi nos anos 70, um jogo de juniores, e como havia pancada nunca mais voltei”, terá afirmado.

Bolas!... Afinal há gente que não vai à bola!

© Jorge Nuno (2020)
   




[1] Adaptado de “Psicologia das Relações Interpessoais”, de M. Odete Fachada (1998)
[2] de 7 de fevereiro de 2020, assinado por Joaquim Gomes.
[3] Idem, assinado por Nuno Miguel Maia.
[4] Idem, assinado por Alexandre Panda e Nelson Morais.
[5] de 03 de fevereiro de 2020.