22/10/2012

Lágrimas ou Suor? Solução do Puzzle II



Solução do Puzzle II, óleo s/ tela70x50, Jorge Nuno (2012)


LÁGRIMAS OU SUOR? SOLUÇÃO DO PUZZLE I

Dúvidas
Encruzilhadas
Nós atados
Contrariedades
Desânimo
Dor
Sofrimento
Lágrimas.

Lágrimas de dor ou
Lágrimas de Felicidade?
Lágrimas ou suor?

Suor…
Na busca incessante,
No desbravar de caminhos,
Na ultrapassagem dos medos,
Na partilha, dádiva e na entrega,
Suor em benefício da própria felicidade
Que amortece a carga da encruzilhada.
Porque mesmo em momentos escuros,
Encaixando as peças do puzzle,
É possível sentir
A explosão de alegria e cor
Oferecida diariamente pela vida.

Jorge Nuno (2012) 

21/10/2012

No Rasto de La Fontaine ou o Mágico Reino dos Burros

Burros -Imagem retirada da Internet



NO RASTO DE LA FONTAINE
OU
O MÁGICO REINO DOS BURROS

Era uma vez… um mágico reino dos burros. Era um reino faz-de-conta como muitas tantas repúblicas com democracia faz-de-conta em que, apesar de tudo, como burros foram espertos ao dividir o planeta ao meio e querer ficar com metade.  
Nesse reino, havia um rei chamado Tomásio e um simpático e desconhecido burrinho pequenino, chamado “Doce”. O Doce foi crescendo e quando chegou à fase de adolescência houve uma situação conturbada no mágico reino, tornando-o ainda mais mágico.
Os burros andavam todos eufóricos e durante um curto período de tempo, passaram vários reis pela cadeira do trono. Nessa altura o Doce esteve dois anos sem ir à escola e teve passagem administrativa. Como aquilo era um tédio, fez-se membro da Juventude Nacional [JN], que sustentava um dos partidos que alternava na governação do reino e continuava a passar as tardes a jogar às cartas, com muitos amigos, onde faziam campeonatos de king e sueca, debaixo de grande animação.
Mais tarde, após liderar a JN, o nosso simpático Doce foi eleito para as Cortes e viria a arranjar sucessivos empregos (e até em simultâneo) bem remunerados, em empresas de amigos ligados ao partido, o que lhe fazia aumentar ainda mais o número de amigos.
Ainda ao tempo da JN, fez uma sólida amizade com outro jovem chamado Prado. O jovem burro Prado era uma personagem muito curiosa, senão vejamos: pertence a uma sociedade secreta e frequentou três universidades privadas, em quatro cursos superiores diferentes e numa dessas universidades até ficou a dever dinheiro das propinas.
– Eh pá, então não te safas nas notas? – Diz o jovem Doce para o amigo.
– Deixa-me lá, aquilo é demais para a minha cabeça – Lamenta-se o Prado, embora não seja de estranhar no reino de burros.
– Eh pá, a gente arranja aí um esquema, tudo legal!... Está descansado. Eu na escola passei também em dois anos, administrativamente, e não houve problema nenhum. Tudo legal! – Lembrou o Doce.
Passado pouco tempo o Prado já era, administrativamente, doutor.
Foi parlamentar, fez carreira em vários cargos e, espante-se, até foi presidente da Assembleia-geral de uma Associação de Folclore! Reformado de parlamentar, voltou ao ativo para um cargo governativo, como braço direito do amigo Doce.
O Doce chegou a primeiro-ministro deste mágico reino, com quase metade de abstenções, com os burros muito satisfeitos pelo outro anterior primeiro-ministro ter saído do país e em que terá ficado com muito dinheiro num offshore. Tudo legal, neste mágico reino!
Garantem os guardiões do templo que têm a constituição bem guardada na gaveta, não vá alguém mal-intencionado querer molestá-la.
Moral da história? Bem, podem tirar-se muitas, mas fiquemo-nos apenas por uma:
– Se este tipo de burros chegam a tão altos cargos no reino e se se mantêm lá, não é de admirar. É porque todos os outros são mesmo burros!

Jorge Nuno (2012)

19/10/2012

No Rasto de La Fontaine ou a Alquimia da Felicidade


Mãos Sagradas, foto recolhida de FotoSearch - Banco de Imagens

NO RASTO DE LA FONTAINE
OU A ALQUIMIA DA FELICIDADE

Era uma vez… no reino distante do Chumbo, quando predominava a noite escura da alma. O corvo “Black”, o veado “Chifrudo”, o peixe “Escamudo”, o pardal de telhado “Beirão”, o leão verde “Green” e a salamandra “Sandra”, fartos das queixas dos humanos, eternamente relacionadas com as suas dolorosas experiências de vida e, desta, com muitos pedaços perdidos, resolveram analisar a situação de modo a possibilitar transformação interior e fazer com que os humanos se sentissem mais felizes.
            Sempre que se fala em crise, os humanos ficam cheios de medo, mas é preciso entender que ela traz as necessárias sementes da transformação. Só vejo uma solução: Temos que pensar na fase de putrefação do processo alquímico. Há que começar por fazer a necessária alquimia transformadora, mudando algum chumbo no ouro da consciência de cada um Diz o Black, parecendo mostrar-se à vontade para falar deste assunto.
            Como elemento água, não sei se haverá tábuas de salvação, mas eu posso dar uma ajuda… um jeitinho para banhar a matéria-prima Diz o Escamudo, com a convicção que poderia não ser assim tão fácil, mas havia que tentar.
            Atalha logo o Chifrudo Como elemento terra, estou como diz o Escamudo, porque nos trilhos não há indicação do caminho, mas vamos tentar fazer alguma coisa.
            Separemos o trigo do joio, o que queremos e depuramos, pois há que clarificar as coisas com menos sofrimento Diz o Beirão, convencido que mesmo sem tabuletas a indicar o caminho, estaria no caminho certo para a solução do problema.
            Retemperem-se os sinais do desafio pelo fogo, pois só assim haverá renascimento da vida Diz a Sandra, muito senhora do seu focinho.
            Eu acho que chegou mesmo a hora de rever conceitos e não tenho dúvida que os humanos vão ter que fazer um trabalho profundo com o ego. Vocês sabem que eu represento o sal, como dissolvente universal, para outros sou o arsénico, mas independente disso eu estou ligado à energia vital, que une corpo e alma. Temos um árduo trabalho pela frente e de nada vale pedirmos que autorizem uma comissão de trabalho e esgotar tempo com a questão de liderança. E que tal começarmos já por utilizar o princípio volátil, inerte, que tem propriedades de combustão e corrosão de metais, juntando-o ao princípio fixo, ativo? Diz o Green, começando logo a afiar as unhas, para se atirar ao trabalho.
            Enquanto a Sandra começava a esboçar um esforço para atiçar o fogo, fez-se algum silêncio. Um deles olha instintivamente para o céu e depois olha para os restantes e diz Há aqui qualquer coisa errada… não acham? Os outros abanam a cabeça, negativamente, pois não estavam a ver qual era o problema. E continua Podemos estar cheios de boas-intenções mas não veem o que nos falta? Continuou o abanar negativo das suas cabeças Então? É a matéria-prima! Conclui.
            Ahhh… pois é! Dizem quase todos ao mesmo tempo.
            Assim, não dá… pois não Diz desconsolado o Green, mas levanta logo ânimo e continua Parece que a solução é ser mesmo o humano a fazer a sua própria experiência, para provocar a sua transformação interior. E se a fizer bem feita, não parece haver dúvidas que resulta. Estou mesmo a vê-lo a sentir os raios dourados que se soltam do cadinho, em processo de síntese interna e que emergem após a conexão do eu consciente e o self divino. Depois disso é fácil captar energia, cocriar novas experiências necessárias à condução do seu destino. Feito o renascimento espiritual, o homem poderá dizer que fez a alquimia da felicidade e viverá feliz para sempre… nesta e noutras vidas.

Jorge Nuno (2012)

Quadras humorísticas (I)


QUADRAS HUMORÍSTICAS (I)

QUADRAS FEITAS INSTANTANEAMENTE E COLOCADAS EM HORIZONTES DA POESIA, EM QUADRAS ENCADEADAS*
·         *O primeiro verso de cada quadra é o mesmo do último verso da quadra anterior, feita por outra pessoa.

Com quadras p’lo tempo fora
Siga a roda em contradança.
Venham poetas agora
Mostrar a vossa pujança!

Ele vale mais que o ouro,
Quem fala assim não é gago.
Usa-se pra cá do Douro…
É o caráter, carago!

Pra deixar a bater mal,
Bate, bate… até esfolar.
Se chegar ao carnaval
Em alguém vou martelar.

Chego-te a mim de mansinho,
Não vás tu querer fugir.
Olhas pra mim com carinho…
Dá-me vontade de rir.

Neste almoço luxuoso
Cada um come o que quer.
Não sou nada preguiçoso,
Embarca… o que vier!

Que pede meu coração…
Ai valha Nossa Senhora!
Eu queria um leitão
E até já ia agora!

Quadras humorísticas (II)


QUADRAS HUMORÍSTICAS (II)

QUADRAS FEITAS INSTANTANEAMENTE E COLOCADAS EM HORIZONTES DA POESIA, EM QUADRAS ENCADEADAS*
·         *O primeiro verso de cada quadra é o mesmo do último verso da quadra anterior, feita por outra pessoa. 

Sinto gosto em brincar,
Qual criança no jardim.
É só correr e saltar…
Coisa de loucos… enfim!

Para dar aos meus amores
Há muito que ofertar.
Ando cá com uns calores…
Abro a janela… ai o ar!...

Eu bem vi, eu bem o sei…
O quanto gostas de mim
Sei que o caldo entornei…
Toma o ramo de jasmim!

Vá dormir uma soneca,
Pode o diabo tecê-las…
Quando virou a bejeca
Já não foi capaz de vê-las!

Não se encoste à bananeira
Não que isso seja foleiro.
Mas à parte a brincadeira…
Pior? Abane o coqueiro!



13/10/2012

Reflexos no Fervença I


Reflexos no Fervença I, Bragança. Óleo s/ tela 41x33, Jorge Nuno (2006) 


Reflexos no Fervença I

Reflexos sejam teu brilho,
Oh Fervença renascido.
Margens com cheiro a junquilho
Outrora campos de milho,
Hoje, de lazer vestido.

Jorge Nuno (2012)

Reflexos no Fervença II



Reflexos no Fervença II, Bragança. Óleo s/ tela 46x55, Jorge Nuno (2007) 


Reflexos no Fervença II

Reflexos sejam clamor,
Oh Fervença cor de jade.
Que teus lamentos de dor
Sejam hinos de louvor
Ao Senhor da Piedade.

Jorge Nuno (2012)

11/10/2012

Acho bem... Acho mal...



ACHO BEM… ACHO MAL…


Foi anunciado que “O que é Nacional é bom!”
Era um possível rumo, uma onda positiva em que alinho.
Viram-se bandeiras nas janelas, cantou-se o hino em alto tom.
Em torno de um desígnio, alimentou-se a esperança do Algarve ao Minho.
Achei bem, porque eu amo a minha Pátria.

Agora as bandeiras estão nas lapelas, mas no povo ausente.
Os ventos tomam outros rumos, muito sai mal, pouco sai bem.
Mesmo assim quero ajudar, remando contra a corrente,
Ajusto as velas, tomo iniciativa, alerto, como convém.
Acho mal e acho bem, porque eu amo a minha Pátria.

Vende-se ao desbarato, tudo o que dá lucro.
Pagam-se altíssimos juros, que são um estupro!
Como as minas estão paradas e o setor do aço foi embora…
Até para fazer a vil moeda… o metal vem de fora!
Acho mal, porque eu amo a minha Pátria.

É julgado o sem-abrigo que furtou polvo para comer,
São ilibados magnatas de outros “polvos”, que desviam até mais não querer.
Encerram-se escolas, acaba-se com o emprego, desertifica-se o interior,
Como solução, manda-se emigrar… nem cá fica o senhor prior!
Acho mal, porque eu amo a minha Pátria.

Destrói-se o setor das pescas e o pescado é importado,
Criam-se planos para a agricultura… e o campo está despovoado.
A cebola vem de França, o alho vem de Espanha,
Tal como os morangos, as verduras e a castanha.
Acho mal, porque eu amo a minha Pátria.

Temos moldes em Leiria e o plástico vem do Oriente,
O trigo e a carne vêm das Américas, de trás do sol poente.
As confeções vêm da Ásia, não do Vale do Ave.
Quem vivia menos bem… já nem sequer tem a cave!
Acho mal, porque eu amo a minha Pátria.

Sou homem de fé, as aparições deram-se cá, mas é para eles uma mina…
Pois até a imagem da virgem que brilha no escuro… vem da China!
Sou crente e acredito no meu País. Não sou homem que desiste!
No entanto, das duas uma: ou eu não estou na minha Pátria,
Ou a minha Pátria já não existe!

                                                                                                                                                                                                       Jorge Nuno [2012]