27/01/2021

Crónicas de Língua Afiada: ESPADACHINS E DEMOCRACIA

ESPADACHINS E DEMOCRACIA


Rapidamente, em poucas semanas, nos esquecemos que:

– na Ilha da Madeira, com o setor turístico e respetivos trabalhadores a passarem por dificuldades, sem os habituais navios de cruzeiro nem turistas, o fogo de artifício da passagem de ano teve brilho por uns breves sete minutos e um custo estimado de um milhão de euros, literalmente queimando dinheiros públicos da Região Autónoma e causando ajuntamentos públicos indesejados;

– David Neeleman, um dos principais acionistas da TAP, exige uma indemnização multimilionária ao Estado por prejuízos causados pela renacionalização da companhia aérea, a envolver “biliões de euros”, com processo a poder vir a arrastar-se nos tribunais por vários anos, ficando a “dívida” para futuras gerações e outros governantes, mesmo que se tenha dito que a TAP já tinha problemas financeiros antes da crise, que “estamos a gastar tanto com a TAP [com dinheiro público] como gastámos com a saúde[1]” e se preverem “perdas de 6,7 mil milhões de euros até 2025”[2];

– houve fortes suspeitas de favorecimento de consórcios e não respeito pelas áreas protegidas em que se inserem as zonas definidas para eventual exploração do lítio e, agora, algo idêntico no “hidrogénio verde”, a envolver governantes; 

– o hacker Rui Pinto, foi votar, antecipadamente, na candidata que o apoiou (antes, durante e depois de ser preso), tendo publicado o boletim de voto no Twitter, podendo este gesto – ao dar conhecimento do seu sentido de voto – valer-lhe punição «com pena de prisão até 1 ano ou pena de multa até 120 dias[3]» e, se calhar… já nem nos lembrávamos que ele assumiu a responsabilidade de ter fornecido, à Plataforma para Proteção de Whistleblowers em África, informação pertinente sobre a fortuna de Isabel dos Santos, cujas revelações aceleraram a “queda do império”, assim como já tinha entregue informação comprometedora de jogadores, agentes e clubes de futebol, a um consórcio de jornalistas independentes, que valeu a recuperação de muitos milhões ao fisco de alguns países, mas não em Portugal.

Podendo ser definido “whistleblowers[4]” como «denunciante que fornece informação sobre um perigo, risco, má conduta ou atividade ilegal de pessoas, grupos ou organizações, expõe publicamente essas informações, esperando iniciar um processo de regulação, controvérsia ou mobilização coletiva». Daí que o trabalho de jornalismo, particularmente o de investigação, tenha uma importância estratégica para apuramento da verdade e, esta, costuma ser incómoda. Daí que se vá tentando silenciar os jornalistas. Em Portugal – país tido como democrático –, fomos surpreendidos pelos diretores de vinte órgãos de comunicação social [OCS], que se uniram pela liberdade de imprensa, numa tomada de posição conjunta, em protesto pela atuação do Ministério Público [MP], ocasionada pela vigilância de dois jornalistas, sem autorização de um magistrado. Subscreveram um documento[5], como alerta, pois poderá estar «em curso um subtil ataque à liberdade de imprensa». Na semana anterior, soube-se que, há dois anos, uma procuradora do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, ordenou à PSP que vigiasse um jornalista da revista “Sábado” e um ex-jornalista do “Correio da Manhã”, que viriam a ser alvo de vigilância policial e fotografados na via pública, para saber com quem contactavam no universo dos tribunais. Escreveu este grupo de diretores de OCS: «A liberdade de expressão, a garantia do sigilo profissional e a garantia de independência dos jornalistas (art.º 6.º do Estatuto dos Jornalistas) bem como a proibição de subordinação da dita liberdade de expressão a qualquer tipo ou forma de censura, são pilares fundamentais da constitucionalmente consagrada liberdade de imprensa (art.º 38.º da CRP) (…) sem direito de sigilo das fontes, não há informação livre, e não havendo informação livre, não há democracia. (…) Não é admissível, a nenhum título, a espionagem privada, também não pode ser admissível o MP investigar fora das regras constitucionais e legais vigentes, travestindo de lícito e admissível o que de raiz é ilícito e inadmissível (…) não podendo ser vistos como meios normais de “policiamento” da sociedade, sob pena de se instalar um clima de medo generalizado por parte de todos os cidadãos, em especial dos responsáveis por informar a sociedade (como o são os jornalistas), o que culmina necessariamente no seu amedrontamento, coação, ou mesmo instrumentalização (…) Por isso, é condição de um Estado de Direito Democrático e Livre, uma imprensa livre e independente».

Quem viu “Cyrano de Bergerac” – sendo Gerard Depardieu o principal protagonista –, poderá ter ficado com a ideia de mais um filme de aventuras ou de espadachins, com um tipo que se destaca por ser narigudo. Mas é muito mais do que isso! Encarnado na personagem principal, poeta muito apreciado entre os pares e população, escrevia e difundia as verdades incómodas, até que foi aconselhado por um homem da sua confiança a deixar de ser desagradável com o poder [numa alusão ao regime do Cardeal Richelieu]. Aí, muito empolgado, pergunta: «O que devo fazer? Procurar um protetor poderoso, aceitar ter um senhor? E como uma hera obscura que trepa tronco acima, e faz dele um tutor, lambendo-lhe a casca?! Subir pela astúcia em vez de me elevar pela força? Não, obrigado! Dedicar, como todos fazem, versos aos financeiros? Transformar-me num palhaço, na esperança vil de ver, nos lábios de um ministro, nascer um sorriso que não seja sinistro? Não, obrigado! Almoçar todos os dias um sapo? Ter a barriga gasta de tanto rastejar? Dobrar-me até abaixo para os pés beijar? Não, obrigado! Só encontrar talento em gente frouxa? Ser aterrorizado por certos bisbilhoteiros e dizer sem cessar: “Desde que o meu nome apareça nas páginas do Mercure François!” Calcular, ter medo, empalidecer! Redigir placets, fazer-se apresentar? Não, obrigado. Não, obrigado!». Já sozinho, divagava… «Mas cantar, sonhar…, rir, passear, estar sozinho…, ser livre… ter um olho que sabe olhar bem, uma voz que vibra… Colocar, quando se quer, o chapéu ao contrário, bater-se por isto e por aquilo… o fazer um verso. Trabalhar sem preocupações de glória ou de fortuna e viajar, inclusivamente… até à lua. Triunfante por acaso, conservando o próprio mérito, recusando-se a ser hera parasita, mesmo quando somos o carvalho… ou a tília. Não trepar muito alto, talvez… Mas lá chegar sozinho».

Numa democracia procura-se a verdade e a transparência, esgrimam-se argumentos, não entram estratégias para silenciar vozes incómodas. Nesta democracia em concreto – particularmente por ainda há poucos meses ser considerada um caso de sucesso financeiro e de combate à pandemia –, não se pode aceitar que:

– tenha o maior número de casos, em todo o mundo, de infeção e de óbitos por covid-19, em cada 100.000 habitantes;

– candidatos e partidos políticos cantem vitória, após o mais recente ato eleitoral, quando a adesão do eleitorado representa uns meros 39,5 %. 

© Jorge Nuno (2021)  



[1] Afirmação de Susana Peralta, economista, na TVI24.

[2] Afirmação de Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e da Habitação.

[3] Pelo art.º 342.º - Violação do segredo de escrutínio, do decreto-lei n.º 48/95. 

[4] In Wikipédia.

[5] Em 21-01-2021.

15/01/2021

Crónicas de Língua Afiada: CAUTELA E CALDOS DE GALINHA... Parte II

 

CAUTELA E CALDOS DE GALINHA…

Parte II

 

Com novo confinamento geral, ainda mais condicionados, há quem “desligue”, pelo cansaço e desespero… mas será útil continuarmos despertos para a informação. As manchetes ou breves notas de rodapé, nos diversos meios de comunicação, por vezes surpreendem-nos e conduz-nos a reflexão ou, no mínimo, a um simples questionar.

«Caos no hospital de Setúbal». «Doente tratado no chão[1] [no hospital de São Bernardo, Setúbal]».

«Urgências sem espaço para covid». «Doentes esperam em ambulâncias[2]», no hospital dos Covões, Coimbra, que esgotou a capacidade de resposta.

«Doentes com frio enrolados em cobertores[3]» e «Enfermeiros [da urgência] do hospital de Famalicão fazem vigília», como “grito de ajuda” e dizem-se exaustos. 

«Dois hospitais da região de Lisboa já estão a transferir doentes para o Norte». «A situação dos hospitais é crítica[4]». Ficou-se a saber que houve transferência de doentes covid: dos hospitais Beatriz Ângelo, Loures e Fernando Fonseca, Amadora-Sintra, para os hospitais Santos Silva, Gaia e Santo António, Porto; do hospital Curry Cabral, Lisboa, para o hospital do Algarve e hospital Pêro da Covilhã; do hospital Garcia de Orta, Almada, para o hospital Pedro Hispano, Matosinhos. Entretanto, o hospital de Santa Maria, Lisboa, anunciou que «toda a atividade cirúrgica não urgente fica suspensa[5]».

«Falta de pessoal para inquéritos epidemiológicos – inquéritos são fundamentais para travar contágio[6]».

«Médico saudável morre com patologia no sangue 16 dias após receber a vacina [da Pfizer] contra a covi-19[7]». Trata-se de Gregory Michael, obstetra, de 56 anos, da Florida, EUA, que «desenvolveu uma doença rara que faz com que o corpo destrua as próprias plaquetas, essenciais para ajudar o sangue a coagular».

«Cerca de 140 profissionais de saúde de Viseu recusam vacinas». Soube-se que ao terceiro dia do plano de vacinação, no hospital de São Teotónio, terão sido 140 a dizer “não”, em cerca de 2800 profissionais de saúde.

«Os profissionais de saúde que têm rejeitado a vacina contra a covid-19 são claramente residuais», afirmou[8] Eduardo Pinheiro – secretário de Estado da Mobilidade e coordenador da Região Norte, no âmbito da declaração do estado de emergência, aquando da visita ao hospital Senhora da Oliveira, em Guimarães, tendo dito «desconhecer quaisquer reações adversas à vacina».

«As vacinas Pfizer / BioNTech reduz os casos de covid em cerca de 95% das pessoas imunizadas (…) Efeitos colaterais das vacinas: o que se sabe sobre a segurança dos imunizantes contra a covid-19[9]», num artigo assinado por James Gallagher, repórter de Saúde e Ciência da BBC. Nele, afirma que na medicina há uma importante diferença entre “seguro” e “inofensivo” e também entre “risco” e “arriscado”; e que sempre existe algum tipo de risco envolvido em vacinas.

«Nem tudo são rosas. Efeitos colaterais das vacinas podem ser graves, alertam Especialistas[10]». «As autoridades da saúde pública e os fabricantes de medicamentos têm de alertar a população que as vacinas contra o novo coronavírus podem ter efeitos colaterais graves, ou seja, neste processo “nem tudo são rosas” e as populações têm de se preparar para os resultados desagradáveis[11]». «Nós temos de consciencializar os pacientes que isto não será só um passeio no parque[12]». «Se tiverem [na família] que perder 14 dias de trabalho, é uma grande perda (…) acho que temos de pensar sobre a própria vacina (…) acho que isso deve ser equilibrado com o risco de contrair uma infeção[13]».    

«[Tedros Ghebreyesus – diretor-geral da] OMS aponta o dedo ao relaxamento das medidas[14] [aconselhadas desde o início da pandemia]».

«Sete em dez portugueses em quarentena acusaram sofrimento[15]».

Na sessão governativa preparatória para o novo confinamento geral, Pedro Sisa Vieira – ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital – referiu[16] que «é necessário reduzir contágios, para reduzir contágios é necessário reduzir contactos, para reduzir contactos é preciso que as pessoas restrinjam as suas deslocações ao mínimo indispensáveis».

«Desemprego registado em outubro subiu 134% no Algarve[17]».

«Mais casos covid no Algarve – lares têm falta de recursos humanos[18]», com muitos funcionários em isolamento profilático. «Região com dificuldade em contratar para lares». A delegada regional de Saúde – Ana Cristina Ferreira – apelou aos jovens desempregados para aceitar as vagas existentes e reforçar as equipas nos lares, dizendo que este “é um trabalho muito recompensador”, pelo que “está na hora de dizer sim”, acrescentando, no mesmo discurso, a realidade crua: “é um trabalho muito duro, provavelmente não muito bem pago e esta situação agrava a aceitação do trabalho”.

A esta amálgama de notícias preocupantes, podemos juntar um pouco da sabedoria popular: «Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém».

© Jorge Nuno (2021)



[1] In CMTV, 09-01-2021, 13:00.

[2] In CMTV, 09-01-2021, 13:00.

[3] In TVI – J1, 09-01-2021, 13:00.

[4] In TVI – J1, 09-01-2021, 13:00.

[5] In www-observador.pt, 09-01-2021, 01:05.

[6] In SIC N, 11-01-2021, 16:34.

[7] In www.cmjornal.pt, 08-01-2021, 10:30.

[8] In Expresso, 30-12-2020.

[9] In www.bbc.com / portuguese, 10-12-2020.

[10] In m.noticias.sapo.pt, 24-11-2021, 18:06.

[11] In Executive Digest, 24-11-2020, artigo assinado por Simone Silva.

[12] Sandra Fryhofer, da American Medical Association.

[13] Grace Lee, professora de pediatria da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, Califórnia, EUA.

[14] In TVI J1, 09-01-2021, 13:19.

[15] In SIC N, 09-01-2021, 18:01.

[16] In SIC N, 09-01-2021, 18:06.

[17] In www. Sulinformacao.pt, 11-11-2020, 17:18.

[18] In SIC N, 09-01-2021, 18:19.