19/12/2019

Crónicas Leves - DE JORGE PARA GEORGE


DE JORGE PARA GEORGE

Pois é, George, sei que partiste cedo, no Ano Internacional do Sol Calmo, mas tu desconheces que eu nasci no mesmo ano. E como haverias de saber, se partiste dez meses antes de eu chegar? Bem, deixa-me já avisar-te: espero não ter de fazer contigo, em Sutton Courtenay, no teu Reino Unido, como fiz com William Shakespeare, em Stratford-upon-Avon, após ter escrito o meu romance “As Animadas Tertúlias de Um Homem Inquieto”; que não seja preciso ir pedir-te desculpa, pois não se deve brincar com génios da literatura, mesmo que se crie uma personagem, afetada mentalmente, que detesta parte do conteúdo de Hamlet. Compreendes, se te referir que, naquele caso, foram sequelas da Guerra Colonial, em África, onde os portugueses estiveram envolvidos de 1961 a 1974, a tentar defender um império, tal como os britânicos noutros territórios. Sei que compreendes, pois também ficaste com sequelas ao levar um tiro na Guerra Civil Espanhola, quando lutavas como voluntário ao lado dos catalães, com as milícias trotskistas espanholas e contra as forças nacionalistas, lideradas pelo ditador Franco, quer tinha o apoio da Alemanha nazi e da Itália fascista.

As minhas intenções são boas, George. Podes acreditar. Admiro-te como ensaísta político, jornalista, mas especialmente como romancista. Não como militar, ao serviço do exército do império britânico, mas tu também não gostaste do que viste fazer na Índia, onde nasceste, e cedo abandonaste a carreira, para desagrado do teu pai, também militar. Sabes bem que essas experiências acumuladas fortaleceram o teu caráter, fomentaram um olhar crítico, e deram-te força para avançar para obras como “A Quinta dos Animais” e “1984”, entre outras. Os tempos não eram fáceis… Havia pouca disponibilidade por parte dos editores para editar estas tuas obras de ficção, acabando por ocorrer em 1945 e 1949, não por falta de qualidade, mas pelo cuidado em não afrontar a União Soviética, uma estranha aliada do Reino Unido contra as tropas de Hitler.

Não é qualquer um que não sendo um privilegiado na sociedade e fazendo uso da bolsa de estudo concedida, estudou em Eton e teve aulas com Aldous Huxley, o autor de “Admirável Mundo Novo”. Alguma coisa te ficou, mas virias a adquirir experiência de vida e uma personalidade própria, bem vincada. E como gostavas de contestar o poder, particularmente quando se tratava de práticas sociais autoritárias ou totalitárias!

Foste fantástico em “A Revolução dos Bichos”! Descreves “um grupo de animais revolucionários que toma o poder dos donos humanos de uma quinta e organiza um regime igualitário e justo, no local”, mas apressaste-te a arranjar uma dupla de porcos totalitários, para ameaçar o equilíbrio obtido. Sabia-se que era uma sátira às práticas do ditador Estaline e da União Soviética. A propósito, no filme “A Morte de Estaline” – igualmente uma sátira –, realço a cena quando ele foi encontrado caído no salão, sem se saber se era resultado de doença súbita ou efeito de vodka, e assim ficou bastante tempo estendido no chão; para chamar um médico era preciso reunir o Comité; entretanto, perfilavam-se os vários candidatos ao cargo, em jogos de poder e execuções sumárias, sob a acusação de traição, mostrando o lado pior do ser humano para chegar ao topo da hierarquia, numa sociedade em que era suposto ser igualitária, como queriam os animais da ficção que criaste.

Acho espantoso o teu lado visionário em “1984”. Nele, criaste um superestado, num mundo em guerra permanente, com apertada vigilância governamental, manipulação pública através de “propaganda” e “revisionismo histórico”, onde o Partido Interno – com culto de personalidade do líder – persegue o individualismo e a liberdade de expressão. Este partido tudo faz de modo a perpetuar o poder e permite a existência de elites privilegiadas, a quem não interessa o bem-estar dos outros. Foste tu que criaste o conceito de Big Brother e “Polícia do Pensamento”. George, poderia afirmar-se que é ficção científica, mas uma realidade, precisamente 70 anos depois da publicação deste teu livro, e falarei com exemplos concretos, dos mais elementares que existem.

A empresa que me fornece eletricidade, sabe, em tempo real, quando estou em casa e estou fora. Também a de segurança, sabe quando armo e desarmo o alarme, logo, quando estou em casa e saio; se houver desonestidade por alguém da empresa, até é possível ver à distância o que se passa no interior. A de telecomunicações, sabe ao pormenor quando falo e com quem falo e quais as minhas preferências televisivas e, a localização ativada no telemóvel, permite saber onde estou em determinado momento. Uma empresa, líder em soluções auditivas, até sabe a que horas vejo televisão. Uma outra, nipónica, à distância, monitoriza a minha qualidade do sono, se me levanto durante a noite e o número de horas que durmo. O ginásio que frequento sabe a que horas entro e saio, o meu ritmo cardíaco, as calorias queimadas e a potência média exercida por mim em cada exercício. Na base de dados do hospital onde sou assistido consta vasta informação pertinente sobre as minhas fragilidades físicas. Com a via verde, a empresa sabe o dia, hora e local exatos em que entro e saio com a minha viatura nas autoestradas ou parques de estacionamento. A marca do meu automóvel tem acesso a informação sobre a localização da minha viatura, sempre que tenha o GPS ligado, pelo que sabe os itinerários efetuados por mim. O meu banco tem informação importante sobre a minha pessoa, enquanto cliente, pois tem acesso a dados pormenorizados de consumos ou se levanto ou deposito quantias que saem fora do habitual, informando o Banco de Portugal. A Autoridade Tributária, através da criação da e-fatura, fica a saber quais os valores e tipos de produtos que eu adquiro e empresas envolvidas, tal como um conjunto de informação pessoal que pode cruzar. As câmaras de videovigilância proliferam por todo o lado. Tribunais já têm acesso a bases de dados de crianças e jovens em idade escolar. A empresa multinacional americana Google sabe quais as pesquisas que faço na internet e, porque vive de publicidade, tem o meu perfil, que usa como entende. O mesmo acontece com a maior rede social virtual do mundo – o Facebook – que traçou o meu perfil com base nas minhas publicações, na forma como comunico e por onde ando, fazendo-me chegar, sem eu pedir, publicidade supostamente adequadas ao meu perfil de consumidor. Talvez não seja por acaso que as visitas americanas aos meus blogues sejam quatro vezes maiores provenientes dos Estados Unidos da América [EUA] do que de Portugal, estando a Rússia em terceiro e a China incluída no top 10. Já agora, George, a pretexto de segurança interna, os três superestados que referi têm procurado fazer o controlo que referes no livro, pelo não me espantei com: a criação da “Polícia da Internet” na China, que conduz a repressão até à criação de “campos de reeducação” para que as pessoas “transformem os seus pensamentos”; as pressões exercidas pela Administração dos EUA sobre a Google e Facebook para o controlo de dados da população mundial e a guerra contra a Huawei, por esta marca chinesa deter grande parte desse controlo; a forma como é silenciada a oposição até à influência da Rússia nos resultados das eleições de outros países. Por cá, em Portugal, sob a capa da democracia, criou-se a Comissão Nacional de Proteção de Dados, mas que acaba por ser uma proteção-faz-de-conta. Perdeu-se a individualidade e privacidade.

Talvez não saibas, George, mas a tua obra “1984” liderou as vendas na Amazon em janeiro de 2017, após a tomada de posse de Donald Trump, fazendo disparar as vendas em cerca de 10000 %. Ouviste bem? Dez mil por cento! Já tinha acontecido o mesmo em 2013, após Edward Snowden ter revelado dados dos EUA. Os editores consideram mesmo que este é um dos “100 livros para ler antes de morrer”. Deves estar orgulhoso. Só não sabes para quem vão os lucros das vendas das tuas obras. Mas custa-me saber que viveste com dificuldades entre pessoas sem-abrigo, em Paris, e agora…

De Jorge para George, quero-te dizer ainda o seguinte: atendendo às circunstâncias, fizeste bem em usar George Orwell como pseudónimo, mas o teu nome verdadeiro – Eric Blair – também soaria bem na capa de um livro; sendo tu um ateu confesso, e porque sabias da inevitabilidade, fiquei admirado por acautelares uma cerimónia fúnebre religiosa, na igreja anglicana. Já não fiquei admirado por pretenderes ser sepultado em campa rasa e escolheres para a lápide:
Here Lies
Eric Arthur Blair
Born June 25’ 1903
Died January 21’1950
Simples “Aqui jaz”, nome atribuído à nascença, data de nascimento e da morte. Simples, como sempre quiseste ser, ignorando o pseudónimo que te tornou conhecido.

P.S.: Sei que também foste poeta, mas não li os teus poemas. Desculpa. Mas ficas a saber que fiquei fascinado com o teu lado de romancista, corajoso, visionário e acima, de tudo, por teres lutado por um mundo melhor. Até sempre!

© Jorge Nuno (2019)

03/12/2019

Crónicas Leves - PORTUGUÊS NUMA NICE

#DiaMundialdaLínguaPortuguesa #solincaFamily #UNESCO #FalarPortuguês #SomosEspíritosEmEvolução #Lifestyle #ModoDeOlhar #Globalização #SuperaçãoDeObjetivos

PORTUGUÊS NUMA NICE!

Investigadores fazem-nos chegar a informação que temos cerca de 60.000 pensamentos por dia. Há quem diga que é impossível controlar todos esses pensamentos, assim como há quem o exercite todos os dias, fazendo aquilo que parece impossível. Neste momento, longe de fazer qualquer esforço para controlar o pensamento e, enquanto o display tátil indica que estarei a consumir cerca de 265 Kcal per hour, deixo-me evadir através das largas dezenas de metros de vidro da fachada principal. Em frente, numa pequena nesga, vê-se a linha do caminho de ferro. Sobre a passadeira, que habitualmente escolho, fica a estranha vontade de ver passar um comboio, mesmo que por poucos segundos, gesto que para um psicanalista significaria, certamente, a minha vontade de viajar.

Está-se na zona do Centro Empresarial da cidade. A construção é do tipo industrial, forrada a chapa metálica em tom cinzento, com realce dos cartazes publicitários coloridos. Destaca-se um desses: Boom Bap – French Kick Ass Brand / Don’t Be Sexist! Bitches Hate That!; está tatuado Get Money no braço de uma mulher e, no outro, colocado sobre a cara… bem, essas duas palavras, nem ouso escrever! Não, felizmente não se trata de graffiti selvagem, pois esta zona, por enquanto, foi poupada. A caminho, já tinha reparado na: HIKVision, especialistas em segurança; Bosch Car Service; Alfa Elektor –componentes eletrónicos; WeDo Technologies e, no extremo da rua, uma empresa de comércio de embarcações de recreio, com seguinte publicidade a Monterey: More than a boat… a way of life.

Agora, enquanto dou passadas vigorosas sem sair do mesmo sítio, e porque agucei a curiosidade, até reparo nas letras mais pequenas: sob o nome do restaurante no 1.º andar fico a saber que é uma steakhouse; WebHelp com a sigla We are a great place to grow; DAPE New Energy – setor da energia solar; Carglass – vidros para viaturas; Servipel
Profesional / Cosmetic.

Chegado ao fim do tempo previsto na passadeira, baixo o olhar e deparo-me com o botão vermelho emergency stop, mas pressiono o do simples stop. O display fornece-me alguns dados estatísticos relativos à minha prestação, entre eles que foi Cool Down – que revela ser pouco abonatório para tanto esforço, com 96 a 102 batimentos cardíacos por minuto. Saio e noto na marca daquele equipamento de ginásio ThecnoGym –. Aliás, só agora noto que são quase todos!  Numa parede é bem visível: Let´s Ride. Numa outra, #solincaFamily. Numa terceira parede pode ler-se Let´s Get Info, um espaço informativo, onde o folheto: Smart Friends, estimula o associado a recrutar um amigo; Your Smart Party Day, um convite à realização de festas de aniversário de crianças (…). Junto, encontra-se uma máquina para fazer o check-in do plano de treino. Começo a ler qual a finalidade das várias máquinas, quase todas para desenvolvimento da massa muscular, e surgem nomes como: Pulldown; Pectoral; Pulley; Adductor; Abductor; Leg Extension; Leg Curl; Leg Press; Arm Curl; Glute; Rotary Torso; Rotary Calf; Chest Press; Low Row; Crosstrainer; Abdominal Crunch (…).  Numa área específica do ginásio encontra-se a S – Functional e S – Challenge, para exercícios em grupo, e surgem termos como: Half Burpee; Power Lunge; Swuitch Climber; Truster; Jumping Jack; Warm-up, Countdown (…). Dois equipamentos têm mesmo escrito, em português: “Bicicleta Horizontal” e “Bicicleta Vertical”, o que me deixa escapar um longo Wow!... só que, para iniciar, há que clicar no botão verde Quick Start e ter de decifrar Wellness Means More Vitality ou Wellness Means Mental Balance.

Já no rés-do-chão, dou de caras com a caixa do desfibrilhador, onde se destaca Intelligent Life Solutions. Na parede pode ler-se Let´s Get Active. Ao lado, Everyone Everywhere, a máquina para leitura dos cartões dos associados, claro, Powered by Solinca. Dirijo-me aos balneários, mudo de equipamento para ir dar umas braçadas à piscina e acabar relaxado na sauna, banho turco ou no jacuzzi, e reparo que despi uma peça da marca Team Quest e que a touca da natação tem inscrita, de um lado, Smart Fitness e, do outro, Powered by Solinca.

À saída, cruzo-me com um instrutor, de equipamento preto com Personal Trainer nas costas, que me cumprimenta de aperto de mão e muita cordialidade, perguntando-me:
Então… está tudo a correr bem?
Resposta espontânea:
Yeeeesss! Tudo numa nice!
Sorri, aparentando agrado com a resposta, e deseja-me um resto de bom dia, que retribuo.
Já fora, no mesmo lado da rua, fico a saber que Laskasas é uma home decor & interior design.

Este relato talvez permita fazer algumas reflexões e chamadas de atenção.
1 – A importância no foco – Basta uma pessoa focar-se excessivamente em algo e passa a haver um avolumar daquilo que estamos a procurar, indo ao encontro das nossas expetativas. Atenção, se for algo negativo, podemos estar a promover essa negatividade;
2 – Modo de olhar – Dá que pensar a frase de Wayne Dyer: “Mude o modo como você olha para as coisas, e as coisas que você olha mudarão”. Atenção, não significa que não se possa extrair algo de bom daquilo que não o parece ser; 
3 – Superação de objetivos – Devemos identificar-nos com aquilo que nos faz sentir bem e procurar fazê-lo na dose certa. Qualquer pessoa, independentemente da idade, se definir objetivos claros e aplicar o esforço adequado, com motivação e alguma orientação, tem fortes probabilidades de obter sucesso. Atenção, até podemos acreditar em milagres… mas o verdadeiro milagre resulta do nosso envolvimento pessoal a originar a superação;
4 – Somos espírito em evolução – No caso concreto, Braga é uma cidade bimilenária, fundada no período da ocupação romana. Trata-se de uma das cidades do país que mais tem procurado manter vivas as tradições e a cultura popular, a par de um importante tecido empresarial e do fomento da investigação, em parte sustentados no conhecimento difundido a partir na Universidade do Minho. Para uns pode ser very cool, mas para outros algo confuso que haja dísticos azuis para estacionamento rápido na cidade com a designação Kiss & Go, junto das creches, escolas e colégios, quando seria mais apelativo um simples “Beija e Baza”, como sugeriu o humorista João Seabra. Pelo exposto, decididamente, a cidade está a viver a era da globalização. Atenção, relembra-se que somos espíritos em evolução.

Exultem, amantes da língua portuguesa! A UNESCO ratificou em 25 de novembro de 2019 a proposta aprovada em outubro, por unanimidade, pelo seu conselho executivo, para criação do Dia Mundial da Língua Portuguesa, a ser comemorado, pela primeira vez, no dia 5 de maio de 2020. O diplomata António Sampaio da Nóvoa, declarou à agência Lusa: “Os países lusófonos argumentaram que a língua portuguesa é a mais falada no hemisfério Sul e que foi também a língua da primeira vaga de globalização, deixando palavras e marcas noutras línguas no mundo”, faltando tornar-se numa língua de trabalho da ONU.

Obs.: Curiosamente, esta crónica foi escrita para a BIRD Magazine e colocada na secção Lifestyle. Sem problemas, tudo numa nice!

© Jorge Nuno (2019)
   




20/11/2019

Crónicas Leves - GENES DOS PORTUGUESES


GENES DOS PORTUGUESES

O conceituado patologista e investigador – Sobrinho Simões – na qualidade de presidente da Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, referiu no seu discurso de 10 de junho de 2017: “(…) Os portugueses têm uma mistura notável de genes com as mais variadas origens, se há algo único, ou quase único em nós, é essa mistura genética. (…) E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, filhas. (…) O ponto que estou a procurar salientar é que a incorporação dos genes foi acompanhada pela incorporação das respetivas culturas, criando uma sociedade de genes muito variadas, tolerante em termos religiosos, avessa aos extremismos pseudo-identitários que irrompem um pouco por todo o lado. (…) Graças a nós e às nossas circunstâncias, temos todos os ingredientes, dos genéticos aos ambientais aos socioculturais e tecnológicos para aproveitar pela positiva, os tempos difíceis que se vivem na Europa e no mundo. Os nossos netos não nos perdoarão se desperdiçarmos esta oportunidade (…).”

Feita esta “repescagem”, que ajuda a uma melhor compreensão dos portugueses, enquanto povo, e os coloca num patamar elevado e único, mas igualmente com fortes responsabilidades, vejamos, apenas como exemplo, algumas miscelâneas de casos singulares.

— A prova como os portugueses estão espalhados pelo mundo e, inevitavelmente, assimilam outras culturas é o facto de Portugal ser o país da União Europeia [EU] que mais recebe remessas de emigrantes, no valor aproximado de 3 mil milhões de euros anuais. Com o crédito facilitado em Portugal, este é o país da EU com mais crédito malparado, o que remete para um vasto leque de consumidores portugueses que vive acima das suas possibilidades e não consegue cumprir com os compromissos assumidos.
— No último dia 18 de novembro foi assinalado o Dia Europeu para a Proteção das Crianças Contra a Exploração Sexual e Abuso Sexual. O Relatório Anual 2018, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima [APAV], com base nos 46.371 atendimentos, maioritariamente por violência doméstica,  refere, entre outros, os crimes contra as pessoas, de natureza sexual: violação (crianças ou adultos) – 165; assédio sexual – 23; lenocídio – 9; importunação sexual – 126; abuso sexual de crianças – 346; abuso sexual de menores dependentes – 15; abuso sexual de pessoa incapaz de resistência – 5; pornografia de menores – 31; coação sexual – 50; outros crimes sexuais – 80. Dados recentes do Ministério da Justiça apontam para 2750 crimes de abuso sexual de crianças nos últimos 3 anos, sendo que cerca de 54% dos crimes praticados ocorreram no seio familiar. São números perturbadores, tendo em conta que ao tempo da intervenção da troika em Portugal e, com base em estimativas demográficas do Eurostat, Portugal teria, em 2013, “a mais baixa taxa bruta de natalidade entre os 28 estados-membros” – situação que se tem mantido com ligeiras oscilações –, ficando a ideia, nalgumas esferas, que a imigração de jovens pode ajudar a inverter esta situação, já que os jovens portugueses, com qualificações elevadas, preferem emigrar. Os portugueses que ficam, aventuram-se menos a trazer filhos ao mundo e aventuram-se, cada vez mais, em situações que entram no conceito de crime sexual.     
Mas os portugueses dão prova de excelência em vários domínios, seja na solidariedade, investigação, fiscalidade, artes de palco, desporto… Envolveram-se numa gigantesca onda de solidariedade quando se deu a ocupação de Timor e as imagens de TV mostraram alguns atos de barbárie, cometidos pelo regime indonésio. Pareceu-me que nunca tinha visto o povo português tão unido! A ajuda, bem mais do que moral, chegou ao outro lado do mundo. Mas este mundo dá muitas voltas e, mais uma vez se refere aqui o “tempo da troika”, para dizer que ficámos sensibilizados ao ver o jovem país Timor-Leste a fazer chegar-nos um donativo, numa altura em que Portugal ficou de pantanas, viu serem vendidas as “joias da coroa”, demasiadas tragédias humanas e a economia desfeita, muito por falta de uma governação cuidada, mas, acima de tudo, pelo desvio de avultadas quantias de dinheiro e bancos forçados a fechar portas. Há, por cá, quem seja perito em engenharia financeira, com cursos financiados pelo Estado para defraudar o próprio Estado. Soa a escandalosa a impunidade na questão da aplicação de capitais em offshores, mas a indolência dos portugueses leva-os a não se preocupar com estes paraísos fiscais, nem com a sangria de euros, que torna as remessas anuais dos emigrantes nuns simples trocos; não querem saber que a estrutura do Banco de Portugal crie um crivo de malha fina para tentar controlar contas  bancárias superiores a € 50.000 e deixe “passar” quando se trata de centenas de milhões. No entanto, os portugueses denotaram surpresa, e esboçaram alguma indignação, ao estalarem os escândalos relacionados com os donativos – resultantes de mais uma enorme onda de solidariedade –, aquando dos incêndios que originaram demasiadas mortes e destruição na região centro do país.
— Sim, temos cá gente excelente nas suas áreas. A missão da Polícia Marítima portuguesa no Mediterrâneo, junto à costa grega e à presente data, já permitiu resgatar quase 6700 migrantes ilegais desde 2014; algumas estações de TV portuguesas aumentaram o número para 15000. A Organização Mundial de Cancro da Mama [ABC Global Alliance] vai ser presidida pela médica oncologista, Fátima Cardoso, que acabou de ser distinguida com o prémio de Cancro da Mama Avançado, sendo que esta organização vai mudar a sua sede para Lisboa. A Fundação Champalimaud, com sede em Pedrouços, vai instituir um novo prémio anual de 1 milhão de euros para “distinguir trabalhos de investigação inovadores” esperando-se que permitam levar à cura do cancro; ao lado do centro clínico da Fundação – que está na vanguarda e tem projeção e credibilidade a nível mundial –, irá ser construído um novo centro de investigação e tratamento do cancro do pâncreas, com 50 milhões de euros doados por um casal estrangeiro, que acredita na potencialidade do projeto ser desenvolvido em Portugal. A Universidade de Sófia, Bulgária, vai instituir a cátedra José Saramago, em reconhecimento do mérito deste português, Nobel da Literatura. José Cid recebeu o Grammy latino de excelência musical. Crianças, jovens e atletas paralímpicos portugueses estão entre os melhores do mundo em modalidades desportivas de salão. No Dubai, o português Jordan foi eleito o melhor jogador de futebol de praia, depois de ser campeão mundial e europeu pela seleção nacional e campeão europeu pelo clube que representa – o Sporting de Braga. Mas não é bem com este futebol que o povo português vibra. Unidos, sim, mas com o futebol… futebol! A seleção portuguesa, com evidente mistura genética, é a atual campeã da Europa, a vencedora da Taça das Nações e estará pela 11.ª vez consecutiva nos maiores eventos mundiais desta modalidade; à boa maneira portuguesa, as grandes decisões arrastam-se sempre para os últimos minutos, com sofrimento e a olhar para o resultado do adversário direto. Mas é disto que o povo gosta!

Mas atenção, há que não ficar entorpecido! Lembremo-nos da frase de Sobrinho Simões sobre o legado aos nossos netos e do inconformismo do músico, cantor, compositor e produtor – José Mário Branco – que agora nos deixou. Cantava ele: “(…) Mas se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhe as voltas q’inda o dia é uma criança (…)”.

© Jorge Nuno (2019)  

30/10/2019

Crónicas leves - COMO VAI O TEMPO?


COMO VAI O TEMPO?

Poderia pensar-se numa cena no elevador do prédio, a arranjar-se uns breves segundos de conversa com dois vizinhos, para retirar o desconforto de estar calado. Mas não, não é obrigatório falar-se de tempo. Ou talvez sim, se já houver alguma proximidade e comungar-se do mesmo fervor clubístico. Aí já se pode entrar a matar:
  Ouviste a notícia de hoje? Como é possível a primeira liga portuguesa de futebol estar em 4.º lugar a nível europeu, pelas piores razões?  
Ouvi sim. É sobre o tempo de jogo útil, não é? Parece impossível como só se joga 52% dos noventa minutos de jogo. Mas o nosso Benfica é a equipa portuguesa que tem mais tempo de jogo útil! Pelo menos é o que diz o Observatório do Futebol…
Nem sei como isso é possível, pois as equipas que jogam contra nós estão sempre a fazer antijogo, a atirar-se para o chão, só para perder tempo.
Aqueles jogadores deviam estar inscritos no “Walking Football”… viste a notícia na TV? Há equipas de jogadores seniores a competir e, para comemorar o Dia Mundial da Terceira Idade, viu-se um bocadinho de um jogo, onde os jogadores não podem correr, porque as regras são mesmo essas.
— Mas olha que nós também temos dois ou três que não sujam a camisola com um pingo de suor!...
— O Néné também era assim e marcou quase 600 golos! No fim, o que é preciso é chegar à frente…

O elevador para no andar, um deles abre e segura a porta, e pronto… perde-se a noção do tempo. A partir daqui, só quando alguém, no rés-do-chão, dá uns murros vigorosos na porta do elevador é que acaba abruptamente a conversa, com a promessa de se retomar o assunto.

Na verdade, seria assim tão entusiasmante falar-se de 300 dias, como tempo de espera médio, para um cidadão obter a pensão unificada, após descontos de uma vida para a Caixa Geral de Aposentações e para a Segurança Social? Ou sobre o agravamento do tempo de espera por cirurgias e consultas, e ainda mais quando se trata de consultas da especialidade; será de considerar como normal a espera, em média, de 180 dias por uma cirurgia de prioridade “normal”, ou de três anos por uma consulta de cirurgia de obesidade? Ou doentes com cancro que esperam cerca de sete meses por uma junta médica, no mínimo, para obterem o “atestado multiusos” para isenção de taxas moderadoras, já o que o mais certo é serem reencaminhados novamente para o seu posto de trabalho, sem direito a certificado de incapacidade temporária, logo, sem baixa médica prolongada? Ou sobre a simples renovação de um cartão de cidadão, anunciado como demorando “apenas cinco minutos”, pode demorar horas, dias semanas e até meses, com os serviços em rutura e senhas limitadas. Ou sobre o tempo de espera por um comboio que foi suprimido sem se dar conhecimento prévio? Ou sobre o exagerado tempo de espera para levantar uma carta registada na estação dos correios, a cinco quilómetros da área de residência, depois de fechar a que havia a 300 metros?

Como vai o tempo?

— Isto está tudo mudado. Já não é o que era! diz a vizinha idosa que vai dar comer aos gatos da rua.  

No hall do prédio, cruzam-se novamente os vizinhos.
— Então… há novidades?
— Se há!... Descobri um canal que não é pago. É o canal 11. São 24 horas diárias de transmissão da Cidade do Futebol. Aquilo é futebol dos sub-17, sub-19, Liga Revelação, jogos do Campeonato de Portugal, vários escalões de futsal e futebol de praia… imensos jogos de competições tanto masculinas como femininas…
— Vá lá… finalmente já era tempo de fazerem qualquer coisa de jeito!... 

© Jorge Nuno (2019) 

07/06/2019

Poesia aldravista 1

Poesia Aldravista

(para quem desconhece, trata.se de poesia sintética, que  procura dizer muito em poucas palavras, sendo corrente utilizar-se seis palavras).
Foto de Jorge Nuno, no porto de pesca da Póvoa de Varzim.




06/06/2019

Poderá Ser Saudade...


PODERÁ SER SAUDADE… *

Após uma mudança radical, impensável há cerca de três anos atrás, vejo-me numa caminhada diferente da que sonhei em abril de 2004 e que reproduzo. Tratava-se de uma caminhada a pé, muito morosa, cansativa, embora fosse apreciando esta aventura, cheia de peripécias rocambolescas. Ficava a sensação de saber qual o destino, mas sem ter presente o nome da localidade, o que se poderia tornar confuso para um qualquer incauto viajante. Acordado, sempre tive presente o provérbio do povo berbere:
Se não sabes para onde queres ir, vais demorar muito tempo a lá chegar.
Neste caso, a sonhar, mesmo sem smartphone, dados móveis e GPS, acreditava ir no caminho certo. Não posso afirmar que se tratava de algo semelhante a um peregrino que se dirigia a Santiago de Compostela mas, se o fosse, não havia itinerário original do caminho português de Santiago, com as habituais sinaléticas da concha amarela. Cada vez mais se consolidava a ideia de haver um desígnio superior nesta viagem. Finalmente, vejo-me chegar a uma povoação que não identifiquei de imediato, por haver terrenos barrentos remexidos, como quem anda a fazer terraplanagens e a abrir uma estrada mais larga do que o habitual. Estremeci quando o meu olhar alcançou, ao longe, por cima de arvoredo, algo que conhecia bem: o castelo e o monte de São Bartolomeu. Tinha chegado a Bragança, pela entrada do Portelo e encontrava-me na zona da Quinta da Braguinha. Senti uma alegria imensa por estar numa cidade de onde não queria sair há três décadas, mas que outros condicionalismos acabaram por me empurrar para a capital do país. Quando acordei, anotei o sonho e tentei decifrá-lo. Tudo se precipitou e quatro meses depois fazia um contrato de promessa de compra-venda para a minha nova residência, em construção na zona da… Braguinha. Quando fiquei aí instalado, perpetuei, em 2006, o referido sonho, executando a obra de pintura a óleo “Névoa sobre Bragança”, que tem um significado especial para mim.

À presente data, a viver noutra cidade, após um upgrade ao meu computador pessoal, personalizei o fundo do ambiente de trabalho, utilizando uma foto tirada por mim em 2016, com uma vista parcial de Bragança. A partir do monte de São Bartolomeu podia ver-se, ao longe as serranias de Espanha e do Parque Natural de Montezinho e, na cidade, com algum realce: as zonas do Campo Redondo e da Mãe d’Água; os novos bairros do Sol e da Rica Fé; o antigo Liceu (agora requalificado); as torres de iluminação do estádio municipal; os edifícios da autarquia; a nova catedral; o centro histórico; a torre da antiga sé; o castelo; e distinguia, perfeitamente, a minha anterior residência. A “minha” residência!… Fiquei por longo tempo a olhar para esta “nova” imagem no monitor. Surgiu um turbilhão de ideias, estranhamente com tendência para o nostálgico, esboçando uns sorrisos quando entrecortava com a lembrança de algumas loucuras ou casos insólitos. Este “estranhamente” é porque não me considero saudosista; acredito que “para a frente é que é o caminho”, desbravando novos caminhos – como fiz toda a vida –. Mas, poderá chamar-se a isto saudade?

Ao fixar-me nos edifícios da autarquia, relembrei episódios ocorridos aí há 45 anos, onde estava instalado o Batalhão de Caçadores N.º 3, e a loucura e irreverência da juventude, com os militares mais ousados ou esclarecidos, a quebrar ou a contornar os protocolos do rigor militar, num camuflado desafio à autoridade, que tinham dificuldade em reconhecer ou aceitar.

Poucos meses depois do 25 de abril de 1974, em pleno verão, não sendo apreciador da monotonia de tarefas semelhantes à de amanuense, prontifiquei-me, voluntariamente, para ir com sapadores fazer rebentamento de explosivos. Fizemo-lo num dos morros desertos, apenas com vegetação rasteira, para os lados da aldeia de França, já muito próximo da fronteira com Espanha. Refletindo agora, não sei como se pode ter prazer em ouvir aqueles estrondos e ver uma imensidão de cascalho ser projetado em todas as direções. Igual prazer, foi ver, através de binóculos, os carabineiros que observavam a movimentação dos militares em território português, numa altura em que nuestros hermanos ainda não tinham resgatado a liberdade e a democracia, enquanto por cá essa sensação recente estava em alta. Já no inverno anterior, igualmente rigoroso ao de todos os anos na Terra Fria, relembro o espanto e a “patinagem” de jovens militares em exercícios militares, em pleno rio Sabor gelado, poucos quilómetros a norte da cidade. Estes, tentavam levianamente explorar e desafiar as leis da física, levando ao limite o esforço para quebrar aquela massa gelada, até descobrirem o desagradável sabor de um banho naquelas condições, perante as estridentes e contagiantes gargalhadas dos menos ousados. Pouco antes, já se tinha testado o trabalho em equipa, forçosamente e com sucesso, segurando e arrastando, com cordas, a primeira viatura militar em que seguia – uma viatura pesada Berliet – prestes a despenhar-se numa ravina sobranceira ao rio Sabor, antes de uma curva acentuada da N 103-7, cujo asfalto encontrava-se com gelo. Poderia ter sido fatal para mais de 30 militares mas, felizmente, acabou por não ser notícia.    

Repentinamente, vem-me à mente a pequena rua Dr. António Cagigal, contígua à rua Alexandre Herculano, recordando a venda de leite à porta, de manhã cedo, e logo fervido, acompanhado de trigo, comido ainda morno – sabor que, apesar dos tempos longínquos, ainda não se extinguiu totalmente do meu paladar. Na mesma rua, relembro o amigo Humberto da Silva Queiroz, um conhecidíssimo empresário alto-duriense radicado em Bragança, já falecido. Construiu, à época, a mais conceituada casa de pronto-a-vestir da cidade. Era um homem austero, por vezes irritante, particularmente quando se aproximava a hora de fechar o estabelecimento, ao fim do dia; pegava numa vassoura e, para espanto daqueles que não o conheciam assim tão bem, começava a varrer junto dos pés dos clientes; o seu silêncio e este gesto, era a forma pouco ou nada agradável que encontrava para dizer: “Amanhã é outro dia, venham com mais tempo!”. Vejo-o subir essa pequena rua íngreme, sozinho, pausadamente, sem pressa, com o seu “gasparinho” numa das mãos. Tratava-se do cofre com o dinheiro vivo das vendas diárias, numa altura em que nem se sonhava, sequer, na via eletrónica, tanto para transferências bancárias ou pagamentos automáticos com cartões de débito ou de crédito, ou sistema de compras e transferências imediatas com smartphone ou tablet, conhecido como “MB WAY”; também, numa altura em que as pessoas se sentiam em segurança na rua, na posse de bens de valor, sem necessidade de dissimular ou ir acompanhado de guarda-costas. Mas esta figura austera quebrou, completamente, num dia de aniversário. Adaptei a letra da canção “Y Viva España” – um pasodoble de grande sucesso em 1972 e anos seguintes – e escrevi à mão essa “nova” letra em várias folhas, que entreguei aos seus empregados. Ao fim daquele dia de trabalho, reuniu-se os empregados daquela casa, em combinação com a própria esposa – D. Mariazinha Queiroz –, uma doçura de senhora e a verdadeira “alma” daquele estabelecimento comercial, ficando um lugarzinho reservado para ela no meu coração, esteja onde estiver noutra dimensão. Quando o Queiroz surgiu à porta com o seu “gasparinho”, comecei a entoar a canção com o meu acordeão, logo seguido do coro improvisado. Surpreendido ao som de “E Viva o Queiroz!...” os seus olhos ficaram humedecidos. Tratou-se de um momento memorável, intimista, de fraterno convívio; seguramente, bem diferente dos que ele passava regularmente com os amigos, à noite, para beber os seus whiskeys ou outras bebidas, só ao alcance de alguns. 

Surgem em catadupa outras loucuras, como a de ir ver jogos de futebol no estádio municipal de Bragança, em apoio ao Clube Desportivo de Bragança, ao domingo e em pleno inverno, com temperaturas baixíssimas, algumas vezes negativas e, por vezes, com a crueldade do vento norte, quando a Sanábria se encontrava coberta de neve. Ninguém com luvas consegue ouvir-se a bater palmas, por muito merecidas que sejam, o que faz com que, só por isso, um evento desportivo deixe de fazer sentido. Afinal, a frieza do ambiente externo parecia contagiar e afetar os espetadores. Sobrepondo-se a tudo, ouvia-se com enorme destaque, isso sim, uma assídua e conhecida senhora da cidade, a gritar repetida e entusiasticamente das bancadas para o campo: “Força equiiiiipaaaaa!”. Isto, até chegar a altura em que o discurso, sempre a alta voz, se alterava. Perante um resultado desfavorável, uma simples falta não assinalada ou suposta evidência de dualidade de critérios pela “malandragem” da arbitragem, era vista com o intuito de prejudicar a equipa da casa, e surgia o grito de revolta: “Vocês são todos uns corruuuuuuptoooos!”. Tal, era recorrente e, uma das vezes, um amigo ao meu lado tocou-me no braço, olhei e disse-me: “Ela tem um filho árbitro!”. Esbocei um sorriso, voltei a olhar para o relvado. Mas sempre senti que aquela senhora fazia falta nas bancadas para empolgar os jogadores e a assistência, além de ela própria descarregar a tensão acumulada durante uma semana no seu emprego.

Já em tempos de telemóveis, revejo, num relâmpago, a minha queda nas escadas, cobertas de neve, da Escola Abade de Baçal e o voo do telemóvel a uma distância aparentemente impossível, tal o impulso involuntário. Não, não parti o telemóvel, como aborda a canção vencedora do Festival da Canção 2019, que faz parte da programação anual da RTP! Pode não parecer, mas esta estranha canção – com letra, música e interpretação do jovem Conan Osíris – também refere a “Saudade”, senão vejamos:
Eu parti o telemóvel / a tentar ligar para o céu / pa’ saber se eu mato a saudade / ou quem morre sou eu (…)
E se eu partir o telemóvel / eu só parto aquilo que é meu / tou para ver se a saudade morre / vai na volta, quem morre sou eu (…)
Eu partia telemóveis / mas eu nunca mais parto o meu / eu sei que a saudade tá morta /
quem a mandou a flecha fui eu.
Se um jovem sente necessidade de abordar a “Saudade” (mesmo com um português criticável pelos puristas da língua), por que não ser um sexagenário a fazê-lo, já que tem muitas outras vivências acumuladas?

Assim, no meu caso e numa abordagem pela “rama”, não sei se o que sinto se pode descrever como saudade e muito menos se ela está morta, pois temos tendência a negar evidências. Se saudade descreve sentimentos de perda, sim, tenho saudade dos familiares e amigos que já partiram; dos que deixei na cidade, há sempre a possibilidade de os ir revendo umas duas vezes por ano. É inegável que gosto de saborear as coisas boas, independentemente de quando ocorreram, e esta cidade traz-me boas recordações e um misto de emoções. Inclino-me mais para a canção “Pode Ser Saudade”, criada por Jorge Fernando:  
Venho aqui buscar a asas / dos sonhos de menino / neste chão e nestas casas / foi crescendo o meu destino. Depois, parti p’ra longe, sem saber / que aqui ficava muito do meu ser. Esta emoção de estar aqui / pode ser saudade… pode ser saudade (…).

Afinal, num trabalho mais profundo de introspeção, reconheço estar aqui muito do meu ser, pelo que a emoção que sinto pode ser saudade.

© Jorge Nuno (2019)


* Texto publicado em "Rostos de Terra", coletânea promovida e editada pela Academia de Letras de Trás-os-Montes, e apresentada em 24 de maio de 2019, durante o Festival Literário de Bragança.

19/01/2019

CRÓNICAS DO CORAÇÃO DO MINHO (31) - Quatro Anos de Crónicas na BIRD Magazine


QUATRO ANOS DE CRÓNICAS NA BIRD MAGAZINE

Estávamos no final do ano de 2014 quando aceitei o desafio de escrever quinzenalmente para a BIRD Magazine. Foi-me dito que o poderia fazer de forma livre, sem temática específica, sem pressões. Iniciei essa tarefa no arranque de 2015, precisamente no dia 3 de janeiro, com a crónica “Sem Rosto e Sem Rasto”. Eu próprio fiquei surpreendido com a rapidez e facilidade com que a escrevi, mas, acima de tudo, com o seu tom irónico e um toque de humor, perante assuntos sérios – fórmula que fui repetindo, apesar da variação das temáticas abordadas –. Seguiu-se “Os Degraus da Felicidade”, “A Lucidez do Embriagado, “Leaks Há Muitos, Seu Palerma!”, “Aqui Há gato!”, “Não Há Coração que Aguente!”… Os títulos, que surgiam espontaneamente, pareciam apelativos e poderiam conduzir à leitura. Sentia prazer na escrita e, sem presunção, entendo que isso transparecia através da mesma. Sei que as pessoas, de uma forma geral, rejeitam ler textos extensos, mas esse entusiasmo pela escrita levava a “soltar-me”, para depois ter um esforço suplementar de síntese e não ultrapassar as duas páginas A4, quando é expectável que as crónicas tenham uma narração curta. Mesmo assim, as estatísticas das visitas às crónicas na BIRD Magazine – replicadas no meu blogue pessoal –, eram muito animadoras.

Rapidamente, entendi que as devia autointitular “Crónicas do Fim do Mundo”, embora sem essa designação na revista online; escrevi sessenta crónicas até junho de 2017, altura em que fiz uma mudança pessoal e radical. Daí em diante, e mantendo a determinação de escrever, autointitulei-as “Crónicas do Coração do Minho”; surgiram mais trinta e uma crónicas, até ao presente. Com esta, completa-se um total de noventa e uma crónicas, precisamente após completar quatro anos de participação.

A liberdade de abordagem das temáticas levou ao aparecimento de textos que seriam integrados nas categorias “Ambiente e Natureza”, “Desporto”, Ciência e Tecnologia”, “Filosofia”, “Lifestyle”… mas, tendencialmente, “Cidadania e Sociedade”. Sabe-se que o cronista inspira-se, naturalmente, em acontecimentos do dia a dia. Muitas vezes, senti necessidade de efetuar trabalhos de pesquisa para sustentar, realisticamente, o que fundamentava, sem pretender torná-los em artigos de opinião. Por diversas vezes, abordei conteúdos polémicos, de modo a fomentar discussão e despertar consciências adormecidas. Mostrei a minha faceta irreverente, a par da vontade de passar mensagens, deixando ao leitor a capacidade e liberdade para as assimilar ou rejeitar.

Acredito que a democracia só faz sentido e se consolida com a intervenção cívica dos cidadãos, e que essa intervenção será tanto mais eficaz quanto mais conscientes estiverem da realidade que os cerca. Na BIRD Magazine colaboram, regularmente, várias dezenas de cronistas, em vários domínios, e sei que estes dão um importante contributo para um aumento dessa tomada de consciência. Senti-me honrado em fazer parte desta equipa. Contudo, há novos desafios que se colocam, a requerer novas estratégias. Sabe-se que há o “nascer, crescer, envelhecer e morrer”. Mas sabe-se também que a alegria de viver pode prolongar a existência. Mesmo após a morte pode haver o renascer, com experiências acumuladas, que conduzam a novos patamares de progresso. Simplesmente: é preciso acreditar! Cessou a minha participação nesta revista online, sem dramas. Se há necessidade de mudança, o princípio de um novo ano é sempre um incentivo.

© Jorge Nuno (2019)