22/06/2014

A Longa Noite de Verão



A Longa Noite de Verão

Decorre o solstício de verão, com a noite mais curta do ano. É certo que a astronomia define como solstício de Verão “o momento em que o sol, assim como o vemos a partir da Terra, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador, em junho no hemisfério norte (…)”. A palavra “solstício” provém do latim e significa “sol que não mexe”, ou seja, “sol parado”, já que dá a ideia ao observador comum (exceto aos cosmonautas no espaço) que o sol mantém uma posição fixa, durante algum tempo, ao nascer e ao desaparecer no horizonte.
Completamente alheios a este ciclo de mudança de estação, alguns emigrantes que conseguiram antecipar as suas férias e alguns estudantes, mesmo em época de exames, juntam-se aos seus familiares, pessoas idosas, que resistem em não abandonar a aldeia e juntam-se também alguns visitantes das aldeias vizinhas e até da cidade, desta vez em maior número do que em anos anteriores devido à presença anunciada de um cantor/animador, figura conhecida de um Reality Show. São os festejos em honra do santo padroeiro – o São João Baptista – com a habitual animação, embora a verdadeira noite de São João seja daqui a dois dias. Nestes festejos, como em muitos outros, é frequente terminarem quando começa a raiar do dia, como se se tratasse de exorcizar os fantasmas durante a noite para haver o sentimento de libertação durante o dia.
Há rancho melhorado, farpela aparentemente nova e a porta da igreja aberta todo o dia e noite, para se poder ver a imagem do santo, embelezado com flores verdadeiras e notas de 5, 10 e 20 euros e um ou outro cordão ou peça de ouro, para cumprimento de promessas, que isto de promessas é para se levar a sério!
Dão alguma vivacidade as flores de papel no largo da Igreja, colocadas junto do fio elétrico da iluminação com lâmpadas coloridas e da alimentação das quatro colunas de som espalhadas naquela zona.
Costuma estar quase sempre por ali o atrelado do trator do ti Zé Inácio, que já de há algum tempo para cá dá mostras de ter medo de pegar no trator, “não vá o diabo tecê-las” – diz frequentemente, assustado com a sua falta de reflexos e com os relatos de tanta morte ocasionada pelo virar dos tratores e, desta vez o atrelado irá servir de palco para o espetáculo da noite.
A tasca do Tonho, anunciada no cartaz das festas como tendo um “esmerado serviço de bar”, também está engalanada, com bancos corridos e mesas no largo e, próximo, uma televisão de “rabo grande” também no exterior, para se poder ver a bola em tempos de Mundial, o que obrigou a algum esforço para mudar de sítio ao “prato” da parabólica.
Nesta ambiência e com o largo quase cheio dá-se início, com algum atraso, ao anunciado espetáculo com o popular grupo de música, que quase não se consegue mexer em cima do atrelado e muito menos as duas moças, semidespidas, com tarefas de esporádicos acompanhamentos vocais e realização dos habituais passinhos de “dança sincronizada”, repetidos à exaustão, para gáudio dos homens mais idosos da aldeia.
Por volta das 23 horas, sobe ao palco o conhecido cantor/animador, debaixo de enormes aplausos. Começa a cantar a primeira canção, sem qualidade de voz nem técnica para o fazer, mas com os requisitos naturais de um animador. E lata não lhe falta, gracejando facilmente! Mal terminam os aplausos após a primeira canção, anuncia que vai embora e, ele próprio, sem esperar pela reação do público, vai gritando de microfone na mão:
– Só mais uma, só mais uma, só mais uma…. – Mais aplausos. E continua com comentários, como – Disseram-me que vinha atuar num palco como no Rock in Rio e afinal é o atrelado de um trator! Mas eu mesmo assim sinto-me um artista realizado. Acreditem que não estava preparado para ter tanto sucesso… É a primeira vez que ao fim de quatro minutos não gritam daí “Vai-te embora! Vai-te embora!”… Desculpem, eu não trouxe os CD’s, do meu novo trabalho, que é o primeiro, pois sei que ninguém os compra… – Apresenta os seus músicos e bailarinas, que não existem, pois está sozinho em palco. Alega mesmo – Foram os cortes da troika que me obrigaram a vir sozinho! – Canta desafinadamente mais algumas canções, que diz serem da sua autoria, e vai pedindo ao público – Vamos lá a por essas mãozinhas no ar! – E a verdade é que entretém, com alguma graça, as pessoas presentes até próximo da meia-noite, altura em que se dá o lançamento do fogo-de-artifício, momento alto do arraial.
Depois do fogo, é a debandada da maioria dos forasteiros e de alguns idosos da aldeia, continuando o arraial, com a animação a cargo do mesmo popular grupo de música que tinha iniciado o espetáculo.
Passadas cerca de três horas, regista-se um incidente que envolve dois elementos da GNR (bem conhecidos, por fazerem regularmente o despiste, aconselhamento e acompanhamento de idosos isolados ou em estado de solidão), e o Chico “Gordo”, o “intelectual” que trabalha na cidade, que anda muitas vezes alcoolizado (e desta vez não foi exceção, causando alguns desacatos). Tem a alcunha de “Gordo”, evidente pelo seu aspeto físico, devido à cirrose e maus hábitos alimentares.
Pouco depois das cinco horas regista-se um diferendo entre o líder do grupo musical e o mordomo da festa, em que o primeiro recusa continuar a atuação e o segundo a insistir com o compromisso verbal de atuarem até se justificar e teriam que continuar até ao raiar do dia, que tardava. O grupo musical arrumou mesmo o equipamento, perante os protestos dos resistentes no bailarico e do mordomo da festa, com quem se teriam que entender sobre o pagamento da atuação e para o qual foi requisitada novamente a presença dos dois agentes de serviço.
A noite mantém-se e o dia teima em tardar.
Mantém-se ligada a televisão do Tonho, depois de um jogo de futebol que acaba depois da uma hora da madrugada, mudado posteriormente para um canal noticioso com comentários ao jogo, que quase ninguém ouve com o barulho da música no largo. Bem mais tarde, repete-se um programa, com debate político, que aborda o chumbo do Tribunal Constitucional (TC) com argumentos a favor e contra o TC, a guerra entre o Governo e o TC, o posicionamento político dos juízes, o desrespeito da Constituição, a perspetiva de novo aumento de impostos, o afogamento da economia, a trapalhada dos cortes dos subsídios e vencimentos no setor público, as cautelas a ter com os mercados financeiros, o incumprimento das metas do défice nacional, a ingovernabilidade do país, a impossibilidade de pagar a dívida soberana, a certeza dos juízes do TC não responderem perante os eleitores, dando a entender que esses juízes não representam a democracia. Outro comentador, num claro apoio à oposição, aborda os princípios de igualdade, de confiança, de proporcionalidade e de razoabilidade, para justificar a atitude dos juízes e a faz cair no ridículo os governantes infratores à carta soberana do país, que é para cumprir. Outro, favorável à ação governativa, aponta os juízes como sendo sindicalistas dos funcionários públicos, que conseguem não deixar passar as iniciativas do Governo, arrastando todo o povo e as empresas para uma pesada carga fiscal. A dada altura a temática desvia-se para eventuais causas da crise e para a solução apresentada pelo BCE, com dinheiro fácil ganho pelos bancos, disponibilizado pelo BCE a taxas de juro de 1%, que por sua vez emprestaram aos países necessitados, onde se inclui Portugal, a taxas de 6 e 7%. Foi divulgado que o BCE, de maio a dezembro de 2010, terá emprestado cerca de 72 mil milhões a países do euro (a chamada dívida soberana) e que as agências de rating têm vindo a comportar-se de modo suspeito, fazendo com tudo isto pareça que a nossa economia está ser insensatamente jogada na roleta do casino e, entretanto, os cortes nos salários e pensões, assim como os aumentos de impostos, não chegam só para pagar os lucros dos bancos, que mesmo assim transmitem a ideia de grande fragilidade, sempre com a desculpa do crédito malparado e da crise. Insiste-se que este é um mal menor e há que continuar com as reformas estruturais que conduzam à contenção na parte da despesa do Estado, a bem ou a mal! Entretanto, “a dívida pública vai aumentando, como um cavalo desgovernado, sem freio nos dentes”… frase que se destaca, em contraciclo da maioria dos comentários destes “fazedores de opinião”.
Enquanto decorre esta emissão, vai-se juntando gente no exterior da Tasca do Tonho, não pelo interesse do programa em si, cuja linguagem é desconhecida deste tipo de telespetadores, mas por ser o único local “aberto” àquela hora e por começar-se a estranhar o atraso no aparecimento do sol. É que, tal como a morte, o nascer do sol é uma das maiores certezas da vida! Como tal, a preocupação das pessoas começa a ser evidente. Então alguém tem a ideia de pedir ao Tonho que mude de canal para ver o que se passa. Ele sobe a um banco e muda manualmente de canal, para um canal generalista.
Estava a começar um habitual programa com uma taróloga, que estranhamente deu os “bons dias”, para logo a seguir dizer – Não perca a fé e reze com este lindíssimo terço. Ligue e receba o incenso do seu signo.
Ao ouvirem “não perca a fé”, faz-se silêncio absoluto e o Tonho desce do banco. A taróloga começa o deitar das cartas de Tarot e vai dizendo o seu significado. Fala em três dos vinte e dois arcanos maiores que surgem, “O Carro”, “O Dependurado” e “A Lua” e dois menores, cartas de espadas. Começa com “Dez de Espadas” e realça – É a vida a mover-se no sentido oposto. Significa sacrifício, dor, escuridão. Está na hora de mudança. Dê cor à escuridão – Passa ao “Nove de Espadas” – É considerada a pior carta do naipe, por ter uma forte conotação negativa, mas pode não ser assim tão mau. Significa “erguer do escuro”, das “profundezas”. Verifica-se que há muita vulnerabilidade, desassossego, melancolia persistente e sensação de algum equívoco. Mas nada de preocupação excessiva, que “depois da guerra vem a paz”, mas para isso devemos lidar corretamente com os nossos medos e agir rapidamente se quisermos os nossos problemas resolvidos – Sobre “O Dependurado” diz – É tempo de mistério. Este é um período de sacrifício, sofrimento, obsessões e de desilusões sendo precisa toda a força e determinação para ultrapassar os obstáculos… – Esta linguagem é um pouco mais acessível e as pessoas presentes nem ousam comentar, pois parecem reconhecer naquilo um conteúdo de verdade quando se fala em “ escuridão”, “sacrifício”, “dor”, “desassossego”, “melancolia” e “sofrimento”.
Uma idosa, que tinha surgido para comprar pão trazido pela carrinha, que devia estar quase a chegar, aproxima-se dos restantes e outra fala-lhe baixinho e menciona o terço da taróloga, levando instintivamente a idosa a meter a mão por dentro da blusa e retirar um terço que trazia sempre ao pescoço, começando a mexer os lábios e a tremelicar os dedos nas contas, sinal de oração mecanizada.
Entretanto, a taróloga continua – Agora “O Carro”. Significa que as desigualdades irão ser vencidas e que com determinação a vitória chegará. As influências externas podem encontrar-se em disputa entre si, mas há que ter o poder de julgar corretamente essas influências externas e tomar as suas próprias opções no caminho a seguir, fazendo-o com convicção. No entanto deve avaliar com atenção qual a altura certa para agir e realmente tomar controlo da sua jornada espiritual e corpórea. Agora esta carta, “A Lua”, diz que necessitamos de ser prudentes e não nos deixarmos cair na ilusão. É preciso mesmo cuidado com as pessoas que prometem e não cumprem…
Entretanto vai passando, em rodapé, coisas como: “8 de espadas significa crueldade”. “Capricórnio – Alguém pode ser cruel consigo. Proteja-se. Tudo pode ser vencido pela fé”. “Aquário – Pensamento positivo. Comece o dia com um sorriso”. “Carneiro – Novas ideias no emprego. Possibilidade de ganhar dinheiro”. “Touro – Evite períodos de mais sacrifícios. Pensamento positivo”. “Caranguejo – Uma fase muito agitada espera por si”. “Leão – Seja mais amorosa com o seu par”. “Virgem – Coma mais legumes e ponha os intestinos a funcionar”. “Escorpião – As minhas ideias podem dar bons resultados, porque eu acredito nelas”. “Sagitário – Dinheiro: Nada a preocupará a este nível. Tudo está em equilíbrio”. “Peixes – Sente-se ‘enferrujada’? Pratique natação”…
O Chico “Gordo”, depois de mais uma noite de excesso de álcool e alguns desacatos involuntários (que ele nem é dado a atos de violência), tinha adormecido, sentado no chão, encostado às grades de cerveja vazias. Com dificuldade põe-se em pé, cambaleando até junto do grupo, que se encontra meio assustado, reunido a ver televisão. O passar do tempo e o orvalho terá refreado os efeitos do álcool, mas ainda com sinais bem visíveis. Ao ouvir falar em Horóscopos, diz o mais alto que é capaz – Iroscópos é comigo… hip! – Provocando entreolhares, risos amarelos e reações para silenciar quem veio perturbar aqueles momentos de reflexão e de preocupação. Impávido, continua, arrastando a fala, dobrando a língua e repetindo algumas palavras – Pareceis… pare… ceis tooooodos uns bêbedos ou… pior aiiiinda, hip… pareceis… pareceis uns zombies. Deixais a escuridão tomar conta… tomaaaar conta das vossas vidas, hip. Até que o sol não brilhe… hip… deveis… deveis deixar aceeeesa a chama da vela interiooor. As crianças podem ter meeedo… muitooo meeedo do escuro e fazem trampa, mas vós… adultos sois estú… estúpidos… hip… fazeis a porcaria e não sabeeeis limpaaaar. Hip… Depois… depooois ficais toda a vida a queixar-vos que cheira… cheeeira mal! Só quereis andar entre… entretiiidos e achais que são as feeestas… as festas que liiiimpam a porcaria… hip. Só tendes que teeer coragem… hip… e pegar na pá… na pá e vassoura... hip. A trampa… pode estar agarraaaaada, mas tudo se limpa... liiimpa. Estais ceegos… como não vedes… não veeedes… que é um noooovo dia? Mããoooos à obra…
– Cala-ta parvo! Não incomodes. Não sabes o que dizes! O que o vinho faz!...– Atira um amigo de longa data do Chico.

© Jorge Nuno