24/09/2016

CÓNICAS DO FIM DO MUNDO (44) - Crónica: "O Passaporte Biológico"

O PASSAPORTE BIOLÓGICO

Há muito poucos anos, a Agência Mundial Antidopagem (AMA) viu necessidade de criar o passaporte biológico, como estratégia, para lutar contra a dopagem no âmbito desportivo e concretizou esta ideia inovadora. Trata-se de um documento electrónico individual, no qual “são registados todos os resultados dos controlos antidoping que forem efetuados” ao atleta, o que faz com que contenha vários indicadores importantes e permite traçar o perfil hematológico e o perfil dos esteróides, entre outros.

Começou com um projeto-piloto desenvolvido pela União Ciclista Internacional (UCI) já que esta modalidade é uma das que mais requer esforço físico, por parte dos atletas e deve estar mais sujeita a controlo. Se repararmos bem, é praticada a horas pouco recomendáveis, na maior parte das vezes com calor excessivo, em distâncias longas, durante muitas horas por dia e muitos dias seguidos; daí ser expectável a ocorrência frequente de casos de doping, como se veio a confirmar. Nele, viram-se envolvidas algumas figuras de proa do ciclismo mundial – de que é exemplo Lance Armstrong, considerado [por muitos] o maior ciclista de todos os tempos, que acabaria por ser banido do ciclismo, passando de herói a vilão –.

Rapidamente passou do ciclismo para outras modalidades, em variadíssimos países. Em Portugal já haverá 363 atletas com passaporte biológico em meia dúzia de modalidades, como: canoagem, remo, natação, atletismo, triatlo e, claro, ciclismo. A Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP) já confirmou, recentemente, através do seu presidente – Rogério Jóia – que passará a haver o passaporte biológico no futebol nacional, tendo referido que “o número de controlos totais e também específicos para esta ferramenta no combate ao doping aumentaram”, o que terá contribuído para fazer subir significativamente, em 2015, o número de casos de positivos face a período homólogo. Segundo palavras de Rogério Jóia, a própria UEFA entendeu que havia necessidade de o estender ao futebol, pois “não seria ético o futebol não estar inserido no passaporte biológico, até pelo seu mediatismo e poder económico”. Deste modo, não é de estranhar o facto de, p.e., Sport Lisboa e Benfica, Sporting Clube de Portugal, Futebol Clube do Porto e Sporting Clube de Braga, já terem visto jogadores seus a ser alvo deste tipo de controlo para se dar início à introdução do referido passaporte. Também o modo de atuar foi alterado; agora aADoP faz as colheitas de urina e sangue nas competições, e não fora delas. No futebol profissional, está a acontecer com a regularidade de dois jogos por jornada na I Liga e de um jogo na II Liga.

Pode ser difícil de entender o afastamento dos atletas paralímpicos da Federação Russa (FR) aos jogos do Rio 2016, mas quando se tratou de factos comprovados, de forma superiormente organizada, não se podia esperar outra atitude do Comité Paralímpico Internacional (CPI). A FR ainda recorreu, mas o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) indeferiu-o e manteve a decisão de banir toda a comitiva russa.

Imaginemo-nos no lugar de um atleta paralímpico [com qualquer tipo de deficiência] e que treina afincadamente durante quatro anos para conseguir um lugar na comitiva presente nesta competição maior, sem ter cometido nenhum ilícito, e que se vê relegado para posições inferiores na competição, ao ter adversários que usam de meios ilegais, que lhes conferem mais resistência.

Ainda há homens com carácter, como no caso do Comité Paralímpico da Austrália, ao suspenderem preventivamente, por doping, um seu ciclista – bicampeão paralímpico de perseguição individual (para atletas amputados) – e que lhe poderia dar mais uma medalha.

Também o CPI está atento, e aperta o cerco, aos casos de boosting, estratégia que aumenta artificialmente o rendimento dos atletas, com o aumento da pressão arterial e chegada de mais oxigénio aos músculos. É algo difícil de detetar e, ainda mais, em se saber se a prática é intencional. Estranhamente, é usada pela via da autoflagelação e prática de tortura, e comum entre atletas em cadeiras de rodas, entre outros. As consequências desta prática são nefastas para a saúde dos atletas, dando origem a acidente vascular cerebral (AVC) e até à morte.

Há poucos dias chegou a delegação portuguesa, vinda dos Jogos Paralímpicos Rio 2916, evento em que foram vendidos dois milhões de bilhetes e teve vasta cobertura televisiva. Dos 37 atletas portugueses presentes, quatro trouxeram medalhas de bronze e 25 ganharam diplomas paralímpicos, ao ficarem entre os oito melhores do mundo, nas suas modalidades. São atletas que merecem ser acarinhados, e merecem que sejam criadas condições para terem um estatuto idêntico aos olímpicos, com treino como atletas de alta competição. Como todos os outros atletas, também deverão possuir passaporte biológico. Como é bom ver a sua felicidade e a dos seus familiares e amigos, quando chegam ao aeroporto, após o fechar das cortinas da competição! E como cada um se deve sentir bem, ao saborear o mérito dos seus resultados desportivos, fazendo apenas uso da sua coragem, do seu esforço, do seu querer, ajudado pelo empenho, saber e entrega dedicada do seu treinador!

Bem-haja todos aqueles que se entregam devotada e honestamente a algo, como neste caso, trabalhando para que haja verdade desportiva. Gostaria de acreditar que o crime não compensa.

© Jorge Nuno (2016)


Obs.: Crónica publicada à presente data na BIRD Magazine (criada na UTAD)