07/03/2014

Age Quod Agis [Não te Distraias]



Reconhece o que está à vista e aquilo que está escondido de ti tornar-se-á claro aos teus olhos.



In Biblioteca de Nag Hammadi, coleção de textos gnósticos do cristianismo primitivo (que vai desde a sua fundação até cerca de 325 d.C.), contendo treze códices de papiro escritos em copta, a qual foi descoberta em 1945 na região do Alto Egito, perto de Nag Hammadi.





AGE QUOD AGIS [Não Te Distraias]



Há cinco dias fiz a cobertura da festa de encerramento de mais um ciclo anual, organizada conjuntamente pela APACDI – Associação de Pais e Amigos do Cidadão Diminuído Intelectual e pelo CERCDI – Centro de Educação e Reabilitação do Cidadão Diminuído Intelectual. Já o faço há uns anos e é sempre gratificante ver o empenho e o esforço despendido na preparação do evento, culminar da atividade desenvolvida, independentemente dos resultados esperados e obtidos. Como tem vindo a acontecer, o espaço utilizado é cedido pela autarquia e situa-se no interior das antigas muralhas do castelo, na velhinha Igreja de Santo Onofre, depois designada Igreja da Misericórdia, agora transformada em sala de exposições temporárias e sala polivalente, sempre que a programação o exija.

Toda esta zona, pela sua situação estratégica, foi palco de inúmeras disputas e lutas ferozes entre povos, que remontam ainda à própria fundação do país. Terá começado como uma pequena ermida, cuja data de edificação se perdeu no tempo e que foi ampliada em meados do séc. XVI, ficando com o porte de uma igreja de média dimensão, mas com a particularidade de ter uma bonita fachada com traços do maneirismo, restaurada recentemente, com aproveitamento de todos os túmulos existentes no seu interior, como tradição funerária naquela época, para os mais poderosos. O projeto de restauro contemplou a ampliação da igreja, vindo a ocupar o terreno contíguo nas traseiras, com a execução de um moderno edifício de quatro salas, para albergar obras de valor documental, histórico e artístico. Numa delas funciona um arquivo documental, simultaneamente como espaço de investigação e classificação de achados arqueológicos. A outra sala funciona como um museu vivo, de carácter etnográfico, de um passado recente. Uma terceira contém um acervo de moedas e utensílios com vários séculos e até milénios de existência, em ossos, metal e cerâmica e, uma ala, com destaque para a pedra - muitas das quais com inscrições ao tempo da ocupação romana. Finalmente, uma sala lúdico-pedagógica para acolher crianças e jovens de várias idades, que ciclicamente visitam este espaço, no âmbito da frequente cooperação entre escolas e autarquia.

No espaço da igreja, agora transformada em sala de espetáculo, criou-se um pequeno palco, com desvelo na decoração, luzes coloridas e sistema de som, para dar um ar mais festivo, alegre e motivador à atuação dos jovens utentes da CERCDI. Uma hora e meia antes, coloquei estrategicamente a câmara sobre o tripé e fiz alguns ensaios prévios, apesar da iniciativa da reportagem ser a de compilar os momentos mais interessantes, ocupando poucos minutos e gigabytes, para depois colocar online a peça jornalística, no site da InterVisão. Por regra, não o costumo fazer de uma forma generalizada, mas com este tipo de público tão querido, até dou uns ligeiros retoques no material em bruto e faço, posteriormente, uma sessão animada com os intervenientes e com os seus pais, amigos e professores, para satisfação de todos, onde naturalmente me incluo.

A sala estava mesmo cheia e tudo parecia estar alinhado para uma tarde de verão bem passada, mesmo em trabalho. Desagradável, por assim dizer, apenas o calor próprio do verão, que agora se iniciava, a juntar ao tanto “calor humano” naquele espaço e do calor proveniente dos projetores. Via-se muita gente a abanicar-se ainda antes do início desta sessão e, cada vez mais, à medida que o tempo passava, sendo evidente algum desconforto dos presentes. Estas crianças e jovens iam entrando, representando o seu papel e saindo do palco em pequenos grupos, a maior parte delas com vestimentas suplementares, de cariz ecológico – aproveitamentos de papel, papelão e plástico, sempre com as orientações e estímulos das educadoras e professoras. Surgiu então o inesperado e, pelo insólito, senti-me atraído a fazer um grande plano deste jovem ator, que aparentava ter cerca de onze anos, que se prolongou até uma professora ter retirado o miúdo de palco, perante um enorme aplauso, com quase todos de pé, como se se tivesse assistido à representação de um grande profissional. E o espetáculo continuou, com os restantes membros do grupo e com a tolerância habitual de quem admite que, nestes casos, não há derrotas e que são conquistas diárias todos os pequenos progressos que se registem.

No final da sessão, quando me preparava para guardar o meu equipamento e abandonar o local, fui abordado pela mãe do miúdo, que me pediu para não divulgar publicamente “aquelas” imagens, com o seu filho. Estava muito consternada e pediu a minha compreensão.

Nunca tinha estado tão ansioso para rever um vídeo e fazer a edição de imagem! Depois de o rever, repeti… não sei quantas vezes. E tomei a decisão, que me pareceu mais racional: fazer dois telefonemas e conseguir juntar, numa pequena sessão, dois amigos – a Teresa, uma educadora que conhece bem o miúdo e, o Fernando, um professor de Filosofia, que estudou num seminário e abandonou antes de se ordenar padre. Estes, sugeriram-me também para convidar o senhor padre Miguel, que anuiu e se juntou um pouco mais tarde ao grupo, quando lhe disse sumariamente o conteúdo do vídeo e que a presença dele tinha importância.

Em conjunto, visualizámos a tal parte do vídeo, transformando aqueles minutos em cerca de três horas de acalorada conversa, com perspetivas diferentes sobre o fenómeno observado. Ficou apenas uma possível tradução, com eventuais e admitidos erros, pois tanto o Fernando como o padre Miguel argumentaram que o tempo do latim já ia longe, tanto na aprendizagem como nas missas. Mesmo assim, arrisquei a introduzir legendas em Latim e Português [entre parênteses reto].

A peça de teatro infantil de curta duração intitulava-se “Galo, Galinho, Galão. Agora já tenho esporão!?”, projeto com ambiência num galinheiro, cujo argumento propiciava o esboçar de muitos sorrisos e vários intervenientes em palco, com o galo mais velho a querer reformar-se e passar o testemunho ao galo Zé, bem mais novo, mas com outro galo e uma galinha, filha do que se quer reformar, a tentarem convencer que essa não era a melhor solução. A dada altura o nosso jovem, que insistentemente mostrava inquietude e limpava o suor com as mãos, pareceu abstrair-se de tudo e começou por dizer, sem convicção, as primeiras palavras do texto que lhe estava destinado, após a deixa do colega, e depois sentiu-se uma distorção da sua voz, com um timbre diferente, como se se tratasse da voz de um adulto, comentando em jeito de enigma, com alguns aspetos imperceptíveis:

Ex imo pectore [do fundo do coração] coram populo [sem receio] fiat lux [faça-se luz] fugit irreparabile tempus [o tempo foge irreparavelmente] mea sententia [a meu ver] difficile est satyram nom scribere [(… diz-se) quando a sociedade está corrompida] lucri causa [pelo interesse, pelo lucro] (…) modus in rebus [(…) em tudo deve haver moderação] cui plus licet quam par est, plus vult quam licet [aquele a quem se permite mais do que é justo quer mais do que é permitido] (…) dormientibus non succurrit [(…) o direito não ajuda os que dormem] (…)

Em sobreposição, uma voz feminina na plateia falava alto, para se fazer ouvir: – Não te distrais, não distraias!... – Para logo haver umas quantas vozes a mandar calar essa mulher, levando a algum burburinho e muitos simultâneos shhiiiiiiiiuuu!

O miúdo, indiferente, continuava na mesma toada: – (…) malesuada fames [a fome (é) má conselheira] (…) dum spiro spero [(…) enquanto respiro tenho esperança] finita causa, cessat effectus [acabada a causa, cessa o efeito] (…) mendaci ne verum quidem dicenti creditur [ (…) ninguém acredita no mentiroso, mesmo quando fala verdade] (…) ad nauseam [até enjoa] (…) pabula da corvis, dement tibi lumina corvi [ (…) dá de comer aos corvos, eles te arrancarão os olhos] (…) maio mori quam fœdari [antes (quero) morrer que manchar-me] (…) fiat justitia, ruat cœlum [ (…) faça-se justiça, mesmo que o céu caia] (…) – Sendo aqui que o miúdo, que parecia desfalecer, é retirado de cena, perante muitas aclamações benévolas, de pé.

Diz o Fernando – Ainda nós temos sorte em esta voz ser em latim e podermos, ou bem ou mal, fazer uma aproximada tradução. Mas sei de casos em que a linguagem é ininteligível, ou por exemplo, identificada como aramaico ou qualquer outro dialeto com vários séculos antes de Cristo…

Surpreendentemente, o padre Miguel, sai-se com esta – Fizeram bem em não interromper o miúdo pois poderia ser prejudicial qualquer outra interferência.

A educadora Teresa disse que nunca se tinha apercebido de algo deste género com o miúdo, que já lidava com ele há uns anos e que, pela surpresa, sente que até demorou a reagir. Acrescentando que sabia do caso de uma conhecida atriz, que ocorreu em 2003 no castelo de Montemor-o-Velho, quando rodavam uma novela para a TVI, creio que era “O Teu Olhar”, e que essa atriz também teve uma alteração de personalidade, a par de outros fenómenos estranhos sentidos no local, chegando mesmo a chamarem o pároco de Montemor, com a notícia a ser difundida na ocasião pelo Correio da Manhã.

O padre Miguel, confirmou saber deste caso, mas desvalorizou, dizendo que o colega foi chamado para dar a bênção a quem a pediu, só isso!

O Fernando insiste – Procurem Virginia Tighe no Google, que encarnou Bridey Murphy, uma irlandesa do séc. XIX – e continuou a conversa, com intervenções dos outros dois, enquanto eu procurava no computador portátil.

Poucos instantes depois – Mas ela estava sob hipnose e a ti, se te hipnotizarem num palco, podes estar convencidíssimo que estás numa jaula a domar um leão, agarrado a uma vassoura a dançar o tango ou a fazer qualquer outra palermice para o pessoal se rir! – digo eu, dirigido ao Fernando.

– O que estás para aí a dizer?! Viram alguém a hipnotizar o miúdo? Só digo que há provas genuínas da existência de vidas passadas e que há provas de incorporações de entidades espirituais a quem é permitido usar o corpo de outra pessoa para se manifestar – argumenta o Fernando, continuando – Quando chamam um padre para fazer exorcismo, o que é isso? Acham que é só para deitar água benta no local? Dar a bênção à pessoa? Mas mesmo sob hipnose pode chegar-se a vidas passadas. É o que alguns terapeutas fazem na regressão…

– O miúdo apanhou foi calor a mais e começou com alucinações! Acontece muitas vezes… olha, por exemplo, aconteceu com vários tenistas profissionais na Austrália e noutros países com temperaturas elevadas e até os apanha bolas… –  Acabando eu por ser interrompido pelo Fernando.

– Alucinações são percepções sem estímulos externos e o miúdo não tem sequer consciência do que lhe aconteceu, não guarda memórias desta realidade…

– Ainda bem que não se lembra – diz a Teresa – Coitada da criança e dos pais, já lhe bastam o problema que tem. Deixa-os viver as suas vidas, naturalmente – vira-se para mim e diz – Faz mas é o seguinte: trata da montagem do vídeo, excluis essa parte e vai ser agradável rever a festa. Eles vão adorar! Estou mesmo a ver a reação do galo Zé! – e esboçou um sorriso rasgado.

 – Isso mesmo! – diz o padre Miguel entusiasmado e continua, visivelmente a querer colocar uma pedra no assunto – É um episódio passageiro e daqui a uns meses ninguém fala mais nisso e a criança há de crescer sem qualquer sobressalto.

– Pois… mas por que razão não podemos explorar um pouco mais este assunto, já que um dos objetivos na vida é viver a verdade ou, pelo menos, procurar dar passos para chegar até ela? – insiste o Fernando.

– Oh filho, grandes são os desígnios de Deus, que muitas vezes temos dificuldade em entender. Não tentes descobrir mistérios!... – remata o padre Miguel.



© Jorge Nuno (2014)