16/01/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (27) - A Pedra de Amolar da Vida

A PEDRA DE AMOLAR DA VIDA

Em cada mudança de ano repetem-se sorrisos, abraços, um extremar de simpatias com amigos reais e virtuais, e a manutenção de alguns rituais apelidados de tradições. Entre estes, estão as doze passas de uva e a manifestação de desejos ocultos (ou não), na esperança milagrosa, para não lhe chamar ilusão, que “agora sim, neste novo ano, se realizem…” para, tendencialmente, daí a poucos dias se entrar, novamente, nas rotinas habituais. Afinal, já passaram quinze dias e quanto à dieta, para reduzir o peso… nada; é aquela atividade física salutar em grupo, arrastada (propositadamente) para ter início logo após a passagem de ano, a pretexto de se aproveitar para queimar calorias… ficando agora a desculpa de não haver tempo, sequer, para se ir fazer a inscrição no ginásio; ficou a vontade de mudar de emprego, por falta de realização pessoal e por já não se suportar mais a arrogância do chefe, assim como ficou o C.V. por enviar para outras empresas… por não se ser capaz de ousar e preferir “não trocar o certo pelo duvidoso”; quanto ao deixar de fumar… apenas se acaba de mudar de marca de tabaco, já que a Tabaqueira resolveu, para já, extinguir quatro marcas, a juntar a algumas dezenas já descontinuadas, prevendo-se alterações a curto prazo no SG Gigante e SG Filtro, assim como novo aumento no preço do tabaco (que poderia ser tão ou mais encorajador para deixar de fumar do que a genuína vontade intrínseca).

Parece evidente não haver fórmulas mágicas, mas creio que esse alcançar dos objetivos depende da “fibra” de cada um: há pessoas que definem os seus objetivos e tudo fazem para os alcançar, com imenso esforço pessoal; outras manifestam uma ténue vontade, na expetativa que as coisas aconteçam, e ficam o resto do tempo a queixar-se, ou a desculpar-se, pelo facto de tudo ter ficado na mesma, ou pior; encontram-se, também, algumas excepções de quem consegue muito, parecendo que tudo lhe cai do céu, com um dispêndio mínimo de esforço, seja com recurso a deploráveis atropelos indiscriminados, à frequente exibição do emblema partidário ou apenas deixar fluir, e esperar que as coisas, simplesmente, venham a acontecer (sem conotação com passividade). Essa “fibra” – que se traduz no perfil de cada um, e que varia, naturalmente, de pessoa para pessoa – ficou muito bem expressa por George Bernard Shaw (e que me serve de guia há muitos anos): “A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos”.

Sempre me vi um lutador e ao fim de mais de 60 anos questiono-me se estive certo, quando me via, em limite de esforço, a “remar contra a maré”, mesmo com bastantes vezes a obter sucesso, o que me fazia experienciar, depois da “tormenta” uma sensação agradável de alívio, por achar que teria chegado a “porto seguro”. É que a vida ensinou-me muita coisa e agora vejo as coisas sob outro prisma. Adoro a palavra “fluir”, e nesta fase da vida é o que me apetece – deixar fluir – podendo dar-me ao luxo de, mesmo sabendo aquilo que quero, acreditar que aquilo que acontece é o melhor para mim. É que há coisas estranhas, que tantas vezes nos escapam. É a mulher que faz um esforço tremendo para engravidar, sem conseguir, para logo após ter desistido de lutar por esse objetivo, sem ansiedade e a fazer a sua vida normal, acabar por receber a boa-nova, através do teste de gravidez positivo; é o homem, que fez tudo ao seu alcance para obter aquele lugar a que tanto aspirava, vê-se desalentado ao ver esse cargo ser ocupado por outra pessoa, e quando já está conformado, surge-lhe uma oportunidade de emprego ainda melhor. Os exemplos poderiam ser muitos…

Quando em 2012 criei um dos meus blogues, neste caso com o endereço http://jorgenuno-art.blogspot.pt/, fiz questão de colocar na capa os seguintes pensamentos orientadores:
– Tal como Paulo Coelho... gosto de "imaginar uma nova história para a minha vida e acreditar nela";
– Tal como Kant... gosto de "acreditar em milagres, mas não depender deles";
– Tal como Júnior Montalvão... admito que "a inspiração vem de outros [de aquém e do Além], mas a motivação vem de dentro de mim";
– Tal como Albert Schweitzer... admito, por experiência própria, que "se amar o que faço, então serei bem sucedido" e que "o êxito não é a chave da felicidade, mas a felicidade é a chave do êxito";
– Tal como Madre Teresa de Calcutá... gosto de pensar que "a Vida é um sonho, daí que o procure realizar" e que "a Vida é mistério, daí que o procure aprofundar";
– Tal como Santo Agostinho de Hippo... admito que "a fé significa acreditar naquilo que ainda não vejo, e que a recompensa por essa fé é ver aquilo em que acredito";
– Tal como Wallace Watles... admito que "a mente grata espera continuamente coisas boas e a expetativa torna-se fé";
– Tal como Lao-Tsé... admito que "quando perceber que não há falta de nada, o mundo pertencer-me-á";
– Tal como Joemar Rios... gosto de pensar que "o tamanho das minhas bênçãos são determinadas pela grandeza das minhas virtudes";
– Tal como Michael Neill... admito que "estar totalmente atento ao que existe é estar contente e estar contente é ser abençoado por tudo o que acontece na vida"
– Tal como Osho... gosto de "usar as minhas energias para tornar um mundo mais belo, mais poético e mais saudável" e admito que "não se pode ser um criador se não se for um meditador";
– Tal como Mahatma Gandhi... tenho consciência que "precisamos de nos tornar na mudança que desejamos ver no mundo."
– Tal como Fernando Sabino... admito que "no fim de tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim".

Pode ser que contribua para nos transformar positivamente, conseguir uma melhor dosagem dos desejos e objetivos, obter um pouco mais de sucesso pessoal e profissional (com um pouco menos esforço), ajudar a enfrentar a pedra de amolar da vida e fazer-nos rejubilar por ela nos afiar, quando anteriormente nos desgastava.


© Jorge Nuno (2016)