02/07/2016

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (38): Crónica: "Verão Agridoce"



VERÃO AGRIDOCE

A entrada no verão convida a alguma leveza de espírito. Tal, é fácil de constatar, pois torna-se visível na forma descontraída com que se faz:

– um passeio pela areia molhada, descalço, à beira-mar, enquanto se saboreia o sol, o cântico das ondas e a brisa fresca de manhã, e dá para relembrar a frase de Salvador Dali: “A cada manhã que acordo experimento novamente um prazer supremo – o da existência”, fazendo crer que só estes momentos matinais valerão pelo dia todo, tal a energia recebida, em sentimento de gratidão;

– uma nova e simples caminhada pelo campo, livre de fardos e complexos, sem rumo bem definido, em fim de tarde, quando os estorninhos regressam em bando compacto à zona urbana, saciados de insetos, vermes, frutos, sementes e bagas. E como é agradável vê-los descontraídos, confiantes, sem preocupação quanto a quem os guia e o que origina aquela estranha dança no céu, a fazer lembrar a coreografia da “ola mexicana” nos estádios de futebol. Nós, sozinhos ou em pequeno grupo, durante a marcha livre, em contacto com a natureza, experienciamos momentos de evasão e libertação, aproximando-nos da frase atribuída a Arten, citada por Gary Renard em O Universo Desaparecerá: “Não se libertará até perceber que é você próprio que forja as correntes que o amarram”;

– uma amena cavaqueira, à noite, numa qualquer esplanada, sem hora marcada, mas com tempo para os familiares e amigos. Mesmo que por breves instantes, é nestas alturas que nos sentimos amplamente sintonizados com a ideia manifestada na frase atribuída a Antoine de Saint-Exupéry: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez a tua rosa tão importante”.



Depois de um ano de correria desenfreada, fica-se com a sensação que estamos num novo ciclo e que, nesta época, os relógios trabalham a um ritmo mais lento, como se as pilhas que o sustentam estivessem a finar. Até os especialistas de marketing, conhecedores do fenómeno, aproveitam para lançar, nos panfletos publicitários que são colocados na caixa do correio, a imagem que agora é “tempo para relaxar”. Sem dúvida, no verão parece que temos mais tempo para nós próprios e para a nossa “rosa”, dando mais sentido à vida – onde cabe familiares e amigos.



É precisamente na esplanada, engalanada para as festas dos Santos Populares e para o Campeonato da Europa de Futebol, com o ligar da televisão que tudo se desmorona. Não, não foi a seleção portuguesa que perdeu. É que em vez da sintonia de um dos habituais canais desportivos (os tais que fazem as maçadoras antevisões aos jogos, as sucessivas transmissões diferidas e em direto, com um ou outro jogo interessante e emotivo, particularmente os que mostram a caminhada heroica da “nossa” seleção, adocicando temporariamente a vida dos portugueses), eis que surge um canal informativo. Com ele, mesmo que olhando esporadicamente, apercebemo-nos: de mais imagens do atentado na zona internacional do aeroporto de Istambul, em tudo semelhante ao que aconteceu recentemente em Bruxelas; do anunciado ataque, no Iraque, às forças do autoproclamado Estado Islâmico, como sendo o mais feroz e mais destrutivo de todos; do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, a levantar o dedo “ameaçador” e a dizer que Portugal poderá estar à beira de um novo resgate, agora com consequências mais gravosas; do representante do FMI para Portugal a ironizar com a redução para as 35 horas semanais no setor do Estado, e a insistir que a solução passa pelo estafado receituário das reformas que levem à redução dos salários e das pensões; a “peixeirada” no Parlamento Europeu, relacionada com o referendo no Reino Unido, que levará à sua saída da União Europeia (U. E.), como se em democracia os povos não fossem soberanos de tomar as decisões que acham adequadas; da agência de notação financeira, Standard & Poor’s, cortar o rating depois do Brexit; do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, ser o primeiro a opor-se à ideia, apresentada pela primeira-ministra da Escócia, de aquele país do Reino Unido vir a manter-se na U. E., deixando transparecer que estava receoso que isso pudesse influenciar os movimentos independentistas da Catalunha e do País Basco.



Por momentos fechei os olhos, alheei-me de tudo, incluindo a companhia agradável e, mentalmente, retive os atos terroristas, considerando-os, como tal, também a coação e chantagem exercidas sobre um povo e um governo, sejam eles quais forem. Sem me preocupar em querer saber por quê, abandonei o meu “bando” e voei solitariamente até Qumran, zona árida da Cisjordânia, junto ao Mar Morto. Há uns anos, tinha ficado fascinado com a descrição da comunidade de Essénios que ali viveu, alguns séculos antes de Cristo. As escavações arqueológicas e os textos encontrados [“Manuscritos do Mar Morto”, que ficaram com tradução integral em 2002], ajudam a compreender este povo. Tinha fixado que o termo “essénio” talvez tenha origem na Síria e que, em aramaico, significará “piedoso”. Porque vivam em comunidade, sem propriedade privada, poderá querer dizer “união de piedosos”. Era um povo vegetariano, alimentando-se de fruta e legumes; tinha um enorme cuidado com a higiene pessoal, particularmente antes das refeições; usava a água para purificação espiritual; as refeições ocorriam em pleno silêncio; acreditava e exercia curas pelas mãos, e também utilizava ervas medicinais e argila para a cura de maleitas; como povo asceta, esforçava-se por cumprir as “leis de Deus” na sua forma mais pura, em contacto com a natureza, e acreditava que “as forças do bem triunfarão” [sobre as forças do mal].



  Abro os olhos e imagino a televisão na sala de jantar a intoxicar a refeição, o ambiente e as relações, tal como tinha acabado de prejudicar alguns momentos de estadia na esplanada.  Imagino os Essénios nos dias de hoje. Imagino o paraíso na Terra, em Qumran, há mais de dois mil anos. Imagino o inferno na Terra, agora, naquelas terras áridas dos países vizinhos, no médio oriente. Observo como o fluxo migratório, proveniente daquela zona, levou ao “Sim” e à saída do Reino Unido da U. E. Observo as imposições de estados-membros (mesmo sem negociações) para o Reino Unido ter acesso ao Mercado Comum. Observo a incapacidade dos eurodeputados em compreender a necessidade de refletir sobre o caminho que está a ser seguido, assobiando para o lado quanto à Europa a várias velocidades e a caminho de se desintegrar, se não for encontrado o rumo certo…



Dizia Martin Luther King Jr.: “O arco do Universo é longo, mas curva-se na direção da justiça”. Confiante, coloco-me ao seu lado e dos Essénios. Pode demorar, mas a clarividência e a abertura a novas ideias levará as “forças do bem” a triunfar.



© Jorge Nuno (2016)

Crónica publicada hoje na BIRD Magazine (da UTAD)