05/04/2013

Conto Partilhado "Mas Quarenta Ainda Não Tem..."



CONTO PARTILHADO

“MAS QUARENTA AINDA NÃO TEM…”

16.º Capítulo

D. Guiomar cumpria zelosamente, na capela da Misericórdia, todos os rituais fúnebres, sempre acompanhada por muitas pessoas que a estimavam, até ao momento de se despedir definitivamente do seu marido. Estranhamente, ou talvez não, não se lhe viam quaisquer lágrimas. Mostrava uma surpreendente calma, apenas agitada quando algumas pessoas se aproximavam a chorar, ou com pequenos gritos, forma encontrada para demonstrar solidariedade naquele ato piedoso, além das palavras de circunstância e de conforto. De vez em quando e sempre que alguém entrava na capela levantava a cabeça, que tinha envolta num lenço preto, e denotava a pose altiva e distinta que a caraterizava, mas quem sabe… na expetativa de vislumbrar alguém que ansiava ver, nestes momentos de libertação do seu defunto e dela própria.
Já as últimas flores eram recolhidas e preparavam-se os empregados da agência funerária para fechar a urna e o Sr. Padre Mário para iniciar o funeral, quando surge o Sr. Gonzaga, sozinho, com uma bonita coroa de gerberas e rosas, com umas fitas arroxeadas, que coloca junto da tampa da urna. Momento embaraçoso para a D. Guiomar, que denunciou a sua agitação. Sem saber qual o procedimento a seguir, aguardou, ansiosa, o próximo passo daquele homem. Este, dirigiu-se a ela, de mão estendida, acabando por segurar a dela com as suas duas mãos e deixou escapar umas parcas palavras, habituais nestes casos. Estes breves momentos, para ambos, pareceram uma eternidade, perante os olhares da população que cabia no interior daquele espaço próprio para velórios.
Nestes meios relativamente pequenos, todos se conhecem, tudo se sabe, embora muitas vezes haja fingimento, com a cumplicidade do silêncio a que se deixam submeter voluntariamente ou nas conversas tidas em surdina, com a promessa de não as repassar, mas cujas mensagens vão sendo transmitidas de boca em boca, com algum substrato de verdade e, outras, tantas vezes adulteradas.
É neste contexto, decorrido quase duas semanas, que se constou que o Sr. Gonzaga terá arranjado maneira de se encontrar a sós com a D. Guiomar. Rapidamente chegou ao conhecimento da D. Mercês este desatino do seu marido e prontamente fez uma enorme peixeirada, em frente dos clientes presentes, capaz de rebentar todos os copos de vidro grosso do estabelecimento só com os gritos. Esta mulher era mesmo intragável, embora neste caso pudesse ter alguma razão pelo desconforto sentido como mulher traída, caso as suspeições estivessem fundamentadas. Por ela, há muito que a clientela teria debandado, mas era o único café aberto todo o ano e então aqueles petiscos!… os túbaros, as moelas, as orelhas de coentrada, os nacos de carne arranjada das mais variadas formas, sempre com ervas aromáticas… era difícil resistir!
Ouvida a gritaria do exterior, a Madalena aproximou-se e entrou no café para ver o que se passava, mas afastou-se logo ao ouvir os impropérios que lhe foram disferidos diretamente pela D. Mercês. Já estava a mais de 40 metros e ainda se ouvia aquela gritaria acompanhada de algumas pequenas frases percetíveis como: “sua vaca… és como a tua mãe!”; “hei de fazer-te a cama!”; “nunca hás de ter descanso!”; “nem sabes o que te espera!”; “é bom que nem me apareças mais à frente!”. A Madalena afastou-se para o seu refúgio, onde sentada no chão, com as mãos a segurar a cabeça, durante uns primeiros instantes não resistiu à tentação de soluçar e, depois, debaixo de um ar consternado, olhou para o céu entre as telhas partidas da velha azenha e desabafou alto: “Que mal é que eu fiz, meu Deus!”  
Profecias da D. Mercês ou realidade forçada, certo, certo… é que passadas mais duas semanas, fruto de uma denúncia anónima, registou-se grande aparato policial na localidade, envolvendo elementos da Polícia Marítima, Polícia Judiciária e GNR, a exemplo de uma outra denúncia que indiciava que o Ti Inácio já não apanhava peixe no mar, mas trazia sacos de haxixe descarregados de lanchas rápidas no alto-mar. Daquela vez seria um rebate falso, pois ele nunca chegou a ser apanhado em flagrante a transportar ou na posse de drogas na sua velha casa. Desta vez, as autoridades subiram pelas margens do Lizandro até depararem com um pequeno campo de plantação com cerca de 120 pés de Cannabis, já com uma altura considerável. Passados cerca de setenta minutos foi localizado e levado o Leonardo para interrogatório, para espanto da maior parte da população e desespero da Madalena.
Que mais estaria para chegar de desagradável à desgraçada da rapariga, cujo único “delito” parecia ser o tanto gostar do Leonardo? Por que será que tanta gente ficava incomodada com este amor incondicional entre ambos? O que é que a D. Mercês sabia verdadeiramente sobre a mãe da Madalena? Terá o Ti Inácio palavra ativa para ajudar o Leonardo? É que com a tal “mancha”… ficou sempre a dúvida no ar quanto ao seu possível envolvimento nas descargas de droga…

Autor: Jorge Nuno (2013)

Obs.: Conto elaborado e partilhado por vários autores, com publicação em: jardimsorrisosdepoesia.blogspot.pt