06/04/2013

(Re)Escrever com a Sopa de Letras



Filó é o personagem central do romance "As Animadas Tertúlias de Um Homem Inquieto" (que teve lançamento em 4 de maio de 2013).
É um indivíduo muito reflexivo, com muito trabalho de autoanálise, mas com forte inquietude e, algumas vezes, com alguma quebra de controlo. Vai sobrevivendo cheio de rotinas, sem dar grande importância ao que os outros pensam sobre ele e muito menos com o tratamento por aquela alcunha, porque até acha isso um elogio. É como se lhe chamassem “o homem que ama o saber”. Trata-se de uma pessoa com várias situações de insucesso (...) mas que consegue fazer os outros sorrir, embora sem se conhecer o seu próprio sorriso. Não tendo emprego, vive num quarto alugado, de pequenos expedientes que realiza espaçadamente, de um reduzido apoio da Segurança Social e de um pequeno complemento especial de pensão anual (...) como reconhecimento da sua invalidez como ex-combatente ao serviço da Nação. Tantos anos depois ainda anda no “jogo do empurra” para obter ajuda especializada, relacionada com o necessário tratamento das perturbações que apresenta. É visto frequentemente, logo pela manhã, na esplanada da pequena Pastelaria Sonhos Doces, sempre com o habitual caderno e um livro debaixo do braço, como que a mostrar o seu lado intelectual (...). 

Aqui fica um "cheirinho" de um dos seus inúmeros trabalhos poéticos.


(RE)ESCREVER COM SOPA DE LETRAS

“Sopa de letras no prato…
Enquanto ela fumega
Agarro umas palhinhas
E sem querer ser ingrato
Retiro a beldroega,
Afasto aquelas massinhas…
E sou pior que gaiato!

Sugo caldo de seguida,
Retiro louro e alho,
O manjericão e ovo.
Paro depois a bebida
E como não me atrapalho
O bordo do prato covo
É sempre boa saída.

Com letras ergo uma ilha,
Faço quase o que quiser.
Junto “f”, “o” , “r”,  “c”…
Mas por falta de cedilha
A “forca” que obtiver
É “força” que não se vê
Entre a pouca aguadilha.

Se achar que a vida é dura…
E em delirium tremens
Fizer da sopa um poema,
Julgado poeta sem cura,
Tal o delírio dos homens,
Tropeço no vil dilema
Dos retalhos da loucura.

A vida é louca ou sadia…
Com os mesmos ingredientes
E conforme a nossa ideia,
Estando em grata harmonia,
É bom ver nas sopas quentes,
Muito para além da ceia,
Retalhos de poesia.”