19/06/2015

CRÓNICAS DO FIM DO MUNDO (12) - Que As Há... Há!

QUE AS HÁ… HÁ!

Que as há… há! A tal ponto que na Roménia evidenciaram estar suficientemente furiosas com o Presidente e com o Governo do país; é que estes ousaram criar e aprovar nova legislação que as afeta com um imposto de 16% sobre o rendimento – o mesmo que pagam quaisquer trabalhadores por conta própria –, a que se junta a contribuição para a Segurança Social. Fazendo fé na notícia do jornal “Correio da Manhã”, como as bruxas e cartomantes não gostaram da “brincadeira”, antes que se fizesse tarde… toca a lançar um mau-olhado! Uma delas, sexagenária, que esteve presa durante o regime comunista, na presidência de Nicolae Ceausescu, terá preparado (contra os atuais governantes) uma mezinha com um cão morto e excrementos de gato; enquanto que uma dúzia destas “profissionais” ter-se-á dirigido ao rio Danúbio para lançar um mau-olhado aos ditos governantes romenos, tendo garantido que “o “mal cairá sobre eles”.

Em Portugal, no final de maio do presente ano, a comunicação social referia uma nota da Polícia Judiciária, que dava conta de uma investigação a envolver duas mulheres e um homem, concluindo que este trio estaria sob forte suspeita da prática de “crimes de burla qualificada”, ficando-se com a ideia que estariam detidos preventivamente. Um dos seus crimes era a abordagem de pessoas, na zona de Lisboa, dizendo à vítima (ou referindo-se a familiares próximos) que “padecia de um mal grave” – decorrente de mau-olhado –, levando ao convencimento que os seus problemas seriam resolvidos através de “alegados tratamentos espirituais, que se disponibilizavam a realizar”, e que podiam ter a duração de meses ou anos. Como não é habitual os burlões fazerem trabalho “pro bono”… neste caso exigiam às vítimas avultadas quantias em dinheiro e ouro, dizendo-lhes que o ouro seria enterrado para contactarem os espíritos malignos, como forma de proporcionar a cura da “doença”, e que depois do tratamento o ouro seria devolvido. Só num dos casos terá “voado” dinheiro e ouro no valor de € 200.000, presumindo-se que esse ouro tenha sido vendido e derretido.

Já no anterior mês de março, um artigo do jornal “i” referia em título: “Mau-Olhado: A crença que não escolhe idades nem classes sociais”. Nesse artigo, depois da divulgação de alguns casos concretos em Portugal, menciona a revista científica “Journal of Economic Behavior & Organization”, que dá a entender que a crença no mau-olhado terá aparecido como “defesa nas comunidades com maiores desigualdades sociais, para as pessoas se escudarem da inveja de quem tinha menos”.

O senhor padre Fontes – pessoa por quem tenho uma profunda admiração, tendo colocado no “mapa” a pequena aldeia transmontana, Vilar de Perdizes, pertencente ao concelho de Montalegre – fomentou o Congresso de Medicina Popular, que vai este ano na sua 28.ª edição, e cujo evento é visto como um importante “acontecimento cultural”, mas onde, entre outros, é vendida a “erva da inveja, que combate os maus olhares e toda a espécie de inveja”. É conhecida a opinião do senhor padre Fontes relativamente a este assunto: para ele, o mau-olhado é uma mera superstição e atribui os “azares e os problemas” às próprias pessoas, através dos seus sentimentos de “ódio, raiva (…)”; esta opinião faz-me lembrar a frase atribuída a Neville Goddard: “Tenha cuidado com os seus humores e sentimentos, porque existe uma ligação ininterrupta entre os seus sentimentos e o seu mundo invisível”.

Não será preciso ser-se psicólogo ou sociólogo para realçar, nestes casos, a importância da crença e, pior ainda, da obsessão na vida de cada um. Se há alguém a acreditar que outrem lhe está a fazer mal, por exemplo, onde entre a inveja e o mau-olhado, esse sentir terá consequências… que poderá manifestar sintomas daquilo em que a pessoa acredita.

Na introdução do livro “O Poder da Mente” [ed. Círculo de Leitores, 2000], o comentário do Dr. J. B. Rhine, investigador de capacidades psíquicas na Duke University, Carolina do Norte, E.U.A., vai mais longe e refere: “assombra-me o facto de a imaginação conceber todas as implicações que se seguem, agora que se demonstrou que a mente, através de algum meio desconhecido e dela própria, tem a capacidade de efetuar diretamente as operações materiais no mundo à sua volta”. Objetiva com o exemplo de algumas pessoas que “conseguem hipnotizar, infligir maldições, mover objetos, (…), exercer o domínio coletivo de mentes, (…)”. No mesmo livro [p. 13] há um parágrafo com o título “Atividades Sinistras”, onde pode ler-se: “Talvez seja significativo que a sociedade ocidental considere sinistra (do latim para “esquerdo”) atividades como magia e misticismo, porque não parece existir qualquer lógica racional a apoiá-las. Contudo, outras atividades como meditação, ioga, cura pela fé, parapsicologia, adivinhação e realização de estados de consciência, alterados através do uso de drogas, desafiam a lógica do cérebro esquerdo e são praticadas por um número crescente de pessoas.  

Há quem não duvide que o mau-olhado é mesmo uma realidade, e que não será através dos olhos mas sim da carga energética gerada pela mente e pelas emoções; quem assim pensa, também considera necessário e possível “limpar esse campo energético” (subentendendo-se como negativo), enviado pelo pensamento de outrem. Mas os citados campos também podem ser positivos, em concordância com o pensamento. O Dr. John Pierrakos, do Instituto de Energética do NÚCLEO, em Nova Iorque, que faz o prefácio do livro “Mãos de Luz – Um Guia para a Cura através do Campo de Energia Humana”, de autoria de Barbara Ann Brennan, menciona haver uma “ligação da psicodinâmica ao campo da energia humana” e “descreve as variações do campo de energia na medida em que ele se relaciona com as funções da personalidade”. Hoje sabe-se, porque se pratica – com bastante sucesso –, não só a cura presencial como a cura à distância, sem recurso à medicina convencional e sem o consumo de fármacos.

Existem imensas investigações credíveis sobre esta matéria, de que destaco dois estudos. Um, foi efetuado pelo Dr. Barnard Grad, da Universidade de McGill, em Montreal, Canadá, que fez “investigação com sementes de cevada para testar o efeito de energias curativas psíquicas em plantas”. As sementes foram lançadas à terra e “regadas com uma solução salina, que retarda o crescimento; uma parte das sementes, lacradas num recipiente, foi regada com uma solução energizada” por um mestre de Reiki, e a outra parte não. Provou-se a existência dessa energia “extra”, já que o efeito da energia contida nesta solução, mesmo que aplicado o retardante, possibilitou “estas plantas cresceram mais rapidamente e mais saudáveis, com mais 25% de peso e um teor de clorofila mais alto, provando-se também que energias curativas podem ser armazenadas em água para uso futuro. Outro estudo, bastante divulgado, efetuado por uma universidade norte-americana, dá-nos conta da utilização de dois grupos distintos de voluntários: um deles, lançou “vibrações de ódio” junto de plantas; um outro, lançou vibrações de “amor e carinho”. As conclusões eram evidentes: “as primeiras murcharam e algumas até morreram, ao passo que as outras, as que receberam pensamentos e sentimentos de amor ficaram cada vez mais exuberantes”, provando haver “uma energia psíquica que pode ter efeitos benéficos ou maléficos, a depender dos sentimentos ou intenções do seu emissor”.

Na luta diária pela sobrevivência num país em crise, é natural que haja um acréscimo de angústia, por se “ver a vida a andar para trás” –, mas também de um aumento de crença, de inconformismo e de vontade de recorrer a profissionais, como quem quer agarrar-se a algo para inverter o ciclo negativo que o sufoca. Não é por acaso que os psiquiatras e psicólogos têm mais pacientes nestas ocasiões. Não é por acaso que acontece o mesmo com as videntes, cartomantes e outros profissionais, amadores e burlões deste ofício. Não é por acaso que todos os dias úteis, logo de manhã, no programa da SIC – “A Vida nas Cartas”, com Maria Helena Martins –, há uma apreciável audiência e muita afluência de chamadas de valor acrescentado, sendo que metade das “consultas” tem a ver com a inveja e o mau-olhado. Não é por acaso que, precisamente há mesma hora, também a TVI tem no ar o programa “Cartas da Alma”, com um formato semelhante.

A Maria Helena Martins também transmite a ideia que somos nós os principais causadores do que nos acontece de mal, particularmente pela forma negativa como encaramos a vida, mas vai deixando escapar que se a pessoa se sentir insegura e quiser agarrar-se a um amuleto, que pode ser um “santinho” na carteira, uma medalhinha ao pescoço, uma rosa de Jericó ou um olho da Turquia, por afastarem a negatividade e dar sorte, não vem nenhum mal ao mundo por isso. E se mesmo assim ainda sentir necessidade de fazer uma oração ou um ritual, há-os para todos os gostos, e exemplifica com uma para o mau-olhado (pelo sim, pelo não…) : “Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti mal olhou. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Virgem do Pranto, tirai este quebranto” – que é dito na altura em que pinga azeite num prato com água, utilizando o dedo polegar.

Desde pequenino que eu ouço dizer: “Não acredito em bruxas… mas que as há… há!”; e em castelhano até parece que tem outro sabor: “No lo creo en brujas … pero que las hay… las hay!

© Jorge Nuno (2015)