23/09/2013

Número de Circo



O poema, essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.



Mário Quintana [Mário de Miranda Quintana] (1906 — 1994)

Poeta brasileiro (considerado o poeta das coisas simples), tradutor (de mais de 130 obras da literatura universal), jornalista e autor infantil, tendo recebido vários importantes prémios literários como autor.





NÚMERO DE CIRCO



Máscara criada

Com neblina consciente,

Oculta aspetos obscuros

De vivências em estado hipnótico,

No deleite de mostrar

Ser mais do que se é,

E mais do que mero disfarce

Transforma o “eu” autêntico

Na visão mórbida do “eu” renegado.



Fica o mundo interior

Em incontrolável suspense

Pela ousadia de atravessar,

Como arrojado número de circo,

O infernal precipício

Das trevas ocultas

Sobre extenso arame,

Em permanente desequilíbrio,

Sem vara, sem arnês, sem rede,

Na angústia de saber

Quando vai a máscara cair.



© Jorge Nuno (2013)