16/05/2012

A Passagem (Parte II - A vivência do poeta)


A PASSAGEM (Parte II - A vivência do poeta)

Têm sido muitos os médicos, filósofos, cientistas,
Poetas, criminologistas e outros atores,
Com maior ou menor sensibilidade,
A abordar a questão da morte e seus temores.
Havia uma verdade oculta, que com acuidade,
Aos olhos do poeta se tornou clara.
Bastou a experiência gratificante de um mergulho...
A submersão forçada, tornando-o impotente,
Um náufrago aprisionado!
Quando era suposto haver, de forma estridente,
Um esbracejar, a luta pela sobrevivência,
Um turbilhão de emoções destrutivas, paralisantes,
Face à ameaça da morte, surgiu o inesperado:
Em ambiente de grande paz, saído do corpo,
Surgiram memórias visionadas e percetíveis,
O filme condensado de uma vida, revisitando o passado.
Sem sentimentos de culpa, acusações ou juízos de valor,
Sem pranto, angústia, medo ou dor
Sem sufoco e, espante-se, sem espanto…
Rendeu-se finalmente ao encanto,
A lembrar marinheiros naufragados
A seguir o canto da sereia, que os chama perdidamente.
Houve uma postura de contemplação e aceitação,
De seguir o instinto natural, sem hesitação.
Sem preocupações em reagir ou compreender a mente,
Este acontecimento encarnou a iluminação.
A uma velocidade alucinante,
Em túnel inimaginável, sem saber onde conduz,
Deu-se a aproximação a uma intensa e acolhedora luz.
Eis que parece ter sido disparado poder de cima!...
Foi como se Jesus dissesse ao paralítico:
Levanta-te, toma o teu catre e vai para casa.
Só que a casa, tanto podia ser na Terra ou noutro lado. 
E este poeta, com honestidade intelectual,
Talvez contrariado, mas sabendo que foi ajudado,
Regressou à sua vida normal, ao seu estado atual.
Testemunha ocular nesta inesperada viagem,
E de retorno neste percurso elítico,
O poeta descobriu que há uma passagem!
                                                                                          (Continua)

Bragança, 16 de maio de 2012
Jorge Nuno

“Uma vez que não consegui ir ter com a Morte,
Ela gentilmente parou para me apanhar.
Na carruagem só íamos nós
E a imortalidade.”
                                             Emily Dickinson