14/06/2012

Com tanto surrealismo, onde andam os poetas surrealistas?



COM TANTO SURREALISMO, ONDE ANDAM OS POETAS SURREALISTAS?

Tenho tido todo o tempo do mundo e julgava não ter tempo para nada!
Hoje arranjei tempo, como quem vai buscá-lo à mercearia, gasta e guarda um bocadinho!
Hoje arranjei tempo, finalmente, para ler poesia surrealista.
Alberto Pimenta brinca com a fome da sobremesa alheia e com os filhos da puta (pequenos e grandes) e destes, pequenos e grandes, está hoje Portugal a abarrotar!
Mário Cesariny de Vasconcelos sai-se bem em “De Profundis Amamus” e exorta em “Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (Fragmentos) ”, sobressai nos seus poemas “Tantos Pintores…” , “Homenagem a Cesário Verde” e “Vota por Salazar”, para na “Autobiografia” escrever “(…) o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado à morte!” (só por si, um ato surrealista, em tempo de ditadura).
Alexandre O’Neil diverte-se e diverte em “Poema Pouco Original do Medo” e “Pretexto para Fugir do Real” , Cruzeiro Seixas em “Andam Descalços os Peixes” e Herberto Hélder e as suas múltiplas “Musas Cegas”.
Jorge de Sena, em “Uma Sepultura em Londres” aborda, com mestria, os “escravos”.
António Ramos Rosa e o seu “Poema de um Funcionário Cansado”, que hoje alargaria, decerto, ao “Povo… Velho e Cansado” e aos poucos que têm a sorte de ter trabalho e andam esgotados, psicologicamente!
“Cântico Negro”, de José Régio, tantas vezes declamado, particularmente por outro Jorge Nuno – o Pinto da Costa, durante as tertúlias portistas!
E até o Miguel Torga se atreveu…em “Orfeu rebelde”.
Não é preciso ser génio para chocar, mas, mais do que nunca, é preciso chocar com o génio da liberdade do ato poético!
Numa altura em que nunca se viu tanto surrealismo, como: nas decisões dos tribunais (ou na falta delas); nas supostas decisões dos pseudopolíticos, numa subserviência a outros interesses; nas decisões dos meros gestores-coveiros; no desemprego como uma oportunidade para as pessoas melhorem o seu nível de vida; nas autoestradas desertas e no aumento da sinistralidade nas estradas secundárias; nos gastos da Seleção Nacional de Futebol em tempos de crise e até do meu gato Jacob (é assim que está registado e não lhe vou mudar o nome para Jacó!) que decide não comer das caríssimas latas Gourmet A La Carte!... Pois!... Com tanto surrealismo… não me espanta que tenham sido completamente “abafados” os poetas surrealistas!

Bragança, 14 de junho de 2012
Jorge Nuno