23/07/2012

O Fantástico Cadeirão-Massagem [Pequeno Conto]



Foto: Extraída de http://www.befara.pt/images/other_images/sillon-masaje-NG.jpg


O FANTÁSTICO CADEIRÃO-MASSAGEM

O senhor, bem apresentado, acabou de sair há poucas horas da casa da D. Marieta, naturalmente satisfeito com a venda daquilo que ele chamou, por umas trinta vezes durante a abordagem, como sendo o fantástico cadeirão-massagem!
Esta senhora, idosa, vivia apenas com a neta, dos seus magros recursos e de algum dinheiro que o seu genro dava para ajudar nas despesas. Mas esses magros recursos iam, em grande parte, para medicamentos, para cuidar de um apreciável rol de doenças.
Era conhecida no bairro, em surdina, pela Marieta Perneta, por ter perdido há cerca de quatro dezenas de anos uma meia perna num estúpido acidente doméstico – como estúpidos são todos os acidentes – neste caso, caiu de uma cadeira ao tentar limpar o candeeiro do teto da sala (e que ninguém se ria… pois pode acontecer a qualquer pessoa)!
Aos poucos, ainda aturdida, começou a sair da aparente letargia em que se encontrava e deu conta que o tal senhor lhe levou o dinheiro que tinha em casa – dado pela mão dela – e que tinha assinado um contrato para pagar o resto da dívida que faltava… em 48 prestações! – Ai valha-me Deus, o que eu fui fazer!... Isto é mesmo o demónio a tentar uma pessoa! Estava aqui tão bem na minha casinha! Ao menos o senhor ainda foi honesto, deixou cá o cadeirão! Mas será que isto trabalha mesmo? Mas eu experimentei com isto trabalhar!... Ai valha-me Deus!... Ia dizendo baixinho a D. Marieta.
Na verdade, a um canto da sala repousava a nova peça de mobiliário, o cadeirão-massagem, numa aparente imitação de pele castanha e, a sobressair, o comando eléctrico na cor creme, que parecia assustador aos olhos de quem acha estas modernices todas confusas. Espalhados, no chão da pequena sala de jantar, encontravam-se os papelões, esferovite e plásticos que tinham vindo a revestir o cadeirão.
Entre lamentos e ais de aflição e alguns momentos de expetativa sobre se seria capaz de por o cadeirão a funcionar, foi-se entretendo com as arrumações, com a natural dificuldade em se baixar apoiada na canadiana. No entanto, ia-se lembrando da experiência agradável no cadeirão. Como foi bom o cadeirão estar sempre e mexer e qualquer coisa a roçar-lhe nas costas! E ida dizendo alto: - Se calhar o senhor até explicou tudo muito bem, mas como é que eu podia aprender pra que servem estes botões todos desta geringonça?! Só tinha medo do cadeirão a atirar para fora, pois inclina-se todo para a frente, para facilitar a saída! Ficava num misto de reconforto e de incómodo, quando pensava na Mimi, a sua neta, estudante universitária quase a acabar o 2.º ano de Direito.
Sentou-se em frente do cadeirão, numa cadeira de madeira, que retirou debaixo da mesa da sala. E a primeira coisa que lhe veio à ideia, foi que deveria fazer um paninho de croché para não sujar o cadeirão quando encostar lá cabeça. Sim, porque estas coisas são caras e devem ser bem estimadas! Logo a seguir, mais outra ideia… e outra… 
Finalmente, decidiu sentar-se no cadeirão-massagem, que estava ligado à corrente eléctrica. Fê-lo a custo, colocou os velhos óculos de ver ao perto e espreitou para o comando. À terceira tentativa do premir de botões… saiu-lhe um disparate da boca, quando sentiu o solavanco de arranque do cadeirão. Já mexia! A cadência era lenta e, no pré-programa, apesar do susto inicial, começou a sentir uma sensação agradável nas costas e na barriga das pernas. O barulho do motor fazia-se ouvir… recostou-se melhor e ajeitou a cabeça, preparando-se para aproveitar ao máximo a parte fantástica daquela geringonça, como teimava em chamar-lhe. À medida que os minutos iam passando, mais pesado sentia o corpo, quando pensava que iria ficar mais leve! Sendo uma mulher naturalmente preocupada com a sobrevivência no dia-a-dia, vivia agora uma sensação estranha, como que uma ilusão materializada esperança, e o chorrilho de pensamentos que lhe invadiam a mente iam-se dissipando aos poucos, turvando-lhe o raciocínio ou limpando-lhe as preocupações da vida... para criar um apetecido vazio mental. Com o cadeirão na sua rotina de movimento das peças massajadoras, tudo agora decorria calmamente e até era fácil apostar que a D. Marieta estaria a viver uma qualquer experiência mística ou psíquica.
A dado momento, começa a consciencializar uma menor claridade, visível através das cortinas da janela semiaberta da sala. Muito rapidamente adensa-se uma nuvem escura, como uma ameaça de tempestade que se aproxima. Boooommm! Ela ouve um enorme estrondo da janela e vidros a partirem-se, tanto da janela, da cristaleira, das lâmpadas… e voarem diversas louças e bibelôs pela pressão anormal da deslocação de ar, que mais parecia um furação que tudo reduzia a cacos! Agarrada, em pânico, aos braços do cadeirão, para não ser arrastada, viu definir-se, em poucos segundos, a silhueta esfumada do seu falecido sogro, que a fixava com o olhar malévolo de quem está para arquitetar algo de muito grave!
Ela e o seu sogro sempre tiveram um ódio de estimação, desde os primeiros dias de casada, constando-se que ele ousou (ou tentou, não se sabe ao certo) abusar dela e depois lhe terá dito que era só para a “experimentar”!... Era uma vergonha divulgar estas coisas e, naquele tempo, muito pior! Não admira que quando lhe vinha à memória o sogro, tanto em vida como já falecido, era pelas piores razões, o que lhe causava sempre sofrimento. Em silêncio, nunca teve a força interior se libertar desta dor. Este era o seu fado.
Pois o sogro, estava agora ali mesmo diante dela, com aquele ar ameaçador e estranhamente com um serrote na mão!... E quando houve uma ligeira quebra do estardalhaço na sala, o sogro começa a dizer-lhe uma série de impropérios, tratando-a miseravelmente. No meio de insultos atrás de insultos… foi-lhe revelando certos pormenores, tais como: - Sua cabra, fui eu que te empurrei a cadeira! Fui eu que te esmaguei a perna! Fui eu que segurei o serrote, na sala de operações! Fui eu que te cortei a perna!... Aproximando-se dela, apontou-lhe o serrote e desferiu o golpe final: - E agora vou cortar-te a outra perna!...
Nesse momento a D. Marieta já estava deitada no chão de tábuas de madeira, com o único joelho próximo do queixo e o cadeirão inclinado ao máximo para a frente. Com ar cadavérico, tremia… tremia… mexia agitadamente os dedos nas contas do rosário, que costumava trazer sempre ao pescoço, por baixo da roupa. Os seus lábios trémulos balbuciavam entre qualquer coisa imperceptível e “Vai-te, Satanás!... Vai-te Satanás!”, “Levem-me isto daqui!”, “Tentação do demónio!”, “Levem-me isto daqui!”…
Levem-me isto daqui!” foi o que a Mimi ouviu logo que entrou à porta de casa! Apercebeu-se que o som vinha da sala, abriu a porta e viu a avó naquele estado angustiante de tremeliques, ar vidrado por qualquer choque, tombada no chão para um lado, a canadiana para o lado oposto e os velhos óculos, com uma haste solta, a pouco mais de um metro de distância. “Levem-me isto daqui!” Continuava…
A Mimi, assutada pelo inesperado, correu para junto da avó, tentou rapidamente avaliar a gravidade do estado de saúde da avó e fez uma série de perguntas rápidas, todas sem resposta:
- Vovó!... Estás bem? Dói-te alguma coisa? Tens alguma coisa partida? Então, o que é que te aconteceu? Tiveste tonturas? Os medicamentos… tomaste? Quem é que trouxe isto cá a casa? Foste tu que compraste? Porque é que não esperaste por mim? E agora, o que queres que eu faça? Queres que te leve para a cama? Queres que chame um médico ou uma ambulância? Queres um chazinho? Vá lá… sossega… não paras de dizer “Levem-me isto daqui!...”. Está descansada vovó, se não quiseres o cadeirão eu faço uma carta, devolve-se e resolve-se o assunto!... ia dizendo, enquanto espreitava para o comando, para ver como se punha o cadeirão direito e, quase que simultaneamente, esticava os dois braços para levantar ou arrastar a avó pelos sovacos, para a poder sentar no fantástico cadeirão-massagem.

Almada, 23 de julho de 2012
               Jorge Nuno

In "Ocultos Buracos", Histórias Horríveis ou Impossíveis, Coletâneas de Contos, Ed. Pastelaria Studios (2012). ISBN: 978-989-8629-03-6